Eunice Ostrensky, professora brasileira de filosofia política e tradutora de livros de Hobbes e Stuart Mill, apresenta assim, no final seu artigo "Thomas Hobbes. Como controlar os impulsos dos homens", publicado na revista brasileira "Mente, Cérebro & Filosofia", nº 2, a oposição entre Thomas Hobbes (1588-1679), o filósofo inglês, e Francisco Suárez (1548-1617), o jesuíta espanhol que foi professor em Coimbra e expoente da chamada Segunda Escolástica:"No 'Leviatã' , a demonstração filosófica é acompanhada de persuasão retórica, que tem na ironia e em outros argumentos satíricos um dos seus instrumentos mais fortes: a capacidade de suscitar o riso. Ao lançar à superfície o ridículo de doutrinadores e doutrinados, o filósofo consegue, talvez, desarticular as doutrinas clericais sediciosas.Assim, por exemplo, em vez de simplesmente sustentar que o jesuíta Francisco Suárez sustentou inverdades, Hobbes prefere perguntar, depois de citar a tradução do título do sexto capítulo do primeiro livro de Suárez ('A primeira causa não insufla necessariamente alguma coisa na segunda, por força da subordinação essencial das causas segundas, pela qual pode ser levada a atuar'):'Quando alguém escreve volumes inteiros cheios de de tais coisas, ele está louco ou pretende enlouquecer os outros?' ('Leviatã', VII, pag. 73) "
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HOBBES E SUÁREZ
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October 5 2008, 4:36pm | Comments »
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A origem da realidade
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/origem-da-realidade.html
A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:Eis uma cadeia de raciocínio familiar, e que de facto foi formulada por diferentes filósofos, nomeadamente Leibniz: para explicar seja o que for temos de recorrer a outras coisas. Um ovo existe porque a galinha o pôs, a galinha existe porque veio de outro ovo, e assim por diante. Como explicar de maneira completa, então, a existência da realidade? Só temos duas alternativas igualmente desagradáveis: ou a realidade é infinita, ou é afinal o nada que está na origem de tudo.Entra então em cena um deus ou um grupo de deuses e afirmamos que o universo é criação sua. Assim resolvemos o dilema e afastamos as duas alternativas desagradáveis.Só que isto é incoerente. Senão vejamos. Esse tal deus fez a primeira coisa como e a partir do quê? Bom, não podia ter feito a primeira coisa a partir de coisa alguma, pois nada havia antes de ele ter criado as primeiras coisas. E não podia ter criado o universo do modo como comummente entendemos o que é criar algo, que é sempre fazer uma coisa a partir de outra. De modo que dizer que um deus criou o universo é voltar a dizer que o fez a partir de coisa nenhuma.Podemos argumentar que tal acto de criação é sobrenatural e que o próprio deus é sobrenatural, pelo que é de uma natureza (perdão?) totalmente diversa do universo.Mas esta manobra não funciona. Pois o que queríamos realmente saber é de onde vem a realidade, e por realidade queremos dizer tudo o que há, tenha ou não localização espácio-temporal, seja ou não eterno, seja ou não sobrenatural ou antenatural ou pré-natural. A pergunta pela origem da natureza é demasiado modesta e não era isso que se estava a perguntar.Como explicar então a realidade, toda ela, seja ela qual for? Podemos explicar a parte natural da realidade recorrendo a um deus ou a uma assembleia deles reunidos em alegre cavaqueira sobrenatural, mas teremos agora de explicar a parte sobrenatural da realidade: os próprios deuses. Como fazer tal coisa?Ou dizemos que essa parte da realidade surgiu a partir do nada ou que não surgiu porque é eterna. Mas é incoerente exigir explicações no caso de uma parte da realidade, insistindo que a resposta da eternidade ou da origem no nada é inaceitável, ao mesmo tempo que se aceita para a sobrenatureza o mesmo tipo de explicação com base no nada ou na eternidade que antes se recusou para a natureza. Se podemos dizer que a sobrenatureza é uma parte da realidade que é eterna, podemos com certeza também dizer que a própria realidade natural é eterna. Dizê-lo tem até a vantagem de não ter de explicar como pode um deus que está fora do tempo e do espaço ter estados mentais como intenções e planos, que são ocorrências temporais e espaciais.Quando se pensa outra vez, compreendemos que algumas respostas religiosas a questões filosóficas últimas são puro vento. E por isso ter esperança na verdade destas periclitantes respostas não pode ser peculiarmente reconfortante — a menos que paremos cuidadosamente de pensar no ponto certo.
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September 23 2008, 9:50am | Comments »
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Doença e saúde
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O que é estar doente e o que é ser saudável?
September 22 2008, 1:00pm | Comments »
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Filosofia e história da Ciência em Portugal no século XX
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/filosofia-e-histria-da-cincia-em.html
Recensão do livro “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX” por António José F. Leonardo:A obra “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX”, de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes, é, de facto, “uma análise serena e rigorosa” que fornece ao leitor “as ferramentas necessárias a um percurso crítico e esclarecido, através das posições assumidas pelos pensadores e cientistas portugueses do século XX, em face dos grandes debates europeus.” É com estas palavras que Pedro Calafate, do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, caracteriza a obra no seu prefácio.Da autoria de uma equipa que inclui uma historiadora, um filósofo e um físico, esta reunião de competências, metodologias e saberes confere à visão, que é partilhada com o leitor, um carácter abrangente das principais ideias, polémicas e discussões que sustentaram a evolução da ciência e da epistemologia no nosso país no século passado.Trata-se de uma segunda edição, revista e modificada, de “A Filosofia da Ciência em Portugal no século XX”, que integrou a colecção “História do Pensamento Filosófico Português” (Vol. 5, tomo 2), publicada em 2006 precisamente sob a direcção de Pedro Calafate.Os primeiros cinco capítulos, da autoria de Augusto J. S. Fitas, doutor em Física com agregação em História da Física na Universidade de Évora, descrevem o impacto nacional que foram tendo as diversas correntes da Filosofia da Ciência, desenvolvidas no contexto europeu. Assim, Augusto Fitas inicia o primeiro capítulo por um bosquejo do panorama científico internacional, na transição do século XIX para o século XX, que assistiu ao surgimento de novas correntes epistemológicas, herdeiras do “positivismo oitocentista”, cujos principais mentores foram Ernst Mach, Henri Poincaré e Pierre Duhem. No panorama nacional do primeiro quartel do século XX, tratado no segundo capítulo, são evidenciadas as reflexões epistemológicas de Leonardo Coimbra, que demonstrou “uma interpenetração muito forte do seu discurso filosófico por reflexões sobre o significado e o valor do conhecimento científico.” É também referenciada a acção deste matemático como colaborador da revista "Águia", “primeira revista cultural com larga difusão nacional a preocupar-se em dar a conhecer os temas da ciência moderna e de índole científico-filosófica.” As influências do positivismo lógico em Portugal são retratadas no terceiro capítulo, com destaque para a figura de Abel Salazar, o grande divulgador do empirismo lógico e cujo grande entusiasmo originou polémicas com outros pensadores, com os quais esgrimiu argumentos nas páginas de revistas da época como o "Sol Nascente", a "Seara Nova" e "O Diabo". Neste capítulo são também mencionadas as contribuições na literatura científico- filosófica dos cientistas Bento de Jesus Caraça, Rui Luís Gomes e Mário Silva, bem assim como dos filósofos Delfim Santos e Vitorino de Magalhães Godinho. Segundo Augusto Fitas, é no início da década de 40 que surgem no nosso país as ideias do materialismo dialéctico, veiculadas por Vasco de Magalhães Vilhena. A revista "Vértice", fundada em Coimbra em 1942, foi um espaço privilegiado para dar a conhecer o novo “pensar filosófico (…) influenciado pela revolução operada na física moderna.” O autor traz também à colação, neste 4º capítulo, as ideias da nova corrente de pensamento que sobressaem dos textos publicados na "Vértice", em particular os de Egídio Namorado, crítico do neopositivismo da Escola de Viena, e de Rodrigues Martins, defensor “da importância da história e filosofia da ciência no acto de fazer e pensar a própria ciência.” O 5º capítulo é dedicado a uma personalidade que “atravessa todos os períodos”: trata-se de António Sérgio cuja actividade se estendeu da “história e cultura à religião, passando pela política, filosofia e ciência”.Os dois capítulos seguintes são da autoria de Marcial Rodrigues, professor de Filosofia na Escola Secundária André de Gouveia, em Évora, e investigador do Centro de Estudos da História e da Filosofia da Ciência, em Évora. No primeiro (Cap. 6) é analisada a filosofia da ciência no pensamento de inspiração católica, até meados da década de 70, com incidência em artigos publicados na "Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes" e na "Revista Portuguesa de Filosofia". Neles é abordada a teoria da relatividade, conotada com o neopositivismo, entre outros temas no âmbito da física moderna e biologia, e as suas repercussões epistemológicas. Marcial Rodrigues inicia o sétimo capítulo com uma resenha das novas concepções ao nível da filosofia da ciência, em particular as concepções de Bachelard, Popper e Kuhn, e os seus reflexos na filosofia da ciência em Portugal no último quartel do século XX. Estas são alvo de análise, sendo destacado o papel desempenhado por Fernando Gil e pelo Grupo de Investigação de Filosofia e Epistemologia.O último capítulo é dedicado à história da ciência em Portugal, como área de investigação científica. Maria de Fátima Nunes, professora de história agregada da Universidade de Évora e investigadora do referido Centro, dá a conhecer ao leitor a actividade do grupo português de história das ciências, denominado "Petrus Nonius", cujo director mantinha contactos próximos com Aldo Mieli, director da revista "Archeion – Archivio di Storia della Scienzia", de Roma. Maria de Fátima Nunes descreve os vários congressos internacionais de história da ciência realizados no nosso país, em especial o III Congresso Internacional de História das Ciências, em 1934. As últimas páginas deste capítulo, que conclui o livro, são dedicadas aos três nomes que mais se destacaram na história da ciência em Portugal no século XX: Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho.Este livro é uma obra de inegável relevância no panorama cultural e científico português. O seu valor não se esgota no âmbito da história da ciência ou da filosofia, sendo capaz de despertar a curiosidade de todos os que se interessam pela ciência e/ou pela história de Portugal. Poderá apenas faltar uma conclusão, de autoria conjunta, que integrasse as principais ideias numa síntese final, com as perspectivas do cientista, do filósofo e do historiador. Espera-se que esta obra venha a suscitar outros estudos naquela que é uma “das áreas menos conhecidas da cultura portuguesa do século XX”, segundo as palavras de Pedro Calafate.- Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes, “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX”, de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes. Caleidoscópio, 2008.António José Leonardo
September 22 2008, 11:29am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Passagens de nível
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/passagens-de-nvel.html
O Ludwig desmascara muito bem aqui a fantasia dos "níveis": haveria conhecimento ao nível científico, ao nível religioso, etc. Isto é como a falácia das "racionalidades": há a racionalidade ocidental, a oriental, a das sextas-feiras, etc. Tudo isto é só desonestidade intelectual. É a tentativa de deixar um espaço aberto à arbitrariedade de se pensar o que queremos, sem nos darmos ao incómodo de tentar saber honestamente se é verdade ou não.Só discordo de um pequeno pormenor no post do Ludi. É que a filosofia não se ocupa apenas de fazer perguntas, mas também de teorizar hipoteticamente, quando a teorização científica ou matemática não é possível. Daí a piada filosófica: Um filho diz ao pai: "Hoje vou sair com a miúda mais bonita da turma, mas eu fico sempre sem assunto! Como é que faço para não parecer um parvalhão?""Fácil", diz o pai. "Há sempre três assuntos que não falham: a família, a comida e a filosofia." O miúdo vai todo satisfeito e depois do cinema surge um daqueles momentos de embaraçoso silêncio. Então ele lembra-se do conselho do pai e pergunta à miúda com um sorriso bonito: "Tens irmãos?" "Não". Raios, pensa ele. Lá se vai a primeira hipótese. Qual era o segundo assunto? Ah!"Gostas de pizza?""Não". Chiça, isto está a correr mal, pensa o miúdo. Bom, só resta falar de filosofia:"Se tivesses irmãos, achas que eles gostariam de pizza?"
September 21 2008, 4:58pm | Comments »


