Minha crónica de hoje no "Sol" , revista "Tabu" (na imagem salinas da Figueira da Foz): O mais conhecido dos poemas da Mensagem, o único livro publicado por Fernando Pessoa em vida (1934), intitula-se Mar Português e começa assim: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” Porque é que o mar é salgado? Porque é rico em iões (átomos com electrões a menos ou a mais) de cloro e de sódio, os primeiros positivos e os segundos negativos. Esses iões, quando a água se evapora, ligam-se facilmente para formar uma rede cristalina, com os dois tipos de iões intercalados, conhecida por rede do cloreto de sódio, que é nada mais nada menos do que o vulgar sal das cozinhas com que temperamos a comida. Basta ir ao Núcleo Museológico do Sal, um pequeno mas curioso museu numa salina na localidade de Armazéns de Lavos, perto da Figueira da Foz, na margem esquerda do rio Mondego, para ver “in loco”como é que o sal se retira, em salinas, da água do mar. A expressão “rico em iões” pode ser quantificada. Em cada litro de água, encontram-se 3,5 gramas de iões, dos quais a grande maioria (86 por cento) são iões de cloro e de sódio. Pode-se morrer de sede rodeado de água no meio de um oceano, pois o nosso organismo não aguenta a ingestão de uma quantidade de sal tão elevada. O sal é necessário à vida, mas apenas na devida conta. Todos os nossos fluidos corporais - sangue, suor e lágrimas - possuem sal, mas numa proporção bem mais baixa do que aquela que se encontra nos oceanos. De onde vieram os iões do mar? Na sua maior parte, foram-se acumulando ao longo dos tempos a partir da dissolução das rochas. A idade da Terra pode então ser calculada a partir da concentração de sal marinho. A primeira pessoa a ter essa brilhante ideia foi, em 1715, Edmond Halley, sim, esse mesmo, o astrónomo inglês que deu o nome ao cometa que apareceu há cem anos, nas vésperas da República, e voltou passados 76 anos. Halley supôs que os iões eram retirados das rochas pelas águas das chuvas e arrastados para o mar. Mas não fez os cálculos. Bastante mais tarde, em 1899, o físico irlandês John Joly, estimando o valor do caudal dos rios e conhecendo o teor de sal na água do mar, avaliou a idade da Terra em cem milhões de anos, um número bem maior do que aquele que se admitia até essa altura. Contudo, os erros desse processo eram bastante grandes pois o cálculo não levava em conta com outras origens (por exemplo, vulcões e fontes hidrotermais) dos iões presentes na massa oceânica assim como o destino de uma parte deles (depósitos em rochas). De facto, graças a outras técnicas, mais exactas, designadamente assentes em medidas da radioactividade natural, sabe-se hoje que o nosso planeta, incluindo tanto continentes como oceanos, é bastante mais velho do que foi estimado por Joly: tem cerca de 4,5 mil milhões de anos.
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Ó MAR SALGADO....
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October 21 2010, 6:18pm | Comments »
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ARTIGOS CIENTÍFICOS NA 1ª REPÚBLICA E INÍCIO DO ESTADO NOVO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/artigos-cientificoa-na-1-republica-e.html
Uma pesquisa na Web of Science fornece os seguinte números de publicações científicas de autores com o endereço em Portugal desde o início do século XX até quase ao fim da 2ª Guerra Mundial:1900- 1914 - 3 artigos1915-1924 - 11 artigos1925- 1934 - 3 artigos1935-1944 - 16 artigosTotal: Em quase meio século, 33 artigos. Pouco? Muito pouco! Mas no mesmo período a Espanha tem 45.Notas:- Desde 1900 até 1910, nos últimos tempos da monarquia, não se registou nenhum artigo de autor português: o único é de um autor britânico a trabalhar no hospital britânico no Porto.- Nos 16 anos da República registam-se 14 artigos. Nos 18 anos seguintes (Ditadura militar e Estado Novo) há 18.- O autor com mais artigos é Abel Salazar (8 artigos).- O autor mais citado é Egas Moniz, tendo 78 citações ao seu artigo de 1937 sobre a lobotomia préfrontal.
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October 20 2010, 8:37am | Comments »
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DE MARX A DARWIN, POR ONÉSIMO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/de-marx-darwin-por-onesimo.html
Minha recensão, em vídeo, do livro "De Marx a Darwin" (Gradiva), de Onésimo Teotónio Almeida: basta clicar aqui.
October 20 2010, 2:59am | Comments »
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SOBRE A CIÊNCIA EM PORTUGAL NO SECULO XX
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/sobre-ciencia-em-portugal-no-seculo-xx.html
Texto recebido do historiador António Mota de Aguiar:Ao redor de 1900 Portugal vivia uma enorme crise política e económica que iria desembocar nos trágicos acontecimentos de 1908 e na implantação da República em 1910. Os 16 anos que a República durou também foram anos turbulentos e a ditadura que surgiu na década de 30 dificultou, sobremaneira, a vida pessoal e pública de boa parte dos nossos cientistas do século XX.Apesar de ter sido uma época difícil o século começou com a atribuição de um prémio internacional a um astrónomo português: César Augusto Campos Rodrigues conseguiu, com os apetrechos modestos que o Observatório da Tapada da Ajuda em Lisboa possuía, ganhar em 1904, o Prix Valz, da Academia das Ciências de Paris. Na década de 20, Leonardo Coimbra, um homem das Letras, um anti-positivista que era acérrimo relativista, agitou a vida cultural, introduzindo a teoria da relatividade. Em áreas como a Física, a Matemática e outras, uma parte dos cientistas lutou pela afirmação dessa teoria, sobre a qual houve, ao longo de décadas, várias "escolas" de pensamento.Nas décadas de 30 e 40 evidenciou-se um grupo de intelectuais exímios, defensores brilhantes do positivismo, na forma de neo-positivismo, dos quais saliento o médico Abel Salazar, que leccionou Histologia e Embriologia na Faculdade de Medicina do Porto, e escreveu numerosos artigos em revistas e jornais da época, em particular na revista o “Diabo”.Desse tempo ficou a memória do notável intelectual que foi Mário Silva, catedrático da Universidade de Coimbra e director do Laboratório de Física, que foi estudante e assistente de Madame Curie de 1925 a 1930 no Instituto do Rádio de Paris, e que tentou em Coimbra criar um Instituto do Rádio.Refiro outros cientistas ilustres deste período: os matemáticos Ruy Luís Gomes, António Aniceto Monteiro, e Bento de Jesus Caraça; o físico Manuel Valadares, também ele aluno de Madame Curie; o biólogo Aurélio Quintanilha; e os médicos Egas Moniz, prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949, Mário Corino de Andrade e Francisco Pulido Valente. E haveria ainda algumas dezenas de cientistas distintos a referir.Nas décadas de 30 e 40 observou-se uma grande agitação cultural envolvendo cientistas de várias ciências, alguns regressados do estrangeiro, onde tinham realizado estágios, graças à acção profícua da Junta de Educação Nacional, que tinha permitido o envio para fora de estudantes portugueses desejosos de aprender.A partir dos anos 30 o Estado Novo empreendeu, porém, uma perseguição a muitos professores, afastados por se oporem a um regime político repressivo que permitia elevados níveis de pobreza e analfabetismo. Assim, cientistas portugueses altamente qualificados foram afastados do sistema educativo: quando não foram presos, tiveram de se exilar no estrangeiro.Em consequência, o século XX até ao 25 de Abril de 1974 foi um tempo de atraso da ciência em Portugal. Foi pena, pois Portugal podia ter sido transformado por homens de elevada craveira científica e intelectual.António Mota de Aguiar
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October 17 2010, 3:29pm | Comments »
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Portugal - Britain: 250 years of Scientific Exchange (1660-1910)
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Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:International Colloquium at the Joanina Library, University of CoimbraPortugal- Britain: 250 Years of Scientific Exchange (1660-1910)Organized on the occasion of the 350th anniversary of the Royal Society of London to remember the 25 Portuguese scientists and diplomats who were members of that Society (including notable scientists like João Jacinto Magalhães - Jean-Hyacinthe Magellan, Abade Correia da Serra - Abbé Correa, Jacob de Castro Sarmento and Bento de Moura Portugal and diplomats like D. João Carlos de Bragança - 2nd Lafões Duke and the Marquis of Pombal) and, in general, the Portuguese-British scientific exchange from the foundation of the Royal Society to the beginning of the Portuguese Republic.Friday, 10th December 2010Organized by the General Library of the University of Coimbra, in collaboration with the Royal Society, in the framework of the Exhibition "Portuguese Fellows of the Royal Society", which will be on display at the same Library from 15th November to 30th January 2011, in collaboration with the Museum of Science of the University of Coimbra.Invited Speakers (already confirmed):- Keith Moore (Royal Society)- Robert Fox (University of Oxford)- Ana Simões (University of Lisboa)- Décio Martins (University of Coimbra)- Isabel Malaquias (Universidade de Aveiro)The Colloquium will be in English.Short presentations on the Portugueses Fellows of the Royal Society may be accepted: please send abstract until 15th November to director@bg.uc.pt )Participants:Open to historians of science, historians and scientists, as well as students of these disciplines. Since the noble space of the Joanina Library only allows for 80 seats, there is a restriction in the number of participants. The fee is 25 Euros (including coffee breaks, documentation and a guided tour of the exhibition and the Museum of Science of the University of Coimbra) with a 40% reduction for students, and has to be paid in advance. There will be a fee waiver for the authors of accepted contributions.Place:The Joanina Library (Biblioteca Joanina) is the Baroque library of the University of Coimbra, built in the early 18th century during the reign of the Portuguese King João V (and named after him). It is located in upper Coimbra, the university historic centre, near the university tower, and is part of the University of Coimbra General Library. It is a European Heritage place. The Exhibition will make available to the public for the first time the whole space of the Library building, including the noble floor, the intermediate floor and the academic prison, in the basement.Organizing committee: Carlos Fiolhais (chairman, University of Coimbra, director@bg.uc.pt), Keith Moore (Royal Society) and Dennis Weaire (Trinity College, Dublin)Sponsors: Foundation for Science and Technology, Royal Society and University of Coimbra.
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October 14 2010, 11:44am | Comments »
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“A Photographia atravez dos corpos opacos”
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/photographia-atravez-dos-corpos-opacos.html
António Piedade escreveu este apontamento para o "Ciência Hoje":Os últimos 150 anos foram marcados por importantes descobertas científicas que mudaram paradigmas e o dia-a-dia da sociedade em que vivemos. Contrastando com essa mudança, pode afirmar-se que, de um modo geral, a imprensa portuguesa sempre tratou com indiferença, expresso em particular na falta de rigor, o avanço da ciência produzida quer aquém, quer além fronteiras, assim como os cientistas que o protagonizaram.Exemplo disso é o silêncio jornalístico ao redor da visita de Albert Einstein a Lisboa, a 11 de Março de 1915: nem uma única linha foi escrita pela imprensa portuguesa, e só sabemos dela através de notas do seu diário.À procura de eventuais e raríssimas excepções, encontra-se uma e logo muito interessante, que está documentada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (aqui) e que é contextualizada no livro “Breve História da Ciência em Portugal”, de Carlos Fiolhais e Décio Martins, publicado este ano pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pela Gradiva.Na primeira página do jornal O Século de 1 de Março de 1896, foi publicado um artigo extenso sob o título “A Photographia atravez dos corpos opacos” (reproduzida num artigo de Décio Martins na página do Instituto Camões l). Nele, noticiavam-se os resultados da aplicação médica de raios X, obtidos pela primeira vez em Portugal e na Universidade de Coimbra, em Fevereiro de 1896, pelo físico Henrique Teixeira Bastos.Esta notícia e o seu conteúdo são espantosos pelo facto de os raios X só terem sido descobertos por Roentgen, três meses antes, a 8 de Novembro de 1895, em Wuerzburg, na Baviera, Alemanha. Isto significa não só que Teixeira Bastos e os seus pares portugueses estavam em contacto atento e na vanguarda do conhecimento da estrutura da matéria e das radiações electromagnéticas, mas também que existiam, no então Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, as condições necessárias para a reprodução e validação experimental das últimas descobertas científicas. Sabe-se que esta actualidade científica deve muito aos contactos e viagens internacionais mantidas pelo físico António dos Santos Viegas, também professor em Coimbra (durante mais de 50 anos).A notícia n' O Século implica ainda existir nessa época uma profícua colaboração interdisciplinar entre a Faculdade de Filosofia (que então albergava ciências como a Física) e a Faculdade de Medicina. De facto, essa relação de partilha de conhecimento resultou numa rápida aplicação médica das descobertas sobre a estrutura atómica que foi materializada com a criação em 1901, curiosamente o ano em que Roentgen recebe o primeiro prémio Nobel da Física (aqui), do Gabinete de Radioscopia e Radiografia no Hospital da Universidade de Coimbra.Alguns dos instrumentos utilizados nas experiências então noticiadas podem ser vistos na exposição permanente do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra bem assim como no recentemente reaberto Gabinete de Física do século XVIII (aqui), pertencente ao mesmo Museu.Legenda da fotografia: “Mão direita de um rapaz que sofre de tuberculose óssea”.António Piedade
October 14 2010, 11:24am | Comments »
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VOLTA CONTRA GALVANI
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/volta-contra-galvani_05.html
No dia em que atribui mais um prémio Nobel da Física respigo, do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva), uma história da física no tempo em que não havia prémios Nobel (na imagem Alessandro Volta com a sua pilha):É da discussão que nasce a luz. A ciência para chegar, em cada momento, ao que se supõe ser a verdade serve-se da controvérsia. Uma das mais importantes controvérsias científicas ocorreu no final do século das luzes, mais precisamente na última década do século XVIII. Vale a pena revisitá-la para iluminar o modo como a ciência funciona.A disputa deu-se à volta da origem da origem da electricidade e foram contendores dois grandes personagens da história da ciência, o médico italiano Luigi Galvani (1737-1798) e o físico (na altura dizia-se filósofo natural) Alessandro Volta (1745-1827). Volta venceu a disputa, embora Galvani, entretanto falecido, não tivesse assistido ao triunfo do seu adversário. Os dois trataram-se sempre de uma forma muito cavalheiresca, mostrando que se pode levar a cabo uma polémica sem desconsiderações nem insultos.Galvani era natural de Bolonha, onde se situa a mais antiga universidade do mundo. Foi professor de Medicina nessa universidade. E foi natural ter-se interessado pela electricidade. Com efeito, no século XVIII os fenómenos eléctricos eram muito populares. Chamou-se século das luzes mas podia bem ter-se chamado século da electricidade... Nos salões aristocráticos faziam-se experiências divertidas com descargas eléctricas. Para explicar experiências que realizou nos anos 80 e nas quais observou espasmos de pernas de rãs, Galvani defendeu que a electricidade tinha uma origem animal. A primeira observação terá sido acidental: o movimento de uma perna de batráquio terá ocorrido quando o seu suporte de ferro contactou com a borda também metálica da bancada de laboratório. Mas logo se seguiram várias experiências do mesmo tipo mas mais ou menos controladas. Ainda hoje se chama “galvanismo animal” aos fenómenos estudados por Galvani. E é curioso como ainda hoje usamos a palavra “galvanização”, que significa dinamizar, animar (pode ler-se num jornal desportivo que a equipa “ficou galvanizada com o golo”). A disputa entre Galvani e Volta estalou em 1792 com o trabalho de Galvani “De viribus elettricitatisin motu musculari commentarius”, no qual ele apresentava as suas observações e interpretações. Para Volta, nascido também no Norte de Itália, mas na bela cidade de Como, e que se tornou em 1778 professor na Universidade de Pavia (a Pavia que, tal como Roma, não se fez num dia), não concordou com a interpretação de Galvani. Para ele a causa da electricidade era o contacto de dois metais diferentes. Os condutores não serviam apenas para conduzir mas também para criar a própria electricidade.Numa série de experiências realizada em 1794 Galvani mostrou que os contactos metálicos podiam ser dispensados. O contacto entre dois materiais biológicos podia produzir o mesmo tipo de contracções musculares. Contudo, Volta não se deixou convencer e sustentou que era ainda um contacto entre nervo e músculo, permeado por um líquido (saliva, sangue, etc.), que causava o fenómeno eléctrico. Para ele era, sem qualquer dúvida, a diferença entre os condutores que contava, quer fossem metálicos quer fossem órgãos humedecidos.A diferença de opiniões foi sumariada por Galvani nos seguintes termos:“Ele [Volta] considera a electricidade comum a todos os corpos; eu penso que é característica dos animais. Ele é de opinião que o desequilíbrio vem da diferença entre os dispositivos usados, em particular os metais; pelo contrário, eu favoreço a máquina animal. Em resumo, ele atribui tudo aos metais e não ao animal; e eu atribuo tudo ao animal e nada aos metais...“Em 1796 Volta conseguiu provar experimentalmente que era a diferença de metais o factor crucial: conseguiu produzir e medir um “fluido eléctrico” (dizemos hoje corrente eléctrica) a partir do contacto de dois metais sem necessitar de qualquer rã. Estava a criar o que ele chamou “tensão eléctrica”, que entretanto foi também chamada “diferença de potencial”. É inteiramente justo que a unidade usada hoje no Sistema Internacional de unidades para a tensão eléctrica ou diferença de potencial seja denominada volt. Os electricistas chamam, porém, voltagem à tensão eléctrica... Quer dizer, tal como o nome do seu rival, também o nome de Volt entrou na nossa vida corrente.É curioso lembrar, nos dias de hoje em que os cruzamentos entre física e biologia são tantos e tão fecundos, que um conceito eléctrico tão importante tenha surgido a partir da fisiologia... O médico Galvani estava errado, mas foi um erro extremamente fértil! Sem esse erro, talvez nunca se tivesse feito luz sobre a electricidade.A história podia terminar aqui, mas teve um epílogo mais formidável. Baseado na sua explicação para o movimento da rã, Alessandro Volta, no ano de 1799 (numa altura em que a Lombardia, a região onde se situa a cidade de Como, tinha sido reconquistada pelo império austríaco, depois de uma curta ocupação pelas tropas de Napoleão), lembrou-se de empilhar dois elementos metálicos diferentes – prata e zinco – separados por uma substância humedecida, que facilitava o contacto eléctrico. Estava criada a primeira pilha eléctrica. Repare-se no nome de pilha (“pila” em italiano), cuja explicação é óbvia, e que chegou até nós. De facto, o nome utilizado por Volta, na memória que submeteu em 1800 à Royal Society de Londres, não era “pilha”, mas sim “órgão eléctrico artificial” (um nome reminiscente do peixe eléctrico, que conseguia emitir descargas eléctricas por um órgão biológico). Quando hoje num supermercado compramos pilhas, nem de perto nem de longe nos lembramos que a primeira pilha foi construída em Como há mais de dois séculos a culminar uma história de pernas de rã...O poder político reparou logo na utilidade da pilha eléctrica. Pois não era ela uma contínua fonte de electricidade (pelo menos enquanto a pilha durasse)? No mesmo ano de 1800 Volta apresentou ao imperador Napoleão Bonaparte, no Instituto de Paris, a sua invenção: há vários quadros que mostram o grande sábio italiano de pé mostrando o seu instrumento ao pequeno imperador, que está sentado. O soberano não se fez rogado e atribuiu a Volta o título de conde para além da medalha de ouro do Instituto. Ele próprio confessou a sua admiração pelos fenómenos eléctricos: “Acredito que o homem é produto dos fluidos da atmosfera [incluindo o fluido eléctrico], que o cérebro bombeia estes fluidos e é fonte de vida, e que depois da morte eles retornam ao éter”. Tem erros óbvios, mas não deixa de ser uma tentativa de explicação científica da vida...Há uma “conecção portuguesa” na biografia de Alessandro Volta, que está tratada num excelente livro de história da ciência: “Volta: Science and Culture an the Age of Enlightnment”, Giuliano Pancaldo, Princeton University Press, 2003. De facto, Volta circulou pela Europa e correspondeu-se com os grandes sábios do seu tempo. Ora um dos seus principais correspondentes foi o português João Jacinto Magalhães, um cientista natural de Aveiro, que estudou no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra e que emigrou para Londres, onde se estabeleceu como conselheiro e comerciante de instrumentos científicos. Foi Magalhães quem guiou Volta numa visita a Londres e a vários outros sítios em Inglaterra, e foi Magalhães quem esteve com Volta na Holanda e na Bélgica. Volta já era famoso antes da polémica com Galvani, em particular pelo desenvolvimento de alguns instrumentos eléctricos. A certa altura, a partir da correspondência com o químico inglês Joseph Priestley, interessou-se por descargas eléctricas em gases. E essa correspondência foi mediada por Magalhães.Volta sobreviveu 27 anos à sua “coroação” pelo imperador. Chegou a professor da Universidade de Pádua, situada na então República Veneziana, mas não chegou a participar nos espantosos desenvolvimentos que se seguiram. Com o fim do século das luzes tinha-se fechado a luz da sua obra.
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October 5 2010, 2:36am | Comments »
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VOLTA CONTRA GALVANI
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No dia em que atribui mais um prémio Nobel da Física respigo, do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva), uma história da física no tempo em que não havia prémios Nobel (na imagem Alessandro Volta com a sua pilha):É da discussão que nasce a luz. A ciência para chegar, em cada momento, ao que se supõe ser a verdade serve-se da controvérsia. Uma das mais importantes controvérsias científicas ocorreu no final do século das luzes, mais precisamente na última década do século XVIII. Vale a pena revisitá-la para iluminar o modo como a ciência funciona.A disputa deu-se à volta da origem da origem da electricidade e foram contendores dois grandes personagens da história da ciência, o médico italiano Luigi Galvani (1737-1798) e o físico (na altura dizia-se filósofo natural) Alessandro Volta (1745-1827). Volta venceu a disputa, embora Galvani, entretanto falecido, não tivesse assistido ao triunfo do seu adversário. Os dois trataram-se sempre de uma forma muito cavalheiresca, mostrando que se pode levar a cabo uma polémica sem desconsiderações nem insultos.Galvani era natural de Bolonha, onde se situa a mais antiga universidade do mundo. Foi professor de Medicina nessa universidade. E foi natural ter-se interessado pela electricidade. Com efeito, no século XVIII os fenómenos eléctricos eram muito populares. Chamou-se século das luzes mas podia bem ter-se chamado século da electricidade... Nos salões aristocráticos faziam-se experiências divertidas com descargas eléctricas. Para explicar experiências que realizou nos anos 80 e nas quais observou espasmos de pernas de rãs, Galvani defendeu que a electricidade tinha uma origem animal. A primeira observação terá sido acidental: o movimento de uma perna de batráquio terá ocorrido quando o seu suporte de ferro contactou com a borda também metálica da bancada de laboratório. Mas logo se seguiram várias experiências do mesmo tipo mas mais ou menos controladas. Ainda hoje se chama “galvanismo animal” aos fenómenos estudados por Galvani. E é curioso como ainda hoje usamos a palavra “galvanização”, que significa dinamizar, animar (pode ler-se num jornal desportivo que a equipa “ficou galvanizada com o golo”). A disputa entre Galvani e Volta estalou em 1792 com o trabalho de Galvani “De viribus elettricitatisin motu musculari commentarius”, no qual ele apresentava as suas observações e interpretações. Para Volta, nascido também no Norte de Itália, mas na bela cidade de Como, e que se tornou em 1778 professor na Universidade de Pavia (a Pavia que, tal como Roma, não se fez num dia), não concordou com a interpretação de Galvani. Para ele a causa da electricidade era o contacto de dois metais diferentes. Os condutores não serviam apenas para conduzir mas também para criar a própria electricidade.Numa série de experiências realizada em 1794 Galvani mostrou que os contactos metálicos podiam ser dispensados. O contacto entre dois materiais biológicos podia produzir o mesmo tipo de contracções musculares. Contudo, Volta não se deixou convencer e sustentou que era ainda um contacto entre nervo e músculo, permeado por um líquido (saliva, sangue, etc.), que causava o fenómeno eléctrico. Para ele era, sem qualquer dúvida, a diferença entre os condutores que contava, quer fossem metálicos quer fossem órgãos humedecidos.A diferença de opiniões foi sumariada por Galvani nos seguintes termos:“Ele [Volta] considera a electricidade comum a todos os corpos; eu penso que é característica dos animais. Ele é de opinião que o desequilíbrio vem da diferença entre os dispositivos usados, em particular os metais; pelo contrário, eu favoreço a máquina animal. Em resumo, ele atribui tudo aos metais e não ao animal; e eu atribuo tudo ao animal e nada aos metais...“Em 1796 Volta conseguiu provar experimentalmente que era a diferença de metais o factor crucial: conseguiu produzir e medir um “fluido eléctrico” (dizemos hoje corrente eléctrica) a partir do contacto de dois metais sem necessitar de qualquer rã. Estava a criar o que ele chamou “tensão eléctrica”, que entretanto foi também chamada “diferença de potencial”. É inteiramente justo que a unidade usada hoje no Sistema Internacional de unidades para a tensão eléctrica ou diferença de potencial seja denominada volt. Os electricistas chamam, porém, voltagem à tensão eléctrica... Quer dizer, tal como o nome do seu rival, também o nome de Volt entrou na nossa vida corrente.É curioso lembrar, nos dias de hoje em que os cruzamentos entre física e biologia são tantos e tão fecundos, que um conceito eléctrico tão importante tenha surgido a partir da fisiologia... O médico Galvani estava errado, mas foi um erro extremamente fértil! Sem esse erro, talvez nunca se tivesse feito luz sobre a electricidade.A história podia terminar aqui, mas teve um epílogo mais formidável. Baseado na sua explicação para o movimento da rã, Alessandro Volta, no ano de 1799 (numa altura em que a Lombardia, a região onde se situa a cidade de Como, tinha sido reconquistada pelo império austríaco, depois de uma curta ocupação pelas tropas de Napoleão), lembrou-se de empilhar dois elementos metálicos diferentes – prata e zinco – separados por uma substância humedecida, que facilitava o contacto eléctrico. Estava criada a primeira pilha eléctrica. Repare-se no nome de pilha (“pila” em italiano), cuja explicação é óbvia, e que chegou até nós. De facto, o nome utilizado por Volta, na memória que submeteu em 1800 à Royal Society de Londres, não era “pilha”, mas sim “órgão eléctrico artificial” (um nome reminiscente do peixe eléctrico, que conseguia emitir descargas eléctricas por um órgão biológico). Quando hoje num supermercado compramos pilhas, nem de perto nem de longe nos lembramos que a primeira pilha foi construída em Como há mais de dois séculos a culminar uma história de pernas de rã...O poder político reparou logo na utilidade da pilha eléctrica. Pois não era ela uma contínua fonte de electricidade (pelo menos enquanto a pilha durasse)? No mesmo ano de 1800 Volta apresentou ao imperador Napoleão Bonaparte, no Instituto de Paris, a sua invenção: há vários quadros que mostram o grande sábio italiano de pé mostrando o seu instrumento ao pequeno imperador, que está sentado. O soberano não se fez rogado e atribuiu a Volta o título de conde para além da medalha de ouro do Instituto. Ele próprio confessou a sua admiração pelos fenómenos eléctricos: “Acredito que o homem é produto dos fluidos da atmosfera [incluindo o fluido eléctrico], que o cérebro bombeia estes fluidos e é fonte de vida, e que depois da morte eles retornam ao éter”. Tem erros óbvios, mas não deixa de ser uma tentativa de explicação científica da vida...Há uma “conecção portuguesa” na biografia de Alessandro Volta, que está tratada num excelente livro de história da ciência: “Volta: Science and Culture an the Age of Enlightnment”, Giuliano Pancaldo, Princeton University Press, 2003. De facto, Volta circulou pela Europa e correspondeu-se com os grandes sábios do seu tempo. Ora um dos seus principais correspondentes foi o português João Jacinto Magalhães, um cientista natural de Aveiro, que estudou no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra e que emigrou para Londres, onde se estabeleceu como conselheiro e comerciante de instrumentos científicos. Foi Magalhães quem guiou Volta numa visita a Londres e a vários outros sítios em Inglaterra, e foi Magalhães quem esteve com Volta na Holanda e na Bélgica. Volta já era famoso antes da polémica com Galvani, em particular pelo desenvolvimento de alguns instrumentos eléctricos. A certa altura, a partir da correspondência com o químico inglês Joseph Priestley, interessou-se por descargas eléctricas em gases. E essa correspondência foi mediada por Magalhães.Volta sobreviveu 27 anos à sua “coroação” pelo imperador. Chegou a professor da Universidade de Pádua, situada na então República Veneziana, mas não chegou a participar nos espantosos desenvolvimentos que se seguiram. Com o fim do século das luzes tinha-se fechado a luz da sua obra.
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October 4 2010, 7:44pm | Comments »
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A CIÊNCIA EM 1910 EM COIMBRA
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Entrevista de António Piedade ao historiador de ciência Décio Ruivo Martins, co-autor do livro recente "Breve história da ciência em Portugal" (Imprensa da Universidade de Coimbra e Gradiva):António Piedade – A Implantação da 1ª República altera de alguma forma o ensino das Ciências na Universidade de Coimbra?Décio Ruivo Martins – Na Universidade de Coimbra, desde a Reforma Pombalina da Universidade, o ensino das ciências era da responsabilidade de duas Faculdades: de Filosofia e de Matemática. Ao longo de todo o século XIX verificou-se sempre uma complementaridade científica e pedagógica destas duas instituições. As sucessivas reformas que se observaram tiveram por base aquele princípio, embora sempre tivessem um estatuto de autonomia na organização universitária. Também se verificou alguma articulação com a Faculdade de Medicina.A ideia de criação de uma Faculdade de Ciências em Coimbra é muito anterior a 1911. Cerca de 50 anos antes, em 1866, começaram a ser discutidos nos meios académicos três cenários para a reorganização do ensino das Ciências na Universidade de Coimbra.- Fusão das duas Faculdades de Filosofia e Matemática, numa só Faculdade de Ciências, com um organograma curricular com 16 cadeiras, divididas em 3 secções.- Designar a Faculdade de Filosofia como Faculdade Central de Ciências.- Divisão da Faculdade de Filosofia, sem a integração da Faculdade de Matemática, em três secções: Ciências Físico-Químicas; Ciências Histórico-naturais; Ciências aplicadas. Cada uma delas com onze cadeiras distribuídas por cinco anos.A 9 de Janeiro de 1867 o Conselho da Faculdade Filosofia principiou a discussão de um projecto de reforma. Neste Conselho foi proposta a divisão em três secções, compreendendo a primeira as sciencias physico–chimicas, a segunda as historico–naturaes, e a terceira as sciencias technologicas. Este projecto voltaria a ser discutido a 19 de Janeiro de 1867, no qual foi votada uma proposta de fusão das Faculdades de Filosofia e Matemática numa só Faculdade de Ciências. Esta proposta foi rejeitada, sendo contudo de realçar a antecipação com que a reorganização do ensino que conduziu à criação da Faculdade de Ciências começou a germinar.Esta questão voltou a ser objecto de debate nos meios académicos. A 6 de Maio de 1882 voltou a ser debatida a proposta de divisão da Faculdade de Filosofia em duas secções: sciencias physico–chimicas, e historico–naturaes. O Conselho da Faculdade de Filosofia voltou a expressar o desejo de uma reunião efectiva com a Faculdade de Matemática, resolução que, no entanto, não dependia exclusivamente da vontade expressa pelo corpo docente daquela Faculdade. Apenas na reforma de 1901 foi formalizada a divisão da Faculdade naquelas duas secções.Estes acontecimentos permitem admitir que um dos cenários defendidos em 1867 poderia ter conduzido a uma profunda reforma do ensino que anteciparia em cerca de um século a criação de uma Faculdade de Ciências e Tecnologia em Coimbra, caso a criação da secção de sciencias technologicas tivesse tido melhor acolhimento. Se assim tivesse acontecido, muito provavelmente, neste momento teríamos uma escola de engenharia a comemorar um século e meio de existência. Foi neste contexto que chegámos em Coimbra a 1911.AP - Detecta-se alguma expansão no número de alunos que frequentam a então nova Faculdade de Ciências?DRM - Em relação ao número de alunos, no ano lectivo de 1909/1910 as Faculdades de Filosofia e de Matemática foram frequentadas por 246 alunos, número que aumentou para 368 no ano seguinte. No ano lectivo de 1911/1912 (primeiro ano de funcionamento Faculdade de Ciências) estavam matriculados 354 alunos, e em 1912/1913, 382 alunos. Deste modo, verificou-se um crescimento muito lento mas constante do número de alunos. Este facto demonstra que a entrada em vigor da nova organização da Faculdade, aparentemente não provocou alterações significativas, pelo menos no número de alunos, que pudessem cobrir as necessidades do país.AP - E no que diz respeito às eventuais colaborações entre a investigação que por cá se fazia com aquela que florescia, paradigmaticamente, no seio da comunidade científica internacional?DRM – A produção científica em Portugal no início do século XX não atingiu o brilhantismo observado noutros países europeus. Contudo, as viagens científicas ao longo de toda a segunda metade do século XIX e início do século XX, realizadas pelos professores das Faculdades de Filosofia e de Matemática da Universidade de Coimbra, posteriormente Faculdade de Ciências, possibilitaram o contacto com os mais conceituados centros universitários europeus, tendo algum reflexo no ensino e na natureza dos temas abordados nas teses académicas.AP – Pode dar alguns exemplos?DRM - António dos Santos Viegas terá sido, entre os físicos portugueses, aquele que, ao longo de toda segunda metade do século XIX, mais contribuiu para promover o desenvolvimento do ensino e incentivar a produção científica de jovens estudantes. Viegas morreu em 1914, com 79 anos de idade. Quase até ao fim da sua vida manteve uma intensa actividade ligada ao ensino da Física. Foi ele que, em 1891, instalou em Coimbra o primeiro sismógrafo e até à sua morte teve uma acção decisiva para os primeiros passos desta área científica em Portugal. Coimbra possuía o único sismógrafo que se encontrava em funcionamento em Portugal no momento do devastador sismo de 1909, com epicentro localizado perto de Benavente. Este sismógrafo ainda se encontra no Instituto Geofísico, mas, infelizmente, tal como em muitas outras situações a incúria relativamente à preservação do nosso património científico fez com que o respectivo sismograma desaparecesse dos nossos arquivos.Os conhecimentos sobre a Física das Radiações começaram desde muito cedo a ter aplicações médicas, inaugurando em Coimbra uma tradição de colaboração entre o Gabinete de Física e a Faculdade de Medicina que se prolongou, chegando até aos dias de hoje. Disso foi exemplo a criação do Laboratório de Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Em 1901, apenas cinco anos após a descoberta de raios X, o decreto nº 4, de 24 de Dezembro, estabeleceu as Bases para a Reorganização da Universidade de Coimbra. Este decreto criou o Gabinete de Radioscopia e Radiografia no Hospital da Universidade de Coimbra.Outro exemplo foi o desenvolvimento do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, que muito ficou a dever a Francisco da Costa Lobo, pioneiro da Astrofísica em Portugal. Em 1907 Costa Lobo visitou os principais observatórios da Europa a fim de desenvolver em Coimbra o estudo do Sol. Em 1912 começou a tomar medidas que conduziram à instalação de um espectroheliógrafo com características análogas às do que existia Observatório de Paris (Meudon), contando com o apoio de Deslandres, director do Observatório francês. Os registos feitos em Coimbra passaram a ser regularmente enviados para o Observatório de francês de Meudon, e também para Zurique, na Suíça, para serem incluídas no Bulletin for Character Figures of Solar Phenomena, uma publicação da União Astronómica Internacional, na época dirigida por William O. Brunner. Ainda hoje este instrumento se mantém em funcionamento e o Observatório de Coimbra possui uma das mais completas colecções de fotografias do Sol, cujo valor é internacionalmente reconhecido.Outro nome incontornável foi Mário Silva. Licenciado em Coimbra em 1922, partiu passados três anos para trabalhar no Instituto do Rádio de Paris, dirigido por Madame Curie, tendo-se doutorado sob a sua orientação. Na capital francesa estudou com Langevin e de Broglie e conheceu Einstein, Bohr, Lorentz, e Thomson. Em 1929 Langevin visitou Portugal para tendo proferido uma série de conferências sobre a Teoria da Relatividade em Lisboa, Coimbra e Porto. Depois de concluir o doutoramento em Paris, Silva regressou à Universidade de Coimbra, tornando-se professor da Faculdade de Ciências e investigando em física nuclear. Com Álvaro de Matos, seu colega de Medicina, Silva criou o Instituto do Rádio de Coimbra, tendo convidado Madame Curie a vir a Coimbra inaugurá-lo. Apesar de estar pronto a funcionar e de aquela famosa cientista ter aceite vir a Coimbra, aquele que deveria ter sido o nosso primeiro Instituto de Física Nuclear e Instituto de Oncologia nunca chegou a abrir. Em 1947, Silva foi vítima de reforma compulsiva, juntamente com outros professores portugueses por ordem do governo de Salazar. Mais uma vez, e como já tinha acontecido no passado, a intolerância impedia o florescimento da actividade científica. Só pouco antes da Revolução de 1974 Silva foi reabilitado. Um dos projectos mais ambiciosos de Mário Silva foi a criação de uma Escola de Física Nuclear, em 1940, aproveitando a estadia em Coimbra de alguns dos melhores cientistas de então: Benedetti, Beck e Proca, todos eles refugiados da Segunda Guerra Mundial e todos eles com passagem pelo Instituto do Rádio em Paris. A proposta de Silva da sua contratação como professores foi rejeitada. Beck chegou a estar preso pela polícia política por ser refugiado de guerra e, juntamente com Benedetti, foi expulso do país. Beck foi para a Argentina, tendo trabalhado na Universidade de Córdoba; Benedetti notabilizou-se como professor no Carnegie Institute of Technology, nos Estados Unidos; e Proca regressou a Paris.Noutra área científica, Aurélio Quintanilha começou a sua carreira na Universidade de Coimbra em 1919 tendo sido nomeado catedrático em 1926. O seu percurso internacional iniciou-se dois anos depois, após uma longa viagem de estudo pela Europa, passando pela Universidade de Berlim, onde estagiou com o alemão Kniep no Instituto de Fisiologia de Plantas. Após a morte deste estagiou sob a orientação de Hartmann, no Instituto Kaiser Wilhelm de Biologia (hoje na Universidade Livre de Berlim). A sua estada na Alemanha permitiu-lhe contactar com jovens cientistas que viriam a alcançar notoriedade em diversas áreas da Biologia, com destaque para a genética. Regressou a Portugal, em 1931, retomando a docência em Coimbra, mas foi expulso da função pública, em 1935.Para já não falar de Egas Moniz, o noso Prémio Nobel em ciências, que em 1010 estava em Coimbra antes de se mudar para Lisboa no ano seguinte...AP – E nos jornais da época? Havia divulgação de assuntos científicos e tecnológicos?DRM – Os acontecimentos de relevo que em matéria científica iam acontecendo em Portugal, e particularmente em Coimbra, só raramente eram objecto de notícias na imprensa portuguesa. Contudo, em Fevereiro de 1896, pouco mais de um mês depois da descoberta dos raios X, fizeram-se as primeiras experiências em Coimbra, algumas delas para utilização daquele tipo de radiações no diagnóstico clínico. O material utilizado nestas experiências pode actualmente ser vista na exposição permanente do Museu da Ciência. No dia 1 de Março de 1896, o jornal O Século publicou em toda a sua primeira página um extenso artigo intitulado A Photographia atravez dos corpos opacos, onde se dava uma notícia das primeiras experiências feitas em Portugal. Esta foi, talvez, uma das raras notícias publicadas na imprensa diária, dando destaque a acontecimentos científicos noticiados pela imprensa portuguesa.Para comprovar a indiferença com que a imprensa portuguesa tratava as questões científicas, refira-se por exemplo que Einstein desembarcou em Lisboa a 11 de Março de 1925 efectuando uma visita de um dia à capital portuguesa. Do seu diário de viagem conclui-se que esteve no Castelo de São Jorge e no Mosteiro dos Jerónimos. No entanto, à passagem por Portugal de tão prestigiado cientista a imprensa portuguesa não dedicou uma única linha. O mesmo já não sucedeu relativamente à vinda a Portugal de Paul Langevin, em Dezembro de 1929, tendo sido dado breve destaque às conferências científicas sobre a Teoria da Relatividade por ele proferidas em Lisboa, Coimbra e Porto.O panorama da imprensa portuguesa foi sempre muito pobre relativamente aos avanços da ciência. Havia, no entanto, excepções: os jornais académicos. Devemos dar o devido destaque à revista O Instituto, que foi um dos mais importantes veículos usados para a divulgação científica e literária. Travava-se de uma revista publicada pela sociedade académica coimbrã com o mesmo nome, o Instituto de Coimbra, que, fundado em 1852, reuniu não só um vasto leque de académicos nacionais, a maior parte dos quais professores da Universidade de Coimbra, mas também académicos estrangeiros de grande prestígio internacional, numa actividade que se desenvolveu ao longo de quase século e meio. São inúmeros os artigos científicos em várias áreas publicados nesta revista ao longo da sua história. Actualmente todo o espólio do Instituto de Coimbra encontra-se à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a colecção completa da revista foi digitalizada, estando acessível na íntegra na Internet (aqui).
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October 4 2010, 12:40pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A CIÊNCIA EM 1910
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/ciencia-em-1910.html
Nova crónica de António Piedade saída no "Diário de Coimbra" (na figura o jovem Rutherford):Enquanto em Portugal se punha fim a cerca de oito séculos de monarquia, por esse mundo fora outras descobertas se anunciavam, fruto da experimentação pelo método científico.Muitas dessas descobertas viriam a exercer uma profunda transformação sobre a organização da sociedade, ao trespassar a revolução industrial com a força motriz das tecnologias que, cem anos depois, são agora fundamentos indispensáveis de qualquer sociedade e independentemente do regime político.Em 1910 E. Rutherford fazia experiências que conduziam no ano seguinte à descoberta do núcleo atómico e à formiulação de um modelo atómico ainda hoje actual, o qual, resultando da interpretação de evidências experimentais, foi epicentro para muitos desenvolvimentos científicos sequentes sobre a estrutura da matéria e a relação entre matéria e energia.O geofísico H.F. Reid apresentou o primeiro modelo geológico sobre a causa dos terramotos: a teoria do ressalto elástico. Reid elaborou a sua teoria a partir de observações de campo efectuadas após o grande terramoto de São Francisco, em 1906. Também em 1910, F.B. Taylor propôs que os continentes se moviam sobre a litosfera terrestre e que uma região menos profunda no atlântico (a dorsal meso-atlântica) marca a linha de partida da separação dos continentes africano e sul-americano.T.H. Morgan descobriu, em 1910, que certas características hereditárias estão ligadas ao género sexual, resultado dos seus trabalhos fundamentais sobre mutações efectuados no secular modelo animal da genética, a pequena mosca do vinagre (Drosophila melanogaster), que nos ajudou a compreender como é que os genes funcionam.O matemático Ernst Steinitz escreveu, em 1910, a Teoria Algébrica dos Corpos, artigo basilar da álgebra moderna. É a base abstracta da Teoria dos Grupos e outras que influenciaram a físiac e a economia no século XX.O ano de 1910 também acolheu a síntese, por P. Ehrlich e S. Hata, da molécula Salvarsan ou “bala mágica 606” que, para além de se apresentar como cura para a sífilis (que não distinguia monárquicos de republicanos!), marca o início da quimioterapia moderna. Noutra perspectiva da luta contra germes, e nesse mesmo, ano Frank Woodbury introduziu o uso de tintura de iodo como desinfectante de feridas.E, enquanto em Paris a luz néon era introduzida por Georges Claude, do outro lado do canal da Mancha o físico W.H. Bragg descobria como é que os raios X e gama permitiam a condução de electricidade em tubos contendo gases rarefeitos e fazia notar que as ondas daqueles raios se comportavam também como partículas neste processo.1910 é, de facto, um ano repleto de efemérides centenárias.
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October 4 2010, 12:29pm | Comments »




