O título completo é, à maneira barroca, “Memórias que para instrução e divertimento de seus tetranetos escreveu certa pobre criatura que, entre milhares de milhões de outras, vagueou por este mundo na última centúria do seguindo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Mas na capa vem só “Memórias”. A “pobre criatura”, cujo retrato ocupa todo o frontispício, é um dos mais notáveis homens de cultura portugueses da última centúria: Rómulo de Carvalho, professor de Ciências Físico-Químicas depois de ter abandonado a sua primitiva ideia de seguir Engenharia Militar, prolixo autor de vários manuais escolares e pioneiro na divulgação de ciências para “gente nova”, exímio historiador de ciência com especial predilecção pelo século das luzes, e, como se isso tudo fosse pouco, também poeta, durante muito tempo escondido, sob o pseudónimo de António Gedeão. Apesar de os destinatários directos da obra, os tetranetos do autor, ainda não terem nascido, temos a sorte de a podermos ler hoje, graças à amável autorização da família que transcreveu um muito legível manuscrito, e à atenção do Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Gulbenkian, que foi inexcedível a prodigalizar os cuidados de impressão. É mesmo uma sorte, pois o livro, extraordinariamente bem escrito (ou não fossem Rómulo e Gedeão mestres, respectivamente, da prosa e da escrita em língua portuguesa), é um retrato não só de um autor, que os seus alunos, directos e indirectos, amigos e leitores muito estimam e admiram, mas também um retrato do século XX, ou quase um século, pois a vida do autor vai de 1906, quando a monarquia constitucional vivia nos seus últimos tempos, até 1997, já Portugal, adiantado na era pós 25 de Abril, estava a entrar no segundo milénio. O dia do nascimento de Rómulo de Carvalho, 24 de Novembro, é hoje, concretizando uma ideia do Ministro da Ciência e Tecnologia José Mariano Gago, o Dia Nacional da Cultura Científica e Tecnológica. Conta o próprio Rómulo no início da obra: “Chamo-me Rómulo e nasci no dia de São João da Cruz com sete meses de gestação.” Não foi só no nascimento que Rómulo se revelou prematuro. Entrado no ensino primário com apenas cinco anos, quando já sabia ler, concluiu aos sete anos, com a nota de óptimo, o exame de primeiro grau da instrução primária, para pouco depois concluir o exame do segundo grau e ficar como assessor da professora a ensinar os outros meninos. Foi também prematuro ao versejar como também faziam a sua mãe Rosinha e a sua irmã mais velha Noémia, que além dos dotes líricos tinham o dom de adivinhar o futuro. Mas não se revelou nada precoce em dar a conhecer a sua alma poética, pois só publicou a sua primeira obra de poesia quando tinha meio século, no ano da graça de 1956. O dia da morte não sobreveio cedo: 19 de Fevereiro de 1997. As Memórias terminam com a palavra Adeus escrita duas semanas antes de falecer. Antes do “Adeus” o autor recupera as palavras do início atrás citadas e acrescenta “Faleci em de de ”, onde os intervalos seriam preenchidos pela sua segunda esposa, a escritora Natália Nunes, que, num apaixonado “Post scriptum”, escreve: “Coube-me a mim, tua Natália, preencher os espaços que deixaste em branco para escrever as datas da tua morte. Não te digo adeus. A minha alma estará sempre contigo, que foste o meu único e grande amor.” A morte aparece como lenitivo de um final de vida bastante sofrido pela progressão da doença: “a vida tornou-se-me um martírio”. Algumas das últimas palavras são de um enorme desprendimento: “A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver…” À visão do autor, nos seus últimos dias, marcados por um darwinismo extremo (“O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta permanente e feroz em que cada um busca a satisfação dos seus interesses exactamente como outros quaisquer seres vivos, animais ou plantas, que se espreitam e atacam”) contrapõe-se a voz crente da mulher (“Peço a Deus que te dê a paz eterna, pelo que trabalhaste, sofreste e amaste, pela tua bondade e generosidade para com todos”). O mundo pode ser uma selva, mas Rómulo foi, de facto, nessa selva um homem bom ou, como ele reconhece com modéstia, um homem “útil”. Apesar da vida não ter seduzido o autor este livro resume noventa e um anos intensamente vividos. A obra conta, com rigor e objectividade que se aliam literariamente a ironia e humor, uma biografia completa e cheia. Desde a infância na Rua do Arco do Limoeiro, perto da Sé de Lisboa, até à velhice na Rua Sampaio Bruno, em Campo de Ourique, também em Lisboa, não muito longe do “seu” Liceu Pedro Nunes, passando pelos anos do Porto e de Coimbra, muitas foram as peripécias de um século que, em Portugal conheceu vários regimes, embora tivesse sido dominado pelo Estado Novo do “Deus, Pátria e Família”. Para conhecer melhor esse século, desde pormenores do quotidiano doméstico até às vicissitudes da vida cultural passando pelo sistema escolar, não há como ler estas páginas. Alguns trechos são implacáveis para o modo de ser português: basta reparar como o autor reage à instituição nacional da “cunha”, que o pai, funcionário dos Correios e Telégrafos, cultivava como era uso e costume. Rómulo abandonou o seu lugar de professor no Liceu Camões para ingressar no Pedro Nunes simplesmente por não ter querido favorecer um aluno, em cujo sucesso o Reitor tinha especial empenho. Era possível ser íntegro num tempo de não-integridade! Seja-me permitida terminar com uma nota pessoal. Frequentei, passados muitos anos, a mesma escola, o Liceu Normal de D. João III, em Coimbra, onde o professor Rómulo de Carvalho exerceu a sua profissão. O que ele conta do Reitor de então foi também testemunhado por mim. O Reitor Guerra era tão pequenino e belicoso que lhe chamávamos o “Pulga Escaramuça”. Atacava os alunos à estalada fosse porque iam a correr no corredor fosse porque tinham faltado a uma sessão da Mocidade Portuguesa. Na Biblioteca desse Liceu encontrei, para meu grande proveito, a ciência viva nos volumes da colecção “Ciência para Gente Nova” que Rómulo escreveu em Coimbra para a editora Atlântida, inaugurando a sua faceta de divulgador científico. Como estudante do último ano do liceu visitei o Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, guiado pelo Doutor Almeida Santos que tinha recebido Rómulo interessado no seu estudo (só agora soube da saga que foi a publicação do seu livro sobre o Gabinete). Foi numa livraria de Coimbra que comprei as obras de António Gedeão, que foram inauguradas nessa cidade nas condições de secretismo descritas nas “Memórias”. É, por isso, natural que, na escolha da designação para a biblioteca e mediateca especializada no ensino e na divulgação das ciências que criei na Universidade de Coimbra, o nome que se impôs tenha sido Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho. - Rómulo de Carvalho, “Memórias”, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.
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MEMÓRIAS DE RÓMULO DE CARVALHO
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February 16 2011, 6:54pm | Comments »
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APRESENTAÇÃO DE OBJECTOS FRACTAIS
http://dererummundi.blogspot.com/2011/01/apresentacao-de-objectos-fractais.html
Minha apresentação em vídeo do livro "Objectos Fractais" de Benoît Mandelbrot nas "Escolhas de Livros" filmada no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvbalho, em Coimbra: aqui.
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January 1 2011, 8:27am | Comments »
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Para ler em 2011
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Sou um incurável fã do John Grant e da sua fabulosa prosa dedicada aos mitos, estórias e momentos menos clarividentes da ciência ou de quem se fez apresentar como cientista. Infelizmente, não há uma única edição em português das suas obras, mas eis os títulos da sua trilogia mais conhecida:- Discarded Science: Ideas That Seemed Good at the Time- Corrupted Science: Fraud, Ideology and Politics in Science- Bogus Science: Ideas That Fool Some of the People All of the TimeO estilo de Grant é cativante, com uma enorme capacidade de explicar o inexplicável e o fraudulento de uma maneira humorística mas factual. Quanto mais não seja, estes 3 volumes são uma amostra de investigação e do trabalho de colecção de cultura científica absolutamente colossal.A boa notícia é que, em 2011, John Grant volta a atacar com Denying Science: Conspiracy Theories, Media Distortions and the War Against Reality do qual ainda nada se sabe, mas, pelo título e pelo génio do autor, promete ser um dos livros do próximo ano.
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December 26 2010, 4:59am | Comments »
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Apresentação em Aveiro de "Educação, Ciência e Religião"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/apresentacao-em-aveiro-de-educacao.html
Informação recebida do Centro Ciêncvia Viva Rómulo de Carvalho:João Paiva apresenta na Fábrica Ciência Viva em Aveiro o livro que escreveu com Alfredo Dinis "Educação, Ciência e Religião" (Gradiva): aqui.
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October 20 2010, 2:53am | Comments »
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OS PRINCIPIA DE NEWTON EM PORTUGUÊS
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Informação recebida da Fundação Gulbenkian:Já foi publicado a tradução dos "Principia Mathematica" de Isaac Newton.PRINCÍPIOS MATEMÁTICOS DA FILOSOFIA NATURALAutor: Sir Isaac NewtonTradutor: J. Resina Rodrigues, trad.Data da Edição, 2010.Páginas: 980Preço 40.00€
September 22 2010, 11:18am | Comments »
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Café, livros e ciência: O Mensageiro das Estrelas
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Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:Café, livros e ciênciaSIDEREUS NUNCIUS. O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS,de Galileu Galilei (1610)tradução e anotações de Henrique Leitão (Universidade de Lisboa)apresentação por João Fernandes(Coordenador Nacional do Ano Internacional da Astronomia 2009)15 de Abril | 18H00No Museu da Ciência da Universidade de CoimbraEntrada livreDurante o ano de 2009, o Ano Internacional da Astronomia comemorou os 400 anos das primeiras observações astronómicas feitas por Galileu. Estas observações levaram a descobertas científicas notáveis, já que Galileu teve a oportunidade de observar pela primeira vez na história da humanidade as fases de Vénus, os satélites de Júpiter, os anéis de Saturno, as crateras da Lua. Em Março de 1610, poucos meses depois das suas primeiras observações, Galileu publicava "Sidereus Nuncius", onde descreveu algumas das suas descobertas. Tratava-se da primeira obra científica de astronomia baseada em observações astronómicas realizadas com telescópio.400 anos depois da sua publicação, "Sidereus Nuncius. O Mensageiro das Estrelas", com tradução e anotações de Henrique Leitão, é a primeira obra de Galileu Galilei a ser traduzida integralmente em Portugal. Nesta sessão vamos ter a oportunidade de conhecer mais de perto esta grande obra, que é dirigida ao público em geral, tal como o seu original em latim, publicado há quatro séculos.Café, Livros e Ciência é um projecto de comunicação de ciência com o objectivo principal de promover a leitura de livros de ciência junto do público em geral. Este evento acontece num ambiente informal, onde o café acompanha os livros. Trata-se de uma parceria entre o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho e a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro e acontece na primeira quinta-feira de cada mês num périplo por cada instituição parceira. Os eventos contam com uma cobertura multimédia que posteriormente será colocada no sítio internet de cada parceiro, bem como no Ciência Viva TV.
April 6 2010, 5:33am | Comments »
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FRANCIS COLLINS E A RELIGIÃO
http://dererummundi.blogspot.com/2010/03/francis-collins-e-religiao.html
Destaque para um dols comentários do físico Bob park na sua coluna electronica semanal "What's New":BELIEF: FRANCIS COLLINS IS FREE TO HOLD ANY BELIEFS HE LIKES.This week, saw the publication of his new book, "Belief: Readings on theReasons for Faith.” But he is now the director of the nation’s largestscience agency, having promised to set his personal quirks aside for thetime. The argument is made that the book is work he did before he became director, but that's pretty thin cover. He could wait until he steps down.Modern science had its birth with the assertion of the Greek philosopher Thales in 585 B.C. that every observable effect has a physical cause. We should not regard any person as educated unless he understands those words, including the director of NIH.
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March 5 2010, 5:59pm | Comments »
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A CIÊNCIA DA LIBERDADE
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Gary Rosen analisa, no suplemento de livros, do "New York Times" saído hoje o último livro de Timothy Ferris,THE SCIENCE OF LIBERTYDemocracy, Reason, and the Laws of Nature368 pp. Harper/HarperCollins Publishers. $26.99 Começa assim:"To say that the scientific frame of mind has played an important part in the rise of the West is not exactly controversial. Science always gets its moment in the spotlight in “Whig history,” as historians (dismissively) call grand narratives of political and material progress. In “The Science of Liberty,” the veteran science writer Timothy Ferris makes a more extravagant claim, assigning not a mere supporting role but top billing to the celebrated experimenters and inventors of the past several centuries. As he sees it, the standard account of the history textbooks — with the Renaissance giving rise to the Scientific Revolution and thus preparing the way for the Enlightenment — fails to identify the primary causal relationship. Democratic governance and individual rights did not emerge from some amorphous “brew of humanistic and scientific thinking,” he argues, but were “sparked” by science itself — the crucial “innovative ingredient” that “continues to foster political freedom today.”Para mais ler aqui.
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February 12 2010, 4:29pm | Comments »
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