O título de cima é o de uma obra, da autoria da professora de Literatura da Universidade de Coimbra Maria Helena Santana, que foi publicada em 2007 na Imprensa Nacional e que acaba de ser premiada pelo Pen Club na categoria de primeira obra (juntamente com o romance "Niassa", do jornalista Francisco Camacho, saído na editora Babilónia).De facto, Maria Helena Santana já tinha supervisionado as edições críticas de "Textos de Imprensa VI", de Eça de Queiroz, e "O Arco de Sant'Ana" de Almeida Garrett, os dois saídos na Imprensa nacional, mas este grande volume (569 páginas) é a sua primeira embora própria. Trata-se da tese de doutoramento efectuado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob a supervisão da Professora Ofélia Paiva Monteiro.O subtítulo "A narrativa naturalista e pós-naturalista portuguesa" define melhor o objecto do seu estudo. Tomando como "corpus" a literatura portuguesa daquele tipo entre 1870 e 1910, onde pontificam nomes como Eça de Queirós e Fialho de Almeida, analisa a sua intersecção com a ciência da época, marcada pelas ideias darwininistas e positivistas. Agora que estamos a entrar no ano Darwin este livro é muito útil para ver como as ideias do naturalista inglês foram vistas, entre nós, pelo prisma da literatura.A introdução deste livro, que está muito bem escrito e se lê muito bem, apresenta a "Literatura e ciência ou as duas culturas", nela defendendo o seu ponto de vista sobre a questão levantada por C. P. Snow. É natural que a autora se coloque do lado da literatura, nomeadamente quando escreve:"Admitindo que a razão dialéctica pertence aos vencedores, dificilmente alguém poderá contestar, como dizíamos, a vitória da cultura científica e a relativa marginalização da cultura literária."Esta e outras afirmações nos fornecem-nos matéria para pensar... Eu, por exemplo, e aceitando de momento sem discussão conceitos de cultura que são muito discutíveis, penso que a cultura científica está entre nós tão marginalizada como a cultura literária. Ou talvez até o esteja menos se atentarmos no espaço consagrado pelos media aos Prémios Nobel da Ciência e ao Prémio Nobel da Literatura.No fim dos livros, para algum leitor indeciso perante uma eventual dicotomia entre a ciência e a literatura, a autora faz a apologia da última:"Nenhuma teoria científica nos fornecerá a chave da natureza humana, como nenhum sistema de pensamento nos dará respostas definitivas sobre a ordem do universo. Mas se da ciência do passado apenas se guarda a história ou o pitoresco, alguma literatura permanece viva e desafiadora. Porque interroga o mundo livremente, a partir de um ponto de vista individual, a verdade estética não tem que submeter-se à verificação, apenas ao julgamento dos seus leitores. O tempo corre a seu favor".Este livro, justamente premiado, é inovador por ser dos poucos que, entre nós, debate o diálogo que, ao longo da nossa história, teve lugar entre as ciências e as artes. É um livro que ajuda a fazer cultura científica. Parabéns Maria Helena!
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LITERATURA E CIÊNCIA NA FICÇÃO DO SÉCULO XIX
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October 12 2008, 11:55am | Comments »
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SARAMAGO E HEISENBERG
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Com a devida vénia, transcrevemos do "Diário de Notícias" de hoje o excerto da crónica de Alberto Gonçalves que tem o título que está em cima:"E o Nobel da Literatura foi para… Jean-Marie Le Clézio. Não conheço, excepto de nome. Mas não me teria custado colher três informações alusivas ao homem e escrever aqui que Le Clézio, presença tão arredia quanto vital nas letras francesas contemporâneas, é um humanista inquieto na geografia e na consciência, cuja consagração tardava. Em princípio, a fraude passaria impune, no sentido de ser improvável que, na volta do e-mail, eu fosse acusado de ignorância acerca da criatura e respectiva obra.Suspeito, porém, que não haveria impunidade se me dedicasse a comentar os vencedores dos Nobel da Física, Química ou Medicina. De alguma forma, não é suposto interferirmos nos arranjos da ciência com a leveza que emprestamos ao juízo literário. Porquê? Porque é que não temos opinião sobre o que influencia materialmente as nossas vidas e estamos cheios de opiniões sobre o que, na maioria dos casos, nem as toca?Apetece responder "porque é mais fácil", o que explica tudo menos a origem da facilidade. Há meio século, o cientista e escritor britânico C.P. Snow explicou-a. A tese das "duas culturas", isto é, da absurda (no entender de Snow) separação entre as ciências e as "humanidades", quer no ensino quer na prática, talvez esteja datada e será hoje polémica. Mas o fosso permanece e, a avaliar pelo embaraço com que o cidadão medianamente letrado confessa nunca ter lido o King Lear, as "humanidades" ganharam. Ninguém, ou quase ninguém, finge familiaridade perante o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Frequentemente, até se ignora a evolução científica com uma ponta de orgulho.É por isso que as televisões correm para as livrarias a inquirir anónimos após o anúncio do Nobel da Literatura e ficam quietinhas aquando dos prémios "técnicos". Seria estranho perguntar a um transeunte o que pensa do desenvolvimento da Proteína Fluorescente Verde (o Nobel da Química deste ano). E seria adequado eu proceder agora a uma exposição detalhada do tema, mas francamente só percebi que os palermas dos suecos se esqueceram outra vez de Philip Roth."Alberto Gonçalves
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October 12 2008, 8:51am | Comments »
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ALGUMA FICÇÃO RECENTE
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Na "rentrée" os escaparates das livrarias têm mais novidades. Eis meia dúzia de novidades de ficção que me chamaram a atenção e que irei ler quando tiver tempo (aparecem por ordem alfabética do autor):- John Darnton, "A Profecia de Neandertal", Casa das Letras, 2008.Um jornalista do "New York Times", prémio Pulitzer e irmão do professor bibliotecário de Harvard Robert Darnton, depois do êxito que foi romance "O Pecado de Darwin" (a ler ou reler no ano Darwin que se avizinha) conta-nos uma história de um antropólogo de Harvard, que faz uma descoberta inesperada na Ásia Central...- Jill Gregory e Karen Tintori, "O Último dos Escolhidos", Gradiva, 2008.Uma história escrita a quatro mãos que mistura cabala e seitas secretas com assuntos da actualidade como as guerras no Afeganistão e no Iraque.- Will Lavender, "Aula de Risco", Difel, 2008.Um "thriller" psicológico que mistura imaginativamente uma aula universitária de lógica com um crime, que é o primeiro livro do norte-americano seu autor. O título português é algo imaginativo pois o original, que entrou na lista de "best-sellers" do "New York Times" intitula-se "Obedience".- Aquilino Ribeiro, "O Galante Século XVIII. Textos do Cavaleiro de Oliveira", Bertrand, 2008.O grande mestre português da escrita parte aqui de textos do Cavaleiro de Oliveira, um dos famosos estrangeirados do século XVIII que a Inquisição queimou em efígie. O prefácio é do escritor Baptista Bastos. Lembre-se que Aquilino é também autor de um romance sobre outro autor perseguido do tempo do barroco "Anastácio da Cunha. O Lente Penitenciado". A capa é feia: como é possível?- Georges Steiner, "Anno Domini", Gradiva, 2008O conhecido ensaísta nascido em Paris que tem ensinadoi nas melhores universidades do mundo, e que esteve há pouco em Lisboa numa iniciativa da Gulbenkian (ver "A Ciência terá Limites?", Gulbenkian e Gradiva) faz aqui mais uma das suas saborosas incursões pela ficção. Tradução de Miguel Serras Pereira.- Neal Stephenson, "Odalisca", Tinta da China, 2008.Terceiro volume do "Ciclo Barroco" deste consagradíssimo autor norte-americano de ficção científico-histórica (ver última "Wired"), que aparece depois de "Argento Vivo" e "O Rei dos Vagabundos", ambos já publicados pela Tinta da China. A acção passa-se no século XVII e na galeria de personagens estão o rei de Inglaterra Carlos II e a sua consorte portuguesa, D. Catarina de Bragança. Também aparece Isaac Newton, de cujas obras foram retirados alguns desenhos geométricos que aparecem no romance.
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October 6 2008, 6:23pm | Comments »
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CULTURA CASMURRA
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Que a cultura não tem sido particularmente bem tratada na Câmara Municipal de Coimbra é ilustrado pela recente mudança de nome da Praça Machado de Assis, que homenageava o grande escritor brasileiro, um dos maiores da língua portuguesa, pelo nome de Praça Fausto Correia, que homenageia um político local, infelizmente já falecido, e desconhecido lá fora. Pois tal alteração "casmurra" foi feita no dia da cidade (4 de Julho) e no ano em que no Brasil e em Portugal se celebra o centenário da morte de Machado de Assis... Quem não acreditar veja notícia aqui.Qualquer outra praça ou rua nova serviria para colocar o nome do político local. O pormenor mais extraordinário é a mudança ter sido justificada por Fausto Correia costumar frequentar um café naquela praça. Ah, é isso: Machado de Assis nunca lá tomou café!Pois eu continuo a chamar Machado de Assis à praça que agora foi despromovida, tal como continuo a chamar Ponte Europa à ponte que despromoveram em Ponte Rainha Santa. Já houve um político português que agradeceu um livro de Machado de Assis que a editora lhe enviou - não sei se foi o "Dom Casmurro" - apresentando os seus melhores cumprimentos ao Senhor Machado de Assis. Não quero acreditar que os políticos à frente do município coimbrão não saibam quem foi o autor de "Dom Casmurro".
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September 30 2008, 2:39pm | Comments »
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SAGAN E O PÊNDULO DE FOUCAULT
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Na sequência do meu texto, com João Fonseca, sobre o pêndulo de Foucault: Carl Sagan, no seu romance de ficção científica "Contacto", faz uma referência curiosa ao pêndulo de Foucault. O contexto em que se situa a referida referência é o seguinte: a directora dum grande observatório astronómico, projectado para procurar inteligência extraterrestre, trava uma calorosa discussão com um clérigo fanático, após ter sido detectado um sinal vindo da estrela Vega. O tema da discussão é "Ciência e Religião". A directora do Observatório considera a religião algo de muito perigoso e o padre pensa o mesmo da ciência. A esta altura, a directora usa o pêndulo de Foucault para argumentar contra o padre. Este afirma:"A minha fé é tão forte que não preciso de provas, mas, sempre que surge um facto novo, ele confirma simplesmente a minha fé."Responde a directora:"(...) Ofende-me a ideia de que estamos a travar uma espécie de campeonato de fé e o senhor é o vencedor fácil. Tanto quanto eu saiba, nunca pôs a sua fé à prova. Está disposto a pôr a sua vida em jogo pela sua fé? Eu estou disposto a fazê-lo pela minha. Olhe, espreite por aquela janela. está ali um grande pêndulo de Foucault. O pêndulo propriamente dito deve pesar mais de 220 kg. A minha fé diz que a amplitude de um pêndulo livre - até que distância se afastará da sua posição vertical - nunca pode aumentar. Só pode diminuir. Estou disposta a ir lá fora, colocar o pêndulo defronte do meu nariz, largá-lo, deixá-lo afastar-se e voltar de novo na minha direcção. Se as minhas convicções estão erradas, levarei com um pêndulo de mais de 220 kg em cheio na cara. Então, quer pôr a minha fé à prova?"
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September 29 2008, 4:45pm | Comments »
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"É contruir a Torre de Babel para chegar ao céu"
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Extracto da entrevista de António Mega Ferreira (AMF), escritor e presidente do Centro Cultural de Belém (Lisboa), no último "Jornal de Letras" (JL): "JL: Mas tinha as gavetas cheias de cadernos de apontamentos, com poemas, passagens, ideias, projectos literários? AMF: O escritor é um grande reciclador. (...) Integrei neste livro ["A Blusa Romena"], por exemplo, um texto sobre Espinoza que tinha publicado há uns anos. Ocorreu-me porque definia bem aquilo que era a perplexidade da personagem perante a ideia de Deus. E que tinha a ver com a ambição divina do criador, daquele que quer opôr uma ordem, dar forma a uma série de coisas e onde há o Caos criar o Cosmos. JL: A Ciência vai experimentar esse gosto divino com o grande acelerador de partículas... AMF: E os recursos que se mobilizaram para fazer aquela máquina extraordinária e perceber como foi no princípio. Leio as descrições maravilhado. Como é possível construir uma coisa com aquele diâmetro, debaixo de uma país? JL: Interessa-se pela Ciência? AMF: Sim, fascina-me. Não me intimida nada, nem aquelas questões da clonagem. Mas há uma parte de descobertas científicas que não compreendo. Leio, leio, mas não chego lá. No caso do acelerador de partículas, compreendo qual o processo e o interesse. É construir a Torre de Babel para chegar ao céu. Ao contrário de muita gente, não acho nada inútil. Tentar compreender o mais possível é aquilo que nos distingue das outras espécies à superfície da Terra. E queremos saber mais e mais. JL: A Literatura é também para si uma forma de compreender o mundo? AMF: Mais de o interrogar. Os grandes romances não trazem respostas, interrogam, põem em causa, desestabilizam, inquietam, insinuam. O romance é uma máquina de interrogação do mundo."
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September 29 2008, 4:10pm | Comments »
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NAS ENTRELINHAS DE MACHADO DE ASSIS
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Vale a pena ler a crónica de Nuno Crato do último "Expresso" sobre o escritor brasileiro Machado de Assis, no "Blogue Auxiliar" do Carlos Medina Ribeiro: aqui. Nuno Crato escreve agora sobre ciência (e não só) no caderno principal do "Expresso" com mais espaço do que tinha na revista "Única".
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September 29 2008, 4:04pm | Comments »
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"Entre Camões e Vieira"
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No dia 30 de Setembro, a Universidade de Coimbra volta a associa-se às comemorações do Ano Vieirino com a realização de um Colóquio intitulado Entre Camões e Vieira, organizado, em parceria, pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, o Centro de Literatura Portuguesa e o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. O local será a Sala de São Pedro da Biblioteca Geral.Nele intervirão Aníbal Pinto de Castro, Carlos Ascenso André, Rui Figueiredo Marcos, Martim de Albuquerque; Telmo Verdelho e Belmiro Pereira.De tarde terá lugar a Falação do 'Sermão da Sexagésima' e, no final do dia, haverá um concerto de música seiscentista, na Capela da mesma Universidade.PROGRAMA9h30 - Sessão de Abertura10h00 - Aníbal Pinto de Castro (Univ. Coimbra): Vieira leitor de Camões e Carlos Ascenso André (Univ. Coimbra): Camões e Vieira na senda de Ovídio11h30 - Martim de Albuquerque (Univ. Lisboa): A Ideia Camoniana de Sociedade Internacional e Rui Figueiredo Marcos (Univ. Coimbra): Tonalidades do comércio em Camões e Vieira15h00 - Falação do Sermão da Sexagésima, por António Fonseca16h00 - Telmo Verdelho (Univ. Aveiro): A língua portuguesa - de Camões a Vieira e Belmiro Pereira (Univ. Porto): Da exercitatio à imitatio - Uma retórica de palavras e obras17h30 - Concerto: Formas e géneros da música para órgão no Portugal seiscentista - por Gerhard Doderer (Apresentação de Maria do Amparo Carvas Monteiro)
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September 29 2008, 2:52am | Comments »






