De tempos a tempos, mais do que a especulação, a afirmação da existência de extraterrestres-que-comunicam-com-os-humanos volta a estar na moda.É o que me parece, mas posso estar enganada. E também me parece que a “receita” se sofistica à medida que os "consumidores" se tornam mais exigentes (e esclarecidos?): documentários e notícias (com ou sem aspas?) mais recentes que, ocasionalmente, tenho visto e lido em nada se distinguem, sob o ponto de vista da forma, dos de carácter inequivocamente científico.Na verdade, os seus autores não se limitam as colher depoimentos de observadores involuntários, a quem o fenómeno alien se impõe, dispondo apenas como prova a sua descrição, necessariamente subjectiva; apresentam provas colhidas com apoio de sofisticados instrumentos de registo por entidades de aviação civis e militares credíveis, incluem o depoimento de investigadores que nos gabinetes das universidades a que pertencem apresentam teorias, a que se segue a argumentação ou testagem empírica e, em sequência, a interpretação delas decorrentes. Tudo, como disse, numa configuração que costumamos atribuir ao modo de pensar e de funcionar da ciência e da sua divulgação.Isto a propósito do texto de Miguel Gonçalves É desta: eles vêm aí, publicado ontem no De Rerum Natura e de um bocado de programa que vi no canal de televisão Zone Reality.Detenho-me neste bocado de programa, de realização recente, que incidia num dos mais deliciosos casos de evidências de extraterrestres: o caso dos Crop Circle ou, em tradução para português, da cereologia, que começou a ser falado há mais de trinta anos e que há trinta deu brados.Em 1991, Rui de Carvalho, num artigo intitulado As mentiras da ciência, publicado no jornal Expresso de 19 de Outubro de 1991, comentava o assunto da seguinte maneira:"Um dos mistérios mais populares dos últimos tempos, especialmente na Grã-Bretanha, foi recentemente desfeito quando dois pacatos ingleses, David Chorley e Douglas Bower, ambos já entrados na casa dos 60, confessaram que se tinham entretido, nos últimos treze anos, a abrir os célebres círculos nas searas.O «fenómeno» deu origem a todo um conjunto de trabalhos científicos a que se dedicaram de boa ou má-fé, nomes conhecidos das ciências. «Nenhum ser humano podia ter feito isto», dizia não há muito tempo o engenheiro Pat Delgado, que fez fortuna a escrever livros acerca dos círculos. A sua última obra, escrita em colaboração com Colin Andrews, vendeu 50 mil exemplares.A brincadeira dos dois reformados ingleses, cujo exemplo foi seguido em diversos países, deu origem à criação de uma nova ciência, a cereologia. Para tal contribuiu a intensa actividade da Unidade de Investigação do Efeito dos Círculos, um grupo fundado pelo físico Terence Meaden. Nem a circunspecta revista Nature escapou ao publicar o artigo do físico japonês Yoshi-Hiko Otsuki, que atribuía a formação dos círculos a uma esfera relampejante gerada por micro-ondas na atmosfera. Como o artigo fora publicado pela Nature, cujos apertados critérios de avaliação são bem conhecidos, muitas outras publicações consideraram que o problema dos círculos estava resolvido."Ora, segundo entendi, nesse programa de televisão a que me refiro, o caso foi retomado, com novas, diversificadas e muito sérias contribuições científicas....Sobre este assunto, de entre os muitos vídeos disponíveis na internet sobre o assunto, vale a pena ver um que se centra na explicação e demonstração da brincadeira de David Chorley e Douglas Bower, onde eles próprios contam as muitas noites em que se entretiveram a inventar o mistério dos círculos em plantações extensas para depois ouvirem comentários: aqui..Vale a pena também ver as dissertações de Patrick Delgado o cientista, entretanto, falecido, que fez fortuna com o mistério: aqui. E, por último, vale a pena ver como se trata de um mistério a que muitos parecem estar apostados em não porem fim aqui.
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Doug and Dave
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January 2 2011, 12:51pm | Comments »
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A Mente Moral
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/mente-moral.html
Marc Hauser é um cientista da cognição, que se dedica ao estudo da cognição em primatas, procurando uma compreensão da evolução da mente. Foi também, até agora, uma das estrelas mais cintilantes da Universidade de Harvard por se ter dedicado a abordar conceitos como a evolução da moralidade. Publicou mais de 200 artigos em revistas de muito elevado impacto, como a Science e a Nature, e foi Young Investigator Award da National Science Foundation americana. Disse foi, porque Marc Hauser foi há pouco considerado culpado de falta de ética científica pela sua própria universidade. Uma comissão nomeada pelo Reitor da U. Harvard, analisou e passou a pente fino a investigação de Hauser, durante 3 anos, analisando todos os trabalhos desde 2002 e chegou à conclusão de que Hauser violou os princípios da conduta científica em 8 situações. Três correspondem a artigos publicados e as restantes cinco a material em submissão ou de relatórios internos. Um dos artigos publicados, na Cognition, foi retirado, outro foi corrigido e o terceiro, na Science, está em discussão com os editores.Isto foi particularmente perturbador para mim que tinha Hauser em grande consideração. Era um dos grandes cientistas da cognição. Em 2003 mostrou (Proceedins of the Royal Society) que pequenos primatas tamarins, ou Saguis-de-cabeça-branca eram capazes de ter uma atitude diferente para outros animais da mesma espécie consoante eles os tivessem ajudado antes ou não – tendiam a ajudar mais os que lhes tinham prestado ajuda antes –, levantando questões muitíssimo interessantes sobre a evolução de conceitos éticos. Este artigo não foi alvo de críticas.Um breve parêntesis aqui:[A ideia feita mais comum é a de que a ética será exclusivamente humana, porque apenas nós somos seres racionais capazes de ter ética. Além de que a ética seria um produto eminentemente cultural. Passemos de lado o atestado de estupidez a nós próprios ao considerar que somos os únicos animais racionais – como se os outros fossem autómatos sem pensamento (pensem nisso quando observarem o comportamento do vosso cão) (e já agora leiam o excelente ‘Livro da Consciência’ de Damásio). E se não for exclusiva? Se tiver bases mais profundas presentes em culturas de outros animais?]Mas outros trabalhos foram considerados contendo erros intencionais que conduziram a conclusões incorrectas, de forma intencional. O que apurou a investigação de facto? Que Hauser manipulou a informação em várias situações (8), quer na codificação/interpretação dos comportamentos observados, quer no seu tratamento estatístico. O que sucedeu? Numa das experiências para determinar se os Saguis tinham respostas diferentes perante discurso humano normal ou manipulado, com o objectivo de saber se eram capazes de reconhecimento de padrões vocais, Hauser e o aluno que fez as experiências codificaram os comportamentos dos animais, a partir de vídeos gravados das experiências. Esta prática comum visa garantir que não há enviesamentos na observação do comportamento. É comum os investigadores guardarem as cassetes para posterior inspecção por outros, se solicitado. Desta vez os resultados de Hauser indicavam um efeito e os do aluno não. Este propôs que os vídeos fossem visionados por um terceiro observador independente, o que Hauser recusou. O aluno fez isso sem seu conhecimento e os resultados entre os alunos foram idênticos. Quando abordaram o assunto no laboratório, com outros alunos, ficaram a saber que esta não era a primeira vez que isso sucedia, o que os levou a denunciar a situação à Faculdade.Hauser foi considerado o único responsável pelos enviesamentos de interpretação.Hauser tinha a tendência para abordar assuntos difíceis e potencialmente polémicos: evolução da linguagem; evolução da moral. Esta é também uma forma de conseguir muita visibilidade. Mas a pressão para publicar resultados surpreendentes terá sido demasiada. Ou então ele convenceu-se de que estava certo, somente os resultados ainda não concordavam com ele. E ele não tinha tempo a perder. Recentemente Marc Hauser publicou Moral Minds: How Nature Designed Our Universal Sense of Right and Wrong. E eu que adquiri o livro e o comecei a ler, estou agora num dilema moral: confiar ou não no pensamento dele? É caso para dizer que faltou a moral a quem tanto queria dissecá-la.E agora? Bem a dúvida alastra a todo o seu trabalho, apesar de apenas se terem encontrado falhas em alguns dos muitos trabalhos analisados e muitas das suas experiências terem sido replicadas por outros com resultados concordantes.Entre os cientistas da cognição perpassa um arrepio com receio da má fama que Hauser possa trazer a uma área de estudo tão sólida e controlada experimentalmente como outras, mas mais susceptível por envolver comparações connosco.Grandes cientistas da cognição como Gordon Gallup, ou Franz de Waal, estão furiosos com Hauser e não lhe perdoam a sua falha de conduta.Para já a Universidade de Harvard deu-lhe uma licença sabática e estou convencido que irá ser convidado a sair. Uma falha destas é demasiado grave para ser limpa por uma retractação pública.Outros colegas estão a preparar-se para replicar algumas das suas experiências e confirmar ou não os resultados. E acho que é mesmo isso que há a fazer.
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October 17 2010, 2:14pm | Comments »
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É natural…
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/e-natural.html
Toda a gente sabe que o negócio dos trabalhos académicos existe e prospera: sabem os professores, que não podem deixar de se confrontar com ele; sabem-no os alunos, pois a informação corre; sabem os jornalistas, que de vez em quando voltam ao assunto; sabem os investigadores que lhe têm dado atenção; devem saber as famílias, que pagam a factura; também não me parece que as instituições de ensino superior o desconheçam, nem as mais altas instâncias.Algumas empresas e particulares fazem publicidade na internet, outras têm um contacto mais discreto. Há “produtos” de toda a espécie e feitio, prontos ou por encomenda. Uns são mais caros – as dissertações de final de licenciatura, mestrado e doutoramento -, outros mais baratos – relatórios e tarefas avulsas para as unidades curriculares.Os estudantes que quiserem e tiverem como pagar, escusam, pois, de perder o seu precioso tempo em consultas bibliográficas aborrecidas, em pesquisas de campo fastidiosas, na redacção de um texto que teima em não sair perfeito à primeira…Ora, se o negócio tem dado tão bom resultado a este nível de ensino, porque não estendê-lo a outros níveis, onde a procura é tão grande ou maior. Afinal, os negócios têm de estar abertos a novas oportunidades…E... foi exactamente nas Novas Oportunidades, que muitos viram... novas oportunidades! Mais: viram isso logo que elas surgiram.Sem sequer procurar, soube logo na altura que tinha emergido uma nova profissão: os Fazedores de Portfólios Reflexivos de Aprendizagem. Sim, eu sei, também há os amigos que fazem este instrumento-acima-de-qualquer-suspeita, sem nada cobrar, apenas para ajudar a… obter um diplomazinho… coisa de nada…Esta conversa é a propósito duma notícia publicada no jornal i, de hoje que dá conta disto mesmo.Ao que a jornalista Filipa Matins apurou, desembolsam-se 400 euros (que antes eram 500, mas a crise...) e o certificado do 12.º ano é garantido.Eu diria que é um preço razoável! Até porque é reembolsável: a seguir vende-se a outra pessoa que precise dele. Com um bocado de sorte, vende-se a mais do que uma… Havendo tantas centenas de Centros Novas Oportunidades, um fica aqui, outro ali… e ninguém detecta!Mas, o mais interessante na notícia do jornal são as declarações do presidente da Agência Nacional para a Qualificação, Luís Capucha, que confirma... "a situação". Diz o senhor (os sublinhados são meus):"É natural que haja parte desses portefólios - que têm centenas de páginas - que seja transcrita da internet." "Porém", adianta, "as pessoas devem ser encorajadas a trabalhar essa informação em vez de a transcreverem", acrescentando que "não compete à ANQ fazer qualquer avaliação do trabalho dos centros". "Uma avaliação implica um juízo, ora o que encontra nos documentos são orientações técnicas", conclui.Porém, o universo é suficientemente vasto para ter justificado o envio da nota de orientação aos Centros Novas Oportunidades. Nesta é manifestada a necessidade de "reforçar que a inclusão de textos retirados da internet não configura, de forma alguma, uma prática regular, que seja demonstrativa de competências que os candidatos detêm". "Quando muito", lê-se ainda, "esta prática evidencia a capacidade do candidato pesquisar informação".
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August 19 2010, 4:42pm | Comments »
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Originais e sucedâneos
http://dererummundi.blogspot.com/2010/01/originais-e-sucedaneos.html
No dia 31 de Dezembro publicámos o poema “Receita de ano novo” de Carlos Drummond de Andrade, numa escolha de Paulo Rato, um confesso amante da poesia. No espaço dos comentários, uma leitora reproduziu partes de um texto atribuído a Drummond de Andrade. Não reconhecendo esse texto, Paulo Rato procurou-o na Internet, do que resultou a resposta que deu à nossa leitora, na qual alertava para a falsidade da atribuição.Tendo ficado a pensar no assunto, que não é de menor importância, sugeriu-nos que no De Rerum Natura se sensibilizassem autores e frequentadores de blogues para os surpreendentes “ataques à boa saúde da poesia”.Assim, decidimos reproduzir a referida resposta para que mais leitores possam ter acesso ao seu conteúdo. Decidimos também tratar oportunamente este assunto de modo mais aprofundado."VeraFui à procura do poema de que cita alguns excertos ("Fácil... Difícil...) e não o encontrei na "Obra Poética de Carlos Drummond de Andrade". Dos títulos publicados postumamente, tenho Farewell e O Amor Natural (belíssima colectânea de poemas eróticos que o autor não permitiu que fosse publicada antes da sua morte). O prefácio do primeiro refere ainda um outro, cujo título - Aforismos - afasta, por si só, a inclusão do arrazoado que, pesquisando na Net, acabei por encontrar, com milhaaaares de referências, louvado seja Belzebu (virtual)!As versões que consultei, poucas (que não tive pachorra para mais), mas ainda assim com discrepâncias entre elas, confirmaram o que já suspeitava: como muitos outros textos que infestam a rede, falsamente associados a grandes poetas, as ditas cujas não têm (nem de longe!) qualidade que justifique atribuí-las ao imenso Carlos Drummond. Nem mesmo com o "título original", igualmente apócrifo, de "Reverência ao destino".Já denunciei publicamente vários desses embustes, nomeadamente um escrito completamente parvo, que por aí pulula, imputado a Fernando Pessoa (completamente inocente), e que veio a ser escarrapachado no Público pela jornalista Laurinda Alves, sob o título A coragem de Pessoa, o que me fez perder a paciência, tal como a outros leitores, que comunicaram o desacato ao Provedor do Jornal.O artigo publicado, citando vários dos queixosos e com a intervenção da própria Casa Fernando Pessoa, deixava tudo muito clarinho, mas... foi inútil: ainda há poucos dias me "re-fordwardaram" o detrito.Enfim, cara Vera, desfrute a Receita de ano novo e esqueça aquele amontoado de tolices que a fizeram, muito justamente, desconfiar da coerência do seu autor.De resto, como costumo recomendar a propósito destas vigarices, desconfie desse tão propalado instrumento de "democratização da intervenção do cidadão", onde seja quem for despeja seja o que for, sem sequer alertar, como outrora - "Água vai!"Viva a Internet! viva! - sim, mas abordada cautelosamente, com armadura crítica sólida e bem temperada. Com a preocupação de distinguir os blogues de qualidade (como este e alguns - não muitos! - outros) e os sites de instituições credíveis e com prestígio a defender, do burburinho ininteligível e dúbio da multidão.E sem esquecer um bom elmo, que nunca sabe o que lá vem...Cordialmente,Paulo Rato
January 23 2010, 9:16am | Comments »
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Charlatanices e SIDA: uma história de horror
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/charlatanices-e-sida-uma-historia-de.html
Li muito recentemente o livro de Ben Goldacre, o médico que mantém semanalmente uma coluna no Guardian intitulada Bad Science e que se devota a desmontar charlatanices sortidas em particular «medicinas alternativas» como homeopatetices e afins.O livro é uma leitura especialmente recomendada mas, na edição que comprei, deixa em suspenso qualquer coisa negra que impediria a inclusão de mais material. Há uns dias, Goldacre publicou no seu blog o capítulo em falta, que pede seja amplamente divulgado. No prólogo ao The Doctor Will Sue You Now, o autor explica que esta história de horror, que justifica porque é necessário denunciar todos estes charlatães alternativos, só agora pode ser publicada: Matthias Rath, o muito bem sucedido vendedor de banha da cobra em questão, processava Goldacre e o Guardian quando o livro foi publicado.E esta história de horror, em boa parte responsável pelas dimensões que a epidemia de SIDA atingiu na África do Sul, deve ser amplamente divulgada. Sobretudo, dever-nos-ia fazer reflectir sobre aquilo que temos insistido no De Rerum Natura e resumi no Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN: o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.Assim, como escreve Goldacre, a sua história de horror não é sobre Matthias Rath ou sobre os restantes protagonistas nem mesmo sobre a catástofre que se abate sobre a Áfirca do Sul. «It is about the culture of how ideas work, and how that can break down. Doctors criticise other doctors, academics criticise academics, politicians criticise politicians: that’s normal and healthy, it’s how ideas improve. Matthias Rath is an alternative therapist, made in Europe. He is every bit the same as the British operators that we have seen in this book. He is from their world.».De facto, a carreira de charlatão de Rath teve um início «auspicioso» na Europa, pretendendo que os medicamentos utilizados em quimioterapia eram completamente ineficazes, verdadeiros venenos que matavam os pacientes. Segundo ele, milhões de vidas poderiam ser salvas se os doentes de cancro deixassem de ser tratados com a «medicina convencional» e passassem a ser prescritos as suas tretas alternativas. A resposta europeia a estes absurdos foi, na ausência de regulamentação conveniente, necessariamente fraca: apenas um tribunal de Berlim ordenou Rath a parar a publicidade que afirmava que as suas pílulas curavam o cancro - ou então pagar uma multa de 250 000 libras.Mas se os estragos que este charlatão fez na Europa (e Estados Unidos) nos deveriam preocupar, o que promoveu na África do Sul, onde chegou sob a presidência de Thabo Mbeki, é estarrecedor, demasiado estarrecedor para descrever e recomendo vivamente a leitura do capítulo de Goldacre para perceberem porquê. Basta dizer que a campanha genocida teve início com grandes parangonas nos jornais sul-africanos denunciando uma conspiração das grandes farmacêuticas para matar africanos que vendiam venenos mortais sob o disfarce de anti-virais. «Stop AIDS Genocide by the Drugs Cartel. Why should South Africans continue to be poisoned with AZT?» foi um dos «grandes» títulos.Goldacre conclui o capítulo afirmando «The alternative therapy movement as a whole has demonstrated itself to be so dangerously, systemically incapable of critical self-appraisal that it cannot step up even in a case like that of Rath: in that count I include tens of thousands of practitioners, writers, administrators and more. This is how ideas go badly wrong. In the conclusion to this book, written before I was able to include this chapter, I will argue that the biggest dangers posed by the material we have covered are cultural and intellectual.»De facto, por muito inócua que seja, por exemplo, a água que os homeopatetas vendem como medicamentos ou o lava pés pomposamente designado «hidrolinfa» (e os charlatães que os vendem em Portugal queixaram-se por mail da minha «estreiteza» de espírito), os seus grandes perigos são culturais e intelectuais. O espaço cada vez maior oferecido pelos meios de comunicação a explicações pseudo-científicas e místicas indica que o envenenamento da mente e a contaminação cultural são também cada vez maiores. Joe Kaplinsky pôs o dedo na ferida sobre as causas, «quando o criacionismo [ou as patetadas «alternativas»] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»A cura continua a preconizada no manifesto de Sagan contra as pseudociências. Urge cada vez mais reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento crítico mas urge especialmente olhar para o que se passa no nosso ensino que asfixia esse pensamento crítico!
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April 12 2009, 4:02am | Comments »
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Doutoramentos na hora
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/doutoramentos-na-hora.html
Há coisas que pensamos não que poderem piorar, mas quando damos conta… já pioraram…Depois de ter percebido ser trivial fazerem-se mestrados e doutoramentos em matérias duvidosas (quero dizer, do meu ponto de vista, duvidosas), de ter percebido que, sem qualquer pudor, se anuncia a “fabricação” dos mais diversos trabalhos académicos, de ter percebido que, para não dar muito nas vistas, se vão fazer teses, digamos, mais leves e em tempo record, numas certas universidades espanholas (mas não só...), confesso que, ainda assim, me surpreendi pelo facto de tudo isto poder ser feito na hora, conforme ironizou David Marçal em texto aqui publicado.Na hora, é como quem diz, em meia dúzia de dias ou um pouco mais… Tempo aceitável, diria eu ironizando também, para estabelecer contactos, escolher com calma o tema (presumo que haja catálogo…) e receber tudo devidamente organizado e acomodado em casa…Se o caro leitor desconfia do que digo, leia, por favor, o anúncio que abaixo reproduzo, acabado de chegar à minha caixa de correio electrónico.PS. Por razões óbvias, cortei o número de telefone, mas é tão fácil chegar a anúncios deste género…Would you like to earn a DIPLOMA/DEGREE/MASTER without ever Studying, Sitting Exams, Attending Classes, or Paying Tuition?Now you can earn a real degree on the basis of your work or Life Experience (including professional or other achievements, military or public service, on the job training or other sources) in just 10 days.What we sell: Diploma, Associate Degree, Bachelor's Degree, Master's Degree, Doctorate Degree
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March 26 2009, 9:05am | Comments »
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Não faça, compre!
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/nao-faca-compre.html
Chegam-me à caixa de correio anúncios cada vez mais descarados de pessoas e empresas especializadas na fabricação de trabalhos e teses de mestrado e doutoramento, bem como de artigos científicos com garantia de publicação nas “tais revistas”. Tudo com preços devidamente discriminados por grau académico, tema, número de páginas, etc. A coisa é feita às claras e ninguém sai enganado: quem vende, sabe o que vende; quem compra, sabe o que compra. As academias não podem, portanto, ignorar o “negócio paralelo”.Desta e doutras situações pouco edificantes, nada novas, mas, pelos vistos, em franca expansão nos tempos que correm, já Carlos Fiolhais e Elvira Calapaz, deram conta no De Rerum Natura. Não deixe, no entanto, o leitor de se deliciar com o artigo que Carla Aguiar publicou nesta semana, com base numa investigação muito completa que fez da realidade portuguesa.
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February 5 2009, 12:09pm | Comments »
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In Rust we Trust
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/in-rust-we-trust.html
Um dos nossos leitores enviou-nos um mail sobre algo que suspeitava (com imensa razão) ser uma charlatanice e que consiste numa coisa que dá pelo pomposo nome «hidrolinfa».Esta tal hidrolinfa (nunca percebi o fascínio pela água de tanto charlatão...) não passa de uma versão lusa dos Aqua Detox que infestam qual praga o mundo em geral, os países anglo-saxónicos em particular. Em Portugal, são construídas e comercializadas por algo com o nome pomposo MENP - Fabrico de Máquina de Saúde e Ecologia que faz parte d'«O Departamento de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (T.S.D. - Technological & Scientific Development), que trabalha em exclusivo para a UPN - Universidade Profissional do Norte».A abusivamente auto-denominada Universidade, ministra «cursos» numa gama abrangente de banhas da cobra, de homeopatetices a naturopatetices, exibindo ainda uma «pós-graduação» em ...hipnose! Não sei se a naturopateta que «tratou» um conhecido meu se «formou» nesta coisa, mas certamente adquiriu o seu instrumento principal de trabalho às empresas associadas De facto, a mulher desse conhecido, mais céptica, inquiriu-me sobre os «tratamentos» que me descreveu, incluindo na descrição a maquineta, que descobri agora ser se não a tal «hidrolinfa» uma congénere, e os resultados de uma detoxificação pelos pés como a ilustrada. Na altura disse á pessoa que me inquiriu, só pela descrição, que não é preciso saber muita química, apenas olhar para a água ferrugenta que sai volta e meia dos canos, para perceber o que aconteceu. De facto, os charlatães extorquem dinheiro aos mais incautos com um vulgar banho de pés complementado com eléctrodos que quando ligados à corrente e na presença dos sais com que é temperada a água se corroem. A cor dos sais de ferro que se formam depende do cocktail adicionado à água (é simples ferrugem com água da torneira) e do pH da mesma e não tem nem remotamente nada a ver com a saída de toxinas pelos poros dos pés (!).Aliás, não percebo muito bem o que sejam as toxinas que entraram no léxico de todos os charlatães das medicinas alternativas mas todas as substâncias tóxicas que produzimos são incolores, nomeadamente «o Colesterol, Triglicerídios, Ureia, Glicose (nunca me passou pela cabeça que um açúcar fosse considerado uma toxina), Creatinina e Ácido Úrico» que os charlatães afirmam peremptoriamente que «A terapia HidroLinfa, ao coincidir nos poros existentes na planta dos pés, exercita a diminuição imediata comprovada». Na realidade, estas «toxinas» são excretadas naturalmente na urina e na transpiração.Embora já soubesse da existência da coisa não tinha ideia da sua dimensão e assim agradeço as informações gentilmente transmitidas pelo nosso leitor que me permitiram apreciar o monte de dislates químicos com que os charlatães da UPN enganam os mais incautos e que podem ser apreciadas em todo o seu esplendor na página em que publicitam a coisa.Estes são tantos e tão variados, aliás, não há quasi uma linha do longo texto que não seja um disparate químico, que não sei qual me escandalizou mais. Não sei se a afirmação extraordinária de que «toxinas e venenos são incompletos, falta-lhes um electrão negativo» - o que é um total disparate, e não estou a referir-me ao pleonasmo electrão negativo -, ou se as efabulações sobre o hidrogénio, em particular sobre o hidreto (H-), supostamente formado no «Tratamento HidroLinfa, rico em iões negativos, aumenta o número de electrões de carga negativa no organismo humano, aumentando assim os iões negativos que transformam o hidrogénio em (H-)», uma barbaridade total. Assim como é uma barbaridade total dizer que «O oxigénio não actua sem o hidrogénio, a fusão destes dois elementos, transforma-se em energia», um delírio quasi tão idiota como as considerações sobre o ATP ou sobre o equilíbrio de pH fisiológico que o aparelhómetro supostamente mantém.Sobre este último, é importante esclarecer que nós somos quimicamente muito bem regulados, nomeadamente a nível de pH que é mantido numa gama muito estreita de valores por uma série de tampões biológicos como sejam o que envolve bicarbonato (e o dióxido de carbono), o fosfato e várias proteínas (ficheiro em formato pdf que explica a regulação fisiológica do pH). Mas essencialmente importa esclarecer e sobretudo regular as ditas «terapias naturais» e acabar de uma vez por todas com fraudes magnéticas, quânticas, homeopatetas e afins. Como concluiu o professor Edzard Ernst após ter recuperado da estase em que esteve mergulhado e que o levou a leccionar banhas da cobra sortidas, «A maioria das terapias alternativas são clinicamente ineficientes e muitas são totalmente perigosas».
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December 24 2008, 12:24am | Comments »
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As Mafias Psíquicas
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Em 1976, foi publicada «A Mafia Psíquica», a autobiografia de M. Lamar Keene contada por Allen Spraggett que detalha estes e outros truques usados por auto-intitulados «psíquicos» para enganar os mais incautos.M. Lamar Keene foi durante anos mais um médium bem sucedido no Campo Chesterfield, uma igreja espiritualista fundada no Indiana em 1886, quando estas fraudes estavam muito na moda, e que hoje em dia é um «retiro» espírita onde dúzias de charlatães continuam a usar os truques que Keene descreve no livro.«Fosse a minha trombeta flutuante inexplicável, através da qual os comunicadores de espírito falaram com as suas famílias e amigos ainda aqui na terra; as minhas formas resplandecentes de espírito, que só não falaram aos vivos mas que os tocaram, mesmo abraçando-os; a minha clarividência perturbadoramente exacta, que provou que o espírito acompanhava o quotidiano dos seus entes queridos, cientes das coisas mais triviais em suas vidas - foram estes fenómenos psíquicos misteriosos que mantiveram as pessoas vindo e, mais importante, o dinheiro fluindo [página 90, edição de 1977].Depois de durante anos ter explorado os seus clientes, Keene teve uma crise de consciência, abandonou a mediunidade e decidiu expor as fraudes que fez passar por capacidades «mediúnicas. O Capítulo 5, «Segredos da Sessão Espírita», explica detalhada e metodicamente as artimanhas usadas por médiuns e espíritas de todo o mundo para enganar os seus clientes.Mas parece que a exposição de Keene (e de muitos outros) não foram suficientes para que as pessoas vissem estas práticas por aquilo que são: charlatanices destinadas a encher os bolsos de quem delas faz o seu modo de vida. O Campo Chesterfield continua a vender as suas fraudes e, se o que a Wired nos indica hoje para os seus sucedâneos online se pode extrapolar para gaze e osso, provavelmente assiste a um boom de clientela.De facto, em tempos de crise assiste-se a um florescer de todas as formas de charlatanice. As angústias e receios suscitadas por um futuro pouco auspicioso levam muitos a procurar charlatães sortidos. Gita Johar, Meyer Feldberg Professor of Business na Columbia Business School, é uma perita em psicologia do consumidor que explica o que está a acontecer:«Se o futuro é incerto, as pessoas viram-se para psíquicos. Os consumidores têm tendência a virar-se para o sobrenatural quando confrontados pelo stress combinado com incerteza. Ficam então com a ilusão de que podem controlar o que vai acontecer. As pessoas querem a ilusão do controle.»Não sei se podemos assacar as culpas apenas a este desejo da ilusão e se não devemos procurar outros culpados por este estado de coisas, que não se restringe aos EUA. As charlatanices e banhas da cobra que proliferam anacronicamente nos nossos tempos, nunca é demais repetir, são uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma são igualmente uma causa do que está errado. E se a sintomatologia se agudizou nos últimos tempos esse é um sinal claro de que o mesmo aconteceu ao problema original. Não creio que a maioria das pessoas almejem viver em ilusão, o problema foi bem abordado pelo Desidério no «Ciência e excepção». O ensino que temos não equipa as pessoas com conhecimentos e hábitos de pensamento que lhes permitam distinguir ciência de pseudo-ciência, não as preparam para distinguir medicina de tretas como as homeopatetices, hados, curas quânticas sortidas e demais fraudes.Ao longo destes quase 2000 posts (e um milhão de visitas) temos repetido que é necessário apostar num melhor ensino, «ensinar melhor ciência, melhor filosofia e melhor história. Ensinar a discutir ideias e ensinar o valor de procurar refutar ideias». Infelizmente, a experiência com os alunos que nos chegam à faculdade permite-nos constatar que isso não está a acontecer. Não sei como poderemos reverter o descalabro a que temos assistido nos dois últimos anos, quando começámos a receber os alunos da última reforma que pelos resultados nos parece uma ilusão de ensino. Mas é necessário fazê-lo urgentemente se não queremos comprometer o futuro.
November 8 2008, 12:20am | Comments »
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