Outro excerto do Relatório de Mestrado de Válter Martins apreesntado à Universidade de Coimbra, desta vez sobre os liceus nacionais durante a 1ª República:Durante a 1.ª República aumentou da população liceal. Em 1910 existiam 32 liceus frequentados por 9740 alunos, mas em 1926 existiam 33 liceus frequentados por 12604 alunos. O número de professores do ensino liceal acompanhou naturalmente esse crescimento: de 512 em 1910 passou para 836 em 1926. Em 1905, cinco anos antes da República, ocorreu uma importante reforma do ensino secundário em Portugal executada por Eduardo José Coelho (1835-1913), então Ministro do Reino. A reforma atenuou a contribuição da formação clássica, onde o Latim surgia como a disciplina de maior carga horária, passando a existir um efectivo reforço na carga lectiva das disciplinas científicas no Curso Geral. A Física, a Química, assim como as Ciências da Natureza foram promovidas a disciplinas independentes no curso complementar de ciências. A reforma deu consideração especial às línguas como o Inglês, o Alemão e o Francês, aumentando-lhes a carga horária. Assim, a República valorizou o ensino secundário. Dotou-o de ferramentas para uma futura inserção dos alunos na vida do país. Esta reforma acabou ainda com o regime de manual único. A reforma foi de tal modo decisiva que nova mexida no ensino secundário só se viria a verificar em 1917, sobrevivendo assim, ao espírito reformista do início da 1.ª República. O curso liceal era, em 1905, de sete anos, existindo nos últimos dois uma separação entre as áreas de ciências e de letras. A Química e a Física eram ensinadas nas 3.ª, 4.ª e 5.ª classes, bem como na 6ª e 7ª classes do Curso Complementar de Ciências.O Programa de Química da 3.ª classe em 1914 ainda era o elaborado em 1905:“Apresentação de algumas experiencias que provem que o ar atmospherico e a agua se podem dividir noutros corpos com propriedades differentes, deduzir d’ahi a noção de corpo simples e de corpo complexo.Phenomenos physicos e phenomenos chimicos; propriedades physicas e propriedades chimicas, combinações e misturas. Indicação nominal dos mais importantes corpos simples, dividindo-os em metalloides e metaes, baseando a divisão nas propriedades physicas. Leis da conservação matéria e das proporções definidas. Representação de pesos determinados dos elementos por meio de symbolos; representação dos compostos por meio de formulas e das reacções por meio das equações chimicas. Analyse e synthese. Objecto da chimica. Estudo do hydrogenio, oxygenio, azoto, ar atmospherico e agua.” Competia ao professor a execução das experiências, tendo como objectivo a simplificação dos processos.Apesar de ter sido mantido o carácter da anterior reforma, observou-se nesta nova mudança, regulamentada pelo decreto nº 3091, de 17 de Abril 1917, com a introdução no Curso Complementar de Letras, das disciplinas de ciências, assim como a disciplina de Filosofia no Curso Complementar de Ciências. A remodelação tinha como base a proposta de uma comissão nomeada para o efeito, que partiu da experiência do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. A reacção a esta alteração foi de tal modo enérgica que obrigou a uma suspensão das aulas nos liceus por alguns meses. No final de 1917, com a chegada de Sidónio Pais ao poder, foi nomeada uma nova comissão para a reforma do ensino chefiada por Francisco Miranda Costa Lobo, presidente de então do Instituto de Coimbra. O decreto-lei que reformulou a instrução secundária foi aprovado no dia 14 de Julho de 1918, tendo a sua rectificação ocorrido no dia 8 de Setembro de 1918. O decreto n.º 5002, de 28 de Novembro de 1918, aprovou os novos programas, uma vez que, no momento, ainda estavam em vigor os programas de 1905. A aprovação deu-se cerca de duas semanas antes do assassínio de Sidónio Pais, na estação dos Restauradores em Lisboa. Nesta reforma, o Governo assumiu a especificidade do ensino secundário devido à sua longa duração tentando adequar o papel formativo das disciplinas. O decreto que saiu da Secretaria de Estado da Instrução Pública destacou ainda, no seu preâmbulo, o papel do professor para proporcionar não só o conhecimento necessário aos alunos, mas também fornecer a adequação necessária “às realidades possíveis todo o mecanismo da nova organização do ensino secundário”. A Física e a Química passaram agora a ser ensinadas a partir da 1.ª classe do ensino secundário. Na reforma, mantiveram-se os Cursos Complementares de Letras e de Ciências. Estes cursos têm a duração de dois anos. No curso de Letras surgiu uma disciplina de Ciências Físico-Químicas. No curso de Ciências constava a cadeira de Matemática, assim como as de Física, Química e de Ciências Naturais, todas elas independentes entre si. As disciplinas de Literatura Portuguesa e Português, Geografia e língua estrangeira (Alemão ou Inglês) seriam comuns a ambos os cursos. Deu-se portanto a entrada da disciplina de Filosofia, em 1918, no Curso Complementar de Ciências, bem como as matérias de Ciências Físico Naturais, no Curso Complementar de Letras, no mesmo ano. A disciplina de Ciências Físico-Naturais, foi substituída, em 1919, no Curso Complementar de Letras, pela de Matemática. Fazia parte do programa da 7.ª classe, na disciplina de Matemática, um capítulo de Cosmografia, onde eram estudados os movimentos dos astros, bem como a constituição do Sol e da Lua. Também no ensino secundário, o estudo da Astronomia, passava pela matemática e não pelas chamadas Ciências Físico-Químicas. Hoje, a parte correspondente à constituição do Sol e da Lua é estudada no 10.º ano, na parte de Química. O Curso Complementar nos liceus, só poderia ser leccionado se as escolas estivessem devidamente apetrechadas. Era obrigatório a existência de gabinetes e laboratórios com equipamento para a realização dos trabalhos práticos individuais de Física, Química, Mineralogia, Geologia, Ciências Biológicas e Geografia.O ensino das ciências, no Curso Geral, era principalmente prático, realizando o professor bastantes experiências durante as aulas. No Curso Complementar Científico, além das aulas expositivas, onde o principal recurso seria as experiências, assim como os exemplos, existia semanalmente, um período de hora e meia, onde os alunos se dedicavam aos trabalhos práticos das disciplinas de Física, Química, História Natural e Geografia. Estas actividades, segundo José Leonardo escreveu em O Instituto de Coimbra e o Ensino Secundário em Portugal na Primeira República, O ensino das Ciências Físico–Químicas, tinham uma grande aceitação por parte dos alunos. Era frequente que estes pedissem autorização para trabalharem, nos laboratórios, fora do horário previsto.O Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, era a principal referência nacional para o ensino secundário. Dispunha de aparelhos de manuseamento simples, facilitando aos alunos a sua compreensão e utilização. Além de ser dotado de um laboratório para a disciplina de Física, contava ainda com um anfiteatro apetrechado com uma mesa para experiências, uma oficina para reparações. Para a área da Química dispunha de laboratórios devidamente equipados, um anfiteatro, com a adequada disposição, para a realização de experiências. Contava ainda de uma sala de fotografia. Existia pois a preocupação de estimular os alunos e uma prática activa na aprendizagem. Apresenta-se no Anexo 11 o que era o plano curricular (segundo o relatório, publicado n’ O Instituto, de Rubén Landa Vaz (1890-1978), um pedagogo espanhol que desenvolveu um dos maiores estudos do ensino secundário em Portugal) existente em 1921 nos liceus nacionais. Esta foi pois a última reforma do ensino secundário até ao fim da 1.ª República.No resto do país, contudo, apesar de estarem estruturados da mesma forma, os liceus sentiam o peso da inadequação das instalações ao seu bom funcionamento. A dinâmica das escolas de província era, portanto, menor que a da sua congénere de Lisboa. O estado físico geral dos liceus da província era de alguma degradação. O golpe de estado de 28 de Maio de 1926 não provocou desde logo, alterações essenciais no ensino secundário em Portugal. O escritor João de Barros (1881-1960), que era o director-geral do Ensino Secundário, manteve-se no cargo até Outubro de 1927, quando foi suspenso. O seu afastamento definitivo apenas se deu em Novembro de 1928.Válter Martins
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Os liceus na 1ª República
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September 17 2010, 2:02am | Comments »
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Ainda as ciências no tempo da 1ª República
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Outro excerto do Relatório de Mestrado de Valter Martins sobre o ensino das ciências no tempo da 1ª República:Os primeiros passos da República foram enérgicos e reformadores, o que é claro da coragem que o novo regime teve ao criar as Universidades de Lisboa e Porto, enfrentando a Universidade de Coimbra. Um ponto notável na Universidade de Coimbra foi, sem dúvida, a extinção das Faculdades de Matemática e Filosofia (um desígnio que deu os primeiros passos ainda no século XIX através da coordenação das suas actividades docentes), substituindo-as pela Faculdade de Ciências.Apesar de o período temporal da 1.ª República ter sido uma época de grande progresso da ciência no mundo desenvolvido e apesar do esforço pontual de alguns professores portugueses, a produção científica não foi brilhante em Portugal nesse período. A falta de verbas e de material, bem como a insuficiência do número de professores podem não ser a única explicação. O facto de boa parte dos docentes terem tido um desempenho activo na vida politica, como deputados e ministros, pode ser apontado como mais um elemento-chave para ajudar a compreender as insuficiências do ensino superior.No âmbito da formação de professores para o ensino secundário, a medida mais importante da 1.ª República foi a criação das Escolas Normais Superiores. Desde a sua criação até ao seu desaparecimento, com o Estado Novo, estas escolas formaram, no total dos três cursos (magistério primário superior, magistério secundário e magistério normal primário), cerca de 160 docentes. Esse número, relativamente reduzido, de diplomados ficou-se a dever às restrições na admissão às Escolas Normais Superiores impostas pelo Estado.O ensino secundário, graças às reformas efectuadas (curiosamente a República não actuou logo aí com a mesma celeridade com que o fez no ensino superior, mantendo a reforma anterior) , foi, segundo o estudo do espanhol Rúben Landa publicado n’O Instituto, um dos maiores sucessos da 1.ª República. Com efeito, esse autor afirma que a nossa instrução secundária estava na vanguarda da Europa. No ensino liceal houve um claro aumento de alunos durante a 1.ª República, o que foi acompanhado pelo aumento do número de professores. Houve, porém, insucessos nessa área: A 1.ª República nunca conseguiu, por exemplo, aplicar a legislação referente ao livro escolar.A vontade reformista da República levou-a, por vezes, a cair na demagogia. O regime nunca entendeu que lidava com um País pobre e atrasado. Não compreendeu a necessidade de estabilidade social e política. A elite política esgotou, em guerras intestinas, a oportunidade de reformas sensatas do país, sacrificando o essencial ao supérfluo. Pessoas com grande competência que passaram pelos cargos governativos não tiveram a oportunidade de pôr em prática medidas de pacificação social ou de efectuar as reformas necessárias ao desenvolvimento do país.Válter Martins
September 16 2010, 2:05am | Comments »
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O CHEIRO DOS RICOS
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Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:A estação central de comboios da cidade alemã de Colónia é dominado pela publicidade à água de Colónia 4711, que é, aí como noutros lados, denominada “autêntica”. Ora essa publicidade, como tantas outras, é bastante enganosa, pois a água original de Colónia é quase um século mais velha, remontando a 1709, o ano em que, em Portugal, Bartolomeu de Gusmão fazia subir, perante o rei D. João V, a sua Passarola.Com efeito, foi nesse ano que o comerciante italiano Giovanni Maria Farina inventou e passou a vender uma “água milagrosa” que ele próprio descreveu nestes termos: "Encontrei um cheiro que me lembra uma manhã na Itália, narcisos da montanha e folhas de laranja depois da chuva. Ele me refresca e fortalece os meus sentidos e a minha fantasia.” Em homenagem à cidade onde foi inventada, passou a ser anunciada como “água de Colónia”.Aconteceu à água de Colónia o mesmo que, mais tarde, aconteceu à Gilette, isto é, passou a designar-se todo um tipo de produtos com o mesmo nome do produto inicial. Embora de fórmulas químicas diferentes, a 4711 e a Farina são ambas águas de Colónia, isto é, são uma mistura de óleos essenciais de plantas, em concentração inferior a sete por cento, com álcool (etanol) diluído em água. A 4711 será talvez a água de Colónia mais famosa em todo o mundo, pese embora a história da sua pretensão à autenticidade ser um pouco recambolesca: o alemão que criou, também em Colónia, o sucedâneo convidou para sócio da sua empresa um Farina que não tinha nada a ver com a família do perfumista com o mesmo nome, só para que as duas águas pudessem ser confundidas. As leis da propriedade industrial ainda não tinham sido feitas!A 4711 (nome que deriva do número de porta da loja, na Rua dos Sinos, Glockengasse, no tempo em que os números diziam respeito a toda a cidade e não apenas à rua) tem uma relação com o nosso país: toda uma linha dos seus produtos de perfumaria se intitula Portugal. Porquê? Acontece que um dos óleos essenciais usados para preparar esses produtos é feito com casca de uma laranja azeda, proveniente dos países do Sul da Europa. A associação de Portugal com a produção de laranjas é ancestral e, na Alemanha, esse óleo da água de Colónia tem mesmo como sinónimo “óleo de Portugal” (Portugalöl). É por isso que antigamente se falava de uma “água de Portugal”.Como é o cheiro que resulta dos óleos essenciais como o “óleo de Portugal”? Conforme disse Farina, é refrescante e, portanto, leve e agradável. Notáveis como Napoleão, Goethe e Beethoven (natural de Bona, perto de Colónia) usaram água de Colónia, uma grande novidade na época porque os perfumes, em geral de origem francesa, eram até aí demasiado fortes. O cheiro a Colónia passou até a ser designado por “cheiro dos ricos” ...
August 26 2010, 6:01pm | Comments »
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O SEGREDO DO DISCO ASTRONÓMICO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/o-segredo-do-disco-astronomico.html
De férias na Alemanha, leio na imprensa alemã uma interessante notícia sobre o disco de Nebra (já referido neste blogue), cuja descoberta no lugar de Nebra, na província da Saxónia-Anhalt tem levantado grande discussão desde há dez anos.Investigadores das Universidades de Mainz e de Halle (cidade em cujo museu arqueológico o disco está guardado) pretendem ter encontrado uma explicação para o enterramento do disco, há 3600 anos, em plena Idade do Bronze. Nessa época, as cinzas de um vulcão na ilha de Santorini, no Mediterrâneo, terão causado um obscurecimento dos céus da Europa durante um período de cerca de 20 anos (um fenómeno um pouco parecido com o que se passou recentemente com a erupção de um vulcão islandês). O instrumento foi posto de lado e enterrado no local onde foi descoberto porque a sua utilização como calendário astronómico se tornou assim inútil. A notícia acrescenta que na mesma época terá também cessado a utilização astronómica do sítio de Stonehenge, na Inglaterra?E porque é que a descoberta do disco foi tão polémica? O achado foi feito por arqueólogos amadores que o tentaram vender no mercado negro, mas a polícia acabou por os apanhar numa operação digna de um filme no Hotel Hilton de Basileia, na Suíça. Alguns arqueólogos duvidaram na altura da autenticidade do disco que representa, além do Sol e da Lua, as Pleiades, mas estas dúvidas dissiparam-se depois de uma cuidadosa análise do disco de 32 centímetros de diâmetro cuja massa é de cerca de dois quilogramas. Trata-se, sem dúvida, do mais antigo instrumento astronómico conhecido até hoje.
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August 19 2010, 4:08pm | Comments »
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A LONGA MARCHA PARA O ESPAÇO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/longa-marcha-para-o-espaco.html
Outro texto meu de há alguns anos sobre a aventura espacial, este extraído de "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva):Segundo o historiador de ciência inglês Joseph Needham o foguete foi provavelmente (nestas coisas nunca pode haver certezas) a invenção mais importante da China e a sua contribuição tecnológica mais importante para a humanidade. Ele estaria talvez a pensar na possibilidade de um dia a humanidade poder deixar o seu “berço” e estabelecer-se noutros planetas ou mesmo em estações permanentes no espaço.Needham é uma das maiores autoridades mundiais sobre a ciência e a tecnologia da China. Nascido em 1900, deu aos 37 anos uma grande volta na sua carreira de embriologista formado por Cambridge. Tendo encontrado e feito amizade com estudantes chineses, entusiasmou-se pela história da civilização chinesa. Para isso aprendeu a língua chinesa clássica. E, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, foi nomeado Conselheiro Científico da Embaixada Britânica na China. Correu a China toda, reunindo informações e coleccionando, com a obsessão de um caçador de tesouros, muitos livros sobre a antiga ciência chinesa. Essa biblioteca constitui hoje em Cambridge a maior biblioteca sobre a história da ciência e da técnica chinesa fora da China, tendo justamente o nome do seu fundador. Depois da Guerra, Needham tornou-se subdirector geral da UNESCO para a área das Ciências Naturais, tendo sido ele o responsável pelo S da sigla entre o E e o C (originalmente, a UNESCO tinha a intenção de se dedicar apenas à ciência e à cultura, mas a ciência, de “Science” fica muitíssimo bem entre as duas). De volta à sua “alma mater” Needham começou a escrever um longo e erudito tratado intitulado “Science and Civilization in China”, que tem saído sob a chancela da Cambridge University Press em 25 volumes (já saíram 17 volumes; o projecto continua depois da morte do autor em 1995). É praticamente impossível a um leitor ler por completo essa verdadeira obra prima da história da ciência, mas há resumos, um dos quais bastante acessível e ilustrado (que tem a vantagem de ter sido não só sancionado como prefaciado pelo próprio Needham): Robert Temple, “The Genius of China: 3000 Years of Science, Discovery and Invention”, Prion, Londres, 1986.É lá que podemos encontrar uma breve história do foguete chinês. Ficamos a saber que o foguete nasceu na China em 1150 (no calendário cristão, largamente ignorado pelos chineses). Foi usado em fogos de artifício e na guerra. É significativo que o árabe Hasdan al-Rammah tenha chamado em 1280 aos foguetes “setas chinesas”. Os foguetes foram rapidamente importados pelos ocidentais, na esteira das viagens de Marco Pólo ao Extremo Oriente. Assim, em 1380 foram usados numa batalha no norte de Itália, entre genoveses e venezianos. Temple (quer dizer, Needham) assinala que se tratou de uma importação bastante rápida: escassos dois séculos. Outras invenções do Império do Meio chegaram ao Ocidente com maior atraso. Ao ler Temple, ficamos verdadeiramente impresionados e mesmo confundidos com o número e a qualidade das invenções chinesas: a bússola, a pólvora, o papel e, Gutenberg que não se sinta diminuído, até a imprensa! Para não falar já de descobertas científicas, como a da circulação do sangue, comandada pelo coração, que era conhecida dos chineses muito antes - dois mil anos antes - do britânico William Harvey a ter anunciado na Europa no início do século XVII.Pois a invenção do foguete durante aquilo que no Ocidente se convencionou chamar Idade Média foi o primeiro passo para a longa marcha da humanidade para o espaço. O desenvolvimento rápido dos foguetes só se dá no século XX, sendo ele indissociável do nome do engenheiro alemão Wernher von Braun, pai não só dos dos foguetes V2 que semearam o pavor em Londres durante a Guerra, mas também do foguetão Saturno V, que foi utilizado para as viagens norte-americanas à Lua. Um foguetão é, evidentemente, um foguete grande e não deixa de ser curioso que os chineses, que tanta ciência e tecnologia desenvolveram nos tempos antigos, tenham perdido o “comboio do progresso” nos tempos mais modernos. O assunto daria muito pano para mangas, mas fica a importante nota que a actual civilização, muito ligada ao Ocidente mas partilhada cada vez mais pela China, assenta numa base científico-tecnológica que teve origem no método científico. Foi um italiano de Florença, contemporâneo de Harvey, que a desenvolveu e pôs em prática: Galileu Galilei. O problema do atraso da China é que Galileu não foi chinês, uma vez que, a partir dele, a evolução científico-técnica acelerada do Ocidente foi o que se sabe e o que se vê. Aos chineses nunca faltou o engenho, terá faltado a curiosidade e o método para a prosseguir de maneira sistemática.Em 1998 assistiu-se ao que podemos chamar, sem qualquer carga pejorativa, a “vingança do chinês”. Um foguetão de concepção e fabrico chinês, denominado “Longa Marcha”, pôs em órbita terrestre o primeiro “taquinauta” (yuhangyuan) chinês. A palavra “taquinauta” tem a ver com o facto de os russos chamarem “cosmonauta” e os americanos “astronautas” aos seus viajantes do espaço: “taquinauta” significa “espaçonauta”, viajante no espaço. É claro que os chineses, que são agora mais claramente uma potência mundial no espaço, tinham de querer um nome próprio para os seus homens. A Europa continua “pendurada” nos norte-americanos e russos para as suas viagens espaciais tripuladas: por exemplo, a ex-ministra francesa para a Investigação Científica e as Novas Tecnologias, Claudie Aignerée, viajou na MIR e na Estação Espacial Internacional e o astronauta espanhol Pedro Duque partiu, a bordo de uma nave russa, para a Estação Espacial Internacional, onde realizou várias experiências científicas e didácticas. Mas não há um nome europeu para viajantes do espaço... O primeiro “taquinauta” chama-se Yang Liwei e faz parte de um grupo de “eleitos” que foram intensivamente treinados. A cápsula Shen Zhou-5 (“Nave Divina”, os nomes chineses são curiosos!) tripulada por esse digno sucessor do russo Yuri Gagarine e do norte-americano Alan Shapard regressou à Terra no dia 15 de Outubro, caindo em segurança nas planícies da Mongólia Interior depois de algumas voltas bem sucedidas ao nosso planeta. Foi um pequeno passo para ele, mas um grande passo para a China e, uma vez que os chineses são uma parte enorme da humanidade, para a humanidade.Os aplausos foram unânimes. Norte-americanos, russos e europeus felicitaram os chineses pela proeza, que para a China constitui um marco do seu avanço científico-técnico. Esse aplauso geral significa que já não há utilização do espaço para efeitos de “guerra fria”, como aconteceu durante anos. Os norte-americanos, um pouco combalidos do desastre da “Columbia”, sabem bem o valor dos chineses, sabem bem por exemplo o que têm beneficiado com a presença de muitos e bons estudantes chineses nas suas universidades e institutos de investigação. A China de hoje é uma China que soube recuperar, usando o método científico e a tecnologia que lhe está a jusante (na antiga China a tecnologia estava a montante da ciência), do seu atraso.Houve inegavelmente um aproveitamente político do voo espacial tripulado de Yang Liwei. O nome “Longa Marcha” do foguetão utilizado é sintomático ao evocar a herança maoísta. Na verdade, os chineses sempre cultivaram algum nacionalismo e não seria agora que iriam desdenhar a oportunidade de aumentar a auto-estima nacional. Há boas razões para isso uma vez que desenvolveram ciências e tecnologias próprias e fizeram um investimento enorme no seu programa espacial. O Instituto sobre História da Civilização Chinesa que Needham nos legou em Cambridge terá um dia de incorporar nas suas publicações a história deste feito chinês. Mas o importante é que a “longa marcha” para o espaço, que a humanidade começou a empreender a partir do primeiro foguete chinês, seja um empreendimento onde não caibam nacionalismos doentios nem rivalidades mesquinhas e inúteis. Deve ser um projecto de toda a humanidade!Na foto: Yang Liwei, o primeiro "taquinauta".
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July 28 2010, 6:03pm | Comments »
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ALMA MATER DIGITAL
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Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:Alma Mater é uma expressão latina que significa etimologicamente a “mãe que alimenta”. Serve, também, para referir a Universidade onde se estudou. Desde há poucos dias, a expressão passou também a ser o nome da biblioteca digital de fundo antigo da Universidade de Coimbra, a mais antiga das universidades portuguesas. Na Internet está acessível, à fácil disposição de todos os interessados, em http://almamater.uc.pt/ .O leitor que aí clique encontrará cerca de 4000 documentos digitalizados na íntegra, num total de mais de meio milhão de imagens, que incluem livros, periódicos, manuscritos, mapas, fotografias, etc., anteriores a 1940, sobre os mais variados temas, uma vez que o fundo antigo em questão vai desde o Direito e as Letras até às Ciências e Tecnologias. Na área das ciências, poderão ser vistas, por exemplo, magníficas estampas de espécies vegetais portuguesas que constam do livro, publicado em Lisboa no ano de 1800, Phytographia Lusitaniae Selectior, de Félix de Avelar Brotero, lente de Botânica e Agricultura em Coimbra.Como estamos em época de comemorações do centenário da implantação da República em Portugal, a Alma Mater contemplou essa efeméride. Assim, na secção República Digital, exibe, para consulta geral, numerosos documentos, alguns inéditos, do início do século passado. O leitor pode desfolhar as Observações meteorológicas, magnéticas e sísmicas feitas no Observatório Meteorológico de Coimbra no ano de 1909 e publicadas pela Imprensa da Universidade em 1910. O volume seguinte já está a ser digitalizado para divulgar o estado do tempo no dia 5 de Outubro de 1910...Ou pode consultar o Boletim dos Hospitais da Universidade de Coimbra, publicado também pela Imprensa em 1931, onde se diz que a reforma de 1911 veio “transformar de forma mais absoluta e radical os serviços hospitalares”, ficando os referidos hospitais a ser “o mais completo campo experimental da ciência médico-cirúrgica”. As estatísticas das operações cirúrgicas feitas a partir de 1913 documentam isto mesmo: basta ver as extensivas listagens com método e processo, o tipo de anestesia e o resultado (“curado”, “melhorado”, “no mesmo estado” ou “falecido”). Não tem o nome dos operados, mas tem o nome dos operadores.Ou pode ainda ler várias cartas de Afonso Costa, o primeiro-ministro da Primeira República, escritas do exílio após o golpe de Estado de 1926 a um outro exilado, Armando Cortesão, o engenheiro agrónomo (um dos primeiros estudiosos da genética entre nós) que se notabilizou como historiador dos Descobrimentos. Como se compreende, Salazar é aí referido de um modo muito pouco favorável. Na Alma Mater a história está à distância de um clique.Imagem: estampa do livro de Brotero referido no texto.
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July 23 2010, 6:30am | Comments »
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Colombo e Bolívar. Para quando Henriques?
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Novo texto de António Piedade, saído no "Diário de Coimbra":Os restos mortais do General que libertou praticamente toda a América do Sul, no século XIX, do colonialismo Castelhano, foram televisionados no passado fim-de-semana (madrugada de sábado, dia 18 de Julho), numa cerimónia pomposa em que a guarda de honra envergou fatos alvos, protectores e não contaminantes (aqui). A razão para esta exumação é, em parte, cientifica e envolve descobrir a razão para a morte do Libertador, de ascendência castelhana, mas natural da Venezuela e ídolo de milhões de pessoas. Em Abril deste ano, o médico forense Paul Auwaerter (Universidade de Johns Hopkins, EUA) sustentou a teoria segundo a qual Bolivar teria morrido envenenado por sais de arsénio (aqui). Isto está em desacordo com até há pouco conhecido e que indica que El Libertador teria sucumbido derrotado por uma bactéria, a Mycobacterium tuberculosis perfinges, principal causadora da tuberculose. Gabriel García Marquez, deixa-o morrer no seu livro “O General no seu Labirinto”, a olhar Vénus no firmamento e a ouvir “os escravos a cantarem a salve-rainha das seis, nos moinhos”.Venezuela, que significa pequena Veneza em italiano, foi assim baptizada por Américo Vespúcio na terceira viagem de Cristóvão Colombo à procura das Índias (ao navegarem pelo delta do rio Orinoco, Vespúcio terá comparado a beleza paradisíaca da natureza que contemplava com a dos canais de Veneza!). Os restos mortais de Colombo, durante séculos pensados a repousar na lindíssima Catedral de Sevilha, também têm sido alvo de estudos forenses. O objectivo tem sido o de comparar geneticamente as ossadas com a de seus descendentes e resolver, com base científica, a hipótese de que Colombo sempre esteve sepultado no monumento, edificado em sua memória o Farol de Colombo, na cidade de Santo Domingo, capital da República Dominicana (aqui).D. Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal, foi o único militar a conseguir a independência de Castela de um território da península Ibérica. Feito por ventura menor em tamanho mas seguramente comparável ao de Bolívar na bravia, na liderança e na estratégia militar. Sabemos da qualidade da metodologia científica com que a Doutora Eugénia Cunha (Departamento das Ciências da Vida – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) tentou estudar os restos mortais do fundador (aqui), na Capela-Mor da Igreja de Santa Cruz em Coimbra, e como isso foi impedido superiormente na secretaria estatal. Sabemos do desenvolvimento espantoso registado na última década na micro-extracção de amostras diminutas de ADN e também nas técnicas analíticas químicas, capazes de elucidar sobre aspectos não só da morte mas sobretudo da vida, gerando documentos incontornáveis e impossíveis por outra fonte.Para quando Henriques?António Piedade
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July 19 2010, 10:08am | Comments »
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A INQUISIÇÃO, O REINO DO MEDO
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Outra informação editorial recebida da Presença: A Inquisição O Reino do Medo, de Toby Green Colecção: Biblioteca do Século Nº na Colecção: 30O Autor: Toby Green nasceu em Londres em 1974. Estudou Filosofia na Universidade de Cambridge e tem dividido a sua actividade profissional pelo ensino, o jornalismo, a investigação e a escrita. É autor de um conjunto diverso de obras - onde se incluem biografias, crítica literária, história e literatura de viagens - que se encontra traduzido em cerca de uma dezena de línguas. Tem um conhecimento profundo do Continente africano e da América Latina, e as suas investigações levaram-no a passar longos períodos em locais como Bissau, Bogotá, Lisboa, Cidade do México ou Sevilha. Actualmente vive em Inglaterra com a família. Sinopse: Inquisição - O Reino do Medo lança uma nova luz sobre aquela que foi uma das instituições religiosas mais obscuras e devastadoras da história da humanidade ao adoptar uma abordagem muito viva que elege os relatos de casos individuais como ponto de partida para a análise de mais de três séculos de história da Inquisição. E são justamente as histórias desses indivíduos - bruxas no México, bígamos no Brasil, marinheiros sodomitas, padres pouco castos, maçons, hindus, judeus, muçulmanos e protestantes - que o autor resgata dos arquivos de Espanha, de Portugal e do Vaticano, para compor um fresco inédito, de grande complexidade e riqueza. Para introduzir um comentário registe-se ou se já é nosso membro, efectue agora a sua identificação. Citações «Green transmite-nos uma mensagem que, pode dizer-se, é assustadoramente actual.» | Sunday Telegraph«Este livro alerta-nos para os perigos de qualquer sistema que persegue e condena aqueles que não partilham dos seus valores.» | Daily Telegraph«Uma descrição vívida da longa e condenável história da Inquisição.» | Sunday Times«Um estudo de grande fôlego sobre a intolerância.» | Guardian
June 17 2010, 2:56am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
ROBIN HOOD: A HISTÓRIA POR TRÁS DA LENDA
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Novo texto de João Gouveia Monteiro saído antes no "Diário de Coimbra":Tem estado em cartaz a mais recente adaptação ao cinema da história de Robin Hood. Assinado por Ridley Scott e com Russell Crowe, o filme surpreende, pois a história acaba onde as outras começam: no momento em que Robin se torna num fora-da-lei e se refugia na floresta de Sherwood para fazer a guerra ao xerife de Nottingham e ao rei João Sem-Terra, usurpador do trono do bravo rei Ricardo, ausente nas Cruzadas. Afinal, fora este o enredo que todos nos habituáramos a acompanhar, desde a versão de 1938 com Errol Flynn (o Robin de collants verdes) até ao “Príncipe dos Ladrões” (1991, com Kevin Costner), passando pela comédia dirigida por Mel Brooks (1993) e pela série televisiva com Richard Green, sem esquecer a BD e o “arqueiro verde” Ollie Queen.A equipa de Ridley Scott (“Gladiador” e “Reino dos Céus”) propõe-nos uma revisão da personagem Robin Hood (o nome vem do chapéu com pena, “hood”, e não de “bosque”, “wood”): Robin é um arqueiro que acompanhara o rei Ricardo nas Cruzadas e que, depois da morte deste em 1199, no cerco do castelo de Châlus (no Limousin), regressa a Inglaterra e acaba por vestir a pele do filho de Sir Walter Loxley, Robert, e por ficar com a viúva deste, Lady Marion, tornando-se assim num abastado proprietário de Nottingham. Em pano de fundo, a guerra dos barões do Norte contra o novo rei João Sem-Terra e a rivalidade entre os monarcas de França (Filipe Augusto) e de Inglaterra (sobretudo a disputa pelo ducado da Normandia), bem aproveitada pelos barões para impor a João um documento que este acaba depois por renegar, levando à deserção para Sherwood.A personagem Robin Hood tem algum pedigree. Remete para um poema épico do século XIII e para uma compilação de c.1400 onde se reuniram velhas tradições orais que relacionavam o Robin com a resistência à cobrança abusiva de impostos e com a actividade criminal no Yorkshire. Sabe-se também que os Normandos conquistaram a Inglaterra em 1066, o que viria a dar origem à dinastia dos Plantagenetas, iniciada por Henrique II. Este herdou dos pais vastos territórios em França e casou com Leonor da Aquitânia (ex-rainha de França) antes de se tornar rei de Inglaterra em 1154. Ora, Henrique e Leonor são os pais de Ricardo Coração-de-Leão. Trata-se de reis de Inglaterra mas que vivem sobretudo em França. Em 10 anos de reinado, Ricardo viveu apenas seis meses em Inglaterra! Quando partiu para a Cruzada, vendeu imensos cargos e disse até que teria vendido Londres se tivesse tido comprador… No regresso, foi preso pelo duque da Áustria e vendido ao imperador germânico, tendo então de pagar um resgate brutal que acabrunhou a Inglaterra. Mas reagiu e dispôs-se a enfrentar Filipe Augusto, recusando-lhe a Normandia e tentando manter os castelos que controlavam o acesso ao sul da França (como Châlus). Morreu de uma seta perdida, num cerco. À sua morte, o irmão João assumiu o trono, com a protecção da mãe. Ricardo, graças ao extraordinário administrador Hubert Walter (arcebispo da Cantuária), deixara-lhes uma máquina governativa poderosa e centralizada que não agradava aos barões. Para mais, os grandes tinham tido de pagar um quarto das suas rendas e bens para financiar o resgate de Ricardo! A revolta estalou, com o apoio de Filipe Augusto de França, através do seu herdeiro Luís. João Sem-Terra desposou Isabel de Angoulême para tentar manter a política de Ricardo no Limousin, mas o seu talento militar era fraco e o seu partido seria derrotado por Filipe em Bouvines, em 1214. No ano seguinte, os barões ingleses tomaram Londres e impuseram-lhe um compromisso: a célebre Magna Carta. João fingiu aceitar mas negociou com o Papa, que a invalidou. Aí, os barões ofereceram o trono inglês a Luís de França, que invadiu a Ilha em 1216 e foi reconhecido como monarca pelos grandes e pelo rei escocês. João morreu logo a seguir. Caberia ao notável regente Guilherme-o-Marechal negociar uma nova versão da Carta e salvaguardar a soberania da Inglaterra.É neste cenário que se movimenta Robin Hood, o homem por trás da flecha. Ele é um dos “northeners” prejudicados pelas exacções fiscais impostas desde o tempo de Ricardo e pela centralização do poder régio. A sua luta não consiste em roubar os ricos para dar aos pobres, mas em minar a autoridade central. Se os barões ingleses negoceiam com a França, é porque os dois reinos estavam unidos por valiosos laços comuns. A própria língua (o anglo-normando) o denuncia. Só após a Guerra dos Cem Anos (1453) as águas ficaram separadas. Assim, João Sem-Terra não é o vilão que julgamos. Nem Ricardo o justiceiro que ama a Inglaterra (onde quase nunca esteve) e os seus súbditos. Ridley Scott, apesar de ter aproveitado muita História, não explorou tudo isto, nem quis estragar o cor-de-rosa de uma lenda centenária. Fez bem: afinal, a ficção costuma ser bem mais agradável do que a realidade… João Gouveia Monteiro (Historiador)
June 11 2010, 3:33pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"CORJA MALDITA" DE ALMEIDA VIEIRA
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Nem lembraria ao diabo que um escritor português fizesse passar uma obra sua por uma obra dele. Mas foi o que lembrou a Pedro Almeida Vieira, autor de aplaudidos romances históricos (“Nove Mil Passos”, 2004; “O Profeta do Castigo Divino”, 2005; e “A Mão Esquerda de Deus”, 2009; todos do prelo da Porto Editora, o último com reedição na Sextante do grupo Porto Editora). Tenho dois exemplares diferentes da mais recente obra dele (ou do diabo, que é, de facto, o narrador), “Corja Maldita” (Sextante, 2010): um deles tem a marca tridentina do demónio, distinguindo-se ainda por apresentar duas folhas rasgadas. A outra possui essas duas folhas, uma das quais é uma autorização à moda do século XVIII. A primeira, bastante rara, só pode ser autografada pelo autor na folha final e não, como é costume, no início.A expressão “Corja maldita” é um dos vários insultos que foram proferidos contra os jesuítas no século do iluminismo. O mafarrico conta a história da expulsão dos jesuítas que se deu em Portugal a 3 de Setembro de 1759, por ordem do Marquês de Pombal, que quatro anos depois ocorreu na França e nove anos depois também na Espanha, para finalmente ser alargada a todo o mundo cristão com a extinção da ordem criado por Santo Inácio de Loiola em 1773 pelo papa Clemente XIV. A data do decreto pombalino de expulsão não foi escolhida por acaso: passava um exacto ano após o atentado ao rei D. José, cuja responsabilidade moral foi atribuída aos jesuítas. A meio desse intervalo de um ano, teve lugar a tortura e execução públicas do duque de Aveiro, do conde de Atouguia e da família dos Távoras, em Belém (no livro, o diabo conta como foi, com pormenores tão realistas como horripilantes). E, na véspera dessa execução, foi preso o padre jesuíta Gabriel Malagrida, que haveria de ser executado por garrote em 21 de Setembro de 1761, num auto-de-fé no Rossio, sendo queimado na fogueira da Inquisição. Ele era culpado de ter dito que o grande terramoto de Lisboa em 1755 tinha sido “castigo divino”. Aliás, o romance anterior de Pedro Almeida Vieira, para o qual o mais recente remete, conta a história atribulada desse padre italiano que, depois de andar pelo Brasil, teve o azar de ser a última vítima da fogueira do Santo Ofício. O caso correu a Europa e levou Voltaire a dizer que “um excesso ridículo e absurdo junto ao excesso de horror”.O novo romance histórico distingue-se dos anteriores do mesmo autor por ter, na forma, maior dose de imaginação, mantendo-se o conteúdo fidelíssimo aos factos. Almeida Vieira tem estudado o século XVIII e os seus escritos denotam um bom conhecimento do período. Além de romance histórico, a omnipresença de Satanás, que em interlúdios dialoga com a alma penada do padre Malagrida (o qual esgota o rol de nomes do diabo que vem no dicionário Houaiss!), torna-o uma peça de literatura fantástica, para além de, talvez acima de tudo, ser um escrito satírico-humorístico, uma paródia literária que também assume o género jornalístico uma vez que o autor, com a ajuda de um “wormhole”, é enviado ao século XVIII para fazer a cobertura em directo dos acontecimentos e escreve artigos que, no estilo, são perfeitamente modernos. Assina peças com o seu próprio nome e com engraçados nomes que são anagramas do seu, Mário Ladeira Pevide e Valério Piedade Mira. Por seu lado, Belzebu, porque viaja com facilidade no tempo e no espaço, consegue dar uma pincelada rápida da nossa situação política actual, comparando em linguagem barroca a marcha vagarosa e cheia de solavancos da carruagem do Marquês por estradas alentejanas a essa carruagem que é Portugal na via do progresso. Vale a pena ler um excerto aqui.Quem foi, de facto, o Marquês de Pombal? Agustina Bessa-Luís foi autora de uma biografia literária do Marquês “Sebastião José” (Imprensa Nacional, 1981), onde descreve assim o personagem:“Devia ser homem paciente, como são os que aspiram longe, ou ao céu ou ao poder, que é o céu aos quadradinhos. Não era um santo, Sebastião José. Mas não era medonho como às vezes querem mostrar. (...) Não é possível exercer o poder sem que a crueldade intervenha como uma espécie de elixir da longa vida. Ela tem razões para fazer durar o que parece efémero, e que é o poder dos homens”.Se os romancistas tentam descrever e interpretar o primeiro-ministro de D. José (e, com isso, perceber melhor a nossa actualidade), o mesmo acontece, embora evidentemente com menor liberalidade, com os historiadores. O historiador britânico Kenneth Maxwell juntou ao título do seu livro “Marquês de Pombal” (Presença, 2001) o subtítulo “Paradoxo do Iluminismo”. Descreve os feitos do Marquês. Mas não deixa de incluir a descrição do Marquês antes de ele o ser, feita pelo embaixador britânico em Lisboa nos últimos anos do reinado de D. João V, deixando-nos dúvidas sobre se ele era, de facto, iluminado:“É uma pobre cabeça de Coimbra como nunca vi outra; sendo tão teimoso, tão obtuso, tem a verdadeira qualidade do asno(...) Só devo dizer que um pequeno génio que tem o intelecto para ser grande génio em um país pequeno é um animal muito difícil.” Certo é que o Marquês reconstituiu Lisboa, perante a inacção de um rei escondido numa barraca, e reformou a Universidade de Coimbra, por onde ele passou fugazmente como estudante, perante alguma degradação do ensino jesuítico (muito exagerada nos documentos da reforma). Essas marcas ficaram. Mas não menos certo é que, graças ao controlo da Inquisição e da Real Mesa Censória, os livros de Voltaire e de Locke eram proibidos em Portugal no século das luzes. Em contraponto, a auto-propaganda do Marquês foi imensa. O país conservou, em muitos aspectos, as luzes apagadas, e essas marcas também ficaram.É, por isso, muito difícil - e, além do mais, redutor - dizer quem são os bons e os maus nesta guerra entre o Marquês e os jesuítas. Passados 250 anos após a expulsão dos jesuítas, as feridas não estão saradas pois uma revista dos jesuítas comparava, há poucos anos, os métodos do Marquês com os que foram usados por Estaline e por Hitler. O recente romance do talentoso Almeida Vieira, escritor nascido em Coimbra (e formado em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora, que foi outrora dos jesuítas), lê-se muito bem e é mais uma contribuição, sob uma forma nada convencional, para a análise de um período histórico em que Portugal, para o bem e para o mal, foi singular no mundo.
June 4 2010, 5:24am | Comments »









