A propósito do meu artigo sobre segurança aérea, um leitor enviou-me uma frase que, apesar de aparecer muitas vezes atribuída a Thomas Jefferson, é de Benkamin Franklin (na figura), diplomata, político e cientista norte-americano:"Aqueles que desistem de uma liberdade essencial para obter uma pequena segurança temporária não mercem nem liberdade nem segurança".No original em inglês:"They who can give up essential liberty to obtain a little temporary safety, deserve neither liberty nor safety."Da Wikipedia:"This was written by Benjamin Franklin, with quotation marks but almost certainly his original thought, sometime shortly before February 17, 1775 as part of his notes for a proposition at the Pennsylvania Assembly, as published in Memoirs of the life and writings of Benjamin Franklin (1818)."Em 1775 não havia aviões. Mas a frase talvez ainda possa ser útil hoje.
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Sobre liberdade e segurança
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January 22 2010, 2:27pm | Comments »
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À DESCOBERTA DA ARTE BARROCA
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Informação recebida da Museu Sem Fronteiras (MWNF)Depois de cinco anos de preparação, o Museu Virtual À Descoberta da Arte Barroca está on line desde 21 de Janeiro de 2010.Oito países europeus, incluindo Portugal, participaram na criação deste segundo ciclo temático do Museu Virtual, implementado pelo Museu Sem Fronteiras, dando assim origem ao maior Museu Virtual de todo o mundo.O Museu Virtual pode ser visitado através do portal MWNF ou directamente através de http://www.discoverbaroqueart.org .Segundo os princípios orientadores do Museu Sem Fronteiras, que defendem a contextualização dos artefactos expostos e desvendam tesouros desconhecidos, trazendo-os para a ribalta, o Museu Virtual À Descoberta da Arte Barroca conjuga peças barrocas europeias, desconhecidas do grande público, com obras de arte universalmente conhecidas, relativas ao período compreendido entre o Concílio de Trento (1653) e o Congresso de Viena (1815).A Colecção Permanente permite usufruir de artefactos provenientes de setenta e oito museus associados e de parceiros, tal como de monumentos e de sítios barrocos de oito países. A base de dados e respectivas funcionalidades (pesquisa simples e pesquisa avançada) foi concebida tendo em vista os interesses específicos de estudantes e visitantes em geral. As descrições estão acessíveis em inglês e, na maior parte dos casos, na língua de cada país parceiro. Aqueles que pretendem utilizar a informação disponível para preparar um circuito cultural, poderão encontrar os contactos actualizados de cada monumento e sítio. A secção dos Museus Parceiros do Museu Virtual permite-nos obter mais informação sobre os museus, as universidades e os organismos do património cultural que contribuíram para a realização desta colecção. O “Meu Museu” permite que os visitantes registados criem a sua própria colecção de artefactos e de monumentos.Portugal participa no Museu Virtual À descoberta da Arte Barroca com 50 artefactos, oriundos de vinte e nove museus ou colecções, e 35 monumentos, ilustrados por oitocentas e cinquenta imagens. A Casa - Museu Anselmo Braamcamp Freire é o parceiro nacional, em cooperação com 63 entidades e 18 municípios envolvidos, distribuídos por todo o território, incluindo as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Cristina Correia, coordenadora nacional e vice-presidente do Museu Sem Fronteiras, contou com a colaboração de 51 investigadores, historiadores e curadores das diferentes entidades para a redacção dos textos, bem como com a colaboração directa ou indirecta de cerca de 61 fotógrafos. A presença de Portugal no Museu Virtual foi assegurada pelos patrocínios do Turismo de Portugal e do Grupo Jerónimo Martins, bem como do Instituto Camões, da Contiforme, da Fundação Eugénio de Almeida, do Município de Alcobaça e da Escola Secundária Eça de Queirós de Lisboa.O Museu Virtual À Descoberta da Arte Barroca foi financiado pelo Museu Sem Fronteiras e pelas instituições participantes, aproveitando a plataforma de Internet implementada pelo Museu Sem Fronteiras aquando da criação do primeiro ciclo temático do Museu Virtual MWNF , sobre arte islâmica. O acesso é completamente livre.Fundado em 1994, em Viena de Áustria, por Eva Schubert, o Museu Sem Fronteiras (MWNF) ganharia dimensão internacional no ano seguinte, sendo hoje uma organização sem fins lucrativos com sede na capital belga, Bruxelas. Tem como missão revelar, difundir e promover o património artístico de uma região, de um povo ou de uma cultura, tornando-o acessível à generalidade dos vários públicos, nacionais e internacionais e permitindo o conhecimento de tesouros artísticos que, de outro modo, permaneceriam escondidos ou desconhecidos dos não-especialistas. As exposições que organiza, em formatos e suportes únicos e inovadores, complementadas com as obras que edita, escritas e ilustradas por reputados académicos e fotógrafos consagrados, condensam o ethos da organização, o de propiciar, em todos os casos, o contexto cultural e histórico envolvente e a perspectiva própria do país em causa.Imagem: Foto da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (Paulo Mendes).
January 21 2010, 5:15am | Comments »
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"Ratio Studiorum" dos Jesuítas
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Margarida Miranda, professora do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra traduziu a Ratio Studiorum, o plano de estudos seguido pelos Jesuítas e cujo grande mentor foi Santo Inácio de Loyola, cujo lançamento foi no passado dia 15 de Janeiro. O De Rerum Natura falou com ela a este propósito.P: Em concreto, o que é a Ratio Studiorum dos Jesuítas?R: Ratio Studiorum é o nome abreviado de Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Iesu, o plano educacional que a Companhia de Jesus pôs à frente dos seus colégios nas mais variadas partes do globo (da Europa à Ásia, do Japão ao Brasil). Embora vulgarmente se traduza por código, ou método, a Ratio Studiorum é mais do que o plano de estudos, ou o curriculum escolar, ou o regulamento dos colégios dos jesuítas. Ela é na verdade o regime escolar (e, nessa medida, também o plano de estudos, o código e o regulamento) que presidiu ao ensino nos colégios dos Jesuítas, desde que foi composto (no final do séc. XVI) até à extinção da Companhia de Jesus, em 1773 (com as necessárias adaptações, claro).O documento reparte-se em 30 capítulos. Cada um deles consiste num conjunto de regras para cada uma das funções dos membros de um colégio, docentes e discentes, a começar pelo Provincial da Ordem, logo seguido dos reitores (autoridade máxima dos colégios), continuando nos diversos professores e a terminar nas classes iniciais do colégio. Por isso, cada capítulo se intitula “Regras para o professor de …”, ou Regras para os alunos de …”. Depois, temos ainda “Normas para os exames escritos”, “Normas para os prémios [escolares]”, “Normas para as Academias” – uma espécie de clubes em que a actividade escolar e a produção literária era estimulada como recreio e fonte de lazer.Trata-se, portanto, de um documento que inaugurou uma nova era na institucionalização da educação escolar e que, por isso, acabou por ser seguido também por outras ordens religiosas, que começaram a dedicar-se ao ensino.P: Há quem defenda que a Ratio Studiorum é uma das obras pedagógicas mais importantes de toda a história da educação ocidental. Rómulo de Carvalho designa-a por monumento. É dessa opinião?R: Podemos medir a sua importância pelo êxito evidente que acompanhou o ensino dos colégios. Ao longo da sua longa actividade escolar e através da mobilidade real do seu corpo docente, os Jesuítas foram, na verdade, ‘mestres da Europa’. A verdade é que a Ratio Studiorum criou um novo estilo internacional de educar, com um ensino escolar gratuito, dirigido a todas as classes sociais – não apenas a clérigos mas também a leigos – numa época em que se vivia uma verdadeira explosão da procura escolar na Europa, após a invenção da imprensa.Além disso, o plano de estudos que ela propunha, gozava da adequação ao consenso comum da Europa do seu tempo: aliava as letras humanas e as artes liberais (isto é próprias do homem livre) à importância da formação do carácter. Com as letras humanas vinha todo o património literário e filosófico greco-romano que o Humanismo e o Renascimento ensinavam a valorizar integralmente. E com aquele património vinha ainda o ideal da eloquência, do domínio da palavra, que é como quem diz, da comunicação verbal! Era num tempo em que formar bons oradores não era produzir discursos bonitos mas homens sábios, capazes de comunicar ao mundo, sem powerpoints mas de forma agradável, o seu muito saber e o seu muito saber pensar, argumentar e criticar. E ainda, formar alunos para o serviço do bem comum, por meio da intervenção cívica. Essa é uma das características que mais nos separa deste modelo de educação: o primado da Palavra (pensada, falada e escrita) e a eleição clara de valores éticos.O que vejo neste ‘monumento pedagógico’ é a incorporação de diversos componentes educativos já em vigência, num mesmo programa educacional, que é extremamente claro. Nem todos são de criação jesuítica, naturalmente, mas a sua originalidade está na feliz articulação de todos eles de forma tão sistemática.P: Quando exploramos a construção da Ratio Studiorum não podemos deixar de ficar admirados com o tempo que demorou, os ensaios que implicou, as revisões a que obrigou… Por isso, a coerência é apontada como uma das suas características mais marcantes. Tendo um conhecimento tão profundo da obra, corrobora esta ideia?R: É bem verdade! A Ratio resulta de cerca de meio século de ensaios, correcções, melhoramentos, novos ensaios, novas versões… Nada há transformado em “regra” universal que não tenha sido primeiro ‘universalmente’ testado, para depois ser submetido à crítica de todos os agentes e finalmente aprovado em forma de letra. É claro que não se pode impor efectivamente uma reforma, sem a cooperação de todos os agentes nela envolvidos. Ora, a implementação da Ratio Studiorum era uma ampla reforma, a maior de sempre, ou melhor, uma grande acto fundacional, sem precedentes, destinado a numerosas instituições escolares, situadas em ambientes muito diferentes, que haviam de perdurar durante séculos. Por isso, tudo tinha que nascer de forma prudente e amadurecida.Aliás, se a Ratio Studiorum operava sobre uma rede escolar muito vasta, com uma única cabeça, com circulação efectiva de informação e com documentos normativos, ela não esquecia de modo algum a necessidade de adequação aos tempos e aos lugares. É uma ideia muito comum ao longo do texto, responsável certamente pela sua exequibilidade.Mas isso não desmente a sua preocupação pelo rigor e pela ordem: ordem nas matérias, ordem na divisão dos alunos, cada classe com seu mestre e com seu grau de exigência, ordem na progressão entre classes, ordem nos graus de dificuldade a percorrer, de acordo com objectivos de aprendizagem sempre muito claros, sem preconceitos contra uma clara hierarquia de saberes e de funções escolares.P: Estudiosos da pedagogia inaciana (por exemplo, José Lopes, Padre Jesuíta que se doutorou na área) identificam nela as ideias essenciais do Movimento da Educação Nova, que emergiu em finais do século XIX. Porém, Santo Inácio não se considera um original, reconhecendo a sua inspiração em escolas que conheceu de perto, nomeadamente da Universidade de Paris. Podemos dizer que se trata de uma obra pedagógica de transição entre o mundo medieval e o renascentista?R: Como disse há pouco, a Ratio incorpora, num mesmo programa, métodos e práticas escolares que já vigoravam, embora de forma fragmentada. Nalgumas regiões, a sua obra consistiu num enorme desenvolvimento dessas práticas. Noutras foi um fenómeno extremamente inovador porque não havia alternativas. Experiência modeladora das opções pedagógicas e didácticas da Ratio foi sem dúvida a experiência colhida na Universidade de Paris (a qual, por sua vez, já dava continuidade às escolas dos Irmão da Vida Comum), mas também a passagem de alguns jesuítas pelo Colégio Trilingue de Alcalá de Henares, cuja Universidade era um dos grandes centros de irradiação do Humanismo na Península. Mas acima de tudo isso está uma outra realidade: é que, em toda a parte, a Companhia de Jesus vivia uma atmosfera intelectual que assimilava a cultura eclesiástica tradicional com um elevado sentido de cooperação com a cultura contemporânea. Os colégios não eram apenas instituições escolares. Era lugares de grande importância cívica. Bibliotecas, lugares de produção, impressão e edição de livros, observatórios astronómicos, museus, laboratórios, salas de teatro, de música e de dança, de exposição de pinturas e composições literárias… No final do séc. XVI, o programa jesuítico sustentava a compatibilidade entre a educação ‘humanística’, por um lado, e a filosofia ou ciência aristotélica e a teologia de S. Tomás, por outro, numa mundividência que atravessava uma linha de continuidade de muitos séculos. Essa verdade torna as categorias ‘medieval’ e ‘renascentista’ momentaneamente arbitrárias.O certo é que as tradicionais classes para o estudo da gramática, humanidades e retórica acabaram por se converter no principal modelo dos nossos estudos secundários e por estar na origem do ensino secundário público.P: Termino perguntando-lhe se a Ratio Studiorum tem sentido no presente e se tem futuro?R: A essa pergunta, só posso dar a minha resposta pessoal e não a resposta da especialista em ciências da educação, que não sou. É claro que Ratio Studiorum que agora faz sentido (no presente e no futuro) não é a reprodução cega do modelo de 1599, mas a produção de um modelo que respeite os mesmos princípios orientadores: educação para a excelência; apropriação activa de conteúdos e de competências através do exercício constante por parte do aluno; educação humanística que não descure o primado da palavra e da capacidade de pensar; formação humana integral (formação intelectual, humanística e interdisciplinar mas também artística e espiritual); integração dos saberes, que fomente a aliança entre as humanidades e as ciências como saberes complementares e possa superar a actual tendência para a fragmentação dos saberes; saber humanístico que respeite o lugar do legado clássico na nossa identidade e o primado da dignidade da pessoa humana; clareza de valores éticos, já que a educação integral passa pela educação do indivíduo para a autêntica liberdade e responsabilidade, de modo a fazê-lo despertar para os valores da justiça e do serviço, para a consciência social (local e universal) e para a cooperação cívica. E finalmente, outra questão de extrema actualidade: a noção de que os professores devem conhecer os seus discípulos individualmente e tomar consciência de que os influenciam mais pelo exemplo do que pela palavra; mas sobretudo uma elevada consciência da importância que tem motivar e preparar esses professores, trazê-los satisfeitos e atender os seus pedidos, por serem eles os factores cruciais do êxito escolar.
January 20 2010, 3:15pm | Comments »
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HÁ CEM ANOS 2
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Há cem anos, o rei D. Manuel II pagava do seu bolso a um sociólogo francês, Léon Poinsard, para ele estudar em Portugal a "questão social".Clicar para ver melhor o recorte da "Ilustração Portuguesa", nº 169, 17/5/2009.
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January 18 2010, 6:54pm | Comments »
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O MISTÉRIO DE PEDRO NUNES
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Em qualquer outro país existiria, facilmente acessível, uma biografia do seu maior sábio. Haveria até, provavelmente, romances históricos, quiçá mesmo guiões de cinema, baseados na sua vida. Em Portugal, sobre o matemático Pedro Nunes (Alcácer do Sal 1502 - Coimbra ? 1578), não há nenhum livro desse género que possa ser considerada verdadeiramente popular.Há, porém, alguma bibliografia de investigação histórica e científica. Duas obras foram há pouco acrescentadas a esse corpo: uma biografia de Pedro Nunes, “Pedro Nunes. Em busca das suas origens”, que coloca a ênfase na pesquisa das suas origens familiares na vila de Alcácer do Sal, escrita pela historiadora Maria Teresa Lopes Pereira, e uma reedição moderna, com tradução e comentários, da que é talvez a mais importante obra do nosso maior cientista, o “De Arte Atque Ratione Navigandi” (“Sobre a Arte e a ciência de Navegar”), vol. IV da monumental edição das obras completas de Pedro Nunes, que está em curso pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Academia das Ciências de Lisboa, com uma decisiva contribuição de um dos nossos mais laboriosos historiadores de ciência, Henrique Leitão, investigador do Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa.Falemos da primeira. O subtítulo do livro de Lopes Pereira remete para um dos maiores mistérios associados a Pedro Nunes. Sendo hoje aceite que se tratava de um “português de nação” ou cristão-novo, isto é, de alguém com origem judaica embora convertido, por moto próprio ou alheio, ao cristianismo, qual era afinal a sua família na vila alentejana onde nasceu há mais de quinhentos anos? Conforme escreve a historiadora logo no início do seu tão interessante livro, prefaciado por Henrique Leitão: “Desconhece-se, no entanto, o mês, o dia e a dia em que terá nascido. É uma incógnita o nome da mulher que o deu à luz e quem foi o seu pai. O mesmo sucede com os seus avós ou tios. Até hoje, as suas raízes familiares são um mistério por desvendar”.Este é, pois, o mistério de Pedro Nunes. O nosso maior cientista apareceu “vindo do nada”, tendo depois a sua família terminado ao fim de três gerações, pois os seus sete netos não deixaram, que se saiba, descendentes, quer legítimos quer ilegítimos (uns por terem falecido solteiros, outras por terem ingressado em conventos). Ninguém melhor do que a autora estava preparada para resolver o mistério de Pedro Nunes, uma vez que ela tinha escrito um livro, saído também na Colibri, sobre Alcácer do Sal no tempo da Idade Média (“Alcácer do Sal na Idade Média”, 2000). Mas o mistério era tão grande que lhe resistiu até à data, continuando a desafiá-la a ela assim como a outros historiadores de ciência. Com o novo livro ficou-se a saber mais tanto sobre a terra que o viu nascer, sobre o ambiente da época, as judiarias e as famílias de judeus e cristão-novos, mas uma resposta conclusiva não foi ainda dada: “A custo foram surgindo hipóteses plausíveis de parentesco. Por vezes tivemos a ilusão de ver o “puzzle” completo, com as peças todas certas e articuladas, para depois verificarmos que a construção final era débil e insegura”. Mas haja esperança: “Há segredos que ficam bem guardados. Um dia, como às vezes acontece, por um feliz acaso, descobre-se uma verdade que esteve sempre ali à espera de ser compreendida e decifrada”.Apesar da falta provisória de um final feliz, o livro de Lopes Pereira lê-se muito bem. Aliás, só o último capítulo trata da pesquisa das origens, de Nunes pois os outros três constituem uma das melhores sínteses biográficas sobre o sábio salaciense, uma síntese que merece decerto mais leitores do que porventura o simples subtítulo da obra poderá suscitar.O próprio Pedro Nunes é responsável pelo mistério das suas origens por ter criado um espesso muro de silêncio em torno do assunto. É, de certo modo, natural que o tenha feito, pois quando nasceu tinham passado escassos seis anos sobre o édito de D. Manuel de expulsão dos judeus e, quando ele tinha quatro anos, deu-se o “pogrom” de Lisboa, que causou mais de duas mil mortes. Certo é que viveu cristãmente, tendo até recebido o hábito de cavaleiro da Ordem Militar de Cristo em 1548, um ano depois de ter sido nomeado cosmógrafo-mor do reino. De outro modo não lhe teria sido possível ter chegado a professor da Universidade de Coimbra, onde foi o primeiro lente de Matemática, e, mais ainda, ter sido conselheiro real e perceptor de príncipes: ensinou o príncipe D. Luís, irmão de D. João III e pai do prior do Crato, o infante D. Henrique, futuro Cardeal D. Henrique e rei, e terá também ensinado D. Sebastião. Curiosamente, Nunes falece dias depois do desastre de Alcácer Quibir, mas ainda antes da respectiva notícia ter chegado a Portugal; o seu contemporâneo Luís de Camões teria dito no leito de morte, em 1580, “morro com a Pátria”, mas o mesmo poderia ter dito Pedro Nunes...Somando-se ao mistério das origens de Pedro Nunes, há ainda um mistério do fim: não se sabe ao certo se faleceu em Coimbra, na sua casa onde é hoje a Rua Ferreira Borges, ou na quinta que possuía nos arredores de Coimbra, numa terra com o nome árabe de Aldazubre, perto de Tentúgal, onde hoje se pára, a caminho da Figueira, por causa dos famosos pastéis. A arca com o seu espólio, decerto valioso dado o intercâmbio científico internacional que mantinha, levou sumiço...Conforme a biógrafa de Nunes nos conta no Capítulo 3 e em documentos anexos sabemos algumas coisas sobre a vida do sábio através dos testemunhos, incluídos hoje na Torre do Tombo, prestados por dois dos seus netos que foram presos pela Inquisição sob a acusação de judaísmo, em locais que incluíam a quinta da família: Matias Pereira e Pedro Nunes Pereira (o nome Pereira, só por mera coincidência em comum com a biógrafa) têm um apelido proveniente do seu pai João Pereira de Sampaio, que casou com Isabel da Cunha, uma das quatro filhas de Pedro Nunes e da sua mulher, a espanhola Guiomar Áreas (tiveram ainda dois filhos varões). A fama do avô e os serviços que este prestou à Coroa de pouco valeram aos dois irmãos Pereiras, apesar de eles os terem invocado em sua defesa. Os dois, que tinham cursado Cânones na Universidade de Coimbra, foram submetidos a tortura (lê-se no processo de Matias: “Foy aleuantada atee ao libello [...] foy aleuntado atee a Roldana [...] lhe foy dado um trato experto [...] que dissesse a verdade, E pello não querer fazer, nem falar palaura foy mandado deçer E desatar dos pees.”) Corria o ano de 1631 e a perseguição aos “hereges” era bem maior do que no tempo do avô. Depois de quase uma década no cárcere (no Pátio da Inquisição em Coimbra, onde é hoje o Centro de Artes Visuais, pode ser vista uma cela dessa época), os dois só foram libertados depois de “abjuração de veemente” em auto público de fé. No processo abundam denúncias, fruto de vários motivos. Um deles poderá ter a ver com desavenças entre famílias: designadamente, o célebre episódio da “cutilada”, quando uma filha de Pedro Nunes e D. Guiomar apunhalou, na Igreja de S. João de Almedina, onde hoje é o Museu Nacional de Machado de Castro, na presença do bispo, um seu pretendente que afinal não a pretendia. O episódio deixou marcas muito para além da cicatriz do visado. Na altura correram versos jocosos e convenientemente anónimos sobre o episódio, que Lopes Pereira nos recorda: “Foi mui grande o valor dela/ E pouca a vergonha dele/ /Mas se ela ficou sem ele. Ele não ficou sem ela”).Ora digam lá se a vida de Pedro Nunes e da sua família não dava um bom romance ou mesmo um filme?- Maria Teresa Lopes Pereira, “Pedro Nunes. Em busca das suas origens”, Lisboa: Edições Colibri, 2009.
January 15 2010, 7:30am | Comments »
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Que o Mar Fosse Tinta e o Céu Papel
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Informação recebida da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho:O ciclo de conferências “Que o mar fosse tinta e o céu papel” abre oficialmente as comemorações dos 500 anos sobre o nascimento de Fernão Mendes Pinto, na quinta-feira (dia 14), pelas 21h00, na Biblioteca Municipal de Montemor-o-Velho. Sob o tema “Literatura, Viagens, Literatura Como Viagem”, os conferencistas são Vasco Graça Moura e Gonçalo Cadilhe, que dão início a um programa comemorativo que decorrerá até 2011. A par do ciclo de conferências, as comemorações têm o apoio de um conjunto diversificado de instituições, dando origem a um vasto conjunto de iniciativas de homenagem Fernão Mendes Pinto, perpetuando a mensagem de interculturalidade protagonizada pelo viajante português e autor da Peregrinação. As acções comemorativas passam pelo projecto teatral Peregrinações, dinamizado pel’O Teatrão, a exposição com itinerância nacional e internacional “Fernão Mendes Pinto, Deslumbramentos do Olhar”, levada a cabo pelo Instituto Camões, o lançamento de um selo comemorativo pelos CTT, a emissão de uma moeda de 2 euros pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e a publicação facsimilada da 2.ª edição portuguesa da Peregrinação, datada de 1678, adquirida pela Câmara Municipal de Montemor-o-Velho. Decorrendo até Outubro de 2010 e com a coordenação de António Pedro Pita, director regional da Cultura do Centro, o ciclo de conferências “Que o Mar Fosse Tinta e o Céu Papel” é uma organização da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, d’“O Teatrão” e do Ministério da Cultura.
January 13 2010, 12:38pm | Comments »
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O Rei Carlos II e a Royal Society
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E, no mesmo suplemento de livros do "New York Times", MEGAN MARSHAL, no artigo "Return of the King" recenseia o livro:- Jenny Uglow, "A GAMBLING MAN. Charles II’s Restoration Game", (580 pp., Farrar, Straus & Giroux. $35),uma biografia do rei Carlos II de Inglaterra (marido da portuguesa Catarina de Bragança; Marshal escreve a propósito: "poor barren Queen Catherine had to put up with Charles’s bankrolling of one mistress after another, as well as the welcoming to court of his illegitimate children").Excerto do artigo, sobre a fundação da Royal Society, que este ano faz 350 anos:"In an entertaining set piece, she traces the establishment of the Royal Society, whose fellows were inspired by the recent inventions of the telescope (or “tube”) and microscope to “collect knowledge in all spheres.” “The whole universe, their secretary, Henry Oldenburg, claimed, would be ‘taken to taske.’ ” Royal Society fellows “discussed barnacles and snowflakes, the reproduction of vipers and the nature of gravity. . . . They puzzled over poisons, watched plants flash like gunpowder in a fire and tried to capture a spider within a circle of ‘ground unicorn’s horn.’ ” Quirky as some of the society’s initiatives seemed, the fellows were trying out the new principle of experimental verification of natural phenomena — a method vigorously opposed both by religious proponents of divine mystery and by adherents of the precepts of alchemy, with its “philosophy of transformation, regeneration and purification.” Ler mais aqui.
January 8 2010, 2:13pm | Comments »
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PLANCK, EINSTEIN E "LES DEMOISELLES"
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Extracto, onde se evoca a primeira década do século XX, de um artigo publicado hoje na revista "Pública" do jornal "Público" da autoria de Clara Barata e Miguel Gaspar, para o qual dei um depoimento (algumas pequenas gralhas foram emendadas):"Quando começa um século - ou uma década -, tem-se esperança de que tudo vá mudar. Mas o difícil é perceber o que é de facto uma mudança com capacidade para durar, para transformar e o que não passa de espuma dos dias. Quando o século XX estava a romper, o mundo era ao mesmo trempo impossivelmente diferente e já com as sementes do nosso. Na ciência, surgiam a física quântica e a relatividade, por exemplo. E na pintura, Picasso rasgava novos horizontes com as Demoisellles de Avignon, inventando o cubismo e a arte abstracta."O novo, o problema da descontinuidade, a mudança de paradigma, que Thomas Kuhn explorou muito, para mim, está exageradíssimo", responde o físico Carlos Fiolhais, professor na Universidade de Coimbra. Mas foi em 1900 que Max Planck se vou obrigado a reconhecer que a matemática já não conseguia descrever o que via. "Isso foi o mérito de Planck. Descreveu a realidade com uma fórmula matemática nova, reconhecendo que a antiga teoria já não conseguia descrever as observações. A energia é emitida e absorvida aos saltos, aos pulos, é isso os quanta. É como se a cerveja não pudesse fluir de um barril, só pudesse sair em saltos, em quantidades definidas".Em 1905, aconteceu o chamado "ano miraculoso" de Einstein, em que ele. aos 26 anos, publicou uma série de artigos em que assenta a sua obra revolucionária - tudo isso na primeira década do século XX. Quem viveu esse período tinha consciência de que estava a entrar no futuro?" Ninguém percebeu na altura a importância que teriam essas ideias, nem mesmo Planck e Einstein podiam ter percebido, Planck morreu logo após a Segunda Guerra, disse que as novas teorias triunfam porque os adversários acabam por morrer. Einstein nunca aceitou muito bem a matemática da física quântica, dizia a Natureza não dá saltos, e 'Deus não joga aos dados' ", diz Fiolhais.Nas artes, houve uma grande revolução. "O grande cavalo de batalha é a pintura, estava próxima a invenção da fotografia e ainda mais próximo o cinema", diz Delfim Sardo, professor de História da Arte Moderna e Contemporânea na Universidade de Coimbra. A obra-símbolo dessa revolução é Les Demoiselles d'Avignon, de 1907, uma composição com os retratos de prostitutas de um bordel frequentado por Picasso em Barcelona em que as figuras são desconstruídas para além do reconhecimento individual, para além de qualquer reconhecimento da cena real."É uma obra mitificada, com a qual Picasso teve uma relação difícil. Há uma enorme quantidade de cadernos cheios de esboços, é talvez a obra com maior trabalho preparatório", diz Delfim Sardo. Não surge do nada, claro: "Obviamente, não é uma experiência isolada no tempo, vem na continuidade de Cézanne, e Matisse e Piicasso, mas quando Picasso constrói Les Demoiselles, a unidade compositiva da imagem deixa de existir. Com este quadro, Picasso estica o processo da suspensão da incredubilidade até um ponto que ele próprio terá duvidado se esta obra era um sucesso ou um fracasso." "
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December 27 2009, 2:32pm | Comments »
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Elogio Histórico da Razão
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Texto de Voltaire de 1775 (na imagem a gravura de Goya sobre a razão):Fez Erasmo, no século XVI, o elogio da Loucura. Vós me ordenais que vos faça o elogio da Razão. Essa Razão, com efeito, só costuma ser festejada duzentos ano após sua inimiga, e às vezes muito mais tarde; e existem nações onde ela ainda não foi vista.Era tão desconhecida entre nós, no tempo do. druida, que nem sequer tinha nome em nossa língua. César não a levou nem à Suíça, nem a Autan, nem a Paris, que não passava então de uma aldeola de pescadores; e ele próprio quase a não conhecia.Possuía tantas e tamanhas qualidades que a Razão não pode encontrar lugar em meio delas. Esse magnânimo insensato saiu de nosso país devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear com vinte e três punhaladas por vinte e três outros ilustres furiosos que estavam longe de emparelhar com ele.O sicambro Clodvich, ou Clóvis, cerca de quinhentos anos depois, veio exterminar parte da nossa nação e subjugar a outra. Não se ouviu falar em razão, nem no seu exército nem nas nossas infelizes aldeias, a não ser na razão do mais forte.Apodrecemos por muito tempo nessa horrível e aviltante barbárie, da qual as Cruzadas não nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais universal, a mais atroz, a mais ridícula e desgraçada das loucuras. A essas longínquas cruzadas, sucedeu a abominável loucura da guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da língua de oc e da língua de oil. A Razão não tinha como achar-se ali. Em Roma reinava então a Política, que tinha como ministras suas duas irmãs, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignorância, o Fanatismo, a Fúria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza lhes seguia o rastro; a Razão ocultava-se num poço, como a Verdade sua filha. Ninguém sabia onde ficava esse poço, e, se o farejassem, ali teriam descido para degolar mãe e filha.Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males da Europa, dois ou três gregos, ao fugir, tombaram nesse poço, ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.A Razão recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distinção de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam dela algumas instruções, em pequeno número: pois a Razão não é prolixa. Obrigou-os a jurar que não revelariam o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, à corte de Carlos V e Francisco I.Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes de mágica para distrair a ociosidade dos cortesãos e das damas, no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olhá-los nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos negócios. Chegaram até a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de França, que lhes lançaram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes. Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns burgueses que ainda tinham, não se sabia como, algum vislumbre de senso comum.Esses flébeis clarões se extinguiram em toda a Europa, entre as guerras civis que a assolaram. Duas ou três faíscas de razão não podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Razão e sua filha ocultaram-se mais do que nunca.Os discípulos de seus primeiros apóstolos suicidaram-se, com excepção de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar a Razão desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida, como a Sócrates; mas ninguém prestou atenção à coisa. Nada mais desagradável do que ser enforcado obscuramente. Por tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assassínios de reis, que não havia nem tempo, nem suficiente liberdade de espírito para pensar nos crimes miúdos e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de um extremo a outro.A Razão, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaixão, embora não passe por ser muito terna. Sua filha que é mais ousada do que ela, animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de curá-lo. Apareceram as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradizê-las, tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados consigo mesmos e com o momento actual e que não se importavam nem com elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para o seu asilo.Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e que haviam espalhado, germinaram na terra; e até sem apodrecer.Enfim, há algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrinação a Roma, disfarçadas e anónimas, por medo da Inquisição. Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli – Clemente XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se até dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profissão.Esse homem, depois de ter servido às duas peregrinas uma refeição quase tão frugal quanto a do papa, levou-as à presença de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aurélio. O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta. "— Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.”Após os cumprimentos, trataram de negócios. Logo no dia seguinte, Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia, tomou a resolução de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard, de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte; e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram então, em Roma, que não havia mais que uma nação e uma lei no mundo.As duas peregrinas, atônitas e satisfeitas, despediram-se do papa, que lhes fez presente, não de agnus e de relíquias, mas de uma boa carruagem para continuarem a viajar. A Razão e a Verdade não tinham até então o hábito de andar a gosto.Visitaram toda a Itália, e surpreenderam-se de encontrar, em vez do maquiavelismo, uma verdadeira emulação entre os príncipes e as repúblicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus súbditos mais honrados, mais ricos e mais felizes.Minha filha – dizia a Razão à Verdade, – creio que o vosso reinado bem poderia começar, após tão longa prisão. Alguns dos profetas que nos foram visitar no poço devem ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face da terra. Bem vês que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas da ignorância e da mentira antes de entrar em teu palácio de luz, de que foste escorraçada comigo durante tantos séculos. Acontecerá connosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta de um véu, e toda desfigurada, durante inumeráveis séculos. Afinal chegou um Galileu, um Copérnico, um Newton, que a mostraram quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.Ah! – exclamou a Razão, – Deus me perdoe, lustrissimo Signor, mas creio que essa é uma das tesouras que levava para o meu poço, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excelência, e que faz com ela?— Lustrissima Signora – respondeu o procurador, – bem pode ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excelência; mas foi um chamado Fra Paolo que no-la trouxe há muito, e dela nos servimos para cortar as garras da Inquisição, que vedes espalhadas sobre esta mesa.Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da república; nós lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta do bico. Se não fora essa precaução, teriam acabado por devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem para os cidadãos.Se passardes pela França, talvez encontreis em Paris vosso outro par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma forma que nós em seu país, e que será um dia abençoado pelo género humano.Depois de terem assistido à Ópera veneziana, partiram as duas viajantes para a Alemanha. Viram com satisfação esse país, que no tempo de Carlos Magno não passava de uma floresta imensa entrecortada de pântanos, coberto agora de cidades florescentes e tranquilas; esse país, povoado de soberanos outrora bárbaros e pobres, e agora todos polidos e magníficos; esse país, cujo sacerdócio, nos tempos antigos, só era constituído por feiticeiras, que então imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas; esse país que fora depois inundado por seu próprio sangue, para saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou não; esse país que enfim acolhia ao seio três religiões inimigas, espantadas de viver pacificamente juntas.“Louvado seja Deus! – disse a Razão. – Essa gente veio afinal a mim, à força de demência.”Conduziram-nas à presença de uma imperatriz muito mais que sensata, pois era generosa. Tão contentes ficaram com ela as peregrinas, que não levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se enamoraram do imperador seu filho.Redobrou-lhes o espanto ao chegarem à Suécia. “Como!” – diziam, – “uma revolução tão difícil e no entanto tão rápida! tão perigosa e no entanto tão pacifica! E, desde esse grande dia, nem um só dia perdido para a prática do bem, e tudo isso na idade que é tão raramente a da razão! Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento enchia de admiração a Europa inteira!”Dali, atravessaram às pressas a Polónia. “Ah! minha mãe, que contraste! – exclamou a Verdade. – Dá-me até vontade de voltar para o poço. Eis no que dá ter esmagado sempre a mais útil porção do gênero humano e tratado aos lavradores – pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse caos de anarquia só podia redundar em ruína: já o haviam predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, sábio e humano; e ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis começam a sê-lo, e as vossas luzes se comunicam gradualmente.“Vamos ver – continuou ela – uma transformação mais favorável e surpreendente. Vamos a essa imensa região hiperbórea, tão bárbara há oitenta anos e hoje tão esclarecida e invencível. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma nova criação...” Lá acorreram, e confessaram que não lhes haviam exagerado.Não cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Concluíram que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civilização e do bom gosto e que se teria de ir ao pólo antárctico para aprender a viver.Chegadas que foram à Inglaterra, disse a Verdade à sua mãe:— Parece-me que a felicidade desta nação não é constituída como a das outras; foi mais louca, mais fanática, mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conheço; e eis que instituiu um governo único, no qual conservou tudo o que a monarquia tem de útil e tudo o que uma república tem de necessário. É superior na guerra, nas leis, nas artes, no comércio. Apenas a vejo embaraçada com a América setentrional, que conquistou num extremo do universo, e com as mais belas províncias da Índia, subjugadas no outro extremo. Como carregará ela esses dois fardos da sua felicidade?— O peso é considerável – disse a Razão, – mas, desde que ela me escute um pouco, há de encontrar alavancas que o tornarão mais leve.Afinal a Razão e a Verdade passaram pela França, onde já haviam feito algumas aparições, tendo sido dali escorraçadas. “Não vos lembrais – dizia a Verdade à sua mãe – do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses nos belos dias de Luís XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesuítas e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. Não mais nos chegam agora os apelos contínuos do povo. Ouço as aclamações de vinte milhões de homens que abençoam os Céus. Este acontecimento, dizem uns, é tanto mais jubiloso porquanto não nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo não é mais que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas supérfluas, os lucros extraordinários, tudo isso vai ser cortado. E têm razão. Todo e qualquer novo imposto será abolido. E nisso não têm razão: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito da felicidade geral. “As leis vão ser uniformes. Nada mais desejável, mas nada tão difícil. Vão ser distribuídos, aos indigentes que trabalham, e sobretudo aos pobres operários, os bens imensos de certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de mão-morta não mais terá, por sua vez, escravos de mão-morta. Não mais se verão esbirros de monges escorraçar da casa paterna órfãos reduzidos à mendicidade, para enriquecerem com os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que são os direitos dos antigos conquistadores. Não mais se verão famílias inteiras pedindo inutilmente esmola à porta do convento que as despoja. Praza aos Céus. Nada é mais digno de um rei. O rei da Sardenha acabou com esse abominável abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado em França.“Não ouvis, minha mãe, todas essas vozes que dizem: Os casamentos de cem mil famílias úteis ao Estado não mais serão considerados concubinagens; e os filhos não mais serão declarados bastardos pela lei? A natureza, a justiça e vós, minha mãe, tudo reclama para esse assunto um sábio regulamento, que seja compatível com o repouso do Estado e com os direitos de todos os homens.“Tornar-se-á a profissão de soldado tão digna que ninguém mais será tentado a desertar. A coisa é possível mas delicada".“As pequenas faltas não serão punidas como grandes crimes, pois que em tudo é preciso proporção. Uma lei bárbara, obscuramente enunciada, mal interpretada não mais fará perecer nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como se tivessem assassinado os próprios pais."Deveria ser este o primeiro axioma da justiça penal.“Não mais serão confiscados os bens de um pai de família, pois os filhos não devem morrer de fome por causa das faltas dos pais, e o rei não tem nenhuma necessidade desse miserável confisco. Maravilhoso! Isso é digno da magnanimidade do soberano.“A tortura, inventada outrora pelos ladrões de estrada para forçar as vítimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em pequeno número de nações, para salvar o culpado robusto e perder o inocente fraco de corpo e de espírito, só será utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para conseguir a revelação dos cúmplices. Mas tais crimes jamais serão cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ouço por toda parte, e escreverei todas essas grandes mudanças nos meus anais, eu que sou a Verdade."“Ouço ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais, estas palavras notáveis: Não citaremos jamais os dois poderes, pois só pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o da nação, em uma república. O poder divino é de natureza tão diferente, tão superior, que não deve ficar comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito não se pode juntar ao finito. Gregório VII foi quem primeiro ousou chamar o infinito em seu auxílio, nas suas guerras, até então inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado. Por muito tempo essas guerras ensangüentaram a Europa; mas, afinal separaram essas entidades veneráveis, que nada têm em comum: e é o único meio de garantir a paz."“Essas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem assaz fortes. Sei que não se reconhecem dois poderes nem na China, nem na Índia, nem na Pérsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou, nem em Londres, etc... Mas fio-me em vós, minha mãe. Nada escreverei que não me seja ditado por vós.”Respondeu-lhe a Razão:— Bem vês, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas, e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflexão. Sempre fiquei muito contente quando, em meio às minhas dores, consegui parte do alívio que desejava.“Não te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra, estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela rainha de Sabá ia em pessoa propor logogrifos a Salomão?”— Sim, minha mãe; bom tempo aquele, mas não durou muito.Pois bem – tornou a mãe, – este é infinitamente melhor; só se pensava então em mostrar um pouco de espírito; e vejo que há dez ou doze anos os europeus se vêm empenhando nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares de séculos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias preferido ao presente para morar na França.— Tenho a reputação – respondeu a filha – de gostar de dizer coisas assaz duras às pessoas entre as quais me encontro; mas confesso que só tenho a louvar o tempo presente, a despeito de tantos autores que só louvam o passado.“Devo atestar à posteridade que foi nesta época que os homens aprenderam a garantir-se de uma doença terrível e mortal, tornando-a menos funesta na transmissão; a restituir à vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a prover ao ponto fixo que em vão se deseja do ocidente ao oriente. Muito mais se fez em moral. Ousou-se pedir justiça às leis contra leis que haviam, condenado a virtude ao suplício; e essa justiça foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da tolerância.”— Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui, se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso poço.
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November 28 2009, 1:35am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Estudar as datas na escola ajuda a compreender a identidade do país
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/estudar-as-datas-na-escola-ajuda.html
O sociólogo, escritor e jornalista Francesco Alberoni (na foto) publicou a 2 de Novembro no Corriere della Sera uma crítica ao ensino italiano, cuja versão portuguesa saiu no dia 10 de Novembro no jornal "I". Vale a pena republicá-lo aqui:"Nos últimos 40 anos, os pedagogos quase destruíram as bases do pensamento racional e os fundamentos da nossa civilização. E fizeram-no com a ajuda de uma única decisão: eliminando as datas, acabando com a obrigatoriedade de apresentar os factos por ordem cronológica. Agora é normal ouvir dizer que Manzoni viveu no século XVI. Não há razões para espanto porque na escola já não se ensinam os acontecimentos pela respectiva ordem temporal, dizendo, por exemplo, que Alexandre Magno viveu antes de César, que, por sua vez, viveu antes de Carlos Magno, e só depois vem Dante e, em seguida, Cristóvão Colombo.Esta pedagogia foi importada dos Estados Unidos, um país sem história que tenta anular as raízes históricas dos seus habitantes para que se tornem cidadãos norte-americanos. Aplicá-la a Itália, produto de uma estratificação histórica com três mil anos, e ao resto da Europa, que tem raízes culturais gregas, romano e judaico-cristãs, é equivalente a destruir-lhes a identidade. Ao contrário de nós, as civilizações islâmica e chinesa estudam obstinadamente a sua história, para se conhecerem melhor e se reforçarem.Perder a capacidade de ordenar cronologicamente os acontecimentos significa igualmente perder a identidade pessoal. Quando perguntamos a alguém "Quem és?", essa pessoa conta-nos o que fez e o que faz nesse momento. Quando procuramos trabalho, apresentamos o nosso currículo. Quando nos apaixonamos, contamos a nossa vida à pessoa que amamos. Hoje vemos muita gente que já não sabe ordenar aquilo que viveu e vê o passado apenas como uma sucessão caótica de acontecimentos.A desordem no pensamento reflecte-se na língua. A escola já não ensina gramática, análise cronológica ou consecutio temporum. Há quem não distinga o passado próximo do passado remoto, quem não perceba a lógica do conjuntivo e do condicional e alguns confundem até o presente com o futuro. É a desagregação mental, a demência.Cara ministra Gelmini, peço-lhe que me dê ouvidos e afaste todos os pedagogos desta corrente nefasta. E depois, por favor, obrigue todos os professores a fazerem um curso de História com datas e um curso de Gramática. Finalmente, mande instalar em todas as salas de aula um grande cartaz horizontal onde estão assinalados, por ordem cronológica, todos os episódios significativos da história, para que os nossos jovens possam habituar-se à sucessão temporal. Uma muleta para o cérebro."Francesco Alberoni
November 24 2009, 2:52pm | Comments »








