Meu Prefácio ao livro de poesia “O Espaço e a Alma. Poemas escolhidos”, do cientista, especialista em biotecnologia, e professor da Universidade Católica do Porto F. Xavier Malcata, que acaba de sair na editora Corpos:O que é fazer poesia? E o que é fazer ciência? Em que divergem e convergem estas duas actividades humanas? Que se trata de duas actividades diferentes do ser humano será óbvio para toda a gente. Mas que possam ter algo de comum, embora menos evidente, é revelado pelo facto de haver poetas que se inspiram nos objectos e metodologias da ciência para escreverem os seus poemas, e pelo facto de haver cientistas que não desprezam a inspiração que lhes pode surgir de conteúdos e vias poéticas na prossecução dos seus trabalhos de pesquisa. E, ainda, pelo facto de haver pessoas que são simultaneamente poetas e cientistas, não encontrando contradição insanável na dupla actividade que professam.Eu conhecia – e admirava – o cientista F. Xavier Malcata, professor catedrático na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto, doutorado em Engenharia Química pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e autor de uma vasta e reconhecida obra de investigação. Mas já não conhecia – e só agora passei a admirar – o poeta com o mesmo nome, que, neste livro, logo na Parte I (estando a lógica da divisão em partes exposta pelo autor), sob a égide do título “Cantos de Emoção”, explicita em dois simples versos de um soneto o que é “fazer poesia”:“É fugir em transe, olhando sem ver –É escrever o Mundo em grito e ilusão!” Fica subentendido que fazer ciência será, parafraseando-o, “Fugir em transe, olhando a ver – / E escrever o Mundo com calma e razão!” Xavier Malcata não é o primeiro cientista que também faz poesia – lembro-me do norte-americano Roald Hoffmann (Prémio Nobel da Química de 1981); mas em Portugal, será um dos muito poucos que o fazem – lembro-me do físico Orfeu Bertolami.Sobre esta magna questão das relações entre poesia e ciência, sobre as dissemelhanças e semelhanças entre elas, já se pronunciaram numerosos poetas e cientistas, assim como outros tantos críticos de uma e de outra actividade. O poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) – que o autor refere no poema “Ínclito Porto”, na Parte III (“Ênfases de Ilusão”) – escreveu, no prefácio à “Morte de D. João” (Livraria Moré, 1874): “A poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton tanto pode ser explicada num livro de física, como cantada num livro de versos. O sábio analisa-a, demonstra-a, e o poeta, partindo dessa demonstração, tira dos factos todas as consequências morais, sociais e religiosas, traduzindo-as numa forma sentimental. A ciência, neste caso, dá o convencimento, a certeza; a poesia dá a emoção, o entusiasmo”.Se a poesia aparece aqui como uma linguagem que expressa o real, com um registo próprio – e, portanto, de certo modo como uma consequência da ciência –, ela pode, por outro lado, também ser vista como a origem da ciência. Antero de Quental (1842-1891), contemporâneo de Junqueiro na “Geração de 70”, escreveu, numa carta a um seu amigo: “O chão sobre que assenta a certeza de hoje formou-se pelos aluviões sucessivos da intuição antiga. O que é ciência foi já poesia: o sábio foi já cantor, o legislador poeta: e a evidência uma adivinhação, um admirável palpite, cujas profundas conclusões são ainda o espanto e porventura o desespero das mais rigorosas filosofias. E, se nadamos hoje em plena luz da razão, foi entretanto a poesia, foi essa doce mão que nos guiou por entre o pálido crepúsculo dos velhos sonhos. Velhos? Nós somos eternos.”Fernando Pessoa (1888-1935), além de, sob o nome de Álvaro de Campos, ter equiparado a Vénus de Milo ao binómio de Newton, escreveu sob o seu próprio nome, mas colocando as palavras na voz do poeta Johann Wolfgang von Goethe, no poema dramático “Primeiro Fausto”, os seguintes versos:“Do fundo da inconsciênciaDa alma sobriamente loucaTirei poesia e ciência,E não pouca”.Haveria mais. Mas devem chegar estes exemplos, que encontrei no interessante livrinho “Ciência e Poesia” (Portugália, 1955) do matemático António Lôbo Vilela para ilustrar as dissemelhanças e semelhanças entre fazer poesia e fazer ciência. Há uma certa cumplicidade, quando poesia e ciência se interpenetram – por vezes, não se sabe mesmo qual delas está primeiro e qual está depois. Estão, em muitas situações, as duas ao mesmo tempo. A própria associação da imaginação à poesia – que é feita (e bem), na linha aliás do que é vox populi, por Xavier Malcata –, não deve fazer olvidar que a imaginação é uma componente essencial do processo de descoberta científica. Como disse o físico Albert Einstein: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo.” Imaginação e razão não se podem dissociar facilmente; se é que podem, de todo.Para chegar a esta mesma conclusão bastará atentar em alguns dos poemas de Xavier Malcata, que partem de uma visão científica do mundo – decerto construída com a aliança da imaginação e da razão – para soltar a visão poética, isto é, deixar voar livremente a imaginação, a propósito de um evento, de um tempo ou de um espaço. Há outros poemas, onde a ciência está ou parece arredada e a poesia omnipresente, mas escolho alguns poemas onde a ciência e a poesia dividem fraternalmente o palco. Vejamos como o autor invoca a teoria da relatividade de Einstein no seu poema “Paradoxo de Natal” (da Parte III):“Tempo e até espaço, em singularidadeFundem-se – instantâneo e omnipresente são,Desafiando as leis sábias da realidadeNuma história longa de imaginação.Relatividade em campo, justificaComo um volumoso e risonho astronautaTodo o mundo corre, em diminuto instante.”A física moderna, desta vez a teoria quântica em vez da teoria da relatividade, reaparece noutros passos, como no poema “Sublime elementar” (da mesma Parte III):“Em filosófica, atroz dureza,Heisenberg não permite que, incólume,Fique então o núcleo: só na incertezaSe confia. E o aumento do volume –Bolhas são geradas tão breves,Revela o que é mais elementar:Tal energia, debaixo das neves,Fugidio elo vai acrescentar.”Num domínio mais próximo daquele em que exerce actividade o cientista Xavier Malcata, surgem umas notáveis ”Sextinas a um carbono quiral” (da Parte IV, “Gritos de Realismo”) – que nos fazem lembrar alguns dos poemas do escritor e professor Vitorino Nemésio (1901-1978), contidos no livro “Limite de Idade" (Estúdios Cor, 1972) que dedicou ao biólogo Aurélio Quintanilha):“Os electrões carregados –Fuindo num mar de incertezaE obrigatórios no acaso,Em orbitais bem casados(Híbridas são, de certeza)Dão ligações, mas a prazo.”Em “Arqueologia molecular” (da mesma Parte IV), o autor glosa a moderna e polémica questão dos organismos geneticamente modificados, associada de perto à investigação em biotecnologia que o cientista empreende no seu laboratório:“Criam-se tais regras sem ter fronteiras(Qual Craig Venter universal),Que na agroquímica – a que é industrial,Sem metabólicas, vis barreiras,O microcosmos se vai alterar.”Neste trecho, como aliás noutros, revela-se, sem qualquer dúvida, a dimensão humanista e ética do autor – uma dimensão que ajuda sobremaneira a fazer a ponte entre poesia e ciência.Falando de tecnologia, encontra-se neste livro referência às questões bastante actuais da produção e consumo de energia, nomeadamente ao aproveitamento da energia eólica, no poema “Eólo renascido” (Parte III):“Enchem a paisagem, cortam o horizonte –Como sentinelas de metal aladas,Como monstros em contínuo rodopio.Com seus triplos braços, erguem-se imponentes,Como se entre o céu e a terra fossem ponte.Como cavaleiro andante disfarçadas,Provocando D. Quixote em desafio –Torres actuais, máquinas tão descontentes.”Somos levados imediatamente, neste e em vários outros poemas, a estabelecer uma analogia – e também, necessariamente, um contraste – com a poesia de António Gedeão, o pseudónimo do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho (1906-1997), que, em “Impressão digital”, escreveu: “São moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes.”O autor também trata a questão das viagens espaciais, resultado tecnológico do conhecimento das leis de Newton – uma questão bem actual, agora que passam os 40 anos da primeira ida humana à Lua. Em “Balada de infinito” (Parte IV), lê-se:“Eis compasso de espera – fica em órbita;Cadeia a dois no módulo que parte,A equipa longe, no vácuo perdido,Desce, lenta, para a Tranquilidade.Saltitando tão esbelto (não gravita),O herói marca o chão como peça de arte.Satélite cinzento, em que o homem ávidoPula como gigante: é a Humanidade.”Associamos de novo Xavier Malcata a Gedeão, o autor de “Poema do homem novo”, saído um ano depois de Armstrong pisar o solo lunar: “Lá vai ele. / Lá vai o Homem Novo / Medindo e calculando cada passo, / Puxando pelo corpo como bloco emperrado.” A associação é particularmente evidente – decerto uma grande e justa homenagem do autor a Gedeão, pois, na poesia como na ciência, só se pode ver mais longe se se estiver “aos ombros de gigantes” –, na “Ameaça maior em redondilha menor”, que lembra a famosa “Lágrima de preta”. Escreve Xavier Malcata:“Encontrei uma gota,Que estava a escorrer:Transparente e fria,Prestes a morrer.Amostrei-a logo:Usei a pipeta,Olhei-a bem fundo –Vi a coisa tão preta.”Por outro lado, uma nítida diferença entre os dois poetas transparece se se cotejar, por exemplo, “Correrias de advento” (Parte II, “Suspiros de Bucolismo”), de Xavier Malcata, com “Dia de Natal”, de Gedeão – embora nos dois haja comunhão no tema, a crítica ao excessivo consumismo a que continuamos a assistir nos finais do ano. Outros, com mais sapiência e capacidade do que eu, poderão analisar os paralelismos e as obliquidades entre o consagrado autor de “Pedra Filosofal” e o presente autor, que decerto encontrou inspiração em quem tão bem soube urdir ciência e poesia.Um prefácio deve ser breve – como um acepipe que abre caminho para o saboroso prato principal, que é a obra propriamente dita. Assim, e uma vez que a última palavra será, como deve ser, a do poeta Xavier Malcata, dou (por ser incapaz de dizer melhor) a minha última palavra ao poeta Gedeão – que, no último poema, intitulado “Suspensão coloidal”, do seu livro “Máquina do Fogo” (Atlântida, 1961), tão bem resumiu a complexidade e a dificuldade das relações, decerto persistentes mas continuamente ambíguas, entre ciência e poesia:“Postulados e leis e lemas e teoremas,tudo o que afirma e fura e diz sim,teorias, doutrinas e sistemas,tudo se escapa ao autor dos meus poemas.A ele e a mim.”
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O ESPAÇO E A ALMA
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January 21 2011, 1:30pm | Comments »
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O MESSIAS
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Informação recebida da Bizâncio sobre uma história de um judeu famoso do século XVI que passou por Portugal:Título: O Messias, 3.ª ediçãoAutor: Marek HalterColecção: Ilhas Encantadas, 1Romance Histórico______________________________________________________________«A passagem de Reubeni por Portugal (…) provocou ao que parece conversões ao judaísmo, como a de Diogo Pires que tomaria o nome de Salomão Molco.»Maria José Pimenta Ferro TavaresDavid Reubeni diz-se general de um exército vindo do deserto, enviado por seu irmão José, o soberano do misterioso reino de Chabor. O seu projecto é arrojado: reunir na Europa um exército judeu que deverá tomar aos turcos a terra de Israel e constituir aí um reino judeu, devolvendo ao ocidente cristão o controlo dos lugares santos de Jerusalém. De olhar sombrio e aparente indiferença perante os clamores que suscita, este homem leva o seu projecto a Veneza; a Roma, à corte do papa Clemente VII; ao rei de Portugal D. João III; a Francisco I de França e até ao imperador Carlos V. Para os milhões de judeus europeus, perseguidos ou dificilmente tolerados, expulsos de Espanha, convertidos à força em Portugal, David Reubeni torna-se o Messias e por todo o lado a exaltação mística alimenta a lenda. Levará a bom termo o seu arrojado projecto? Escapará às apertadas malhas da Inquisição?
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January 18 2011, 10:31am | Comments »
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MEU TOP TEN DA COLECÇÃO CIÊNCIA ABERTA
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A Gradiva divulga na sua página web o meu top-ten da colecção "Ciência Aberta" (a ordem é a alfabética de autor)1- Richard Dawkins, "O Relojoeiro Cego", 2- Richard Feynman, "O Que é uma Lei Física", 3- Stephen Hawking, "Breve História do Tempo", 4- James Gleick, "Caos", 5- Douglas R. Hofstadter, "Gödel, Escher, Bach Laços Eternos", 6- Abraham Pais, "Subtil é o Senhor", 7- Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, "A Nova Aliança", 8- Hubert Reeves, "Um Pouco Mais de Azul", 9- Carl Sagan, "Cosmos", 10- James Watson, "A Dupla Hélice".
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January 17 2011, 1:04pm | Comments »
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ÉTICA PARA ENGENHEIROS
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Minha apresentação do livro "Ética para Engenheiros" filmada bno Centro Ciênvias Viva Rómulo de Carvalho: aqui.
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January 14 2011, 6:41pm | Comments »
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ENCONTRADO NA NET: LIVROS COM HIPERLINKS
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E, no mesmo sítio (brasileiro) encontrei livros que têm hiperligações feitas por linhas serpenteantes... Aqui.
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January 13 2011, 5:58am | Comments »
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Crónicas do Condestável de Portugal
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D. NUNO ÁLVARES PEREIRA Crónicas do Condestável de Portugal de Academia Portuguesa da História Edição Fac-similada do texto preparado em 1972 por António Machado de Faria É uma das novidades que a editora QuidNovi apresenta este mês (disponível a partir do dia 20), novamente a aposta na História de Portugal e, sobretudo, numa publicação esgotada há já demasiado tempo.Fica, aqui, um pequeno excerto do prefácio assinado pela Prof.ª Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa da História:No ano de 1972 a Academia Portuguesa da História publicava, em edição preparada pelo Académico de Número, António Machado de Faria, a Crónica do Condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira. Tratava-se da sexta publicação de um texto que se vira impresso, pela primeira vez, em 1526. Seguira-se nova impressão em 1554, depois em 1623 e em 1644. No século XX, em 1911, apareceria uma única publicação do texto quatrocentista, se exceptuarmos a de 1937 que António Machado de Faria não considerou “visto ela não ser integral, mas adaptação de texto antigo feita pelo Dr. Jaime Cortesão, com intuitos de a expandir, talvez entre a juventude”.De há muito esgotadas todas as edições, o seu difícil acesso quase fez cair no esquecimento o texto que, na primeira metade do século XV, autor para nós anónimo dedicou à vida e feitos de Nuno Álvares Pereira.A consagração do guerreiro português, que a Igreja Católica reconheceu como santo, canonizando-o em 26 de Abril de 2009, fez voltar à memória, para uns de modo negativo, para outros positivo, o labor de um herói que ficou para sempre associado à crise da independência portuguesa, entre 1383 e 1385, e à vitória da dinastia de Avis, iniciada por D. João I. Essa circunstância levou a Academia Portuguesa da História, em colaboração com a editora QuidNovi, a decidir oferecer ao grande público, em edição fac-similada, o texto preparado em 1972 por António Machado de Faria.É, pois, nosso objectivo divulgar a obra que registou, pouco depois da sua morte, a vida de Nuno Álvares Pereira, escrita por alguém que de muito perto o conheceu e, porventura admirador e devoto do seu personagem, lhe enalteceu feitos e virtudes. Para que só esse aspecto se conheça da vida deste nobre? Não! Para que possamos perceber como o Homem se assumiu em integridade na sociedade em que estava inserido, fruto e agente de uma mentalidade, na sua relação social económica e política com os outros e com o poder. Porque é preciso não esquecer que Nuno Álvares Pereira foi, antes de tudo, um homem do seu tempo. E é à luz desse tempo que o devemos conhecer.
January 13 2011, 5:18am | Comments »
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GRANDES ERROS: DAN BROWN, AUTOR DE NÃO-FICÇÃO!
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Espreito a última edição (n.º 194) da revista do Círculo de Leitores e pasmo: a abrir a secção de não-ficção, o livro escolhido foi... "O Símbolo Perdido", de Dan Brown... Os editores conseguiram fazer a quadratura do círculo e apetece chamar ao Círculo de Leitores (que saudades dos tempos antigos!) o Quadrado dos Leitores.
December 30 2010, 9:25am | Comments »
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Não procures sem creias: tudo é oculto
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NatalNasce um Deus. Outros morrem. A VerdadeNem veio, nem se foi: o Erro mudou.Temos agora uma outra Eternidade,E era sempre melhor o que passou..Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.Um novo deus é só uma palavra.Este poema de Fernando Pessoa foi escolhido por Eugénio de Andrade para constar na sua Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa. O poema inocentemente designado Natal que termina com as desarmantes palavras tantas vezes citadas: Não procures sem creias: tudo é oculto.
December 25 2010, 1:00pm | Comments »
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DOZE LIVROS DE CIÊNCIA DE 2010
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Quase a terminar o ano de 2010 (e com ele a primeira década do novo milénio) é a altura de fazer o balanço anual da edição de livros de ciência em Portugal. Escolhi, com um critério necessariamente pessoal, uma dúzia de livros que ficam da safra editorial deste ano. Sete deles são de autores portugueses. Os temas preferenciais são a astronomia, a física (com destaque para a história desta ciência) e a medicina (principalmente neurologia). Deixo evidentemente de fora o livro que escrevi com Décio Martins “Breve História da Ciência em Portugal”, uma edição conjunta da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Gradiva. A ordem é alfabética do nome do autor.1 - Ivo Alves, “Atlas do Sistema Solar”, Imprensa da Universidade de Coimbra.Um geofísico da Universidade de Coimbra, que tem estudado a geologia de Marte,é o autor de um interessante atlas do sistema solar, com informação actualizada sobre o nosso sistema planetário e imagens escolhidas dos vastos arquivos da NASA e da ESA. É uma obra de referência para todos os que se interessam por astronomia, numa edição cuidada de uma editora universitária de referência.2 - João Lobo Antunes, “Egas Moniz. Uma Biografia”, Gradiva.O Professor de Medicina da Universidade de Lisboa que foi distinguido há uns anos com o prémio “Pessoa” é o autor não “de uma” biografia, mas sim “da” biografia do nosso até agora único Prémio Nobel em Ciências. Fazia falta uma obra como esta, muito bem documentada e extraordinariamente bem escrita, da pena de um especialista nas matérias em que Egas Moniz sobressaiu.3- Luís Miguel Bernardo, “História da Luz e das Cores”, Vol. 3, Editora da Universidade do Porto.Um físico da Universidade do Porto especializado em óptica moderna publicou na editora da sua universidade o terceiro e último volume da sua monumental obra sobre a evolução do modo como fomos vendo a luz e as cores. A história do laser, nele incluída, surgiu na altura das comemorações dos 50 anos da invenção do laser.4 - Rómulo de Carvalho, “Memórias”, Fundação Gulbenkian.Pouco antes do Natal, a Gulbenkian traz a lume o magnífico volume de memórias do grande poeta, professor de Físico-Química, historiador da ciência e da educação e divulgador de ciência. Este é, sem dúvida, um dos maiores momentos editoriais do ano, por nos permitir compreender melhor um grande personagem do século XX português.5- Eugénia Cunha, “Como nos Tornámos Humanos”, Imprensa da Universidade de Coimbra.A antropóloga forense da Universidade de Coimbra traça de modo sumário a evolução do homem num livro de bolso da colecção de bolso “Estado da Arte” da editora da universidade coimbrã, em boa hora ressuscitada depois da extinção no tempo de Salazar. 6 - António Damásio, “O Livro da Consciência”, Temas e Debates.O médico neurologista português, autor de “O Erro de Descartes”, que é um “estrangeirado” nos Estados Unidos (e, como João Lobo Antunes, Prémio “Pessoa”) fornece um relato actualizado do que é a consciência humana. Imprescindível para todos os que queiram saber o que se sabe sobre o cérebro humano.7- Galileu Galileu, "Sidereus Nuncius. O Mensageiro das Estrelas", tradução e notas de Henrique Leitão, Fundação Gulbenkian.No final do Ano Internacional da Astronomia, que pretendeu assinalar os quatrocentos anos das primeiras observações de Galileu realizadas com o telescópio, esta é a primeira tradução em português, realizada a partir do latim original, dos registos dessas primeiras observações. Foi seu autor um dos melhores historiadores portugueses, Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa.8 - Stephen Hawking (coordenação), “Aos Ombros de Gigantes”, Texto Editores.Num enorme e belo volume, esta é uma colecção de textos clássicos de alguns dos maiores gigantes da Física – Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e Einstein - , num volume organizado pelo astrofísico inglês que se tornou famoso com a sua “Breve História do Tempo”. Coordenei a equipa da Universidade de Coimbra que efectuou a tradução para português europeu, feita com a ajuda da tradução em português do Brasil, onde o livro saiu primeiro. Curiosamente, quase na mesma altura a Gulbenkian fez sair uma outra tradução dos “Principia” de Newton aqui também contidos, feita directamente a partir do latim original.9 - Hubert Reeves, “Já Não Terei Tempo”, Gradiva.Mais um livro, este de memórias, do conhecido astrofísico canadiano, que com “Um Pouco Mais de Azul” foi o autor de um dos primeiros êxitos de venda da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva.. Essa notável colecção aproxima-se, mantendo a qualidade do início, dos duzentos livros. É obra!10- Silvan Schweber, “Einstein e Oppenheimer. O Significado do Génio”, Bizâncio.Um historiador de ciência norte-americano traça perfis paralelo de dois dos maiores génios da física do século XX. Os dois eram judeus e estiveram ligados, de uma maneira ou de outra, ao projecto que conduziu à primeira bomba atómica. Mas o seu génio excede em muito essa ligação.11 - Manuel Sobrinho Simões, “Genes, Célula, Ciência e Homem“, Verbo.O Professor de Medicina da Universidade do Porto e também Prémio “Pessoa” reuniu aqui alguns dos seus textos e entrevistas que dão conta não só do seu pensamento original mas também do seu notável poder de comunicação.12- Simon Singh, "Big Bang. A descoberta científica mais importante de todos os tempos e porque precisa de a conhecer", Gradiva.Um conhecido autor de livros de divulgação de ciência apresenta um relato pormenorizado e actualizado do modelo do Big Bang, que triunfou na cosmologia e na astronomia, num outro volume da colecção “Ciência Aberta”.
December 23 2010, 11:09pm | Comments »
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EGAS MONIZ, A BIOGRAFIA
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Minha crónica no "Sol" de hoje:Ainda a tempo do Natal acaba de chegar às livrarias, em edição da Gradiva, uma biografia do cientista luso que, com o prémio Nobel, ganhou, no século XX, maior reconhecimento internacional: o professor de Medicina e neurocirurgião António Egas Moniz. É seu autor outro professor de Medicina e neurocirurgião, João Lobo Antunes. O autor foi sensível ao filósofo Fernando Gil, que comentou que “teria um dia de escrever um livro, e não se limitar a colectâneas de ensaios de temáticas variadas”. O livro é este. O subtítulo diz, com alguma modéstia, que se trata de “uma biografia”. Mas é, antes, “a biografia” do grande sábio.Não é preciso falar muito sobre o autor, bastando dizer que da sua pena tem saído alguma da melhor prosa ensaística em língua portuguesa. Mas convém acrescentar que, servindo-se dos seus apurados dotes de investigador, pesquisou com profundidade praticamente todas as fontes que havia sobre Egas Moniz, avaliando-as com singular espírito crítico e oferecendo ao leitor o destilado produto dessa avaliação. Fala com vivo interesse de uma personagem de quem está próximo, não só por praticar a mesma profissão, mas também por o seu pai ter sido colaborador próximo do biografado.O leitor lerá com gosto neste livro uma descrição completa da vida de Egas Moniz, desde os anos de formação, primeiro na ria de Aveiro, depois no colégio jesuíta de Castelo Branco e depois ainda na Universidade de Coimbra, até aos anos finais de fama e glória, na Universidade de Lisboa, proporcionadas pelas numerosas láureas, passando pela sua precoce carreira política e diplomática e, evidentemente, por todos os trabalhos científicos que conduziram às suas duas obras maiores: a invenção da angiografia e da leucotomia pré-frontal. Encontrará relatos de peripécias pouco conhecidas, como a sua “descoberta” dos raios X através de um trabalho académico solicitado por um mestre coimbrão, quando esses raios ainda eram novidade, ou o seu duelo com Norton de Matos, com quem mais tarde haveria de se reconciliar. Ficará a saber que Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro foram doentes de Egas Moniz. A biografia tem, como assinala com ironia Lobo Antunes, sexo e violência: sexo porque A Vida Sexual foi a tese de doutoramento do biografado, que havia de tornar-se um best-seller, e violência porque ele foi atingido a tiro, já em idade madura, por um seu paciente.Lobo Antunes demora-se na descrição das invenções de Egas Moniz. Se a primeira, revolucionária na época, resistiu à erosão do tempo, a segunda tem sido alvo de críticas. O autor critica as críticas: para ele, o Nobel foi merecidíssimo. Refere mesmo o renascimento actual da psicocirurgia. Este é o livro que nos faltava sobre um dos nossos maiores cientistas!
December 16 2010, 6:16pm | Comments »






