Segunda parte do texto do post anterior, extraído do "Universo, Computadores e Tudo o Resto" (na imagem, Immanuel Kant, c. 1775):Vou analisar, num breve bosquejo, dois personagens que caracterizaram os anos seguintes aos de Newton: tratam-se de excelentes exemplos de pensamento autónomo, um na esteira das ideias newtonianas e o outro decididamente avesso a elas.Refiro-me aos alemães Kant e Goethe, que influenciaram o pensamento europeu no século das luzes. Emmanuel Kant, apesar de admirador de Newton, veio a interessar-se mais pelo "nomenal" do que pelo "fenomenal". Johann Wolfgang Goethe, crítico feroz de Newton, chegou a trocar a óptica oficial por uma duvidosa "doutrina das cores" que relevava mais o psicológico do que o físico. A Kant se deve, em larga medida, o afastamento da Física e da Filosofia. A Goethe se deve, em boa parte, a separação da ciência e da poesia. No século XVIII, a Física divorcia-se dos outros saberes humanos e foge, apressadamente, para a frente.Kant estudou a mecânica newtoniana e ficou desde logo marcado por um autor que, para ele, "personificava" a própria ciência. Aceitou, tal como Newton, de bom-grado o primado da Matemática, tendo chegado a afirmar que "em toda a teoria particular da natureza, só há ciência propriamente dita na medida que houver Matemática". Se se atentar nas suas biografias, Kant e Newton têm, de resto, bastante em comum: ambos morreram velhos, prestigiados e solteirões...Em 1755, quando a terra treme em Lisboa (diga-se de passagem que Kant ficou tão impressionado com essa catástrofe que escreveu duas obras sobre terramotos) Kant entrava como "Privatdozent" da sua Universidade de Koenigsberg e publicava uma das suas obras pré-críticas mais importantes: "Allgemeine Naturgeschischte und Theorie des Himmels" ("História Natural Geral e Teoria do Céu"). Esse livro é singular por razões que se prendem com a percepção pelo autor da complexidade e historicidade cósmicas. Aí se apresenta, pela primeira vez, uma causa natural e coerente para a origem do mundo.O mundo teria evoluído de uma situação caótica (a palavra caos, hoje tão em voga, aparece repetidamente em Kant). Kant chama "universos-ilha" às galáxias que então se começavam a observar e apercebe-se da imensidão do cosmo no espaço e no tempo. Desenvolve uma teoria de formação do sistema solar que, no essencial e depois dos refinamentos do francês Pierre Simon de Laplace e outros, ainda hoje se mantém. Afirma Kant, peremptório: "Dêem-me matéria e eu dar-vos-ei um mundo". Deus só é necessário como mero fornecedor de matéria-prima, tudo o resto aparecendo em resultado de auto-organização. A visão retrospectiva do universo kantiano contrasta com a visão prospectiva de Newton: Kant diz que o mundo é assim porque outrora foi de outra maneira. Newton diz que o mundo será amanhã de outra maneira porque hoje é assim. Mas os dois concordam na capacidade de previsão, baseada em leis.Depois, Kant afasta-se do edifício da Física, para alicerçar a metafísica. Deixa o mundo observado para se dedicar ao mundo do observador. Discute nas duas "Críticas da Razão" as condições e possibilidades de observação e compreensão. Não é o objecto que está no centro e o observador à volta, mas o observador que está no centro e os objectos à volta. Conclui a sua discussão com uma sentença que ficou famosa: "Duas coisas enchem a alma de admiração e respeito sempre novos e crescentes(...): o céu estrelado por cima de mim e a lei moral dentro de mim". A doutrina kantiana teve uma influência decisiva em muitos físicos, como Einstein, para quem Kant foi o "único filósofo que teve alguma coisa a dizer a um cientista". Mas representa decisivamente, o ponto de rotura da Física com a metafísica. A partir de então, a decifração da realidade física passa a ser especializada e assunto de especialistas.Goethe, quase uma geração mais novo que Kant, leu a obra do filósofo de Koenigsberg (já o inverso não é verdade uma vez que Kant ignorou praticamente Goethe, para grande consternação deste). Não é preciso conhecer em profundidade a biografia de Goethe para se saber que a sua vida amorosa foi diametralmente oposta às de Newton e de Kant. Uma das suas inúmeras amadas foi Frau Charlotte von Stein, uma senhora casada a quem, num belo dia de 1781, enviou os seguintes versos: PENSAMENTOS NOCTURNOS "Lastimo-vos ó estrelas infelizes, Que sois belas e brilhais tão radiosas, Guiando de bom agrado o marinheiro aflito Sem recompensas dos deuses ou dos homens: Pois não amais, nunca conheceste o amor! Continuando horas eternas levam As vossas rondas pelo vasto céu. Que viagens levaste já a cabo! Enquanto eu, entre os braços da amada, De vós me esqueço e da meia-noite."Repare-se na aversão à astronomia, no desdém pelas estrelas que tinham sido o motivo central da obra de Newton ("não presteis a mínima atenção aos newtonianos", advertia Goethe). É também conhecida a sua aversão à matemática ("matematizar é matar", escreveu). À análise experimental preferia a síntese poética. Admirava a natureza de uma maneira diferente, a maneira dos poetas.Menos conhecido que a polémica da "doutrina das cores" é o interesse de Goethe pela classificação das plantas em tipos e pelos variados processos de "metamorfose" a partir de uma "Urpflanze", a planta primordial. O tipo corresponderia à unidade, enquanto a metamorfose corresponderia à evolução. As suas qualidades de observador judicioso do mundo botânico nem sempre têm sido devidamente ponderadas e divulgadas. Mais do que a majestade e a rigidez dos astros interessava-lhe a maravilha da Biologia, que não obedece à lei da gravitação (as plantas crescem para cima!) nem a uma qualquer outra lei matemática simples. É esta desobediência, este capricho e variabilidade permanentes, que enchem a alma do poeta.Porém, tanto Emmanuel Kant como Johann Wolfgang Goethe tinham algo em comum com Isaac Newton e alguns físicos modernos, os físicos, digamos, mais optimistas. Cito aqui o físico Henry Margenau, que escreveu no livrinho "Os Elementos Metafísicos da Física":"Permitam-nos que preste homenagem a uma construção, na qual, apesar do seu carácter nitidamente ultra-perceptível, ainda acreditam quase religiosamente muitos dos mais eminentes físicos vivos. Referimo-nos ao pressuposto da existência de uma realidade última, para a qual a realidade dinâmica tende lentamente. Isso não passa no entanto de uma simples aspiração, de uma esperança, de uma profissão de fé, a que aliás se ligam os nomes geniais de um Platão, de Kant e de um Goethe."É pois claro que tanto Newton como Kant e Goethe permanecem actuais. Como eles, os físicos modernos confiam na existência de um "plano das coisas", confiam em que a realidade é de todo decifrável. Mas como se decifra hoje a realidade natural?Queria chamar a atenção para um novo aspecto metodológico que marca não só a forma como o conteúdo da ciência moderna. Para nos auxiliar na compreensão da complexidade dos factos avulsos dispomos actualmente de um instrumento desconhecido de Newton, Kant e Goethe, que está a permitir uma terceira via entre teoria e experiência. Quando a escolha parece limitada a dois caminhos, há sempre vantagem em procurar um terceiro. Esse instrumento é o computador e a terceira via consiste na simulação computacional da natureza.O papel do observador em astronomia é limitado e passivo, porque as luas, os planetas, as estrelas e as galáxias permanecem, felizmente, fora do alcance das nossas possibilidades de manipulação. É tecnicamente impossível parar a Lua e medir quanto tempo ela demoraria a cair sobre as nossas sapientes cabeças. Não podemos subtrair as luas a Júpiter ou Neptuno, nem pôr a Via Láctea a girar em sentido contrário. Por muita perícia e astúcia que tenha o experimentador, os céus estão ao abrigo dos seus actos mais malvados. O poder da ciência de Newton não significa posse material, absoluta, porque a Terra é a Terra e o Céu, lá no alto, é o Céu.Com o computador é, no entanto, possível uma certa "posse", ainda que lúdica e inofensiva, das coisas da Terra e do Céu. Podem lançar-se luas no écrã de um computador, se introduzirmos neste um programa que contenha, codificadas, as leis do movimento na mecânica newtoniana. Com esse programa, "mutatis mutandis", pode brincar-se com uma, duas, muitas estrelas, ou com uma, duas, muitas galáxias. O código da Física ("software") é universal e o grande computador analógico ("hardware") que é afinal o universo pode ser recriado num computador digital. O computador permite uma cópia do universo ou de parte dele.Numa experiência computacional, observa-se com grande pormenor uma parte do mundo. Uma simulação computacional, embora seja mais suave ("soft") do que uma experiência tradicional, apresenta muitas afinidades com esta, podendo até substituí-la em muitas circunstâncias. Para um habitante inteligente de uma galáxia distante, uma experiência tradicional e uma experiência computacional realizadas por terrestres são praticamente indistinguíveis. Na primeira, manipula-se e interroga-se um bocado de matéria qualquer, ao passo que na segunda se inquire um bocado de matéria - o computador - cujas partes se reuniram com um dado propósito. Na primeira, age-se sobre uma natureza em princípio desconhecida e vê-se como ela responde, ao passo que na segunda se introduz um código num dispositivo em princípio conhecido e se analisam os resultados para compreender todas as implicações do código, isto é, conhecer melhor o que está codificado. Se houver ciência e paciência, pode voltar-se atrás quantas vezes se quiser, reescrever o código e corrê-lo de novo. Cria-se assim no computador um universo de "faz-de-conta", que nos permite, se formos hábeis e bem sucedidos, novas decifrações de uma realidade multifacetada. Compreender é neste caso imitar a natureza, recriar a complecixidade dos factos na simplicidade de um algoritmo (o código deve ser, evidentemente, mais breve do que o respectivo resultado). As leis - chamemos-lhes leis por conveniência de linguagem embora se tratem de procedimentos computacionais - devem ser mais simples do que o floreado de todas as suas consequências.O físico, diante de uma máquina, pode assim assistir ao grande espectáculo colorido e tridimensional tanto do mundo real como, eventualmente, de mundos que apenas existem na imaginação. Pode simular em Abril a aproximação da nave "Voyager" de Neptuno, que só vai ter lugar em Agosto. Pode simular a formação do sistema solar, apesar de ninguém lá ter estado ao vivo. Pode fazer colidir numa fracção de segundo galáxias que, de facto, colidem ao longo de milhões de anos. Pode ainda, por exemplo, deleitar-se com o movimento de meia dúzia de estrelas no écrã que, como alguém sugestivamente descreveu, entram em cena para um bailado cósmico e saem no fim de terminada a actuação.Com o auxílio do computador, pode o físico fazer crescer plantas em câmara rápida, compreender a divisão morfológica das plantas e pesquisar se existe ou não um tipo primordial de planta. Pode criar begónias com a mesma facilidade com que cria espécies fantásticas inexistentes (ou talvez existentes apenas num recanto perdido da Amazónia). Pode criar paisagens luxuriantes e assistir à espantosa alquimia das plantas. Pode até engendrar frondosas macieiras, de onde caem maçãs, em obediência estreita às leis de Newton.Nem Kant nem Goethe teriam desdenhado um auxiliar tão precioso. Assim, alguns dos actuais manipuladores de instrumentos computacionais não se esquecem de os invocar. É curioso referir que o físico norte-americano Mitchell Feigenbaum, um dos criadores da moderna teoria do caos, foi encontrar numa estante universitária a "Teoria das Cores" de Goethe, que já todos julgavam perdida para a ciência. Convém acrescentar que o químico alemão Manfred Eigen, Prémio Nobel da Química, quando fala dos jogos computacionais da criação da vida, não se esquece de citar Goethe e referir a obsessão deste pela metamorfose dos seres vivos. Importa, finalmente, notar como a classificação das catástrofes do matemático francês René Thom e os seus ensaios sobre ciência qualitativa se aproximam da classificação dos tipos proposta por Goethe.O trabalho criativo dos físicos é pois hoje recriação de (e recreação com) uma natureza complexa. As leis, em vez de regulamentos rígidos e limitativos, são antes vistas como regras ou algoritmos, maleáveis e generalizáveis, que dão lugar a sucessos a e insucessos, à sobrevivência ou à não sobrevivência, tanto de estrelas e planetas como de animais e plantas. A Biologia, onde pareciam não vigorar quaisquer leis além da regra darwiniana do triunfo do mais apto, e a Física estão a aproximar-se. A Biologia apresenta-se como o futuro da Física. Por paradoxal que seja invocar um adversário de Newton para enaltecer a arquitectura do Universo, fiquem algumas palavras, optimistas, de Goethe sobre a perenidade da Física. O poeta escreveu sob o título "Testamento": "Confia alegre e feliz sempre no ser! Que o ser é eterno: existem leis para conservar vivos os tesouros dos quais o universo se adornou".
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A DECIFRAÇÃO DA REALIDADE 2
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July 12 2009, 7:29pm | Comments »
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A DECIFRAÇÃO DA REALIDADE 1
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Texto publicado no meu livro "Universo, Computadores e Tudo o Resto" (Gradiva, 1994) que entretanto se encontra quase esgotado no editor. Devido à sua extensão divido-o em duas partes, o primeiro sobre Newton e o segundo sobre o newtoniano Kant e o anti-newtoniano Goethe:Existem muitas realidades: a realidade para um físico é diferente, por exemplo, da realidade para um filósofo ou da realidade para um poeta. Os físicos chamam realidade a tudo o que, de uma maneira ou de outra, conseguem observar com os seus instrumentos. Os filósofos e os poetas chamam realidade a outros mundos e estão, bem entendido, no seu pleno direito.Consideremos a realidade física. A realidade, vista pelos físicos, revela-se extremamente rica e variada. O "milagre" que possibilita a Física consiste no facto notável de serem possíveis descrições simples do mundo natural, que tem uma aparência complexa. É esse "milagre" - o facto de uma compreensão do real ser de todo possível - que permite a empresa científica e todos os seus resultados culturais, sociais e económicos. Para o físico norte-americano de origem alemã Albert Einstein, "o que há de mais incompreensível na natureza é o facto de ela poder ser compreendida".A verificação de que enunciados sucintos permitem abarcar uma multidão imensa de fenómenos, aparentemente díspares, constitui, mesmo para os próprios físicos, um motivo de permanente surpresa e encantamento.Foi o inglês Sir Isaac Newton o primeiro a experimentar o deslumbramento de uma compreensão unificada do mundo físico. Até ao século XVII, a Lua, os planetas e as estrelas moviam-se ao longo das circunferências de Ptolomeu segundo uma ordem que era estranha ao que se passava no centro de todo o sistema. Havia uma Física do Céu e uma Física da Terra, o que significa, afinal, que não havia Física nenhuma. A história da maçã e da Lua é uma bela parábola sobre a conciliação entre a Terra e o Céu que se dá na mente, subitamente desperta, de Newton.Com Newton iniciou-se pois a Física, que mais não é do que o trabalho dos físicos para harmonizar as várias porções do mundo natural que teimam em parecer desconexas. A decifração da realidade física consiste em descobrir os grandes princípios ou leis que tornam inteligíveis os fenómenos avulsos. Compreender os fenómenos físicos consiste em estabelecer paralelos, analogias, regularidades.A primeira grande lei da Física - a lei da gravitação universal - constitui um quadro geral da descrição do movimento de maçãs e luas, de Júpiter e dos seus satélites, do Sol e das outras estrelas, da nossa e das demais galáxias, dos enxames de galáxias e de tudo o resto do "grande jardim zoológico" dos céus. Sabia-se, desde as experiências do italiano Galileu Galilei, como as maçãs e outros graves caíam. Sabia-se, desde as observações do astrónomo dinamarquês Tycho Brahe analisadas pelo seu discípulo alemão Johannes Kepler, como as luas e outros astros se moviam. Passou-se a saber, com a aceitação da lei da gravidade, que as luas também caem e que o fazem da mesma maneira que as maçãs. Pode dizer-se que caem muito pouco: a nossa Lua, por cada quilómetro que anda, cai de um mísero milímetro em relação à trajectória que descreveria se não existisse a força de atracção da Terra. E, todavia, cai. Tanto maçãs como luas são atraídas pela Terra na razão inversa do quadrado da distância.A história original da Física, como em geral todas as grandes histórias originais, contém um ensinamento profundo: ensina que a experiência, a prática manual, e a teoria, a especulação mental, se impregnam e fecundam. A teoria da gravitação foi proposta para encaixar dados experimentais sobre a queda da Lua e da maçã. Em Física, uma teoria é espúria se não for avaliada pela natureza. Por isso, nem toda a especulação é lícita a um físico sensato. Mas, felizmente, há mais gente, que tenta decifrar outras realidades par além daquela estritamente mensurável.A lei da gravitação, que tão bem descreve a macroeconomia do cosmo, tem servido de inspiração na busca de outras leis físicas. Procuraram-se, por exemplo, as leis da electricidade e magnetismo à imagem e semelhança da lei da gravitação de Newton. Verificou-se que a força eléctrica entre duas cargas é, tal como a força de gravitação, inversamente proporcional ao quadrado da distância. Essa razão, se mais não houvesse, bastaria para tentar unificar os dois tipos de força. É tarefa ainda não concluída, mas os físicos, esses eternos optimistas, esperam um dia concluí-la. Têm boas razões para o seu optimismo, porque a natureza costuma ser magnânima a deixar juntar o que está, aparentemente, separado. Costuma ser mais optimista do que eles.Foi a confiança em Newton e na sua lei da gravitação e algum engenho na observação das luas de Júpiter que permitiu determinar a velocidade da luz, pelo dinamarquês Olof Roemer logo no século XVII.É a confiança ainda em Newton e na sua lei universal que nos permite hoje saber, com antecedência, como e quando a nave "Voyager 2" vai passar perto de Neptuno e da sua lua Tritão. Tornámo-nos crianças travessas que, não contentes em deixar cair maçãs ao chão, lançam maçãs ao espaço e perturbam, ainda que tenuamente, o equilíbrio milenário entre Neptuno e a sua lua maior.É ainda a confiança em Newton e na sua lei que nos permite afirmar que existe um halo de matéria escura no universo, isto é, uma parte invisível do mundo que atrai tudo o resto. O conhecimento quantitativo dessa matéria escura será essencial para averiguar o nosso destino cósmico. Newton triunfou, portanto. Com ele triunfou uma certa estratégia de decifração da realidade que se baseia na formulação de hipóteses teóricas, na sua confirmação ou infirmação pela experiência, e na redução dos fenómenos a fórmulas matemáticas concisas. É o chamado método científico.Newton teve uma corte de seguidores e adversários. Dos seguidores estão repletos os compêndios de ciência. Os adversários, que são raros na comunidade dos físicos, consideraram as concepções de Newton autoritárias, castradoras mesmo. O mundo seria tratado na mecânica clássica como uma instituição militar, sendo as respectivas leis um regulamento de disciplina. Não haveria espaço para a imaginação e o livre arbítrio. Há que reconhecer que houve manifestamente abusos de poder feitos pelo e em nome do grande cientista inglês. A ciência nunca é estranha à personalidade dos seus autores e Newton era um personagem forte, arrogante e intimidatório, que moldou com o seu estilo a ciência transmitida às gerações seguintes.
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July 12 2009, 7:25pm | Comments »
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GRANDES ERROS - AFONSO DOMINGUES ENGENHEIRO?
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Ontem, tive a oportunidade de assistir a uma muito interessante palestra do Engenheiro Jorge Lourenço, professor de Engenharia Civil no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, no átrio central do Centro Comercial Dolce Vita em Coimbra (na foto, palestra do mesmo professor no mesmo sítio há três anos).A palestra intitulou-se"A Construção de catedrais góticas ou a história da Engenharia Civil". A propósito da segurança estrutural "garantida" pelos construtores de catedrais góticas, o orador não se coibiu de apontar, entre vários outros, um grande erro que encontrou numa obra encomendada pelo Colégio de Engenharia Civil da Região Norte da Ordem dos Engenheiros, da autoria do historiador Adriano Vasco Rodrigues, "História Breve da Engenharia Civil. Pilar da Civilização Ocidental", Ordem dos Engenheiros - Região Norte, 2006. A propósito da construção do Mosteiro da Batalha, escreve Vasco Rodrigues:"A edificação da igreja do Claustro, Sala do capítulo, Capela do Fundador e começo do Panteão de D. Duarte, realizadas ao longo de 50 anos, corresponde ao gótico joanino, devendo a orientação e planificação do Mestre Afonso Domingues (1388/1402), verdadeiro engenheiro pelo conhecimento matemático e físico com que resolveu o problema das estruturas da abóbada da igreja, obra-prima da Engenharia medieval."Verdadeiro engenheiro? Conhecimento matemático e físico nos séculos XIV e XV? Indigna-se, justamente, o Engenheiro Jorge Lourenço. E comentou: "Não se deve tocar rabecão por simples vontade, ou encomenda".Em contraponto, recomendou a obra do Engenheiro J. E. Gordon, "Structures or why things don't fall down", Penguin, 1978 (que eu também recomendo e vivamente, trata-se de uma das grandes lacunas da tradução da divulgação científico-técnica em Portugal), onde o autor afirma o seguinte sobre a construção das catedrais góticas:"(...) Os mestres medievais sabiam muito como construir igrejas e catedrais e por isso muitas vezes o fizeram de forma excelente e altamente satisfatória. Contudo, se tivessem a oportunidade de pergunta a um mestre como o fez realmente e porque resiste, a resposta seria algo como esta: - O edifício resiste graças às mãos de Deus. Sempre que construímos seguimos fielmente as regras e segredos tradicionais do nosso ofício".(...) "O Prof. Jacques Heyman demonstrou concludentemente que os mestres das catedrais, em nenhum caso, pensavam e projectavam de forma moderna. Apesar de muitas das realizações dos artesões medievais serem impressionantes, as bases intelectuais das suas regras e segredos não eram muito diferentes das de um livro de receitas de cozinha. O que esta gente fazia era construir algo muito parecido com o que se havia feito imediatamente antes."
July 7 2009, 3:37pm | Comments »
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AMESTERDÃO, TERRA DE ESPINOSA
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Do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005) recupero este texto sobre Amesterdão e os judeus portugueses (o quadro de 1675, de de Witte, mostra o interior da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão):De Lisboa a Amesterdão é um pulo de pouco mais de duas horas. Sai-se do largo Tejo e entra-se nos estreitos canais nórdicos à volta do Amstel. Foi de Lisboa, no século XVI (quando, escusado será dizê-lo, não havia aviões que encurtassem as distâncias), que partiram os primeiros judeus a obter a nacionalidade holandesa. Pertenciam à comunidade sefardita, perseguida à beira do Tejo mas recebida nas margens do Amstel.Hoje a Sinagoga Portuguesa é um dos principais monumentos da cidade: situa-se no Mr. Visserplein (“plein” significa praça) perto do centro. Foi mandada construir precisamente pela comunidade sefardita portuguesa copiando o templo de Salomão. Perto dessa sinagoga, na Sint Antoniesbreesstraat (“straat” significa rua) fica a “Pintohuis”, literalmente “Casa do Pinto”, que deve o seu nome a Isaac de Pinto, um rico judeu português que pagou o projecto de renovação ao mesmo arquitecto que construiu a sinagoga, Elias Bouman. Hoje em dia é uma biblioteca pública, depois de um levantamento popular ter impedido a demolição do prédio.Mais perto da sinagoga portuguesa que a Pintohuis fica o Joods Historisch Museum, o Museum Histórico Judaico, que ocupa quatro sinagogas erguidas nos séculos XVII e XVII pelos judeus askenazi, que, em contraste com os sefarditas, chegaram do leste da Europa e um pouco mais tarde. O mesmo arquitecto Bouman desenhou um dos recantos mais importantes do Museu Judaico: a Grote Synagoge. Aqui, tal como nas outras sinagogas, a galeria superior está reservada às mulheres enquanto os homens, com a cabeça devidamente coberta, ocupam o interior mais baixo do templo. Não há dúvida: Amesterdão foi e é um dos pólos do mundo judaico, um mundo espalhado por todo o mundo.Por falar em mulheres judaicas, o visitante de Amesterdão não pode deixar de ver a Anne Frankhuis, a Casa de Anne Frank, a rapariguinha judaica que permaneceu escondida dos nazis durante cerca de dois anos (dos treze aos quinze anos), ao mesmo tempo que escrevia um diário. Presa pela Gestapo em 1944, acabou por morrer no campo de concentração de Bergen Belsen no ano seguinte. O pai, sobrevivente do holocausto, encontrou o seu diário escondido e revelou-o ao mundo. Hoje a casa da jovem Ana é um lugar de constante peregrinação diária. O clima social de Amesterdão é, como sempre foi (tirando a interrupção da Segunda Guerra Mundial), de enorme tolerância e a Casa de Anne Frank é quanto chega para nos lembrar dos horrores da intolerância.Não se pode falar dos judeus de Amesterdão sem referir o grande filósofo Espinosa, de seu nome completo Bento (em hebreu Baruch) Espinosa (1632-1677), que era filho de um mercador judeu estabelecido em Amesterdão depois da sua família ter fugido de Portugal. Foi, portanto, uma vítima da intolerância religiosa em Portugal. Espinosa, de quem se fala no terceiro livro de António Damásio (“Ao Encontro de Espinosa”, Publicações Europa-América, 2003), viveu grande parte da sua vida em Amesterdão, mas, excomungado pela igreja judaica em 1656, teve de se refugiar primeiro em Rijnsburg e depois em Leiden e em Haia. Foi, de facto, perseguido na Holanda, mas não teve necessidade de fugir de lá. Numa das sinagogas de Amesterdão, Espinosa aprendeu os cânones do hebraísmo, preparando-se até para ser rabi. Contactou ainda adolescente com o judeu português de Amesterdão Uriel da Costa, cujas ideias o terão influenciado. Conheceu também o Padre António Vieira, que por essa altura (tinha Espinosa doze anos) visitou a comunidade portuguesa de Amesterdão. Foi, mais tarde, o Padre António Vieira que haveria de escrever o famoso “Sermão contra as Armas da Holanda”, quando os holandeses atacaram o Brasil.Espinosa abandonou cedo a tradição religiosa da sua família, seduzido pelas ideias racionalistas de Descartes (quando Espinosa nasceu, Descartes, que então tinha 32 anos, vivia em Amesterdão) e outros. No seu livro “Ética” (Relógio d’Água, 1992) publicado postumamente em Amesterdão, a ética é tratada à moda da geometria de Descartes. Tal como os princípios físico-matemáticos regulam as leis da Natureza, também alguns axiomas governariam a lei moral. As paixões humanas poderiam ser tratadas com o mesmo sereno rigor que as figuras geométricas que se encontravam no mundo natural.Além de pensador, Espinosa foi polidor de lentes para microscópios e telescópios (um ofício técnico-científico que terá aprendido quando estudava para rabi). Acabou mesmo por ser uma vítima da sua própria profissão ao morrer de uma doença pulmonar associada à poeira do vidro.Vale a pena referir a relação entre Espinosa e Einstein, esse outro judeu famoso e prosélito do sionismo. Têm em comum o facto de serem judeus de origem, mas de se terem mais tarde distanciado da religião dos seus antepassados. E têm também em comum o facto de defenderem uma visão racional do mundo. Um dia, um rabi enviou, por telegrama, uma questão a Einstein. Continha, em português, apenas três palavras:- “Acredita em Deus?”(No original são cinco palavras: “Do you believe in God?”, o que contraria a ideia que a língua inglesa é mais telegráfica do que a nossa). Respondeu o físico nascido na Alemanha, mas mais tarde naturalizado primeiro suíço e depois norte-americano:- “Acredito no Deus de Espinosa que se revela Ele próprio na harmonia bem estabelecida de todo o mundo, e não num Deus que se preocupa pessoalmente com os destinos e as acções dos seres humanos”.Einstein foi, no plano teológico, um discípulo confesso de Espinosa... Várias vezes ao longo da sua vida mostrou a sua simpatia pela visão panteísta de Espinosa.Espinosa, o filósofo que poderia ter sido português se os seus pais não tivessem fugido de cá, foi contemporâneo de um grande físico holandês Christiaan Huyghens (1629-1695). Huyghens nasceu em Haia, a capital política dos Países Baixos, embora Amesterdão seja a maior cidade e a capital de facto. Para além de ter prestado valiosos contributos para a a mecânica física (na esteira de Galileu, aproveitou, por exemplo, o princípio do pêndulo para construir um relógio mecânico) foi um reputado especialista em óptica, tendo sido um adversário do inglês Isaac Newton precisamente na teoria da óptica. Se para Newton a luz era constituída por partículas, para Huyghens a luz era constituída por ondas (hoje sabe-se que tinham os dois razão: a luz umas vezes comporta-se como partícula e outras vezes como onda). Curioso é um conjunto de cartas trocadas entre Espinosa e Huyghens que se encontram na Internet. Não foi decerto por acaso que os dois grandes espíritos se encontraram. E não foi por acaso que a teoria da óptica floresceu em Amesterdão quando muitos artífices aperfeiçoavam os primeiros instrumentos ópticos que permitiam ampliar enormemente o poder da vista humana. Amesterdão foi, assim, um dos locais do nascimento das ciências físicas. E também, acrescente-se, das ciências biológicas: o primeiro microscopista foi Antonie van Leeuwenhoek (1672-1723), um mercador nascido em Delft, não muito longe de Haia (e portanto de Amesterdão, na Holanda tudo fica perto de Amesterdão), que havia de se interessar pela ciência e ser o primeiro a observar os estranhos seres microscópicos, nomeadamente as bactérias.Mais modernamente, no século XX, a Holanda orgulha-se dos seus 15 prémios Nobel, bastantes dos quais na área da Física (em 1902 Lorentz e Zeeman, em 1910 van der Waals, em 1913 Kamerlingh Onnes, em 1953 Zernike, em 1984 van der Meer e em 1999 ‘t Hooft e Veltman). Alguns dos seus laboratórios científicos, como o FOM (em Utrecht), são conhecidos e reconhecidos internacionalmente.A Holanda, em particular Amesterdão, foi no século XVII um centro de judaísmo e também um pólo de filosofia e ciência. A tradição da ciência chegou até aos nossos dias. De visita a Amesterdão. não podemos deixar de pensar o que nos teria acontecido se não tivéssemos, no tempo de D. Manuel I, expulso os judeus...
July 4 2009, 8:11pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A PRIMEIRA MULHER AERONAUTA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/primeira-mulher-aeronauta.html
Ascensão da primeira mulher aeronauta, 4 de Junho de 1784, em Lyon, França. A proeza foi de Marie Elisabeth Thible, uma cantora de ópera francesa (vestida de Minerva, cantou na ocasião!), num balão dos irmãos Montgolfier. O balão, com seis pessoas a bordo, chegou à altitude de 2500 m durante o voo de 45 minutos.
June 23 2009, 6:28pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Adquirido um manuscrito de Vandelli
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Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:A Biblioteca Geral acaba de adquirir junto de “O Manuscrito Histórico” (Lisboa) um autógrafo do cientista italiano Domingos Vandelli (1735 – 1816), que foi Professor eminente da Universidade de Coimbra e um empreendedor a quem cabe o mérito de ter relançado o fabrico da faiança na cidade, no século XVIII.À colecção de manuscritos da BGUC não podia faltar esta original “Memoria per lo stabilimento della Fabrica d’Acqua Forte, purificazione dell’Anil e dé Crugioli”, que se acompanha de um pagela manuscrita pelo mesmo autor, em português, acerca da importação de “Cadilhos, Agoa Forte e Solimão que vierão de Ollanda, do 1774 para o 1775, para esta Casa da Moeda”.O manuscrito não ostenta assinatura nem data mas poderá ser datável de cerca de 1780, reflectindo a série de preocupações de fomento industrial do país que sempre acompanharam a carreira deste naturalista e químico em Portugal e de que as suas “Memórias Económicas” dão boa conta.A esta peça foi atribuída a cota Ms. 3400, podendo desde já ser consultada na Sala de Leitura de Reservados e Manuscritos.
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June 18 2009, 5:40am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
HIPÁTIA NO COSMOS
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A reedição recente e muito cuidada de "Cosmos" de Carl Sagan em português, na Gradiva, levou-me a reabrir o livro, que já tantas vezes abri. Abri nesta passagem (p. 433):"O último cientista a trabalhar na biblioteca [de Alexandria] foi... uma mulher! Distinguiu-se na matemática, na astronomia, na física e foi ainda responsável pela escola de filosofia neoplatónica - uma extraordinária diversificação de actividades para qualquer pessoa daquela época. O seu nome, Hipátia. Nasceu em Alexandria em 370. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objectos, Hipátia moveu-se livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes mas rejeitou todas as propostas de casamento. A Alexandria do tempo de Hipátia - então desde há muito sob o domínio romano - era uma cidade onde se vivia sob grande pressão. A escravidão tinha retirado à civilização clássica a sua vitalidade, a Igreja Cristã consolidava-se e tentava eliminar a influência e a cultura pagãs.Hipátia encontrava-se no meio dessas poderosas forças sociais. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, desprezava-a por causa da sua estreita relação com o imperador romano, e porque ela era um símbolo da sabedoria e da ciência, que a Igreja nascente identificava com o paganismo. Apesar do grande perigo que corria, continuou a ensinar e a publicar até que, no ano de 415, a caminho do seu trabalho, foi atacada por um grupo de fanáticos partidários do arcebispo Cirilo. Arrastaram-na para fora do carro, arrancaram-lhe as roupas e, com conchas de abalone, separaram-lhe a carne dos ossos. Os seus restos foram queimados, os seus trabalhos destruídos, o seu nome esquecido. Cirilo foi santificado."Imagem: "Hypatia", 1885, de Charles William Mitchell (1854 – 1903), um pintor inglês pré-rafaelita. Esta obra foi inspirada pelo romance de Charles Kingsley "Hypatia or New Foes with an Old Face".
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June 16 2009, 2:15am | Comments »
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Congresso Scientiarum Historia II
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Informação recebida da Comissão Organizadora do Congresso Scientiarum Historia II - Encontro Luso-Brasileiro de História das Ciências A Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade de Aveiro estão a organizar o congresso Scientiarum Historia II - Encontro Luso-Brasileiro de História das Ciências a realizar no Rio de Janeiro entre os dias 28 e 30 de Outubro de 2009. Mais informações aqui.
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June 15 2009, 6:04am | Comments »
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PATRIMÓNIO DA CIÊNCIA - O MUSEU DA CIÊNCIA DE COIMBRA
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Meu artigo saído no último número da revista "Pedra e Cal", dedicada à conservação e restauro de monumentos:A ciência é indissociável do património, uma vez que assegura os conhecimentos e os meios, hoje muito sofisticados, para assegurar a sua melhor conservação. Só para dar um exemplo, foi, recentemente, noticiado o trabalho de uma equipa do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, que se tem ocupado da análise de materiais em obras de arte, como a pintura dos mestres de Ferreirim ou as esculturas de João de Ruão. Mas, por outro lado, a ciência é ela própria fonte de património, na medida em que é resultado de um processo histórico progressivo, que deixou abundantes marcas físicas (edifícios, objectos, documentos) que importa preservar, para já não falar, evidentemente, do património imaterial que a própria ciência constitui, como um dos componentes essenciais da cultura humana.Em Portugal, as questões da história da ciência, ligadas de perto à preservação do património da ciência, têm vindo a ganhar cada vez mais estudiosos. É significativo que algumas grandes iniciativas de recuperação de património científico tenham tido lugar e que outras estejam em preparação para vir a ocorrer no futuro próximo. Um bom exemplo é a primeira instalação do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), inaugurado no final de 2006, ao fim de um longo processo que, através de uma cuidada requalificação arquitectónica, visou transformar um magnífico espaço de ciência do século XVIII num moderno espaço expositivo (a exposição permanente “Segredos da Luz e da Matéria” integra objectos históricos das colecções da UC e modernos módulos interactivos, construídos com vista a apropriação pelo público de certas ideias científicas, ver aqui). A chamada “prefiguração” do Museu da Ciência no Laboratório Chimico, num edifício cuja construção data da Reforma Pombalina da UC (1772), que foi um dos primeiros edifícios em todo o mundo construído propositadamente para o ensino experimental da Química e objecto de restauro pelo arquitecto João Mendes Ribeiro e seus colaboradores, permitiu não só abrir ao público um novo pólo de cultura científica, mas também preparar conteúdos e conhecimentos para a "segunda fase" do desenvolvimento do Museu da Ciência da UC, que contempla uma intervenção de maior envergadura no edifício do Colégio de Jesus, mesmo ao lado do Laboratório Chimico.Também esta “segunda fase” do Museu da Ciência, cujo concurso de projecto está a decorrer, exigirá um processo de requalificação arquitectónica, desta vez de dimensão acrescida, num dos mais antigos colégios da Companhia de Jesus em todo o mundo, uma vez que foi fundado em 1547, ao tempo do rei D. João III. Aí não só um extenso espaço será recuperado para usufruto de todo o público interessado como também um vasto conjunto patrimonial em várias áreas da ciência (astronomia, física, química, geologia, biologia, antropologia, medicina, farmácia, etc.) será objecto de moderna musealização, com muitos instrumentos e objectos a serem mostrados in situ. Tal esforço de recuperação patrimonial relaciona-se de perto com a preparação da candidatura da UC a Património Mundial da UNESCO. O Museu de Ciência da UC, gerido pela Fundação Museu da Ciência, que reúne a UC com a Câmara Municipal de Coimbra, foi distinguido pelo Forum Europeu dos Museus com um prémio para o melhor museu de ciência e tecnologia do ano de 2008 (Prémio Micheletti).Os dois colégios jesuítas de Coimbra (Colégio de Jesus e Colégio das Artes) juntamente com o Colégio de S. Antão em Lisboa foram nos séculos XVI e XVII importantes pontos de passagem de matemáticos e astrónomos de diversos países europeus, que pretendiam estudar ou ensinar antes de se dirigirem para o Oriente ou para outros sítios (por exemplo, o austríaco Grienberger e os italianos Lembo e Borri, que contribuíram para a divulgação das descobertas feitas por Galileu em 1609). Apesar de terem nessa altura sido protagonistas da cultura científica mundial, o seu ensino degradou-se ao cair na neo-escolástica e, em 1759, invocando um conjunto de razões, a Ordem foi expulsa pelo Marquês de Pombal. O amplo edifício do Colégio de Jesus, no qual está inserida a Sé Nova (propriedade de diocese de Coimbra), foi profundamente adaptado a colégio universitário pela Reforma Pombalina, com a instalação no Colégio de Jesus do Gabinete de Física Experimental e do Gabinete de História Natural, no quadro da nova Faculdade de Filosofia, assim como do Hospital Universitário (com um projectado teatro anatómico) e do Dispensário Farmacêutico, no quadro da Faculdade de Medicina. Essa reforma, que pretendeu romper com a neoescolástica então vigente e estabelecer o ensino experimental, criou, além dos referidos Gabinetes e do Laboratório Chimico, o Jardim Botânico e o Observatório Astronómico.Foi precisamente o património ligado a essa Reforma que está na origem do Museu de Ciência, que pretende valorizar colecções antes dispersas por vários pequenos museus universitários e nalguns casos pouco cuidadas por manifesta falta de meios. Os instrumentos de astronomia, física, química, história natural e medicina do século XVIII documentam bem o modo como foi perseguido o ideal iluminista da procura do conhecimento por via experimental. Por seu lado, o Jardim Botânico de Coimbra ainda hoje se conserva aberto ao público, sendo um dos tesouros da cidade. Infelizmente, do velho Observatório de Coimbra, que começou por ser construído nas ruínas do castelo de Coimbra e que no século XIX passou para um novo edifício no pátio da Universidade, já não resta património edificado. O Estado Novo, a meio do século XX, arrasou-o num acto de lesa-cultura, alegadamente para “limpar as vistas para o Mondego”. Neste século XXI, recuperar e manter o nosso património da ciência é um acto de cultura.
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June 14 2009, 4:09pm | Comments »
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QUEM DESCOBRIU O ZERO?
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Da "Gazeta de Física", a excelente revista da Sociedade Portuguesa de Física, acaba de sair mais um número, tal como os recentes muito bem recheado e com uma excelente apresentação gráfica. Desta vez a revista não está apenas disponível em papel para os socios da Sociedade Portuguesa de Física (mas vale a pena fazer-se sócio aó para receber a revista em papel) mas também em pdf no sítio da revista.Com a devida vénia, transcrevemos a muito interessante crónica do físico inglês Jim Al-Khalili, professor da Universidade de Surrey nascido no Iraque (na foto, em Granada, onde esteve para o documentário da BBC sobre ciência árabe) e um dos grandes divulgadores não só da Física mas também da ciência britânicos (ver aqui ):O ano passado, passei uma boa parte do meu tempo a viajar no Médio Oriente, enquanto produzia uma série de televisão para a BBC chamada “Ciência e Islão”, e aprendi muitas coisas interessantes sobre história da ciência que são importantes para desfazer alguns equívocos amplamente difundidos no Ocidente.Por exemplo, se perguntarmos a alguém o que foi que os árabes nos trouxeram, depois do rol habitual de tapetes mágicos, Ali Babá, danças do ventre, tamareiras e poços de petróleo, o exemplo mais frequentemente citado é a invenção do zero. A verdade, porém, é que, embora a matemática árabe fosse extraordinariamente diversificada e avançada – foram eles que desenvolveram duas novas disciplinas: a álgebra e a trigonometria – essa invenção não lhes pode ser atribuída. Qual é então a origem desta valorização do nada matemático?Acontece que a resposta a esta pergunta não é assim tão simples, porque a pergunta “Quem descobriu o zero?” pode significar várias coisas diferentes e, para cada caso, a resposta será também diferente. Poderá tratar-se da pergunta: quando foi feita a primeira utilização de um símbolo, ou marca, para indicar um espaço em branco dentro de um número (por exemplo, para podermos distinguir entre os números 11 e 101)? Ou poderá ser: quando se valorizou pela primeira vez o zero, enquanto conceito filosófico que simboliza o nada? Ou ainda: qual a primeira referência ao zero, enquanto número de pleno direito?A definição mais elementar de zero é a de uma notação posicional dentro de um número. No início do segundo milénio a.C., os antigos babilónios precisavam de poder estabelecer distinções entre os números nas suas tabelas astronómicas estelares. Assim, sempre que necessário, deixavam um espaço entre os símbolos para indicar um lugar vazio (onde hoje utilizaríamos o símbolo zero).Muito mais tarde, os babilónios selêucidas, que governaram o território que é hoje o Iraque como sucessores de Alexandre, o Grande, inventaram um símbolo para substituir este ambíguo espaço dos antigos babilónios. Assim, o mais antigo símbolo conhecido para o zero encontra-se, cerca de 300 a.C., em muitas placas de argila babilónicas cobertas de escrita cuneiforme.Os antigos gregos foram fortemente influenciados pela astronomia babilónica e pela matemática a ela associada. Por conseguinte, precisavam também de um símbolo para o zero e escolheram a letra grega ómicron (décima quinta letra do alfabeto grego, correspondente ao o aberto). Porém, este símbolo zero também não era ainda um número, nem sequer um conceito, de pleno direito.E quanto ao conceito de zero como representação do nada? Aqui, o mérito terá de ser atribuído aos antigos gregos. Mais especificamente, foi o grande Aristóteles (384-322 a.C.), o mais famoso filósofo que jamais viveu, quem primeiro escreveu claramente sobre o zero enquanto conceito matemático. Na sua grande obra, conhecida como a “Física” de Aristóteles, ele descreve a ideia do zero matemático em relação a um ponto numa linha e explica-a da seguinte forma: se a velocidade de qualquer objecto em movimento aumentar proporcionalmente à resistência (ou densidade) do meio através do qual ele se desloca, a sua velocidade no vácuo (ou vazio) terá necessariamente de ser infinita, uma vez que aí não há qualquer resistência. Segundo Aristóteles, isto demonstrava a impossibilidade da existência do vazio. Evidentemente, hoje sabemos que as ideias de Aristóteles sobre física estão erradas, mas não há dúvida de que o homem sabia pensar.Passamos agora à questão mais importante de tratar o zero como um número de pleno direito, que deve ser considerada como correspondendo à verdadeira invenção do zero. É geralmente aceite que o símbolo do zero nos chegou da Índia, integrando o pacote trazido pelo Império Islâmico Medieval, juntamente com a notação decimal. Parece não haver dúvida de que, já em 505 d.C., os hindus consideravam o zero como um número real, mais do que um mero símbolo. Brahmagupta, o maior de todos os cientistas indianos medievais, afirmou correctamente em 628 da Era Comum que zero multiplicado por qualquer número finito dá zero e descreveu a impossibilidade da divisão de um número por zero.Concluímos, então, que a resposta à pergunta “Quem inventou o zero?” é a seguinte: os babilónios inventaram o primeiro símbolo do zero, os gregos foram os primeiros a compreender o conceito de zero e os indianos utilizaram o zero pela primeira vez como número de pleno direito. Parece que nunca nada é simples e, neste caso, a origem do nada acaba por não ser nada simples.
June 2 2009, 10:30am | Comments »





