No dia 7 de Maio de 1959, fez ontem 50 anos, Charles Percy Snow deu a sua histórica palestra Rede na Universidade de Cambridge. Com esta intervenção, cunhou a expressão "As duas culturas", passando-a ao domínio público. Uma cultura era a ciência, representada pelos cientistas e a outra, as humanidades, representada pelos "intelectuais das letras". Snow diagnosticou uma total impossibilidade de estas duas culturas se compreenderem, por não serem capazes de cruzar essa fenda profunda que, culturalmente, as separava.Este diagnóstico cultural tornava-se extremamente claro, segundo Snow, depois do seguinte desafio: "Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei [aos intelectuais das letras] quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria; também foi negativa. No entanto, eu perguntava algo que equivaleria em termos científicos a 'já leu uma obra de Shakespeare'?"Nessa mesma palestra de há já 50 anos, Snow argumentava que esta falta de convergência entre as duas culturas e a inexistência de cientistas em posições de poder, teria consequências desastrosas para a sociedade moderna.Passado meio século, e com a crescente tendência para a especialização do conhecimento, não estaremos cada vez mais a aumentar a profundidade desta fissura? (ver também Literacia científica: à procura do arco-íris)
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AS DUAS CULTURAS
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May 8 2009, 5:32am | Comments »
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VESALIUS: A REDESCOBERTA DA ANATOMIA
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Informação recebida do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa:O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa convida-o para o workshop internacional «Vesalius: a redescoberta da Anatomia», que integra o projecto de investigação «A Imagem na Ciência e na Arte» no dia 12 de Maio de 2009 no Grande Auditório do Edifício Egas Moniz da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.O projecto «A Imagem na Ciência e na Arte», financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, é promovido pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, e tem como participantes, além da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.PROGRAMA10h00 | Abertura: Manuel Valente Alves10h10 | Manuel Valente Alves - “Olhar e conhecer ‐ a imagem do corpo em Leonardo, Vesálio, Dürer e Paracelso”.10h40 | Joana Mesquita - “O espólio de desenhos anatómicos do Museu de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa”11h00 | António Barros Veloso - “Andrea Vesalius e a descoberta da Anatomia”11h30 | Intervalo12h00 | Adelino Cardoso - "A fábrica do corpo como inteligibilidade do mundo"Intervalo para almoço15h00 | Lucy Lions - “Dignity: drawing relationships with the body”15h30 | Sebastião Resende - “Altercorpus”16h00 | Silvia Di Marco - “Naked to the flesh. Notes on use of medical imaging in contemporary art”16h30 | Teresa Levy - “Uma vida sem vida, uma morte sem morte”17h00 | Intervalo17h30 | Jacquie Pigeaud - “Vésale. Notes sur l'évolution de l'anatomie artistique”
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May 7 2009, 8:33am | Comments »
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O “eclipse” de Einstein em Portugal
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Post recebido de António Mota de Aguiar, cuja oportunidade resulta de, em 29 de Maio próximo, passarem 90 anos após o famoso eclipse solar na ilha do Príncipe que serviu para estabelecer a Teoria da Relatividade (na foto lápide comemorativa da presença de Eddingtoin em S. Tomé em 1919):Num post anterior realcei que a Teoria da Relatividade teve audiência em Portugal num grupo restrito da comunidade científica. Décio Martins, físico da Universidade de Coimbra, referiu o desinteresse pela Relatividade em Portugal na década de 20: “Alguns trabalhos sobre este assunto, apenas esparsamente publicados nos anos 20, deixam transparecer uma notória indiferença inicial ao tema na comunidade científica portuguesa. [1]” De facto, a indiferença que a comunidade científica revelou com a Relatividade soma-se à sua indiferença com Einstein quando este passou por Portugal. Numa viagem à América do Sul em 1925, Einstein passou no nosso país duas vezes, na ida a 11 de Março e na volta a 27 ou 28 de Maio, mas, nos dois casos, a sua estadia passou despercebida em Portugal, um facto tanto mais surpreendente quando ele era já uma figura muito conhecida, pois, além de Prémio Nobel, que recebera em 1922, vira a Teoria da Relatividade ser sustentada com as observações do eclipse do Sol de 29 de Maio de 1919, no Príncipe e no Brasil.Aliás, a Royal Society of London, na pessoa de Arthur Eddington, astrónomo responsável pela missão britânica à ilha do Príncipe, manteve, ainda na Inglaterra, correspondência com a Sociedade de Geografia de Lisboa e com o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), com os então director e vice-director, Campos Rodrigues e Frederico Oom [2], sobre os aspectos logísticos da missão.Um só astrónomo português mostrou interesse em ir à ilha do Príncipe: Manuel Peres, director nessa altura do Observatório Campos Rodrigues de Lourenço Marques e posterior defensor da Relatividade. Porém, por razões burocráticas, não conseguiu autorização. Nos jornais portugueses da época só há uma curta referência num jornal sobre tão flamejante evento científico.[3] Acontece que a Teoria da Relatividade era mundialmente conhecida em 1925 e já nessa altura se antevia a sua futura relevância.Mais significativo é o facto de Frederico Oom, desde 1920 director do OAL - Campos Rodrigues morrera em Dezembro de 1919 -, não ter dedicado um só artigo, quer à comprovação da Relatividade na ilha do Príncipe quer à passagem de Einstein por Lisboa. Sobre o primeiro caso, Elsa Mota argumenta o seguinte:“A partir do início do século XX, o interesse principal das observações de eclipses solares totais passou a pertencer fundamentalmente ao domínio da astrofísica. Este facto ajuda-nos a perceber a razão pela qual Frederico Oom (1864-1930), promovido a director do Observatório de Lisboa em 1920, nunca se referiu à ocorrência da expedição, dos seus objectivos e finalidades, apesar de ter sido um dos astrónomos portugueses que, entre 1917 e 1920, mais artigos de divulgação científica publicou, em revistas como The Observatory e Astronomische Nachrichten. Aliás, ele próprio foi activo participante na observação de outros eclipses.[4]” Num país subdesenvolvido como o nosso, onde todos estão de acordo sobre o atraso científico, o argumento de que as “observações de eclipses solares totais passou a pertencer fundamentalmente ao domínio da astrofísica” parece ser irrelevante. A nosso ver, é incompreensível que o Director do OAL não tenha divulgado tamanho acontecimento científico e não tenha, junto da comunidade científica portuguesa, preparado uma recepção a Einstein. Ele próprio tinha escrito um artigo n’O Instituto de 1917, no qual se referia ao futuro eclipse:“Em 29 de Maio de 1919 haverá um eclipse total do Sol, em que a trajectória da sombra atravessa a América, de Arica a Paranaíba, bem como a África, de Libreville a Quionga. Ao percorrer o golfo da Guiné, essa trajectória passa pela nossa Ilha do Príncipe, e torna-se portanto, de interesse especial para nós, convindo-nos saber, desde já, em que condições se poderá ver ali êsse maravilhoso fenómeno, tão impolgante para simples curiosos como digno de atenção e estudo para os homens da ciência. (…) é provável que esta formosa ilha seja escolhida , como estação adequada, por muitos dos astrónomos que a esses fenómenos especialmente consagram a sua atenção (…). [5]” Oom avançava, portanto, em 1917 a hipótese da expedição e da observação do eclipse solar ocorrer no Príncipe dois anos depois. Alguns meses mais tarde troca correspondência com Eddington. É, de facto, estranha a não divulgação posterior de um acontecimento tão marcante... O Director do OAL não só não escreveu sobre a ida ao Principe da missão inglesa e a comprovação da Relatividade, como ainda, seis anos depois, não disse uma palavra sobre a passagem de Einstein por Lisboa, ele que escrevia amiúde artigos em jornais portugueses e estrangeiros. Estranhamos o seu silêncio!Acrescentamos uma achega. Em virtude de Portugal ter entrado na 1ª Grande Guerra Mundial contra a Alemanha, e ainda por várias outras razões políticas, a Alemanha não tinha entre nós uma boa reputação; veja-se, por exemplo, o que Costa Lobo escrevia em 1918: “A Alemanha é um elemento perigoso para a harmonia mundial…” “A Alemanha não possue as qualidades scientíficas e artisticas que pretende possuir, e muito menos o Estado prussiano que domina e só prevalece pelo valor militar… [6]”Ter-se-á Oom sentido constrangido pelo facto de Einstein ser alemão, ele próprio ter raízes germânicas (a sua árvore genealógica tinha raízes em Hamburgo) e a Alemanha não gozar naqueles tempos de boa reputação entre nós? Ou seria ele anti-semita? Ou ter-se-ia sentido incomodado com as ideias anti-militaristas de Einstein? Por que não escreveu sobre a comprovação da Relatividade no Príncipe? Por outro lado, se não teve conhecimento da passagem em 1925 de Einstein por Lisboa, no regresso, depois do sucesso que Einstein alcançou no Brasil, não a podia ter ignorado...Em História convém esclarecer os hiatos, porque às vezes eles nos revelam situações relevantes para o conhecimento dos factos históricos.NOTAS:[1] Décio R. Martins, Einstein Entre Nós, p. 59, Coord. C. Fiolhais, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005[2] Elsa Mota, A Expedição ao Príncipe em 1919, tese de mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2006[3] O Século , 15 de Novembro de 1919[4] Elsa Mota, Einstein Entre Nós, ibid., p. 52[5] Frederico Oom, O Eclipse do Sol em 29 Maio de 1919, O Instituto, (64) 1, Coimbra, 1917[6] F. Costa Lobo, Portugal na Guerra e na Paz, O Instituto, (65) nº 1, p.14-15, 1918.
April 29 2009, 7:25pm | Comments »
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A recepção da relatividade em Portugal
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Novo post do historiador António Mota de Aguiar (na imagem, o filósofo Leonardo Coimbra):Quando se inicia a década de 20 do século passado há, em Portugal, um crescente interesse pelos estudos da teoria da relatividade. Os interessados por esta jovem ciência sucedem-se, representando um número significativo de cientistas, de áreas tão variáveis, como a Física, a Matemática, a Biologia, a Química, as Letras, etc. Todos trazendo para a ribalta contribuições variáveis, consoante o peso das suas formações científicas. Destacamos alguns dos principais estudiosos da relatividade:- Leonardo Coimbra, filósofo antipositivista, que iniciou a sua carreira universitária em 1912, introdutor da relatividade entre nós.- Pedro José da Cunha, professor de Cálculo e Análise Infinitesimais na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.- Augusto Ramos da Costa, catedrático de Astronomia, entusiasta da relatividade, e autor de um trabalho que, tudo indica, foi na altura censurado: “L’enseignement des mathematiques doit être orienté pour l’étude de la Relativité”. - Melo e Simas, funcionário do Observatório da Ajuda, observou várias ocultações de estrelas, conducentes à confirmação de alguns resultados da relatividade geral.- António Santos Lucas, professor de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que leccionou um curso em 1922-23, por ele criado, sobre a relatividade restrita e a relatividade geral.Mais para a frente, surgem-nos nomes como:- o matemático Aureliano Mira Fernandes, que estuda relatividade geral;- o astrónomo Manuel dos Reis, director em 1934 do Observatório Astronómico de Coimbra e autor de um trabalho, assaz didáctico: ”O Problema da Gravitação Universal”. Outros nomes há, menos conhecidos, mas que contribuíram igualmente para a divulgação das teorias relativistas: Victor Hugo de Lemos, Mário Mora, António da Silveira, Egas Pinto Basto, Cyrillo Soares, e António Gião, o meteorologista e engenheiro geofísico que foi o único português a corresponder-se com Einstein.Em 1929, com a chegada dos primeiros bolseiros portugueses com conhecimentos científicos adquiridos no estrangeiro, havia em Portugal uma certa animação cultural: no jornal O Diabo (1934-1940), de cariz artístico-literário, mas também aberto à ciência, escreviam, por essa altura: Abel Salazar, Rui Luís Gomes, Manuel Valadares, Aurélio Quintanilha e Bento de Jesus Caraça, e outros, nomes bem conhecidos da Ciência portuguesa.Acontece que, se retirarmos os relativistas que acabamos de referir, pouco fica para a ciência astronómica. No fundo ficam os dois observatórios astronómicos existentes, de Lisboa e Coimbra: Lisboa, com Frederico Oom à frente até 1930, e Coimbra, com Francisco Costa Lobo à frente até 1934. No cômputo geral, o trabalho destes dois observatórios foi muito diminuto. O de Lisboa, não tinha pessoal nem instrumentos suficientes, o de Coimbra idem: tinha, em 1933, “além do director, um observador-chefe, um segundo ajudante de observador e um maquinista conservador dos instrumentos. Este quadro irrisório…”. [1] Neste período da História da nossa Astronomia, também viveram acérrimos anti-relativistas, como o professor catedrático de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, José de Almeida Lima, defensor do éter e abalado com o seu desaparecimento. Francisco Miranda da Costa Lobo, professor catedrático da Universidade de Coimbra, autor de uma pseudo-ciência, denominada teoria radiante, além de Gago Coutinho, o famoso navegador aéreo que simplesmente não aceitava a teoria da relatividade.Porém, paralelamente à actividade científica e cultural, corriam também os acontecimentos políticos: “Em meados da década de trinta a bandeira relativista é uma das bandeiras culturais içadas no baluarte daqueles que, em nome do progresso, se opõem ao stato quo implantado em Portugal pela Constituição de 1933”. [2]A década de 30, começou, de facto, com uma certa animação cultural devido a vários factores, entre os mais relevantes o envio para o estrangeiro, pela Junta de Educação Nacional, de bolseiros, a fim de trazerem para Portugal mais-valias científicas. A partir de 1930 havia em Portugal vários cientistas capazes de levar para a frente o projecto de desenvolver entre nós a Física, disciplina essencial, sobretudo nessa altura, para muitas outras ciências. A criação de um Instituto do Rádio em Coimbra esteve nos planos de Mário Silva, que tinha sido discípulo de Madame Curie.A Astronomia poderia ter avançado nessa altura, se tivesse florescido entre nós o estudo da física moderna, incluindo a relatividade. Mas o Estado Novo, ao perseguir politicamente os professores, bloqueou o conhecimento e o ensino da Relatividade. A meados da década de 30 começaram as perseguições políticas: purgas, exílios, prisões de professores universitários de várias áreas do saber, e o país, em vez de ter dado o salto científico-cultural que tanto necessitava, entrou no túnel da mediocridade cultural por algumas dezenas de anos. Assim, quando chegamos a 1950, o contraste entre a astronomia internacional e a astronomia portuguesa era colossal. Os estudos de astronomia estavam imensamente atrasados e nada apontava nesse momento para uma melhoria nesse sector da ciência.NOTAS:[1] José António Madeira, Separata da Revista de Ciências da Universidade de Coimbra, vol.VII-nº1, p. 7[2] A. José dos Santos Fitas, “Einstein Entre Nós”, Coordenação de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p. 16.
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April 19 2009, 3:37am | Comments »
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A expressão que Galileu não pronunciou
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/expressao-que-galileu-nao-pronunciou.html
Conversa recente sobre o julgamento de Galileu Galileu, fez-me recordar o início do 1.º Capítulo de um livro escrito por Claude Alegre - Deus face à Ciência -, publicado no ano de 1997 em França, e no ano seguinte em Portugal, pela mão sempre atenta da Gradiva. Partilho essa passagem com os leitores do De Rerum Natura pelo interesse que poderá ter na revisão de mito associado a este grande cientista e pensador."A 22 de Junho de 1633, Galileu Galilei, de 69 anos de idade, vestido com o hábito branco dos penitentes, entra na grande sala do Convento de Minerva, em Roma. Vai comparecer, a pedido expresso e urgente do papa Urbano VIII, diante do tribunal inquisitorial da Congregação do Santo Ofício, composto por dez cardeais designados para o efeito.Comparecer é uma força de expressão, em temos da língua actual, já que ele terá de se contentar com escutar a sentença, sem debate preliminar. Durante seis meses é mantido «prisioneiro» em Roma. Enquanto lhe sugerem que se retrate, os subalternos da Inquisição recusam-lhe que veja o papa, de quem tinha sido amigo, ou mesmo qualquer cardeal. Privam-nos do contacto com os colegas mais queridos. Zanga-se, respinga, exige um debate contraditório com os seus acusadores mas em vão. Permanecerá na ignorância do que se trama contra ele e que decidirá a sua sorte. Não verá os seus julgadores antes de 22 de Junho, não terá um verdadeiro processo e, portanto, não terá ocasião de exibir essa maravilhosa inteligência que teria seduzido, subjugado mesmo, tantos eclesiásticos havia mais de trinta anos.Ei-lo agora diante do tribunal da Inquisição. Ajoelhado, escuta, tenso pálido, silencioso, a espantosa declaração, aquela declaração supostamente escrita por ele, mas de que, na realidade, toma conhecimento pela primeira vez enquanto é lida por outro.Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, de 69 anos de idade, comparecendo em pessoa perante este tribunal, ajoelhado diante de vós, mui eminentes e reverendíssimos cardeais grandes inquisidores de toda a cristandade contra a perversidade herética, os olhos postos sobre os mui Santos Evangelhos, que toco com as minhas próprias mãos:Juro que sempre acreditei, que acredito neste momento e que, com a graça de Deus, continuarei a acreditar no futuro e tudo quanto a Santa Igreja católica, apostólica e romana tem por verdadeiro, prega e ensina.Mas, em virtude de o Santo Ofício me ter notificado de que não acredita na falsa opinião de que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a terra não é o centro do mundo e se move e de que não mantém, nem defende, nem ensina, quer oralmente, quer por escrito, esta falsa doutrina, em virtude de ter sido notificado de que a dita doutrina era contrária às Sagradas Escrituras; em virtude de ter escrito e ter mandado imprimir um livro no qual exponho esta doutrina condenada, apresentando em seu favor uma argumentação muito convincente, sem apostar qualquer solução definitiva; tornei-me por este facto fortemente suspeito de heresia, isto é, de ter mantido e acreditado que o Sol está no centro do mundo e é imóvel e que a Terra não está no centro e se move.Por este facto, e querendo apagar do espírito de VV. Eminências e de qualquer cristão fiel esta suspeita veemente a justo título concebida contra mim, abjuro e maldigo de coração sincero e com fé não simulada os erros e as heresias supracitadas e, em geral, qualquer outro erro, heresia e empreendimento contrários à Santa Igreja; juro, no futuro, jamais dizer ou afirmar de viva voz ou por escrito seja o que for que permita haver de mim semelhante suspeita e, se por acaso vier a encontrar um hierático ou tido como tal, denunciá-lo-ei a este Santo Ofício, ao inquisidor ou ao prelado da diocese onde resido.Juro também e prometo cumprir e observar estritamente as penitências que me foram ou vierem a ser-me impostas por este Santo Ofício; e, se desobedecer, que o não queira Deus, a uma das minhas promessas e juras, submeto-me a todas as penas e castigos que são impostos e promulgados pelos sagrados cânones e pelas outras constituições gerais e particulares contra semelhantes delinquentes. Com a ajuda de Deus e dos Santos Evangelhos, que toco com as minhas mãos.Eu Galileu Galilei, abaixo assinado, reneguei, jurei, prometi e comprometi-me como acima ficou dito; em fé do que, para atestar a verdade com a minha própria mão, assinei a presente cédula da minha abjuração e recitei-a, palavra por palavra, em Roma no Convento de Minerva, a 22 de Junho de 1633.Atordoado por um julgamento de cuja celeridade e rigor não tinha suspeitado, ele assina, sem uma palavra. Depois, lentamente, deixa estes lugares, curvado, vacilante, como que quebrado para sempre, quebrado nesse imenso orgulho que lhe tinha permitido dominar a Itália intelectual durante os últimos trinta anos. Mais tarde tomara conhecimento de que o sobrinho do papa se contava entre os três cardeais que se opunham à sentença, mas neste momento está quebrado pela mudança de parecer daquele que fora durante mais de dez anos o seu protector, o seu amigo papa Urbano VIII, que ele acreditara poder desafiar impunemente.Enquanto se retirava lentamente para a sua casa de Florença, condenado à reclusão doméstica, a nova espalha-se pela Europa como um rastilho de pólvora. Descartes, assustado, suspendeu a publicação do seu livro consagrado à explicação do mundo, os protestantes, contentíssimos, deram a voz e a palavra escrita aos seus cientistas, recolocaram em lugar de honra os trabalhos escritos do mais respeitado de entre eles, Kepler, o matemático imperial falecido em 1630.Sábio respeitado e admirado, Galileu transformou-se de um dia para o outro em mártir. Entrou na lenda dos séculos, erigido em símbolo eterno da verdade face à vaidade, da liberdade de pensamento face à censura, da luminosa ciência face à obscura crença. O seu processo, dado como exemplo, marcou para sempre a Santa Igreja católica com o selo da intolerância e do obscurantismo.O seu processo, resumido pela famosa expressão epuur, si muove! (que Galileu, sem dúvida, nunca pronunciou), é dado como exemplo da denegação da justiça. Contudo, nada teríamos compreendido da complexidade das relações que desde há sete séculos se entretecem entre a Igreja católica e a ciência se nos contentássemos com a simples exposição deste acontecimento.O processo de Galileu é certamente um processo intentado por uma crença a uma ciência, por um obscurantismo dogmático a um autêntico génio intelectual, mas é também o de um homem de ciência cuja arrogância desesperou uma fracção da Igreja que, no entanto, estava disposta a mostrar-se tolerante, antes de exasperar o papa, aliás seu amigo sincero. O processo de Galileu foi também uma arma, entre outras, utilizada pelo papa para fazer face ao crescimento do protestantismo, encorajado secretamente por Richelieu, primeiro-ministro de França, antes de ser cardeal da Igreja, tendo Urbano VIII tentado restabelecer por uma sanção religiosa espectacular uma autoridade espiritual e temporal muito enfraquecida.A partir deste processo trata-se, pois, de determinar a posição das grandes correntes de pensamento da cristandade em face do progresso científico, atitudes ambíguas, ondulantes, variáveis, frequentemente ligadas mais a considerações de ordem política do que de ordem religiosa.”
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April 17 2009, 4:19am | Comments »
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A MIRABOLANTE FLORA DE ANGOLA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/mirabolante-flora-de-angola.html
Minha crónica no "Sol" de hoje (na imagem a Welwitschia no deserto do Namibe):Agora que também há “Sol” em Angola, não pode este jornal deixar de falar da ciência ligada a esse país. Por exemplo, da rica variedade de espécies biológicas que Angola alberga.Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se no deserto do Namibe, no Sul do país. Foi descoberta há 150 anos, a 3 de Setembro de 1859 (pouco antes, portanto, de sair a primeira edição da Origem das Espécies de Darwin) por um botânico austríaco que se deixou encantar pela natureza africana a ponto de só a ter abandonado ao ser vítima de maleitas tropicais. O nome científico da espécie, Welwitschia mirabilis, foi dado em homenagem ao seu descobridor, Friedrich Welwitsch (1806-1872). Foi preciso criar um género novo para integrar esta espécie, tão diferente ela é das outras.A grande planta, que chega a ser milenária, tem um caule duro, do qual saem duas folhas, que crescem lentamente, esfarrapando-se nas extremidades. As suas características mais não fazem do que comprovar os prodigiosos mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Crescer no deserto como ela faz parece um verdadeiro milagre!Jorge de Sousa Braga dedicou a essa planta um poema publicado no seu livro Herbário: No meio do mais árido deserto/ Há uma planta que consegue medrar,/ E até se dá ao trabalho de florir,/ Mesmo que não haja ninguém por perto, / Que a possa contemplar. Para além de Welwitsch, outros naturalistas têm estado perto da Welwitschia para, mais do que a contemplarem, a estudarem com cuidado. Um deles foi o português filho de mãe holandesa, Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor da Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor), que, enfeitiçado por África, protagonizou três expedições a solo angolano para estudar a respectiva flora. Na última, no deserto namibiano, perto de uma Welwitschia, faleceu vítima de inesperado ataque cardíaco. O local da sua morte, no morro do Kane-Wia que os povos Mucubai dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.
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April 9 2009, 5:15pm | Comments »
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Apontamentos para a história da astronomia portuguesa: sobre o astrónomo Costa Lobo
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/apontamentos-para-historia-da.html
Continuando a polémica sobre a figura do astrónomo Francisco da Costa Lobo, recebemos este post de António Mota de Aguiar (na imagem um eclipse solar):Para completar o último post sobre A Astronomia em Portugal durante o Estado Novo (anos 30 e 40), para além da resposta aos comentários que já dei, aponto três facetas da vida do astrónomo Francisco da Costa Lobo, que me parecem relevantes para compreender a sua personalidade e a acção política que o norteou.Pode-se perguntar por que escrever tanto sobre Costa Lobo? Porque foi o principal astrónomo que representou a ciência oficial do Estado Novo. Costa Lobo tinha um meio privilegiado de comunicação à sua disposição para expor as suas ideias, as suas conferências e a sua propaganda, a revista O Instituto, órgão da associação dos lentes da Universidade de Coimbra (da qual foi presidente longos anos), que ele utilizou a fundo, tanto com artigos seus como pela selecção de artigos que publicou. Nesta revista, certamente a mais importante do seu tempo, nunca nenhum cientista relativista publicou um artigo [1].Além disso, Costa Lobo dispôs de um observatório astronómico com um instrumento de primeira qualidade, o espectroheliógrafo, por ele adquirido em 1925, para analisar o espectro do Sol. Num dos seus escritos [2], refere que o Observatório não tinha meios financeiros para meter mais pessoal ao seu serviço. Pergunta-se, então: por que fez ele tantas viagens dispendiosas ao estrangeiro, se não existia um “staff” para aprofundar e continuar o seu trabalho? Analisemos por exemplo uma viagem que, embora realizada em 1914, mostra bem a personalidade de Costa Lobo em malbaratar os dinheiros públicos:“A 21 de Agosto de 1914 dava-se um eclipse total do Sol, visível na Rússia, sendo a Peninsula da Crimeia a região mais indicada para a sua observação. O Dr. Costa Lobo tinha o maior empenho em presenciar o fenómeno (...). A 25 de Julho seguiu para Paris a comissão, levando consigo as peças ópticas dos instrumentos. Nesta cidade obteriam o material fotográfico necessário, expressamente preparado para esse fim. (...) Chegam às 4 da manhã à gare de Friedrischstrasse e por toda a parte viram preparativos de guerra.” [3]Nesse mesmo dia “a guerra estava decidida”. A Alemanha declarava guerra à Rússia a 1 de Agosto e, dois dias depois, declarava guerra à França.“(...) Apesar de tudo, o Dr. Costa Lobo não desanima. Vai à Legação Portuguesa, onde estava como ministro o seu colega e amigo Dr. Sidónio Pais, saber com que poderia contar nas linhas alemãs. (...) Às 6 chega Sidónio Pais que fora obter informações seguras do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Impossível seguir para a Rússia, diz-lhe, e mesmo difícil sair de Berlim (...) Em vista das notícias que lhe deu Sidónio Pais, o Dr. Costa Lobo resolveu partir para a Suíça e aguardar lá os próximos acontecimentos.” [4]Não podemos chamar científica a esta viagem. Querer ir à Crimeia ver um eclipse do Sol, atravessando os países beligerantes no dia em que é declarada a Primeira Guerra Mundial, era simplesmente uma teimosia dispendiosa. Costa Lobo era um homem político (é ele próprio que o diz, “porém eu, que tenho sido sempre político,” [5]) e sabia perfeitamente do drama que se estava a passar. Não fazia sentido fazer uma viagem destas, acompanhado de dois assistentes, pai e filho, o primeiro “ilustre capitão do nosso exército (…) e o seu filho, aspirante a oficial” [6]com pouca ou nenhuma relação com a astronomia, a uma tão distante parte do mundo. Diz-nos Costa Lobo: “Infelizmente a lamentável guerra que tão repentinamente se desencadeou produzindo dolorosíssima surpreza, embora há tanto tempo fosse constantemente esperada (…)” [7] Ainda antes de chegar a Berlim, em Paris, a 30 de Julho, depois do cepticismo mostrado pelo célebre astrónomo francês director do Observatório Astronómico de Paris, Henri-Alexandre Deslandres (1853-1948), de Costa Lobo poder continuar a viagem, Costa Lobo lamenta-se: “Confiei em que a razão evitaria uma conflagração….” [8] O mundo inteiro sabia e falava do perigo eminente da guerra eclodir, e o astrónomo português pretende, numa viagem de mais de duas semanas, chegar aos confins da Europa para observar um eclipse do Sol, no preciso dia em que eclode a Primeira Grande Guerra Mundial!Vejamos uma segunda faceta deste astrónomo. Em Junho de 1939, desta vez na véspera da Segunda Grande Guerra Mundial, Costa Lobo faz uma palestra em Paris, na Société d’Economie Politique (fundada em 1866). Nesta conferência o astrónomo fala do imperialismo da Prússia, e da sua “prépondérance sur les populations germaniques.” Se estas palavras tivessem acontecido 75 anos atrás, no tempo de Bismarck, tinham algum sentido pois enquadravam-se no momento histórico. Porém, estamos a poucos meses da Segunda Grande Guerra Mundial, porque no dia 1 de Setembro a Alemanha nazi ocuparia a Polónia e, em Maio de 1940, ocuparia a França. Para um “homem político”, é estranho que não haja nem uma palavra sobre o drama do dia seguinte.É curioso o facto de Costa Lobo ter ido a França fazer um discurso desta natureza a poucos meses da ocupação da França pelos nazis. Em Junho de 1939, os crimes nazis já eram muitos e conhecidos, mas Costa Lobo, no seu discurso, não pronuncia uma palavra sobre uma tragédia que já estava a acontecer.Vejamos uma terceira faceta na vida deste astrónomo. Na Biblioteca Central da Universidade de Coimbra, encontrámos um fascículo de 1942, cujo preço era de cinco escudos, com um curso do “Prof. Alves Quintela sobre Radiestesia, em 12 lições", com prefácio de uma página do “Ilustre cientista Dr. Costa Lobo”. (…) “Este curso” trata sobre “os processos de captar as vibrações, as ondas e as radiações, que todos os corpos e todos os seres emitem”, daí que “Lloyd George tenha usado uma forquilha na mão para…” (…) “Na China, há mais de 4.500 anos usava-se a vara mágica….” O Larousse define a radiestesia como: “Faculté ou art de percevoir des radiations émises par différents corps”. O mínimo que podemos dizer é que este “curso” não era para ser tomado a sério e admira ver o professor catedrático da Universidade de Coimbra Costa Lobo emprestar o seu nome a uma ligeireza deste tipo. O que esta atitude demonstra é que Costa Lobo não tinha, nem temia ninguém a quem prestar contas.Quando observamos o estado da Astronomia e da Física em 1950 em Portugal, verificamos que estas ciências têm um enorme atraso e sem dúvida que Costa Lobo teve uma quota importante de responsabilidade nesta situação. Exerceu, como director do Observatório Astronómico de Coimbra, professor da Universidade de Coimbra, Presidente do Instituto de Coimbra e da revista com o mesmo nome, essencialmente cargos políticos, pois fez e desfez como lhe apeteceu e velou com eficiência pelos interesses do Estado Novo.A oposição que Costa Lobo ofereceu à entrada em Portugal da Teoria da Relatividade – que passou pela criação de uma teoria absurda alternativa - não é, pensamos nós, puramente académica. A Relatividade para lá do seu significado puramente científico, implicava, juntamente com outras áreas do saber e das artes do início do século XX, um sistema cultural e filosófico que enriqueceu e iluminou as reflexões dos grandes problemas, contribuindo para os movimentos culturais, sociais e políticos que se deram no mundo ao longo do século XX, assim como para os vertiginosos progressos tecnológicos que resultaram das descobertas científicas efectuadas. O Estado Novo não teve uma particular animosidade política contra a Relatividade, uma vez que a maioria dos seus governantes não saberia sequer o que esta teoria significava, mas Costa Lobo apercebeu-se decerto das alterações que estavam a ocorrer no mundo, receou que elas abalassem o seu modelo sociopolítico, e opôs-se a elas.NOTAS[1] Em 1933 saiu um artigo de J. Perpétuo da Cruz sobre a “relatividade” da linguagem.[2] Francisco da Costa Lobo, Separata da Universidade de Coimbra, vol. III, nº 2, ou discurso na Assembleia Geral da União Internacional Astronómica, Cambridge (USA), 1932[3] Diogo Pacheco de Amorim, Elogios Históricos dos Doutores FM Costa Lobo e GS Costa Lobo, O Instituto (117), 1955, pp. 10 e 11[4] Diogo Pacheco de Amorim, idem, p 11.[5] Francisco da Costa Lobo, Novas teorias físicas, Sua correlação com os fenómenos biológicos e Sociais, p. 430-449, 1918[6] Francisco da Costa Lobo, O Eclipse de 21 de Agosto de 1914, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1914, p.5[7] Idem p. 4[8] Idem p. 5
April 6 2009, 2:16am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
O GABINETE DE CURIOSIDADES DE DOMENICO VANDELLI
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/o-gabinete-de-curiosidades-de-domenico.html
A editora brasileira Dantes, especializada em edições especiais e históricas, publicou a obra "Gabinete de Curiosidades de Domenico Vandelli" sobre o grande naturalista italiano do século XVIII, professor primeiro na Universidade de Pádua e depois na Universidade de Coimbra, que se ocupou da flora e fauna brasileira apesar de nunca ter ido ao Brasil. A edição é muito cuidada, havendo também uma colecção em caixa dos mesmos e de mais livros. Ver aqui e aqui. A caixa ganhou um prémio de excelência gráfica.
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April 1 2009, 6:26pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A PSEUDO-CIÊNCIA DE COSTA LOBO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/pseudo-ciencia-de-costa-lobo.html
Pela consideração devida à pessoa e à objecção levantada, puxo por aqui a minha resposta ao comentário que o astrónomo João Fernandes colocou ao último post do historiador António Mota de Aguiar sobre a história da Astronomia durante o "Estado Novo".O meu caro colega João Fernandes, que aparece naturalmente a defender a sua “dama” (a física solar em Coimbra), faz algumas afirmações com as quais não posso deixar de concordar, nomeadamente a necessidade que há de mais estudos sobre a história da nossa astronomia (António Mota de Aguiar já os tem feitos e aguardam-se outros, tendo a luz de surgir da respectiva discussão). No entanto, ele esquece um ponto importante. Costa Lobo (o pai, não o filho) foi um oponente feroz da teoria da relatividade. Mas mais ainda: ele defendeu uma teoria alternativa que mantinha intactos os conceitos de espaço e tempo absolutos. Chamou-lhe "Teoria Radiante" e para verificar quão delirante, mais do que radiante, essa teoria era bastará uma curta frase [1]:“L’Univers physique est une ensemble de points matériels qui possédant et conservent, indéfiniment, le minimum de matière, et sa vitesse initiale (maximum).” O ponto material, por ele chamado “ioton”, era, de acordo com Francisco Costa Lobo, o elemento constitutivo dos átomos, sendo muito menor do que os electrões e estando animados de uma velocidade máxima, maior do que a velocidade da luz! Esta teoria foi uma verdadeira mancha na carreira científica da Costa Lobo, tendo despertado críticas violentas por parte dos seus colegas, incluindo o professor de Matemática Manuel dos Reis e o físico Mário Silva, que eram evidentemente adeptos da teoria de Einstein [2]. Mas, Francisco Costa Lobo manteve sua posição para o resto de sua vida, defendendo suas estranhíssimas ideias numa conferência na Sorbonne, em Paris, em 28 de Maio de 1936 e em 3 de Julho do mesmo ano apresentou uma comunicação semelhante numa conferência em Tolosa, Espanha [3]. Repare-se no ano: 1936!Se Costa Lobo for considerado um expoente da astronomia nacional, não poderá deixar de ser contraargumentado que não estávamos, de facto, na varguarda dos avanços astronómicos.Agradeço a António José Leonardo e a Décio Ruivo Martins, meus co-autores de um artigo sobre a história da física solar que está em pré-publicação, as informações que me forneceram baseadas nos conteúdos da revista “O Instituto” cujo espólio está à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a ser devidamente inventariado num projecto apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.NOTAS[1] Lobo, F. M. da Costa (1936). Théorie Radiante. O Instituto. Vol. 90.º, p. 426.[2] Num artigo publicado na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra in 1932 vários professores de Física e Química da Universidade de Coimbra responderam aos “argumentos” de Costa Lobo (Basto, Egas Pinto e Mário Silva, 1932, La Théorie physique basée sur les phénomènes de radioactivité, du Dr. F. M. da Costa Lobo. Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, II (4): 263-280). Para mais informações ver Fitas, A. J. S. (2005). The Portuguese Academic Community and the Theory of Relativity. E-Journal of Portuguese History. Vol. 3, n.º 2, p. 1-15)[3] Ambas as comunicações foram publicadas n’ “O Instituto”, o jornal do Instituto de Coimbra – Lobo, F. M. da Costa (1936). Théorie Radiante. O Instituto. Vol. 90.º, p. 416-457; Lobo, F. M. da Costa (1937). Complements à la théorie radiante. O Instituto. Vol. 91.º, p. 268.
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April 1 2009, 3:46am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
GEDEAO/ CARVALHO - NOVOS POEMAS PARA O HOMEM NOVO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/gedeao-carvalho-novos-poemas-para-o.html
Já se encontra disponível a edição das Actas do Colóquio Internacional António Gedeão / Rómulo de Carvalho, que se realizou no Instituto Superior da Maia em 2006. As actas foram publicadas sob a seguinte referência bibliográfica:- RIO NOVO, Isabel e VIEIRA, Célia (2008), (coord.) António Gedeão / Rómulo de Carvalho - Novos Poemas para o Homem Novo: Actas. Maia: Edições ISMAI.
March 31 2009, 7:53pm | Comments »








