Por amabilidade da editora publicamos um extracto do livro de Tony Rothman "Tudo é relativo" que acaba de sair na Gradiva. Outras histórias, tanto ou ainda mais interessante do que esta, encontram-se nos outros capítulos.Os compêndios contam metade: «Entre outras unidades [de pressão] de uso corrente encontram-se a atmosfera, o milímetro de mercúrio — ou torr — e o milibar.» Bolas. É uma maldição do maior calibre: foi promovido de pessoa a unidade e perdeu o nome. Truncado e posto em letra minúscula, a prova provada de que se desvaneceu no pano de fundo cultural, à semelhança da sua invenção, que se encontra pendurada sem qualquer fim nas paredes dos restaurantes de portos. Por vezes um autor lá deixa cair o seu nome completo. A referência é invariavelmente lacónica: «Um outro instrumento usado para medir a pressão é o barómetro comum, inventado por Evangelista Torricelli (1608-1647).» Pressão do ar, barómetro. Ah. Uma vez por outra, quando um autor perde a cabeça, Torricelli tremeluz momentaneamente em forma humana.Berte Bolle, na sua história do barómetro, diz corajosamente:Torricelli montou o tubo com mais de dez metros de comprimento na sua casa, com o topo a sair pelo telhado. Pôs um pequeno boneco de madeira a flutuar na água no topo do tubo; com mau tempo, a altura da coluna baixava de tal forma que o boneco já não podia ser visto da estrada, enquanto com o tempo bonito flutuava, alto e distinto, onde todos o podiam ver. Em breve correu o boato de que mestre Torricelli tinha um pacto com o Diabo e o barómetro de água foi rapidamente retirado! Estamos convencidos. Mas espere aí. No relato de Sheldon Glashow, Torricelli leva a cabo o seu trabalho herético precipitando-se numa correria ao longo do cais para gáudio dos espectadores. Os boatos, evidentemente — e a Inquisição — não o conseguiram impedir: «Torricelli enchia longos tubos, selados numa das extremidades, com líquidos como mel, vinho e água do mar, e amarrava-os com firmeza na posição vertical ao mastro dos navios. Constatou que a altura da coluna dependia apenas do peso total do líquido contido no seu interior.»Isaac Asimov, evitando o drama em favor do conhecimento, apresenta uma história completa para edificação dos seus leitores. O imortal Galileu, patrão de Torricelli, sugeriu ao seu assistente que investigasse o motivo pelo qual as bombas de água eram incapazes de elevar o líquido a mais de dez metros acima do seu nível natural. Isso é que eram bons tempos. A ciência chamava-se filosofia, Aristóteles imperava e a natureza tinha horror ao vazio. A posição de Galileu era puramente aristotélica: as bombas criam um vazio parcial acima da água e a água precipita-se para o preencher.O vazio suga. Evidentemente, porém, a capacidade de sugar do vazio tinha limites — cerca de dez metros. Asimov transmite os pensamentos de Torricelli:Ocorreu a Torricelli que a água era elevada não porque fosse puxada pelo vazio, mas porque era empurrada pela pressão normal do ar. Ao fim e ao cabo, o vazio na bomba produzia uma baixa pressão do ar e o ar normal no exterior da bomba empurrava com mais força.Em 1643, para pôr à prova essa teoria, Torricelli recorreu ao mercúrio. Dado que a densidade do mercúrio é 13,5 vezes superior à da água, o ar só o deveria elevar a 1/13,5 vezes a altura a que elevava a água, ou seja 76 cm. Torricelli encheu um tubo de vidro com 1,80 m de comprimento de mercúrio, tapou a extremidade aberta, colocou-o verticalmente numa taça de mercúrio, destapou-o e viu o mercúrio a sair pelo tubo, mas não na totalidade: 76 cm de mercúrio mantiveram-se, conforme seria de esperar.Um pormenor admirável. É como se estivéssemos ali com Torricelli. «Passa-me o mercúrio», diz ele. Totalmente inconciliável, então, com este comentário retirado do ciberespaço: «Em 1643, Torricelli propôs a sua experiência, que foi realizada pelo seu colega Viviani.»Um pormenor. Pois...A verdade é que ninguém tem bem a certeza do que se passou. Sabemos que eram ambos italianos e que eram amigos. Hoje formariam um grupo de investigação. Quando um grupo de investigação monopoliza uma área chamamos-lhe uma máfia. Na altura, tal como agora, o cientista mais antigo fica com os louros. Para compreender aquilo de que ninguém tem a certeza, regressamos ao despontar do século XVII. A contra-reforma na Europa está em curso, a inquisição está a aquecer, Galileu condescendentemente ignora a descoberta de Kepler de que as órbitas planetárias são elipses e não círculos. Newton ainda não nasceu. Em terra, a questão filosófica na ordem do dia é a possibilidade do vazio.Não é possível. A resposta é óbvia; vamos andando para o julgamento de bruxas de hoje. Essa é pelo menos a opinião universal corrente, já com 900 anos. Qualquer objecção terá de se confrontar com uma citação da autoridade suprema: Aristóteles. Aristóteles, na sua frase tantas vezes citada, declarou: «A natureza tem horror ao vazio» (o que quer que Aristóteles tenha declarado, declarou-o em grego antigo, mas esta é a tradução habitual e ele acreditava nisto). Aristóteles apresentou alguns argumentos contra o vazio, tanto físicos como lógicos. Primeiro é necessário compreender que no mundo de Aristóteles — e no mundo do século XVI — não existem átomos. A água é uma substância contínua.Dividir a água em pedaços cada vez mais pequenos conduz apenas a pedaços cada vez mais pequenos, até ao infinito. Não há motivo para supor que a divisão conduzirá a um estado composto por partículas últimas entre as quais não existe nada. Não, o universo está cheio; é um espaço pleno cheio de matéria (por oposição a um vazio). Mais do que isso, no mundo pré-Galileu não existe o conceito de inércia, a ideia de que, sem interferência, um objecto se desloca a uma velocidade constante. Pelo contrário, a velocidade de um objecto depende da resistência do meio no qual se desloca. Um vazio — o vácuo — não oferece resistência. Desse modo, a velocidade de um objecto que se deslocasse através do vazio seria infinita. É claramente um absurdo.Trata-se de argumentos físicos que Aristóteles levantou contra o vazio. O seu argumento lógico principal é que a posição de um objecto — o seu lugar — é sempre entendida enquadrada nos limites interiores de um corpo que o rodeia. Os não-filósofos designam-no por contentor. No entanto, o vazio não tem propriedades.De um objecto no seu seio não se pode dizer que se encontra em nenhum tipo de lugar. Nem se poderia dizer que um objecto se desloca no interior de um vazio (dado que não possui propriedades para distinguir os locais). Assim sendo, um objecto não pode ter um lugar a menos que se encontre no seio de alguma substância. O vazio é impossível, com base em argumentos lógicos.Se o vazio é impossível com base em argumentos lógicos, isso significa que Deus não o poderia produzir mesmo que quisesse. Essa questão perturbou os teólogos do século XIII. Por esse motivo, no século XVII as pessoas estavam dispostas a discutir a questão. Porém, a opinião dominante era que o vazio era pelo menos uma impossibilidade física, ainda que não fosse uma impossibilidade lógica.No Panóptico Contemporâneo de Conceitos Passados e Presentes, as exposições sobre vazio e pressão estão dispostas lado a lado. Por aqui, por favor. Da nossa perspectiva, é difícil ver como um conceito razoável de vazio poderia emergir sem um conceito razoável de pressão. Um discípulo anónimo do século XIII do filósofo Jean de Némore compreendeu que a pressão num líquido aumentava com a profundidade, mas a publicação do livro de Némore em que a discussão aparece foi atrasada três séculos. Isaac Beeckam (1588-1637) parece ter aceitado a ideia de um vazio e em 1614 escreveu no seu diário que o ar tem peso e exerce pressão sobre os corpos que se encontrem por baixo, pressão que aumenta com a profundidade do ar. Apesar destes faróis isolados de discernimento, não surgia um entendimento claro do conceito de pressão. O ar não tem peso.Dois anos antes de Beeckam compreender os aspectos essenciais do problema, Galileu, num acesso de rancor, exprimiu a sua sabedoria universal: «Ainda que então adicionemos uma quantidade muito grande de água por cima [do sólido], não iremos por esse motivo aumentar a pressão ou o peso das partes que cercam o referido sólido.» Um ano depois de Beeckam, em 1615, Galileu prosseguiu as suas negações: «É de notar que todo o ar em si mesmo e por cima da água não pesa nada [...]. E que ninguém fique surpreendido por o ar não pesar nada, pois é como a água.»Sobre este pano de fundo, Giovanni Batista Baliani (1582-1666), de Génova, escreveu a Galileu em 1630 para relatar os resultados de uma experiência. Tinha tentado transvasar com sifão a água de um reservatório sobre uma colina com cerca de 21 m de altura e o sifão não funcionou. O sifão, num procedimento conhecido dos ladrões de gasolina da actualidade, foi inicialmente preenchido com água e colocado sobre a colina. Mas quando o tubo foi destapado o nível de água do lado do reservatório voltou a cair para cerca de dez metros. Mistério? Não para Galileu. Condescendeu em responder a Baliani que a resposta era óbvia: a força do vazio elevava a água, mas estava limitada a dez metros. Baliani esteve mais perto da verdade: achava que o vazio era possível e que a água e o ar tinham peso.(continua)
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A máfia inventa o barómetro 1
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July 29 2010, 6:00pm | Comments »
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EINSTEIN E OPPENHEIMER
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O que significa o génio? O filósofo alemão Arthur Schopenhauer definiu um génio desta maneira:“Um génio é um homem em cuja mente o mundo, como representação, atinge um grau de maior clareza e ressalta com a marca de uma maior nitidez; e, tal como as visões mais importantes e profundas, provém, não de uma observação cuidada dos pormenores, mas apenas através da intensidade com que se assimila o todo, de tal modo que a Humanidade pode ser instruída por ele.(…) Ver sempre o universal no particular constitui precisamente a característica fundamental do génio.”Não é por acaso que esta citação surge no muito interessante livro Einstein e Oppenheimer. O significado do génio (Bizâncio, 2010), do historiador de ciência norte-americano Silvan S. Schweber. Einstein e Oppenheimer são considerados dois dos grandes génios do século XX. Einstein, para além de ter sido pioneiro da teoria quântica, desenvolveu quase sozinho a teoria da relatividade, em particular, esse verdadeiro monumento do pensamento humano que é a teoria da relatividade geral que permite uma visão do ”todo” que é o Universo, incluindo a sua estrutura e a sua dinâmica. E Oppenheimer, bastante mais novo, para além de contribuições notáveis para a teoria quântica (aproximação de Born-Oppenheimer) e para a teoria da relatividade geral (proposta de buracos negros, que Einstein erradamente recusou), revelou a sua genialidade na direcção científica do projecto Manhattan, que conduziu à primeira bomba atómica.Os dois génios, que aparecem juntos na fotografia da capa, conheceram-se bem – trabalharam os dois no Instituto de Estudos Avançados de Princeton. Tinham em comum a sua origem judaica, embora não fossem judeus praticantes, confirmando a ideia comum de que alguns dos maiores génios são judeus. E tinham em comum o seu americanismo, embora tivessem sido considerados esquerdistas no tempo da guerra fria. E ainda um apurado sentido de humanidade.Os dois reconheceram o génio um do outro. Sobre o génio de Einstein muito tem sido dito, mas este livro ilumina alguns aspectos como a sua relação com as armas nucleares (“Fui eu que carreguei no botão”) e o seu papel na fundação da Universidade Brandeis, uma instituição judaica. Oppenheimer sabia bem, como os outros seus colegas, da superioridade de Einstein; afirmou mesmo numa resposta a um jornalista lhe perguntou que só lamentava na sua vida “escusado será dizê-lo, não ter sido o jovem Einstein”. Admirava profundamente a capacidade revelada por Einstein nos anos da sua juventude, mas já não compreendia a solitária fixação de Einstein numa teoria unificada na maior parte da sua vida. Se Einstein foi um génio solitário, Oppenheimer foi um génio social, um homem capaz de liderar equipas ganhadoras. O livro de Schweber informa-nos que, quando em 1938 o jovem Oppenheimer chega a Princeton, escreveu numa carta ao seu irmão: “Princeton é uma casa de doidos: as suas luminárias solipsistas brilham em desolação isolada e desamparada. O Einstein está completamente chanfrado”. Esta posição, expressa em privado, evoluiu para formas bem mais veneradoras quando, em 1955, escreveu no obituário de Einstein: “um dos maiores vultos de todos os tempos.” É curioso que Einstein se revisse em Schopenhauer, que gostava dos antigos escritos védicos e budistas, os mesmos que tanto inspiraram Oppenheimer. Os génios tocam-se!
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July 8 2010, 5:57pm | Comments »
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Breve História da Ciência em Portugal
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Já está à venda nas melhores livrarias do país (e também em livrarias virtuais como as da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Gradiva) o livro "Breve História da Ciência em Portugal" de que já aqui se deu nota.Sinopse editorial:É um resumo sobre a ciência que houve em Portugal desde o tempo dos Descobrimentos ate ao fim do Estado Novo. Num livrinho de divulgação como este deixou-se propositadamente de fora a erudição, as notas de pé de página e a bibliografia exaustiva. Mas apresentam-se, pela primeira vez num só volume, a sucessão dos factos e personagens mais assinaláveis que constituíram e protagonizaram o percurso da ciência entre nós. Foi um percurso de avanços e recuos, avanços sempre que houve suficiente abertura ao exterior, e recuos, quando muitas vezes, vezes demais, o país se fechou em si próprio. Se nomes como Pedro Nunes, Garcia da Orta, Avelar Brotero e Egas Moniz são mais ou menos conhecidos, muitos outros que se encontram nestas páginas são mais ou menos desconhecidos, não o merecendo ser. Um sintoma do atraso português é a falta de atenção dada à história da ciência em Portugal: não é que ainda não havia um resumo como este, destinado ao público mais alargado?
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July 7 2010, 3:38am | Comments »
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Conferência Solvay de Física de 1927
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Vídeo com alguns grandes nomes da Física numa altura em que nascia a Mecânica Quântica.
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July 1 2010, 5:41pm | Comments »
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Breve história da ciência em Portugal
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Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:Breve História da Ciência em Portugalde Carlos Fiolhais e Décio MartinsEdição/reimpressão: 2010Editor: Gradiva Publicações e Imoprensa da Universidade de CoimbraISBN: 9789892600437 8,40€ Sinopse:Trata-se de um resumo sobre a ciência que houve em Portugal desde o tempo dos Descobrimentos ate ao fim do Estado Novo. Num livrinho de divulgação como este deixou-se propositadamente de fora a erudição, as notas de pé de página e a bibliografia exaustiva. Mas apresentam-se, pela primeira vez num só volume, a sucessão dos factos e personagens mais assinaláveis que constituíram e protagonizaram o percurso da ciência entre nós. Foi um percurso de avanços e recuos, avanços sempre que houve suficiente abertura ao exterior, e recuos, quando muitas vezes, vezes demais, o país se fechou em si próprio. Se nomes como Pedro Nunes, Garcia da Horta, Avelar Brotero e Egas Moniz são mais ou menos conhecidos, muitos outros que se encontram nestas páginas são mais ou menos desconhecidos, não o merecendo ser. Um sintoma do atraso português é a falta de atenção dada à história da ciência em Portugal: não é que ainda não havia um resumo como este, destinado ao público mais alargado?
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June 9 2010, 7:15pm | Comments »
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LIVROS DE QUíMICA NA BIBLIOTECA JOANINA
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Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra relativa a uma mostra de livros de Química aí patentes:O visitante da Biblioteca Joanina raramente tem possibilidade de saber que livros se encontram por detrás das lombadas ricamente decoradas e tomar conhecimento de quais são os assuntos tratados nestas obras. No que respeita à Química encontram-se nesta Biblioteca alguns dos livros mais marcantes da sua história e dos primórdios do seu ensino em Portugal. Deste riquíssimo conjunto de obras que nos permite entender melhor o início do ensino da química em Portugal seleccionámos algumas das que consideramos mais marcantes para a presente mostra bibliográfica.O Sceptical Chymist de Robert Boyle (1627-1691) é um dos livros mais importantes da história da química, sendo muitas vezes associado ao nascimento da química moderna. A edição original em inglês datada de 1661 é muito rara. Na mostra encontra-se uma compilação de obras de Boyle que inclui uma edição em latim datada de 1680 contemporânea da segunda edição inglesa deste livro.As ideias, em particular a teoria do flogístico, expressas no livro Fundamenta Chymiae Dogmatica de Georg Stahl (1660-1734), influenciaram a química durante quase um século; na presente exposição encontra-se um exemplar datado de 1723.Os Fundamenta chemiae praelectionibus publicis accomodata de Giovanni Scopoli (1723-1788) era o compêndio pelo qual Domingos Vandelli (1730-1816) ensinava enquanto não escrevia o livro de química que fazia parte do seu contrato com a Universidade. Trata-se de um livro da escola de Stahl, anterior às ideias de Lavoisier. O exemplar que pode ser visto na mostra é da primeira edição, datada de 1777.Os Elementos de chimica e farmacia de Manuel Joaquim Henriques de Paiva (1752-1819) foram publicados em 1783 pela Academia das Ciências. Este livro é considerado o primeiro manual de química escrito em português, sendo em grande parte uma tradução anotada e adaptada do compêndio de Scopoli.Os Elementos de Chimica de Vicente Coelho de Seabra (1764-1804), cujo primeiro volume saiu em 1788 são o primeiro livro moderno, no sentido das ideias de Lavoisier, escrito em Portugal. Esta obra é em muitos aspectos um livro inovador para a época, precedendo num ano a publicação do Traité élémentaire de chimie de Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794), cuja edição de 1805 se encontra na exposição. Infelizmente nem os Elementos de Chymica nem o próprio Vicente Seabra tiveram na época o impacto que mereciam.Domingos Vandelli nunca chegou a escrever o compêndio de química. O seu sucessor, Tomé Rodrigues Sobral (1759-1829), ainda apresentou o plano de um livro pedagógico, mas aparentemente este também nunca foi concluído. O único livro de química que nos deixou Rodrigues Sobral é uma tradução datada de 1793 de um artigo da enciclopédia de Mr. de Morveau, o Tractado das Affinidades Chimicas, obra que ainda se insere na escola flogística.Mesmo já existindo os livros de Henriques de Paiva e de Vicente Seabra, continuaram a ser adoptados como livros de ensino obras de autores estrangeiros; por exemplo uma tradução em castelhano do compêndio de Jean Antoine Chaptal (1756-1832), Elementos de química, cujo exemplar presente na exposição é datado de 1793.Sérgio RodriguesBibliografiaA. M. Amorim da Costa, Primórdios da Ciência Química em Portugal, Lisboa, ICLP, 1984.A. M. Amorim da Costa, Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829), a química ao serviço da comunidade, in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Lisboa, Academia das Ciências, 1986, vol 1, pp 373-401.A. J. Andrade de Gouveia, Químico esclarecido luso-brasileiro, Vicente Seabra (1764-1804), in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Lisboa, Academia das Ciências, 1986, vol 1 , pp 8-35.C. A. L. Filgueiras, As vicissitudes da ciência periférica: a vida e a obra de Manuel Joaquim Henriques de Paiva, Química Nova 14, 1991, 133.
May 24 2010, 1:49pm | Comments »
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Quanto mede um meridiano?
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Nova crónica de António Piedade, antes saída n' "O Despertar":Em 1961, Yuri Gagarine, o primeiro ser humano no espaço, contemplou a Terra a bordo da nave Vostok I. Viu, num belo momento como descreveu, que o planeta de onde partira dias antes era maioritariamente azul e…redondo. Gagarine percorreu cerca de 40 mil quilómetros em cerca de uma hora e 48 minutos, dando uma volta completa ao planeta. A orbita que percorreu, descreveu a linha imaginária de um meridiano terrestre.Desta forma, Yuri confirmava, mais metro menos metro, o cálculo do comprimento da circunferência da terra efectuado cerca de 2 mil anos antes pelo matemático e geógrafo grego Erastótenes de Cirene (actual Assuã, no Egipto).Erastótenes, que nasceu em Cirene (c. 276 a.C.) e morreu em Alexandria (c. 194 a.C.), cidade de cuja famosa biblioteca foi director, foi de facto o primeiro matemático da antiguidade a calcular a circunferência da Terra (comprimento do meridiano).Com os pés bem assentes na terra, calculou a circunferência da Terra a partir de uma observação que o intrigou. Constatou que, ao meio-dia do dia 21 de Junho (solstício de verão), os raios do Sol eram perpendiculares à superfície, iluminando totalmente o fundo de um poço na antiga cidade grega de Cirene. Mas verificou que o mesmo não se observava, à mesmo hora e mesmo dia, na cidade de Alexandria. A partir desta observação e pressupondo que a Terra era esférica (o que Gagarine viu), que os raios do Sol que iluminavam as duas cidades eram paralelos, Eratóstenes (II século a. C.), planeou a seguinte experiência: medir o ângulo da sombra formada por estacas com o mesmo tamanho, naquelas duas cidades, no mesmo dia 21 de Junho, ao meio dia. Em Cirene a sombra foi nula. Em Alexandria registou um ângulo de 7,2. Concluiu assim que o comprimento de um arco com 7,2 graus era igual à distância entre aqueles dois lugares. Dividiu este valor por 360 que é, como Eratóstenes sabia, o ângulo interno de qualquer circunferência, e obteve um valor igual a 50. Assim, deduziu que o comprimento do meridiano terrestre era igual a 50 vezes a distância de Cirene a Alexandria. A partir de ajuda que solicitou ao rei local, mediu a distância entre as duas cidades: 5 mil estádios (medida grega igual a 125 passos). Deste modo, chegou ao valor de 250 mil estádios para o comprimento da circunferência da Terra. Ora, dependendo do valor que atribuamos a um “estádio grego” (pelo que encontrei não não há consenso sobre o assunto), isso equivale a um valor entre 39 700 km e 46 600 km.Hoje sabemos que o valor é aproximadamente 40 003 km, pelo que é espantosa a aproximação conseguida por Eratóstenes. Repare que ele só utilizou conhecimento matemático e perspicácia para o fazer. O mesmo conhecimento matemático (alguma trigonometria e geometria) é, ainda hoje, suficiente para calcular a posição de um veículo, por GPS, e medir distâncias, apesar da necessidade de “alguma” tecnologia com que Erastótenes não terá sonhado…António Piedade
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May 19 2010, 4:54pm | Comments »
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CIÊNCIA NOS MUSEUS
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Apontamentos para a minha intervenção hoje à noite na Casa-Museu Egas Moniz em Avanca, Estarreja (na foto), no Dia Internacional dos Museus:A ciência nos museus evoluiu muito desde o tempo de Egas Moniz. No início do século XX (Egas Moniz acaba o seu curso de Medicina em 1899) os museus eram simples mostruários de objectos, servindo os museus de ciência, em geral anexos a universidades, de meros repositórios de objectos e instrumentos com fins didácticos que eram dirigidos quase exclusivamente aos alunos dessas instituições. Mas, em 1937, quando Egas Moniz era proposto pela segunda vez para o Prémio Nobel da Medicina (referindo desta vez, além dos trabalhos de angiografia, os trabalhos, então recentes, da leucotomia, que em 1949 lhe haveriam de valer o Prémio Nobel), abria em Paris o Palais de la Découverte, devido ao físico - e Prémio Nobel da Física - Jean Perrin e ao biólogo Jean Rostand, que viria a revelar-se um protótipo dos modernos centros de ciência. Esta ideia viria a ser retomada em 1969, pelo físico Frank Oppenheimer, irmão de Robert Oppenheimer, ao criar o Exploratorium de S. Francisco, que foi uma verdadeira escola de centros interactivos de ciência por todo o mundo.Apesar de ter havido algumas tentativas anteriores de exposições interactivas, o Pavilhão do Conhecimento, Centro Ciência Viva, no Parque das Nações, em Lisboa, foi, a partir de 1999, um bom exemplo dessa escola, que alargou para a, hoje felizmente vasta, rede de Centros Ciência Viva no país. Ao mesmo tempo, os museus de ciência mais tradicionais existentes em Portugal foram-se revitalizando, sendo um bom exemplo da transformação e modernização de um museu de ciência universitário a renovação do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, cuja 1.ª fase foi inaugurada em 2006, e cuja 2.ª fase, com ocupação prevista do Colégio de Jesus e cujo programa incluirá a medicina, está em curso. Esse museu moderno, que já ganhou um prémio europeu, concilia a museologia dos objectos com módulos interactivos, que os visitantes podem operar. Também nas Universidades de Lisboa e do Porto os museus de ciência foram procurando valorizar-se, com exposições permanentes e temporárias. Em Lisboa, o Museu de Ciência, impulsionado pelo físico Fernando Bragança Gil, fez há pouco 25 anos. É parte dos Museus da Politécnica, que também incluem o Museu Nacional de História Natural. Lembre-se que Egas Moniz se tornou, em 1911, pouco depois da implantação da República, catedrático da Universidade de Lisboa.O caso do Museu Nacional da Ciência e da Técnica, ao qual está associado o nome do físico Mário Silva, criado em 1971 e extinto há poucos anos, devia constituir motivo de reflexão: Como foi possível extinguir um Museu cuja justificação é tão evidente? Uma homenagem desse Museu nacional a Egas Moniz manifestou-se pela consagração de um número inteiro da sua revista, o n.º 4 das "Publicações do Museu Nacional da Ciência da Técnica", ao médico português, por ocasião, em 1974, do primeiro centenário do seu nascimento (publicando, entre outros, um artigo do então desconhecido António Damásio). Outra homenagem foi a atribuição do nome de Egas Moniz de uma sala no seu edifício-sede, o Palacete Sacadura Botte, na Rua dos Coutinhos, em Coimbra. Acrescente-se que, durante poucos anos, a Casa-Museu Egas Moniz em Avanca, Estarreja, que hoje pertence à Câmara Municipal de Estarreja, foi, por decreto, integrada nesse Museu Nacional, embora essa integração não tenha tido grandes consequências práticas. Infelizmente, o Museu Nacional da Ciência e da Técnica foi extinto por determinação governamental, com a complacência da Câmara Municipal de Coimbra e a impossibilidade de oposição eficaz da Universidade de Coimbra. No antigo edifício-sede funciona hoje a Fundação de Ciência da Universidade de Coimbra, que gere o Museu da Ciência da Universidade. O Museu da Ciência de Coimbra está a preparar, em colaboração com a Biblioteca Geral da mesma Universidade e com o Museu Nacional Machado de Castro, a exposição "Ver a República", que não deixará de fazer uma justa referência a Egas Moniz, deputado e ministro da 1.ª República, cujo interesse pelos raios X (que estão na base da angiografia cerebral) despontou em 1896, quando ainda era estudante em Coimbra, morando na Rua de Tomar, próximo dos Arcos de Jardim, com a experimentação em ampolas de raios X, logo depois da descoberta de Roentgen.As lições do passado ajudar-nos-ão decerto a construir os museus e ciência e da técnica do futuro, respondendo a questões como:- Como conciliar a tradicional museologia de objectos históricos com a ideia de interactividade subjacente aos museus de ciência (a essa síntese Bragança Gil chamava "museus de terceira geração", por conciliarem aspectos dos museus de "primeira e segunda geração")? A pré-figuração (ou 1.ª fase) do Museu da Ciência de Coimbra no Laboratório Chimico responde já a essa questão, esperando-se que a segunda fase, em curso, a concretizar no edifício do Colégio de Jesus responda mais e melhor (curiosamente, foi nesse edifício que Egas Moniz estudou Medicina como conta nos seus livros "Memórias de um Investigador Científico" e "A Nossa Casa").- Como mostrar hoje a história da ciência nos museus, por exemplo a ciência médica desenvolvida por Egas Moniz? Qual é o papel de casas que são lugares de memória da ciência como a Casa-Museu Egas Moniz? Como atrair visitantes para lugares como esse, fora dos centros urbanos?Estou em crer que, continuando o que tem vindo a ser feito entre nós, podemos fazer ainda mais não só para promover a cultura científica com meios museológicos como para divulgar a memória do nosso até agora único Nobel português na área das ciências.
May 17 2010, 7:45pm | Comments »
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Ciência no Museu
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Informação recebida da Fábrica Ciência Viva de Aveiro:ESPAÇO CIÊNCIA - “Ciência no Museu”18 Maio’1021h00>23h00Carlos Fiolhais, Professor de Física da Universidade de CoimbraA ciência nos museus evoluiu muito desde o tempo de Egas Moniz. No início do século XX os museus eram mostruários de objectos, servindo os museus de ciência, anexos a universidades, de meros repositórios de objectos com fins didácticos, dirigidos aos alunos dessas instituições. Hoje há museus de ciência interactivos muito atraentes. Mas qual poderá ser o papel de Casas-museus de temática científica como a Casa Museu Egas Moniz?Carlos Fiolhais apresentar-nos-á as lições do passado que decerto vão ajudar a construir os museus de ciência e da técnica do futuro, propondo respostas à questão: Como mostrar hoje a ciência e a sua história nos museus, por exemplo a ciência desenvolvida por Egas Moniz? Contamos consigo para debater o que podemos fazer para divulgar mais a memória do nosso, até agora, único Nobel português da medicina.Espaço Ciência, acontece na Casa Museu Egas Moniz, em Avanca. Excepcionalmente terá início pelas 21h com uma visita à casa que nos acolhe.data terça-feira, 18 Maio de 2010local Casa Museu Egas Moniz, Avanca.horário 21h00>23h00público-alvo jovem e adultocontacto 234 427 053 ou fabrica.cienciaviva@ua.pt
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May 17 2010, 7:22pm | Comments »
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As Ciências entre as Artes e entre as Letras
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Em 1959 o físico e romancista inglês Charles P. Snow cunhou, numa famosa conferência que proferiu na Universidade de Cambridge, Inglaterra, a expressão “duas culturas” para se referir à cultura científica e à cultura artística e literária, ao mesmo tempo que salientava o olvido em que se encontrava a cultura científica por parte dos artistas e literatos. Na visão de Snow, ser culto não podia ser mais conhecer, por exemplo, Ariosto e Tasso e desconhecer Galileu. De então para cá a cultura científica tem ganho protagonismo. Autores há como o publicista norte-americano John Brockman que, para ultrapassar o confronto entre as duas culturas gostam de falar de uma “terceira cultura”, corporizada por cientistas contemporâneos que conseguiam fazer a ponte entre os dois campos desavindos. Mas, outros, entre os quais não hesito em me incluir, em vez de multiplicar culturas, preferem ver a cultura como uma só, apesar de múltipla nas suas manifestações, e gostam de procurar a unidade onde ela não é tão óbvia.De facto, se afirmarmos convencionalmente que a cultura científica nasceu com o italiano Galileu Galilei (1564-1642), que criou e aplicou o método científico baseado na observação e na experiência e marcado pela descrição matemática do mundo, temos de reconhecer que a cultura científica emerge no seio da cultura artística e literária. O pai de Galileu era músico. O filho apreciava a música, e o tema da “música das esferas”, isto é da presença da música na Natureza, glosado pelo astrónomo alemão seu contemporâneo Johannes Kepler (1571-1630), em “Harmonice Mundi” (“A Harmonia dos Mundos”, 1619), não lhe era estranho. Apesar de não ter herdado a aptidão musical do seu progenitor, Galileu revelou-se não só um grande artista (são notáveis as suas representações a aguarela da Lua, que foi o primeiro a ver com a ajuda de um telescópio) como um ainda maior prosador (o escritor moderno Italo Calvino considerou-o mesmo o maior prosador da língua italiana). Foi também um poeta, embora incomparável a Dante, que ele leu e comentou quando era jovem.Como é natural em quem atinge patamares tão elevados, Galileu conhecia os grandes artistas e os literatos do seu tempo. No artigo "Fronteiras entre a Terra e a Lua. Ariosto e Galileu", publicado na revista "Biblos" (2003), ps. 61-85, a italianista Rita Marnoto, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, depois de notar que Galileu Galilei tinha uma "devoção literária" pelo poema de cavalaria "Orlando Furioso", do italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), saído em 1516 (embora em forma completa em 1532, muito antes de Galileu nascer), acrescenta:"Galileu era dotado de uma brilhante cultura artística, e não só no domínio da música, da pintura, da escultura e da arquitectura, como também na da literatura. A osmose entre arte e ciência que permeia os seus escritos converte-o em directo herdeiro daquele ideal renascentista do homem completo. Ao observar o Universo, Galileu compara-o a um grande livro, '[...] scritto in lingua matematica, e i caratteri sono triangoli, cerchi, ed altre figure geometrische, senza i quali mezi è impossibile a interderne umanamente parola; senza questi è un aggisarsi vanamente per un oscuro lebirinto.' [escrito em linguagem matemática, em que os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem os quais os humanos não podem entender nenhuma palavra, sem os quais eles eles estão condenados a caminhar em vão por um escuro labirinto]. Da mesma feita, ao dar voz às suas severas apreciações críticas acerca da 'Gerusalemme liberata', intituladas 'Considerazioni al Tasso', recorre largamente a paralelos com a pintura, ou com a arquitectura e a escultura, cruzando-os, não raro, com noções colhidas no campo das ciências naturais".De facto, em “Orlando Furioso” (há uma edição da Cavalo de Ferro de 2007) encontra-se a descrição de uma viagem à Lua feita pelo paladino Astolfo, num animal alado (o hipogrifo), acompanhado por S. João Evangelista, antecipando assim de um século o que é considerado comummente o primeiro conto de ficção científica, o “Sonho” (“Somnium”, no latim original, escrito entre 1620 e 1630, mas só publicado em 1634) de Kepler. Em Galileu, a visão da Lua proporcionada pelo telescópio permite realizar uma “viagem” que já não é imaginada ou sonhada como em Ariosto ou em Kepler.Por outro lado, a menor consideração de Galileu por Torquato Tasso (1544-1595), o autor, também italiano, de “Jerusalém Libertada”, poema épico sobre a primeira cruzada que o seu autor começou a escrever em 1560 e apenas foi publicado em 1580, quando o sábio pisano tinha 16 anos e lhe faltava um ano para entrar na Universidade de Pisa, não pode ser entendida como um menosprezo pela arte ou pela poesia, mas tão só como uma preferência artístico-literária pela obra de Ariosto (para ele (“magnífico, rico e admirável”, chamou-lhe ele) relativamente à obra de Tasso (“estreito, pobre e miserável”). Lendo a sua crítica a Tasso, escrita entre 1586 e 1588, mas só publicada em 1793, percebe-se uma certa incompatibilidade. O génio de Galileu devia estar mais próximo do de Ariosto, cujo estilo temerário e arrebatador está bem patente na sua obra maior, do que do de Tasso, que passou os últimos anos da sua vida num estado de desespero estético-religioso que desembocou mesmo em perturbação mental.Galileu fez um ensaio de literatura comparada ao contrastar e comentar Ariosto e Tasso. O facto de Galileu ter conseguido cruzar com aparente facilidade a linguagem da ciência com as da arte e da literatura, como bem nota Rita Marnoto, mostra que o criador da cultura científica era um homem de cultura multifacetada. Um homem de ciência que soube situar-se entre as artes e entre as letras. E, apesar de longínquo no tempo (os registos das suas primeiras observações da Lua foram publicadas em “Mensageiro das Estrelas”, “Sidereus Nuncius”, em 1610, que acaba de sair entre nós do prelo da Fundação Gulbenkian, numa tradução do historiador de ciência Henrique Leitão), vale a pena, ainda hoje, ir buscar o seu exemplo de há quatro séculos para mostrar a unidade da cultura.
May 10 2010, 6:59pm | Comments »







