No começo do século xx, o naturalista americano William Beebe deparou com um estranho espectáculo na selva de Guiana: um exército de formigas movia-se num imenso círculo. O círculo tinha 40 metros de circunferência e cada formiga demorava duas horas e meia a completar a volta. As formigas continuaram a dar voltas e voltas durante dois dias até a maioria delas morrer de cansaço. Beebe acabava de ver o que os biólogos designam de "moinho circular". Este fenómeno produz-se quando as formigas se separam acidentalmente da sua colónia. Quando lhe perdem o rasto, obedecem a uma única regra: seguem a formiga que vai à frente. O resultado é a deambulação circular que apenas termina quando algumas formigas quebram a cadeia e levam as outras atrás.Como demonstrou Steven Johnson no seu instrutivo livro Emergence ["Sistemas emergentes"], uma colónia de formigas funciona, por regra, notavelmente bem. Nenhuma formiga dirige a colónia. Nenhuma emite ordens. Cada formiga por si sabe pouco, mas a colónia em conjunto sabe procurar comida, construir o formigueiro e reproduzir-se. Contudo, os simples mecanismos que determinam o sucesso das formigas são também os responsáveis pela infelicidade das que ficam apanhadas no círculo. Cada movimento de uma formiga depende do que façam as suas companheiras e nenhuma delas pode actuar independentemente para ajudar a romper essa marcha da morte.Até agora, neste livro, parti do princípio que os seres humanos não são formigas. Por outras palavras, considerei que os seres humanos podem tomar decisões independentes. A independência não significa isolamento, mas uma relativa liberdade da influência dos outros. Se somos independentes, somos em certa medida donos das nossas opiniões. Não nos pomos a caminhar em círculo até cairmos mortos só para seguir alguém que vai à nossa frente. Isto é importante porque um grupo de pessoas - contrariamente a uma colónia de formigas - tem muito mais hipóteses de alcançar uma boa decisão se as pessoas do grupo forem independentes umas das outras. A independência é sempre uma palavra relativa, mas a história de Francis Galton e do peso do boi ilustra bem este ponto. Cada visitante da feira calculou o peso por sua conta e risco (embora pudesse dar conselhos aos demais), confiando no que os economis¬tas chamam a "informação privada". (A informação privada nem sempre se compõe de dados concretos; também pode incluir inter¬pretações, análises ou mesmo intuições.) E, a juntar a todos estes cálculos independentes, a aposta combinada revelou-se, como vimos, quase perfeita. A independência é importante para obter decisões inteligentes, por dois motivos. Em primeiro lugar, evita-se a correlação dos erros cometidos pelas pessoas. Os erros individuais não prejudicam o juízo colectivo do grupo, excepto quando todos os erros apontam sistematicamente na mesma direcção. Uma das formas mais rápidas de predispor sistematicamente a opinião do grupo numa determinada direcção reside em fazer com que os seus membros dependam uns dos outros para adquirir informação. Em segundo lugar, é mais provável que indivíduos independentes tragam dados novos, em vez de repetirem a informação conhecida por todos. Os grupos mais inteligentes são, portanto, formados por indivíduos com perspectivas diferentes e capazes de se manterem independentes uns dos outros. A independência não implica, porém, racionalidade nem imparcialidade. Pode ser-se tendencioso e irracional, mas desde que se mante¬nha a independência, não haverá dano para a inteligência do grupo. Este conceito de independência é-nos familiar. Agrada-nos intuitiva-mente, pois dá como certa a autonomia do indivíduo, o que constitui a ideia central do liberalismo ocidental. É igualmente a base dos nossos manuais de teoria económica, sob a habitual denominação de "indivi-dualismo metodológico". Os economistas consideram, por regra, que os indivíduos são motivados por um interesse egoísta. E partem do principio que cada um elabora a noção do seu interesse particular.Tudo isto está muito certo, mas a independência não é fácil de alcançar. Somos seres autónomos, mas também somos seres sociais. Desejamos aprender uns com os outros e a aprendizagem é um pro¬cesso social. Os bairros em que vivemos, as escolas onde estudamos e as empresas em que trabalhamos configuram as nossas formas de pensar e de sentir. Como um dia escreveu Herbert J. Simon: "Um homem não ocupa durante meses ou anos um determinado cargo numa empresa, exposto a determinadas correntes de comunicação e afastado de outras, sem acusar os mais profundos efeitos sobre o que sabe, crê, espera, observa, deseja, avalia, receia e propõe."Embora admitam (como não poderiam?) a natureza social da existência, os economistas tendem a vincar a autonomia das pessoas e a menosprezar a influência dos outros nas nossas preferências e outros juízos. Por outro lado, os sociólogos e os teóricos das redes sociais descrevem as pessoas como incrustadas em determinados contextos sociais e submetidas a influências inevitáveis. Os sociólogos não encaram, por regra, a situação como um problema, limitando-se a sugerir que é assim que a vida humana se encontra organizada. E, na verdade, talvez não seja um problema no quotidiano. Contudo, o que pretendo vincar aqui é que, quanto maior for a influência que os membros de um grupo exercem uns sobre os outros, e quanto maior for o mútuo contacto pessoal, menor é a probabilidadede que atinjam decisões inteligentes como grupo. Quanto mais influência exercermos uns sobre os outros, maior é a probabilidade de que todos acreditem nas mesmas coisas e cometam os mesmos erros. O que significa que existe a possibilidade de que nos tomemos individualmente mais inteligentes, mas colectivamente mais estúpidos. Por conseguinte, a pergunta que temos de fazer ao pensar na sabedoria colectiva, é: há a possibilidade de que as pessoas tomem decisões inteligentes, mesmo quando se encontram numa interacção perma¬nente, ainda que aleatória, umas com as outras?Surowiecki, James (2007). A sabedoria das multidões. Lisboa: Lua de Papel
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Acções, Reacções - Os seres humanos não são formigas
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October 19 2010, 12:59pm | Comments »
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