No quase final de um romance que não deixa de nos interpelar sobre o tempo colonial em Moçambique: "O inspector remexeu-se no seu lugar, impaciente. "Onde quer o senhor chegar com essa conversa?""O que quero dizer é que a questão do bem e do mal sempre gerou mais perplexidades do que certezas." José recostou-se na cadeira. "O que é o bem e o que é o mal? Todos nós intuímos estes conceitos, mas a sua definição precisa escapa-nos. Até hoje." Apontou para a janela. "Tive a resposta a este enigma no momento em que vi o mal naquela aldeia. Vi-o impregnado nos corpos carbonizados que se espalhavam pelos escombros, vi-o quando me questionei sobre o que levaria os homens a fazerem uma coisa tão cruel. E depois deparei-me com uma criança que saiu viva e intacta de baixo do corpo queimado de uma desgraçada que os soldados quase haviam morto e percebi que há coisas que o mal, por mais que tente, não poderá conquistar. O amor daquela mãe foi mais poderoso do que o mal daqueles homens. Mas só agora, enquanto estava aqui a ouvi-lo falar, é que consegui transformar em palavras a ideia que desde então me andava a ruminar na mente." Cravou de novo os olhos penetrantes no seu interlocutor. "Sabe o que na verdade é o mal?"Sentindo-se incomodado com a intensidade daquele olhar, Aniceto Silva abanou a cabeça."ó doutor, agora não", disse. "Poupe-me a essa conversa." "É a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. Quando os soldados matam mulheres e crianças como quem mata formigas, estão possuídos pelo mal porque não conseguem pôr-se no lugar das vítimas, não conseguem perceber a posição delas nem sentir o que elas sentem. O mal é a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós." Deixou o olhar vaguear pelo gabinete, detendo-se aqui e ali. "O bem é pormo-nos no lugar do outro. E actuar em conformidade, claro." José voltou a mirar o seu poderoso interlocutor. "E é por isso, caro inspector Silva, que não posso deixar de escrever o meu relatório. Esse texto será um acto de amor e quero escrevê-lo para que as pessoas se possam pôr no lugar das vítimas. Para que os responsáveis por aquele horror se envergonhem. Para que o amor derrote o mal." O chefe distrital da DGS em Tete revirou os olhos com enfado e respirou fundo, como um saco que se esvazia. Abriu as mãos em sinal de impotência e deixou-as tombar sobre a mesa; parecia um juiz a martelar a madeira no momento soberano da sentença."Eu tentei", exclamou com uma expressão resignada. "Mas se é essa a sua posição irá discuti-la no sítio para onde terei de o mandar de imediato."
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Da Compaixão
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November 13 2010, 7:11am | Comments »
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As tradições dos Macuas
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Por: ALBERTO VIEGASOs Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer.Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.Durante o período colonial, este costume deu origem a muitas incompreensões. Ao patrão enfurecido que o insultava e lhe batia, o macua sorria, querendo dizer-lhe: «Desculpe, não queria ofendê-lo». Mas o patrão, ignorando o significado desta atitude, tratava-o ainda com mais violência, pois pensava que estava a burlar-se dele.Há, porém, momentos em que os macuas não riem nunca: perante uma pessoa com deficiências mentais, um idoso ou durante uma celebração solene.A hospitalidade é outro valor muito importante para a tribo macua. Por mais pobres que sejam, todas as famílias possuem sempre uma habitação reservada para os hóspedes, os parentes, os amigos ou os peregrinos e partilham com eles tudo quanto têm, a ponto de oferecer ao recém-chegado a própria cama, onde eles dormiram nessa noite.Quando um desconhecido chama à porta da cabana, se tem saúde, os donos da casa perguntam-lhe onde vivem os seus parentes. Mas se é um doente, não lhe fazem qualquer pergunta. Acolhem-no sempre.Se a família está a tomar uma refeição, o hóspede não pode recusar-se a tomar assento e comer com eles, tomando o alimento do prato de onde se servem todos, o qual está colocado ao centro. Se, porventura, o hóspede recusa, isto é uma grave ofensa para a família que o acolhe. Mesmo que não tenha apetite, deve lavar as mãos, comer do que a mulher cozinhou e voltar a lavar as mãos.A saudação entre as pessoas é feita quase que ao modo de um ritual. Quando saúdam um chefe ou cujo cargo obriga a uma consideração particular, fazem-no de modo humilde e respeitoso. Se se aproximam de frente, acompanham as palavras de saudação com um rítmico bater das mãos.Aquele que encontra um grupo de pessoas reunidas, sempre que alguém do grupo se aproxima para o saudar, pousa primeiro no chão, a uma certa distância, tudo o que leva na mão. Saúdam-se sempre com a mão direita, a mão forte, mostrando claramente que não guarda nada contra ele. O saudado não tem nada a temer.Se a saudação for feita com a mão esquerda, considerada a mão débil e inofensiva, pode sugerir que na outra mão há um punhal. O melhor é usar sempre as duas mãos, infundindo deste modo maior confiança e tranquilidade.Os anciãos recebem uma grande veneração entre os macuas. Ninguém dirige a palavra a um ancião estando de pé. Este sentir-se-ia ofendido. Pelo contrário, aquele que lhe fala senta-se ou põe-se de cócoras.Nas refeições, o primeiro a lavar as mãos, na única bacia que passa por todos, é o ancião. Também é ele que se serve primeiro dos alimentos e que dá início à refeição. Ao ancião, compete ainda ser o primeiro a terminar a refeição. Todos os outros, mesmo que não tenham apetite, devem continuar a comer. O ancião merece todo o respeito.No dia-a-dia, quando um jovem está sentado numa cadeira, numa pedra ou no chão, mas num lugar mais elevado, quando passa um ancião terá que descer e, pelo menos, pôr-se de cócoras.Um valor muito importante entre os macuas é a solidariedade. Unem-se solidariamente de modo particular face à doença. Quando numa família alguém adoece, todos os vizinhos se sentem obrigados a fazer-lhe uma visita, de manhã cedo ou à tardinha. E ninguém vai de mãos vazias, mas com comida, água, lenha...Se o doente piora, o chefe da família vizinha e outros adultos dormem junto à casa, velando no aprisco e sempre prontos para prestar uma ajuda quando for preciso.No caso de morte, a solidariedade aumenta. Há quem se ofereça para ir avisar os parentes que vivem mais longe. Outro cava a sepultura. Outro ainda encarrega-se de arranjar o lençol para envolver o defunto. Entretanto, já se reuniram as pessoas que lavarão o corpo. As mulheres vão buscar a água e preparam a comida para todos os presentes.Depois do funeral, os parentes e vizinhos passam três noites consecutivas na casa da família enlutada. Ao quarto dia, varre-se a casa e limpa-se o pátio. Passado um mês de luto, corta-se o cabelo à viúva e aos outros membros da família e os hóspedes regressam às suas casas.
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November 12 2010, 4:34pm | Comments »
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O Sorriso
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Creio que foi o sorriso,sorriso foi quem abriu a porta.Era um sorriso com muita luzlá dentro, apeteciaentrar nele, tirar a roupa, ficarnu dentro daquele sorriso.Correr, navegar, morrer naquele sorriso. Eugénio de Andrade
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November 11 2010, 2:45pm | Comments »
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Música, levai-me:
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Ilha de MoçambiqueMúsica, levai-me:Onde estão as barcas?Onde são as ilhas?Eugénio de Andrade
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November 11 2010, 2:41pm | Comments »
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Nampula, último dia da 1ª sequência de doutoramento
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Terminam hoje, nas instalações da Faculdade de Educação e Comunicação em Nampula, as primeiras 52 horas presenciais do 1º curso de doutoramento que a UCP está a realizar com 26 doutorandos da Universidade Católica de Moçambique. Tempo de procura. Tempo de nascer. Tempo de descobrir. Tempo de envolvimento. Tempo de iluminação. Tempo de espanto. Tempo de escutatória. Tempo de visão. Tempo de confrontar. Tempo de desamarrar. Tempo de aprendizagens. Em alguns casos, ainda debilmente articuladas. Ainda à procura da verdade. Mas tempo de promessa. Tempo de encanto. Tempo de utopia. Tempo de horizontes. Tempo de germinação. (JMA, JL,IB, VSL)
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November 9 2010, 12:13am | Comments »
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Vivências nas ruas de Nampula
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Fotos de VSL
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November 8 2010, 9:40am | Comments »
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Ver e Navegar na Ilha de Moçambique
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O Índico, da Ilha de Moçambique. E uma vela. Ver a alegria, o olhar e o rosto luminoso. Ver a altura do salto!Ah, Camões, aqui exilado numa ilha de (des)amores. Vendo a escrita da ementa no Escondidinho!E, no entanto, ando há muitos anos a educar o meu tom de voz, para que soe grave, e ninguém parece duvidar da minha condição, quando me vê. Talvez vejamos apenas aquilo que esperamos ver. (p. 310)Rosa Montero, Obra citada infra
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November 7 2010, 1:11pm | Comments »
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Maningue Nice
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November 5 2010, 12:41am | Comments »
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Maningue
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Pois é!
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November 4 2010, 2:49pm | Comments »
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DAR Melhor Educação
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Desde Nampula (Moçambique), num contexto particularmente interpelante, divulgo um texto-mensagem de Joaquim Azevedo. E que nos provoca (de pro vocare, chamar para um debate e para uma intervenção), nos convoca para darmos o melhor de nós. Na certeza de que quanto mais damos, mais temos para dar.DARME é uma iniciativa que visa recolher disponibilidades de voluntários, em particular de docentes aposentados e de pessoas aposentadas e com formação e experiência de trabalho com crianças e jovens, para desenvolver projectos ao serviço de Melhor Educação, tanto em portugal como em outros países.Várias iniciativas estão já em marcha:apoiar um projecto educativo em curso em Vila D'Este no domínio da Música, sobretudo em apoio administrativo e em organização logística (Projecto CoMMusi, da Fundação Manuel Leão); apoiar serviços educativos da Casa da Imagem, um novo projecto da Fundação Manuel Leão, em Vila Nova de Gaia (http://www.fmleao.pt/home.php), no domínio da Imagem (Fotografia, imagem Digital, etc), bem como apoio administrativo e logístico, mormente obras de recuperação de um imóvel; apoiar um projecto de recolha de livros escolares para equipar biliotecas de escolas de Moçambique, em parceria com a Fundação Portugal-África (http://www.fportugalafrica.pt/).Para já seria interessante, se estiver interessada/o e disponível, enviar os seus dados pessoais, contactos e interesses próprios em participar, bem como disponibilidades, para:fmleao@mail.telepac.ptpois será no âmbito da Fundação Manuel Leão que, para já se coordenarão estas actividades.As competências, o saber-estar e a disponibilidade de muitos docentes aposentados pode e deve ser colocada ao serviço do bem comum, certamente para benefício de quem recebe, mas sobretudo para benefício de quem dá, porque dar é muito mais importante do que receber. Esta é uma oportunidade de dar, mantendo e alimentando a nossa confiança na vida!Fico muito gratoJoaquim AzevedoPresidente da Fundação Manuel Leão
November 2 2010, 1:54am | Comments »
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