Tendo achado estranho que a senhora de Cagliostro tenha sido paga em pistolas pelo seu amante português, fui consultar o relato que nos dá Camilo Castelo Branco, a partir do processo da Inquisição romana: "Compêndio da vida e feitos de José Bálsamo chamado o conde de Cagliostro ou o judeu errante tirado do processo formado contra ele em Roma no ano de 1790" e que pode servir de regra para se conhecer a índole dos franco-maçons" (tradução do italiano e prefácio do escritor português, Hugin, 2001; o título da capa é só "José Bálsamo, o Conde de Cagliostro", nº 8 da Biblioteca Maçónica). A versão deste livro difere ligeiramente pois já não há pistolas. Mas concorda no essencial:"Vendo-se sem nenhum protector, [o conde Cagliostro e a mulher] passaram a Lisboa. Apenas chegaram ali, o primeiro pensamento de Bálsamo foi informar-se, como soía dizer-se das pessoas ricas e desenfreadas, e soube que havia um mercador, homem de carácter, como lhe convinha. Enviou-lhe logo a mulher a pedir-lhe uma esmola e o socorro que obteve foi uma moeda acompanhada de uma torpe pergunta, convidando-a a ir a uma sua quinta. Por espaço de três meses. foram frequentes as idas ao sítio indicado, recebendo ela como prémio, de cada vez, vinte moedas, O temor, porém, de algum desaguisado com a família do mercador, que bramava com tais amorios, fez com que Bálsamo deixasse Lisboa e passasse a Londres, não sem que primeiro mandasse sua mulher aprender a língua inglesa, que lhe ensinou uma rapariga da mesma nação, à qual, ele, entretanto, ensinava maus costumes."
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AINDA CAGLIOSTRO EM LISBOA
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September 5 2009, 3:10am | Comments »
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SEXO, PISTOLAS E TOPÁZIOS
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Pode ser um facto conhecido nas loças maçónicas, mas para mim foi novidade descobrir que o Conde Cagliostro, aliás Giuseppe Balsamo, viveu em Lisboa com a sua mulher Serafina, intitulada Condessa de Cagliostro (na imagem). O casal tinha fugido de Madrid, para onde tinha ido fugido de Barcelona, lugar onde tinham interrompido uma suposta peregrinação a Compostela, durante a qual encontraram Casanova (não, não foi Casanova que tentou seduzir Serafina, foi Serafina que, aparentemente sem êxito, tentou seduzir Casanova). Corria o ano de 1771, portanto o tempo do Marquês de Pombal.Ouçamos o que diz o historiador australiano Ian McCalman, no livro que recomendo "O Último Alquimista" (Pergaminho, 2007):"[Em Barcelona] sucessivos fidalgos ricos contrataram Giuseppe para trabalhar como artista ou químico em troca do acesso aos favores da sua jovem companheira. Graças a essa troca, Giuseppe conseguiu um ano de trabalho regular em Madrid, que terminou quando se envolveu numa questão litigiosa com outro artista. Mudaram-se pars Lisboa, onde Serafina foi bafejada pela sorte: com o encorajamento activo de Giuseppe, ela atraiu as atenções de um mercador português fabulosamente rico, Anselmo da Cruz, que dava a Giuseppe oito pistolas por cada visita matinal de Serafina e a cobria de ofertas. Giuseppe investiu os ganhos em topázios brasileiros, convencido que os venderia a bom preço no florescente metrópole comercial de Londres."O casal de intrujões mudou-se a seguir para Londres. Parecia então um casal inseparável, mas foi Serafina que, muito mais tarde, haveria de denunciar o marido à Inquisição romana...
September 3 2009, 3:11am | Comments »
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UM PASSEIO A BOLONHA
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Bolonha não tem o número de turistas de Florença, mas os turistas têm na capital da Emília Romana muito que ver. A Basílica de São Petrónio, a quinta igreja do mundo em tamanho, mostra uma fachada do século XIV inacabada, mas o interior é do melhor gótico italiano. Uma curiosidade científica é um relógio de Sol na forma de uma linha meridiana no chão, cujo cálculo foi feito no século XVII pelo astrónomo Giovanni Cassini, astrónomo na velha Universidade.Da Catedral pode-se ir a qualquer lado pelas arcadas. Bolonha é a cidade das arcadas, com mais de 35 km de passeio coberto dessa forma. E é também a cidade das torres, como as duas torres inclinadas da figura, do século XII, a Asinelli e a Garisenda, que pedem meças a Pisa, mais pequena, e que só não são gémeas porque uma mede o dobro da outra. De qualquer modo, Bolonha, graças ao número de torres e não só, já foi chamada a Nova Iorque medieval.A Universidade, a alma mater studiorum, que remontará a pelo menos 1088, ufana-se de ser a mais antiga do mundo ocidental (há universidades árabes mais antigas). Não admira por isso que a declaração de Bolonha das universidades europeia tenha o nome que tem. Impressiona, tanto ou mais que a antiguidade, a lista dos nomes que passaram como alunos ou professores pela Universidade bolonhense: Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Nicolò Copernico (estudou lá Teologia), Paracelso, Marcello Malpighi, Giovanni Pico della Mirandola, Albrecht Dürer, Torquato Tasso, Carlo Goldoni, Luigi Galvani, e, já nos nossos dias, Pier Paolo Pasolini e Umberto Eco. Porém, um dos filhos mais famosos de Bolonha, Guglielmo Marconi, não estudou lá...
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September 2 2009, 1:55am | Comments »
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A CASA DE DANTE
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Dante, considerado quase unanimemente o maior escritor italiano, nasceu em Florença. Não se conhece o local exacto de nascimento, mas foi provavelmente no centro histórico de Florença. Bem perto da Piazza della Signoria há uma Casa di Dante, que funciona como Museu (o visitante encontra lá várias edições da "Divina Comédia", essa obra-prima da cosmovisão medieval), mas essa casa é bem mais recente do que Dante.Embora haja um túmulo de Dante na Basilica de Santa Croce, ele está vazio. O verdadeiro túmulo de Dante está em Ravenna, cidade onde o poeta morreu, exilado de Florença (foi até condenado à morte pelos seus conterrâneos, uma pena extensiva aos seus filhos). No ano passado, Florença resolveu reabilitá-lo honrando um dos seus descendentes com a maior distinção da cidade, o Fiorino d' Oro, mas o acto foi polémico não por dúvida sobre os méritos de Dante mas sim por vários vereadores acharem absurda uma decisão desse tipo passados 700 anos (ver aqui).
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August 31 2009, 5:37pm | Comments »
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SOBRE A ACTUALIDADE DE CAGLIOSTRO
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Sobre Cagliostro (em sima o seu selo), que se dizia eterno ("io non sono di nessuna epoca e di nessun luogo; al di fuori del tempo e dello spazio, il mio essere spirituale voiive la sua eterna esistenza"), e de quem aqui falei, encontrei o livro de Ian McCalman, historiador australiano, "Conde Cagliostro. O último alquimista" (Pergaminho, 2007), onde ele, citando Umberto Eco, fala da actualidade do conde charlatão da época das luzes. Transcrevo da p. 226: "O retrato pintado por Carlyle - Cagliostro como arquétipo do charlatão - era tão convincente que, como todos os mitos, depressa se evadiu do seu contexto histórico e viajou até aos nossos dias, onde outro brilhante crítico social, Umberto Eco, o encontrou e lhe deu novo enquadramento. Para Eco, Cagliotro é um profeta, não tanto do Iluminismo ou da era industrial, como deste nosso tempo pós-moderno. Eco vê Cagliostro como um signo vazio, uma pessoa de uma vulgaridade tão transparente que se tornou um íman para as múltiplas fantasias daqueles que perderam o sentido da realidade. Hoje, escreve ele, aventureiros como Cagliostro trocaram a Itália e a França pela Califórnia, onde assumem o papel de profetas da Nova Era, mágicos e curandeirois, alimentando-se da insegurança e da confusão moral das pessoas. os Cagliostros de hoje proclamam uma "crítica da razão", substituindo o mundo real "por uma indústria da falsificação" - os hiper-realistas "castelos encantados. "mosteiros de salvação", catedrais kitsch e cemitérios com garantias de salvação eternas. os modernos xamãs da televisão imitam o copta, erguendo os olhos ao céu para evocar aparições divinas, rugindo ao lutar com os demónios, curando pessoas com palavras de mel e imposição de mãos. É em Los Angeles, mais do que em Roma e em Paris, que encontramos os descendentes directos da maçonaria egípcia, numa manta de retalhos em que cabem gurus da Nova Era, videntes da Internet, exorcistas, necromantes, pseudo-rosacrucianistas e autoproclamados Cavaleiros do Templo".
August 31 2009, 7:14am | Comments »
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SUGESTÃO DE BLOGUE 2
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Em "Livre e Humano", aqui, o professor de História da Universidade de Coimbra Amadeu Carvalho Homem tem afixado o seu "Memorial Republicano", para além de outras saborosas crónicas.
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August 31 2009, 6:58am | Comments »
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O PALAZZO VECCHIO DE FLORENÇA
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Continuando a minha reportagem de Florença: do Palazzo Vecchio, tem-se uma vista única sobre a Piazza della Signoria e também para a Duomo, sendo possível admirar melhor o trabalho do arquitecto Bruneleschi (em Florença, como o escritor inglês E. M. Forster sabia porque esteve lá, há não só um, mas vário belos "quartos com vista"). No Palazzo, uma das maiores atracções é a Sala dos Mapas Geográficos, com paredes todas pintadas a mapas pelo monge dominicano Fra Ignazio Danti (1563-1575), usando já o sistema de Mercator. No centro, o grande globo ("Mappa mundi") significa de certo modo o domínio do mundo.
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August 30 2009, 4:31am | Comments »
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Porque caiu a Monarquia?
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Mais um post a propósito do próximo Centenário da República da autoria do historiador António Mota de Aguiar (na foto, José Relvas proclama a República à varanda dos Paços do Concelho em Lisboa, onde recentemente um grupo monárquico hastou a bandeira das suas cores)Se revirmos a história dos últimos anos da Monarquia compreenderemos melhor porque foi a vida da Primeira República tão atribulada e de tão infeliz sucesso. A recordação de alguns factos históricos ajudar-nos-á a compreender porque caiu a Monarquia (ver aqui “Reflexões para o Centenário da 1ª República”). E também porque, mais tarde, caiu a Primeira República.Quando, em 1889, D. Carlos inicia o seu reinado, o país está em vésperas de bancarrota, ou, dito por outras palavras, não há dinheiro para comprar no estrangeiro aquilo que os Portugueses necessitam para as suas vidas quotidianas, que o país praticamente não produz. A única solução que o Estado encontra é pedir dinheiro emprestado no estrangeiro, agravando a já de si grande dívida pública.Em 1890 recebemos o aviltamento do “mapa cor de rosa” e, de certo modo, os Portugueses fazem ‘harakiri’ pela vergonha nacional sofrida. É então que se dá a revolta republicana de 31 de Janeiro no Porto em 1891. Os manuais da História de Portugal referentes a estes últimos anos do rotativismo dão-nos conta de sessões parlamentares turbulentas, insultuosas e inúteis, dominadas por interesses partidários. A monarquia parlamentar treme, mas vai-se aguentando.O “país da tanga” vai pedindo dinheiro emprestado lá fora e, cá dentro, D. Carlos I continua a gastar bem, recebendo, como “adiantamentos”, importantes somas de dinheiro. Apesar do país lhe facilitar uma vida luxuosa e parasitária, não deixava de o considerar uma “piolheira”. Os últimos anos do rotativismo foram marcados por sucessivos escândalos financeiros, enquanto a maioria dos portugueses permanecia na miséria.De revolta atrás de revolta chegamos ao regime de violência e repressão de João Franco, à greve académica de 1907 (ver aqui "A Greve Académica de 1907 em Coimbra").A sociedade portuguesa chegara ao caos total, a monarquia podre e desacreditada ruíra, caindo por todos os lados, sem salvação possível. O sentimento de que a sociedade portuguesa caminhava para o abismo era sentido por muitos. O Regicídio, pressentido no tempo, foi um acto tresloucado, uma manifestação de ódio inútil, com consequências desastrosas para os republicanos, como João Chagas previa e temia[1], E como veio, de facto, a acontecer.A implantação da República a 5 de Outubro de 1910 teve sucesso não só pela boa organização dos revoltosos, mas também pela desmoralização dos monárquicos: os monárquicos estavam divididos por lutas viscerais, poucos se levantaram para salvar a monarquia. A monarquia estava podre, não havia saída possível para o sistema.Entre os principais mentores da revolta militar republicana: João Chagas, Miguel Bombarda, Machado Santos, António José de Almeida, António Maria da Silva, Cândido dos Reis, etc., não figuram Afonso Costa, que se afastara dos preparativos militares [2], e Bernardino Machado [3], por achar que ainda não tinha chegado a hora de uma revolução pelas armas.No decurso dos acontecimentos militares, um dos principais protagonistas da revolta, o Almirante Carlos Cândido dos Reis, pensando que o golpe tinha falhado, suicidou-se. Ficámos a dever a Machado Santos, que correu de armas na mão para a Rotunda, em Lisboa, o sucesso do golpe militar. Após a vitória na Rotunda, a República foi implantada no resto do país, por telégrafo. Isto quer dizer que a implantação da República foi por um fio!Estes pormenores, não tiram em nada valor aos revolucionários republicanos de 1910, mas retiram-no aos monárquicos, que não se bateram pelo seu regime político - na verdade, não o fizeram por que não acreditavam nele.Que herdou a república do regime monárquico? Uma dívida externa abissal, o caos político, a miséria generalizada, uma economia em farrapos, cerca de 80% de analfabetos. Como consequência desta situação de caos, a partir de 1910 alguns homens têm projectos políticos próprios, prontos a fazê-los vingar pelas armas, caso necessário, mas ninguém sabe o que é uma Democracia, por que ninguém a praticara antes.Como é que, nestas condições, se poderia construir um outro país? O caos envolvente faz-se cedo sentir na sociedade portuguesa após o 5 de Outubro: António José de Almeida, que electrizara multidões com os seus discursos em prol da República, era agredido, insultado e enxovalhado a 11 de Outubro de 1911, por “arruaceiros” [4] em pleno Rossio, em Lisboa. Que queriam esses arruaceiros? Nada. Simplesmente, em “casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”Em Outubro de 1910, a sociedade portuguesa assentava numa contradição: se, como idal, pairavam ideias generosas (“Liberté, Egalité, fraternité"), na prática continuavam instaladas a desordem, a fome, a miséria, e o analfabetismo, aproveitadas pela ambição de alguns...António Mota de AguiarNOTAS[1] João Chagas, Cartas Políticas, Oficînas Bayard, 1908[2] João B. Serra, in História da Primeira República Portuguesa, Coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernando Rollo, pp. 43-52, Tinta da China, Lisboa, 2009[3] João Chagas, Cartas Políticas, Vol. IV, pp. 105-107, Oficînas Bayard, 1908[4] “A Lucta” de Outubro de 1911.
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August 30 2009, 4:21am | Comments »
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CAGLIOSTRO E SAN LEO
http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/cagliostro-e-san-leo.html
Ontem à noite não estava lua cheia, mas sim quarto crescente, no fantástico céu italiano da altaneira povoação de San Leo, muito perto da República de San Marino e da estância balnear de Rimini, a terra desse grande mágico do cinema que foi Frederico Fellini. Mas se estivesse lua cheia, haveria, segundo a lenda, a possibilidade de encontrar à beira da estrada o fantasma do Conde de Cagliostro, aliás Giuseppe Balsamo (1743-1795), o renomado mágico, médium, curandeiro, maçon, aventureiro e viajante. Que se saiba, não apareceu a ninguém, apesar de terem sido muitas as pessoas que passaram por aquela estrada a caminho ou vindas do festival “Alquimia” (há quem chame a Cagliostro o último dos alquimistas), um dos maiores eventos de esoterismo em Itália e por isso mesmo uma boa atracção para os turistas de Verão. Todos ficaram deslumbrados com o espectáculo pirotécnico de luz e cor.Com efeito, foi a 26 de Agosto de 1795 que Cagliostro (continuemos a usar o nome mais popular, embora o título de conde seja falso como aliás quase toda a história de vida que o próprio inventou, incluindo uma longevidade que lhe teria permitido conviver com Jesus Cristo na Palestina) morreu, de apoplexia, numa diminuta cela do inexpugnável castelo renascentista de San Leo, com entrada só por uma abertura no tecto e com acanhada vista entrecortada de grades que nem dava para ver a Lua. Tinha sido condenado em 1790 pela Inquisição romana à morte, mais por defender a maçonaria do que a alquimia, e, graças a alguma retractação, viu a sua pena comutada em prisão perpétua (Camilo Castelo Branco traduziu e publicou o processo sob o título de "Compêndio da Vida e Feitos de José Bálsamo Chamado Conde de Cagliostro ou O Judeu Errante", há uma edição recente da Hugin com um título mais curto) . A prisão não foi perpétua pois durou quatro anos, quatro meses e cinco dias, até que o presidiário acabasse por sucumbir, sempre isolado na cela, a um ataque de apoplexia. A sepultura à beira da estrada não foi cristã, não estando hoje assinalada. Na lojas de San Leo os turistas podem comprar um licor de Cagliostro, muito alcoólico como convém, que é anunciado como o elixir da longa vida. Mas essa bebida, tradicional da terra, teve agora de competir na feira esotérica com beberagens sortidas que prometiam o mesmo ou ainda mais.Vale a pena ir a San Leo, mesmo fora do dia do “herói” da Terra. Até porque há outros heróis, ainda mais valorosos e justamente mais conhecidos, que por lá passaram, como S. Francisco de Assis, que lá fez um sermão e que fundou perto o convento de Sant’ Igne (onde há um fresco representando Santo António), Dante, que refere San Leo no Purgatório da “Divina Comédia” (“A Noli e a San-Leo por árdua via / Com pés se vai, Bismântua assim se alcança/ Ter asas de ave aqui mister seria”), e Lorenzo de Medici (que ali construiu um palácio depois de ter conquistado o lugar). Para além da visita ao castelo, o turista pode desfrutar de uma catedral românica do século XII com elegante campanário e uma igreja, também românica, que remonta ao século IX, no preciso sítio onde San Leo construiu o primeiro templo. Conta-se que a povoação de San Leo foi fundada pelo santo que lhe deu o nome, que veio na século V da costa dálmata evangelizar a península itálica, então ainda largamente pagã. Mas o turista não pode, de modo nenhum, perder a impresionante vista que se alcança da falésia onde o burgo foi construído, que proporciona uma paisagem que chega por um lado ao castelo de San Marino e por outro ao mar,Para comer, e obviamente beber, recomendo o restaurante “Belvedere”, junto ao miradouro, onde se pode “al fresco” degustar um Pasticciata alla Cagliostro (o nome é inescapável) acompanhado de um “vino rosso regionale”...A história de Cagliostro é a vários títulos muito interessante e de tão grande e fantástica não cabe aqui. Nascido em Palermo, na Sicília, torna-se um bandido, fugitivo e aldrabão de grande sucesso. Chega a altas posições em Roma, onde foi secretário de um cardeal, em Londres, onde terá entrado em cerimónias com ritos maçónicos egípcios, e em Paris, onde esteve preso na Bastilha por suposto envolvimento no caso do colar da rainha Maria Antonieta, que antecedeu a Revolução Francesa. Em Paris chegou a ser recomendado a Benjamin Franklin como médico, não se sabendo se o cientista e diplomata recorreu aos seus serviços... Ele e a sua jovem mulher, Seraphina, encontraram Casanova (Casanova não a terá seduzido, mas há uma história picante sobre a troca que Cagliostro fez de favores da mulher por ensinamentos de falsificação transmitidos por um marquês). Travou conhecimento com nomes famosos como os alemães Goethe e Schiller, que logo o honraram com a entrada na literatura. Se a sua carreira em vida terminou com a morte na solitária do castelo de San Leo, bem pode dizer-se que continuou depois e prossegue ainda, a avaliar não apenas pela “romaria” de ontem a San Leo, mas pelo número de referências que lhe encontramos na literatura, no teatro e no cinema.O espectacular sítio de San Leo tem uma “magia” natural, mesmo sem o festival mágico de Verão, e está à espera de ser descoberto por quem ainda não conhece. Escusado será dizer que não há garantidamente o perigo de encontrar, no caminho, o fantasma de Cagliostro...
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August 27 2009, 5:21am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
PORTUGAL E O MUNDO 1
http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/portugal-e-o-mundo-1.html
A exposição "Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII", que está patente no Museu Nacional da Arte Antiga, em Lisboa, é simplesmente imperdível. Teve origem na exposição "Encompassing the World", que esteve em Washington D.C., Estados Unidos, mas incorpora objectos e documentos que aí não foram mostrados.Para abrir o apetite para a exposição em Lisboa, destaco, entre várias outras que poderiam ser destacadas, três peças relacionadas com a ciência. A primeira é um retrato do padre jesuíta italiano Matteo Ricci, pintado em Pequim em 1610 (quando Galileu publicou o seu "Mensageiro do Céu"), e que pertence à Rettoria del SS. Nome di Gesú all'Argentina, em Roma.Escreve o professor escocês Gauvin Bailey no excelente catálogo da exposição:"Esta famosa tela da autoria do artista cristão chinês Emanuel Pereira (Wu Wenhui, 1575-1633) é o único retrato existente de Matteo Ricci (1552-1610), conhecido em chinês como Li Madou, um dos fundadores da primeira missão chinesa no continente asiático, em Zhaoqing, e um dos maiores linguistas do seu tempo. Poucos missionários jesuítas serão mais famosos do que este poliglota nascido em Macerata na região italiana de Le Marche, o qual, talvez mais do que qualquer outro, tentou integrar a cultura renascentista europeia na civilização chinesa. (...) O seu sacerdócio não era declaradamente religioso, uma vezes que tinha noção que o cristianismo teria de ser apresentado como uma filosofia completa em todo o seu contexto antes que os chineses o levassem a sério. Parra Ricci, esse contexto encontrava-se essencialmente nas ciências, na Geografia e nas suas obras literárias sobre a moralidade."
August 25 2009, 9:06am | Comments »



