Não era a primeira vez que estávamos a um metro um do outro, mas não nos conhecíamos pessoalmente. Cumprimentou-me, tinha o trabalho de casa feito, sabia quem eu era. Esse é um dos seus pontos fortes. Fixa o que lhe dizem, é rápido, rapidíssimo, um segundo e trata o blogger pelo nome e, tendo dele alguma referência anterior, mete-a na conversa. Espreitou pelo canto do olho o dístico com o nome? É claro que sim, mas fê-lo uma vez e sem se dar por isso. 20 bloggers, 4 horas a responder, enganou-se uma vez. Deve ser fácil de “brifar”. Que não, respondi eu sem falsa modéstia, não sou assim tão popular, tenho — como o senhor Primeiro Ministro — um bom lote de pessoas que me detestam por alguma razão, as mais das vezes inventada. (Ao contrário dele, que tem mais que fazer, eu não deixo os meus “inimigos” sem alimento. Feed the troll. Sede compreensivos, fazem parte do ecosistema.) Ao longo da sessão fixo alguns detalhes. Deve ter uma memória prodigiosa. Em quase quatro horas não puxou de um papel, não se socorreu de um dossiê — e debitou relações e números como quem bebe água. Bebeu água, a propósito. Pouca. Houve uma altura, aí entre a 15ª e a 16ª pergunta, o cronómetro nas 3 horas e o meu Mac a pedir emprestada energia ao cabo do Rui Grilo, em que me pareceu com a boca seca e um ar cansado. Preparei-me para uma pausa maior — mas qual, recuperou no segundo seguinte. O secretário-geral do PS e recandidato a Primeiro Ministro gosta de falar. Usando a frase de um próximo, dá-se bem no registo de proximidade. Fica melhor que na televisão e no soundbyte. Gosta de conversar e tem ideias, uma visão, uma linha. Aquela cena do político executivo, que é algo geracional, do PM-regisconta, não se aguenta 3 minutos: dou por mim à procura, no google da cabeça, de líderes do século passado, homens apaixonados pela política, para comparar, re-encaixar, etiquetar. Bem sei que estamos numa acção que para ele é de pré-campanha; não vê os bloggers como vê os jornalistas — ou talvez seja porque está disposto a um diálogo generoso, para (tentar) corrigir a má imagem do seu passado com “a blogosfera” (aspas minhas; se há altura em que não se deve generalizar, é esta a altura. Um blogger não são bloggers). Ou então está só bem disposto e tem tempo. Escuta atenta e pacientemente as perguntas — outra surpresa, Sócrates na televisão parece impaciente, irritado até, ou irritadiço. Por duas vezes eu próprio me perco, mas afinal qual é a pergunta, mas Sócrates não. Com uma Futura de feltro grossa — má escolha de caneta, acharei eu — toma notas de uma frase, duas palavras, um nome. Desavergonhado, espreito de soslaio. São miras técnicas: da pergunta apanha, com um treino que me deixa admirado, parece treino de jornalista, os termos chave que indicam o tema. Setas a balizar a sua resposta. Depois, nem as olha. Faz-me lembrar as minha cábulas no liceu. Uma vez escritas, pequenos papelinhos que iria esconder nas mangas, botas e livros ficavam inúteis: escrever serve os olhos fotografarem, o cérebro depois enquadra. Surpreso, eu, no final, muito para lá do final: Jorge Seguro Sanches falara-me em hora e meia, hora e três quartos e íamos nas 3 horas e um quarto de diálogo quando se conclui a primeira ronda e lhe pergunto se quer continuar, tinha ficado um par de questões pendentes, e vou dizer, mais uns 5 minutos, 1 pergunta?, Sócrates antecipa-se e propõe, naquela voz Ricardo Araújo Pereira, mais meia hora, 15 minutos, Paulo Querido. Está tudo ao contrário, desisto e olho cúmplice para a minha Ana. Vamos lá a isto. Do que ele disse retenho o que mais me interessa. Gostei de ouvi-lo dizer que a sua geração (que é a minha, é quase 3 anos mais velho que eu) tratou mal os gays, assumindo um erro colectivo. Daqueles que envolvem uma dose de coragem e outra de convicção — ou ambas. A propósito de coragem e de convicção, a primeira é nele traço evidente há muito, a segunda ressalta de facto mais na proximidade, ambas explicam a sua resistência e a resiliência no cargo, numa legislatura maldita que arrasou outros ministros e careceu de uma remodelação. Encolheria os ombros se me lesse: Sócrates olha pouco para o leite derramado lá atrás. Adiante. Penso que as reformas na educação, sendo imperfeitas, eram necessárias e julgo que o seu sucesso se mede na proporção do ódio que geraram, um ódio corporativista. Mas das reformas geralmente só se percebem resultados concretos, para além das irritações cutâneas dos sectores, passados alguns anos, uma ou duas legislaturas depois. Mais lentas em áreas onde a demografia tem um papel. E entretanto quem as faz é punido pelo eleitorado, que na sua maioria detesta reformas e não as compreende (são sempre as minorias que as pedem). Os professores são, bem vistas as coisas, os únicos inimigos realmente organizados do PS. E temíveis, pude recomprovar no rescaldo da BlogConf. O resto é guerra de guerrilha. Estou com ele na insistência no Estado como motor da economia — embora desconfie que estou um bocadinho menos, a minha costela anarca gosta do Estado magro e bem passado. Mas num país com rarefacção crónica de elites, onde quem é capaz pouco desenvolve e muito aproveita, onde o Estado sempre foi, e é, visto como o pai protector mesmo por aqueles que reclamam contra, e numa crise que mais encolheu uma classe empresária já de si alérgica ao risco e ao empreendimento e favorável ao encosto e à pedinchice, se não for o Estado a mola, o agente provocador, quem será? A meia dúzia de excepções à regra ficam bem na fotografia para dar o exemplo e vender revistas com capa de luxo, mas não chega para fazer carburar o país. A alta finança já indicou, claramente, ser favorável à opção do TGV e eu suspiro de alívio. Duas vezes: uma por Sócrates, que isso o ajude na função, e outra por mim, que quero ver o país reforçar as linhas que o ligam à Europa. A vocação atlântica é muito bonita e tal e romântica e assim, mas o isolamento persistente é a razão primeira do nosso atraso face à Europa e insistir nele é má ideia, sejam quais forem os argumentos usados. Tenho dúvidas sobre o aeroporto. Não quero mais estudos — ou por outra: não quero mais estudos dos mesmos, mas nunca vi levado em linha de conta o futuro da aviação comercial. É, no mínimo, incerto. Não custava muito prever desde logo a hipótese de ter de mudar o desenho do aeroporto, os aeroplanos do ano 2025 não serão necessariamente os de hoje. Atrevo-me mesmo a dizer que não serão de todo em todo propulsionados como hoje. Prevenir é poupar. Termino com algo que me afasta do PS e da esquerda. A energia. Está tudo bem com as renováveis, sejam não convencionais (ondas, vento) ou convencionais (hídricas), os carros eléctricos (clap clap clap), tudo. E é pouco. E o problema é esse. Toda a energia é pouca. Eu tinha a secreta esperança de ver a opção nuclear em cima da mesa, para começo de conversa. José Sócrates foi claro: não entra na agenda. É pena.
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João Marques passando os olhos por... pauloquerido.net
#BlogConf 6: José Sócrates (e a política)
http://pauloquerido.pt/blogosfera/blogconf-6-jose-socrates-e-a-politica/
July 31 2009, 8:00am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... pauloquerido.net
#BlogConf 5: os bloggers
http://pauloquerido.pt/blogosfera/blogconf-5-os-bloggers/
Os bloggers aderiram como eu esperava e comportaram-se como eu esperava, quase à vírgula. Falo do universo ds presentes e inscritos, caberá a cada um de nós aceitar até que ponto uma fracção ínfima da blogosfera pode ser representativa dela. Foram correctos e educados. Dispunham de uma única pergunta, o que é um pouco limitativo e deixa à sorte algum papel: pode ser a pergunta mais feliz, u a mais infeliz. Os bloggers à partida mais críticos não foram, em regra, os mais contundentes nas questões. Não me surpreendeu. Por exemplo, já antes vira Rodrigo Moita de Deus (31 da Armada) preferir os assuntos laterais onde pudesse ter graça, ou apanhar a pessoa de surpresa, do que atalhar a direito. Mas as suas descrições em directo da BlogConf arrancaram-me um par de sorrisos, igualmente em directo, e por um triz não soltei uma gargalhada. Refiro ainda a atitude de João Gonçalves, porventura o blogger crítico mais cerrado dos presentes, e dos mais admirados pela ala direita e respeitado em geral. O seu artigo manteve-se fiel à linha do Portugal dos Pequeninos e não se importou de, uma vez não são vezes, “dizer bem de Sócrates” — mesmo sob pena dos leitores, identificados e anónimos, o zurzirem nos comentários pela blasfémia. Não lhe ofereci ajuda porque a dispensa, tem dedos para os aguentar e a mais um bando dos comentaristas a soldo que topo à légua, sobretudo porque não se preocupam em esconder o ferrete do barão que manipula os seus neurónios. Ouvi comentar, finda a sessão, que “afinal” os bloggers eram “macios”. Dois pontos? Em primeiro lugar, os bloggers estão habituados à crítica resguardada. Há um teclado, um rato e um monitor entre eles e o objecto da crítica. Não é a mesma coisa que fazer um face a face — ora, até um telefonema é mais complicado, comporta alguma exposição ao outro. Em segundo lugar, os bloggers não são inquiridores profissionais, como os jornalistas. Ou, vá lá, inquiridores regulares. Dispõem de poucas (ou nenhumas) ocasiões para realizar entrevistas. Refiro-me a entrevistas a pessoas com algum tipo de destaque, como os políticos em exercício ou candidatos, bem entendido. Uma escassa minoria tem algum tipo de acesso também escasso, outra minoria gostava de o ter e consegue projectar que o tem, como aqueles jovens adultos que contam aos amigos o empolado número de conquistas, e a imensa maioria não tem acesso algum. Sabendo disto, não me surpreendeu a verificação, mais uma vez, da suposta “cobardia” do blogger, um gigante a criticar refugiado atrás do teclado, mas incapaz de fazer a pergunta quente quando em presença do entrevistado. (Piora dez vezes quando o entrevistado é o Primeiro Ministro. Piora 50 vezes quando o Primeiro Ministro é José Sócrates.) Suposta e entre aspas porque não me parece que seja cobardia alguma. É apenas menor experiência e míngua de oportunidades. Até por isso, esta BlogConf foi — em meu entender — importante. Deu um passo mais à frente no caminho da normalização do papel do blogger no espaço do debate público, contribuindo para diminuir a sua dependência dos media tradicionais e dos jornalistas, que ainda dispõem de acesso privilegiado à classe política. Um caminho iniciado em eleições mais antigas, mas que teve passos firmes, finalmente, este ano, com uma reunião de Paulo Rangel com bloggers, a participação da líder do PSD num evento, e as transmissões directas do MEP — o partido praticamente feito “em cima” da Internet. Assumindo a abertura e o risco dos espaços não-controlados, a BlogConf foi mais longe que a mera acção de campanha e marcou o território comunicacional posicionando-se na zona das conferências de Imprensa. Com as quais, aliás, se virá um dia a misturar, acredito. Esperando que venham a realizar-se mais, no âmbito do PS bem como de outros partidos e entidades, sei que o naipe de bloggers que participou desta primeira BlogConf não se repetirá. Sei que melhoraremos os processos de inscrição e selecção, que são tremendos e complexos — basta ver as reacções das dezenas de bloggers que ficaram de fora e gostariam de ter estado lá para perceber que a blogosfera não tem dúzia e meia de publicações candidatas à acreditação ordeira: tem centenas a acotovelarem-se por um lugar. E sei que os próximos já estarão mais à vontade que estes para o face a face. Adenda: mentes cabalísticas afirmam, quando não insinuam, que as perguntas dos bloggers foram encomendadas. Julgam estar a insultar Sócrates. Não estão. Estão a insultar os bloggers presentes. E isso é mau. É desleal. Devo isto aos bloggers, para quem o evento foi concebido: as perguntas não foram sequer escrutinadas, antes da sessão ou já dentro dela, quanto mais encomendadas.
July 31 2009, 2:30am | Comments »
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#BlogConf 4: a maratona
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A maratona. Uma conferência inédita onde 20 bloggers de todos os quadrantes puderam inquirir livremente o candidato e Primeiro Ministro José Sócrates — e fizeram-no –, o homem dispôs-se e aguentou firme quase 4 horas, houve perguntas pertinentes e respostas que merecem atenção. Para a maior parte dos presentes, foi a primeira oportunidade de estarem tão perto de um governante recandidato e disporem da sua atenção exclusiva: Sócrates esteve sentado as 4 horas, não tocou nenhum telemóvel, nada o distraiu, falou a 20 pessoas pelo nome, enganou-se num deles.
July 30 2009, 2:00am | Comments »
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#BlogConf 3: o formato
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O formato. Francamente, acho um sucesso. Uma conferência aberta, de inscrição limitada apenas pelo espaço, é mais adequada para acções informativas — as minhas favoritas e as que considero mais úteis para todos. Por oposição, as conferências fechadas, para apoiantes, são mais adequadas a sessões propagandísticas — e as de que não gosto, e que considero somente úteis de um ponto de vista instrumental da comunicação. Recuperando analogias da política, a BlogConf é a vantajosa herdeira das sessões de esclarecimento, enquanto as reuniões com apoiantes e blogo-atiradores equivalem a comícios com sermão, liturgia e cânticos. Os problemas do formato são dois, ambos corrigíveis. A montante, é preciso cuidado na inscrição, ou na definição, dos participantes. Com a Comunicação Social é fácil: o número é menor, a estrutura é rígida e as marcas, conhecidas. Por oposição, na rede é difícil: o número é GIGANTESCO (e pior, hipersensível a qualquer tipo de exclusão, a começar pelo termo), a estrutura é fluída e as marcas, na sua maioria, desconhecidas. Optei por inscrição livre, limite por ordem de inscrição (a escolha do wiki teve também a ver com a facilidade dos timestamps, automáticos, e com a sua transparência, uma vez que todas as alterações, e quem as fez, são visíveis por toda a gente); a difusão em primeira mão pelos círculos próximos (distribuição viral, portanto) dava alguma garantia de não exclusão de blogs “emblemáticos”, ao mesmo tempo que não favorecia nenhum em particular e permitia aos mais interessados dos “não-emblemáticos” inscreverem-se. A parte a montante correu bem. É melhorável: aquele software de wiki é demasiado simplista, por exemplo, e é preciso uma alternativa, pois que reparei, com surpresa, que cinco anos depois do boom uma parte substancial dos autores web continua a não ter uma competência hoje básica: editar uma página de wiki. Se voltar a fazer uma destas, tomarei isso em conta. A jusante o problema está na quantidade de participantes e perguntas. Com profissionais de conferências informativas — com jornalistas — teríamos concluído a ronda de 20 perguntas dentro do tempo calculado: hora e meia, hora e três quartos. Com bloggers, foram mais de três horas, perto de 4. Porquê? Sentem-se: o problema esteve menos nos bloggers e mais em José Sócrates! Ao contrário do que é tradicional neles (apresentam em regra apetência por longas dissertações antes de perguntas triviais) os bloggers na BlogConf foram sucintos e rápidos. Mas foram também… pacientes. José Sócrates tem experiência de tribuno e gosta genuinamente do debate político. Entusiasma-se — e aí vai ele, lançado nas explicações ou entusiasmado nos projectos. 20 jornalistas teriam começado a levantar-se da sala, a olhar para o relógio, orelhas a arder dos berros do chefe, ao telefone. 20 bloggers tinham tempo e estavam a fazer história: ninguém arredou pé. Conclusão: é necessário doravante levar em consideração as características do sujeito inquirido e balançá-las com o número de perguntas, sob pena de a sessão se prolongar demais. Uma alternativa, suponho, é prever um curto intervalo (como às vezes acontece nas audiências da AR).
July 29 2009, 9:04am | Comments »
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Entrevista de José Sócrates à RTP: nuvem de reacções
http://pauloquerido.pt/politica/entrevista-de-jose-socrates-a-rtp-nuvem-de-reaccoes/
O Twitter veio dar uma nova dimensão aos grandes directos televisivos. A entrevista do Primeiro Ministro José Sócrates à RTP, na terça-feira à noite, registou uma nuvem de reacções sem precedentes. Contabilizámos 1.659 comentários por 244 autores usando a hashtag combinada para o debate público, que foi #entPM. Arquivei os comentários contabilizados aqui: http://cli.gs/entPM. Ficam abaixo as nuvens das reacções. A primeira diz respeito às palavras usadas nos comentários. A segunda contém os autores, sendo que o tamanho das palavras corresponde à frequência da repetição, isto é, quanto maior a palavra, mais vezes usada.
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April 23 2009, 3:55pm | Comments »
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O efeito Sócrates
http://pauloquerido.pt/politica/o-efeito-socrates/
Na Internet há o conhecido efeito Slashdot — o disparo nos acessos a um site quando este é referenciado por outro maior. <veneno>Em Portugal a coisa mais parecida que vi com o efeito Slashdot foi o patente pulo do Sitemeter do Causa nossa — o blog de Vital Moreira — em dias, sábado e domingo, em que devia estar na parte mais baixa da curva. Bem pode ficar na história deste invulgar ano político como “o efeito Sócrates”.</veneno>
March 6 2009, 4:16pm | Comments »
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E agora, Manuela? Como “desvitalizar” o PS?
http://pauloquerido.pt/politica/e-agora-manuela-como-desvitalizar-o-ps/
Penso ao contrário da “maioria” sobre o congresso do PS: passou-se ali de facto alguma coisa — e coisa importante. Algumas coisas, plural. O Partido Socialista deu o mote para o ano eleitoral. A estratégia dificilmente seria mais adequada, de tão realista. Por exemplo: vendo as sondagens com olhos de ver, sem o PSD como preconceito, é óbvio que a ameaça vem dos votos somados à esquerda pelos BE e PCP. Seria — desculpem a crueza — estúpido concentrar a artilharia pesada no adversário à direita que, histórico embora, erra pelo deserto do centro como um cadáver ambulante.
Não. Bazucas para Louçã — que de imediato agradeceu a lisonja, corado e sorridente, e suspirou de alívio pela “resolução” do seu problema a prazo, o confronto internamente com as vozes que lhe iriam pedir uma desconfortável aproximação ao governo. Assestar as armas grossas ao Bloco deixou o PSD a ranger os dentes. Simplesmente, não há palco para si. Nem nos temas das campanhas, nem sequer no coração do adversário. É uma amante velha, jogada para o lado. Resta-lhe o coro dos cronistas publicados e fiéis — isto se a imprensa não der um grande estoiro entretanto. Segundo tiro no porta-aviões: Vital Moreira. Com Vital o bordo esquerdo do PS troca o susurro pelo silêncio. Até Junho, garantidamente, mas com efeito prolongável por mais seis meses, o efeito-Vital serenerá mesmo o eleitorado “de esquerda” do PS que não simpatiza por ai além com o “centrista” Sócrates. Tem o seu pretexto para por 3 vezes meter a cruzinha à frente do símbolo rosa. Desde que nos media não aumente o nível da escandaleira, por ali (pela esquerda) este PS safa-se. Uma pitada de energia e a maioria absoluta ficará a descoberto desse lado. Vital é um (inesperado) trunfo pesado. Porque, pontualmente embora, colhe na frente de batalha com a direita. Não pelo lado do voto — não arrancará nenhum dali, mas esse é um trabalho para o secretário-geral, não para ele. Mas pelo lado da amedrontação, do jogo, da fasquia. Pois. Quem, justos céus, vai Manuela inventar para cabeça de lista? Tem de ser alguém com uma imagem pública de — ups, sorry! — credibilidade pelo menos à altura da imagem de Vital, o constitucionalista que mesmo os que são contra respeitam. Ora, na colecção de cromos mediáticos o PSD só tem 2 figuras de primeira estampa. Passos Coelho e — tcharam! — Marcelo, como superiormente lembrou Vasco Campilho em Lançar o lançador, e cito: “ninguém poderá contestar que Portugal ficaria soberbamente representado na Europa por alguém com a craveira intelectual de Marcelo Rebelo de Sousa. E na perspectiva mais que provável de uma renovação da maioria PPE, Marcelo poderia seguramente aspirar a um papel de destaque no Parlamento Europeu“. Até já há mote e tudo, lançado no Twitter há instantes: PSD tem o candidato ideal para “desvitalizar” o PS nas Europeias! Passos, lançado em pirueta por Marcelo, só se fosse louco é que aceitava trocar as livrarias de Bruxelas pelo frenesim de reconstruir o PSD, a tarefa que lhe vai cair no colo na noite das legislativas, se não for antes. Ná. A coisa é entre Marcelo e Pacheco Pereira. Sei que não é 1 figura com a imagem das anteriores e tem aquela discórdia com o partido. Mas a sua combatividade, ser repetente no cargo, capacidade retórica (contra Vital vai ter de ser assim) e o seu próprio interesse em voltar a Bruxelas recomendam-no sobre o professor. E para o partido — desculpem qualquer coisinha — era um alívio. Ora, o PSD tem usado Bruxelas para se aliviar, comprova a sua lista de cabeças de lista. Daqui para baixo não estou a ver nada que possa sequer sonhar em “desvitalizar” a campanha do PS. Dois singelos tiros, o primeiro disparado por António Costa, o segundo pelo próprio líder, foram suficientes, numa época de rarefacção de alvos, para cumprir o calendário político do congresso. O outro calendário, o de treinar a máquina, também terá sido cumprido. Suspeito que o PS vai surpreender nas campanhas com a sua juventude, em particular. Já a presença online… o começo do http://www.socrates2009.pt não foi o melhor. Se era para copiar Obama, podiam ao menos ter metido o discurso do líder online atempadamente. Tinha dado um jeitão. Quero com isto tudo dizer que o PS tem um tapete vermelho à frente? Qual, não. Apenas que o congresso teve muito mais interesse do que a maioria admitiu. Lançou o ano eleitoral, sendo o próprio PS a jogar ao ataque, quando devia ser o challenger a marcar o ritmo. Fê-lo com um trunfo pesado que resolve à esquerda e leva o nível à direita a uma altura que o PSD não poderá cobrir facilmente. Isto para começo de conversa e falando estritamente de política (há muito mais para avaliar em campanhas eleitorais, do desempenho às envolventes judiciais que este ano podem pesar). Sidenote. Achei descabido José Sócrates não ter ido à reunião dos líderes marcada pelo Presidente da Comissão. Por causa do congresso? De Falcon, no domingo de manhã, era um tirinho. (Foto do Congresso: Sara Marques)
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March 1 2009, 5:51pm | Comments »
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