Minha crónica no "Público" de hoje:Um livro é um objecto com um design tão perfeito que nunca poderá ser inteiramente substituído. Também a roda, uma vez inventada, nunca mais foi substituída. O livro cabe na mão, acompanha-nos a qualquer lado, não necessita de electricidade, nunca avaria. Passa bem de uma mão para a outra, quer dizer, é um bom presente para oferecer. Damos um livro bom a alguém de quem gostamos e damos um livro muito bom a alguém de quem gostamos muito. Por alguma razão não houve ainda nos livros, nem provavelmente vai haver, a revolução que houve na música, com a brutal diminuição das lojas de discos em favor das descargas digitais.Os livros estão no Parque Eduardo VII, em Lisboa, até 16 de Maio e, a partir de 27 de Maio, estarão nos Aliados, no Porto. Como vem sendo habitual, deixo, à guisa de sugestão, uma lista de uma mão cheia de livros recentemente saídos entre nós (a ordem é alfabética de autor):- Mário de Carvalho, A Arte de Morrer Longe, Caminho. Novo livro de um dos romancistas que melhor observam a nossa contemporaneidade. O país em que os funcionários, em vez de funcionarem, se entretêm na Internet fica retratado através da criação de um personagem que “aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem”, escrevendo coisas como “Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!!!”.- Eugénia Cunha, Como nos tornámos humanos, Imprensa da Universidade de Coimbra. A conhecida antropóloga forense, a quem ainda não deixaram examinar o esqueleto de D. Afonso Henriques, descreve a evolução humana numa colecção de livros de bolso populares inspirada na Que Sais-Je?. Num recente debate sobre a história da vida na Terra, depois de paleontólogos terem exibido ossos de animais desaparecidos, a antropóloga comentou que não precisava de trazer materiais, pois havia exemplares da espécie humana na plateia...- Bernard Cornwell, Sharpe e a Batalha do Buçaco, 5.ª edição, Planeta. A 1.ª edição portuguesa deste romance histórico é de há cinco anos, mas esta edição vem mesmo a propósito do bicentenário da batalha do Buçaco, que se vai comemorar a 27 de Setembro. O romancista inglês narra as aventuras do capitão Sharpe, a combater às ordens de Wellington (ainda hoje se pode ver no Buçaco a oliveira onde esteve preso o cavalo do general). O leitor pode inteirar-se neste livro do saque francês a Coimbra, com mais de um milhar de mortos, o assalto à Universidade e a profanação dos túmulos reais.- Joaquim Fernandes, Mitos, Mundos e Medos. O céu na poesia portuguesa da tradição popular ao século XX, Temas e Debates/ Círculo de Leitores. O jornalista e historiador portuense, após um prefácio do poeta Manuel António Pina sobre as relações entre ciência e poesia, passa em revista a produção poética nacional de temática astronómica, desde tempos imemoriais até ao “cometa da República”, o Halley, que surgiu nos céus em Maio de 1910, pouco antes do 5 de Outubro.- Eduardo Marçal Grilo, Se não estudas, estás tramado, Tinta da China. De um prelo que se tem notabilizado pela qualidade gráfica das suas edições, eis um novo livro do ex-ministro da Educação que se distinguiu pela sua invectiva contra o “eduquês”(“Deixem de falar eduquês!”). Custa-nos hoje a crer que o “eduquês”, não só uma linguagem mas também e sobretudo uma ideologia, tenha continuado a arruinar a educação nacional sob a égide de um homem da educação e da cultura tão esclarecido e crítico.- Ian McEwan, Solar, Gradiva. O último romance do consagrado autor inglês versa o tema do aquecimento global. Num registo irónico, enreda o leitor na tragicomédia de um Prémio Nobel da Física que de certa forma representa uma humanidade desenfreadamente consumista.- Silvan Schweber, Einstein & Oppenheimer. O Significado do Génio. Bizâncio.Um historiador de ciência norte-americano compara dois grandes génios do século passado que estiveram relacionados com a proposta e construção da bomba atómica. Um confessou arrependido “fui eu que carreguei no botão” e o outro afirmou amargurado “os físicos conheceram o pecado”.Boas leituras!
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LIVROS NO PARQUE
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May 6 2010, 6:50pm | Comments »
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O cometa da República
http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/o-cometa-da-republica.html
Informação recebida da Temas e Debates:Não é mais um livro; é o livro que esperou um século para ser escrito. Investigação singular para um acontecimento singular, reveladora da nossa vulnerabilidade face ao espaço cósmico, esta obra revela às presentes gerações de que modo os nossos medos ancestrais determinam os nossos comportamentos extremos quando está em causa a sobrevivência. Em 1910 como no futuro.ConviteO Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de convidar para apresentação do livro Halley-O Cometa da República, da autoria de Joaquim Fernandes, que se realiza no dia 18 de Maio, às 18.30 horas, na Livraria Bertrand, na Rua Garrett, 73-75, (no Chiado, em Lisboa).O livro será apresentado por Joaquim Vieira, director do Observatório de Imprensa,e Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.Da contra-capa da obra:O pânico da passagem do cometa de Halley em PortugalCelebrando-se em 2010 o Centenário da instauração da República em Portugal, decorre também um século sobre o maior evento de medo colectivo vivido pela população portuguesa no decurso da sua História.São expostos os nexos e fortuitas relações - acasos e coincidências inscritos na história da Astronomia - entre ambos os acontecimentos ocorridos nesse mesmo ano: cerca de cinco meses depois da sua passagem próxima da Terra, em Maio, o cometa de Halley viria a ser lembrado como uma espécie de mensageiro, anunciador da primeira mudança de regime político em Portugal desde a fundação da nacionalidade.Por tal motivo, o mais popular cometa da História humana pode ser etiquetado pelo inconsciente colectivo nacional como "o cometa da República".Muitos dos temas que emergiram na sociedade portuguesa, a pretexto da aproximação do tão temido cometa, foram usados como arma ideológica pelos republicanos contra os suportes sociais, mentais e religiosos da Monarquia.As fragilidades mentais do Portugal profundo, inseguro e supersticioso, vieram ao de cima, em todo o seu esplendor trágico e cómico. Como nos grandes dramas clássicos ou da antecipação científica, a sociedade portuguesa viveu, de facto, o transe de uma noite de "fim do mundo" !
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May 4 2010, 3:32pm | Comments »
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O cometa da REpública
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Informação recebida da Temas e Debates:Não é mais um livro; é o livro que esperou um século para ser escrito. Investigação singular para um acontecimento singular, reveladora da nossa vulnerabilidade face ao espaço cósmico, esta obra revela às presentes gerações de que modo os nossos medos ancestrais determinam os nossos comportamentos extremos quando está em causa a sobrevivência. Em 1910 como no futuro.ConviteO Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de convidar para apresentação do livro Halley-O Cometa da República, da autoria de Joaquim Fernandes, que se realiza no dia 18 de Maio, às 18.30 horas, na Livraria Bertrand, na Rua Garrett, 73-75, (no Chiado, em Lisboa).O livro será apresentado por Joaquim Vieira, director do Observatório de Imprensa,e Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.Da contra-capa da obra:O pânico da passagem do cometa de Halley em PortugalCelebrando-se em 2010 o Centenário da instauração da República em Portugal, decorre também um século sobre o maior evento de medo colectivo vivido pela população portuguesa no decurso da sua História.São expostos os nexos e fortuitas relações - acasos e coincidências inscritos na história da Astronomia - entre ambos os acontecimentos ocorridos nesse mesmo ano: cerca de cinco meses depois da sua passagem próxima da Terra, em Maio, o cometa de Halley viria a ser lembrado como uma espécie de mensageiro, anunciador da primeira mudança de regime político em Portugal desde a fundação da nacionalidade.Por tal motivo, o mais popular cometa da História humana pode ser etiquetado pelo inconsciente colectivo nacional como "o cometa da República".Muitos dos temas que emergiram na sociedade portuguesa, a pretexto da aproximação do tão temido cometa, foram usados como arma ideológica pelos republicanos contra os suportes sociais, mentais e religiosos da Monarquia.As fragilidades mentais do Portugal profundo, inseguro e supersticioso, vieram ao de cima, em todo o seu esplendor trágico e cómico. Como nos grandes dramas clássicos ou da antecipação científica, a sociedade portuguesa viveu, de facto, o transe de uma noite de "fim do mundo" !
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May 2 2010, 4:41am | Comments »
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Vem recriar a tua interpretação de forma lúdico-pedagógica
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/vem-recriar-tua-interpretacao-de-forma.html
No dia 10 de Junho próximo, a revista Forúm Estudante comemora, pela primeira vez, o Dia da História, o que se traduz num concurso nacional dirigido a alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Essa iniciativa, que decorre durante todo o dia, terá por cenário o Castelo de S. Jorge, em Lisboa. Se o leitor estiver a par do modo como é (mal)tratada a História nos sistemas educativos ocidentais, não poderá deixar de pensar: excelente iniciativa e excelente sítio!O sítio é, na verdade, excelente, mas a inciativa... Explico o que justifica as minhas reticências, tomando a liberdade de sublinhar algumas expressões contestáveis:"Vem recriar a História de Portugal. Com a tua Escola, escolhe um facto da nossa História e através do teatro, da música, da dança ou da internet, vem apresentar a tua interpretação..."... "tem por objectivo proporcionar um aprofundamento do conhecimento da História de Portugal, de forma lúdico-pedagógica e em clima de festa."Considero que se trata de expressões que podem desencadear equívocos por parte dos alunos, o que se deveria pugnar por não acontecer. Explico: .Por um lado, é possível os alunos entenderem que, não obstante a sua condição de aprendizes, podem, com legitimidade, fazer, ter e apresentar publicamente "a sua interpretação" de factos históricos. Ora, a interpretação de factos históricos deve estar reservada aos especialistas que, em virtude de os terem estudo e de, por isso, os conhecerem a fundo, têm legitimidade para se pronunciarem interpretativamente acerca dos mesmos. Logo, quem dá os primeiros passos no conhecimento dos factos históricos deve, neste tipo de circunstância, representá-los; não recriá-los segundo a sua versão. Dar-lhes a entender o contrário é enganá-los ou enganarmo-nos..Por outro lado, o lúdico e o pedagógico têm um lugar distinto, ainda que fundamental, na vida dos jovens. O lúdico não é suportado, nem tem de ser, em conhecimento científico; o pedagógico não pode deixar de o ser..Neste passo, devemos perguntar quem apoia esta iniciativa? Quem a apoia é o Ministério da Educação através da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular; a Câmara Municipal de Lisboa através dos pelouro da Cultura e Turismo e da Educação e Juventude); do Castelo de S. Jorge; a Associação de Professores de História e o Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica Portuguesa. .A sociedade portuguesa, portanto!.Para mais informações sobre o assunto pode consultar o sítio da DGIDC.
April 28 2010, 12:52pm | Comments »
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UM FALSO CAMÕES
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Minha crónica no Público de hoje:“Os filósofos grandes, com ciênciaE incansável indústria, que alcançara,Das coisas naturais a própria essência,E todas altamente especularam,Nenhuma de mais alta arte e excelênciaEntre todas, que o corpo humano, acharam:De forma, e de matéria um só compostoCom tamanho primor feito e composto.”No ano de 1615, saía em Lisboa do prelo de Pedro Craesbeck (um tipógrafo que tinha vindo de Antuérpia em fuga às guerras religiosas) o poema Da criação e da composição do homem, atribuído ao “grande Luís de Camões, Príncipe da poesia heróica”. Mas era um falso Camões, por muito camoniana que pareça a oitava de decassílabos heróicos transcrita em cima (actualizou-se a grafia), extraída do segundo dos três cantos em que o poema se divide.Houve logo quem percebesse que se tratava de um apócrifo pois a própria primeira edição o revelava no prólogo. Mas, talvez porque o nome de Camões fosse um chamariz, o certo é que a confusão persistiu durante mais de dois séculos. Só em 1861 foi posta à venda uma edição, incompleta pois nem frontispício tinha (de facto, não passava de umas meras provas), contendo o título verdadeiro: Microcosmosmografia e descrição do mundo pequeno que é o homem. Mas quem é o autor que durante tantos anos foi tomado pelo nosso maior vate?Acaba de ser publicado pela Colibri o livro Obras de André Falcão de Resende, numa edição crítica da italiana Barbara Spaggiari. Trata-se de um portentoso trabalho, que exigiu muitos anos de investigação minuciosa. Falcão de Resende foi não só contemporâneo de Camões como seu amigo e admirador. Nasceu em Évora, em 1527, e faleceu em Lisboa, em 1599. Curiosamente, Filipe II, o rei de Portugal e de Espanha, nasceu no mesmo ano que ele e morreu apenas um ano antes. O último poema de Falcão de Resende, que, tal como tantos outros intelectuais da época, defendeu o monarca dual, data precisamente de 1598 e, por ironia mórbida, glosa o tema da peste, que na altura assolou a Península, e que só em Portugal causou cerca de oitenta mil mortos, incluindo o próprio poeta.Falcão de Resende inspirou-se decerto em Camões para escrever a Microcosmografia, que um crítico considerou um “poema alegórico anatómico-cirúrgico” pois toma o corpo humano como imagem de todo o cosmos. Camões já tinha usado o corpo como metáfora geográfica (“Eis aqui quase cume da cabeça/ de Europa toda o Reino lusitano”), mas o seu amigo de Évora, um dos poucos que em vida lhe reconheceram o génio, foi mais longe na escala física, embora sem a mesma qualidade literária. Os dois foram grandes humanistas, tal como o tio do segundo, Garcia de Resende, o bem conhecido compilador do Cancioneiro Geral.Falcão de Resende, tendo seguido uma carreira eclesiástica, chegou a capelão do Cardeal D. Henrique, mas abdicou dela para casar e ter vários filhos (nenhum dos quais lhe sobreviveu). Já quarentão, voltou aos bancos da Universidade de Coimbra para cursar Cânones e conseguir chegar a juiz de fora em Torres Vedras. Foi aí que, em 1589, assistiu à passagem do corsário Sir Francis Drake, desembarcado em Peniche (com uma facilidade que originou a expressão “amigos de Peniche”), na tentativa frustada de ajudar o Prior do Crato a tomar Lisboa. O livro agora publicado está, contudo, amputado de parte de uma pormenorizada descrição dessa invasão inglesa... Em 1800, numa farmácia de Guimarães, o manuscrito apógrafo feito por um anónimo para reunir toda a obra de Falcão de Resende, logo após a morte deste, foi, por um incrível acaso, resgatado de embrulhar pós medicinais, quando um cliente reparou que era um pedaço da história de Portugal que estava a ser rasgado. Está desde então à guarda da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, à espera que um mecenas permita o necessário restauro (existe um fac-simile digital na Web). Foi a esse manuscrito e a uma cópia oitocentista dele, devida a um revisor da Imprensa da Universidade, o Sr. Freitas, que a Prof.ª Spaggiari dedicou uma boa parte da sua vida, para nossa ilustração e proveito. Muito obrigado!
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April 9 2010, 2:34am | Comments »
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OPPENHEIMER E A LIDERANÇA DO PROJECTO MANHATTAN
http://dererummundi.blogspot.com/2010/03/oppenheimer-e-lideranca-do-projecto.html
Do livro recentemente saído na Editorial Bizâncio "Einstein e Oppenheimer - o significado do génio" de Silvan Schweber, transcrevemos um excerto sobre a liderança do projecto Manhattan, em Los Alamos, que conduziu à construção das primeiras bombas atómicas:"As recordações de muitos dos físicos que participaram no tempo de guerra no projecto de Los Alamos transmitem a sensação de que, em retrospectiva, encaravam essa experiência como se se tivesse tratado de uma utopia. Tinham acreditado que se encontravam numa corrida frenética para salvar as democracias ocidentais da possibilidade de a Alemanha nazi obter primeiro uma tal arma, visto que os trabalhos lá tinham começado dois anos antes. Sabiam estar envolvidos num empreendimento que, se bem-sucedido, mudaria o curso das relações humanas. E, após o teste Trinity, a primeira explosão nuclear da Historia, esperavam que as bombas atómicas assegurassem uma paz duradoura. A explosão teve lugar a 16 de Junho de 1945 em Alamogordo, na Jornada del Muerto, uma faixa de 140 quilómetros de deserto na região central do Novo México. Oppenheimer foi o autor do nome do teste, Trinity. Mais tarde, recordou-se vagamente de ter em mente, na altura, o poema de John Donne que começava por “Batter my heart, three-person’d God”. Mas alguns sugerem que terá escolhido o nome tendo presente a trindade divina hindu de Brahma (o Criador), Vixnu (o Preservador) e Xiva (o Destruidor).Los Alamos foi algo de único pela enorme concentração de indivíduos de primeira categoria que demonstraram o que se podia conseguir trabalhando em conjunto com objectivos muito bem definidos. Tratou-se, na verdade, de uma colaboração sem paralelo na sua intensidade, uma tarefa de cooperação levada a cabo por pessoas fora de série que se lhe entregaram totalmente e com a maior determinação, consagrando-lhe as suas ideias, experiência e energia de forma consumada, livre e altruísta. A intensidade com que se entregaram resultou num esforço total muito superior a soma das partes. E todos partilharam o crédito pelos resultados obtidos.Embora nem todos partilhassem o estado de espírito de exaltação que permeara Los Alamos, e que Bethe e Rabi descreveram nos seus elogios a Oppenheimer, tornou-se claro apos o teste Trinity que, sem a direcção magistral de Oppenheimer, Los Alamos poderia não ter produzido bombas atómicas a tempo de serem utilizadas no Japão. Daqui decorre pois que o crédito que recebeu foi bem justificado, mas também que carregou sobre os seus ombros uma responsabilidade maior pelas consequências da criação destas armas — e, consequentemente, porventura também um fardo de culpa maior. Embora geograficamente isolado — e talvez devido a esse isolamento—, Los Alamos criou aquela situação rara nas vidas dos indivíduos e das comunidades em que há um sentimento de ligação a algo de muito superior a si próprios. Durante os poucos anos que aí passaram, muitas dessas pessoas — e em particular muitos dos físicos — sentiram-se totalmente preenchidos. Na verdade, uma atmosfera de realização total permeou todo o empreendimento, transformando-o numa espécie de acto magico e consagrando-o nas mentes dos que ai estiveram.Oppenheimer — em grande medida responsável pela criação desta sensação de realização e pela sua manutenção ate a conclusão do projecto— personificou a integração dos aspectos multifacetados do empreendimento: o teórico e o experimental, o mundano e o idealista, o individual, a comunidade e a nação. Thorpe, na sua magistral biografia sociológica de Oppenheimer, deixou bem clara a dinâmica na construção da complexa organização de Los Alamos e a modelação simultanea do papel e autoridade de Oppenheimer como seu director carismático. Tratou-se de um processo recursivo. A ordem organizacional, a atribuição de autoridade, o papel e identidade carismáticos de Oppenheimer foram propriedade emergentes das interacções sociais e profissionais de cientistas, técnicos, militares e todas as outras pessoas reunidas para executar a missão militar de construir a bomba atómica, e da interacção de Oppenheimer com todos eles. Thorpe realça os papeis complementares de Oppenheimer e Groves em Los Alamos e a natureza do relacionamento e interacções que mantiveram. Groves era, de facto, a pessoa a frente do projecto; toda a autoridade emanava dele. Mas, não obstante o seu próprio estilo militar de gestão, autoritário e intimidativo, e as severas restrições impostas à circulação da informação, Groves deu apoio ao estilo de liderança de Oppenheimer, com a sua ausência de coerção, a sua preferência pelo consenso, as suas tentativas de defender as normas académicas e a abertura, bem como o seu propósito de criar a maior colegialidade possível entre todos os cientistas, engenheiros e técnicos, de harmonia com a estrutura hierárquica e orientada para a missão do laboratório.Groves fê-lo por ter percebido que a lealdade do pessoal civil relativamente a Oppenheimer os estimulava a trabalhar na bomba e a respeitar a sua (de Groves) própria autoridade. Oppenheimer emergiu como o líder, aceite e admirado por todos, do projecto da bomba atómica devido a sua capacidade para dominar e manter sob foco permanentetodos os aspectos do empreendimento. Isto granjeou-lhe admiração e respeito dos chefes de divisão e de grupo sob a sua alçada, e também a admiração e respeito de Groves. Esta mestria permitiu-lhe gerar discussões frutuosas e imprimir coesão ao processo de tomadade decisões. Oppenheimer possuía uma capacidade sem paralelo de encontrar o máximo denominador comum entre pontos de vista opostos, de formas que pareciam resolver os conflitos. Foi o “conhecimento sintético de Oppenheimer, juntamente com a percepção das suas qualidades morais, [que] lhe permitiram reconciliar partes desavindas, e o tornaram o porta-voz “natural” de um consenso subjacente, embora ainda não concretizado” (Thorpe, 2006). É, portanto, um erro atribuir o êxito de Los Alamos exclusivamente a Oppenheimer. Do mesmo modo que responder “maestro” à questão “O que determina um grande agrupamento musical?” implica um erro de atribuição do líder, o mesmo se aplica a Los Alamos.(...) O êxito de Los Alamos deveu-se ao facto de se ter podido reunir as seguintes condições:1. Nas suas diversas divisões, pontuavam indivíduos com um impressionante domínio das competências tecnicas necessarias. O laboratório era constituído por sete divisões, cada uma das quais com tarefas bem definidas. Cada uma destas era responsável pela produção de resultados verificáveis, em relação aos quais os seus membros assumiam responsabilidade colectiva.2. Todo o empreendimento estava animado de um propósito mobilizador.3. As várias divisões operavam num contexto organizacional bem definido. Além disso, a sua estrutura, e a dos grupos que as integravam, era estimulante: o processo de execução das tarefas optimizava a capacidade dos membros individuais para trabalharem juntos de forma interdependente. Mais do que isso, a experiência de grupo contribuía para o crescimento e bem-estar pessoal dos seus membros.4. Existia um contexto organizacional que proporcionava um grande apoio a todos os membros: recursos fundamentalmente ilimitados eram canalizados para o projecto. Além disso, a possibilidade de requisitar os materiais e recursos humanos necessários a cada momento — pelo facto de o general Leslie R. Groves estar a frente da operação — possibilitava a manutenção do calendário e um ajuste no tempo muito exigente para o projecto."
March 31 2010, 7:43am | Comments »
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António Ribeiro dos santos e as Bibliotecas
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Texto recebido da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra sobre o pensamento do bibliotecário António Ribeiro dos Santos, que se encon tra contemplado na exposição "A Causa Pública da Biblioteca" que está patente na Sala de S. Pedro daquela Biblioteca até 31 de Março:“Uma livraria é sempre, pelo menos, o espelho das curiosidades de espírito de quem a organiza e dispõe” (Joaquim de Carvalho, Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI, vol. 2, 1948, p.124)Em 9 de Outubro de 1777, António Ribeiro dos Santos foi nomeado por Carta Régia Rainha D. Maria I bibliotecário da Biblioteca da Universidade de Coimbra, onde era professor desde o seu doutoramento, em 1771:“Reverendo Bispo de Zenopole, do Meu Conselho, Reformador Reitor da Universidade de Coimbra: EU a RAINHA vos invio muita saudar. Sendo-me prezente a necessidade, que para fomentar, e facilitar os progressos dos Estudos da mesma Universidade, ha de que se faça patente a Biblioteca della; e que nella haja hum Bibliotecario, que a dirija, e a cujo Cargo esteja a boa Conservação, e Custodia della: E sendo outrosim informada em conta vossa da capacidade e prestimo que para o dito Emprego ha no Doutor Antonio Ribeiro dos Santos Collegial do Real Collegio das Ordens Militares: Sou Servida que mandeis pôr patente a referida Biblioteca, para se conseguir com o uzo della o fim a que he destinada: E Hey por bem Nomear para Bibliotecário o sobredito Doutor Antonio Ribeiro dos Santos com o Ordenado de Duzentos mil reis cada anno, que lhe serão pagos aos quarteis pela Folha Literaria com vencimento do primeiro do corrente mez de Outubro, emquanto Eu assim houver por bem, e não mandar o contrario. O que Me pareceu participar vos para que assim o façais executar com os Despachos necessarios: Fazendo registar esta nos Livros da Universidade, e da Junta da Fazenda, a que tocar. Escripta no Palacio de Queluz em nove de Outubro de mil setecentos setenta e sete. RAINHA”Tinha Ribeiro dos Santos então 32 anos, o Rei D. José falecera em Fevereiro desse mesmo ano. Iniciando-se a Viradeira a 13 de Março, com a substituição do Marquês de Pombal e a procura de novos caminhos para o desenvolvimento do país. Na Universidade de Coimbra, contudo, mantinha-se como reitor D. Francisco de Lemos, nomeado em 1772 pelo Marquês.No que se refere especificamente à forma como Ribeiro dos Santos pensava a organização da Biblioteca e aos fins que esta devia prosseguir, são de especial relevância três pontos:1) O reforço da biblioteca como serviço público, aberto a todos os interessados, e patente na qualidade do atendimento prestado aos seus leitores, objecto de particular atenção na Minuta, bem como no estabelecimento de um horário de funcionamento muito alargado, com o cuidado de especificar a necessidade de a Biblioteca estar aberta todos os dias, excepto Dias Santos de Guarda, Sábados de tarde e os dois meses de férias – Agosto e Setembro. De referir também, neste ponto, a sua disposição de actualização permanente da Biblioteca, através da aquisição de obras actuais, portuguesas ou estrangeiras, com especial menção às publicações periódicas, com a existência de um orçamento próprio, gerido directamente pelo Bibliotecário Maior, bem como a necessidade de que a Biblioteca recebesse um exemplar de cada um dos Livros que se imprimirem nestes Reinos – um anúncio antecipado do que viria a ser o Depósito Legal.2) A importância dada ao saber específico da biblioteconomia revela-se tanto no cuidado e na extensão com que se refere à elaboração de catálogos e sua impressão como na necessidade de organização e classificação de livros e demais objectos, quer ainda na forma como redige as regras a que deve obedecer o concurso para Bibliotecário Maior, onde diz claramente que ”concorrendo algum dos dois Bibliotecários Menores, em que se achem em igual grau as sobreditas qualidades, será preferido a todos os outros concorrentes de qualquer ordem, e graduação, que sejam, posto que não tenha Recebido Grau algum Académico”. 3)Também em reforço deste ponto vem a regra que impede quer o Bibliotecário Maior, quer os Bibliotecários Menores, de servirem Colégio, ou corporação secular ou regular. Ou seja, tinham de se dedicar por inteiro à Biblioteca, de forma a conhecê-la e a desenvolver esse saber específico que se veio a chamar biblioteconomia.Outro aspecto do pensamento de Ribeiro dos Santos, reforçando o papel e a boa qualidade do serviço público da Biblioteca, prende-se com a sua visão pedagógica e revela-se na forma como pretende integrar nela não apenas os livros, mas todo um conjunto de peças que permitam, a quem as observa e em conjugação com o saber contido nos livros, uma melhor aprendizagem e entendimento do que estuda e investiga. Este ponto vem claramente enquadrado pelo espírito da Reforma Pombalina da Universidade, procurando integrar e dar significado e sentido a um novo conjunto de saberes e de formas de ensinar e aprender.Do manuscrito de Ribeiro dos Santos Minuta para o Regimento da Livraria da Universidade de Coimbra, elaborado entre 1770 e 1796, quando foi Bibliotecário-Mór (ou Maior) desta Biblioteca, destaca-se a frase:“que todas as pessoas, que entrarem nela Sejam Recebidos e servidos com muita prontidão com muito decoro, e com todo o agasalho, e cortesia.”
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March 28 2010, 3:21pm | Comments »
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Mentiras da história
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Informação recebida da editora Temas e Debates / Círculo de Leitores: Mentiras da História de David AaronovitchEdição: 2010Páginas: 455Editor: Temas e DebatesISBN: 978989644089324,50€ Sinopse A nossa época vive obcecada pela ideia da conspiração. Vemo-la em todo o lado, de Pearl Harbor ao 11 de Setembro, das purgas de Estaline ao assassínio de John Kennedy, da morte de Marilyn Monroe à da princesa Diana. Perde-se a conta ao número de livros que se dedicam a provar inúmeras teorias da conspiração, e nem mesmo os jornais e canais televisivos sérios resistem a dar-lhes algum crédito.David Aaronovitch demonstra que as teorias da conspiração utilizam métodos semelhantes para reclamarem a sua veracidade: estabelecem ligações com as supostas conspirações do passado (se aconteceu no passado, também pode voltar a acontecer); manipulam cuidadosamente as provas para esconder as suas falhas; e sustentam-nas com fontes académicas duvidosas. Mas o mais importante é que classificam os seus seguidores como membros de uma elite - um grupo de pessoas com a aptidão de ver para além da realidade aparente...
March 20 2010, 5:07am | Comments »
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BISSAYA BARRETO E A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA
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Informação recebida da Fundação Byssaia Barreto:Acervo do Centro Documental Byssaia Barreto em mais uma exposição documental.A FUNDAÇÃO BISSAYA BARRETO NAS COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA18 MARÇO 2010 ║ Entrada LivreEXPOSIÇÃO > 18.30H ║ CONFERÊNCIA > 19.00HCasa Museu Bissaya BarretoR. da Infantaria, 23 – CoimbraA EXPOSIÇÃO ║ BISSAYA BARRETO E A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICAPor imagens, documentos e relatos se traça o perfil ideológico e o percurso político de um activo republicano: Fernando Bissaya Barreto. A ligação do jovem universitário à criação do Grupo do Livre Pensamento; a acção do dirigente associativo estudantil (membro da Assembleia Geral da Associação Académica); o fundador e membro da 1ª Direcção do Centro Académico Republicano (1906); o intransigente activista da greve académica de 1907; o carbonário e maçon coimbrão; o deputado à Assembleia Nacional Constituinte de 1911… numa exposição de visita obrigatória, patente até 16 de Abril.“Com um percurso ideológico e politico gizado nos domínios do livre-pensamento, da maçonaria, da carbonária e na militância no Partido Republicano Português, organizações estas que em 1910 constituíam as faces esfíngicas de um mesmo movimento republicano triunfante, o jovem Fernando Bissaya Barreto reunia as condições históricas e ideológicas para, integrando a elite republicana, participar no areópago que definirá a primeira e magna carta da Republica Portuguesa”.Ramos, Rui in MATTOSO, José – História de Portugal, 1994. Vol. VI, p.411A CONFERÊNCIA║ ALGUMAS NOTAS SOBRE O REPUBLICANISMO DE BISSAYA BARRETOpor Amadeu Carvalho Homem (Professor Catedrático da Fac. Letras da Universidade de Coimbra).
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March 16 2010, 7:24pm | Comments »
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CARNICEIROS E SANTOS
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Destacamos de entre as recensões de livros do "New York Times" desta semana "Butchers and Saints" de Eric Ormsby do recente livro:HOLY WARRIORS A Modern History of the CrusadesBy Jonathan PhillipsIllustrated. 434 pp. Random House. $30Um excerto da crítica:The villains of history seem relatively easy to understand; however awful their deeds, their motives remain recognizable. But the good guys, those their contemporaries saw as heroes or saints, often puzzle and appall. They did the cruelest things for the loftiest of motives; they sang hymns as they waded through blood. Nowhere, perhaps, is this contradiction more apparent than in the history of the Crusades. When the victorious knights of the First Crusade finally stood in Jerusalem, on July 15, 1099, they were, in the words of the chronicler William of Tyre, “dripping with blood from head to foot.” They had massacred the populace. But in the same breath, William praised the “pious devotion . . . with which the pilgrims drew near to the holy places, the exultation of heart and happiness of spirit with which they kissed the memorials of the Lord’s sojourn on earth.”Para mais ler aqui.
March 13 2010, 5:37am | Comments »






