Informação recebida da Gradiva sobre os livros de Maio:James Rachels, Problemas da FilosofiaNão pressupondo quaisquer conhecimentos prévios, esta é uma obra destinada a todas as pessoas que gostam de pensar por si. E, de facto, aborda temas que interessarão a todos: o mal, o sentido da vida, a vida além da morte, a crença religiosa e a relação mente-corpo, entre muitos outros. Mais um livro para leitores atentos e com espírito crítico.«Filosofia Aberta», nº 19, 340 pp., € 15,50Armand Marie Leroi, MutantesPrémio Guardian e Finalista do Prémio AventisNa senda de Darwin, Armand Marie Leroi brinda-nos com uma brilhante narrativa da nossa gramática genética e dá-nos a conhecer as histórias das pessoas cujos corpos no-la revelaram e permitiram os progressos efectuados no conhecimento do que nos faz sermos como somos. Tal como Ovídio, citado na epígrafe de abertura deste livro, o autor propõe-se «falar de corpos que tomaram outras formas». Partindo destes casos históricos, Leroi analisa e explica as causas e os ensinamentos a retirar de tais mutações. De leitura compulsiva e esclarecedora.«Ciência Aberta», nº 178, 496 pp., € 19,00COSMOS - Reedição de uma obra-primaCarl Sagan, CosmosReedição com ilustrações e um testemunho inédito de Ann Druyan em Junho.«Obras de Carl Sagan», nº 3, 508 pp., € 25,00"Carl Sagan trata de tudo: «Cosmos é tudo o que existiu, existe ou existirá.» O que o olhar humano alcança e, mais longe ainda, o que a mente humana alcança. Leva-nos numa viagem para a frente no espaço e para trás no tempo. Faz-nos sonhar! Poder-se-á pedir mais, de um livro?"Carlos Fiolhais, Físico"Carl Sagan é recordado como um dos maiores astrónomos de sempre, não só pelas suas contribuições exemplares para as ciências planetárias e astrobiologia, mas especialmente por ter sido um extraordinário divulgador e comunicador de ciência. Visionário no estudo do sistema solar, Carl Sagan foi também inovador na forma de transmitir a ciência ao grande público. A sua elegante, clara e inteligente forma de escrita ganhou, graças ao livro Cosmos, imensos adeptos e chegou a públicos que até então estavam afastados da ciência. [...] Cosmos é um livro para ler, reler e será sempre uma inspiração e motivação para descobrir o Universo que nos rodeia".Pedro Russo, Coordenador global do Ano Internacional da Astronomia 2009"Em Cosmos, pela primeira vez na literatura, é enunciado com clareza e transmitido de uma forma tão inteligente, expressiva e bela o sentimento de uma cidadania... cósmica. Ninguém mais do que Carl Sagan desejou e se empenhou em encontrar indícios de vida inteligente no Universo, mas ninguém foi como ele tão céptico e rigoroso na verificação científica das suas supostas manifestações. Livro de viagens e de descoberta, Cosmos prepara-nos para esse encontro fantástico."Guilherme Valente, editor
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NOVOS LIVROS DA GRADIVA
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May 19 2009, 12:32pm | Comments »
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LIVROS NA FEIRA
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Como a Feira do Livro de Lisboa ainda aí está e a do Porto não tarda eis uma dúzia de livros recentes, numa escolha necessariamente pessoal, algo centrada na ciência, mas incluindo também a história e a literatura. A ordem é a alfabética do nome do autor:- Agustina Bessa-Luís, "A Corte do Norte", Guimarães EditoresUm belíssimo volume da colecção "Opera Omnia" da Agustina Bessa-Luís foi lançado quase em simultâneo com o filme de João Botelho (o filme é bastante fiel ao livro, contendo até muitos diálogos tal qual estão no romance). Agustina tem uma escrita inconfundível, de cuja leitura se sai sempre enriquecido.- Nuno Bragança, "Obra completa (1969-1985)", Dom QuixoteNuno Bragança, que morreu com 56, faria este ano 80 anos. Bem fez a Dom Quixote em reunir a sua obra completa. Já conhecia "A Noite e o Riso", livro muito original quando saiu em 1969. Agora ando a ler o resto.- Ann Bridge e Susan Lowdnes, "Duas Inglesas em Portugal", QuidnoviAs autoras são escritoras britânicos (a primeira mulher do embaixador britânico) que fizeram uma viagem pelo nosso país nos anos 40. Para saber como éramos. E, como muita coisa não musou, como somos...- Ilda Dias e Hernâni Maia, "Origem da Vida", Escolar EditoraDois químicos escrevem um livro de divulgação científica, rico de pormenores, sobre um dos grandes problemas da ciência moderna. De onde veio a vida?- José Ribeiro Ferreira e Luísa Nazaré Ferreira (organizadores), "As Sete Maravilhas do Mundo Antigo", Edições 70Agora que tanto se fala de sete maravilhas, vale a pena conhecer as clássicas, as autênticas. esta colecção ensaios da responsabilidade do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra, inclui a tradução de textos de autores clássicos sobre os grandes monumentos antigos. Entre os textos está um da professora Maria Helena da Rocha Pereira sobre o "Zeus de Olímpia".- Rebecca Goldstein, "Incompletude. A demonstração e o paradoxo de Kurt Goedel", GradivaUma filósofa de ciência formada em Princeton (onde esteve o matemático Goedel, tal como Einstein) esclarece o famoso teorema de Goedel da incompletude, que tão invocado tem sido e que tão incompreendido é.- David Lodge, "A Consciência e o Romance", Edições AsaConjunto de ensaios sobre literatura do conhecido romancista britânico. O primeiro ensaio, que dá o título ao livro, parte das modernas teorias científicas sobre a consciência. Nos outros ensaios são discutidos entre outros autores como Dickens, Waugh, os dois Kingsley, James, Roth , Kierkegaard e o próprio Lodge.- Lúcia Mucznik, José Alberto Silva Tavim, Esther Mucznik e Elvira Mea (coordenadores), "Dicionário do Judaísmo Português", PresençaUma grande obra de referência sobre os judeus portugueses, indispensável para quem se interesse pela história de Portugal. Consultando-a, confirma-se que alguns dos nossos melhores eram judeus e verifica-se como as perseguições aos judeus foram um obstáculo ao nosso desenvolvimento.- J. Rentes de Carvalho, "Com os Holandeses", QuetzalAquele que é talvez o escritor português mais conhecido na Holanda (e, infelizmente, quase desconhecido em Portugal), conta-nos aqui como são a Holanda e os holandeses. É sempre estimulante ver discutidas as diferenças culturais entre o Norte o Sul da Europa.- Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa, José Morais e Manuel Paiva, "À Espera de Godinho", BizâncioTrês portugueses a residir na Bélgica e um belga de origem portuguesa dialogam, ao longo de vários jantares, sobre o Portugal que deixaram, revelando pormenores curiosos sobre a nossa história recente. Como digo na badana: "Portugal desafia as leis da óptica: vê-se melhor ao longe do que ao perto".- António Bracinha Viera, "A Evolução do Darwinismo", Fim de SéculoUm professor de Evolução da Universidade de Lisboa presenteia-nos com este curto ensaio sobre a evolução da evolução- David Sloan Wilson, "A Evolução para Todos", GradivaUm professor norte-americano de Biologia e Antropologia que esteve há pouco entre nós, no ciclo da Gulbenkian associado à exposição sobre Darwin, conta "como a teoria de Darwin pode mudar a nossa forma de pensar na vida" (como reza o subtítulo). Imperdível!
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May 16 2009, 5:05am | Comments »
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PORTUGUÊS QUE SE CORRESPONDEU COM DARWIN INSPIRA PEÇA DE TEATRO
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Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra (na foto Darwin na fachada da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra):Dia 15 de Maio às 16 horas no Museu da CiênciaÉ divulgação científica. É ficção. É realidade. O naturalista português que se correspondeu com Darwin virou protagonista de uma peça de teatro. Paulo Trincão, o ex-director da Fábrica - Centro de Ciência Viva de Aveiro, vai estar no Museu da Ciência da UC para apresentar o seu novo livro. O prefácio é de Carlos Fiolhais.Correspondeu-se com Charles Darwin e muitos outros notáveis do seu tempo, acabando por entrar para a história graças ao seu trabalho inovador na área do evolucionismo aplicado à classificação das espécies: o naturalista português Francisco de Arruda Furtado é agora o protagonista de uma peça de teatro. O livro "O português que se correspondeu com Darwin", do cientista Paulo Trincão, é lançado no dia 15 de Maio às 16 horas no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC). A apresentação estará cargo do director da Biblioteca Geral da UC, Carlos Fiolhais, que é também o autor do prefácio.Francisco de Arruda Furtado tinha uma "enorme energia e capacidade de iniciativa" que o levaram a contactar "com alguns dos mais notáveis investigadores do seu tempo", sublinha Paulo Trincão. A correspondência trocada com Charles Darwin, o pai da teoria da evolução, entre 13 de Junho e 21 de Novembro de 1881 é um dos pontos altos do empreendedorismo científico do naturalista açoriano, o mesmo que agora deu o mote a uma peça de teatro pensada para o público jovem e adulto."A correspondência entre ambos deverá ter terminado devido ao grave estado de saúde de Darwin, que faleceria a 19 de Abril de 1882", explica o também ex-director da Fábrica - Centro de Ciência Viva de Aveiro. "A relação de trabalho gerada teve como base a carta de resposta de Darwin de 3 de Julho, onde apresenta um programa de trabalho que Arruda Furtado segue com entusiasmo durante esse Verão".E são precisamente a troca de impressões com Darwin e o resultado dessa interacção que dão corpo ao livro "O Português que se correspondeu com Darwin". "Este texto tem como objectivo central a divulgação do naturalista português Francisco de Arruda Furtado e dos seus estudos pioneiros na introdução de uma perspectiva evolucionista no trabalho de classificação taxonómica comum à época", explica Paulo Trincão.Pensada para subir ao palco, a obra procura aproximar-se da realidade da época, sem se desviar do seu propósito de divulgar ciência. "O texto foi construído numa base ficcional, embora apresente fragmentos de textos muito próximos das citações originais dos respectivos autores. Nestas situações foi necessário introduzir ou eliminar algumas palavras e construções gramaticais mais arcaicas, para o discurso se tornar mais fluído quando transposto para a oralidade", resume o cientista.Lançado no ano em que se comemora o bicentenário do nascimento do naturalista inglês e os 150 anos da sua obra mais célebre, "A Origem das Espécies", o livro "O Português que se correspondeu com Darwin" é um tributo a um dos nomes maiores do conhecimento científico nacional. "A divulgação e o reconhecimento, fora do meio académico, da importância de Francisco de Arruda Furtado para a História da Ciência em Portugal, aparecem como uma homenagem justa e oportuna", sublinha o autor.Paulo Trincão nasceu em Coimbra em 1958. Licenciado em Geologia pela UC e doutorado em Estratigrafia e Paleobiologia pela Universidade Nova de Lisboa, é professor auxiliar da Universidade de Aveiro, tendo dirigido a Fábrica - Centro de Ciência Viva de Aveiro. Foi director do Instituto de História da Ciência e da Técnica do Museu Nacional da Ciência e da Técnica e comissário de mais de uma dezena de exposições de divulgação científica a nível nacional em instituições como o Museu da Electricidade (Lisboa), o Museu da Ciência e da Técnica e a Universidade de Coimbra.
May 13 2009, 3:13am | Comments »
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A EVOLUÇÃO PARA TODOS
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Informação recebida da Gradiva:David Sloan Wilson, autor da obra A EVOLUÇÃO PARA TODOS, amanhã na GulbenkianDavid Sloan Wilson, professor de Biologia da Binghamton University e autor do livro A Evolução para Todos - Como a teoria de Darwin pode mudar a nossa forma de pensar na vida, publicado no passado mês de Março pela Gradiva, participa amanhã, pelas 18h, no auditório 2 da Gulbeankian, em Lisboa, no ciclo de conferências «A Evolução de Darwin», organizado desde Fevereiro pela Fundação Calouste Gulbenkian.David Sloan Wilson é professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton. É o autor de Darwin’s Cathedral: Evolution, Religion and the Nature of Society, co-autor de Unto Others: The Evolution and Psychology of Unselfish Behavior e co-editor de The Literary Animal: Evolution and the Nature of Narrative.O QUE OS CRÍTICOS DIZEM SOBRE A OBRA DO AUTOR«A Evolução para Todos é uma obra divertidíssima. Mas não se deixe iludir, pois David Sloan Wilson é um grande biólogo que, por acaso, também é um contador de histórias fantástico.»Sarah B. Hardy, autora de Mother Nature«Em geral, existem dois tipos de livros científicos: os que são escritos para cientistas profissionais e os que são escritos para o público em geral. De vez em quando, surge uma obra que faz a ponte entre estes dois mundos. É o caso de A Evolução para Todos: trata-se de uma narrativa bem escrita e cativante, que pode ser apreciada por qualquer pessoa, mas contendo ideias originais que devem ser lidas por cientistas profissionais pelo valor que têm para o desenvolvimento da ciência. Fiquei espantado com as novidades que Wilson introduz e com a quantidade de novas ideias que apresenta; assim, neste caso, ‘qualquer pessoa’ significa isso mesmo: tanto meros curiosos sobre a matéria, como cientistas profissionais.»Michael Shermer, editor da revista Skeptic, colunista da Scientific American e autor da obra Why Darwin Matters«Esta história cativante, uma síntese inovadora e inesquecível que abrange biologia, psicologia, religião e política, representa a biologia evolutiva no seu melhor.»Martin Seligman, Professor de Psicologia e Director do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia
May 12 2009, 7:58am | Comments »
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Da Vida na Escola
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Um prefácio, de António Nóvoa, cheio de luz, a um livro extraordinário que gostei muito de editar (de Manuela Castro Neves - Da Vida na Escola)Escrevo este prefácio acompanhado por um livro que marcou o século XX: Psychologie de l’enfant et Pédagogie expérimentale de Édouard Claparède. Estranhamente, passou despercebido o centenário deste “documento”, que começou por ser uma brochura, em 1905, e que, pouco a pouco, se transformou numa referência central do movimento da Educação Nova[1]. O texto procura analisar os problemas e os métodos da “nova pedagogia”, insistindo numa afirmação que ficou célebre: “a criança não é, contrariamente ao que se pensa, um homem em miniatura”. O olhar atento sobre as características próprias da infância, conduz Claparède a defender um ensino baseado na motivação e nos interesses dos alunos, em práticas de diversificação pedagógica que respondam às necessidades de cada criança e em métodos que consigam dar sentido ao esforço de aprendizagem[2]. Enquanto redijo estas notas, tenho comigo um segundo livro: Les dits de Mathieu: Une pédagogie moderne de bon sens, da autoria de Célestin Freinet (1959)[3]. Trata-se de uma colecção de pequenos registos, imaginados a partir da personagem de Mathieu, o “herói” de uma obra anterior, L’éducation du travail[4]. São histórias simples, baseadas em situações e experiências escolares, que revelam uma grande sensibilidade pedagógica. A literatura pedagógica mais interessante é composta por este tipo de narrativas, por vezes ficcionadas, que colocam o leitor perante uma diversidade de exemplos e de situações. Evita-se, assim, a pura teoria ou o normativo metodológico, dando corpo a um pensamento que, através da singularidade de cada caso, abre para uma infinidade de leituras. Tenho ainda um terceiro livro junto de mim: Formação cooperada de Sérgio Niza (1997)[5]. É o relato e a avaliação de um projecto de intervenção social comunitária, no qual a formação ocupa um lugar central. Sérgio Niza discute propostas de trabalho que fazem parte do património do Movimento da Escola Moderna, o mais importante movimento pedagógico português. A palavra “lucidez” é a que melhor define este exercício de reflexão na e sobre a acção através do qual se produz uma autoformação cooperada[6], valorizando as dimensões do desenvolvimento pessoal e as dinâmicas de colegialidade e de cooperação.Com estes três livros, faço a travessia do século XX. Eles permitem-me assinalar aspectos centrais destas “37 histórias e algumas reflexões” da autoria de Manuela Castro Neves, intituladas Da vida na escola.Em primeiro lugar, estas histórias revelam uma atitude de profundo respeito pelas crianças. “Respeitar” significa conhecer, compreender e agir. É o contrário da demissão. Há duas formas extremas de resignação: o autoritarismo que, buscando impor uma ordem e uma verdade exteriores à criança, apenas contribui para a afastar de um esforço próprio de aprendizagem; o permissivismo que infantiliza a educação, fechando a criança no seu próprio mundo e impedindo-a de aceder a novos universos culturais. A virtude pedagógica está sempre no terceiro termo: no despertar do interesse e da curiosidade para o esforço da aprendizagem, na conquista diária da criança para o estudo e para o trabalho, na procura de sentidos pessoais e sociais para os percursos escolares de cada um.Em segundo lugar, estas histórias são um exemplo notável da “pedagogia do bom senso”, que não recusa a teoria, nem a prática, mas que situa a acção educativa num entre-dois (num terceiro nível) onde se exprime o tacto e a sensibilidade, a intuição e a lucidez. Elas recordam as teses de Durkheim que define a pedagogia como uma teoria prática[7]. O debate público sobre educação está saturado de evidências, alimentadas fundamentalmente por quem nunca entrou numa sala de aula… a não ser como aluno. Todos têm certezas definitivas sobre tudo. Pelo contrário, ao fim de quarenta anos de docência, Manuela Castro Neves aprendeu a desconfiar das evidências, a cultivar a inteligência da dúvida. Ela conhece o poder da pergunta, da interrogação. Cada caso é um caso. Os textos aqui apresentados e a forma como estão escritos são o testemunho de uma vida profissional intensa, marcada por esse “permanente recomeço” que define a relação que os melhores professores são capazes de instituir com os alunos.Em terceiro lugar, estas histórias são um espantoso material de formação. Sente-se, ao longo da sua leitura, que as histórias em si mesmas se constituíram num momento de análise e de reflexão. Através da escrita elas são transformadas num espaço de conhecimento, não só no plano pessoal, mas também num contexto de partilha e de cooperação. A palavra tem uma função insubstituível na construção da profissionalidade docente. Contar histórias sobre “a vida na escola” é uma das melhores maneiras de nos situarmos face à profissão, através de uma aproximação (conhecimento prático) e de uma distância (conhecimento teórico) que nos conduzem a valorizar a pedagogia da situação (conhecimento deliberativo). A escrita da prática serve um propósito de compreensão e, ao mesmo tempo, de transformação.As histórias de Manuela Castro Neves colocam-nos perante dilemas vários. Não há respostas pronto-a-vestir para os problemas educativos. O acto pedagógico assenta em situações únicas que exigem decisões únicas. A pedagogia define-se através de uma composição complexa de saberes diversos e de valores por vezes contraditórios. Os professores são chamados a deliberar num quadro de justiça e de sensatez que mobiliza as suas identidades pessoais e profissionais: “esta deliberação implica a existência de um espaço público de discussão, no qual as práticas singulares, as opiniões e as inteligências possam tornar-se visíveis, graças a um confronto com o julgamento dos outros”[8].Estes outros são os colegas que fazem parte dos nossos círculos profissionais, das nossas “comunidades de prática”. A experiência do Movimento da Escola Moderna é matricial para quem deseja percorrer os caminhos da partilha, da cooperação e da colegialidade. Ninguém pode ser obrigado a colaborar. Mas é necessário desenvolver uma cultura profissional que integre elementos de regulação, de avaliação pelos pares, de apoio mútuo e de elaboração conjunta de projectos de trabalho.Estes outros são, também, os pais, as comunidades locais e a sociedade em geral. Os professores comunicam mal com o exterior, têm dificuldade em explicar o seu trabalho. É certo que há uma abundância de textos sobre educação. Mas raramente são da autoria dos próprios professores. Ora, a escrita constitui um dos meios principais para obter o reconhecimento social de um determinado grupo profissional. Estas histórias, e a reflexão que lhes está associada, constituem um contributo essencial para a formalização de um conhecimento profissional específico e para a sua comunicação “interna” e “externa”. Na simplicidade da sua forma narrativa, elas devolvem-nos toda a complexidade do trabalho docente.Da vida na escola sugere muitas leituras. Certas passagens sossegam-nos, reconciliam-nos com este “ofício impossível” como lhe chamou Freud. Outras, provocam-nos, inquietam-nos, demonstram-nos que a intenção educativa está sempre habitada pelo desassossego. Manuela Castro Neves inscreve-se na melhor tradição pedagógica. As suas histórias são de uma riqueza exemplar. Estamos perante um livro notável de uma professora notável.António NóvoaNova Oeiras, 25 de Setembro de 2005 [1] O livro original tinha 76 páginas. A 4ª edição, de 1911, já conta cm 472 páginas.[2] Os títulos de duas das obras mais emblemáticas de Édouard Claparède ilustram bem estes propósitos: em L’école sur mesure (1920) defende uma escola à medida de cada aluno; em L’éducation fonctionnelle (1931) explica a importância de uma educação que cumpra uma “função” pessoal e social.[3] Há uma edição portuguesa, com o título Pedagogia do bom-senso (Lisboa, Moraes Editores, 1973).[4] A obra L’éducation du travail foi publicada em 1949. Há uma tradução portuguesa, com o título A educação pelo trabalho (Lisboa, Editorial Presença, 2 volumes, 1974).[5] Sérgio Niza, Formação cooperada, Lisboa, Educa, 1997.[6] O conceito é interessante na medida em que nos expõe perante a necessidade de juntar o eu e o outro, o auto e o hetero.[7] Émile Durkheim, “Pédagogie”, in F. Buisson (dir.), Nouveau dictionnaire de pédagogie et d’instruction primaire, Paris, Librairie Hachette et Cie, 1911, p. 1540.[8] Guy Jobert, “Espaces et enjeux de l’écriture praticienne”, Éducation Permanente (supplément Éducation Nationale), nº 132, 1997, p. 12.
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May 4 2009, 7:38am | Comments »
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Vale a pena ler
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O Culto do Amador, de Andrew Keen Tradução de Maria Luiza X. de A. BorgesRio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, 208 pp.What you may not realize is that what is free is actually costing us a fortune,” Mr. Keen writes. “The new winners — Google, YouTube, MySpace, Craigslist, and the hundreds of start-ups hungry for a piece of the Web 2.0 pie — are unlikely to fill the shoes of the industries they are helping to undermine, in terms of products produced, jobs created, revenue generated or benefits conferred. By stealing away our eyeballs, the blogs and wikis are decimating the publishing, music and news-gathering industries that created the original content those Web sites ‘aggregate.’ Our culture is essentially cannibalizing its young, destroying the very sources of the content they crave.” Recensão no NYT.
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April 29 2009, 1:20pm | Comments »
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PORTUGAL SOB "GRAVE RISCO" DE INVASÕES BIOLÓGICAS
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Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:Não conhecem leis nem fronteiras e causam, por todo o mundo, prejuízos superiores a cinco por cento do PIB global. As plantas invasoras estão a multiplicar-se cada vez mais depressa. Mas em Portugal já têm cadastro.Portugal está mais susceptível a invasões biológicas, com prejuízos graves para a economia e para a saúde. O alerta é das biólogas Helena Freitas, Elizabete Marchante e Hélia Marchante, autoras de um novo guia sobre as plantas que ameaçam o território continental. O "Guia Prático para a Identificação de Plantas Invasoras de Portugal Continental" é lançado na próxima terça-feira, dia 28 de Abril, às 17 horas no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC).A apresentação do livro, especialmente pensado para o público em geral, contará ainda com a presença de João Loureiro, do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), e de Jorge Paiva, do Departamento de Botânica da UC, que explicarão por que é que as invasões biológicas devem ser uma preocupação política e científica.Segundo Helena Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ecologia, Portugal está sob "grave risco" de invasões biológicas, com consequências para a economia nacional e para a saúde pública. De resto, um estudo publicado esta semana na revista Frontiers in Ecology and the Environment, citado pelo jornal Público, refere que só na Europa são gastos 10 mil milhões de euros no combate às espécies invasoras. Ao nível mundial, o Global Invasive Programme (GISP) estima que o prejuízo causado por estas plantas ascenda ao equivalente a 5 por cento do PIB global."Entre as plantas invasoras que suscitam mais preocupação estão as acácias (a mimosa, por exemplo), o chorão-das-praias, a erva-das-pampas (ou penacho), a háquea-picante e o jacinto-de-água (na figura), mas há certamente mais", reconhece Elizabete Marchante, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC. Para a bióloga, "uma das grandes dificuldades associada ao problema das invasões biológicas é que cada pessoa, não consciente do problema, pode contribuir para o agravar, quer introduzindo novas espécies (intencional ou acidentalmente), quer utilizando espécies invasoras nas suas actividades profissionais ou mesmo no seu jardim. É fundamental investir nesta divulgação, pois só reconhecendo as espécies invasoras é que se pode evitar a sua utilização".As plantas utilizadas na decoração são elas próprias, frequentemente, espécies de risco. "Estas espécies podem vir de qualquer local do mundo. Chegam acidentalmente, por exemplo através de sementes misturadas com mercadorias, mas também intencionalmente, por exemplo para o mercado ornamental", explica Elizabete Marchante.Nem todas as plantas exóticas são nocivas, sublinha Helena Freitas. Contudo, como explica o guia, algumas destas espécies "além de superarem as barreiras geográficas, conseguem superar barreiras bióticas e abióticas", podendo tornar-se numa "ameaça para os ecossistemas naturais, para a produção de alimentos e, mesmo, para a saúde humana e para a própria economia".
April 26 2009, 8:11pm | Comments »
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"Em nome de uma falsa pedagogia"
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Maria do Carmo Vieira é professora de Português do Ensino Secundário. Ouvindo-a ou lendo o que escreve, percebe-se, de imediato, ser uma daquelas pessoas que ama, no sentido filosófico clássico, a literatura e o ensino.Sabemos, no entanto, que nem sempre este duplo amor, se é mesmo amor, traz paz a quem ama.. No caso, penso que não se pode dizer que Maria do Carmo Vieira viva em paz, pois sabe bem, tem nítida consciência, que as nossas crianças e jovens estão a ser privados da beleza dos textos literários e das possibilidades cognitivas, emocionais e morais que a sua abordagem didáctica abre. Sendo que esta verdade é ainda mais verdadeira para aqueles a quem a sorte não sorriu à nascença.O que pensa sobre este assunto, reuni-o num belíssimo livro acabado de sair pela mão da Quimera, e a que deu o título: A arte mestra da vida: reflexões sobre a escola e o gosto da leitura. Nele dá conta bem documentada da eliminação dos programas escolares de alguns dos nossos melhores escritores, que deixaram, portanto, de constar nos manuais. Dá ainda conta de pseudo-estratégias pedagógicas “para os tornar interessantes” e “úteis aos alunos no seu quotidiano”, que mais não fazem do que lhe retirar a essência.“Em nome de uma falsa pedagogia, há quem acuse a «dificuldade dos textos literários que são entregues às crianças» (inclui-se neste rol o poema As fadas de Antero de Quental) e defenda a sua eliminação, ou a sua simplificação em ridículas adaptações e sensibilizações para a leitura de… Sei por experiência, enquanto professora e também educadora, que as crianças podem não compreender o significado de muitas palavras que ouvem, mas sentem a sua beleza e a sua musicalidade, guardam-nas como mistérios ou, curiosas, questionam o seu significado. É assim que, numa diversidade de épocas e séculos, lhe podemos ler poemas de Eugénio de Andrade, Alberto Caeiro, Pessoa (ortónimo), Cesário Verde, Guerra Junqueiro, Antero de Quental ou Luís de Camões (…).Também a escritora e professora Luísa Dacosta pode relatar um sem-número de experiências sobre a boa receptividade dos seus alunos dos 5.º e 6.º anos a autores portugueses a autores portugueses e estrangeiros, como o Padre António Vieira, Eça de Queiróz, Cecília Meireles, Raul Brandão, Graciliano Ramos, Saint-Exupéry, Hemingway. Infelizmente, continuamos, sob orientações institucionais, a menorizar os nossos alunos, a atrofiar as suas capacidades e a negar-lhes a cultura a que têm direito, tornando-os vítimas de um ensino que os coloca ignorantes e indefesos perante uma sociedade exigente e desumanizada. Esta atitude oficializada ofende a nobreza da pedagogia, em nome da qual se permitem as mudanças mais absurdas e atentatórias da inteligência e da sensibilidade dos professores e dos alunos de todos os níveis de ensino.”Este trabalho de Maria do Carmo Vieira está longe, porém, de ser um trabalho desencantado é, antes, uma reflexão lúcida e acutilante que nos alerta para a necessidade de (re)pensarmos os caminhos que temos traçado para a educação, de modo que, como recorda na sua página pessoal, possamos dizer: “Amanhã tudo será melhor, eis a nossa esperança” (Voltaire).
April 23 2009, 2:03pm | Comments »
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ESTRELAS DE PAPEL
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Informação recebida da Biblioteca Nacional:De 29 de Abril a 31 de JulhoTESOUROS DA ASTRONOMIA NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGALSão os melhores de todos os tempos e estão reunidos na Biblioteca Nacional de Portugal. De manuscritos de Alcobaça a códices árabes, de Ptolomeu ao avô de D. Dinis, as maiores estrelas da Astronomia são cabeças-de-cartaz de uma exposição inédita sobre as obras que redesenharam o UniversoEra uma vez o homem que pôs a Terra no centro do Universo e o homem que a expulsou. E era uma vez o avô castelhano de D. Dinis, que posicionou os planetas. De Ptolomeu a Copérnico, de Afonso X a Newton, os nomes maiores da Astronomia dão o mote a uma mostra rara sobre as obras que desenharam e redesenharam o Universo. A exposição "Estrelas de Papel: Livros de Astronomia dos séculos XIV a XVIII" vai estar em exibição de 29 de Abril a 31 de Julho na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa. A entrada é livre.Pela primeira vez, a BNP reúne um conjunto fundamental das obras mais emblemáticas da história da Astronomia. Integrada nas celebrações do Ano Internacional da Astronomia (AIA 2009), a exposição "Estrelas de Papel" é uma oportunidade rara para conhecer a evolução da mais antiga das ciências exactas e perceber o o fascínio que despertou em todos os povos e culturas.Enriquecida com instrumentos astronómicos de época, a exibição divide-se em quatro núcleos. No primeiro, dedicado aos "Antecedentes da Revolução Astronómica", as estrelas de papel são obras de Ptolomeu (o cientista grego que pôs a Terra no centro do Universo), Sacro Bosco (o defensor da forma esférica do nosso planeta), Afonso X (o avô de D. Dinis, que reuniu a sabedoria árabe para construir tabelas com as posições dos planetas), Regiomontano (astrónomo quinhentista que acreditava que a Terra não se movia) e Pedro Apiano (o desenhador da astronomia ptolomaica), entre outros. Estes primeiros nomes maiores da Astronomia chegam à BNP através de manuscritos de Alcobaça, códices árabes, incunábulos e edições do século XVI.O segundo núcleo dá lugar aos cientistas que revolucionaram a Astronomia. De "A Revolução Astronómica" constam edições raras de autores célebres como Copérnico (o autor da teoria que retirou a Terra do centro do Universo), Tycho Brahe (o dinamarquês que esteve na origem de algumas das mais importantes descobertas da Astronomia) e Galileu (cujas observações foram determinantes para a confirmação de que os planetas giram à volta do Sol). Neste módulo, é ainda possível observar obras de Kepler (o autor das leis do movimento dos planetas), Riccioli (um dos maiores estudiosos da Lua), Hevelius (considerado o fundador da topografia lunar) e Newton (o descobridor da lei da gravitação universal, que explica a atracção entre os corpos).A exposição "Estrelas de Papel" reúne ainda os exemplos mais significativos da evolução da representação do Universo, num núcleo dedicado aos Atlas Celestes desenhados desde o século XV.A Astronomia portuguesa tem também lugar cativo na exposição integrada nas celebrações do Ano Internacional da Astronomia 2009. Do núcleo "Astronomia em Portugal" constam impressos e manuscritos de autores portugueses como Pedro Nunes (um dos maiores vultos da Ciência, que aperfeiçoou o sistema de Ptolomeu), mas também Sardinha de Araújo, Manuel Bocarro, Castro Sarmento, Eusébio da Veiga e Monteiro da Rocha, assim como edições portuguesas de autores estrangeiros.O Ano Internacional de Astronomia é organizado em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, do Ciência Viva e da European Astronomical Society (EAS) e decorre durante 2009 no país todo.
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April 22 2009, 7:37am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A IDENTIDADE NACIONAL
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É hoje lançado no Palácio Galveias, Lisboa, pelas 19h30m, o livro "À Espera de Godinho" de Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira Sousa, José Morais e Manuel Paiva (Bizâncio). Deixamos um novo excerto, este um diálogo entre o psicólogo José Morais (JM) e o físico Manuel Paiva (MP) sobre a identidade nacional:"JM – Como escreveu Tzvetan Todorov no Le Monde (17 de Março de 2007), “só as nações mortas adquiriram uma identidade imutável”. Se tivesse de escolher, eu que não sou historiador, veria na história de Portugal dois grandes êxitos e duas grandes desgraças. Infelizmente, cada êxito teve o seu próprio efeito de sinal oposto; o mesmo é mais difícil de dizer a respeito das desgraças. Os grandes êxitos foram os descobrimentos e a literatura. Os descobrimentos fizeram avançar a humanidade para outro estádio civilizacional e de domínio do planeta e, pelo que nos toca, fizeram de um pequeno país isolado no extremo sudoeste da Europa um país mundial; mas as dificuldades das longas viagens marítimas e do comércio, a rapacidade dos colonizadores e a dissipação improdutiva das riquezas das suas colónias cavaram-lhe a ruína e reforçaram a oligarquia hereditária ou de fresca data, que encontrou na Inquisição um instrumento implacável de disciplina. A literatura, em particular a poesia, criou ao longo de séculos uma expressão ímpar do sentimento humano, de que Pessoa veio a ser o expoente máximo; porém, acabaram por ser mais fortes, no reflexo de que delas deu o cancioneiro popularucho, as disposições de alma que alimentam a auto-lamentação e a consequente renúncia nostálgica.MP – E as grandes desgraças? A Inquisição, com certeza... e a outra?JM – Eu diria o quase meio século de fascismo salazarista e pós-salazarista. A Inquisição – o Santo Malefício –, para além dos crimes hediondos que perpetrou, deixou o país muito mais pobre em meios humanos, instaurou a torpeza e o fanatismo. E se, de todo este mal algum bem emergiu, ele terá resultado da fuga à Inquisição portuguesa de tantos homens, mulheres, crianças e até embriões ou fetos – neste estado saiu Espinoza de Portugal –, que contribuiu para a formação, na Europa do norte, de ilhas de liberdade e em particular de liberdade de consciência. E o fascismo, esse, tornou Portugal pobrezinho – como Salazar sonhava que fosse – retrógrado, tacanho em mentalidade e cultura, e prolongou a sua agonia colonial ao ponto de fazer dele o último e grotesco Império da história contemporânea. Neste caso, procuro algum bem que esse mal tivesse gerado, e, se não tivermos em conta o bem que resultou da sua queda, não encontro. Até – para comparar com a imigração resultante da Inquisição, e talvez porque não fosse a liberdade que estivesse mais em causa – a gigantesca imigração do trabalho, com a sua metafórica “mala de cartão”, a partir de 1960, não produziu nada de relevo. Mais grave, a queda do fascismo, para além do mérito que tiveram os militares revoltosos, não foi seguida do processo e do julgamento que se impunham. Portugal e os seus políticos quiseram esquecer ou perdoar, quando esquecimento e perdão são a melhor maneira de fazer reaparecer os demónios ao primeiro desencanto. Depois da queda do fascismo, a cultura e os costumes americanizaram-se, as instituições politicas europeizaram-se, a língua abrasileirou-se. A identidade nacional faz-se e desfaz-se por todos os que vivem em Portugal, portugueses ou não, e até pelos portugueses que vivem no estrangeiro, incluindo os estrangeirados. Infelizmente, fazem parte da identidade portuguesa também aqueles portugueses que se sentem cosmopolitas e ao mesmo tempo desprezam o retornado das colónias ou da França e o imigrante africano, asiático, do leste da Europa, e até brasileiro.MP – Volto a perguntar-te: não é a identidade nacional uma questão de valores mais do que de carácter ou até de história?JM – Olha, acho que não. Para mim, os bons valores não têm nacionalidade, são universais, ou pelo menos deveriam sê-lo. Acabemos com o mito da identidade nacional como um valor! Valores são o princípio de liberdade, de igualdade de direitos (à saúde, à educação, ao trabalho justamente remunerado) independentemente do sexo e da origem social, de respeito pelo imigrante, de laicidade, que implica o respeito das religiões e do ateísmo... Sinto tantas vezes um cheiro de matéria em decomposição quando ouço falar de “identidade nacional”... Tenho vontade de exclamar: abram rápido as janelas, deixem entrar o ar fresco da universalidade; e que a identidade nacional seja apenas flor e poesia!"
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April 20 2009, 6:49pm | Comments »







