Em 2000, Ano Internacional da Matemática, escrevi este texto sobre as relações da Física com a Matemática. Talvez volte a ser actual neste Ano Internacional da Astronomia, em que se comemoram as primeiras observações astronómicas de Galileu (na imagem), se nos lembrarmos que foi Galileu quem firmou a aliança ainda hoje firme entre as duas ciências.Há entre a Física e a Matemática uma relação de grande proximidade, pode-se mesmo dizer de grande intimidade. A Física — o conhecimento do mundo material — não se pode fazer sem a Matemática. A linguagem da Física é, sem qualquer dúvida, a Matemática. Segundo Galileu Galilei, “a Natureza está escrita em caracteres matemáticos” e, segundo Francis Bacon, o seu contemporâneo que teorizou o método científico, “à medida que a Física avança cada vez mais e desenvolve novos axiomas, ela exige uma ajuda pronta da Matemática”. Não há nada que possa iludir ou contrariar a relação íntima entre Física e Matemática: sem Matemática não há Física. Quem não souber Matemática não poderá apreciar verdadeiramente a Física, nem os seus princípios nem as suas conclusões. A maneira mais sucinta, clara e elegante de exprimir as leis físicas — os enunciados que descrevem o comportamento do mundo material — é a Matemática. Mas, além disso, a Matemática é também, por outro lado, a maneira de tirar, sem erros, as consequências dessas leis. Conforme afirmou há cerca de cem anos o alemão Wilhelm Roentgen, o primeiro prémio Nobel da Física: “O físico precisa de três coisas para o seu trabalho: matemática, matemática e matemática”. Muitos dos físicos mais importantes ao longo da história foram também matemáticos. Alguns, mais raros, criaram a Matemática de que precisavam para a sua descrição do mundo. Por exemplo, o grande lsaac Newton inventou o cálculo diferencial para descrever o movimento dos corpos, fossem estes maçãs ou luas. Como disse Albert Einstein, uma autoridade sobre a mecânica de Newton a ponto de a ter alterado (sem necessidade de matemática nova), “a equação diferencial entrou como criada de servir e ficou até se tornar a amante”. Não uma amante, mas a amante … De facto há, mais do que uma promiscuidade ocasional, uma autêntica e permanente concubinagem entre Matemática e Física. Trata-se de comunhão não só de cama como de mesa e roupa. Se há físicos que foram matemáticos, há também muitos matemáticos que gostam de ser físicos. Segundo o matemático alemão David Hilbert, contemporâneo de Einstein, “a Física é demasiado difícil para ser deixada apenas aos físicos …”O físico Eugene Wigner explicitou a conexão profunda, entre matemática e o mundo real, declarando em 1960:“A linguagem da matemática revela-se desrazoavelmente eficaz nas ciências naturais. É um presente misterioso que nem compreendemos nem merecemos. Devemos estar agradecidos por ele e esperamos que continue a ser válido na investigação futura e que até mesmo se estenda, para o melhor e para o pior, para nosso prazer e apesar talvez da nossa admiração, a ramos mais vastos do conhecimento”. Wigner não foi original. Já Einstein tinha escrito antes dele: “Há um enigma que desde sempre tem perturbado as mentes. Como pode a Matemática, ao fim e ao cabo um produto do pensamento humano independente da experiência, ser tão admiravelmente apropriada aos objectos da realidade?” Há numerosos exemplos dessa apropriação: o cálculo diferencial e a mecânica newtoniana, a teoria da relatividade geral e a geometria diferencial, a análise funcional e a mecânica quântica, a teoria dos grupos e as partículas elementares. Porquê? Penso que ninguém tem uma resposta definitiva para este enigma.Se a Física não dispensa a Matemática, já é controverso que a Matemática possa dispensar a Física. Pode a Matemática existir sem a Física? Para o matemático inglês deste século G. H. Hardy, que escreveu uma famosa Apologia da Matemática, não só pode como existe. Para muitos matemáticos, o seu trabalho, monótono, contínuo e ilimitado, pode ser feito interiormente, sem olhar à volta para ver o mundo. Haverá um certo prazer solitário nesse trabalho isolado. Mas será difícil negar que a Física acrescenta à Matemática um certo picante, um tempero, uma excitação adicional. Ganha-se alguma coisa se se olhar para fora e encontrar alguma correspondência com aquilo que se vê cá dentro. Pode até ganhar-se juízo! A seguinte frase é demolidora de algumas concepções da Matemática. Para o físico norte-americano Joshua Willard Gibbs, também contemporâneo de Einstein: “Um matemático pode dizer o que quiser, mas um físico tem de ter alguma sanidade mental”.Decerto que a Física e a Matemática usam metodologias diferentes. Na Física, a intuição vence a dedução de um modo claro. O conhecimento do mundo processa-se por adivinhação baseada no conhecimento anterior. O exercício criativo da imaginação é domesticado por esse conhecimento.Richard Feynman, em O Que É uma Lei Física (Gradiva, 1989), faz a apologia da intuição dos físicos contrastando-a com a dedução dos matemáticos: “Quando sabemos do que estamos a falar, quando sabemos que alguns símbolos representam forças, outros massas, etc., podemos utilizar o senso comum, o sentido intuitivo do mundo. Vimos algumas coisas e sabemos mais ou menos como é que algum fenómeno se vai passar. Todavia, o pobre matemático traduz tudo em equações e, como os símbolos não têm para ele qualquer significado, não dispõe de nenhuma orientação, a não ser o rigor matemático e o cuidado na argumentação. O físico, que sabe mais ou menos qual vai ser a resposta, pode adivinhar uma parte e, assim, progredir mais rapidamente. O rigor matemático não é muito útil em Física”. A Matemática avança mais por dedução, uma vez fixos certos princípios abstractos. Em contraste com Feynman, G. H. Hardy, um matemático puro (“um verdadeiro matemático”, segundo o físico e romancista C. P. Snow no prefácio de A Mathematical’s Apology), dispensa o “sentido intuitivo do mundo”.Mas Hardy revela-se de uma pureza radical: “É bastante comum, por exemplo, que um astrónomo ou um físico pretenda que descobriu uma prova matemática de que o universo físico se tem de comportar de uma determinada maneira. Essas pretensões, se levadas à letra, são um completo disparate, não pode ser possível provar matematicamente que haverá um eclipse amanhã, uma vez que eclipses e outros fenómenos físicos não formam parte do mundo abstracto das Matemática”. Hardy não só diz que a ocorrência de eclipses não se prova matematicamente como que nunca se poderá provar. Por outro lado, para um físico que prevê eclipses, estes sempre ocorreram quando as equações os previram. Por que razão haveriam estas de falhar amanhã? Os físicos prevêem os eclipses baseados na Matemática, na qual confiam ilimitadamente. Mas têm uma confiança igualmente ilimitada no seu “sentido intuitivo do mundo” e sabem que o mundo é irremediavelmente matemático.A posição de Hardy é incompreendida pela maioria dos físicos. Nomeadamente, eles sabem que Hardy se enganou quando, a certa altura do seu livro, escreveu que a relatividade e a mecânica quântica — as duas traves-mestra da Física deste século — não têm qualquer utilidade: os sistemas de posicionamento geográfico (GPS) usam correcções relativistas e os lasers e os transístores, hoje correntes por todo o lado, são produtos da relatividade e da mecânica quântica.De facto, os matemáticos também usam a intuição como os físicos (tal como estes, por seu lado, usam a dedução). A grande diferença entre os dois estilos de trabalho é o primado que os físicos dão à experiência, enquanto os matemáticos preferem dar o primado à lógica. Estão os dois no seu direito!Há uma cultura própria da Matemática e uma cultura própria da Física. A cultura passa sempre pela sua expressão por uma linguagem. Por exemplo, um matemático tem uma linguagem muito própria, inconfundível. Às vezes entender a linguagem é entender tudo. Um matemático a quem peçam para contar a história da carochinha não dirá que o lobo comeu a avó, mas sim que a avó ficou um subconjunto do lobo … Se soubermos teoria dos conjuntos percebemos logo a história. Um físico experimental, por seu lado, vai autopsiar o lobo para perceber a história.As duas culturas — a dos físicos e a dos matemáticos — não são as duas culturas desavindas de Snow mas são, ao fim e ao cabo, subculturas de uma das culturas de Snow, a cultura científica. São culturas próximas, aparentadas (e de modo nenhum inimigas da outra cultura de Snow, a literária). Mas, por serem parte de uma cultura comum, há espaço para uma maior interculturalidade, para um maior encontro de culturas, pois é nesses interfaces culturais, nesses choques de culturas, que se encontram hoje as fontes mais prolixas de criatividade.É no convívio fecundo das duas culturas — a dos físicos e a dos matemáticos — que as ciências básicas têm sido cultivadas desde que existem e é nesse convívio que elas, com benefícios mútuos, devem ser continuadas e alargadas.
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A Física e a Matemática
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August 6 2009, 11:49am | Comments »
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MEDALHAS OLÍMPICAS NA CIÊNCIA
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Minha crónica no "Sol" de hoje (na imagem Pedro Vieira, que ganhou uma medalha de prata em Matemática):Que todas as gerações contêm extraordinários talentos e que esses talentos conseguem passar incólumes à acção nefasta de sucessivos Ministérios da Educação é mostrado pelo recente conjunto de medalhas ganhas por jovens portugueses nas Olimpíadas Internacionais de Matemática e de Física.Pedro Vieira, aluno do Externato Ribadouro no Porto, obteve a medalha de prata na prova de Matemática. Jorge Miranda (Escola Secundária Anselmo de Andrade, Almada), João Pereira (Escola Secundária Domingos Sequeira, Leiria) e Ricardo Moreira (Colégio Paulo VI, Gondomar) conquistaram medalhas de bronze, tendo Jorge Miranda ficado apenas a um ponto da medalha de prata. A equipa olímpica portuguesa conseguiu o seu melhor resultado de sempre, com o seu 33º lugar na classificação geral na competição realizada em Bremen, na Alemanha (a Finlândia ficou em 67º).Por sua vez, três estudantes portugueses obtiveram três medalhas de bronze nas Olimpíadas Internacionais de Física, realizadas em Mérida, no México: Henrique Cabral e Francisca Costa (os dois do Colégio Luso-Francês, Porto) e Sagar Pratapsi (Escola Secundária Carlos Amarante, Braga). Também nesta disciplina a equipa olímpica obteve a sua melhor prestação de sempre.Estes resultados não têm a ver com políticas ministeriais, que no ensino da Matemática e da Física têm sido débeis, descontínuas e inconsequentes, mas sim com o esforço porfiado de escolas de excelência sedeadas em Coimbra (a escola “Delfos” de Matemática e a escola “Quark” de Física). Para que continuem, é preciso continuar a juntar os nossos melhores jovens talentos – que os temos – e prepará-los devidamente – pois sem treino adequado não é possível ter êxito em provas extremamente duras.Mas, para além do êxito nacional, importa registar nestas duas Olimpíadas o facto de o segundo lugar na prova de Matemática ter sido alcançado por uma alemã (logo depois de um chinês e de um japonês) e de a prova de Física ter sido ganho por uma chinesa. As raparigas estão, finalmente, a aparecer nestas duas ciências.
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July 30 2009, 5:09pm | Comments »
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UMA FUTURA MADAME CURIE?
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Do sítio do Consejo Superior de Ciencias do México transcrevemos esta mini-entrevista e perfil com a vencedora das últimas Olimpíadas da Física, a chinesa Handuo Shi. Pela primeira vez na história da competição, esta foi ganha por uma rapariga (na imagem ao lado do Nobel da Física norte-americano Joseph Taylor):"La ganadora absoluta de esta Olimpiada Internacional de Física fue la joven china Handuo Shi, quien recibió un premio especial por ser la mujer con mejor desempeño y la estudiante que logró el mejor puntaje en el examen experimental. Obtuvo también reconocimiento como ganadora absoluta, con el puntaje más alto de la competencia.Handuo Shi subió al escenario tres veces a recibir medalla, trofeo, y diploma, y al final, una emotiva ovación de pie, con el reconocimiento de todos los jóvenes competidores. Apenas sonreía, aunque la emoción era evidente.Handuo Shi fue entonces buscada por Joseph H. Taylor, Premio Nobel de Física 1993 e invitado especial del evento. Con un abrazo, la felicitó y deseó el mejor de los futuros en su incipiente carrera científica.- ¿Es una futura Nobel de física?Taylor la volteó a ver, con una amplia sonrisa.- Ojalá. Yo hubiera querido tener toda esa brillantez y claridad. El Nobel puede ser, pero seguramente será una extraordinaria científica. Estoy impresionado y feliz. Felicidades...Handuo Shi entonces abrió la sonrisa, agradeció a Taylor su gesto, y le pidió, con compañerismo y sencillez, que se tomara la foto con el resto del equipo chino, que había obtenido el primer lugar general. Taylor accedió, y los jóvenes estudiantes chinos, sus profesores y acompañantes, posaron con el Premio Nobel.Handuo Shi proviene, según ella describe, de una familia “sencilla".:- Nadie se dedica a la ciencia en mi casa. Yo terminaré mis estudios en la Universidad de Beijing, donde ya tengo una beca. Luego, no lo sé.- ¿Siempre te ha gustado la física?- No, Me gusta más la biología. La física es hermosa, y es parte de estudiar a la naturaleza. Me emociona más la biología. Por lo pronto, entraré a estudiar ciencias en Beijing, y en tres años tomaré la decisión.- ¿Has sido siempre alumna destacada?- Me gusta mucho leer, y aprender. Es mi diversión favorita. Pero no estudio para ganar premios y calificaciones. Me divierte mucho aprender. Eso me hace feliz.- ¿Te gustaría hacer un posgrado en Europa, en Estados Unidos?- Beijing es mejor, por ahora. Ahí hay todo lo que necesito para decidir a qué me voy a dedicar. Mientras sea divertido, lo haré.Esta jovencita es, a decir de los organizadores, una verdadera fuera de serie. Ganó con relativa facilidad el exámen experimental, pero lo que más los impresionó fue el puntaje global."
July 24 2009, 5:36pm | Comments »
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Galileu na Lua
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A experiência de queda dos graves realizada na Lua por um astronauta da Apollo 15.
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July 23 2009, 12:06pm | Comments »
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Portugueses regressam do México com a melhor classificação de sempre
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Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Física:A equipa portuguesa arrecadou três Medalhas de Bronze nas Olimpíadas Internacionais de FísicaA competição, destinada a alunos finalistas do ensino secundário, reuniu em Mérida, México, 316 estudantes de 72 países para realizar duas longas provas de Física (uma prova teórica e uma prova experimental). A vencedora absoluta desta olimpíada é Handuo Shi, estudante da China com a classificação de 48,20 (numa escala de 0 a 50). Saliente-se que foi a primeira vez, nas 40 edições desta olimpíada, que o vencedor absoluto foi uma rapariga.Os team-leaders que acompanharam a delegação ao Iucatão, Fernando Nogueira e Rui Vilão, fazem um balanço positivo da prestação portuguesa: “Apesar das provas terem sido das mais difíceis dos últimos anos, os alunos portugueses regressaram com a melhor classificação de sempre da equipa lusa - 3 medalhas de bronze - o que reflecte o seu trabalho árduo de preparação ao longo do ano. Os prémios obtidos são um merecido reconhecimento do seu esforço.”.Aqueles docentes reconhecem que “a prova foi extremamente longa e bastante centrada na Física Moderna, um tópico sempre mais difícil para estes alunos”.A lista dos estudantes portugueses é a seguinte:- Henrique Manuel Pereira Cabral (Colégio Luso-Francês, Porto) - Medalha de bronze- Sagar Dipak Silva Pratapsi (E.S. Carlos Amarante, Braga) - Medalha de bronze- Francisca Santos Pinho Costa (Colégio Luso-Francês, Porto) - Medalha de bronze- Pedro Miguel de Castro Borlido (Ancorensis, Vila Praia de Âncora )- André Miguel Lopes Miranda E.S. Carlos Amarante, Braga)A XL Olimpíada Internacional de Física - IPhO’09, decorreu em Mérida, México de 11 a 19 de Julho de 2009. As Olimpíadas de Física são uma actividade promovida pela Sociedade Portuguesa de Física com o patrocínio dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior através da Agência Ciência Viva e do Ministério da Educação. O treino da equipa decorreu no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, integrado nas actividades da escola Quark! de Física para jovens.
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July 23 2009, 7:53am | Comments »
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A DECIFRAÇÃO DA REALIDADE 1
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Texto publicado no meu livro "Universo, Computadores e Tudo o Resto" (Gradiva, 1994) que entretanto se encontra quase esgotado no editor. Devido à sua extensão divido-o em duas partes, o primeiro sobre Newton e o segundo sobre o newtoniano Kant e o anti-newtoniano Goethe:Existem muitas realidades: a realidade para um físico é diferente, por exemplo, da realidade para um filósofo ou da realidade para um poeta. Os físicos chamam realidade a tudo o que, de uma maneira ou de outra, conseguem observar com os seus instrumentos. Os filósofos e os poetas chamam realidade a outros mundos e estão, bem entendido, no seu pleno direito.Consideremos a realidade física. A realidade, vista pelos físicos, revela-se extremamente rica e variada. O "milagre" que possibilita a Física consiste no facto notável de serem possíveis descrições simples do mundo natural, que tem uma aparência complexa. É esse "milagre" - o facto de uma compreensão do real ser de todo possível - que permite a empresa científica e todos os seus resultados culturais, sociais e económicos. Para o físico norte-americano de origem alemã Albert Einstein, "o que há de mais incompreensível na natureza é o facto de ela poder ser compreendida".A verificação de que enunciados sucintos permitem abarcar uma multidão imensa de fenómenos, aparentemente díspares, constitui, mesmo para os próprios físicos, um motivo de permanente surpresa e encantamento.Foi o inglês Sir Isaac Newton o primeiro a experimentar o deslumbramento de uma compreensão unificada do mundo físico. Até ao século XVII, a Lua, os planetas e as estrelas moviam-se ao longo das circunferências de Ptolomeu segundo uma ordem que era estranha ao que se passava no centro de todo o sistema. Havia uma Física do Céu e uma Física da Terra, o que significa, afinal, que não havia Física nenhuma. A história da maçã e da Lua é uma bela parábola sobre a conciliação entre a Terra e o Céu que se dá na mente, subitamente desperta, de Newton.Com Newton iniciou-se pois a Física, que mais não é do que o trabalho dos físicos para harmonizar as várias porções do mundo natural que teimam em parecer desconexas. A decifração da realidade física consiste em descobrir os grandes princípios ou leis que tornam inteligíveis os fenómenos avulsos. Compreender os fenómenos físicos consiste em estabelecer paralelos, analogias, regularidades.A primeira grande lei da Física - a lei da gravitação universal - constitui um quadro geral da descrição do movimento de maçãs e luas, de Júpiter e dos seus satélites, do Sol e das outras estrelas, da nossa e das demais galáxias, dos enxames de galáxias e de tudo o resto do "grande jardim zoológico" dos céus. Sabia-se, desde as experiências do italiano Galileu Galilei, como as maçãs e outros graves caíam. Sabia-se, desde as observações do astrónomo dinamarquês Tycho Brahe analisadas pelo seu discípulo alemão Johannes Kepler, como as luas e outros astros se moviam. Passou-se a saber, com a aceitação da lei da gravidade, que as luas também caem e que o fazem da mesma maneira que as maçãs. Pode dizer-se que caem muito pouco: a nossa Lua, por cada quilómetro que anda, cai de um mísero milímetro em relação à trajectória que descreveria se não existisse a força de atracção da Terra. E, todavia, cai. Tanto maçãs como luas são atraídas pela Terra na razão inversa do quadrado da distância.A história original da Física, como em geral todas as grandes histórias originais, contém um ensinamento profundo: ensina que a experiência, a prática manual, e a teoria, a especulação mental, se impregnam e fecundam. A teoria da gravitação foi proposta para encaixar dados experimentais sobre a queda da Lua e da maçã. Em Física, uma teoria é espúria se não for avaliada pela natureza. Por isso, nem toda a especulação é lícita a um físico sensato. Mas, felizmente, há mais gente, que tenta decifrar outras realidades par além daquela estritamente mensurável.A lei da gravitação, que tão bem descreve a macroeconomia do cosmo, tem servido de inspiração na busca de outras leis físicas. Procuraram-se, por exemplo, as leis da electricidade e magnetismo à imagem e semelhança da lei da gravitação de Newton. Verificou-se que a força eléctrica entre duas cargas é, tal como a força de gravitação, inversamente proporcional ao quadrado da distância. Essa razão, se mais não houvesse, bastaria para tentar unificar os dois tipos de força. É tarefa ainda não concluída, mas os físicos, esses eternos optimistas, esperam um dia concluí-la. Têm boas razões para o seu optimismo, porque a natureza costuma ser magnânima a deixar juntar o que está, aparentemente, separado. Costuma ser mais optimista do que eles.Foi a confiança em Newton e na sua lei da gravitação e algum engenho na observação das luas de Júpiter que permitiu determinar a velocidade da luz, pelo dinamarquês Olof Roemer logo no século XVII.É a confiança ainda em Newton e na sua lei universal que nos permite hoje saber, com antecedência, como e quando a nave "Voyager 2" vai passar perto de Neptuno e da sua lua Tritão. Tornámo-nos crianças travessas que, não contentes em deixar cair maçãs ao chão, lançam maçãs ao espaço e perturbam, ainda que tenuamente, o equilíbrio milenário entre Neptuno e a sua lua maior.É ainda a confiança em Newton e na sua lei que nos permite afirmar que existe um halo de matéria escura no universo, isto é, uma parte invisível do mundo que atrai tudo o resto. O conhecimento quantitativo dessa matéria escura será essencial para averiguar o nosso destino cósmico. Newton triunfou, portanto. Com ele triunfou uma certa estratégia de decifração da realidade que se baseia na formulação de hipóteses teóricas, na sua confirmação ou infirmação pela experiência, e na redução dos fenómenos a fórmulas matemáticas concisas. É o chamado método científico.Newton teve uma corte de seguidores e adversários. Dos seguidores estão repletos os compêndios de ciência. Os adversários, que são raros na comunidade dos físicos, consideraram as concepções de Newton autoritárias, castradoras mesmo. O mundo seria tratado na mecânica clássica como uma instituição militar, sendo as respectivas leis um regulamento de disciplina. Não haveria espaço para a imaginação e o livre arbítrio. Há que reconhecer que houve manifestamente abusos de poder feitos pelo e em nome do grande cientista inglês. A ciência nunca é estranha à personalidade dos seus autores e Newton era um personagem forte, arrogante e intimidatório, que moldou com o seu estilo a ciência transmitida às gerações seguintes.
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July 12 2009, 7:25pm | Comments »
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A FÍSICA DOS MERCADOS FINANCEIROS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/fisica-dos-mercados-financeiros.html
Interessante artigo com este título, da autoria de Marta Daniela Santos e publicado originalmente pela Gazeta de Física, foi publicado no sítio "Think Finance": aqui.
June 5 2009, 4:14am | Comments »
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Jorge Buescu fala sobre o "Espaço- Tempo" no Porto
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/jorge-buescu-fala-sobre-o-espaco-tempo.html
A Universidade do Porto organizou no ano passado uma conferência comemorativa dos cem anos da proposta do espaço-tempo por Minkowski. Em cima, via TVU, pode assistir-se à palestra de Jorge Buescu, apresentado por José Carlos Santos.
June 2 2009, 10:07am | Comments »
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TODA A FÍSICA NUM PÁSSARO DE VIDRO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/toda-fisica-num-passaro-de-vidro.html
O "Correio da Manhã" para a sua revista de domingo pediu-me que divulgasse um objecto ao qual estivesse particularmente aficionado. Transcrevo o artigo de Hélder Almeida, com o título acima, que ontem veio a lume e que tem o título de cima (o vídeo é de um Pássaro Sedento do You Tube):"Para o físico é a prova de como a sua disciplina pode ser divertida. Feito de vidro, afinal este pássaro é só mecânica e termodinâmica.É pequeno, feito de vidro, com um líquido no interior difícl de pronunciar (diclorometano) e a única coisa que faz é mergulhar constantemente o bico em água., movimentando-se para a frente e para trás. Mas a simplicidade do que faz esconde uma grande complexidade que, como não podia deixar de ser, chamou a atenção de Carlos Fiolhais. Porém, isto é apenas "termodinâmica e mecânica, física clássica, não há aqui física moderna nenhuma!"Oferecido por um amigo espanhol há seis anos, os ingleses e americanos chamam a este objecto "drinking bird". Mas o professor catedrático da Universidade de Coimbra chama-lhe, em português, "pássaro sedento", até porque gosta de pensar nele como "uma metáfora para a sede saber provocada pela pela curiosidade em descobrir como o mundo funciona".Foi precisamente a curiosidade em saber como funcionava o "pássaro sedento" e a vontade de surpreender que levou Fiolhais, juntamente com o irmão e o seu amigo espanhol, a escrever um artigo científico num reputado jornal científico da especialidade. "Na física estamos sempre a descobrir. E este é um pássaro que nos faz pensar, está sempre a bicar na nossa cabeça"!Pousado em cima de um móvel da sala, este frágil pássaro de vidro, que já chegou a andar para a frente e para trás durante dois dias, desperta a atenção de quem visita a casa do físico. "Quem vê isto fica admirado porque o pássaro está ali a andar só por molhar o bico". O segredo está na diferença de pressão dentro do pássaro. Com a evaporação da água do bico, a cabeça arrefece e a pressão muda, o que faz o líquido interior subir inclinando o pássaro novamente para água. "É a prova de como a Física pode ser divertida!"A estrela dos Simpsons que não é boa para dar luzO "pássaro sedento", como Fiolhais lhe chama, foi criado pelo inventor americano Miles V. Sullivan, em 1945, e é mundialmente famoso. Chegou mesmo a entrar em três episódios de "Os Simpsons". Muitos inventores tentaram já aplicar a sua fórmula de funcionamento à criação de um motor, De facto, "isto é a coisa mais próxima do motor a água". Mas, como o rendimento é muito baixo, "não daria sequer para pôr uma lâmpada a funcionar", assegura o físico."Hélder Almeida
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May 31 2009, 7:33pm | Comments »
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NOVA GAZETA DE FÍSICA
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Mensagem recebida da Directora da Gazeta de Física, revista da Sociedade Portuguesa de Física:Vimos convidá-lo a visitar o sítio da Gazeta de Física, que acabou de ser renovado.Nele pode encontrar publicado, por exemplo, e em antecipação à versão impressa, o último número da Gazeta de Física em formato .pdf, bem como um arquivo em construção, com os números anteriores no mesmo formato electrónico.No sítio da Gazeta de Física encontra também artigos para lá dos publicados em papel, bem como extensões de artigos publicados. Poderá ainda, a partir do sítio da Gazeta de Física aceder ao Blogue da Gazeta de Física na página do semanário Expresso (Blogues> Blogues Educação e Ciência > Física).Teresa Peña, Directora da "Gazeta de Física"
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May 28 2009, 7:14pm | Comments »





