Diferenciar é assumir o luto de uma prática antiga, e isso jamais acontece sem hesitações e ambivalências. Inovar, nesse sentido, significa atribuir um status ao luto, verbalizá-lo, trabalhá-lo, declarar as resistências legítimas (Gather Thurler, 1993a) mais que apelar somente à racionalidade e à consciência profissional dos professores. Já mencionei em outra obra (Perrenoud, 1988a) a ideia de que a pedagogia de domínio é uma utopia racionalista, destinada a se chocar contra os interesses e as estratégias dos atores (alunos e professores) na organização. Podemos dizer o mesmo de toda pedagogia diferenciada. E a única solução - porta estreita, caminho espinhoso - é reconhecer essa contradição e elaborá-la com os interessados.Perrenoud, Obra citada infra
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O Trabalho do Luto
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July 7 2010, 5:01am | Comments »
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O luto do esplêndido isolamento
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É difícil diferenciar sozinho. No mínimo, deve-se negociar com os colegas mais próximos e com a administração para ampliar os graus de liberdade com relação ao programa, à avaliação, ao emprego de tempo e do espaço: toda diferenciação pedagógica obriga a trapacear mais ou menos discretamente com as normas do estabelecimento. De preferência, deve-se trabalhar com os pais, para associá-los a um contrato de trabalho ou, ao menos, para evitar as ações discordantes, por exemplo, a repressão por parte da família no momento em que o professor se esforça para elevar a auto-estima de seu aluno (Montandon e Perrenoud, 1987). A diferenciação deveria estar, sobretudo, a cargo de uma equipa pedagógica por muitas razões evidentes: divisão do trabalho, reforço mútuo, continuidade ao longo do curso, descompartimentação, multiplicidade de visões sobre os alunos e de estratégias de intervenção, acúmulo e partilha de experiências, etc. Ora, trabalhar em equipe é assumir o luto de sua autonomia e de sua loucura pessoal. É conceder aos outros, por uma boa causa e sem os mecanismos de defesa que conservam a hierarquia a distância, um direito de observar as práticas aplicadas, um direito e um dever de ingerência na sala de aula. É romper com a "lei ambienta!" dos professores: "Cada um por si; depois de fechar a porta, eu é que mando na sala e não me intrometo no que os meus colegas fazem". É enfrentar a diferença, o conflito, os problemas de comunicação e de poder entre adultos. No entanto, uma diferenciação eficaz tem esse preço. Todos aqueles que têm experiência de trabalho em equipe pedagógica sabem que precisam assumir o luto de uma forma de liberdade. É claro que também abandonam, no melhor dos casos, os sentimentos de impotência e de solidão que os acompanham. Aqui também é inútil negar o luto. É melhor trabalhar por aquilo que o justifique, em primeiro lugar pelos alunos, mas também pelos adultos! o luto pelo poder magistral Talvez esse seja o luto mais exorbitante para todos aqueles que optaram pelo ensino para propiciar um espetáculo permanente a um grupo, para estar sempre no centro dos acontecimentos, como maestro da orquestra, líder carismático, placa giratória (Ranjard, 1984). Talvez seja o luto mais fácil para todos aqueles que vivem o confronto com o grupo como uma ameaça ou um conflito ininterrupto, uma incerteza sempre reiniciada quanto a saber o que acontecerá com a relação de forças. Provavelmente no ponto em que o contrato pedagógico estiver mais degradado, melhor se aceitará o fato de ter de mudar de papel, de se tornar organizador, pessoa-recurso, mestre de apoio, criador de meios e seqüências didáticas geradas em parte sem o professor, oferecedor de feedbaek, negociador de contratos, inspirador desejos e projetos, mediador entre os alunos e outras fontes de informação ou enquadramento, em vez de magister único, detentor do saber e do poder na sala de aula.o trabalho do luto Diferenciar é assumir o luto de uma prática antiga, e isso jamais acontece sem hesitações e ambivalências. Inovar, nesse sentido, significa atribuir um status ao luto, verbalizá-Io, trabalhá-lo, declarar as resistências legítimas (Gather Thurler, 1993a) mais que apelar somente à racionalidade e à consciência profissional dos professores. Já mencionei em outra obra (Perrenoud, 1988a) a idéia de que a pedagogia de domínio é uma utopia racionalista, destinada a se chocar contra os interesses e as estratégias dos atores (alunos e professores) na organização. Podemos dizer o mesmo de toda pedagogia diferenciada. E a única solução - porta estreita, caminho espinhoso - é reconhecer essa contradição e elaborá-la com os interessados. Perrenoud, Ibidem
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June 25 2010, 5:39pm | Comments »
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O luto das rotinas repousantes
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Como sugerem os estudos do ciclo de vida (Huberman, 1989), uma das perguntas que o professor se faz é: "Vou morrer com um giz na mão?". Trata-se de durar, de conseguir sobreviver algumas décadas em situações ao mesmo tempo desesperadoramente repetitivas e sempre imprevisíveis em seu detalhe. Daí vem a tentação, como em todas as profissões, de construir rotinas que funcionem sem exigir muita energia nem criatividade. Quando não aceitamos mais que uma parte dos alunos fracasse, condenamo-nos a inventar constantemente soluções originais para os alunos que resistem aos procedimentos padronizados. Podemos conservar as rotinas que convêm aos alunos que aprendem sem dificuldade, mas isso é para refletir melhor sobre os problemas sempre singulares dos alunos em dificuldade. Portanto, diferenciar é questionar constantemente a organização da sala de aula e das atividades para jogar com os limites de tempo e de espaço, para tirar o melhor partido das possibilidades de agrupamento e de interação. Os professores que praticam uma pedagogia diferenciada apóiamse em esquemas básicos, mas sua preocupação com a eficácia leva-os a remodelar periodicamente o funcionamento do grupo-classe. Philippe Perrenoud, Ibidem
June 25 2010, 5:32pm | Comments »
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O luto das certezas didáticas
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As pedagogias que se acomodam ao fracasso escolar podem repetir todos os anos, enquanto o programa não muda, transposições e sequências didáticas que foram aprovadas por alunos médios ou bons. Para os alunos em dificuldade, não há método garantido; a relação com o saber, a divisão dos conteúdos, as sequências de aprendizagens deveriam ser reconstruídas em função de um caso concreto, em um funcionamento inspirado em um procedimento clínico.A diferenciação também exige uma aposta naquilo que é essencial.Com frequência, é sábio renunciar ao enfoque do esforço em todo o programa. Assim, deve-se determinar o que importa mais para cada aluno em função das expectativas dos professores que o receberão em outras séries, mas também das possibilidades do momento. O professor deve, em cada caso, reconstruir um currículo e até mesmo os objetivos, fazer-se perguntas que, em princípio, são resolvidas em outro nível da organização, pois ele percebe, dia após dia, que os planos de estudos, os manuais, os procedimentos metodológicos que a instituição lhe propõe valem apenas para os alunos sem dificuldades. Para os outros, tudo está para ser feito ... Ibidem
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June 22 2010, 11:16am | Comments »
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O luto da liberdade na relação pedagógica
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Diferenciar é aceitar enfrentar com mais frequência, de forma mais intensiva e mais metódica, os alunos menos gratificantes: os que resistem, "não jogam o jogo", não querem ser ajudados, às vezes abusam da confiança que se tem neles. Os que apresentam muitas lacunas, bloqueios, handicaps que não sabemos por onde constituir ou reconstituir um mínimo de identidade positiva e de vontade de aprender, nem em que bases construir ou reconstruir aprendizagens. Os desagradáveis, indisciplinados, agressivos, fugidios, preguiçosos, lunáticos, negligentes, sujos ... É claro que, no ensino público, um professor aceita as classes que lhe são destinadas, mas conserva uma importante margem de manobra nas interações mais individualizadas. Diferenciar é colocar essa margem, integralmente, a serviço dos alunos mais desfavorecidos. É enfrentar a diferença em suas aparências menos abstratas, distâncias culturais e pessoais, conflitos, rejeições. Portanto, é aceitar trabalhar consigo mesmo, com preconceitos e imagens do aluno aceitável (Perrenoud, 1994b, 1994c). Perrenoud, Obra citadaAinda que a liberdade não seja fazer aquilo que nos apetece fazer. Há uma dimensão ética no exercício da liberdade pedagógica. E sobre esta não é preciso fazer qualquer luto.
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June 22 2010, 11:08am | Comments »
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O luto do fatalismo do fracasso
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É cómodo acreditar que há crianças dotadas e outras não e que "não há nada a fazer". Para ser tentado por esse fatalismo, não é preciso ser conservador, inatista, elitista, racista. Mesmo os que lutam contra o fracasso escolar passam por momentos de dúvida: é muito difícil fazer aprender, suscitar vontade, criar condições de desenvolvimento, de autoestima, de atividade. No entanto, diferenciar o ensino é assumir o luto por representações deterministas, ao mesmo tempo desesperadoras e confortáveis, de ordem filosófica, científica, pedagógica e prática. É aceitar que nada se determina "no momento do nascimento" ou "antes dos seis anos". É afirmar, junto com o CRESAS (1981), que "o fracasso escolar não é uma fatalidade"; é acreditar, com Bloom (1979), que 80% dos alunos podem dominar 80% do programa se forem colocados em condições adequadas de aprendizagem; é aceitar uma responsabilidade, às vezes uma culpa, bastante pesadas. Philippe Perrenoud, Obra citada
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June 19 2010, 8:00am | Comments »
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ASSUMIR O LUTO
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Situo-me no contexto da escola pública, com sua estrutura e seus programas. Nela, a diferenciação é um mecanismo importante. Que uma escola particular, uma escola-piloto, uma escola alternativa invistam na diferenciação do ensino, tudo bem. Mas quando se trata de lutar em grande escala contra o fracasso escolar, devemos falar das escolas e das classes comuns. Os inovadores muitas vezes fingem acreditar que tudo o que o que resiste a eles provém de uma rigidez patológica, de um apego irracional à tradição. Na verdade, com freqüência as resistências são inteligíveis se quisermos adotar o ponto de vista dos atares envolvidos. Falarei aqui apenas dos professores. Não para sugerir que os administradores, os pais e os alunos não manifestam resistências, mas porque as dos profissionais são decisivas. Se não as compreendermos, é inútil tentar atacar as resistências dos outros: a diferenciação não progredirá contra os professores, e eles é que estarão na primeira fila para convencer pais, alunos ou colegas conservadores de que uma mudança está bem fundamentada.Diferenciar seu ensino é assumir o luto por representações e práticas bastante cômodas. Sem dúvida, os reformadores sempre dizem que é pelo bem dos alunos, mas devemos reconhecer que, muitas vezes, os interesses dos alunos chocam-se de frente com os interesses dos professores. Por isso,não é suficiente chamá-los ao dever e à abnegação, convidar os professores a renunciar, "pelo bem dos alunos", a representações e práticas vitais para seu próprio equilíbrio e até mesmo para sua sobrevivência na profissão. É mais realista ajudá-los a reconstruir satisfações profissionais em um outro nível de domínio, a assumir o trabalho do luto, sem minimizá-lo. Isso não pode ser feito em um dia, nem na solidão. As estratégias de mudança passam por dinâmicas de equipes pedagógicas, de estabelecimentos ou de redes que ajudam todos a evoluir, durante vários anos.A análise dos diversos lutos, dos quais apresento aqui uma lista aberta, não sugere sozinha as formas de estimular e sustentar um processo de mudança. Seria absurdo jogar essa lista aos professores, esperando que ela facilitasse as coisas. Em compensação, a lista pode ajudar os animadores e os agentes de mudança a colocar um pouco de ordem nas intuições e representações que emergem naturalmente em todo processo de inovação, ou simplesmente de formação, se criarmos o clima desejado para que cada um ouse dizer o que realmente o assusta e o que verdadeiramente tem a perder. ..Philippe Perrenoud, Obra citada
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June 19 2010, 7:44am | Comments »
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