Santo Agostinho, visitando Santo Ambrósio, na altura bispo de Milão, admirava-se por o encontrar sempre a ler silenciosamente e nunca de outra maneira: «Os seus olhos percorriam as páginas, e a mente penetrava o conceito, enquanto a voz e a língua repousavam» [Confissões, VI, 3, 3]. Agostinho não compreendia a razão deste silêncio: para evitar ter de explicar a um auditor as passagens difíceis, para poupar a voz maltratada pelas prédicas? É que, desde a Antiguidade, a leitura não se concebia senão em voz alta, em público, mas também em privado, quer fosse um escravo a ler, quer o próprio. A leitura silenciosa difundiu-se nos mosteiros, por volta do século VI, para fazer reinar o silêncio e respeitar o repouso dos outros à hora da sesta, que era também a hora da leitura pessoal. Assim, S. Benedito recomenda na sua regra: «Se alguém quiser, eventualmente, ler para si, que leia de modo a não incomodar ninguém» [Regula, XLVIII]. O nosso modo corrente de leitura tem portanto origem nas primeiras comunidades monásticas, e a norma inverteu-se desde a Antiguidade: então em voz alta; em voz baixa - ou sem voz? - hoje. Subsiste na língua a marca dessa inversão, nessa curiosa oposição voz alta / voz baixa para designar a da presença e ausência da voz. Como se a voz baixa fosse outra coisa além da ausência de voz, e ler silenciosamente fosse diferente de baixar a voz. Como se a leitura devesse necessariamente fazer-se acompanhar pela voz ou, pelo menos, pelo movimento dos lábios e da língua. Donde, finalmente, essa estranha fórmula da pronúncia mental a que se entrega aquele que não mexe nem a língua nem os lábios, e que representa o ideal da leitura adulta que também não segue com o dedo.Desde a Antiguidade, da voz alta à voz baixa e à extinção da voz, foi uma espécie de desencarnação da leitura que se operou, uma redução da parte do corpo, uma ocultação do acto da leitura, do gesto: imóvel, silenciosa, solitária, já não tem existência carnal, é imediatamente espiritual. Ao contrário da cabeça de leitura mecânica que só afecta o plano da expressão, curto-circuita e, idealmente, vai imediatamente ao plano do conteúdo, ou seja, do sentido. Trata-se de uma leitura pura, imaterial, funcional. Tal é o modelo cristão da leitura, sem fruição, uma leitura que não passa pelo corpo; do livro ao espírito, pela transparência do olhar, uma leitura limpa, sem contacto.Esta neutralização da leitura - a eliminação da voz e do corpo, o curto-circuito do significante -, S. Benedito apresentava-a como um simples artificio, uma imposição da vida em comum; não encarava diferença funcional entre a leitura silenciosa e a leitura indiscreta. Mas não foi preciso muito tempo para que o apagamento do corpo na leitura fosse racionalizado. A partir do século VII, Isidoro de Sevilha, nos seus Sententiarum libri tres, tenta mostrar que a lectio tacita favorece a inteligência do texto, ou seja, o acesso imediato ao sentido, ao significado, sem se perder, sem se comprometer no significante: «Aos sentidos é mais grata uma leitura silenciosa. O intelecto está mais receptivo se a voz de quem lê se cala e a língua se move em silêncio; se, pelo contrário, se ler em voz alta, o corpo cansa-se e a voz enfraquece» [111, 14, 9, in Migne, Patrologia latina, LXXXIII, 689].LEITURARoland Barthes e Antoine Compagnon, in Enciclopédia EINAUDI, Lisboa, INCM, Vol. 11, pp. 184-206
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A Leitura e o Desejo
http://terrear.blogspot.com/2010/02/leitura-e-o-desejo.html
February 24 2010, 1:32pm | Comments »
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Leitores e Leituras
http://terrear.blogspot.com/2009/06/leitores-e-leituras.html
O texto infra, da autoria de António Vilas-Boas, foi colocado no moodle de uma escola cujos professores estão em formação para os levar a partilhar leituras através deste meio e para que depois levem esta prática para os alunos. Caras colegas, caros colegas, alguém disse que um livro que não sentimos necessidade de ler duas vezes nem mereceu ser lido uma. Passe o exagero, com a idade vou concordando cada vez mais. Assim, quero hoje apresentar-vos um livro que já li várias vezes, só nos últimos 10 meses li-o 4, 5, 6 vezes...Se com isto não chamei a vossa atenção, então nada chama!Não esperem que vá já dizer o nome, imaginem que o tenho na mão mas não mostro a capa... Mas mexo no livro, acaricio-o pois a capa é de textura agradável ao tacto, sopeso-o e admiro-me com a sua leveza e o seu formato, abro-o, espreito algumas ilustrações - sim, este livrinho tem ilustrações...Leio aqui ou ali o nome de uma cidade, Paris, mas as personagens têm nome bem português, Jacinto, Zé Fernandes, Vicência, folheio mais e ouço um comboio a parar na Régua, ando para trás umas páginas e leio que Portugal cheira bem, espreito outra e vejo o Douro, o rio, os socalcos...Li este livro assim, saltando páginas, nos últimos meses, só a primeira leitura a fiz de enfiada, depois saltitei pelo livro, por Paris, mas principalmente pela paisagem portuguesa do Douro, encantei-me com a gastronomia do nosso povo, com as simples favas, ou o galo - no prato - ou o vinho a saltar da infusa para os copos: tudo tão português...O livro, como já sabem, é a Cidade e as Serras de Eça de Queirós, e quis hoje partilhá-lo um pouco convosco, por necessidade de falar do que leio e gosto e também para vos provocar a deixar aqui um testemunho de um livro lido e amado: no presente, no passado, na infância...Para que um dia destes tragam também para aqui os vossos alunos, já se vê !
June 25 2009, 5:08am | Comments »
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Da Alegria de Escutar, de Ler, de Responder, de Conversar, de Ser
http://terrear.blogspot.com/2009/03/da-alegria-de-escutar-de-ler-de.html
Obrigado, também.
March 4 2009, 5:37am | Comments »
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Roda Pé
http://terrear.blogspot.com/2008/12/roda-p.html
December 31 2008, 6:03am | Comments »
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Se numa noite de inverno
http://terrear.blogspot.com/2008/12/se-numa-noite-de-inverno.html
Começava assim o romance de Italo Calvino, aqui evocado.
Hoje completo o círculo e inscrevo o final:
Décimo-segundo capítulo Agora são marido e mulher, Leitor e Leitora. Uma enorme cama de casal acolhe as vossas leituras paralelas. Ludmilla fecha o livro, apaga o candeeiro do seu lado, abandona a cabeça na almofada e diz: - Apaga também a luz. Não estás farto de ler?E tu: - É só mais um
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December 16 2008, 4:40am | Comments »
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Comunidade de Leitores
http://terrear.blogspot.com/2008/12/comunidade-de-leitores.html
A propósito do post com desdobrável sobre a comunidade de leitores promovida pela Biblioteca da Câmara Municipal de Gondomar, um comentário de Dolores Darrido: Vi no Terrear o desdobrável de umas das sessões da Comunidade de Leitores na Biblioteca Municipal de Gondomar. Como participante, gostaria de dizer que tem sido muito bom passar o serão de quarta-feira, de quinze em quinze dias,
December 5 2008, 3:06am | Comments »
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