As nossas interpretações parasitam a nossa comunicação, transparecem frequentemente. Comprometem a qualidade da nossa escuta, porque temos uma opinião sobre o que é dito, e o que nos dizemos a nós próprios impede-nos de estar atento ao que é dito de novo: a voz do nosso pensamento, embora não utilize os mesmos sinais de comunicação, é mais alta que a voz do nosso interlocutor. Não será para abafar as duas vozes que gritámos?O mediador, em si, deve estar particularmente atento à sua forma de gerir os seus próprios parasitas: às suas interpretações, às suas atribuições de intenção, à sua forma de resolver os problemas. Deve demonstrar prudência em relação à sua receptividade, à sua forma de reflectir e à sua forma de comunicar, e para além disso à forma como os outros as apresentam enquanto observações da sua boa fé.A propósito de interpretações e inferências, será que desconhece a história dos cegos e do elefante do mestre Hakim Sanai (Século XII). Eis então: Era uma vez uma cidade em que todos os habitantes eram cegos. Um rei que viajava acampou nas suas imediações. Possuía um elefante. Ninguém na cidade tinha ouvido falar desse animal.Alguns habitantes apressaram-se, apalpando cada um a parte a que tinham acesso. Ninguém imaginava estar equivocado sobre a sua forma de percepção. Prontamente de regresso, cada um era de imediato solicitado. Toda a gente queria saber o que os seus concidadãos não conseguiriam explicar de forma correcta. Faziam perguntas sobre a aparência do elefante, o seu tamanho, a sua forma, a sua pele, o seu cheiro ...Ouviu-se a resposta do homem que tinha tocado na orelha sobre a pele. Disse que o animal era rugoso, de pelo rijo e que a sua forma era semelhante a um tapete muito largo.Então aquele que tinha tocado na tromba falou com medo de um tubo terrível, movediço como uma serpente.Quem tinha tocado nas patas exclamou que aquilo eram apenas intrujices, o elefante era mais para o redondo, como a coluna de um templo, e sólido, impressionante e com certeza muito pesado ...Cada um tinha tocado o animal, mas apenas uma parte e não o podia ter percepcionado correctamente. Nenhum tinha conhecimento da sua globalidade.A imaginação tinha colmatado as falhas de informação já que a natureza, na verdade, detesta o vácuo, e colhido informações que testemunham de uma certa ignorância. Finalmente, nenhuma representação correspondia à realidade.Com o tempo, os outros habitantes que não tinham tocado o animal, fizeram a sua escolha entre os oradores. Cada um confiou naquele que lhe parecia mais convincente e a sua convicção íntima esvaziava as suas dúvidas. Jean-Louis Lascaux
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Realidades, percepções, interpretações, parasitas
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February 18 2010, 3:21am | Comments »
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