A minha contribuição para o think thank Contraditório, acerca da tema:Acho que a questão que está subjacente a este debate é qual é o futuro do jornalismo. É evidente que ninguém irá pagar por conteúdos que possa ter gratuitamente ou que não tenham um valor objectivo para si. E mesmo que a diferença exista, entre o pago e o gratuito, ela pode não ser suficiente. Veja-se o caso da enciclopédia Britannica (em vários volumes em papel), que tinha sem duvida muito mais informação do que a Encarta da Microsoft (em CD-ROM), e que custava a mesma coisa do que um computador pessoal (que vinha já com a Encarta). A Britannica, como a conhecíamos, desapareceu, a Encarta também desapareceu e hoje temos a wikipedia. Uma possibilidade - levantada há mais de dez anos quando as tecnologias de informação estavam mesmo na moda e todos achavam que iam ficar ricos com os banners publicitários na Internet (afinal ficou só o google) - é que os mediadores entre os produtores de conteúdos e o público passarão a ser plataformas tecnologias sistemáticas de agregação de conteúdos, passando cada consumidor a ser o seu próprio editor. Isto dita o fim da industria discográfica, das distribuidoras de filmes, dos jornais, etc. Os leitores poderiam escolher subscrever um determinado jornalista (que já não trabalha num jornal) pagando por isso algo que apenas paga o jornalista e uma comissão à plataforma agregadora (o Google News ou a Apple Store, por exemplo), que é quem passa a ter o poder. Não sei se isto é bom, nem se é o que vai acontecer. Mas não posso deixar de pensar que o futuro das notícias não seja de editores e projectos editoriais, mas de programadores e plataformas tecnológicas. E que o consumidor irá continuar a pagar: seja com um valor monetário (apenas para os jornalistas e autores que escolher e não para um pacote editorial) ou seja com os seus dados pessoais e preferências de consumo.O caso da wikileaks também merece reflexão. Por um lado ilustra bem como a programação pode esvaziar em grande medida o poder dos editores e jornalistas passando-o para os agregadores sistemáticos de conteúdos. Por outro lado, com desenvolvimentos recentes, a propria wilileaks a fazer acordos com jornais de vários países, a edição e análise jornalista sai revalorizada.Penso que a transferência do modelo de negócio dos jornais em papel para o on-line é improvável. Surgirá outro modelo de negócio, que poderá ter diferenças significativas em relação ao que é o jornalismo actual. Penso que haverá sempre algo parecido com jornalistas locais em Portugal, que podemos subscrever talvez através do iTunes, agora já não tenho a certeza quanto a jornais portugueses.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Os conteúdos online dos jornais portugueses devem ser pagos pelo leitor?
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/os-conteudos-online-dos-jornais.html
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January 26 2011, 6:49am | Comments »
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Público esclarece golpe publicitário mais deprimente do ano
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/publico-esclarece-golpe-publicitario.html
O Público esclareceu a treta da notícia do dia mais deprimente do ano, publicada por vários jornais portugueses (entre os quais o Público) num texto assinado por Ana Gerschenfeld. Já era tempo!O golpe publicitário mais deprimente do anoPor Ana GerschenfeldAqui vai a explicação do que está por detrás do chamado Blue Monday, com muitas aspas à mistura. A dita “fórmula” foi oportunamente “inventada”, em 2005, por Cliff Arnall, na altura docente da Universidade de Cardiff, para uma campanha publicitária de uma agência de viagens entretanto encerrada, a Sky Travel. A ideia, da autoria de uma agência de comunicação empresarial, a Porter Novelli, era que um “cientista” desse o seu aval (mediante pagamento) à dita fórmula para fazer aumentar a venda de viagens para paragens menos deprimentes.Já em Novembro de 2006, Ben Goldacre, do Guardian, escrevia nas páginas daquele jornal britânico acerca de Arnall: “É provavelmente o mais prodigioso de todos os produtores de ‘equações’ da treta.” E acrescentava que “as equações de Cliff Arnall são estúpidas e algumas até nem conseguem fazer sentido em termos matemáticos”. Diga-se de passagem que o diário foi levado a publicar, na semana seguinte, uma declaração da Universidade de Cardiff a dizer que Arnall já não trabalhava naquela instituição desde Fevereiro de 2006.O próprio Arnall não nega a sua impostura. Num outro artigo publicado por Goldacre, pouco antes do Natal de 2006 – onde o autor chegava ao ponto de apelidar Arnall de “prostituta empresarial” (“corporate whore”) –, o jornalista contava que o “cientista” lhe tinha enviado um email a propósito da sua crónica anterior, informando-o de que tinha acabado de receber um cheque do grande fabricante de gelados Wall’s. A pedido da Wall’s, Arnall tinha inventado uma outra “fórmula”, desta vez para determinar o dia mais feliz do ano (que, já agora, calha supostamente em finais de Junho, na abertura, por assim dizer, da temporada dos gelados...).O Público ainda reconheceu o erro:PÚBLICO ERROUAssim como vários jornais em todo o mundo, o PÚBLICO online noticiou, esta segunda-feira, a fórmula matemática através da qual o investigador da Universidade de Cardiff, Cliff Arnall identificava o dia 24 de Janeiro como o dia mais deprimente do ano. Baseamo-nos nas informações publicadas no Daily Telegraph que não referia o estudo como uma campanha publicitária. Na realidade, como a notícia acima mostra trata-se de um golpe publicitário que a imprensa insiste em publicar todos os anos desde 2005. Aos leitores, as nossas desculpas.Assumir e corrigir um erro é sempre de elogiar. Esperemos que sirva para que 2011 tenha sido o último ano do dia mais deprimente em Portugal.
January 26 2011, 3:29am | Comments »
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Dia da notícia da treta mais deprimente do ano
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/dia-da-noticia-da-treta-mais-deprimente.html
Hoje é o dia da habitual notícia de ciência da treta do início do ano, segundo a qual estamos no dia mais deprimente do ano!! Iupie, a partir daqui só pode melhorar. i, Publico, Radio Renascença e TVNet (pelo menos) deram esta notícia recorrente, a par dos seus embasbacados congéneres internacionais, que lhe chamam "blue monday". Esta é a notícia da treta mais deprimente do ano, segundo a fórmula (que eu inventei agora):N/C + J/SEm que N é o número de anos em que esta notícia vem sendo repetida nos media, C a credibilidade da afirmação, J o número de jornalistas que transcreve este press release e S o sentido crítico dos mesmos. É que não é preciso ter muita cultura científica para olhar para a fórmula apresentada pelo alegado psicólogo investigador (aliás não muito diferente da que eu inventei) e para a sua conclusão fabulosa, para torcer o nariz. Essa torcidela deveria desencadear uma pequena investigação, procurar referências na literatura ou, na ausência de tempo, pura e simplesmente abandoná-la. Convenhamos que não é informação com que não possamos viver (talvez seja útil para escolher o dia mais adequado para cortar os pulsos ou saltar da janela). Mas vivemos a ditatura do engraçadismo e uma coisa destas está de acordo com o regime.Será que é para o ano que algum destes órgãos de informação averigua a credibilidade desta coisa antes de transcrever o press release?
January 24 2011, 8:15am | Comments »
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Adeus Carlos!
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/adeus-carlos.html
Estive com ele há poucos meses numa entrevista que realizou com o Prof. Veiga Simão bna Biblioteca Joanina (não sei se a RTP já a transmitiu). Na ocasião, mostrou ao ex-ministro da Educação uma foto que retratava os dois, um jovem repórter e o outro jovem ministro, numa entrevista ao DN, no início dos anos 70, quando a reforma hoje conhecida pelo nome do ministro foi anunciada. Voltei a estar com ele há poucas semanas numa entrevista que me fez na Biblioteca Municipal de Oeiras, a propósito das comemorações da República. No jantar que houve antes fez mais perguntas do que na entrevista, pois se interessava por tudo e mais alguma coisa. Tanto numa ocasião como noutra, estava vivíssimo, dono de uma excelente memória e senhor de uma grande energia. As histórias que contava eram sempre engraçadas porque eram contadas por ele. Desde há horas que já não está entre nós. Vamos ter saudades de um jornalista singular, de um grande amigo da cultura. Adeus, Carlos Pinto Coelho!
December 15 2010, 6:00pm | Comments »
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PROVAS E MAIS PROVAS
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/provas-e-mais-provas.html
Temos falado aqui muito da Real Sociedade de Londres, que está a fazer 350 anos (fá-los exactamente durante este mês). Embora ela reclame - e com razão - ser a academia mais antiga do mundo em funcionamento contínuo, há outras academias mais antigas, como a famosa Academia dei Lincei (o lince é um animal de olho vivo!), ligada a Galileu, que teve actividade interrompida durante muito tempo mas que hoje está em actividade. O seu lema era "Minima cura si maxima vis" (Dá conta das pequenas coisas se queres obter grandes resultados"). E houve também a Accademia del Cimento, ligada a discípulos de Galileu (como Torricelli), que teve uma vida efémera.O nosso leitor João Boaventura, um verdadeiro arqueólogo de textos da imprensa antiga, fez-nos chegar este recorte de um periódico português de 1841 ("Revista Universal") que noticia um congresso científico em Florença na qual foi lembrada a Accademia del Cimento. O lema desta é muito sugestivo: "Provando e Riprovando", que vertido em português dá "Provas e mais Provas" ou "Tentando e voltando a tentar" (a frase é um pouco ambígua). Aproxima-se do lema da Sociedade Real de Londres, que era "Nullius in verba", em tradução livre: "Não acredites na palavra das autoridades". Em todas elas está bem expresso o espírito da Revolução Científica, o espírito que mudou o mundo.(clicar em cima do recorte para ler)
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November 17 2010, 4:04am | Comments »
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2028: O FIM DOS JORNAIS EM PORTUGAL
http://dererummundi.blogspot.com/2010/11/2028-o-fim-dos-jornais-em-portugal.html
Fala-se hoje muito em crise da imprensa escrita, um fenómeno global que se traduz na queda das tiragens devido à emergência dos meios de comunicação electrónicos. Agora, foi anunciado ano da morte dos jornais tal como os conhecemos hoje por um instituto de prospectiva. Em Portugal, tal como na Grécia (continuaremos próximos...) vai ser no ano de 2028. Nos Estados Unidos tal irá acontecer já daqui a 17 anos. Ver aqui (pdf).Pela minha parte declaro-me viciado na leitura diária da imprensa tradicional (a senhora do meu quiosque diz que lhe bastava ter mais meia dúzia de clientes como eu) e espero que as previsões estejam erradas. Mas não tenho a certeza e não me vou preocupar. Einstein é que tinha razão: "Nunca penso no futuro. Chega sempre suficientemente cedo."
November 17 2010, 3:26am | Comments »
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Ouça um bom conselho...
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/ouca-um-bom-conselho.html
Transcrição de parte do artigo de Maria João Guimarães e Nicolau Ferreira publicado na revista "Pública" de domingo passado sobre receber e dar conselhos:Escolher o terceiro caminho"A única frase que o físico e professor catedrático da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais considera aproximar-se de um conselho que procura seguir leu-a num livro e é em si mesmo um anticonselho. "Entre dois caminhos, escolhe sempre o terceiro", lembra Carlos Fiolhais à Pública. "Na área dos negócios, é o pensar 'out of the box' ", acrescentou. É uma ideia que sugere utilizar a nossa criatividade para olhar para o mundo fora das fronteiras que alguém estabeleceu por nós. "Somos confrontados com problemas que parecem ser binários, e às vezes há uma escolha ao lado que é a resposta." Fiolhais conta que se lembra de ler a frase num livro, quando era adolescente. Era um conselho dado pelas mães judias aos seus filhos. O físico associa esta frase à história dos judeus, quando durante a II Guerra Mundial as escolhas eram entre lutar e entregar-se aos alemães - e nas duas situações o destino seria trágico. A terceira opção poderia ser fugir.Na realidade científica, o terceiro caminho é muito utilizado e pode ser de ouro. "Niels Bohr, prémio Nobel da Física, um dos mais importantes físicos do mundo, talvez tão importante como Einstein, aconselhava sempre os seus alunos a pensar ao lado. O génio é isso, é ir para o caminho que não nos é dado." O físico de Coimbra conta que faz no seu trabalho científico este esforço permanente de "pensar ao lado", de verificar sempre a possibilidade contrária do caminho A ou do caminho B. Bohr dizia que "o oposto de uma verdade absoluta pode bem ser outra verdade absoluta." Fiolhais pergunta: "O oposto de A ou B não será também algo viável?"Carlos Fiolhais explica que mesmo na sua vida particular este conselho já o ajudou: "Todos temos problemas, e pensamos que a solução ou é uma coisa ou é outra..." Fica de pé atrás quando se fala em conselhos tradicionais. "São vias de obediência, às vezes de uma forma amigável e paternalista, mas são autoritários", diz. "O livro 'O Segredo' [de Rhonda Byrne] é um manual de conselhos, é puro lixo intelectual. Desconfio sempre de conselhos."O físico prefere servir-se de referências, de pessoas como os seus pais ou alguns professores que se tornaram exemplos. "Mais do que ouvir palavras de orientação, o importante é olhar para a vida das pessoas", defende. Continuando na senda de mostrar que uma verdade e o seu contrário podem ser compatíveis, conclui: "Tenho 54 anos, já tenho idade para não dar conselhos." "Na foto: Niels Bohr e Einstein.
September 6 2010, 5:02pm | Comments »
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O condomínio fechado
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/o-condominio-fechado.html
Texto de João Boavida, a propósito do texto - Se não se passa em Lisboa, então não aconteceu - da autoria de Norberto Pires.Durante as férias (7/8/2010), o jornal Expresso publicou um trabalho intitulado Portugueses criam duas invenções por dia. Embora trate da grande evolução da ciência em Portugal, nas duas últimas décadas, refere-se sobretudo ao registo de patentes. E numa altura do ano estratégica, a da candidatura dos novos estudantes universitários, é uma propaganda ao Instituto Superior Técnico. Se é publicidade, sendo encapotada, não fica bem ao jornal, que se orgulha dos seus princípios, se não foi publicidade, é um mau trabalho jornalístico.Norberto Pires, o Presidente do Iparque, ripostou neste blogue, revelando no seu texto indignação com a estreiteza de vistas que o artigo revela, sublinnho que se esquece significativamente o que se passa no Porto e de Coimbra, e de tudo o que, em aspectos importantes, se faz no resto do País, sugere até perguntas que, segundo ele, deveriam ser feitas às universidades:1. Quantas empresas foram criadas pelos seus alunos?2. Quantos empregos foram criados por essas empresas?3. Qual o volume de negócios dessas empresas?4. Quanto representam do PIB nacional?5. Dos seus docentes e investigadores quantas patentes resultaram?6. Quantas foram vendidas e deram lucro?7. Quantas deram origem a spin-offs?8. Qual o impacto da universidade nas exportações portuguesas?9. Qual o valor acrescentado de um aluno da universidade/politécnico: custa quanto e vale quanto?10. Qual o impacto da universidade/politécnico no cenário internacional de I&D: docentes e investigadores?11. Quantos projectos europeus têm as universidades/politécnicos?12. Quanto valem os projectos europeus em percentagem do orçamento da Universidade?Avaliando estes itens, divulgando e estimulando os que efectivamente estão a trabalhar bem, produziríamos em poucos anos uma profunda melhoria do País. Mas, interessará isto aos lisboetas e aos que andam pelos domínios do poder resolvendo arduamente os problemas nacionais? Duvido. Por outro lado, não me espanta este tipo de trabalhos por parte do Expresso, que, todavia, mea culpa, leio desde o 1.º número, com alguns intervalos. Sempre foi um jornal assumidamente lisboeta, por vezes mesmo acintosamente lisboeta. Sempre viveu entre a alta finança, a política, nem sempre pelos melhores caminhos, muita fofoquice sob presunções balofas e o desdém pelo resto do País. Tudo tiques de quem vive na capital e acha isso uma grande coisa.Não o dizem, mas dão-no a entender, de muitas formas e sempre que podem. Sabem que para uma certa cultura feita de ideias correntes o Expresso é uma Bíblia, e assim colaboram para aprofundar o fosse entre Lisboa e o resto do país. Reconhecem que a capital tem vindo, desde há muito e em virtude de políticas sem visão, a exaurir Portugal, mas acham isso bem e cavalgam alegremente a anomalia em vez de a tentar emendar.Ignorando tudo o que se tem feito em muitas universidades portuguesas, um enorme esforço na investigação científica, na interacção com o mundo empresarial e na criação de empresas, podem apresentar, com cândida inocência, aquilo em que o Técnico leva vantagem. Estão assim as coisas. Um dos nossos dramas é que temos órgãos de comunicação ditos nacionais que, de facto e assumidamente são de Lisboa, e defendem a sua terra com um espírito mais provinciano que os da Província. Para se sentirem alguém têm de esquecer estrategicamente tudo o que de importante se passa em Portugal. Parecem não perceber até que ponto isto faz crescer a mediocridade geral, e portanto também a deles. Ao diminuir os outros para se sentirem alguém, o que fazem é aumentar o desequilíbrio entre Lisboa e o resto. É óbvio que acabam por sofrer com o mal nacional, e que transformando Lisboa num condomínio fechado criam em volta um círculo viciosamente crescente de favelas, que os vai matando, mas julgam que não. Será que a inteligência não lhes dá para mais?João Boavida
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September 5 2010, 11:52am | Comments »
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Praga de cérebros
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/praga-de-cerebros.html
É hoje publicado no Público um artigo da autoria da jornalista Andrea Cunha Freitas com o título "Portugal está a travar a fuga de cérebros". Ou, se seguirmos a ligação da página principal, o título muda para uma versão mais contida: "Portugal tem novas armas para travar fuga de cérebros".Quero começar por dizer que este trabalho não é fácil de fazer, por uma razão: faltam muitos dados. Não há nenhuma entidade que tenha por exemplo o número rigoroso de bolseiros de investigação em Portugal. E que até começa bem, sendo motivado pela verificação da afirmação repetida do Ministro Mariano Gago, de que Portugal consegue travar a fuga de cérebros de um modo exemplar.O meu comentário a algumas passagens do texto:"O PÚBLICO pediu ao Ministério da Ciência números que permitissem concluir até que ponto temos evitado a "fuga de cérebros". Na resposta, entre outros dados, o ministério referia que, desde 1994 até 2008, a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) concedeu mais de 4500 bolsas de formação avançada no estrangeiro (incluindo bolsas de doutoramento e pós-doutoramento) e ainda mais de 4000 bolsas de doutoramento mistas, que implicam períodos de formação e de investigação em Portugal e no estrangeiro."O universo aqui definido é restrito aos bolseiros que tiveram bolsas no estrangeiro ou mistas. Deixam de fora os investigadores que nunca tiveram uma bolsa em Portugal (ou seja, que "fugiram" directamente a seguir à licenciatura) e os que tiveram bolsas que não incluem um período de formação no estrangeiro."E quantos voltaram? "Os dados disponíveis de inquéritos a ex-bolseiros da FCT mostram que a esmagadora maioria desses ex-bolseiros desenvolve actividades em Portugal", refere apenas o ministério."Uma evocação vaga acerca de dados disponíveis (serão dados suficientes e adequados ou apenas disponíveis? E já agora quais?) e uma conclusão subjectiva (uma esmagadora maioria são 70%? 98%?). E, mesmo a ser verdade, seria a esmagadora maioria de um universo restrito que de modo algum é o universo a considerar para avaliar a fuga de cérebros."Assim, na ausência de números oficiais que mostrem de forma clara a relação entre os investigadores que saíram e os que voltaram, há sinais importantes. Vamos a exemplos."Ou seja: na ausência de dados objectivos que permitiam tirar a conclusão que é o título deste artigo, vamos a exemplos. E, no campo dos exemplos, tenho a informar que 2009 foi em Portugal o ano em que nasceram mais crianças em Portugal desde sempre. Não só eu próprio fui pai, como vejo um sem número de carrinhos de bebés na rua, em que nunca antes tinha reparado, o que me leva a concluir que estamos perante um Big Bang demográfico.Os exemplos dados são duas fundações privadas, um programa que não conheço (mas que tem um universo de 17 investigadores), o laboratório ibérico de nanotecnologia (ciência da moda) e um centro de biotecnologia em Cantanhede. Os quatro casos que conheço são sem dúvida bons exemplos, mas bastante atípicos.Acompanham este artigo, um conjunto de outros que apresentam vários exemplos de investigadores portugueses que optaram por ficar no estrangeiro ou que regressaram a Portugal. Subscrevo interiamente as palavras de António Coutinho, presidente do Instituto Gulbenkian de Ciência:"Mas, mais do que se são portugueses ou não, interessa-nos que sejam bons e tenham o espírito de construir alguma coisa."
April 25 2010, 9:24am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
CO2 é o prato sujo e lambido da energia
http://dererummundi.blogspot.com/2010/04/co2-e-o-prato-sujo-e-lambido-da-energia.html
A razão pela qual conseguimos obter energia a partir dos alimentos e dos combustíveis é a mesma: electrões. Há coisas que têm mais electrões do que outras e, tal como numa barragem em que uma coluna de água de um lado tem tendência a passar para o outro movendo uma turbina para produzir energia, os electrões também têm tendência a passar das moléculas onde estão em maior abundância para outras em que estão menos concentrados. É isso que são os açúcares: uma espécie de albufeiras de electrões. E, tal como nas barragens, as células também têm uma espécie de umas turbinas e conseguem aproveitar a energia contida nessa transferência de electrões. Através da respiração celular, os electrões dos açúcares e de outros alimentos são entregues ao oxigénio, formando-se água que é depois expelida pelos pulmões ou transpirada (isto, no caso da respiração aeróbica).Com os combustíveis é mais ou menos a mesma coisa. Com a diferença de que a respiração celular é um processo bem mais eficiente do que a combustão, uma vez que a oxidação dos alimentos é mais gradual e permite aproveitar melhor a energia (que em vez de ser libertada na forma de calor é convertida em ligações químicas que libertam energia quando são quebradas). Na combustão é muito simples: o combustível é queimado, ou seja os electrões dos hidrocarbonetos são passados rapidamente ao oxigénio, e liberta-se calor.O que sobra tanto na combustão como na respiração celular, para além da supramencionada água, é o dióxido de carbono. No caso das nossas células acaba por ser expelido pelos pulmões. No caso dos carros é enviado para a atmosfera pelos tubos de escape, para causar o aquecimento global e essas coisas. A combustão nem sempre é completa: por exemplo da queima de lenha numa lareira sobram sempre resíduos sólidos, que são produtos de combustão incompleta. Mas o peso das cinzas nunca é o mesmo da lenha que lhes deu origem. A diferença de peso está no ar, na forma de dióxido de carbono e água.Tudo isto para concluir que o dióxido de carbono, no que diz respeito à energia, é o fim da linha. São as espinhas, o prato sujo e lambido. Daí a minha surpresa, quando li no Expresso desta semana os seguintes títulos:"CO2 pode ser combustível""Os cientistas dizem que é possível transformar o CO2 emitido numa grande fonte de energia"Lendo o artigo, é explicado o processo. Passo a transcrevê-lo tal como vem do Expresso de 27 de Março:"Como reciclar o dióxido de carbono1. O excesso de electricidade gerado pela renováveis e pelas centrais nucleares à noite, quando o consumo é menor e o preço é mais baixo, é usado para fabricar hidrogénio por conversão directa, por electrólise (separação do hidrogénio e do oxigénio) da água do mar e da água quente das centrais nucleares.2. As centrais termoeléctricas e a grande industria (cimento, petroquímica, adubos, aço, queima de resíduos) produzem grandes quantidades de CO2 que são depois capturadas por unidades de absorção instaladas junto às fábricas.3. O hidrogénio e o CO2 produzidos são combinados em reactores químicos. Daí resultam gás sintético (syngas), combustível automóvel sintético (synfuel), metanol (que pode ser convertido em synfuel ou em olefinas como o etileno, um gás) e combustível para as centrais termoeléctricas.4. A combustão de todas estas fontes alternativas de energia de origem fóssil provoca novas emissões de dióxido de carbono, mas as geradas pelas centrais termoeléctricas e pela grande industria são recicladas de novo. "Ou seja, a verdadeira fonte de energia é o hidrogénio (que devolve electrões ao dióxido de carbono, já que é um potente redutor), cujo fabrico requer grandes quantidades de energia (a tal gerada pelos excessos das centrais nucleares e energias renováveis). Este processo é sem dúvida uma maneira de reutilizar o dióxido de carbono, mas o dióxido de carbono NÃO "pode ser combustível", NEM "transformado numa nova fonte de energia". Pois é preciso gastar energia para que um produto de transformação do dióxido de carbono possa ser usado como combustível. É um pouco como tentar vender uma "fonte de dinheiro" por 25€, quando essa "fonte" poderá dar no máximo 20€. Não é uma verdadeira fonte.A tecnologia descrita é no fundo uma reutilização de átomos de carbono, que acabam por ser queimados novamente, libertando novamente CO2. Ou seja, o mesmo CO2 é emitido várias vezes (vai sendo reabastecido com electrões). Mas isso é diferente do CO2 ser uma fonte de combustível, porque a energia não está no CO2. Queimar CO2 seria um milagre (e os milagres têm uma fiabilidade duvidosa).As plantas, através da fotossíntese, conseguem capturar o CO2 da atmosfera e transformá-lo em moléculas ricas em energia. Mas a origem dessa energia não está no CO2, mas sim num fotão que vem do Sol.
April 1 2010, 5:56am | Comments »








