Breve apontamento saído no "Diário de Coimbra".Demócrito de Abdera (cerca 460 a.C. a 370 a.C.), filósofo grego, foi o principal expoente da escola atomista da cultura helenista. Segundo ele, o cosmos que nos rodeia é formado por um número incontável de átomos, partículas finitas e indivisíveis. O movimento dessas partículas fundamentais, de que todas as coisas seriam feitas, tem implícito a ideia da existência de vazio. Sem este vazio o movimento das partículas não seria possível, terá deduzido Demócrito. Este atomista explicava ainda a diversidade e o estado da matéria através da sua constituição por diferentes associações de diversos aglomerados de átomos. Cerca de 2400 anos depois, Rutherford coordena a experiência científica que corrobora, no geral, a ideia de átomo de Demócrito: partículas fundamentais finitas e muito “vazio”. Mas Rutherford acrescenta substância qualitativa e quantitativa ao átomo fundamental através do seu modelo atómico.Se hoje celebramos este avanço no conhecimento científico, fruto do método experimental, não podemos de deixar de referir a ideia antiga sobre a constituição do Universo. Até porque o atomismo de Demócrito "fertilizou" todo o novo pensamento científico moderno, pelo menos a partir de Galileu Galilei.António Piedade
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(≈) 2400 ANOS DE ATOMISMO!
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January 5 2011, 3:52am | Comments »
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Ano Internacional da Química
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Apontamento publicado no "Diário de Coimbra".(na foto, Marie Curie)O ano de 2011 foi proclamado Ano Internacional da Química na Assembleia Geral das Nações Unidas ocorrida em Glasgow, Escócia, no verão passado. Sob o lema “Química – a nossa vida, o nosso futuro”, os diversos eventos que decorrerão sob a égide desta atribuição serão coordenados e organizados pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) e pela UNESCO.Com o objectivo de “celebrar as contribuições da química para o bem-estar da humanidade”, a simultaneidade deste ano com as efemérides dos 100 anos do modelo atómico de Ernest Rutherford, e do centenário da atribuição do Prémio Nobel da Química a Marie Sklodowska Curie (primeira mulher galardoada com um Nobel) pela sua descoberta dos elementos Rádio (Ra) e Polónio (Po), oferece-nos imediatamente dois pontos de reflexão. Por um lado, a ubíqua difusão da Química em tudo o que nos rodeia, desde alimentos a medicamentos, desde plásticos aos satélites artificiais que procuram existência de vida em sistemas planetários nos confins do universo, analisando os espectros de luz irradiada ou reflectida por corpos celestes e que são interpretados com base num mesmo modelo atómico. O "século do plástico" foi-o por causa dos avanços na Química dos Polímeros. Por outro lado, reflectir sobre a incontornável contribuição das mulheres no desenvolvimento científico, pelo menos ao longo do último século.Como é sabido, o Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra vai promover um programa de eventos durante este ano (QUI365), o que, para além de ser mais do que iniciativa louvável pela sua regularidade, é também uma demonstração de como o conhecimento químico deve e tem de estar cada vez mais próximo do cidadão para que este entenda melhor as transformações do mundo em que vive, dos átomos de que é feito. António Piedade
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January 5 2011, 3:28am | Comments »
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Exposição sobre a Sociedade Real de Londres na Biblioteca Joanina
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Na Biblioteca Joanina em Coimbra continua patente ao público atyé final de Fevereiro a exposição "Membros Portugueses da Sociedade Reak de Londres". A TVI, no seu "Jornal da Uma" de domingo passado, deu a nótícia ao minuto 46.50 deste vídeo.
January 4 2011, 6:38pm | Comments »
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ÁTOMO CENTENÁRIO
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Crónica publicada no "Diário de Coimbra".(Na figura mostra-se uma imagem de uma monocamada de ouro, sobre uma superfície de mica, obtida por AFM).Comemora-se, neste ano de 2011, o centenário do modelo atómico proposto pelo físico Ernest Rutherford (1871-1937), prémio Nobel da Química em 1908. O seu modelo sobre a unidade fundamental da matéria propunha um átomo constituído por um núcleo central, pequeno e denso, carregado positivamente, ao redor do qual “orbitavam” electrões, partículas carregadas negativamente, em nuvens difusas. Cem anos depois, o modelo continua a ser, para determinados fins, uma boa aproximação à natureza do átomo. Da mesma forma que a teoria da gravidade de Newton continua a ser suficiente para os cálculos que nos permitem enviar um satélite até à Lua.Este modelo “planetário” para o átomo foi uma das primeiras associações entre a aparente semelhança na organização do sub-micro cosmos, o átomo, e os sistemas planetários cósmicos difundidos pelo Universo e de que o nosso sistema solar seria o exemplo mais próximo. Subentende que há muito “espaço vazio aparente” entre as partículas nucleares e os electrões na matéria, assim como o há entre os planetas e as estrelas que gravitam. Deixa muito espaço para a descoberta.Rutherford construiu o seu modelo a partir dos resultados experimentais obtidos com a seguinte experiência: Hans Geiger e Ernest Marsden, sob a orientação de Rutherford, fizeram colidir um feixe de partículas alfa (Niels Bohr haveria de demonstrar tratarem-se de núcleos de Hélio) contra finas camadas de folhas de ouro supostamente com a espessura de só alguns átomos. Os resultados mostravam que a quase da totalidade das partículas alfa atravessavam as folhas de ouro sem sofrer qualquer desvio na direcção da sua trajectória. Contudo, cerca de uma partícula alfa em cada 8000 sofria um desvio com um ângulo superior a 90 graus. Ou seja algumas invertiam o sentido da sua trajectória. Este desvio é compreendido se se considerar que resulta da repulsão electrostática entre a partícula alfa e um núcleo carregado positivamente. A percentagem muito baixa de partículas desviadas sustentava a hipótese de os núcleos positivos ocuparem um volume muito pequeno em cada átomo na rede cristalina da folha de ouro. Com quase toda a massa e carga positiva presente num núcleo pequeno (relativo ao volume total do átomo) e denso, quase todas as partículas alfa atravessam a folha de ouro sem colidir com algo, sem sofrerem desvios na sua trajectória.O modelo atómico de Rutherford pode considerar-se um marco fundador da Química e da Física Nuclear. A partir dele foi possível uma revolução do nosso entendimento sobre a estrutura da matéria, por exemplo, o funcionamento dos materiais semicondutores. A tecnologia que derivou do modelo atómico alterou a forma de viver no século XX e permitiu, exemplo geral, a invenção de computadores que hoje utilizamos para nos ligarmos em rede global através da internet.António Piedade
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January 4 2011, 4:04am | Comments »
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ESTRANGEIRADOS EM LONDRES
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Minha crónica na última "Gazeta de Física" deste ano (na figura Isaac Newton):A Royal Society de Londres, ligada ao nome de Isaac Newton e de tantos outros cientistas ilustres, está a celebrar os seus 350 anos, orgulhando-se de ser a academia científica mais antiga do mundo em funcionamento ininterrupto (outras mais antigas, como a Accademia dei Lincei, ligada a Galileu, esteve parada muito anos, ou cessaram mesmo actividade). A sua divisa é, desde o início, Nullius in verba, em tradução livre Não acredites na palavra das autoridades. De facto, o pequeno grupo de sábios que se reuniu na capital da Grã-Bretanha em 1660 estava imbuído do espírito da Revolução Científica: o conhecimento sólido devia ser comprovado pela experiência.Há uma “portuguese connection” na origem da Royal Society pois essa sociedade só é real porque recebeu carta de privilégio do rei Carlos II, que era casado com a nossa Catarina de Bragança. Nos seus três séculos e meio de vida, a Royal Society admitiu apenas 25 sócios portugueses, o primeiro dos quais logo em 1668. A maior parte das entradas dos membros portugueses ocorreu, porém, no século XVIII, o tempo do Iluminismo tão bem simbolizado pela Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, onde uma exposição evoca esses homens de ciência e cultura. Entre os nomes de maior destaque tem de se colocar João Jacinto Magalhães, o monge do Mosteiro de Santa Cruz que emigrou para Inglaterra porque não queria viver num país onde faltava a liberdade. Ele foi, no século das luzes, um dos sábios que mais contribuiu para a expansão das ideias, ao relacionar-se com Watt, Priestley, Lavoisier, Volta, Franklin, etc. Para Portugal enviou alguns instrumentos científicos de sua concepção que hoje pertencem às colecções do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra e estão patentes nessa exposição. Mas foi para Filadélfia, confiando no seu amigo Franklin, que enviou os guinéus para instituir o Prémio Magellan, um dos prémios científico-tecnológicos mais antigos do mundo e que, entre outros, distinguiu pioneiros do GPS.Magalhães (descendente do famoso navegador) não foi o único “estrangeirado” que se distinguiu no século XVIII em terras britânicas. O Padre Teodoro de Almeida, que pode ser considerado o primeiro físico experimental assim como o primeiro divulgador científico em Portugal, também se exilou, precavendo-se do despótico regime pombalino. E o mesmo aconteceu com outro padre oratoriano, João Chevalier, astrónomo que chegou a presidir à Real Academia de Bruxelas. Almeida voltou para Portugal, ajudando a fundar a Academia de Ciências de Lisboa, mas o mesmo não aconteceu com Chevalier que ficou “estrangeirado” toda a vida.Outro “estrangeirado” ficou conhecido como o “Newton português”: Bento de Moura Portugal, nascido em Moimenta da Serra, calcorreou durante anos a Europa, onde aprendeu a criar engenhos e obras hidráulicas. Tendo-se atrevido a regressar não escapou a um fim trágico: morreu nas prisões da Junqueira, em Lisboa, onde estava encarcerado às ordens do Marquês. É uma ironia da história que o Marquês de Pombal, diplomata em Londres antes de ser primeiro-ministro, tenha sido admitido na Royal Society escassos meses antes de Moura Portugal. Na exposição da Biblioteca Joanina, a ordem inverteu-se pois o visitante encontra primeiro Moura Portugal no piso intermédio, junto ao desenho da sua “máquina de fogo” publicada nas Philosophical Transactions, e só depois o Marquês, junto com os seus famosos Estatutos da Universidade, no piso inferior, no espaço que foi outrora Prisão Académica...
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December 28 2010, 5:05am | Comments »
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Sobre o pensamento de António Gião
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Novo post recebido de António Mota de Aguiar (na figura, Albert Einsrtein):Na terceira década do século XX, Einstein investigava uma teoria do campo unitário, que procurava resumir, numa série de equações, as leis que governam duas forças fundamentais do Universo: a gravitação e o electromagnetismo. Einstein manteve este tipo de investigação até ao fim da sua vida, embora nunca tenha obtido êxito (ainda nos dias de hoje o problema não tem solução consensual).António Gião foi um defensor da teoria da relatividade geral de Einstein, que tem a ver com o espaço, o tempo, a matéria e a energia e que tem implicações sobre a estrutura global do Universo.A 16 de Janeiro de 1946 Einstein recebeu uma carta de Reguengos de Monsaraz a propósito da teoria unitária. António Gião era o físico de Reguengos que assim se começou a corresponder com o autor da teoria da relatividade, propondo-lhe "acertos" na teoria das forças fundamentais. Para grande felicidade do físico português, Einstein respondeu-lhe com celeridade. A consideração que o físico de origem alemã mostrou ao responder rapidamente a Gião mostra bem a qualidade dos argumentos do físico português.Em 1965, ocorreu uma descoberta científica de grande significado para a astronomia: os americanos Arno Penzias e Robert Wilson descobriram uma radiação isótropa – isto é, repartida igualmente em todas as direcções – do fundo do céu. Esta descoberta veio de certo modo confirmar a teoria da relatividade geral, na medida em que esta conseguia prever que o Universo estava em expansão. António Gião, quando morreu quatro anos mais tarde, estava ao corrente das mais recentes descobertas da astronomia. Mas não pôde, infelizmente, assistir ao posicionamento de grandes e sofisticados instrumentos na Terra para observar os astros, que se seguiu na década de setenta.A noção da grandeza do Universo contribuiu para reforçar a sua ideia da “angústia existencial” do homem, mostrando-se preocupado com o que chamou “o carácter trágico do mundo”. Dizia ele que: “Qualquer que seja porém o caminho que seguir, o Homem só encontrará a verdadeira felicidade como um limite, talvez inacessível, de Conhecimento e de Amor”. Gião amava “o Belo” e, para aprofundar a sua relação com ele, serviu-se da música e, sobretudo, da poesia, revelando uma elevada sensibilidade, como podemos ler no soneto em francês que a seguir transcrevo:"Pourquoi décrire les choses que l’on aime?Parlant de toi, du ciel et des fleursOn ne fait que tracer des courbes blêmes :Tangentes fugitives du bonheur.Nous ne voulons pas que la simple imageDu souvenir de tous les jours passésSoit la fée solitaire de cette page:Aile volant vers toi par la penséeL’absence est source de schémas qui meurentDans la mémoire. Les dons de ces symbolesS’éteignent pour toujours, mais nos yeux pleurent.Depuis trop longtemps dans l’espace arideNous cherchons la nouvelle parabole:Remède intérieur de notre vide. "Em 1967, Gião escreveu umas “Considerações sobre Poesia” onde expunha as suas ideias sobre a relevância da arte na vida humana. Dizia ele:“Cada um de nós traz consigo, no mais íntimo de si mesmo, uma Mensagem que por assim dizer resume a sua Vida. Constantemente impelidos pelas exigências dessa Mensagem, tentamos exprimi-la pela acção, pelo pensamento, pela criação plástica ou ainda pelo Canto. (…) É esta a razão de ser do Canto incompleto e da Poesia, necessária ilusão da Vida Única, Objecto e imagens confundidas, Forma e Matéria transparentes, reconciliação com o Espaço, dissolução dos fantasmas do Tempo, Paraíso reencontrado. (…) Acumulando progressivamente todas as experiências interiores e exteriores, incorporando no mais fundo do ser, no Castelo interior, como dizia Santa Teresa, todas as visões espontâneas e provocadas, sintetizando, fundindo e cristalizando todas as influências que nos vão formando, depressa o nosso eu toma a forma, a substância e as cores definitivas que constituem a essência da nossa identidade. A riqueza desta substância pode manifestar-se pela irradiação do canto e da Palavra, tentativa incompleta de transformação da linguagem inefável da Mensagem em linguagem comunicável. O resultado desta tentativa é essencialmente a Poesia quando consegue revelar o Absoluto Subjectivo que reside no Castelo Interior do Poeta”.O cientista e poeta de Reguengos de Monsaraz foi um intelectual exigente e rigoroso, legando-nos um trabalho científico que hoje está, em parte, depositado na sua Casa Museu nessa localidade alentejana. Merece a nossa curiosidade.António Mota de Aguiar
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December 19 2010, 8:28pm | Comments »
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António Gião, apontamento biográfico
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Post recebido do historiador António Mota de Aguiar:António Gião foi um importante cientista português do século XX. Fez o liceu em Évora e, antes de emigrar para França, frequentou durante dois anos a Universidade de Coimbra. Nascido a 1906 em Reguengos de Monsaraz, faleceu em Lisboa em 1969. Infelizmente, teve uma vida relativamente curta: tivesse ele vivido mais alguns anos e talvez tivesse tido a possibilidade de divulgar mais e melhor divulgar o seu trabalho, permitindo-nos conhecer hoje melhor a sua obra científica.A sua obra científica foi assaz relevante, uma vez que foi “desde os anos 40 e até à sua morte nos finais de 60 a figura central da Relatividade e da Cosmologia em Portugal”. Isso é tanto mais importante quanto António Gião nasceu num país de parca tradição científica e numa região pobre de Portugal, como era o Alentejo no início do século XX.Emigrou para França e, em 1927, com 21 anos, obteve em Estrasburgo o diploma de Engenheiro Geofísico. A partir daí, e até à sua morte, Gião teve um percurso profissional e científico de renome internacional: trabalhou nas Universidades de Bergen, Florença, Génova e Dublin, no Real Instituto Meteorológico da Bélgica, no Instituto Nacional Meteorológico de Paris e no Instituto Poincaré, também de Paris.Em 1960 foi nomeado Professor Catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa, tendo na década de 60 sido director científico do hoje extinto Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência.Ao longo da sua carreira de investigador, Gião deixou-nos numerosos trabalhos, em particular na área da Física Matemática, apresentou numerosas comunicações à Academia das Ciências de Paris, deu lições e conferências em várias universidades europeias tendo escrito mais de cem trabalhos de investigação, na sua maioria publicados em jornais científicos europeus e norte-americanos.António Gião foi também um amante da música e, como “um cientista apaixonado pela poesia”, deixou-nos muitos poemas, que serão aqui recordados em próxima ocasião. O cientista, poeta e humanista é um dos nossos grandes valores da nossa ciência do século XX. Não o devemos esquecer.António Mota de Aguiar
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December 16 2010, 6:25pm | Comments »
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EGAS MONIZ, A BIOGRAFIA
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Minha crónica no "Sol" de hoje:Ainda a tempo do Natal acaba de chegar às livrarias, em edição da Gradiva, uma biografia do cientista luso que, com o prémio Nobel, ganhou, no século XX, maior reconhecimento internacional: o professor de Medicina e neurocirurgião António Egas Moniz. É seu autor outro professor de Medicina e neurocirurgião, João Lobo Antunes. O autor foi sensível ao filósofo Fernando Gil, que comentou que “teria um dia de escrever um livro, e não se limitar a colectâneas de ensaios de temáticas variadas”. O livro é este. O subtítulo diz, com alguma modéstia, que se trata de “uma biografia”. Mas é, antes, “a biografia” do grande sábio.Não é preciso falar muito sobre o autor, bastando dizer que da sua pena tem saído alguma da melhor prosa ensaística em língua portuguesa. Mas convém acrescentar que, servindo-se dos seus apurados dotes de investigador, pesquisou com profundidade praticamente todas as fontes que havia sobre Egas Moniz, avaliando-as com singular espírito crítico e oferecendo ao leitor o destilado produto dessa avaliação. Fala com vivo interesse de uma personagem de quem está próximo, não só por praticar a mesma profissão, mas também por o seu pai ter sido colaborador próximo do biografado.O leitor lerá com gosto neste livro uma descrição completa da vida de Egas Moniz, desde os anos de formação, primeiro na ria de Aveiro, depois no colégio jesuíta de Castelo Branco e depois ainda na Universidade de Coimbra, até aos anos finais de fama e glória, na Universidade de Lisboa, proporcionadas pelas numerosas láureas, passando pela sua precoce carreira política e diplomática e, evidentemente, por todos os trabalhos científicos que conduziram às suas duas obras maiores: a invenção da angiografia e da leucotomia pré-frontal. Encontrará relatos de peripécias pouco conhecidas, como a sua “descoberta” dos raios X através de um trabalho académico solicitado por um mestre coimbrão, quando esses raios ainda eram novidade, ou o seu duelo com Norton de Matos, com quem mais tarde haveria de se reconciliar. Ficará a saber que Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro foram doentes de Egas Moniz. A biografia tem, como assinala com ironia Lobo Antunes, sexo e violência: sexo porque A Vida Sexual foi a tese de doutoramento do biografado, que havia de tornar-se um best-seller, e violência porque ele foi atingido a tiro, já em idade madura, por um seu paciente.Lobo Antunes demora-se na descrição das invenções de Egas Moniz. Se a primeira, revolucionária na época, resistiu à erosão do tempo, a segunda tem sido alvo de críticas. O autor critica as críticas: para ele, o Nobel foi merecidíssimo. Refere mesmo o renascimento actual da psicocirurgia. Este é o livro que nos faltava sobre um dos nossos maiores cientistas!
December 16 2010, 6:16pm | Comments »
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Breve História da Ciência em Portugal na RTP
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No final (minuto 26.45) do seguinte vídeo contendo o programa "Com Ciência" da RTP, do dia 15 de Dezembro, da responsabilidade de Vasco Trigo, é apresentado o livro "Breve História da Ciência em Portugal" (Imprensa da Universidade e Gradiva), de que sou co-autor com Décio Martins.1ª parte do Com Ciência de 2010-12-15 - ComCiência
December 16 2010, 11:07am | Comments »
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SOBRE "AOS OMBROS DE GIGANTES"
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Depoimento que prestei ao JL sobre o livro "Aos Ombros de Gigantes" (Texto Editores):JL- O que podem encontrar os leitores nesta volumosa obra? E que a que público se destina?CF- O volume é, de facto, grande. E grandes são também as obras que contém: obras de cinco dos maiores cientistas da história, Copérnico, Galileu, Kepler, Newton e Einstein, comentados por Hawking. Levar para casa num só volume os principais livros, traduzidos em português, destes nomes notáveis da física é uma grande tentação. O público será formado por todos aqueles que se sentirem tentado por saber mais sobre a história da ciência e por ter os clássicos da ciência perto de si. Não é um livro só para especialistas, mas também para os cidadãos com alguma curiosidade sobre a ciência. Este livro tem tido várias edições internacionais, com enorme êxito, incluindo uma edição brasileira usada para a preparação do presente volume. Tardou um pouco a vir a lume pelo cuidado que foi necessário na sua preparação, mas veio a tempo do Natal. Parece-me uma óptima prenda.JL- Como surge na coordenação científica da tradução desta obra?CF- A Texto Editores, que tem publicado manuais escolares da minha autoria, pediu-me ajuda para a edição. Era obra demais para uma só pessoa só, pelo que eu próprio pedi ajuda a alguns colegas, tendo coordenado o respectivo trabalho. Escrevi também o prefácio. Demorou a verter para o nosso português, a traduzir partes do original inglês que os brasileiros deixaram de lado e a ver provas sucessivas, que passaram pela revisão literária além da revisão científica. Há edições da Fundação Gulbenkian de alguns textos dos presentes autores, mas, salvo erro ou omissão, é a primeira vez que aparece em português moderno um texto extenso de autor tão importante como Kepler. E há a vantagem de ter todas estas obras concatenadas num só volume a um preço razoável. É uma espécie de "Bíblia" da Física.JL- Quem são estes "gigantes" a cujos ombros nos colocamos? O que resta dos seus legados científicos, numa época acelerada, em que tudo é refutado muito depressa?CF- A expressão gigantes vem de Newton, que foi quem disse: "Se consegui ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes". Estava a referir-se aos astrónomos e físicos que o antecederam, tais como Copérnico, Kepler e Galileu. Newton foi ele mesmo um gigante. E Einstein foi um outro gigante que, para ver mais longe, teve de subir aos ombros de Newton. Esta pirâmide humana simboliza a construção de progresso científico. A ciência é cumulativa pois não há ciência do presente sem a ciência do passado, que ao contrário do que por vezes se pensa é em larga medida respeitada e conservada. Einstein propôs uma nova mecânica, mas esta concorda num certo limite com a mecânica de Galileu e Newton. A pirâmide não está terminada. Cem anos depois de Einstein, ainda ninguém conseguiu subir aos ombros dele. É o que Hawking tem tentado fazer. Ou o português João Magueijo... Mas Einstein continua actual. Não é, portanto, verdade que tudo seja refutado muito depressa. Quem levar este livro para casa ficará com boa parte do nosso conhecimento científico actual. Pode ver o que os gigantes viram.JL- Como avalia o estado actual da divulgação científica em Portugal?CF- Os livros de divulgação científica continuam ser muito procurados por jovens de todas as idades. Não estamos na época de ouro da divulgação científica que se deveu a Carl Sagan e outros nos anos 80, quando surgiu entre nós a editora Gradiva, mas a literatura de ciência está bem e recomenda-se. Estamos no período de Stephen Hawking, de quem a Gradiva, que já tinha lançado o fenomenal "best-seller" que foi "Breve História do Tempo", lançou há pouco um novo livro. E há novos autores que nos transmitem as "últimas notícias do cosmos". Leitores interessados pela ciência sempre houve pois a ciência tem este poder mágico de atrair os jovens de cada nova geração sem alienar as pessoas das gerações anteriores que antes foram atraídas.JL- E a crise está a afectar a produção de pensamento científico?CF- Não, de modo nenhum. O cérebro humano, que é a parte de nós que quer saber mais, não conhece crises. O pensamento novo continua a emergir, ainda que possa haver dificuldades conjunturais no financiamento de laboratórios e institutos. Nunca, na história da humanidade, existiu nem tanta gente a fazer ciência nem tanta gente a viver melhor graças à ciência. Sagan disse muito justamente o que "O nosso destino é o conhecimento". E o nosso destino continua a cumprir-se.
December 15 2010, 2:10pm | Comments »







