Texto de João Boavida antes publicado no semanário As Beiras, na sequência de um outro intítulado Por onde passa o literário? Há tempos, numa tertúlia da Livraria Almedina de Coimbra, a escritora convidada era Lídia Jorge, que é, como se sabe, um dos mais sólidos nomes da literatura portuguesa actual.No debate pus uma questão que consistia no seguinte: "Como leitor de quase toda a sua obra sinto que houve uma mudança significativa entre o seu primeiro livro – O dia dos prodígios – e quase todos os seguintes. Embora sem perder a qualidade, que se reconhece, houve algo que se perdeu, ou que, pelo menos, se modificou. Havia um universo encantado e encantatório a que correspondia um modo de dizer adequado, que criava a própria adequação, constituindo um belo exemplo daquilo a que se pode chamar a verdadeira dimensão do literário, o modo por onde a literatura se revela no seu esplendor. E a que poderemos chamar, à falta de melhor, de especificidade literária. Ora, foi esta especificidade, tão fortemente afirmada numa estilística notável que, de algum modo, se tornou menos nítida e evidente. Restou qualidade suficiente para ser uma grande escritora, mas algo do mais autêntico e original parece ter-se perdido."Respondeu dizendo que, de facto, no primeiro livro tinha havido a preocupação de pintar uma certa realidade algarvia (e, portanto, portuguesa), e que, fixando-a no texto, de algum modo se tinha libertado para produzir uma literatura mais interventora. Vilamaninhos e a sua serpente prodigiosa, aquele mural esplêndido onde a palavra pintura é a mais adequada, ficara como a imagem de um Portugal perdido, sublimado literariamente e assim cristalizado para sempre. A realidade nacional em rápida transformação exigira-lhe uma outra atitude e ela seguira-a. No final, em conversa mais restrita, repetindo o argumento, acabou, porém, por compreender o que eu tinha querido dizer.A questão é subtil e traça uma linha quase invisível entre a verdadeira literatura e a que já não o é, levantando em cada autor um problema particular. O mais interessante é saber como cada um encontra um modo pessoal de fixar esse específico na sua produção. É um problema incontornável, mas que passa frequentemente despercebido. Perceber-se-á o que quero dizer se pensarmos na quantidade de livros e de autores que se editam, muitos deles apreciados e com sucesso, mas que, dentro de vinte anos, ou menos, ninguém lerá. Enquanto que outros, muito poucos, uns já hoje reconhecidos, outros ainda ignorados, serão no futuro lidos e apreciados. Ora, o que fará que muitos desapareçam e outros, muitos menos, sobrevivam? É a qualidade, dir-me-ão. Talvez, embora a expressão ”qualidade” seja ambígua e dependa muito dos leitores e das épocas.Penso que é exactamente por essa linha divisória que passa o específico literário como definidor da literatura e, portanto, como o que, embora muito subtil e variável, vai distinguindo o que é bom do que não tem força para sobreviver artisticamente. Tem a ver com estilo, mas a noção é também ambígua porque há estilos que são a desgraça do seu autor e outros a verdadeira glória dele. Ninguém, em cada momento, saberá dizer o que é, e por onde passa essa linha, mas é o que fará a diferença; o que há séculos faz a diferença. Quem poderá dizer ao certo, do que hoje se produz, o que perdurará pela qualidade e pela originalidade?João Boavida
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O que é o literário?
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July 12 2009, 5:11pm | Comments »
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COM A CABEÇA NA LUA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/com-cabeca-na-lua.html
De um artigo de Sara Belo Luís, que acaba de sair na revista "Visão História" (número especial dedicado à viagem à Lua), respigo o depoimento prestado por Maria Luísa Malato Borralho e por mim próprio:"(...) Maria Luísa Malato Borralho, professora na Faculdade de Letras na Universidade do Porto e uma das investigadoras do projecto Utopias Literárias e Pensamento Utópico, tem estudado o tema [a utopia das viagens à Lua]. E afirma: "[O filósofo francês] Bergson diz-nos que só nos conseguimos rir se formos superiores e estivermos distanciados. E a Lua é um óptimo sítio para nos sentirmos assim: superiores e distanciados. Porque se estivermos demasiado imbuídos nas situações, estas, em vez de risíveis, tornam-se trágicas".(...) Carlos Fiolhais está de acordo com o essencial da visão de Maria Luísa Malato Borralho. "Vemo-nos a nós pelos olhos dos outros", comenta o professor de Física da Universidade de Coimbra. E acrescenta: "Imaginamos os habitantes da Lua e, ao imaginá-los, estamos a fazer introspecção. É uma forma de ver o 'eu' ao longe, uma simulação de distância, que também nos dá a noção da nossa pequenez cósmica".
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July 9 2009, 6:01pm | Comments »
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A arte é múltipla
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Texto de João Boavida na sequência de um intitulado Dicionário Imperfeito, antes publicado no semanário As Beiras.Dizer que Agustina Bessa-Luís, se houvesse justiça no mundo, já teria ganho o Prémio Nobel por duas vezes, como disse antes deve ter causado indignação. Porque, afinal, Saramago só ganhou um e Lobo Antunes nenhum. Foi uma forma de dizer, ela própria produtora de injustiça. Em relação a Torga, que o merecia, segundo muitos, a Vergílio Ferreira, que o devia ter recebido, segundo outros, e a Jorge de Sena, ou a Cardoso Pires, por que não também? Há dezenas de laureados com o Nobel, que o não mereciam, e autores de primeira que o não ganharam. Tolstoi, consagradíssimo em vida, foi preterido por oito ou nove vezes. Mesmo os muito apreciados hoje, Pessoa, Proust, Kafka, se tivessem vivido o suficiente, tê-lo-iam ganho?Seja como for, é de facto injusto que as literaturas, portuguesa e brasileira, só tenham um Prémio Nobel. Mas estas coisas estão sujeitas a pressões e o Português, embora falado por muitos, não tem ainda o reconhecimento internacional de um estatuto literário que, pela tradição e riqueza própria, sem dúvida merece. Neste aspecto, pelo impacto internacional único, o Prémio Nobel tem uma função de grande importânciaPor outro lado, é claro que acabamos sempre por fazer comparações entre autores, mas devemos evitá-las, porque os escritores acima referidos são muito diferentes uns dos outros, e compará-los exige a introdução de tantos parâmetros que resulta quase sempre injusto. Temos direito a gostar ou não, de nos identificarmos mais com este que com aquele, e é isso que geralmente fazemos. Também é legítimo acharmos um autor melhor que outro porque, de facto, há enormes diferenças de qualidade entre os autores que por aí andam falados e lidos.Mas é difícil encontrar as razões por que damos qualidade a um e não a reconhecemos noutro. Muitas vezes o mal está em nós. Não temos suficiente garra para descobrir o melhor de um autor, ou o nosso pensamento não vai tão longe, nem tão à frente como o que a obra exprime, ou não se alcança tudo o que o autor quis dizer, etc. Outras vezes o mal está no autor, que vale menos do que dizem.Além disso, os padrões do gosto têm oscilado muito, e vão-se transformando, muitas vezes por influência das próprias obras, outras porque a realidade, transformando-se, necessita de outras formas de expressão, tem que encontrar modelos que sejam, dessa nova realidade, o reflexo e a sublimação. Se a realidade vai mudando, a expressão artística acaba necessariamente por se ir modificando. Estando sensível a outros estímulos, encontrando outras estruturas na construção, os autores inauguram novos quadros estéticos que, com o tempo, podem chegar a ser predominantes. E aí começa o seu declínio e o processo de substituição por outros quadros estéticos, e outras sensibilidades, que entram em conflito com o gosto dominante. Este, criando epígonos e hordas de admiradores, pouco críticos, leva às mudanças de padrão, por um processo inevitável.Neste aspecto Agustina estará mais defendida porque é muito difícil de imitar. Saramago, por exemplo, teve de ganhar também o seu espaço e não conseguiu ainda a adesão de todos os que o lêem. E ainda bem para ele. Há admiradores que são muito má companhia. Pobre do autor de que todos, ao ler, logo gostassem muito; provavelmente não iria longe.Portanto, o juízo de valor, positivo, sobre Agustina, não põe em causa os outros. Nem pode, pois Saramago já ganhou o Nobel e Lobo Antunes irá provavelmente ganhar, um dia. Agustina é capaz de já não ter tempo, mas a obra aí fica.João Boavida
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July 3 2009, 8:02am | Comments »
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Dicionário Imperfeito
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Recomendação de leitura ou consulta de João Boavida, antes publicada no semanário As Beiras.O banqueiro Paulo Teixeira Pinto que, pelos jornais, soubemos dado à poesia e à pintura, desgostoso dos desastres no Banco Comercial Português, arrependeu-se e resolveu comprar a Guimarães Editores. Disse até que tinha ideias para a velha editora, e parece que sim. Ainda bem, pois «…haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento» (Lucas, XV, 7). Será injusto, mas aos sentimentos não se pedem rigores de justiça.A verdade é que por influência sua apareceu agora um Dicionário Imperfeito (Selecção e organização de Manuel Vieira da Cruz e Luís Alves Ferreira, Guimarães Editores, Lisboa, 2008) da obra de Agustina Bessa-Luís. Ou melhor, de «um conjunto de pastas com textos dispersos e ocasionais, abundantes dactiloscritos de várias épocas (artigos, crónicas, alocuções, conferências), alguns recortes de jornal». Ficou de fora a obra de ficção, e ainda bem, ou teríamos um dicionário maior que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e por certo ainda mais «imperfeito», isto é, mais exuberante, rico, contraditório, prolixo e humano.Mas, mais importante que a obra em si (apesar de ricos “achados” sobre a condição portuguesa e a humana natureza, veja-se “desgoverno”, “sucesso económico”, etc.) é que, pela primeira vez, suponho, Agustina surge em livro encadernado e com sobrecapa, e este volume promete ser o primeiro da sua opera omnia, o que é, só por si, um facto cultural de primeira. “Esquecida”, durante anos, pela intelectualidade dominante, que a considerava “reaccionária”, e pelo gosto corrente, que a achava confusa, Agustina foi criando, com uma regularidade e pujança que só o talento soberano permite, livros e mais livros. Que a Guimarães ia editando, à moda antiga, em brochuras de papel mais que corrente, capas ao deus-dará quanto a gosto, e inspiração, e sem nunca ter tido coragem para mais. O que agora se promete é uma colecção específica, definitiva, na sua infinitude, e ao gosto clássico - algo estranho na incompletude de uma obra talhada para não ter fim, tal a ideia que a autora dá de divindade das letras.É certo que não vemos Agustina em resmas, nos supermercados, mas isso, hoje, só a engrandece. A sua obra é um mundo que não estará ao alcance de todos, talvez, mas haverá aí obra que melhor nos retrate, e que mais profunda e profusamente vá ao âmago do povo? Com um discurso intuitivo, envolvendo tramas e conceitos, que se desenrolam e multiplicam segundo uma lógica e uma estrutura que está sempre a pedir novos equilíbrios e inesperados reenquadramentos, uma narrativa onde a intuição, o simbólico e uma ancestralidade submersa reanimam a trama, a interpretação e um drama que a toda a hora se desfaz e reconstitui, Agustina é única. E tudo isto com um estilo inimitável, onde as aparentes imperfeições não são mais que fulgurâncias da sua própria força, numa procura incessante que não pára, que estilisticamente não olha para trás, tecendo fios, perdendo fios, retomando-os numa prodigiosa capacidade de efabular e pensar sobre o efabulado, justificando-o e injustificando-o simultaneamente. Obra magna em tamanho, complexidade e profunda correnteza, se assim posso dizer, inovando sobre uma aparente estrutura clássica, onde há outra aí em que o povo (de todas as classes, mas sobretudo dum Norte, classista e interclassista, ainda camiliano) tanto se revele na sua irreflexão, profundidade e enigma? Já que se falou de injustiça divina, se houvesse justiça entre os homens, Agustina já teria ganho, não um, mas dois Prémios Nobel.João Boavida
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June 29 2009, 3:18pm | Comments »
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NOVO LIVRO SOBRE FERNANDO PESSOA
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Informação recebida da Casa Fernando Pessoa, Lisboa, sobre um livro que acaba de sair (clicar para ver melhor).
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June 24 2009, 4:11am | Comments »
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OS LUSÍADAS: O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES
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INFORMAÇÂO RECEBIDA DO MUSEU DA CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA:O antropólogo Luís Quintais e o especialista em literatura José Carlos Seabra Pereira vão dar a conhecer "as novas gentes" que Camões ajudou a inscrever no imaginário portuguêsÉ considerado um dos expoentes da literatura em português, mas deixou-nos muito mais do que a poesia que o tornou mundialmente conhecido: Luís de Camões, ao escrever Os Lusíadas, trouxe para Portugal os novos dados da expansão marítima sobre povos exóticos. O antropólogo social Luís Quintais e o coordenador do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, José Carlos Seabra Pereira, vão estar no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) para dar a conhecer as "novas gentes" que o poeta ajudou a inscrever no imaginário português. A sessão terá lugar no dia 24 de Junho (quarta-feira) às 16 horas. A entrada é gratuita.Que novos Homens é que Camões trouxe para Portugal? Que impressões desse outro humano povoam a obra que tem vindo a moldar o imaginário português geração após geração, década após década? Como retratou o poeta o choque de civilizações nascido da expansão marítima? Estas são algumas das questões que Luís Quintais e José Carlos Seabra Pereira vão explorar naquela que é a última sessão do ciclo "Camões, o Céu e a Terra".Para além das novas raças e povos que Camões deu a conhecer, os investigadores vão também revelar no Museu da Ciência como é que o poeta entendia esse novo humano à luz das ideias da época e do primado cristão.José Carlos Seabra Pereira irá ainda mostrar como é que o poeta d'Os Lusíadas projectou o Homem na sua escrita. Das contingências de um "bicho da terra tão pequeno" às exigências de superação, do amor à liberdade, da violência à piedade, o especialista em literatura percorrerá a obra camoniana em busca da humanidade imortalizada numa das obras mais marcantes da literatura portuguesa.A sessão sobre as "Novas Gentes" d'Os Lusíadas segue-se assim a duas conferências sobre as "Novas Terras" e os "Novos Céus" revelados na obra de Luís de Camões. Depois da Geografia e da Astronomia, a Antropologia da poesia camoniana fecha assim o ciclo "Camões, o Céu e a Terra", organizado pelo Museu da Ciência da UC e pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos para dar a conhecer a Ciência por detrás dos versos do poeta.Doutor pelas Universidades de Poitiers e de Coimbra, José Carlos Seabra Pereira é, entre outros cargos, professor da Universidade de Coimbra e da Universidade Católica Portuguesa e membro do painel de avaliadores da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para as candidaturas a bolsas de investigação para doutoramento e pós-doutoramento. Investiga e lecciona Teoria Literária, Literatura Portuguesa Moderna, Estudos Camonianos e Estudos Pessoanos. Para além de coordenador científico do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, é ainda o vice-director da luso-brasileira 'Revista Camoniana'.Luís Quintais é antropólogo social e professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Doutorado em Ciências Sociais, área de Antropologia Social e Cultural, tem vindo a desenvolver investigação sobre cognição, biotecnologias e bioarte. Luís Quintais tem-se ainda distinguido como poeta. O seu primeiro livro de poesia, "A Imprecisa Melancolia" (1995), arrecadou o Prémio Aula de Poesia de Barcelona. Com "Duelo" (2004) recebeu os prémios Luís Miguel Nava - Poesia 2005 e PEN Clube Português de Poesia.
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June 23 2009, 12:22pm | Comments »
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Darwin e Eça
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Minha última crónica no jornal "As Artes entre as Letras" (na imagem Eça de Queiroz):O naturalista Charles Darwin (1809-1882), de cujo nascimento se comemora este ano o duplo centenário, foi quase contemporâneo do escritor Eça de Queiroz (1845-1900). Eça deve ter tido oportunidade, quando ainda era estudante de Direito na Universidade de Coimbra (1861-1866), de receber ecos da publicação da Origem das Espécies (1859), que teve lugar quando Eça fazia estudos secundários no Colégio da Lapa, no Porto. A primeira referência académica a Darwin em Portugal ocorreu em 1865, o ano da Questão Coimbrã, pela pena de Júlio Henriques, professor de Botânica em Coimbra, quando Eça aí estudava. Muito mais tarde, nas Notas Contemporâneas (1896), Eça haveria de recordar desta maneira os velhos tempos da sua geração, a chamada “geração de 70”:“Coimbra vivia então numa grande actividade, ou antes num grande tumulto mental. Pelos caminhos de ferro, que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da França e da Alemanha (através da França) torrentes de coisas novas, ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários... Cada manhã trazia a sua revelação, como um Sol que fosse novo. Era Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e justiceiro dos reis; e Balzac, com o seu mundo perverso e lânguido; e Goethe, vasto como o Universo; e Poe, e Heine, e creio já que Darwin, e quantos outros! Naquela geração nervosa, sensível e pálida como a de Musset (por ter sido talvez como essa concebida durante as guerras civis) todas estas maravilhas caíam à maneira de achas numa fogueira, fazendo uma vasta crepitação e uma vasta fumaraça! “Eram, como se lê, tempos de grandes novidades tanto científicas como artísticas para um grupo de jovens que queriam nada mais nada menos do que mudar Portugal (quando verificaram que não o tinham conseguido, auto-intitularam-se “vencidos da vida”...). E as ideias de Darwin pontificavam no turbilhão de ideias vindas de fora.Em Os Maias (1888), Eça de Queiroz faz várias referências a Darwin, nomeadamente neste passo em que Carlos da Maia critica o romance realista (uma auto-crítica queiroziana, portanto):"Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!"Ou ainda neste passo, em que Darwin é insultado por João da Ega, o amigo de Carlos que era uma projecção literária de Eça, e que pretendia mostrar que estava sóbrio:“— Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás... E fico frio, fico impassível. A discutir filosofia... Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa.”Eça era cônsul em Bristol, depois de o ter sido durante um quadriénio em Newcastle, quando Darwin morreu na sua casa de Down, em Inglaterra. Pôde assim seguir de perto os funerais nacionais do sábio e, antes disso, a polémica que se desenvolveu nesse país a propósito da relação de parentesco entre o homem e o macaco (esse tema não é tratado por Darwin na Origem das Espécies, surgindo só em 1871, o ano das Conferências do Casino em Lisboa, n’ A Origem do Homem). A exibição de um gorila em Londres é relatada por Eça, no seu estilo inconfundível, numa das suas Cartas de Inglaterra, escrita em 1877:"Darwin (...) declarou-o nascido directamente do macaco. Parecia natural que Pongo, vendo pela primeira vez o sábio ilustre que lhe deu uma tão alta posição na criação, fazendo-o pai do género humano, lhe daria ao menos um ‘shake-hands’ cordial. Pois não senhor! Detesta-o. Com uma ingratidão africana, apenas o avista, franze a testa, arreganha os dentes, fita-o e volta-lhe as costas." (...) “Pongo conhece que Darwin o declarou pai do homem: e Pongo, que já tem viajado bastante, que esteve em Berlim, que conhece a população toda de Londres, que tem feito observações prolongadas sobre o homem, está furioso com Darwin e com a sua teoria. «O quê!», pensa ele; «isto, este ser de chapéu alto e luneta no olho, que paga um xelim para me vir ver, é que é o meu descendente? E a isto que Darwin chama um gorila aperfeiçoado? Mas esse sábio não tem então escrúpulo em lançar uma nódoa infamante na respeitável classe dos gorilas? Esse sábio é um mau homem!» E volta-lhe as costas. A razão é clara: ele não o considera um observador profundo, acha-o um reles caluniador!“Ainda sobre o homem e o macaco vale a pena saborear a ironia fina de Eça, bem patente noutro passo das mesmas Cartas:"Quem diria, vendo nos antigos paraísos afogueados, o macaco balançar-se nos grossos troncos da batata gigante, que aquele felpudo e hirsuto personagem seria um dia barão, camarista, bispo e redactor de gazetas?”Já no final da sua vida, o “vencido da vida” Eça, no conto Adão e Eva no Paraíso (publicado em 1897), mistura literariamente criacionismo e evolucionismo («Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro às duas horas da tarde.» (...) “Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua árvore!”). A prosa de Eça tinha evoluído muito: o escritor revolucionário da juventude, fortemente influenciado pela ciência da sua época, tinha dado lugar a um autor de pendor espiritualista...
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June 14 2009, 4:02pm | Comments »
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TRADUZIR DO PORTUGUÊS?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/traduzir-do-portugues.html
Ver artigo do escritor brasileiro Cristovão Tezza: aqui.
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June 12 2009, 3:34am | Comments »
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A LUA ENTRE A CIÊNCIA E A LITERATURA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/lua-entre-ciencia-e-literatura.html
Minha crónica na última "Gazeta de Física" (na imagem a primeira subida tripulada a bordo de um balão, protagonizada em 1783 por Pilâtre de Rozier e pelo Marquês de Deslambres):O que têm em comum Johannes Kepler e Edgar Allan Poe? Pois ambos são motivos de centenários neste ano de 2009: passam 400 anos da publicação da Astronomia Nova, o livro que contém as duas primeiras leis do astrónomo alemão, e passam 200 anos do nascimento do poeta e contista norte-americano. Mas os paralelos não se esgotam aí: Kepler foi o autor da primeira obra de ficção científica, Somnium (Sonho), publicado postumamente em 1634, na qual descreve uma viagem da Terra à Lua, ao passo que Poe retomou o mesmo tema no conto A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall, saído em 1835, que narra uma subida à Lua a bordo de um balão.Entre as duas efemérides, há precisamente 300 anos, situa-se uma outra: a da primeira ascensão em balão de ar quente, ainda que num protótipo não tripulado. A demonstração feita pelo padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão no paço de el-rei D. João V a 8 de Agosto de 1709 é um dos muito raros eventos em que o engenho luso aparece na história da tecnologia. Se Poe relata no século XIX uma arrojada subida em balão foi porque muitos aventureiros tinham antes efectuado demonstrações tripuladas. A primeira ascensão humana em balão, que se deve aos irmãos franceses Montgolfier, só foi efectuada 74 anos após o ensaio de Gusmão e há até quem especule sobre a possibilidade de ter havido transferência tecnológica através de Alexandre de Gusmão, irmão do inventor da Passarola, que andou por Paris. A bordo iam Pilâtre de Rosier, o professor de Física e Química que se haveria de tornar a primeira vítima mortal de um desastre aéreo quando anos depois tentava atravessar o canal da Mancha, e o Marquês de Deslambre.Também em Portugal se realizaram em finais do século XVIII e inícios do século XIX algumas admiráveis proezas de balonismo. O destemido balonista italiano Vincenzo Lunardi, que tinha sido o primeiro a subir aos céus na Inglaterra (levando a bordo um gato, um cão, uma pomba e uma garrafa de vinho!) fez uma exibição no Terreiro do Paço, em Lisboa, que levou o poeta Manuel Maria Bocage a escrever o Elogio poético à admirável intrepidez, com que em domingo 24 de Agosto de 1794 subiu o capitão Lunardi no balão aerostático. Bastam dois versos para se ver o estilo gradiloquente: Guardai da glória no imortal tesouro / O nome de Lunardi em letras de ouro. Lunardi, agradado pela cidade, acabou por se fixar em Lisboa e falecer aí.Em 1819 era a vez do professor de física belga (e lanternista mágico) Étienne-Gaspard Robertson e do seu filho Eugène efectuarem novos espectáculos de subida em balão em Lisboa, que incluiu o primeiro salto de pára-quedas feito em solo português. O pai já tinha realizado vários voos, um dos quais em Copenhaga que muito impressionou o então jovem físico Hans Christian Oersted a ponto de o levar a escrever poemas sobre o voo. Mas, desta vez, o poeta de serviço era um rival de Bocage, José Daniel Rodrigues da Costa, o Josino Leiriense da Arcádia Lusitana, que escreveu no mesmo ano do espectáculo O balão aos habitantes da Lua: uma epopeia portuguesa. Tenho em mãos uma reedição ilustrada, de apenas cem exemplares, datada de 2006 (do prelo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com introdução de Maria Luísa Malato Borralho; em 1978, já tinha saído nas Edições 70 uma edição com prefácio do poeta Alberto Pimenta). E leio uma engraçada sátira social, com a forma roubada a Os Lusíadas. O argumento é científico: Matemáticos pontos combinando,/ Tendo por base a grande Astronomia,/ Um Génio, que não tem nada de brando, / Projecta ir ver o Sol, fonte do dia: / Em pejado Balão vai farejando,/ Subindo mais e mais como devia;/ Divisa a Lua, mete-se por ela, / Pasma de imensas cousas que viu nela. Mas, partindo da ciência, a literatura voa livre. A Lua, nesta utopia portuguesa, está povoada pelos Lulanos, nome parecido com Lusitanos. Mas, como numa utopia à la More tudo deve ir ao contrário, eis que nessa Lua habitada, ao contrário de Portugal, a justiça funciona: Aqui não há ladrões! Se um aparece. / É logo e sem demora castigado; /Tenha empenhos ou não, ele padece,/ Sofrendo o que na Lei lhe é destinado.Há que fazer justiça a Bocage e a Rodrigues da Costa, por cruzarem a ciência, ou melhor, a tecnologia, com a arte. Se eles não têm a notoriedade de Kepler e de Poe deviam ter, pelo menos, uma maior notoriedade no vasto espaço de língua portuguesa.
May 16 2009, 6:04am | Comments »
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DARWIN, EÇA E COMPANHIA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/darwin-eca-e-companhia.html
Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (clique para ver melhor).
May 5 2009, 7:58am | Comments »







