Outro texto meu de há alguns anos sobre a aventura espacial, este extraído de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva):Segundo o historiador de ciência inglês Joseph Needham o foguete foi provavelmente (nestas coisas nunca pode haver certezas) a invenção mais importante da China e a sua contribuição tecnológica mais importante para a humanidade. Ele estaria talvez a pensar na possibilidade de um dia a humanidade poder deixar o seu “berço” e estabelecer-se noutros planetas ou mesmo em estações permanentes no espaço.Needham é uma das maiores autoridades mundiais sobre a ciência e a tecnologia da China. Nascido em 1900, deu aos 37 anos uma grande volta na sua carreira de embriologista formado por Cambridge. Tendo encontrado e feito amizade com estudantes chineses, entusiasmou-se pela história da civilização chinesa. Para isso aprendeu a língua chinesa clássica. E, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, foi nomeado Conselheiro Científico da Embaixada Britânica na China. Correu a China toda, reunindo informações e coleccionando, com a obsessão de um caçador de tesouros, muitos livros sobre a antiga ciência chinesa. Essa biblioteca constitui hoje em Cambridge a maior biblioteca sobre a história da ciência e da técnica chinesa fora da China, tendo justamente o nome do seu fundador. Depois da Guerra, Needham tornou-se subdirector geral da UNESCO para a área das Ciências Naturais, tendo sido ele o responsável pelo S da sigla entre o E e o C (originalmente, a UNESCO tinha a intenção de se dedicar apenas à ciência e à cultura, mas a ciência, de “Science” fica muitíssimo bem entre as duas). De volta à sua “alma mater” Needham começou a escrever um longo e erudito tratado intitulado “Science and Civilization in China”, que tem saído sob a chancela da Cambridge University Press em 25 volumes (já saíram 17 volumes; o projecto continua depois da morte do autor em 1995). É praticamente impossível a um leitor ler por completo essa verdadeira obra prima da história da ciência, mas há resumos, um dos quais bastante acessível e ilustrado (que tem a vantagem de ter sido não só sancionado como prefaciado pelo próprio Needham): Robert Temple, “The Genius of China: 3000 Years of Science, Discovery and Invention”, Prion, Londres, 1986.É lá que podemos encontrar uma breve história do foguete chinês. Ficamos a saber que o foguete nasceu na China em 1150 (no calendário cristão, largamente ignorado pelos chineses). Foi usado em fogos de artifício e na guerra. É significativo que o árabe Hasdan al-Rammah tenha chamado em 1280 aos foguetes “setas chinesas”. Os foguetes foram rapidamente importados pelos ocidentais, na esteira das viagens de Marco Pólo ao Extremo Oriente. Assim, em 1380 foram usados numa batalha no norte de Itália, entre genoveses e venezianos. Temple (quer dizer, Needham) assinala que se tratou de uma importação bastante rápida: escassos dois séculos. Outras invenções do Império do Meio chegaram ao Ocidente com maior atraso. Ao ler Temple, ficamos verdadeiramente impresionados e mesmo confundidos com o número e a qualidade das invenções chinesas: a bússola, a pólvora, o papel e, Gutenberg que não se sinta diminuído, até a imprensa! Para não falar já de descobertas científicas, como a da circulação do sangue, comandada pelo coração, que era conhecida dos chineses muito antes - dois mil anos antes - do britânico William Harvey a ter anunciado na Europa no início do século XVII.Pois a invenção do foguete durante aquilo que no Ocidente se convencionou chamar Idade Média foi o primeiro passo para a longa marcha da humanidade para o espaço. O desenvolvimento rápido dos foguetes só se dá no século XX, sendo ele indissociável do nome do engenheiro alemão Wernher von Braun, pai não só dos dos foguetes V2 que semearam o pavor em Londres durante a Guerra, mas também do foguetão Saturno V, que foi utilizado para as viagens norte-americanas à Lua. Um foguetão é, evidentemente, um foguete grande e não deixa de ser curioso que os chineses, que tanta ciência e tecnologia desenvolveram nos tempos antigos, tenham perdido o “comboio do progresso” nos tempos mais modernos. O assunto daria muito pano para mangas, mas fica a importante nota que a actual civilização, muito ligada ao Ocidente mas partilhada cada vez mais pela China, assenta numa base científico-tecnológica que teve origem no método científico. Foi um italiano de Florença, contemporâneo de Harvey, que a desenvolveu e pôs em prática: Galileu Galilei. O problema do atraso da China é que Galileu não foi chinês, uma vez que, a partir dele, a evolução científico-técnica acelerada do Ocidente foi o que se sabe e o que se vê. Aos chineses nunca faltou o engenho, terá faltado a curiosidade e o método para a prosseguir de maneira sistemática.Em 1998 assistiu-se ao que podemos chamar, sem qualquer carga pejorativa, a “vingança do chinês”. Um foguetão de concepção e fabrico chinês, denominado “Longa Marcha”, pôs em órbita terrestre o primeiro “taquinauta” (yuhangyuan) chinês. A palavra “taquinauta” tem a ver com o facto de os russos chamarem “cosmonauta” e os americanos “astronautas” aos seus viajantes do espaço: “taquinauta” significa “espaçonauta”, viajante no espaço. É claro que os chineses, que são agora mais claramente uma potência mundial no espaço, tinham de querer um nome próprio para os seus homens. A Europa continua “pendurada” nos norte-americanos e russos para as suas viagens espaciais tripuladas: por exemplo, a ex-ministra francesa para a Investigação Científica e as Novas Tecnologias, Claudie Aignerée, viajou na MIR e na Estação Espacial Internacional e o astronauta espanhol Pedro Duque partiu, a bordo de uma nave russa, para a Estação Espacial Internacional, onde realizou várias experiências científicas e didácticas. Mas não há um nome europeu para viajantes do espaço... O primeiro “taquinauta” chama-se Yang Liwei e faz parte de um grupo de “eleitos” que foram intensivamente treinados. A cápsula Shen Zhou-5 (“Nave Divina”, os nomes chineses são curiosos!) tripulada por esse digno sucessor do russo Yuri Gagarine e do norte-americano Alan Shapard regressou à Terra no dia 15 de Outubro, caindo em segurança nas planícies da Mongólia Interior depois de algumas voltas bem sucedidas ao nosso planeta. Foi um pequeno passo para ele, mas um grande passo para a China e, uma vez que os chineses são uma parte enorme da humanidade, para a humanidade.Os aplausos foram unânimes. Norte-americanos, russos e europeus felicitaram os chineses pela proeza, que para a China constitui um marco do seu avanço científico-técnico. Esse aplauso geral significa que já não há utilização do espaço para efeitos de “guerra fria”, como aconteceu durante anos. Os norte-americanos, um pouco combalidos do desastre da “Columbia”, sabem bem o valor dos chineses, sabem bem por exemplo o que têm beneficiado com a presença de muitos e bons estudantes chineses nas suas universidades e institutos de investigação. A China de hoje é uma China que soube recuperar, usando o método científico e a tecnologia que lhe está a jusante (na antiga China a tecnologia estava a montante da ciência), do seu atraso.Houve inegavelmente um aproveitamente político do voo espacial tripulado de Yang Liwei. O nome “Longa Marcha” do foguetão utilizado é sintomático ao evocar a herança maoísta. Na verdade, os chineses sempre cultivaram algum nacionalismo e não seria agora que iriam desdenhar a oportunidade de aumentar a auto-estima nacional. Há boas razões para isso uma vez que desenvolveram ciências e tecnologias próprias e fizeram um investimento enorme no seu programa espacial. O Instituto sobre História da Civilização Chinesa que Needham nos legou em Cambridge terá um dia de incorporar nas suas publicações a história deste feito chinês. Mas o importante é que a “longa marcha” para o espaço, que a humanidade começou a empreender a partir do primeiro foguete chinês, seja um empreendimento onde não caibam nacionalismos doentios nem rivalidades mesquinhas e inúteis. Deve ser um projecto de toda a humanidade!Na foto: Yang Liwei, o primeiro "taquinauta".
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A LONGA MARCHA PARA O ESPAÇO
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July 28 2010, 6:03pm | Comments »
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ALMA MATER DIGITAL
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Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:Alma Mater é uma expressão latina que significa etimologicamente a “mãe que alimenta”. Serve, também, para referir a Universidade onde se estudou. Desde há poucos dias, a expressão passou também a ser o nome da biblioteca digital de fundo antigo da Universidade de Coimbra, a mais antiga das universidades portuguesas. Na Internet está acessível, à fácil disposição de todos os interessados, em http://almamater.uc.pt/ .O leitor que aí clique encontrará cerca de 4000 documentos digitalizados na íntegra, num total de mais de meio milhão de imagens, que incluem livros, periódicos, manuscritos, mapas, fotografias, etc., anteriores a 1940, sobre os mais variados temas, uma vez que o fundo antigo em questão vai desde o Direito e as Letras até às Ciências e Tecnologias. Na área das ciências, poderão ser vistas, por exemplo, magníficas estampas de espécies vegetais portuguesas que constam do livro, publicado em Lisboa no ano de 1800, Phytographia Lusitaniae Selectior, de Félix de Avelar Brotero, lente de Botânica e Agricultura em Coimbra.Como estamos em época de comemorações do centenário da implantação da República em Portugal, a Alma Mater contemplou essa efeméride. Assim, na secção República Digital, exibe, para consulta geral, numerosos documentos, alguns inéditos, do início do século passado. O leitor pode desfolhar as Observações meteorológicas, magnéticas e sísmicas feitas no Observatório Meteorológico de Coimbra no ano de 1909 e publicadas pela Imprensa da Universidade em 1910. O volume seguinte já está a ser digitalizado para divulgar o estado do tempo no dia 5 de Outubro de 1910...Ou pode consultar o Boletim dos Hospitais da Universidade de Coimbra, publicado também pela Imprensa em 1931, onde se diz que a reforma de 1911 veio “transformar de forma mais absoluta e radical os serviços hospitalares”, ficando os referidos hospitais a ser “o mais completo campo experimental da ciência médico-cirúrgica”. As estatísticas das operações cirúrgicas feitas a partir de 1913 documentam isto mesmo: basta ver as extensivas listagens com método e processo, o tipo de anestesia e o resultado (“curado”, “melhorado”, “no mesmo estado” ou “falecido”). Não tem o nome dos operados, mas tem o nome dos operadores.Ou pode ainda ler várias cartas de Afonso Costa, o primeiro-ministro da Primeira República, escritas do exílio após o golpe de Estado de 1926 a um outro exilado, Armando Cortesão, o engenheiro agrónomo (um dos primeiros estudiosos da genética entre nós) que se notabilizou como historiador dos Descobrimentos. Como se compreende, Salazar é aí referido de um modo muito pouco favorável. Na Alma Mater a história está à distância de um clique.Imagem: estampa do livro de Brotero referido no texto.
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July 23 2010, 6:30am | Comments »
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Colombo e Bolívar. Para quando Henriques?
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Novo texto de António Piedade, saído no "Diário de Coimbra":Os restos mortais do General que libertou praticamente toda a América do Sul, no século XIX, do colonialismo Castelhano, foram televisionados no passado fim-de-semana (madrugada de sábado, dia 18 de Julho), numa cerimónia pomposa em que a guarda de honra envergou fatos alvos, protectores e não contaminantes (aqui). A razão para esta exumação é, em parte, cientifica e envolve descobrir a razão para a morte do Libertador, de ascendência castelhana, mas natural da Venezuela e ídolo de milhões de pessoas. Em Abril deste ano, o médico forense Paul Auwaerter (Universidade de Johns Hopkins, EUA) sustentou a teoria segundo a qual Bolivar teria morrido envenenado por sais de arsénio (aqui). Isto está em desacordo com até há pouco conhecido e que indica que El Libertador teria sucumbido derrotado por uma bactéria, a Mycobacterium tuberculosis perfinges, principal causadora da tuberculose. Gabriel García Marquez, deixa-o morrer no seu livro “O General no seu Labirinto”, a olhar Vénus no firmamento e a ouvir “os escravos a cantarem a salve-rainha das seis, nos moinhos”.Venezuela, que significa pequena Veneza em italiano, foi assim baptizada por Américo Vespúcio na terceira viagem de Cristóvão Colombo à procura das Índias (ao navegarem pelo delta do rio Orinoco, Vespúcio terá comparado a beleza paradisíaca da natureza que contemplava com a dos canais de Veneza!). Os restos mortais de Colombo, durante séculos pensados a repousar na lindíssima Catedral de Sevilha, também têm sido alvo de estudos forenses. O objectivo tem sido o de comparar geneticamente as ossadas com a de seus descendentes e resolver, com base científica, a hipótese de que Colombo sempre esteve sepultado no monumento, edificado em sua memória o Farol de Colombo, na cidade de Santo Domingo, capital da República Dominicana (aqui).D. Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal, foi o único militar a conseguir a independência de Castela de um território da península Ibérica. Feito por ventura menor em tamanho mas seguramente comparável ao de Bolívar na bravia, na liderança e na estratégia militar. Sabemos da qualidade da metodologia científica com que a Doutora Eugénia Cunha (Departamento das Ciências da Vida – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) tentou estudar os restos mortais do fundador (aqui), na Capela-Mor da Igreja de Santa Cruz em Coimbra, e como isso foi impedido superiormente na secretaria estatal. Sabemos do desenvolvimento espantoso registado na última década na micro-extracção de amostras diminutas de ADN e também nas técnicas analíticas químicas, capazes de elucidar sobre aspectos não só da morte mas sobretudo da vida, gerando documentos incontornáveis e impossíveis por outra fonte.Para quando Henriques?António Piedade
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July 19 2010, 10:08am | Comments »
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A INQUISIÇÃO, O REINO DO MEDO
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Outra informação editorial recebida da Presença: A Inquisição O Reino do Medo, de Toby Green Colecção: Biblioteca do Século Nº na Colecção: 30O Autor: Toby Green nasceu em Londres em 1974. Estudou Filosofia na Universidade de Cambridge e tem dividido a sua actividade profissional pelo ensino, o jornalismo, a investigação e a escrita. É autor de um conjunto diverso de obras - onde se incluem biografias, crítica literária, história e literatura de viagens - que se encontra traduzido em cerca de uma dezena de línguas. Tem um conhecimento profundo do Continente africano e da América Latina, e as suas investigações levaram-no a passar longos períodos em locais como Bissau, Bogotá, Lisboa, Cidade do México ou Sevilha. Actualmente vive em Inglaterra com a família. Sinopse: Inquisição - O Reino do Medo lança uma nova luz sobre aquela que foi uma das instituições religiosas mais obscuras e devastadoras da história da humanidade ao adoptar uma abordagem muito viva que elege os relatos de casos individuais como ponto de partida para a análise de mais de três séculos de história da Inquisição. E são justamente as histórias desses indivíduos - bruxas no México, bígamos no Brasil, marinheiros sodomitas, padres pouco castos, maçons, hindus, judeus, muçulmanos e protestantes - que o autor resgata dos arquivos de Espanha, de Portugal e do Vaticano, para compor um fresco inédito, de grande complexidade e riqueza. Para introduzir um comentário registe-se ou se já é nosso membro, efectue agora a sua identificação. Citações «Green transmite-nos uma mensagem que, pode dizer-se, é assustadoramente actual.» | Sunday Telegraph«Este livro alerta-nos para os perigos de qualquer sistema que persegue e condena aqueles que não partilham dos seus valores.» | Daily Telegraph«Uma descrição vívida da longa e condenável história da Inquisição.» | Sunday Times«Um estudo de grande fôlego sobre a intolerância.» | Guardian
June 17 2010, 2:56am | Comments »
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ROBIN HOOD: A HISTÓRIA POR TRÁS DA LENDA
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Novo texto de João Gouveia Monteiro saído antes no "Diário de Coimbra":Tem estado em cartaz a mais recente adaptação ao cinema da história de Robin Hood. Assinado por Ridley Scott e com Russell Crowe, o filme surpreende, pois a história acaba onde as outras começam: no momento em que Robin se torna num fora-da-lei e se refugia na floresta de Sherwood para fazer a guerra ao xerife de Nottingham e ao rei João Sem-Terra, usurpador do trono do bravo rei Ricardo, ausente nas Cruzadas. Afinal, fora este o enredo que todos nos habituáramos a acompanhar, desde a versão de 1938 com Errol Flynn (o Robin de collants verdes) até ao “Príncipe dos Ladrões” (1991, com Kevin Costner), passando pela comédia dirigida por Mel Brooks (1993) e pela série televisiva com Richard Green, sem esquecer a BD e o “arqueiro verde” Ollie Queen.A equipa de Ridley Scott (“Gladiador” e “Reino dos Céus”) propõe-nos uma revisão da personagem Robin Hood (o nome vem do chapéu com pena, “hood”, e não de “bosque”, “wood”): Robin é um arqueiro que acompanhara o rei Ricardo nas Cruzadas e que, depois da morte deste em 1199, no cerco do castelo de Châlus (no Limousin), regressa a Inglaterra e acaba por vestir a pele do filho de Sir Walter Loxley, Robert, e por ficar com a viúva deste, Lady Marion, tornando-se assim num abastado proprietário de Nottingham. Em pano de fundo, a guerra dos barões do Norte contra o novo rei João Sem-Terra e a rivalidade entre os monarcas de França (Filipe Augusto) e de Inglaterra (sobretudo a disputa pelo ducado da Normandia), bem aproveitada pelos barões para impor a João um documento que este acaba depois por renegar, levando à deserção para Sherwood.A personagem Robin Hood tem algum pedigree. Remete para um poema épico do século XIII e para uma compilação de c.1400 onde se reuniram velhas tradições orais que relacionavam o Robin com a resistência à cobrança abusiva de impostos e com a actividade criminal no Yorkshire. Sabe-se também que os Normandos conquistaram a Inglaterra em 1066, o que viria a dar origem à dinastia dos Plantagenetas, iniciada por Henrique II. Este herdou dos pais vastos territórios em França e casou com Leonor da Aquitânia (ex-rainha de França) antes de se tornar rei de Inglaterra em 1154. Ora, Henrique e Leonor são os pais de Ricardo Coração-de-Leão. Trata-se de reis de Inglaterra mas que vivem sobretudo em França. Em 10 anos de reinado, Ricardo viveu apenas seis meses em Inglaterra! Quando partiu para a Cruzada, vendeu imensos cargos e disse até que teria vendido Londres se tivesse tido comprador… No regresso, foi preso pelo duque da Áustria e vendido ao imperador germânico, tendo então de pagar um resgate brutal que acabrunhou a Inglaterra. Mas reagiu e dispôs-se a enfrentar Filipe Augusto, recusando-lhe a Normandia e tentando manter os castelos que controlavam o acesso ao sul da França (como Châlus). Morreu de uma seta perdida, num cerco. À sua morte, o irmão João assumiu o trono, com a protecção da mãe. Ricardo, graças ao extraordinário administrador Hubert Walter (arcebispo da Cantuária), deixara-lhes uma máquina governativa poderosa e centralizada que não agradava aos barões. Para mais, os grandes tinham tido de pagar um quarto das suas rendas e bens para financiar o resgate de Ricardo! A revolta estalou, com o apoio de Filipe Augusto de França, através do seu herdeiro Luís. João Sem-Terra desposou Isabel de Angoulême para tentar manter a política de Ricardo no Limousin, mas o seu talento militar era fraco e o seu partido seria derrotado por Filipe em Bouvines, em 1214. No ano seguinte, os barões ingleses tomaram Londres e impuseram-lhe um compromisso: a célebre Magna Carta. João fingiu aceitar mas negociou com o Papa, que a invalidou. Aí, os barões ofereceram o trono inglês a Luís de França, que invadiu a Ilha em 1216 e foi reconhecido como monarca pelos grandes e pelo rei escocês. João morreu logo a seguir. Caberia ao notável regente Guilherme-o-Marechal negociar uma nova versão da Carta e salvaguardar a soberania da Inglaterra.É neste cenário que se movimenta Robin Hood, o homem por trás da flecha. Ele é um dos “northeners” prejudicados pelas exacções fiscais impostas desde o tempo de Ricardo e pela centralização do poder régio. A sua luta não consiste em roubar os ricos para dar aos pobres, mas em minar a autoridade central. Se os barões ingleses negoceiam com a França, é porque os dois reinos estavam unidos por valiosos laços comuns. A própria língua (o anglo-normando) o denuncia. Só após a Guerra dos Cem Anos (1453) as águas ficaram separadas. Assim, João Sem-Terra não é o vilão que julgamos. Nem Ricardo o justiceiro que ama a Inglaterra (onde quase nunca esteve) e os seus súbditos. Ridley Scott, apesar de ter aproveitado muita História, não explorou tudo isto, nem quis estragar o cor-de-rosa de uma lenda centenária. Fez bem: afinal, a ficção costuma ser bem mais agradável do que a realidade… João Gouveia Monteiro (Historiador)
June 11 2010, 3:33pm | Comments »
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"CORJA MALDITA" DE ALMEIDA VIEIRA
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Nem lembraria ao diabo que um escritor português fizesse passar uma obra sua por uma obra dele. Mas foi o que lembrou a Pedro Almeida Vieira, autor de aplaudidos romances históricos (“Nove Mil Passos”, 2004; “O Profeta do Castigo Divino”, 2005; e “A Mão Esquerda de Deus”, 2009; todos do prelo da Porto Editora, o último com reedição na Sextante do grupo Porto Editora). Tenho dois exemplares diferentes da mais recente obra dele (ou do diabo, que é, de facto, o narrador), “Corja Maldita” (Sextante, 2010): um deles tem a marca tridentina do demónio, distinguindo-se ainda por apresentar duas folhas rasgadas. A outra possui essas duas folhas, uma das quais é uma autorização à moda do século XVIII. A primeira, bastante rara, só pode ser autografada pelo autor na folha final e não, como é costume, no início.A expressão “Corja maldita” é um dos vários insultos que foram proferidos contra os jesuítas no século do iluminismo. O mafarrico conta a história da expulsão dos jesuítas que se deu em Portugal a 3 de Setembro de 1759, por ordem do Marquês de Pombal, que quatro anos depois ocorreu na França e nove anos depois também na Espanha, para finalmente ser alargada a todo o mundo cristão com a extinção da ordem criado por Santo Inácio de Loiola em 1773 pelo papa Clemente XIV. A data do decreto pombalino de expulsão não foi escolhida por acaso: passava um exacto ano após o atentado ao rei D. José, cuja responsabilidade moral foi atribuída aos jesuítas. A meio desse intervalo de um ano, teve lugar a tortura e execução públicas do duque de Aveiro, do conde de Atouguia e da família dos Távoras, em Belém (no livro, o diabo conta como foi, com pormenores tão realistas como horripilantes). E, na véspera dessa execução, foi preso o padre jesuíta Gabriel Malagrida, que haveria de ser executado por garrote em 21 de Setembro de 1761, num auto-de-fé no Rossio, sendo queimado na fogueira da Inquisição. Ele era culpado de ter dito que o grande terramoto de Lisboa em 1755 tinha sido “castigo divino”. Aliás, o romance anterior de Pedro Almeida Vieira, para o qual o mais recente remete, conta a história atribulada desse padre italiano que, depois de andar pelo Brasil, teve o azar de ser a última vítima da fogueira do Santo Ofício. O caso correu a Europa e levou Voltaire a dizer que “um excesso ridículo e absurdo junto ao excesso de horror”.O novo romance histórico distingue-se dos anteriores do mesmo autor por ter, na forma, maior dose de imaginação, mantendo-se o conteúdo fidelíssimo aos factos. Almeida Vieira tem estudado o século XVIII e os seus escritos denotam um bom conhecimento do período. Além de romance histórico, a omnipresença de Satanás, que em interlúdios dialoga com a alma penada do padre Malagrida (o qual esgota o rol de nomes do diabo que vem no dicionário Houaiss!), torna-o uma peça de literatura fantástica, para além de, talvez acima de tudo, ser um escrito satírico-humorístico, uma paródia literária que também assume o género jornalístico uma vez que o autor, com a ajuda de um “wormhole”, é enviado ao século XVIII para fazer a cobertura em directo dos acontecimentos e escreve artigos que, no estilo, são perfeitamente modernos. Assina peças com o seu próprio nome e com engraçados nomes que são anagramas do seu, Mário Ladeira Pevide e Valério Piedade Mira. Por seu lado, Belzebu, porque viaja com facilidade no tempo e no espaço, consegue dar uma pincelada rápida da nossa situação política actual, comparando em linguagem barroca a marcha vagarosa e cheia de solavancos da carruagem do Marquês por estradas alentejanas a essa carruagem que é Portugal na via do progresso. Vale a pena ler um excerto aqui.Quem foi, de facto, o Marquês de Pombal? Agustina Bessa-Luís foi autora de uma biografia literária do Marquês “Sebastião José” (Imprensa Nacional, 1981), onde descreve assim o personagem:“Devia ser homem paciente, como são os que aspiram longe, ou ao céu ou ao poder, que é o céu aos quadradinhos. Não era um santo, Sebastião José. Mas não era medonho como às vezes querem mostrar. (...) Não é possível exercer o poder sem que a crueldade intervenha como uma espécie de elixir da longa vida. Ela tem razões para fazer durar o que parece efémero, e que é o poder dos homens”.Se os romancistas tentam descrever e interpretar o primeiro-ministro de D. José (e, com isso, perceber melhor a nossa actualidade), o mesmo acontece, embora evidentemente com menor liberalidade, com os historiadores. O historiador britânico Kenneth Maxwell juntou ao título do seu livro “Marquês de Pombal” (Presença, 2001) o subtítulo “Paradoxo do Iluminismo”. Descreve os feitos do Marquês. Mas não deixa de incluir a descrição do Marquês antes de ele o ser, feita pelo embaixador britânico em Lisboa nos últimos anos do reinado de D. João V, deixando-nos dúvidas sobre se ele era, de facto, iluminado:“É uma pobre cabeça de Coimbra como nunca vi outra; sendo tão teimoso, tão obtuso, tem a verdadeira qualidade do asno(...) Só devo dizer que um pequeno génio que tem o intelecto para ser grande génio em um país pequeno é um animal muito difícil.” Certo é que o Marquês reconstituiu Lisboa, perante a inacção de um rei escondido numa barraca, e reformou a Universidade de Coimbra, por onde ele passou fugazmente como estudante, perante alguma degradação do ensino jesuítico (muito exagerada nos documentos da reforma). Essas marcas ficaram. Mas não menos certo é que, graças ao controlo da Inquisição e da Real Mesa Censória, os livros de Voltaire e de Locke eram proibidos em Portugal no século das luzes. Em contraponto, a auto-propaganda do Marquês foi imensa. O país conservou, em muitos aspectos, as luzes apagadas, e essas marcas também ficaram.É, por isso, muito difícil - e, além do mais, redutor - dizer quem são os bons e os maus nesta guerra entre o Marquês e os jesuítas. Passados 250 anos após a expulsão dos jesuítas, as feridas não estão saradas pois uma revista dos jesuítas comparava, há poucos anos, os métodos do Marquês com os que foram usados por Estaline e por Hitler. O recente romance do talentoso Almeida Vieira, escritor nascido em Coimbra (e formado em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora, que foi outrora dos jesuítas), lê-se muito bem e é mais uma contribuição, sob uma forma nada convencional, para a análise de um período histórico em que Portugal, para o bem e para o mal, foi singular no mundo.
June 4 2010, 5:24am | Comments »
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LIVROS NO PARQUE
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Minha crónica no "Público" de hoje:Um livro é um objecto com um design tão perfeito que nunca poderá ser inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais foi substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, não necessita de electricidade, nunca avaria. Passa bem de uma mão para a outra, quer dizer, é um bom presente para oferecer. Damos um livro bom a alguém de quem gostamos e damos um livro muito bom a alguém de quem gostamos muito. Por alguma razão não houve ainda nos livros, nem provavelmente vai haver, a revolução que houve na música, com a brutal diminuição das lojas de discos em favor das descargas digitais.Os livros estão no Parque Eduardo VII, em Lisboa, até 16 de Maio e, a partir de 27 de Maio, estarão nos Aliados, no Porto. Como vem sendo habitual, deixo, à guisa de sugestão, uma lista de uma mão cheia de livros recentemente saídos entre nós (a ordem é alfabética de autor):- Mário de Carvalho, A Arte de Morrer Longe, Caminho. Novo livro de um dos romancistas que melhor observam a nossa contemporaneidade. O país em que os funcionários, em vez de funcionarem, se entretêm na Internet fica retratado através da criação de um personagem que “aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem”, escrevendo coisas como “Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!!!”.- Eugénia Cunha, Como nos tornámos humanos, Imprensa da Universidade de Coimbra. A conhecida antropóloga forense, a quem ainda não deixaram examinar o esqueleto de D. Afonso Henriques, descreve a evolução humana numa colecção de livros de bolso populares inspirada na Que Sais-Je?. Num recente debate sobre a história da vida na Terra, depois de paleontólogos terem exibido ossos de animais desaparecidos, a antropóloga comentou que não precisava de trazer materiais, pois havia exemplares da espécie humana na plateia...- Bernard Cornwell, Sharpe e a Batalha do Buçaco, 5.ª edição, Planeta. A 1.ª edição portuguesa deste romance histórico é de há cinco anos, mas esta edição vem mesmo a propósito do bicentenário da batalha do Buçaco, que se vai comemorar a 27 de Setembro. O romancista inglês narra as aventuras do capitão Sharpe, a combater às ordens de Wellington (ainda hoje se pode ver no Buçaco a oliveira onde esteve preso o cavalo do general). O leitor pode inteirar-se neste livro do saque francês a Coimbra, com mais de um milhar de mortos, o assalto à Universidade e a profanação dos túmulos reais.- Joaquim Fernandes, Mitos, Mundos e Medos. O céu na poesia portuguesa da tradição popular ao século XX, Temas e Debates/ Círculo de Leitores. O jornalista e historiador portuense, após um prefácio do poeta Manuel António Pina sobre as relações entre ciência e poesia, passa em revista a produção poética nacional de temática astronómica, desde tempos imemoriais até ao “cometa da República”, o Halley, que surgiu nos céus em Maio de 1910, pouco antes do 5 de Outubro.- Eduardo Marçal Grilo, Se não estudas, estás tramado, Tinta da China. De um prelo que se tem notabilizado pela qualidade gráfica das suas edições, eis um novo livro do ex-ministro da Educação que se distinguiu pela sua invectiva contra o “eduquês”(“Deixem de falar eduquês!”). Custa-nos hoje a crer que o “eduquês”, não só uma linguagem mas também e sobretudo uma ideologia, tenha continuado a arruinar a educação nacional sob a égide de um homem da educação e da cultura tão esclarecido e crítico.- Ian McEwan, Solar, Gradiva. O último romance do consagrado autor inglês versa o tema do aquecimento global. Num registo irónico, enreda o leitor na tragicomédia de um Prémio Nobel da Física que de certa forma representa uma humanidade desenfreadamente consumista.- Silvan Schweber, Einstein & Oppenheimer. O Significado do Génio. Bizâncio.Um historiador de ciência norte-americano compara dois grandes génios do século passado que estiveram relacionados com a proposta e construção da bomba atómica. Um confessou arrependido “fui eu que carreguei no botão” e o outro afirmou amargurado “os físicos conheceram o pecado”.Boas leituras!
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May 6 2010, 6:50pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O cometa da República
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/o-cometa-da-republica.html
Informação recebida da Temas e Debates:Não é mais um livro; é o livro que esperou um século para ser escrito. Investigação singular para um acontecimento singular, reveladora da nossa vulnerabilidade face ao espaço cósmico, esta obra revela às presentes gerações de que modo os nossos medos ancestrais determinam os nossos comportamentos extremos quando está em causa a sobrevivência. Em 1910 como no futuro.ConviteO Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de convidar para apresentação do livro Halley-O Cometa da República, da autoria de Joaquim Fernandes, que se realiza no dia 18 de Maio, às 18.30 horas, na Livraria Bertrand, na Rua Garrett, 73-75, (no Chiado, em Lisboa).O livro será apresentado por Joaquim Vieira, director do Observatório de Imprensa,e Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.Da contra-capa da obra:O pânico da passagem do cometa de Halley em PortugalCelebrando-se em 2010 o Centenário da instauração da República em Portugal, decorre também um século sobre o maior evento de medo colectivo vivido pela população portuguesa no decurso da sua História.São expostos os nexos e fortuitas relações - acasos e coincidências inscritos na história da Astronomia - entre ambos os acontecimentos ocorridos nesse mesmo ano: cerca de cinco meses depois da sua passagem próxima da Terra, em Maio, o cometa de Halley viria a ser lembrado como uma espécie de mensageiro, anunciador da primeira mudança de regime político em Portugal desde a fundação da nacionalidade.Por tal motivo, o mais popular cometa da História humana pode ser etiquetado pelo inconsciente colectivo nacional como "o cometa da República".Muitos dos temas que emergiram na sociedade portuguesa, a pretexto da aproximação do tão temido cometa, foram usados como arma ideológica pelos republicanos contra os suportes sociais, mentais e religiosos da Monarquia.As fragilidades mentais do Portugal profundo, inseguro e supersticioso, vieram ao de cima, em todo o seu esplendor trágico e cómico. Como nos grandes dramas clássicos ou da antecipação científica, a sociedade portuguesa viveu, de facto, o transe de uma noite de "fim do mundo" !
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May 4 2010, 3:32pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O cometa da REpública
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/o-cometa-da-republica.html
Informação recebida da Temas e Debates:Não é mais um livro; é o livro que esperou um século para ser escrito. Investigação singular para um acontecimento singular, reveladora da nossa vulnerabilidade face ao espaço cósmico, esta obra revela às presentes gerações de que modo os nossos medos ancestrais determinam os nossos comportamentos extremos quando está em causa a sobrevivência. Em 1910 como no futuro.ConviteO Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de convidar para apresentação do livro Halley-O Cometa da República, da autoria de Joaquim Fernandes, que se realiza no dia 18 de Maio, às 18.30 horas, na Livraria Bertrand, na Rua Garrett, 73-75, (no Chiado, em Lisboa).O livro será apresentado por Joaquim Vieira, director do Observatório de Imprensa,e Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.Da contra-capa da obra:O pânico da passagem do cometa de Halley em PortugalCelebrando-se em 2010 o Centenário da instauração da República em Portugal, decorre também um século sobre o maior evento de medo colectivo vivido pela população portuguesa no decurso da sua História.São expostos os nexos e fortuitas relações - acasos e coincidências inscritos na história da Astronomia - entre ambos os acontecimentos ocorridos nesse mesmo ano: cerca de cinco meses depois da sua passagem próxima da Terra, em Maio, o cometa de Halley viria a ser lembrado como uma espécie de mensageiro, anunciador da primeira mudança de regime político em Portugal desde a fundação da nacionalidade.Por tal motivo, o mais popular cometa da História humana pode ser etiquetado pelo inconsciente colectivo nacional como "o cometa da República".Muitos dos temas que emergiram na sociedade portuguesa, a pretexto da aproximação do tão temido cometa, foram usados como arma ideológica pelos republicanos contra os suportes sociais, mentais e religiosos da Monarquia.As fragilidades mentais do Portugal profundo, inseguro e supersticioso, vieram ao de cima, em todo o seu esplendor trágico e cómico. Como nos grandes dramas clássicos ou da antecipação científica, a sociedade portuguesa viveu, de facto, o transe de uma noite de "fim do mundo" !
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May 2 2010, 4:41am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Vem recriar a tua interpretação de forma lúdico-pedagógica
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/vem-recriar-tua-interpretacao-de-forma.html
No dia 10 de Junho próximo, a revista Forúm Estudante comemora, pela primeira vez, o Dia da História, o que se traduz num concurso nacional dirigido a alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Essa iniciativa, que decorre durante todo o dia, terá por cenário o Castelo de S. Jorge, em Lisboa. Se o leitor estiver a par do modo como é (mal)tratada a História nos sistemas educativos ocidentais, não poderá deixar de pensar: excelente iniciativa e excelente sítio!O sítio é, na verdade, excelente, mas a inciativa... Explico o que justifica as minhas reticências, tomando a liberdade de sublinhar algumas expressões contestáveis:"Vem recriar a História de Portugal. Com a tua Escola, escolhe um facto da nossa História e através do teatro, da música, da dança ou da internet, vem apresentar a tua interpretação..."... "tem por objectivo proporcionar um aprofundamento do conhecimento da História de Portugal, de forma lúdico-pedagógica e em clima de festa."Considero que se trata de expressões que podem desencadear equívocos por parte dos alunos, o que se deveria pugnar por não acontecer. Explico: .Por um lado, é possível os alunos entenderem que, não obstante a sua condição de aprendizes, podem, com legitimidade, fazer, ter e apresentar publicamente "a sua interpretação" de factos históricos. Ora, a interpretação de factos históricos deve estar reservada aos especialistas que, em virtude de os terem estudo e de, por isso, os conhecerem a fundo, têm legitimidade para se pronunciarem interpretativamente acerca dos mesmos. Logo, quem dá os primeiros passos no conhecimento dos factos históricos deve, neste tipo de circunstância, representá-los; não recriá-los segundo a sua versão. Dar-lhes a entender o contrário é enganá-los ou enganarmo-nos..Por outro lado, o lúdico e o pedagógico têm um lugar distinto, ainda que fundamental, na vida dos jovens. O lúdico não é suportado, nem tem de ser, em conhecimento científico; o pedagógico não pode deixar de o ser..Neste passo, devemos perguntar quem apoia esta iniciativa? Quem a apoia é o Ministério da Educação através da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular; a Câmara Municipal de Lisboa através dos pelouro da Cultura e Turismo e da Educação e Juventude); do Castelo de S. Jorge; a Associação de Professores de História e o Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica Portuguesa. .A sociedade portuguesa, portanto!.Para mais informações sobre o assunto pode consultar o sítio da DGIDC.
April 28 2010, 12:52pm | Comments »








