Crónica publicada no "O Despertar"A maior parte do Universo cósmico que conhecemos, ou melhor, que mal conhecemos, não é visível! 85% da matéria que se calcula existir no Universo não se comporta como o Sol, por exemplo, irradiando radiações electromagnéticas. Essa matéria tem composição desconhecida. Pressupõe-se, hipoteticamente, que seja constituída por partículas fundamentais que, por ora, são virtuais, sendo principais candidatos as WIMP (partículas massivas que interagem fracamente) e as MACHO (objecto com halo compacto e grande massa) e, eventualmente, o Bosão de Higgs. Refira-se que a matéria negra do Universo também não reflecte qualquer tipo de radiação electromagnética: nem na zona do espectro visível, nem ondas de rádio, nem microondas. Nada. Só sabemos que existe pela sua acção gravitacional sobre a restante matéria, estrelas e outros astros e aglomerados deles, em que nos incluímos.Experiências recentemente efectuadas no Grande Acelerador de Hadrões do CERN, o maior acelerador de partículas do mundo, e comentadas pelo Físico Teórico Gianfranco Bertone (ver aqui o seu livro sobre as partículas da matéria negra) no último número da prestigiada revista Nature (aqui), indicam que estamos na antecâmara da descoberta sobre a constituição desta matéria negra. Na esquina de uma próxima colisão de partículas, poderá estar o nascimento de uma renovada compreensão do Universo, ruptura e emergência de novos paradigmas, comprovação e eliminação das inúmeras hipóteses e teorias que hoje gravitam no humano pensamento.Vivemos hoje, nesta era das tecnologias da informação, esta sensação de estarmos sentados na plateia do mundo, expectantes, a observar, quase em directo, o resultado de experiências que podem mudar o entendimento da matéria e da energia que somos feitos. Vivemos, nesta era feita de ciência e tecnologia, um momento único de argúcia cósmica e sub-atómica, numa amálgama de rigor, de espanto e de emoção. É também esta a nossa humanidade.António Piedade
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85% de matéria...
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November 23 2010, 6:44am | Comments »
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CIÊNCIA NO BENFICA TV
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Hoje, entre as 11 h e as 12 h, no canal de cabo Benfica TV, o físico Armando Vieira, autor de um artigo publicado na "Physics Teacher" sobre a física do pontapé, fala sobre ciência e futebol.
November 23 2010, 3:20am | Comments »
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MATÉRIA NEGRA
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Habitual destaque semanal para a coluna "What's New" do físico Robert Park:"WIMPS: THE UNIVERSE WE CAN’T SEE.When they were building the Large Hadron Collider it seemed to be all about finding the Higgs boson. But there seems to be increasing interest in using the LHC to to learn something about the 85% of the universe we can't see. We know it's there because it has gravity, but that's about all it has. The betting is that it's a particle, and the leading candidate is the WIMP (weakly interacting massive particle). Gianfranco Bertone in yesterday's issue of Nature predicts that if there is such a ghostl particle it will be exposed by LHC in the next few years."Robert Park
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November 21 2010, 7:20pm | Comments »
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“A Photographia atravez dos corpos opacos”
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António Piedade escreveu este apontamento para o "Ciência Hoje":Os últimos 150 anos foram marcados por importantes descobertas científicas que mudaram paradigmas e o dia-a-dia da sociedade em que vivemos. Contrastando com essa mudança, pode afirmar-se que, de um modo geral, a imprensa portuguesa sempre tratou com indiferença, expresso em particular na falta de rigor, o avanço da ciência produzida quer aquém, quer além fronteiras, assim como os cientistas que o protagonizaram.Exemplo disso é o silêncio jornalístico ao redor da visita de Albert Einstein a Lisboa, a 11 de Março de 1915: nem uma única linha foi escrita pela imprensa portuguesa, e só sabemos dela através de notas do seu diário.À procura de eventuais e raríssimas excepções, encontra-se uma e logo muito interessante, que está documentada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (aqui) e que é contextualizada no livro “Breve História da Ciência em Portugal”, de Carlos Fiolhais e Décio Martins, publicado este ano pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pela Gradiva.Na primeira página do jornal O Século de 1 de Março de 1896, foi publicado um artigo extenso sob o título “A Photographia atravez dos corpos opacos” (reproduzida num artigo de Décio Martins na página do Instituto Camões l). Nele, noticiavam-se os resultados da aplicação médica de raios X, obtidos pela primeira vez em Portugal e na Universidade de Coimbra, em Fevereiro de 1896, pelo físico Henrique Teixeira Bastos.Esta notícia e o seu conteúdo são espantosos pelo facto de os raios X só terem sido descobertos por Roentgen, três meses antes, a 8 de Novembro de 1895, em Wuerzburg, na Baviera, Alemanha. Isto significa não só que Teixeira Bastos e os seus pares portugueses estavam em contacto atento e na vanguarda do conhecimento da estrutura da matéria e das radiações electromagnéticas, mas também que existiam, no então Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, as condições necessárias para a reprodução e validação experimental das últimas descobertas científicas. Sabe-se que esta actualidade científica deve muito aos contactos e viagens internacionais mantidas pelo físico António dos Santos Viegas, também professor em Coimbra (durante mais de 50 anos).A notícia n' O Século implica ainda existir nessa época uma profícua colaboração interdisciplinar entre a Faculdade de Filosofia (que então albergava ciências como a Física) e a Faculdade de Medicina. De facto, essa relação de partilha de conhecimento resultou numa rápida aplicação médica das descobertas sobre a estrutura atómica que foi materializada com a criação em 1901, curiosamente o ano em que Roentgen recebe o primeiro prémio Nobel da Física (aqui), do Gabinete de Radioscopia e Radiografia no Hospital da Universidade de Coimbra.Alguns dos instrumentos utilizados nas experiências então noticiadas podem ser vistos na exposição permanente do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra bem assim como no recentemente reaberto Gabinete de Física do século XVIII (aqui), pertencente ao mesmo Museu.Legenda da fotografia: “Mão direita de um rapaz que sofre de tuberculose óssea”.António Piedade
October 14 2010, 11:24am | Comments »
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UM NOBEL PARA O GRAFENO
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Minha crónica de hoje no jornal "Sol" (na imagem Geim e Novoselov):Andre Geim, o físico holandês nascido na Rússia e a trabalhar no Reino Unido, na Universidade de Manchester, que foi distinguido na passada terça-feira com o Prémio Nobel da Física, é um físico divertido. Ele tinha sido galardoado no ano 2000 com o Prémio IgNobel da Física, uma divertida paródia que homenageia alguns dos trabalhos científicos mais insólitos. O trabalho que lhe valeu o IgNobel foi nada mais nada menos do que a levitação de um pequeno sapo com a ajuda de um campo magnético…Mas o prémio que agora ganhou, além de bem mais avultado, é bastante mais sério. Promete também ter um impacto maior na sociedade. Geim, em conjunto com Konstantin Novoselov, também ele nascido na Rússia e que com ele partilhou os louros do Nobel, conseguiu isolar uma só folha de grafite, a forma normal de carbono, a forma que se encontra nos lápis comuns.É raro a Academia de Estocolmo conceder o seu prémio tão rapidamente: passaram só seis anos sobre a descoberta anunciada num artigo da revista Science. E é também raro concedê-lo a investigadores não só em plena actividade como também em pico de forma: Geim tem 51 anos e Novoselov apenas 36 (desde 1973 que não havia um Nobel da Física tão novo). Mas a proeza conseguida pelos dois físicos experimentais é reconhecida pelos seus pares como digna dos maiores encómios: de uma maneira engenhosa, servindo-se de vulgar fita-cola, e ao fim de várias tentativas, separaram uma só folha das muitas folhas paralelas que constituem a grafite (a grafite é assim uma espécie de “mil folhas”). Produziram assim um material extremamente fino – a espessura é muito menor do que a de um cabelo pois tem o tamanho de um só átomo de carbono – mas eventualmente extenso. Essa folha foi chamada grafeno.Que interesse tem esse material a duas dimensões? Por um lado, o estudo teórico da passagem da corrente eléctrica no grafeno revelou propriedades surpreendentes. Por outro lado, as pesquisas no laboratório perseguem o sonho do uso do novo material para construir novas componentes electrónicas, por exemplo transístores para computadores. Não é ainda para hoje, mas pode ser para amanhã. Entre os físicos que têm estudado o grafeno encontram-se nomes portugueses, Nuno Peres, João Lopes dos Santos e Eduardo Castro, da Universidades do Minho o primeiro e da Universidade do Porto os dois segundos, cujos trabalhos em conjunto com os laureados Nobel deste ano são referidos na informação científica da Academia sueca que acompanha o comunicado do prémio. Um desses artigos com marca nacional e que justamente tem sido muito citado nas revistas internacionais da especialidade é o estudo de duas folhas próximas de grafeno. Na semana do Prémio Nobel da Física, também esses físicos lusos estão de parabéns!
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October 7 2010, 6:48pm | Comments »
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O prémio IgNobel
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Quando estava em Nijmegen, na Holanda, Andre Geim (que é cidadão holandês), um dos Nobel da Física deste ano, efectuou, com a ajuda de poderosos magnetes, trabalhos de levitação vegetal e animal (tomates e sapos). Em cima um filme sobre esse fenómeno. Um artigo, em conjunto com Michael Berry (outro continuado candidato a Nobel, que tem trabalhado no que alguns chamam a "capa da visibilidade", valeu-lhe o Prémio IgNobel, um prémio dado anualmente à ciência mais divertida, que ele foi receber em 2000 à Universidade de Harvard.
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October 5 2010, 5:21pm | Comments »
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Ainda o grafeno
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Para os mais curiosos, um artigo de revisão sobre grafenos da autoria do Nuno Peres foi publicado recentemente no "Europhysics News", o boletim da Sociedade Europeia de Física (em cujo comité editorial estive durante alguns anos, actualmente está a Teresa Peña): aqui (clicar no pdf à direita, pois o artigo está em livre acesso). Lá estão nas referências os trabalhos seminais dos Nobel deste ano e alguns artigos deNuno Peres com eles, incluindo um recente artigo de revisão, já com muitas citações, na Review of Modern Physics.Com alguma premonição escrevi numa crónica na Gazeta de Física republicada neste blogue: "Ou muito me engano ou o grafeno, isto é, as folhas isoladas da grafite, ainda poderá dar um Prémio Nobel." Desculpem a imodéstia: Não me enganei nada!Para confirmar a capacidade de antecipação do De Rerum Natura, vejam aqui o que escrevemos em 10 de Outubro de 2008 a propósito de uma palestra de Nuno Peres sobre o assunto:"Geim e Novoselov, que realizaram trabalhos recentes sobre o grafeno, isto é, uma folha monocamada de grafite, eram fortes candidatos ao último Nobel da Física, segundo o ISI Thomson; não foi desta, mas poderá ser para a próxima".Não foi em 2009, foi em 2010.
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October 5 2010, 4:30pm | Comments »
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Físicos portugueses têm trabalhado com os Nobel da Física deste ano
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Com a devida vénia transcrevo, com correcção de pequenas gralhas, notícia do "Jornal de Notícias", que se serve de declarações que fiz hoje à Agência Lusa sobre o trabalho de físicos portugueses sobre o grafeno, que em parte resultou de colaboração com os laureados Nobel. Hoje, o Nuno Peres (à esquerda), o João Lopes dos Santos (à direita) e o Eduardo Castro (que ganhou neste ano o Prémio Bragança Gil da Sociedade Portuguesa de Física para a melhor tese de doutoramento em Física) estão também de parabéns!"Três físicos portugueses João Lopes dos Santos, Nuno Peres e Eduardo Castro publicaram trabalhos científicos com os investigadores de origem russa André Geim e Konstantin Novoselov, galardoados hoje, terça-feira, com o prémio Nobel da Física.Os trabalhos feitos em conjunto pelos três físicos portugueses e por André Geim e Konstantin Novoselov estão referidos num comunicado da academia sueca sobre o prémio.Os dois galardoados foram responsáveis pela descoberta do grafeno, a forma bidimensional do carbono, com a espessura de apenas um átomo, no Centro de Nanotecnologia da Universidade de Manchester, no final de 2004.O físico da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais congratulou-se com a entrega do prémio aos dois investigadores, algo que considerou "não ser muito normal no Nobel" dado que a descoberta é muito recente e salientou os trabalhos que ambos fizeram com investigadores portugueses."É fantástico para o nosso país haver portugueses a fazerem trabalhos com físicos reconhecidos e isso ser referenciado no comunicado da Academia", disse à agência Lusa.Em 2007 foi publicado um artigo na revista Physical Review Letters elaborado por Novoselov, Geim e pelos três físicos portugueses.No ano seguinte a revista Science publicou outro artigo da autoria de Greim e Novoselov e que contou com a participação de Nuno Peres, da Universidade do Minho.Carlos Fiolhais explicou à Lusa de que se trata esta descoberta agora premiada a partir do elemento de carbono, um elemento muito comum que existe sobre várias formas como a grafite (lápis) ou o diamante."Os dois investigadores isolaram uma única folha de grafite (grafeno), que tem apenas a grossura de um átomo de carbono" explicou.O investigador adiantou que a descoberta foi feita "por tentativa e erro" e que foi conseguida quando utilizaram "fita-cola"."Colaram fita-cola na grafite, fizeram-no várias vezes e conseguiram diminuir a espessura da parte que arrancaram", acrescentou. Quanto à aplicação prática desta descoberta, Carlos Fiolhais referiu as possíveis aplicações na electrónica, para fazer transístores."Ainda é cedo, mas há a promessa de se poder fazer transístores mais pequenos, electrónica mais leve, a utilizar nos computadores porque o grafeno é um material bom condutor, extremamente leve e fino", explicou.Há a hipótese, segundo Carlos Fiolhais, de o carbono poder suceder ao silício nos transístores."
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October 5 2010, 1:01pm | Comments »
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Sobre o Prémio Nobel da Física de 2010
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/sobre-o-premio-nobel-da-fisica-de-2010.html
Parte das declarações que fiz à Antena 1:Mundo - Descoberta do grafeno vale Nobel da Física para André Geim e Konstantin Novoselov - RTP Noticias, Áudio
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October 5 2010, 12:57pm | Comments »
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O MAGNETISMO DA TERRA
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Texto que entrou no meu livro "Física Divertida":Gabriel Garcia Marquez conta em "Cem anos de solidão" a chegada dos ciganos terra de Macondo. Entre os vários truques de mágica que os ciganos mostram, encontram-se o gelo e o íman. Hoje sabe-se que o fenómeno da congelação da água e da passagem de um metal a magnete são exemplos de transições de fase, da passagem de um estado desordenado a um estado ordenado da matéria. Enquanto tal facto não foi conhecido, esses materiais fizeram os espantos tanto das feiras da Idade Média europeia como da fantástica América. Escreve Marquez:"Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o íman. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa arrastando dois ligotes metálicos e todo a gente se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam desencravar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades". Os gelos e os ímanes são tão antigos como o planeta Terra. Os gelos cobrem, desde há muito, as regiões polares da Terra, enquanto os ímanes se encontram em minerais como os que foram pela primeira vez recolhidos na Ásia Menor - a magnetite.A palavra íman significa "pedra que ama". Em francês, íman diz-se mesmo "aimant", o que traduzido dá "amante". Trata-se, sem dúvida, de um nome adequado: um íman atrai pequenos pedaços de metal. A Terra é ela própria um gigantesco íman, uma descomunal "pedra que ama". O nosso planeta tem um pólo norte magnético e um pólo sul magnético, que se situam respectivamente perto dos pólos sul e norte geográficos, na Antárctida e na Gronelândia. Não é gralha: o pólo sul magnético da Terra encontra-se perto do pólo norte e dos esquimós e o pólo norte magnético acha-se perto do pólo sul e dos pinguins. Um pequeno íman tem também dois pólos que se chamam norte e sul, numa nomenclatura análoga dos pólos da Terra. Deve-se, contudo, notar que a Terra nem sempre teve o seu pólo norte magnético perto do sul e o pólo sul magnético perto do norte. O pólo sul magnético já esteve várias vezes no sul, estando então a nomenclatura geográfica e magnética de acordo. Este um dos grandes mistérios da história da Terra: porque é que o norte e o sul magnéticos, de vez em quando (o "de vez em quando" aqui refere-se a tempos de milhões de anos), trocam de posição entre si? Essas mudanças, parece que irregulares, da polaridade do campo magnético da Terra foram verificadas no registo geológico, no fundo dos oceanos e noutros locais da crusta terrestre. Só serão, enfim, compreendidas quando se souber, em pormenor, a origem do magnetismo terrestre.Se se colocar uma pequena agulha magnética a flutuar num líquido, tem-se uma bússola. A bússola foi inventada pelos chineses no século XII e usada mais tarde pelos navegadores europeus, incluindo os portugueses. Esses navegadores usaram uma agulha magnética para se orientarem na superfície do gigantesco íman que é a Terra toda. Como o pólo norte da agulha aponta obedientemente para o pólo norte da Terra (para a direcção da estrela polar), pode saber-se para onde vai o barco, mesmo no meio do nevoeiro ou da tempestade. O que teria sido, porém, se os pólos norte e sul da Terra se tivessem subitamente trocado enquanto as descobertas se faziam? Os navegantes ter-se-iam decerto perdido e as descobertas teriam ficado por fazer!Uma bússola ainda hoje um objecto de mistério e encantamento: pode-se brincar com ela das mais variadas maneiras. Com uma segunda bússola, pode-se, por exemplo, pôr a primeira doida e fazer com que não aponte para onde deve. Em condições normais, o pólo norte da agulha aponta para o pólo sul magnético da Terra porque pólos do mesmo nome se atraem e pólos de nome contrário se repelem. Se um pólo de uma outra agulha se sobrepuser ao efeito do pólo terrestre, a primeira fica portanto desnorteada: não sabe para que norte se há-de virar. Há outras coisas interessantes que se podem fazer com uma agulha magnética. Se uma criança, em momento de mau humor, quebrar o vidro da bússola e partir a agulha, criam-se imediatamente, dir-se-ia que por milagre, dois novos pólos norte e sul na zona partida. Faz-se o milagre da multiplicação dos pólos. Em vez de uma, fica-se então com duas bússolas, embora mais pequenas. A parte reproduz o todo e faz as vezes do todo. Einstein confessou um dia que um dos factos que mais o marcaram, ainda ele era criança, e que contribuíram para a escolha da sua carreira foi a brincadeira com uma bússola. A bússola indicou o rumo da sua vida.Existe pois um fenómeno chamado magnetismo que tão antigo como a Terra e cuja utilidade é tão antiga quanto o engenho dos homens. Repare-se que desde cedo se ficou a saber que a Terra atrai as pedras, assim como desde cedo se ficou a saber que a Terra faz girar um magnete. O campo gravítico e o campo magnético do planeta que habitamos são suficientemente fortes para que tenha sido possível, relativamente cedo, a descoberta de importantes leis da física como a da gravidade e do magnetismo. Se vivêssemos noutro planeta, talvez a ordem da descoberta das leis da física tivesse sido outra. Mas vivemos neste.Logo no primeiro ano do século XVII, um sábio inglês da corte da rainha Isabel, William Gilbert, reuniu num livro, intitulado "De Magnete", tudo o que se sabia na altura sobre a acção dos magnetes. Foi Gilbert quem considerou um pequeno magnete esférico, a que chamou "terrela" e disse que esse modelo era a cópia do grande magnete que era a Terra. Gilbert cita várias vezes na sua obra pessoas e lugares portugueses, o que mostra que os portugueses tiveram um lugar decisivo para o estudo do magnetismo terrestre. Sobre a causa da agulha magnética apontar para o norte refere o "colégio de Coimbra". Cita Garcia da Orta, segundo o qual a pedra magnética faz bem saúde ("tomado em pequenas quantidades preserva a juventude"). Critica Pedro Nunes, a quem acusa de "ter pouco conhecimento ou experiência de coisas magnéticas" (Pedro Nunes inventou, no século XVI, um "instrumento de sombra", destinado a corrigir as leituras da bússola, mas ultimamente os historiadores de ciência têm referido a pouca ligação de Nunes com a prática da navegação). Fala de um navegador português "Roderigues de Lazos", a propósito da declinação, diferença entre a direcção do norte geográfico e norte magnético. Descreve a "bússola portuguesa" e discute as observações no Oceano Índico (Vasco da Gama deu o nome de Cabo das Agulhas a um sítio onde as agulhas magnéticas ficavam desnorteadas). Gilbert esquece-se, porém, de fazer justiça às cuidadosas "Observações Magnéticas" do português João de Castro, realizadas e publicadas a meio do século XVI.Mas qual é a origem do campo magnético terrestre? Será que existe um gigantesco íman dentro da Terra?A resposta moderna mas ela só foi permitida depois de se terem unido o magnetismo e a electricidade. Durante algum tempo o magnetismo e a electricidade, cujo nome vem da palavra grega "electron" (âmbar, uma resina de uma árvore fóssil que atraía pequenos objectos depois de esfregada), ignoraram-se mutuamente, apesar de tanto o magnete como o âmbar virem descritos no livro de Gilbert. Foi só no início do século XIX que o dinamarquês Hans-Christian Oersted descobriu uma relação entre a electricidade e o magnetismo. Foi o começo do electromagnetismo.Oersted reparou que uma agulha magnética ficava "doida", isto é, desorientada, quando colocada perto de um circuito eléctrico, à semelhança do que acontecia quando estava perto de uma outra agulha. A corrente eléctrica produzia um efeito semelhante ao de um íman. Essa relação foi de início estabelecida apenas num sentido: a corrente eléctrica num fio produz um efeito sobre uma bússola, procurando a agulha magnética orientar-se perpendicularmente ao fio. Se o fio onde passava a corrente eléctrica estava orientado segundo a direcção norte-sul, a bússola em vez de apontar para norte, como devia, apontava, por exemplo, para ocidente. Ficava desnorteada.No espaço volta do fio eléctrico, havia assim uma zona de influência, onde as agulhas magnéticas se mexiam. Essa zona é hoje conhecida por campo magnético. Em linguagem moderna, diz-se que o movimento dos electrões provoca um campo magnético. Esse campo magnético pode ser visualizado deitando limalha de ferro nas proximidades. A limalha obedece às ordens do campo, como que guiada por uma mão invisível.O francês André-Marie Ampère estudou a forma desse campo. Concluiu que um circuito em forma de circunferência cria um campo que parecido com aquele que criado por um magnete em forma de disco. Assim, uma bobina, que um conjunto de espiras circulares, cria um campo que é semelhante ao de um cilindro magnético. A Terra tem um campo magnético à volta, que se estende até longe em redor do planeta. Se um circuito eléctrico equivalente a um íman, talvez também se possa encontrar a! a origem do magnetismo terrestre. No século XVIII houve físicos que subiram em balão, com uma bússola, para descobrir que o campo magnético existia lá no alto. No século XX, quando se subiu mais acima, com os primeiros satélites artificiais, descobriu-se a forma completa do campo magnético terrestre, nomeadamente as chamadas cinturas de van Allen, que são, entre outras coisas, responsáveis pelas espectaculares auroras boreais das frias paisagens do Pólo Norte.Talvez então, no interior da Terra, em vez de um grande pedaço de magnetite, exista uma circulação de cargas eléctricas que tenha o mesmo efeito que um íman...De facto, hoje sabe-se que o magnetismo terrestre provém de correntes circulares numa camada líquida condutora, no interior da Terra. O interior da Lua é todo sólido, pelo que não há campo magnético lunar. Por seu lado, o interior de Júpiter é líquido, pelo que existe aí um forte campo magnético, com o pólo norte para cima, ao contrário da Terra (as sondas Voyager I e II permitiram fazer medidas desse campo; a sonda Galileo lançada em 1989 e chegada a Júpiter em 1995 vai completar os registos magnéticos de que já dispomos sobre Júpiter). Mas ainda não se sabe a causa das alterações dessa corrente que provocam as inesperadas, caóticas, inversões de polaridade.O magnetismo conserva ainda alguns mistérios. O íman que é a Terra causa ainda aos terrestres (incluindo os físicos da terra, os geofísicos) tanta admiração como os ímanes do cigano Melquíades aos habitantes da aldeia de Macondo.
September 12 2010, 6:45pm | Comments »







