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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
As respostas que precisamos
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September 19 2009, 4:37pm | Comments »
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Acordar
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Acordaiacordaihomens que dormisa embalar a dordos silêncios visvinde no clamordas almas virisarrancar a florque dorme na raízAcordaiacordairaios e tufõesque dormis no are nas multidõesvinde incendiarde astros e cançõesas pedras do maro mundo e os coraçõesAcordaiacendeide almas e de sóiseste mar sem caisnem luz de faróise acordai depoisdas lutas finaisos nossos heróisque dormem nos covaisAcordai! Letra: José Gomes FerreiraMúsica: Lopes Graça
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September 13 2009, 8:08am | Comments »
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UM TALENTO NA DANÇA E NA FÍSICA
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É bem conhecido que a última série do concurso "Britain's got Talent" foi ganha não por Susan Boyle, mas pelo grupo de dança "Diversity". Mas é menos conhecido que o líder e coreógrafo, Ashley Banjo, é estudante do segundo ano de Física na Universidade de Londres. Apesar de ter carreira asegurada no "music-hall", já disse que não quer abandonar o curso.
August 10 2009, 7:12am | Comments »
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O RAP DOS ISÓTOPOS RAROS
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Depois do "Rap do LHC" no CERN, McAlpine dá-nos o "Rap dos Isótopos Raros", que pretende assinalar o projecto de construção de um novo acelerador pela Michigan State University, onde a artista estudou.
August 10 2009, 6:51am | Comments »
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Music Machine
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Music Machine "University of Iowa Farm Machine Music". This incredible machine was built as a collaborative effort between the Robert M. Trammell Music Conservatory and the Sharon Wick School of Engineering at the University of Iowa. Amazingly, 97% of the machines components came from John re Industries and Irrigation Equipment of Bancroft Iowa...Yes, farm equipment! It took the team a combined 13,029 hours of set-up, alignment, calibration, and tuning before filming this video, but as you can see it was WELL worth the effort. It is now on display in the Matthew Gerhard Alumni Hall at the University and is already slated to be donated to the Smithsonian. Enjoy!
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August 8 2009, 5:56pm | Comments »
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Por que se tornou José Afonso num mito?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/por-que-se-tornou-jose-afonso-num-mito.html
No dia de hoje, sendo vivo, José Afonso faria 80 anos. De diversas formas, Coimbra, cidade marcante na sua vida e obra, está a prestar-lhe homenagem.A este propósito publicamos um texto de João Boavida, antes saído no Diário As Beiras.Por que se tornou José Afonso num mito? Porque tinha todas as condições para isso.O talento, a inspiração, a originalidade, o modo de ser, o desprendimento pessoal, a bondade, a perseguição política que lhe fizeram, o pensamento utópico, o pensamento crítico, a curva da história em que viveu; por tudo, tudo, mas sobretudo pelo talento musical, que era, todavia, muito mais que musical, porque era a cultura na sua forma mais viva e pura.José Afonso é uma conjugação humana e artística raríssima, que, por razões políticas, começou por simbolizar uma época e uma geração, mas que já é, e continuará a ser, muito mais.Lembro-me bem o que significou, em Coimbra, o aparecimento das baladas, nos idos de sessenta. O frémito geral que na época se sentiu porque era uma música nova, mas que entroncava numa tradição antiga e ia, pelo espírito, pela sonoridade, pelos ambientes evocados, pelas sugestões provocadas, enraizar-se no arcaico da cultura portuguesa, numa medievalidade sentida como originária e essencial, numa estética que vinha ao encontro de um modelo melódico e de uma imagética que repousavam em memórias nebulosas e imaginadas, e que pareciam estar ali há muitos séculos, à espera de alguém.José Afonso tomara essa força profunda e antiquíssima, com uma musicalidade a nascer das palavras, e palavras que emergiam da música e só nela faziam sentido, evocando idades em que os reis nasciam em Coimbra e pelos seus verdes campos andavam ainda pastoras, se ouviam canções e se dançavam bailias e bailadas.A tudo isso ele deu voz, de uma maneira só aparentemente simples, e de muitos modos, numa contínua descoberta em que intuição e inspiração lutavam entre si; antes, não se sabendo para quê, nem se, mas sempre se conseguindo, depois, porque sempre, no fim, nascia o que há muito se esperava e a intuição inicial de beleza se reencontrava.Como em toda a criação, sentíamos a força desse apelo, essa evocação, que era coimbrã, por certo, mas que vinha detrás e que ia muito para além, que envolvia tanto esses anos, nos princípios de sessenta, como o provir, numa premonição a que o futuro se sentiu obrigado a dar toda a razão, porque a beleza que trazia tinha uma força que o implicava.Ouça-se de novo “No vale de Fuenteovejuna”, “Deus te salve Rosa”, “Verdes são os campos”, “Vai, Maria, vai”, “Cantares do andarilho” e percebe-se o que digo. José Afonso vai ao encontro da alma e da cultura portuguesa de um modo imediato, através de séculos de sensibilidade acumulada e decantada, criando, como sem querer, uma densidade poética, rítmica, melódica, afectiva em que nos sentimos mergulhados porque somos nós, é a nossa cultura no seu melhor.Ele transformou-se em mito porque é a própria cultura portuguesa que se reconhece nele.Os que, à direita, o identificaram com a esquerda, e assim o rotularam, perseguiram e tentaram (tentam) esquecer, perdem o tempo e a raiva. Os que, à esquerda, se ficaram pelas canções de combate, embora elas tenham sido, como se sabe, uma terrível arma, também o não perceberam nem estão à sua altura.A sua força mítica vem de muito mais fundo que a política, embora não se possa desprender dela, nem ele o pretendia, empenhado, corajoso e solidário como era.João BoavidaFotografia: José Afonso em Coimbra in http://www.triplov.com/helena/Zeca-Afonso/20Anos/Zeca-em-imagens/Zeca-Afonso-em-Coimbra.jpg
August 1 2009, 5:38pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"OS PLANETAS" de Gustav Holst
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/os-planetas-de-gustav-holst.html
Pequeno excerto de "Os Planetas" de Gustav Holst, peça referida no post anterior, pela Philarmonia Orchestra de Londres.
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July 25 2009, 3:31am | Comments »
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Poesia temperada com música – 3
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poesia-temperada-com-musica-3.html
Terceira e última parte da entrevista a Paulo Rato (ver as anteriores aqui e aqui). Sabendo que a sua formação académica não incluiu nem a poesia nem a música, que durante tantos anos divulgou na Antena 2 da Rádio, perguntei-lhe que percurso teve de fazer para se envolver com estas duas Artes.“(…) é importante aprender o poema de cor, pois o poema decorado fica connosco e vai-nos revelando melhor, sempre que o repetimos, o seu sentido, e a beleza da sua linguagem e da sua construção” (p.185).Andresen, S. M. B. (1993). Primeiro Livro de Poesia - Posfácio. Lisboa: Editorial Caminho.P: O Paulo Rato estudou engenharia. Há aquele estereótipo de que quem envereda por um caminho científico ou técnico, não tem sensibilidade para as artes. Muitos exemplos como o de Jorge de Sena, o desmentem. Ainda assim, pergunto-lhe: como é que a poesia e a música aconteceram na sua vida?R: A verdade é que enveredei pela engenharia… por engano. Em linguagem liceal da época: sendo bom aluno — com bons resultados a letras e a ciências — aos 15 anos, quando fui obrigado a escolher, estabeleci uma distinção errónea entre as duas áreas, comparando o esforço dispendido com as "notas" obtidas; ora, com a sua exactidão, as ciências recompensavam-me com médias mais elevadas do que as letras, de maior subjectividade, pelo que aquelas pareciam "mais fáceis". Também a influência dos professores foi marcante, pois, se tive uma notável professora de português durante todo o 2.º ciclo, o mesmo não aconteceu nas restantes disciplinas de letras. Na outra disciplina onde poderia, bem acompanhado, desenvolver qualidades apreciáveis — o Desenho — calhou-me um distraidíssimo professor que, por uma vez que levei de casa um guache mais arrojado, logo concluiu que não tinha sido feito por mim; pelo que, passei a apresentar-lhe trabalhos mais "infantilizados"... Com o bem-intencionado conselho paterno, optei por ciências... e nem sequer tive a sorte de um amigo meu que, chumbado no 6.º ano, logo se transferiu para letras, encetando um percurso que o levou a professor. De qualquer modo, quanto ao estereótipo, não passa disso mesmo.Para chegar à poesia, creio que devo ir mais atrás. Comecei a ler com 4 anos, provavelmente por influência das lições que uma tia minha, professora primária, dava às duas filhas, uns anos mais velhas que eu... As recordações não são muito nítidas, só sei que os meus pais contavam que descobriram a habilidade quando deram comigo a ler um jornal.Lá em casa havia duas estantes com livros mais antigos, herança de bisavô agricultor que, adquirida alguma largueza de dinheiros, comprou mobília de escritório e encomendou a um livreiro o enchimento da estante maior — com confusos resultados, da excelência à inanidade impressa!... — e avô, falecido precocemente, mas com interesses literários bem mais informados. Por outras estantes, espalhavam-se os volumes mais recentes, já adquiridos pelo meu pai, então modesto funcionário que, anualmente, na Feira do Livro, se desforrava da parcimónia das compras mensais, limitadas às colecções Miniatura (preciosa!), Vampiro e, mais tarde, Argonauta.Com uma tal mina ao alcance, sem que alguém me proibisse de a ela aceder, depressa deixei as histórias infantis. Passei aos policiais da Vampiro, depois à Miniatura, acumulando com os habituais Cinco, as aventuras da Biblioteca dos Rapazes, mais o Salgari e a ansiedade semanal do Cavaleiro Andante, que acompanhei desde o primeiro número, publicado um dia antes de eu fazer 5 anos. Depois, um acontecimento decisivo: aos 8 anos, adoeci gravemente, com tuberculose (chamavam-lhe "primo-infecção"), que não me largou até aos 12.Obrigado a repouso severo, só me restava brincar com uns bonecos que eu próprio desenhava e recortava e… sobretudo, ler (e engordar, com doses cavalares de cálcio!)?Parti ao assalto das tais estantes. Além de continuar a acompanhar as colecções já referidas, devorei Os Três Mosqueteiros (todinhos, até ao Visconde de Bragelonne), mais A Tulipa Preta (assim se chamava a "versão", de 1851), O Conde de Monte-Cristo e as suas duas sequelas — A Mão do Finado (que só muito mais tarde soube ter sido escrita por um português e corrido mundo como obra do Alexandre Dumas!) e o Filho do Conde..., de autoria honestamente assumida por outro escrito francês; o Vítor Hugo (Nossa Senhora de Paris, Os Miseráveis, O Homem que Ri,…); o D. Quixote (o verdadeiro, em quatro volumes!); e etc.O Júlio Dinis, os romances e contos históricos do Herculano, algum Camilo, marcharam antes dos 10 anos... O único crivo era a minha capacidade de compreensão: do Eça, li A Relíquia (devem ter começado aí as minhas dúvidas religiosas...) e A Cidade e as Serras; os outros, só uns anos mais tarde me interessariam.Valha a verdade que, do muito que lia, bastos pormenores escapavam à tal compreensão — o episódio do encontro erótico do D'Artagnan com a Milady, aliás ilustrado numa gravura em que o mosqueteiro, de camisa de dormir e bigodes eriçados, perseguia, à volta de um leito com dossel, uma Milady de vestimenta semelhante e ombro descoberto, desvelando a infamante flor-de-lis, encerrava para mim um profundo mistério... De resto, os grandes enigmas de "interpretação" relacionavam-se quase todos com a sexualidade, o que de mais escondido subsistia na sociedade de então.Penso que este percurso me deu, além de um primeiro e incipiente conhecimento de muitas obras e do treino na consulta de dicionários, um vocabulário mais vasto que o comum na minha idade, um estranho gosto pela diversidade ortográfica, que me tornava confortável o convívio com edições de idades muito diversas, um sólido alicerce para abordar outros géneros literários e… uma paixão pelas palavras e suas combinações.No 1.º ano do Liceu, a professora de Português, tendo encomendado uma redacção sobre o livro de que cada infante mais tinha gostado, pasmou com a minha preferência: A Loja de Antiguidades, do Dickens (o que eu tinha chorado!). Felizmente, não achou que eu estava a aldrabar, como o do Desenho. Mas os meus primeiros anos de Liceu reflectiram a discrepância entre o saber livresco anarquicamente acumulado e uma realidade quotidiana que, em parte, me escapava, por falta de experiência dela. Um pouco (salvo seja!) como o Selvagem do Aldous Huxley.Também havia poesia, nas estantes: além de várias edições d´Os Lusíadas — que ainda sobrevoei, com muitos saltos, à laia de romance de aventuras, mas de certeza um pouco mais tarde —, havia Herculano (o tal livreiro tinha depositado na estante maior tudo o que o senhor escreveu, incluindo os Opúsculos), Junqueiro — A Morte de D. João e A Velhice do Padre Eterno — entre outros que, na altura, não me seduziam.Devo ter lido poemas nos livros da primária e nas colecções de revistas antigas. Mas o que recordo, como primeiro contacto compensador com um livro só de poesia, é uma selecção das Fábulas de La Fontaine, numa edição que reunia versões já existentes, de Bocage, Filinto Elísio e outros.Não tenho, no entanto, certezas quanto ao avanço da poesia no meu interesse. Sei que li também muito cedo os poemas singelos (alguns nem tanto....) do Júlio Dinis e, embalado pelo génio "descritivo" do António Nobre, a maravilhosa 3.ª edição do Só, ilustrada, num couché que dava gosto. Mas não consigo datar essas leituras.Entretanto, alguns colegas foram, naturalmente, recuperando terreno (eu era, de certo modo, uma aberração!); começámos a juntar-nos de acordo com interesses comuns, a falar de autores contemporâneos, a acompanhar a saída de alguns livros — o Vergílio Ferreira e o Mário Dionísio eram professores no nosso Liceu (Camões), o Bernard da Costa também (e presenteou-nos — em actividade extra-curricular — com um pequeno curso sobre cinema).Não sou capaz de organizar cronologicamente as leituras da adolescência (a não ser pelas datas de edição, quando o consumo era imediato). Devo ter-me interessado por alguns autores a partir do que estudávamos no Liceu. A verdade é que continuei a ler muito (já havia televisão, mas era um objecto caro) e tinha ao alcance outros autores — russos, americanos e ingleses, franceses, italianos, brasileiros... A muitos regressei mais tarde, para aprofundar, com o paladar mais apurado, o que tinha sido tragado sem o vagar de degustação que exigia.Mas retenho um outro marco importante, aos 15 anos, quando uma amiga da mesma idade, aluna da Aliete Galhós, me revelou o Mário de Sá-Carneiro, o Pessoa e a Florbela Espanca. E depois, Rimbaud e Baudelaire. Não duvido de que foi aí que a poesia começou mesmo a acontecer-me.Quanto à música, a história é mais simples. Numa época em que havia apenas quatro estações de rádio e muitos programas usavam música clássica como indicativos e separadores (o Curado Ribeiro tinha um, no Rádio Clube Português, cujo indicativo era o início do 1.º Concerto para Piano de Tchaikovsky), essas músicas começaram a agradar-me; também gostava quando se sintonizava o Programa 2 da Emissora Nacional. Comecei a dar-lhe preferência, durante os anos de repouso forçado.Por volta dos 15 ou 16 anos, frequentei um curso livre sobre História da Música, organizado pelo João de Freitas Branco na Gulbenkian, o que me ligou ainda mais ao prazer da música erudita.É curioso que, na música chamada "ligeira", o meu interesse se fechou muito, fixando-se nos franceses — que então se ouviam tanto —, nos brasileiros e nalgum fado, que comecei a ouvir "ao vivo"; e depois, claro, na música de intervenção. O "nacional-cançonetismo" — como os internacionais-idem — nunca me seduziu, e suspeito que terá sido, precisamente, pela falta de qualidade e conteúdo das letras, que sempre me impacientaram.P: George Steiner, que se define como um constante leitor, acha que a grande poesia que decoramos, ainda que a esqueçamos, no sentido de não a conseguirmos reproduzir por palavras, passa a fazer parte de nós, torna-se em nós. Tendo o Paulo decorado tanto, tenho curiosidade em saber a sua opinião sobre esta conjectura de Steiner…R: Considero que tudo o que lemos, mesmo o que rejeitamos, acaba por integrar o que somos. Porque, nesse processo, aconteceu um diálogo, um encontro, um confronto. Mas o mesmo acontece com tudo o que vivemos. São afirmações que se tornaram lugares-comuns, mas não deixam de ser verdadeiras.À excepção, talvez, de umas tantas frioleiras a que não se dá conversa, quem lê dialoga inevitavelmente com o que lê, questiona e questiona-se, interpreta, constrói novas ideias e abandona outras. Parece-me evidente que o que mais nos emociona, nos interpela, nos extasia, penetra mais profundamente no que vamos sendo: e isso acontecerá, em maior grau, com o que atinge uma maior qualidade artística.Mas uma simples frase, ainda que magistralmente elaborada, dificilmente conseguirá expressar ou — talvez melhor — sintetizar toda uma percepção de um fenómeno ou conjectura sobre ele. Sínteses geniais, em círculo perfeito, como a Autopsicografia do Pessoa, são raríssimas.No que, aparentemente, discordo de Steiner, é na restrição à "grande poesia" (ou ao que quer que seja de grandioso).Por um lado, o que é grande para mim, não o é necessariamente para todos. Estou convencido, por exemplo, de que alguns autores, que hoje são remetidos para uma imerecida obscuridade, serão valorizados, por leitores e académicos de um futuro mais ou menos próximo, de modo bem diferente: ocorrem-me, entre outros, os nomes de António Salvado e Jorge Guimarães. Por outro lado, há pequenas coisas que nos marcam intensamente e, por vezes, um verso de um autor menor pode ser um clarão fulgurante que ilumina uma superfície baça.Jamais me esquecerei de como um alentejano de poucas letras descreveu uma inundação, com esta simplicidade: «a terra gemia água». Ou de um internado no Júlio de Matos que, ao aproximar-se para me pedir um cigarro, concluiu as elucubrações que vinha murmurando com um «… Sim, porque o impossível acontece na Primavera».Tenho para mim que na Arte há lugar para os grandes, os pequenos, os bons, os assim-assim, os excelentes, os imensos. No meu programa incluí muitos poetas que nunca atingirão o patamar da "grande poesia", mas que fazem parte da poesia da língua em que criaram as suas obras e desempenharam um papel, mais ou menos relevante, nos caminhos das literaturas em que se integram, mas também nos das sociedades, povos, nações.Uma coisa aprendi nas engenharias: a complexidade de tudo o que existe só permite aprofundar a o seu conhecimento isolando parte(s) de um todo; sendo conveniente nunca esquecer que esse todo continua a existir.Muito obrigada, Paulo Rato.
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July 18 2009, 7:24pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Poesia temperada com música" – 2
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poesia-temperada-com-musica-2.html
Continuação da entrevista a Paulo Rato, iniciada aqui. Fala-se, agora, da intenção manifestanda, há alguns meses, pela Antena 2 da Rádio de conquistar novos, variados e mais jovens públicos.P: Depois de tantos anos a fazer rádio, se deitar um olhar para o futuro pensa que o caminho é investir em programas que contribuam para a "educação dos públicos" mas que têm nichos de audiências ou é a subordinação aos "gostos" do público?R: A "educação dos públicos" dilui-se na quantidade de estações que atravancam as radiofrequências, a maioria sem sombra de intenção cultural ou "educativa" (ou, mesmo, seja do que for). O que passa por muitos microfones e leitores de CDs ou outros suportes de áudio é, não raras vezes, catastrófico. Mas são esses "conteúdos" que atingem (mortalmente?…) vastas audiências. É por isso que considero perigosa a ideia de "aligeirar", com mui deslizante ligeireza, a programação da Antena 2, no intuito de "conquistar novos públicos, sobretudo os jovens".Parecer-me-ia melhor que se aprofundasse e alargasse a programação, partilhando mais esclarecidamente, com a Antena 1 e a Antena 3, a abordagem dos diversos géneros musicais e temas culturais, de modo a que todas as antenas incluíssem "pequenas amostras" dos conteúdos das vizinhas, em quantidades variáveis em cada uma delas: não me chocaria nada que houvesse um pequeno programa semanal sobre a música pop de maior qualidade na Antena 2, porque ela existe e habita o mundo onde estamos e por ela passam e com ela convivem muitos dos jovens criadores culturais. Sabendo distinguir a cultura popular da de massas, não podemos ignorar esta última e o que nela se gera com qualidade. Pelo contrário, parece-me francamente demais uma hora diária de música étnica (era muito mais interessante um programa semanal de meia hora, que houve há uns anos, da autoria de um investigador dessa área, mais tarde professor universitário) e outra de jazz, género que escasseia na Antena 1 e não deve existir na Antena 3.A poesia caberia em todas estas antenas, e não tenho qualquer dúvida de que iria conquistando muitos "fãs". É claro que a Antena 2 terá sempre, neste campo, especiais deveres. Mas sei que, actualmente, o dinheiro escasseia, a rádio passou a ser o parente pobre da "R e T de P", enquanto há gastos que me parecem, em tempo de crise, francamente deslocados no serviço público, como os enviados especiais ao funeral do Michael Jackson ou à "recepção ao Cristiano Ronaldo" (mas, atenção, puritanos!, há que dosear as coisas, incluindo a publicidade, que também pode fazer parte do espectáculo, para alguns sectores da audiência — uma audiência que o serviço público deve procurar manter num patamar aceitável). E, entretanto a UE vigia, qual urubu, não vá o serviço público receber "favores" do Estado e estragar o negócio dos queridos operadores privados.P: Presumo que seja uma pessoa atenta ao ensino da poesia e da música que é facultado às nossas crianças e jovens. Qual a sua opinião a respeito?R: Creio que o ensino da música melhorou muito. Há muito mais escolas e professores, o nível pedagógico é bem mais elevado e temos hoje uma quantidade muito maior de intérpretes de grande qualidade, bem como de jovens compositores. Quanto ao ensino, em geral… não quero bater mais no ceguinho! Quanto ao ensino do Português, é público e notório que os programas têm decaído, os governantes (estes e os outros, não esqueçamos) aparentam ter desistido da educação, embora não queiram confessá-lo. E quanto aos "últimos desenvolvimentos", a Ministra podia ser um génio e os professores uns madraços, todos… Mas, quem é incapaz de descobrir que não é possível (nem útil) insistir em reformas contra a quase totalidade daqueles a quem se aplicam é, na minha modesta (e politicamente incorrectíssima) opinião, demasiado estúpido, mesmo para génio.Tudo junto, os resultados estão à vista e ao ouvido: poesia, para despertar a atenção da maioria dos jovens, terá de incluir muitos "palavrões".Espero que ninguém se ofenda. O que são os chamados "palavrões"? Termos de origem tão nobre e latina (ou grega, ou…) como os outros — em geral relacionados com matérias que as ideologias dominantes foram tornando escusas, pecaminosas, inefáveis! —, de que o povo, i. e., as classes baixas, a ralé, faz uso, à falta de outros, mais eruditos, mas igualmente — inefáveis... Pelo que (perdoe-se-me) a sua utilização não me choca absolutamente nada.A "palavra feia" poderia ser outra, se a sua etimologia fosse diversa. E, depois, os sons não têm culpa das maldades que lhes atribuem e que variam consoante as línguas: se tem algum amigo chamado Rui que tencione visitar a Rússia, recomende-lhe que escolha outro nome para se apresentar...; e há os termos que são perfeitinhos ou "obscenos", conforme o contexto, como o (le) baiser francês; e que malandrice tem, tomado palavra por palavra, o ternurento echar un polvito?Não consigo perturbar-me com estas coisas, como não me comovem outras normas de "etiqueta". Porque é que não posso rapar o prato da sopa? Porque é feio, dizia a minha avó... ora, ora: é mas é para mostrar que "não preciso" — se o menino quiser mais, a criada traz, diria a senhora dona...O que me incomoda é que a vulgarização do palavrão lhe retira as fortes conotações que adquiriu ao longo de tantos séculos de dura vida, tornando a sua utilização — ocasional mas oportuna — inócua, sem significado, incapaz de cumprir a sua função de transmitir uma honesta indignação, uma fúria, um susto, uma dor de martelada num dedo.Como saborear Em Creta, com o Minotauro, do Jorge de Sena, se perderem força expressões como: "(… e, como todos os heróis gregos, um filho da puta…)" ou "toda esta merda douta cagada há séculos pelos nossos escravos, …). Tenham dó! Senão lá se vai todo o encanto dos grandes poemas fesceninos…O que verdadeiramente me choca é que a frequência dessa linguagem "de carroceiro" (classe baixa, ralé!...) traduz uma tal pobreza de vocabulário que a comunicação praticamente deixa de existir. Palavras que eu conhecia quase desde a mais tenra infância são hoje completamente desconhecidas de tais falantes (?) e receio que, com o avanço de tantas e tão boas reformas pedagógicas, o nosso português caminhe para o "grunhês". De resto, com o precioso auxílio dos media (e não "mídia", como os sambistas adoptaram e os nossos especialistas anglocoiso ostentam, orgulhosamente incultos), onde a asneira, falada ou escrita, fervilha.Imagem: http://attambur.com/Imagens0/Banco36/violino1m.jpg
July 13 2009, 1:21pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Poesia temperada com música" - 1
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poesia-temperada-musica-1.html
Em 31 de Dezembro de 2008, deixei a nota no De Rerum Natura que o único programa de rádio dedicado inteiramente à poesia e à música se extinguia com o ano. Na altura, percebi que o Os Sons Férteis, assim se chamava esse programa, ia fazer falta. E faz.Ainda a propósito dele, falei com Paulo Rato que, despretensiosa e calmamente, deu voz a centenas de poetas e compositores durante quase quinze anos.Como a conversa se alongou, reparto-a por dois ou três posts, consoante a temática que abordámos.P: Como escolhia o Paulo a poesia que se dizia no seu programa e como é que a “temperava a com a música”? R: Comecei por escolher "temas", numa interpretação bastante lata, sendo os primeiros: a própria poesia, a música e as artes plásticas. Depois, passei a utilizar um critério de "referências": os quatro elementos, as estações e outros. A ideia era utilizar uma fórmula que orientasse a selecção, para evitar repetir demasiado os mesmos autores, o que inevitavelmente aconteceria sem essa orientação. Pensei, desde o início, em aproveitar as efemérides para aprofundar um pouco mais alguns autores.Após a aposentação, sabendo que não seria possível manter o programa por muito mais tempo, devido a disposições legais, empenhei-me em divulgar muitos poetas, sobretudo estrangeiros que, por falta de edições em português, seriam do conhecimento de um reduzido número de ouvintes interessados: foi essa razão de as efemérides passarem a ser quase uma constante.Parte da programação de Dezembro de 2008 pretendeu ser uma homenagem a poetas que, além da sua qualidade literária, são também meus amigos. Foi, naturalmente, a única ocasião em que este critério foi utilizado.Quanto à música, não pretendia que surgisse sistematicamente como simples "ilustração" do texto, embora algumas vezes isso acontecesse. Ocasionalmente, utilizei-a até como comentário irónico ou contraposição ao conteúdo do poema. Procurei partir da junção das duas componentes para chegar a um objecto diferente da sua soma, deixando aos ouvintes a possibilidade de fazerem as suas "leituras". Nunca tive nenhum critério imutável: como me contou o João Pereira Bastos, que era meu ouvinte assíduo ainda antes de ser Director da Antena 2, — "quando parecia que estavas muito "certinho", lá vinha uma maluqueira"...Em relação a poemas (sobretudo em línguas estrangeiras) aproveitados por compositores para canções ou outras obras, pareceu-me sempre interessante utilizar trechos dessas peças musicais, por conterem uma "interpretação musical" do poema, a que se somava, quase sempre, a possibilidade de ouvir, pelo menos, parte do texto na sua versão original.Também recorri a peças instrumentais inspiradas pelo poema ou pelo seu autor: foi o que aconteceu com não poucos programas com textos de Fernando Pessoa, que é referência de numerosas obras musicais de compositores das mais diversas partes do mundo.Usei, com alguma frequência, música popular e /ou étnica.Também utilizei, deliberadamente, música de menor qualidade ou em más interpretações, com intenções que, espero, não terão passado despercebidas à maioria dos ouvintes.Sem carácter obrigatório, procurei acompanhar os poemas com obras da mesma época, por se inserirem no mesmo movimento artístico. O que também justifica o recurso muito frequente à música contemporânea. Mas também usei obras contemporâneas com textos antigos e vice-versa. Quando dedicava uma semana inteira a um poeta cuja obra fora alvo da atenção de compositores de diferentes épocas, procurava abranger essas abordagens tão diversas.Tentei também divulgar a música, erudita ou genuinamente popular, dos países dos autores que escolhia: um dos casos mais inacreditáveis é o do Brasil, de que, em Portugal, praticamente só se conhece o Villa-Lobos.P: Além da poesia e da música que ficou em si, o que lhe ficou mais d’ Os Sons Férteis?R: O próprio programa me levou a alargar muito significativamente os meus conhecimentos musicais. Foi-me muitíssimo grato o retorno do programa: o apreço manifestado por pessoas que muito considero, intelectualmente e/ou pelas suas posições e intervenções cívicas; o apoio de muitos outros ouvintes e a atenção que prestavam ao programa, não raras vezes alertando para qualquer anomalia na sua emissão; os inúmeros pedidos de envio dos poemas, de identificação das edições de que constavam, ou dos trechos musicais e das gravações que os incluíam, o que me obrigou a muito trabalho "suplementar", mas gratificante — ainda que, por vezes, com meses de atraso, em particular quando dirigi os arquivos sonoros, creio que nunca deixei ninguém sem resposta.Também foi francamente enriquecedora a colaboração de vários colegas que passaram pelo programa, na leitura de poemas, e que se foram afastando, por razões profissionais ou de reforma, e a dedicação e virtuosidade da Eugénia Bettencourt, que me acompanhou até final — e não se trata aqui de uma lista de vénias cerimoniais, a que sou completamente avesso, mas de evocar uma efectiva partilha cultural e estética e uma edificação de afectos.Finalmente, o programa proporcionou-me o contacto, em absoluto não esperado, com muitos poetas, com quem estabeleci laços que vão de um cordial mútuo apreço a amizades fortes, o que constitui um património inapreciável e que me aquece o coração.P: Terminou a sua nota de despedida de Os Sons Férteis dizendo “A poesia, essa, continua". Na altura em que a ouvi surgiu-me a pergunta que agora lhe faço: é um desejo ou uma certeza, quando termina um dos poucos programas que lhes era dedicado?R: A poesia continua, sem cuidar dos desejos de cada um, ou da existência de programas de rádio ou televisão que lhe sejam dedicados. A sua divulgação é que pode ser descurada.Foi o que pretendi transmitir a quem me ouvisse: a poesia continua, com quem a cria, quem a lê, quem a desvenda a outros. E cada um pode recorrer àquilo que tem ao seu alcance, para não perder a poesia. Também desejo que a poesia volte às emissões da Antena 2.Sabemos que continua a haver quem goste de coisas de que não pode usufruir, por falta de meios ou de oportunidade. Raras serão as pessoas que podem adquirir todas as obras musicais que gostam de ouvir (ou gostariam, se as conhecessem). A rádio (o serviço público) tem o dever de lhes dar isso: o prazer de voltar a escutar o que conhecem, a informação e a experiência do que não conhecem. O mesmo se dirá em relação à poesia.É por isso que é tão importante a existência de um serviço público que possa proporcionar essa fruição a todos os amantes de coisas infelizmente excluídas pela cultura de massas e pouco atraentes para o negócio. Como são a música erudita ou a literatura.É por isso, também, que é tão importante ter em conta qual é, na realidade, o público que precisa do que uma programação lhe pode dar, e não apenas o "alvo" (target, em ignorantês), i. e., o público que se pretende atingir, de acordo com os ditames de uma das coisas mais imbecis que a "economia de mercado" criou — o marketing, em geral interpretado por umas criaturas embalsamadas em estado de virginal e convicta ignorância.Pode não parecer, mas há uma diferença de perspectiva… essencial.O desejo que tenho é de que o serviço público de rádio e televisão consiga vencer os seus inimigos jurados e a irresponsabilidade de quem os serve. Ainda muito recentemente, a UE excretou nova legislação, para apertar ainda mais o cerco ao serviço público, em geral, mas com consequências para o de rádio e televisão. Tudo em nome da sagrada "livre-concorrência", o bezerro de ouro dos dias de hoje, a que tudo se sacrifica — a democracia, a cultura, a liberdade (a sério).Outra coisa muito importante que me ficou foram os convites para dizer poesia em sessões públicas, de que devo destacar uma especial colaboração com a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e com a Livraria Círculo das Letras.Imagem: Bibliothèque de Vieira da Silva
July 11 2009, 6:41am | Comments »


