Novo post do historiador António Mota Aguiar:Marck Athias, nasceu no Funchal em 1875, com pai de ascendência judaica, director de um estabelecimento bancário na Madeira. Ainda jovem, foi estudar para Paris, onde, com 22 anos, terminou a licenciatura em Medicina.Após o curso, trabalhou num laboratório de Paris, onde se afirmaria como histologista, tendo sido premiado pela Faculdade de Medicina de Paris pelo trabalho científico produzido. Durante a sua estada em Paris contactou com notáveis especialistas de histologia e química, o que, a par da educação que recebeu na Faculdade, lhe augurou desde logo uma carreira profissional promissora.Mas, na época que Marck Athias viveu em Paris, a sociedade francesa estava profundamente afectada pelo Affaire Dreyfus, e dividida entre os defensores da inocência de Alfred Dreyfus e os que o acusavam de ter vendido à Alemanha documentação secreta. Em 1894 Dreyfus foi condenado a prisão perpétua, para só ser libertado em 1906, após se ter provado a sua inocência. O antisemitismo que lavrava na sociedade francesa desse tempo deve-o ter afectado pelas suas raízes judaicas, mas, mesmo assim, preferia ficar em França, pelo que concorreu a um lugar no laboratório onde trabalhava. Foi, porém, preterido por um colega francês.Voltou para a Madeira e, em 1907, veio para Lisboa, onde Miguel Bombarda lhe ofereceu o lugar de director do laboratório de histologia do Hospital de Rilhafoles. Aí iniciou o ensino de histologia, criando um curso de técnica histológica para médicos. Começaria aqui a carreira científica de Marck Athias no nosso país, iniciando uma nova fase da medicina experimental em Portugal, criando uma escola de investigação associada a uma estratégia de renovação da mentalidade portuguesa defendida pelo ideário positivista, característica do republicanismo, que marcou o Portugal desta época.Escreveu a Professora Isabel Amaral da Universidade Nova de Lisboa:“No período em que a escola de investigação se desenvolveu, foram erguidas as estruturas sociais, logísticas e epistemológicas, basilares da comunidade médica de Lisboa, nas primeiras décadas do século XX: reformou-se o ensino, surgiram as especialidades, criaram-se laboratórios e institutos de investigação, formaram-se investigadores, fundaram-se revistas e sociedades científicas, privilegiando assim um novo modelo de ensino universitário em que os docentes passaram a ser julgados não pela sua erudição livresca, mas pela sua capacidade de produzir saber original com base na experimentação. A escola de investigação de Marck Athias criou assim as condições para a emergência da bioquímica em Portugal”.A escola de Athias criou ramificações profundas na ciência portuguesa e deixou muitos discípulos que se notabilizaram, como os médicos Ferreira de Mira e Celestino da Costa, este último impulsionador da Junta de Educação Nacional, criada em 1929.António Mota de Aguiar
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Sobre Marck Athias (1875-1946)
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February 17 2011, 6:59am | Comments »
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A FÁBRICA DO CORPO HUMANO ON LINE
http://dererummundi.blogspot.com/2011/02/fabrica-do-corpo-humano-on-line.html
UMA BOA NOTÍCIA:Graças ao patrocínio da Sociedade Portuguesa de Neurociências (bem-hajam!) acaba de ser restaurado, digitalizado e colocado na Web, no sítio Alma Mater, o que deve ser o único exemplar em Portugal do livro do século XVI "Fábrica do Corpo Humano" de André Vesalius, que é propriedade da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Os que gostam de livros antigos ou de história da ciência podem deliciar-se a vê-lo aqui.
February 10 2011, 10:51am | Comments »
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Sobre Miguel Bombarda
http://dererummundi.blogspot.com/2011/02/sobre-miguel-bombarda.html
Post recebido do historiador António Mota de Aguiar:Miguel Bombarda, médico e político português, homem de vasta cultura e formação científica, nasceu no Rio de Janeiro em 1851. Veio ainda jovem para Portugal, onde começou os seus estudos, tendo em 1877 terminado o curso da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde passou a ser Professor. Em 1892 foi nomeado director do Hospital Rilhafoles em Lisboa, mais tarde Hospital Miguel Bombarda, onde exerceu psiquiatria até à sua morte .O fim do século XIX e início do século XX foi marcado por profundas alterações políticas, económicas e sociais em Portugal. No contexto das alterações ocorridas, a contribuição dada por Miguel Bombarda como professor e director do Hospital Rilhafoles foi assaz relevante, não porque tenha sido um diligente investigador (devido às suas múltiplas actividades não lhe ficava muito tempo livre para a investigação), mas sim, graças ao seu empenho, e ao de outro médico, Sousa Martins, na criação de dois laboratórios de histologia no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana e no Hospital Rilhafoles, respectivamente em 1882 e 1897.Além da sua actividade como político, foi impulsor de revistas como O Correio Médico e a Medicina Contemporânea e, em 1906, presidiu a um Congresso internacional de medicina em Lisboa, tendo exercido ainda diversas outras actividades.Miguel Bombarda contribuiu significativamente para fixar em Portugal as raízes das disciplinas de fisiologia e histologia, tendo nomeado Marck Athias para dirigir o Instituto de Histologia do Hospital de Rilhafoles. “Foi o empenhamento de Marck Athias na vertente experimental da medicina que permitiu criar as condições propícias ao nascimento da bioquímica em Portugal”, escreve Isabel Amaral, Professora da Universidade Nova de Lisboa. Por isso, quando nos anos 30 do século XX, Kurt Jacobsohn veio para Portugal, criando e desenvolvendo o estudo da bioquímica, encontrou uma base formada nos anos anteriores pelos mencionados médicos portugueses.Miguel Bombarda defendeu o determinismo radical, i.e., a ideia de que tudo no mundo é um produto de condições que podem ser cientificamente estudadas, sendo a vida um fenómeno explicável pela “organização molecular” e pelas “condições do meio”. Materialista convicto, escreveu Consciência e Livre Arbítrio, publicado pela primeira vez em 1898, do qual fazemos aqui uma síntese.Para Bombarda não existiam mistérios inacessíveis à razão humana. Disse ele que: “Os outros, os que da crença vivem e pela fé morrem, procuram a verdade no sentimento. Há no seu espírito presentimentos e intuições. Não há demonstrações, nem mesmo as procuram ou as aceitam. No seu coração está a razão, a natureza e o destino das coisas”. E, como “as propriedades dos corpos são invariáveis em presença das mesmas condições…existe de toda a evidência uma ordenação, uma harmonia, um fatalismo fenomenal…” Mais à frente, Bombarda acrescentou: “A invariabilidade de relacionamento fenomenal, que permite o estabelecimento dessas leis, é o que constitui o determinismo…”… e “a noção dessa lei geral…tem o valor de um axioma geométrico”.Idealista, republicano convicto, Miguel Bombarda não defendia a selecção darwinista. Na Introdução a um livro de um autor da época (Landislau Batalha) escreveu: “(…) Em toda a natureza o factor cooperativo tem sido a fonte ubérrima da adaptação e da evolução. A selecção darwiniana, com a sua desoladora e impotente luta pela existência, já fez o seu tempo. (…)”.Defensor do cooperativismo, pensava que um mundo melhor havia de chegar: “…quando os interesses de classes começarem a embotar-se e o ideal humano tiver infiltrado os espíritos, a fraternidade deixará de ser um mito e a humana felicidade uma utopia”. Morreu assassinado por um doente, a dois dias da implantação da República, para a qual ele tanto tinha contribuído e no seio da qual certamente teria um futuro promissor. “Morrer assim é estúpido”, teve ele a lucidez de dizer na hora da sua morte.António Mota de Aguiar
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February 6 2011, 5:28pm | Comments »
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O ÁLBUM GENÉTICO
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Crónica publicada no "O Despertar".Avô e neto passeiam os olhos pelo álbum genético da família. É um álbum em que não há rostos de pessoas mas histórias de genes e da sua relação com história de vida de cada um. Registos coloridos de interacções fluorescentes desdobram-se em anotações com informações sobre determinados genes que marcaram determinado momento da vida. Desde os que estiveram mais activos durante as diferentes etapas do desenvolvimento embrionário de cada membro da família, até aqueles que determinaram momentos cativos em que uma doença trespassou o silêncio celular e explodiu em dor. Comparando os perfis genéticos com fotos, é engraçado comparar as parecenças fisionómicas com as semelhanças de actividade de certos genes em determinadas alturas da vida da avó e da mãe.Cada registo está ainda emoldurado com uma outra história: a da interface modeladora do percurso bioquímico de cada um com o meio ambiente, numa espécie de moldura epignética. “Foi aqui que o pai começou a fumar. Nota-se pelo aumento da actividade destes genes que transcritos activam defesas antioxidantes”. “Foi aqui que comecei a ter mais pelos no corpo, nota-se pelo aumento da actividade dos genes que codificam as proteínas que sintetizam as hormonas masculinas como a testosterona.”É um álbum repleto de esperança. Foi através da sua análise e interpretação que o médico do tio percebeu o seu genotipo bioquímico e ajustou a terapêutica adequada à sua incipiente propensão para um síndrome metabólico que o levaria a uma diabetes tipo 2, se não tratado tão precocemente.É um álbum hoje de ficção científica, de impressões mágicas, como o eram mágicas fotografias antes da invenção do daguerreótipo (e ainda não o são?). Mas é uma janela aberta para um futuro muito próximo, quiçá já neste primeiro quartel do século XXI, propulsionado pelo desenvolvimento de tecnologias de sequenciação genómica e de metodologias bioanalíticas cada vez mais sensíveis, robustas e económicas.Estamos à porta de uma revolução que nos trará imagens dos nossos genes em acção.António Piedade
February 2 2011, 3:33am | Comments »
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Biomarcadores para a Doença de Alzheimer?
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Publicado no "Diário de Coimbra".A detecção precoce de doenças neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson) constitui um aspecto da maior relevância clínica. Para além da sintomatologia associada à doença, até há muito pouco tempo o diagnóstico definitivo de muitas doenças passava pela identificação post-mortem de determinadas fisiopatologias.O espantoso desenvolvimento da Biologia Molecular e os avanços no conhecimento na área da Imunologia molecular, principalmente no entendimento do funcionamento do sistema imunitário adaptativo à experiência bioquímica de cada indivíduo, tem permitido o desenvolvimento de testes de diagnóstico molecular precisos, que permitem antecipar nalguns casos anos no diagnóstico de determinada doença.Contudo, se por um lado a identificação de determinada patologia pela presença de anticorpos a ela específicos no plasma sanguíneo tem permitido o desenvolvimento de testes de rastreio e diagnóstico rápidos, mais ou menos económicos, o desconhecimento das substâncias antigenas, que potenciam e elicitam a geração desses mesmos anticorpos, tem retardado o desenvolvimento desses mesmos testes para algumas doenças como é o caso da doença de Alzheimer.A nova estratégia pode traduzir-se pela possibilidade de elaborar sinteticamente um número pequeno de potenciais moldes para fazer chaves que já existem e são funcionais sem conhecermos a fechadura dessas chaves! Esta estratégia permite-nos identificar a presença das chaves e deduzir a existência ou presença das respectivas fechaduras. (Este exemplo é igualmente válido se trocarmos a chave pela fechadura).No último número da revista Cell, é apresentado uma nova abordagem molecular que permite a selecção de um número reduzido de moléculas sintéticas que interagem com anticorpos presentes no sangue de pacientes com determinada doença. No caso em questão, o s investigadores conseguiram, através desta metodologia, detectar anticorpos presentes no sangue de modelos animais com Alzheimer que estão ausentes no sangue de indivíduos aparentemente saudáveis.Abre-se uma nova era no diagnóstico biomolecular.António Piedade
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January 12 2011, 6:54am | Comments »
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A primeira administração de Insulina: 11 de Janeiro de 1922
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Publicado em "O Despertar".Antes da descoberta e purificação da molécula Insulina, a doença diabética era, na maior parte dos casos, fatal!A associação de que determinados grupos de células no tecido exócrino pancreático, identificados primeiramente por Paul Langerhans, em 1869, estavam envolvidos no processo digestivo e na regulação dos níveis do açúcar glicose no sangue, foi progressivamente estabelecida por várias gerações de cientistas. Em 1889, o fisiologista Oskar Minkowski e o médico Joseph von Mering, mostraram que se o pâncreas de um cão fosse removido o animal desenvolvia diabetes. Em 1901, Eugene Opie demonstrou a relação causa efeito entre o estado, integridade, dos grupos de células identificados por Langerhans (em sua honra denominados ilhéus de Langerhans) e o desenvolvimento da Diabetes mellitus.Nas duas décadas seguintes foram várias as tentativas em tentar isolar as secreções dos Ilhéus de Langerhans eventualmente responsáveis pela regulação da glicemia no sangue, mas sem sucesso clínico apreciável.A história da descoberta está também condimentada com alguma controvérsia em torno de quem terá sido o primeiro cientista a demonstrar a acção de extractos de Ilhéus de Langerhans na redução da glicemia e glicosúria. Entre eles estão cientistas como Georg Ludwig Zuelzer (1906), E. L. Scott (1911-12), Israel Kleiner (1919) e o romeno Nicolau Paulescu (1921). Este último foi, para muitos, o primeiro cientista a descobrir a Insulina, mas “problemas” no registo e patente da sua descoberta impediram que fosse galardoado com o prémio Nobel pelo seu trabalho.De facto, o comité Nobel atribuiu em 1923 o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina a Frederick Banting e a J. J. R. Macleod pela descoberta da Insulina e sua administração num humano diabético. Estes laureados, descontentes com a decisão do comité Nobel, dividiram o reconhecimento com outros dois cientistas que, segundo eles, tinham sido decisivos no isolamento e purificação da insulina: Charles Best, assistente de Macleod, e o bioquímico Bertram Collip convidado por Banting para o trabalho laboratorial “pesado” de isolamento e purificação. Deve-se a Collip a obtenção do primeiro extracto de insulina purificado a partir de ilhéus de Langerhans de fetos de bezerro. Esta foi a fonte para o extracto a ser utilizado no primeiro ser humano a ser injectado com insulina: Leonard Thompson. Com 14 anos de idade, o adolescente diabético foi injectado pela primeira vez no dia 11 de Janeiro de 1922 (há 89 anos) com um extracto impuro, o que lhe causou uma reacção alérgica severa.As injecções foram suspensas enquanto Collip não conseguiu melhorar o protocolo experimental e conseguir purificar o extracto. Conseguiu-o depois de 12 dias de intenso trabalho laboratorial. No dia 23 de Janeiro de 1922, Leonard recebeu uma injecção do novo extracto purificado o que lhe retirou os sintomas diabéticos sem lhe causar reacções e complicações indesejadas. Foi um sucesso das ferramentas laboratoriais químicas aplicadas à saúde e o início de uma nova era na bioquímica clínica.A Diabetes mellitus deixava de ser uma doença fatal e passava a ser uma doença crónica.O conhecimento bioquímico conquistava qualidade de vida onde antes a esperança morria doce.António Piedade
January 11 2011, 8:45am | Comments »
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Um escritor escreve sobre um erro clínico
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/um-escritor-escreve-sobre-um-erro.html
Outras Boas Festas muito originais que recebemos vieram do escritor Cristóvão de Aguiar que as fazia acompanhar de um texto onde, com o seu inconfundível estilo literário, relatava a sua sofrida odisseia clínica, que terá a ver com um erro (um assunto recorrente neste blogue).Já resido neste hotel de meia estrela há quase três semanas. Perfazem-se três semanas exatamente amanhã. Como muito bem sabes, fui submetido a uma cirurgia que se pressupunha simples e se complicou por mero desleixo médico. Desleixo, incompetência, arrogância de quem tira uma especialidade em Paris e julga que ficou a saber toda a medicina do Universo e cercanias...Não há ninguém, a não ser os deuses a quem já lhe foram impostas as insígnias, que não cometa um engano ou erro. O mais pintado os comete, mas há quem não possua ou não queira possuir a humildade de reconhecer o erro ou a falta cometida. Coimbra é uma cidade de sábios. Nunca se enganam. Este privilégio pertence ao parágrafo único da sebenta. Sempre assim foi, daí o seu atraso secular. Muitos quefazeres têm os médicos deste Centro Cirúrgico, falsamente considerado como a cereja no cimo do bolo da cirurgia paroquial, coimbrinha, mas com sérias pretensões a galgar o patamar ou o patíbulo da notoriedade nacional… A narrativa desenrola-se num ápice.Calhou ser eu a vítima de um enxerto do ilíaco para o maxilar superior, já mirrado de osso para poder suportar alguns implantes dentários. Dessa parte do ato, nada a apontar: nem um suor ou lágrima de dor em nenhuma das fases por que tem de passar uma operação cirúrgica. Serviço bem feito! A coxa direita, coitada, é que pagou todas as favas do bolo-rei da melodiosa quadra natalícia, este ano com racionamento de açúcar e muitas outras escassezes sopradas das europas do mundo… Pressupõe-se que um vaso sanguíneo na coxa direita, farto de albergar sangue, se chateou e resolveu escoar-se para a coxa. Natural para quem tem uma especialidade e exerce outra, ou, melhor duas em sincronia.Simultânea e legalmente! Uma equimose (nódoa negra) logo se revelou, alastrante, negroide, preenchendo um círculo de cerca de vinte centímetros, das costelas até meio da coxa. O das duas especialidades nem fez caso. Tudo natural. Como a água que corre no rio e segue até à foz. Se alguém se afogar, a culpa nunca será do rio, mas de quem nele se afoitou a mergulhar, com um massagista a servir de caução… “Movimente-se, mexa-se, não se ponha parado, faça exercício, enrijeça os músculos, torne-se atleta, inscreva-se, sem pagar joia, ainda vai a tempo, o prazo só se esgota logo à noite, aliste-se num prova de corrida de muletas (perdão, canadianas), pode ter sorte, nunca se sabe, e ganhar o primeiro prémio, o gordo, encher-lhe-á a grande cloaca da conta calada da fatura que a clínica fará o especial favor de apresentar à saída, depois de descontada a caução, nunca se sabe com quem se lida, e tudo isto acontece, mesmo que a vítima tenha entrado pelo seu próprio pé e saído abraçado aos fofos roliços braços de umas muletas, perdão, canadianas, e amparado por uma ou duas pessoas, ao fim de dezassete dias de clausura doirada, adoçada com pílulas, sorrisos, visitas meteóricas do físico que tem muito mais que fazer que aturar doentes e acha tudo natural: nem sabe a situação clínica do paciente, confunde dores da coxa com dores do pé, não sabe ler uma radiografia, não admira, radiologista nunca foi, há de sê-lo quando crescer, mente muito, mas, sobretudo, manda: ande, corra, faça ginástica de aplicação militar, flexões no varão da cama, olhe que a embolia pulmonar vem aí não tarda nada, não quero que venham os mestres de Paris de França dizer que não o avisei, que deles dependo para subir, subir, Coimbra admira muito os atletas que sobem a corda para alcançar o bacalhau no topo, andar é fundamental, em França o doente começa a andar antes de ressuscitar da anestesia, e logo caminha sem muletas, perdão, canadianas, país civilizado (a França, de Robespierre), o nosso, ainda não, só quando terminar o Serviço Nacional de Saúde, aí, sim: os doentes deixarão de ficar molengões com a anestesia e, em vez de só acordarem ao terceiro dia para subir ao céu, passam a ressuscitar já com as muletas, perdão, as canadianas, postas e já apetrechadas com um aparelho de marcar o ritmo do passo muletário, ande, ande, este é o lema de Paris de França a que devemos obedecer, andar, andar, correr, ginasticar, seguir à letra os preceitos da outrora capital do Mundo e das luzes, e agora tem Sarkosy e Bruna, também fazem jogging na cama, não se pode ter tudo, sigamos os alfaiates de Paris de França, como seguimos o antigo Curso Preparatório já depois de ter sido extinto vinte e cinco anos antes, andar, andar, marchar, contra os bretões marchar, tirem as muletas, perdão, canadianas, em verdade vos digo que elas serão abolidas no reino clínico da cereja no topo do bolo de Ançã, sem que este tenha culpa nenhuma.Coimbra, 13 de Dezembro de 2011Cristóvão de Aguiar(O texto foi publicadio no Expresso das Nove: aqui , onde há mais textos do autor, designadamente uma breve sequela sobre a reabilitação, com data da noite de Natal)
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December 28 2010, 4:50am | Comments »
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Retirar os apoios à homeopatia?
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/retirar-os-apoios-homeopatia.html
Destaque semanal para a coluna electrónica "Whats New" do físico Robert Park (na imagem, Hahneman,o fundador da homeopatia):"HOMEOPATHY: FUNDAMENTAL LAWS OF NATURE TAKE PRECEDENCEThe Science and Technology Committee of the UK Parliament released a report urging the government to withdraw funding and licensing of homeopathy. It is unlikely to happen; even the Queen has her own personal homeopathist. This year is the 200th anniversary of Samuel Hahnemann's "Organon of the Medical Art." The prevailing philosophy of medicine at the time was "vitalism,” the belief that life involves some spiritual essence. "Medicinal energy," Hahneman wrote, "is most powerful when it communicates nothing material." He was unaware of the extent to which he achieved this ideal by sequentially diluting his medications. It would be another 50 years before Loschmidt determined Avogadro’s number. It is now clear that Hahnemann was many dilutions beyond the dilution limit. Last week I commented on the mistaken belief that cell phone radiation causes cancer. The photon energy in the microwave region of the spectrum is only about 1 millionth of the energy required to create a mutant strand of DNA, which is the initiation of cancer. There is no need to go any further. Epidemiology is expensive, time-consuming, and prone to statistical errors and faulty recall."Robert Park
December 19 2010, 8:57pm | Comments »
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EGAS MONIZ, A BIOGRAFIA
http://dererummundi.blogspot.com/2010/12/egas-moniz-biografia.html
Minha crónica no "Sol" de hoje:Ainda a tempo do Natal acaba de chegar às livrarias, em edição da Gradiva, uma biografia do cientista luso que, com o prémio Nobel, ganhou, no século XX, maior reconhecimento internacional: o professor de Medicina e neurocirurgião António Egas Moniz. É seu autor outro professor de Medicina e neurocirurgião, João Lobo Antunes. O autor foi sensível ao filósofo Fernando Gil, que comentou que “teria um dia de escrever um livro, e não se limitar a colectâneas de ensaios de temáticas variadas”. O livro é este. O subtítulo diz, com alguma modéstia, que se trata de “uma biografia”. Mas é, antes, “a biografia” do grande sábio.Não é preciso falar muito sobre o autor, bastando dizer que da sua pena tem saído alguma da melhor prosa ensaística em língua portuguesa. Mas convém acrescentar que, servindo-se dos seus apurados dotes de investigador, pesquisou com profundidade praticamente todas as fontes que havia sobre Egas Moniz, avaliando-as com singular espírito crítico e oferecendo ao leitor o destilado produto dessa avaliação. Fala com vivo interesse de uma personagem de quem está próximo, não só por praticar a mesma profissão, mas também por o seu pai ter sido colaborador próximo do biografado.O leitor lerá com gosto neste livro uma descrição completa da vida de Egas Moniz, desde os anos de formação, primeiro na ria de Aveiro, depois no colégio jesuíta de Castelo Branco e depois ainda na Universidade de Coimbra, até aos anos finais de fama e glória, na Universidade de Lisboa, proporcionadas pelas numerosas láureas, passando pela sua precoce carreira política e diplomática e, evidentemente, por todos os trabalhos científicos que conduziram às suas duas obras maiores: a invenção da angiografia e da leucotomia pré-frontal. Encontrará relatos de peripécias pouco conhecidas, como a sua “descoberta” dos raios X através de um trabalho académico solicitado por um mestre coimbrão, quando esses raios ainda eram novidade, ou o seu duelo com Norton de Matos, com quem mais tarde haveria de se reconciliar. Ficará a saber que Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro foram doentes de Egas Moniz. A biografia tem, como assinala com ironia Lobo Antunes, sexo e violência: sexo porque A Vida Sexual foi a tese de doutoramento do biografado, que havia de tornar-se um best-seller, e violência porque ele foi atingido a tiro, já em idade madura, por um seu paciente.Lobo Antunes demora-se na descrição das invenções de Egas Moniz. Se a primeira, revolucionária na época, resistiu à erosão do tempo, a segunda tem sido alvo de críticas. O autor critica as críticas: para ele, o Nobel foi merecidíssimo. Refere mesmo o renascimento actual da psicocirurgia. Este é o livro que nos faltava sobre um dos nossos maiores cientistas!
December 16 2010, 6:16pm | Comments »
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Entrevista a Alexandre Trindade sobre Cancro (2)
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Segunda parte de uma entrevista (ver 1ª parte aqui), sobre cancro, com o Doutor Alexandre Trindade, Investigador do grupo de "Desenvolvimento Vascular" da Faculdade de Medicina Veterinária, UTL e do Instituto Gulbenkian de Ciência. Publicada no “Diário de Coimbra”.António Piedade - O que é que se sabe sobre o potencial neoplásico de células estaminais somáticas? Há alguma semelhança entre as primeiras células de um tumor e as células estaminais somáticas?Alexandre Trindade - A ideia vigente é que, retirando da equação factores ambientais, todas as células têm o mesmo potencial de mutação. Assim, o factor mais importante para que um conjunto de células de um tecido tenha um potencial oncogénico mais elevado é a existência de mutações herdadas. A ideia de que existem células com carácter estaminal num tumor é relativamente recente e alvo de um grande esforço na investigação. Descobriu-se que essas células são muitas vezes responsáveis pelos relapsos tumorais que acontecem a seguir a tratamentos de quimioterapia, pois estas células não são sensíveis a estes tratamentos. Pensa-se também que estas células tumorais estaminais podem ser também responsáveis pelo processo de metastização. Portanto, estas células, que compõem apenas uma percentagem mínima da população de células tumorais, têm uma importância elevadíssima no desenvolvimento tumoral e uma relevância muito alta também para a eficácia dos tratamentos.É muito complicado confirmar se as primeiras células de um tumor são estas células tumorais estaminais ou se estas se desdiferenciam em algum momento após o aparecimento do tumor. Pensa-se que na realidade ambas as situações possam acontecer. Haverão tumores que se formam a partir de células estaminais somáticas que ganham características cancerígenas e tumores que se formam a partir de células diferenciadas e que ao longo do seu desenvolvimento ganham um conjunto de células que, através de desdiferenciação, ganham características de células estaminais.AP - Apesar da gravidade para um organismo quando nele se desenvolve um cancro, é conhecido no processo tumoral algum papel na evolução das espécies?AT - Que eu tenha conhecimento não. A única ligação que se pode fazer está no facto de ambos os processos se basearem na acumulação de mutações genéticas. O crescimento de um cancro procede de forma análoga à evolução de uma espécie, em que mutações vão sendo acumuladas e seleccionadas. A maioria não tem grande consequência directa, sendo consideradas silenciosas, mas algumas têm impacto na função de um ou vários genes. Nesse momento ocorre selecção e a célula pode ser eliminada por apoptose ou como alvo do sistema imunitário. Se por acaso a mutação não induzir a morte celular directa ou indirecta então vai permanecer. No caso de conferir a perda do controlo do ciclo replicativo celular, por exemplo, vai conferir a essa célula uma vantagem replicativa, fazendo com que ela acabe por se multiplicar muito mais depressa que as células vizinhas, não transformadas, dando origem a um tumor. Esse tumor vai continuar a acumular mutações, mais depressa que as células não transformadas devido ao ciclo celular acelerado, aumentando a possibilidade de ganhar características malignas. Por outro lado, a evolução das espécies baseia-se largamente na aquisição de novas características que confiram vantagem reprodutiva ao nível do organismo, o que não é caso do cancro em que o conceito é aplicado ao nível celular.AP - Regressando ao processo de angiogénese, podemos dizer que ele é crítico para o desenvolvimento de um cancro? Que factores influenciam a arquitectura e a construção de vasos sanguíneos a partir dos já existentes?AT - O processo de angiogénese é um dos marcos da tumorigénese. O desenvolvimento da vasculatura procede de maneira descontínua. É baseado na interacção de factores que promovem a activação das células endoteliais, componentes celulares dos vasos sanguíneos, e factores que inibem a activação dessas mesmas células. Permanentemente há uma luta entre factores que promovem e inibem, promovendo no global um estado de estabilidade à vasculatura e permitindo um crescimento controlado quando há necessidade. Quando um cancro atinge um tamanho crítico ele necessita de recrutar vasos sanguíneos para permitir que continue a crescer. Assim ele começa a secretar factores de crescimento endoteliais que vão activar a vasculatura vizinha. É este estímulo externo que acaba por virar a balança em favor dos factores activadores e assim permitir que a vasculatura seja activada e comece a crescer na direcção do tumor. Como a vasculatura dos tumores é formada neste processo acelerado, em que a balança dos reguladores está fortemente virada para a activação, os vasos que se formam são largamente malformados e pouco funcionais, quando comparados com vasos sanguíneos de qualquer outro orgão normal. Estes vasos não são maduros, tendo uma camada de músculo liso, que normalmente cobre os vasos sanguíneos dando-lhes estrutura, mal organizada e muito permeável. Esta anormalidade é responsável por um aumento de pressão entre as células do tumor, que se reflecte numa maior dificuldade em que drogas quimioterapêuticas entrem no tumor para matar as suas células.AP - Travar a angiogénese parece ser um bom alvo terapêutico para tratar tumores e cancros sólidos. Quais são as fronteiras do conhecimento nesta área?AT - Em 1971 Judah Folkman, médico investigador, lançou a ideia pioneira que os tumores necessitavam de formar novos vasos sanguíneos para crescer e que uma terapia que impedisse esses vasos de crescer poderia impedir o crescimento tumoral. Em 1998 o mesmo investigador disse que se alguém tivesse cancro e fosse um ratinho ele podia tratá-lo. Desde essa altura já saíram para o mercado vários agentes biológicos que actuam sobre a neo-vasculatura tumoral, bloqueando o seu desenvolvimento. No entanto nós ainda aqui estamos a estudar esta área. A razão para isso é que as drogas actuais não revelaram ter nos humanos o mesmo efeito que no modelo ratinho. Não se sabe bem porque é que isto acontece, talvez tenha a ver com a estratégia terapêutica usada mas o mais provável é que no fundo acabe por, mais uma vez, apenas reflectir a heterogeneidade desta classe de doenças que chamamos de cancro. Os trabalhos em modelo ratinho de um tipo de cancro reflectem apenas uma pequena proporção dos pacientes humanos com esse cancro. Daí que administrar uma dada terapia em pacientes humanos acabe por produzir os efeitos observados em ratinho apenas num subgrupo de pacientes. Na minha humilde opinião, a maior fronteira está na detecção de quais pacientes serão responsivos às várias formas de terapia que vão surgindo, no fundo, em detectar quais dos pacientes têm tumores mais semelhantes àqueles em que as drogas foram estudadas em modelo ratinho. Para que este modelo possa funcionar serão necessários agentes biológicos que sejam dirigidos a todas as vias de sinalização molecular envolvidas na regulação do crescimento tumoral e da angiogénese, para que no futuro os médicos possam escolher quais combinações serão mais efectivas para cada paciente.
December 13 2010, 3:32am | Comments »








