Veio ter comigo hoje a poesia.Há quantos anos? Desde a juventude. Veio num raio de sol, num murmúrio de vento. E a ilusão que me trouxe de uma antiga alegria reinventou-me a antiga plenitude que já não invento. Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros em fornicações rápidas de galo. Hoje não sou eu nunca por inteiroe há sempre no que faço um intervalo. Estamos ambos tão velhos— que vens fazer? — a cama entre nós da nossa antiga função. Nublado o olhar só de a ver. E tomo-lhe em silêncio a mão. Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1' Via IA Evidentemente que Vergílio Ferreira é, sobretudo, um romancista (e um ensaista). Mas gostei da inocência deste poema.
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Veio Ter Comigo Hoje a Poesia
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September 7 2009, 9:50am | Comments »
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Intervalo
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Hojetu apeteces-mea tua palavra feita afagoesse teu sonho do Sersempre cindidocavaleiro andantesumidoperegrino incessantede um Uno DesconhecidoHojetu apeteces-me…Esse teu céu rente ao rostono sorriso adormecidoque adormece o desalentoque alvoroça a minha fomeque serena os meus sentidosHojetu apeteces-me!…Na tua espada de terratrespassada de esperançarenasço rubra em pomba brancae voo nesse azul que é só teuliberdade de ser unana constante divisãoaprisionada num gestopintado pela tua mãoAh! HojeTu apeteces-me!E como!…IA, Porto, 29 de Julho 2009
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July 29 2009, 5:06pm | Comments »
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Coração
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Se uma gaivota viessetrazer-me o céu de Lisboano desenho que fizesse,nesse céu onde o olharé uma asa que não voa,esmorece e cai no mar.Que perfeito coraçãono meu peito bateria,meu amor na tua mão,nessa mão onde cabiaperfeito o meu coração.Se um português marinheiro,dos sete mares andarilho,fosse quem sabe o primeiroa contar-me o que inventasse,se um olhar de novo brilhono meu olhar se enlaçasse.Que perfeito coraçãono meu peito bateria,meu amor na tua mão,nessa mão onde cabiaperfeito o meu coração.Se ao dizer adeus à vidaas aves todas do céu,me dessem na despedidao teu olhar derradeiro,esse olhar que era só teu,amor que foste o primeiro.Que perfeito coraçãono meu peito morreria,meu amor na tua mão,nessa mão onde perfeitobateu o meu coração.Alexandre O'Neil(com agradecimento a IA)
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July 18 2009, 12:48pm | Comments »
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Aniversário
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"A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe.Fósforo que foi riscado.Nunca mais acenderá.Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário."Rubem ALvesAniversárioNo TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,Eu era feliz e ninguém estava morto.Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,De ser inteligente para entre a família,E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,O que fui de coração e parentesco.O que fui de serões de meia-província,O que fui de amarem-me e eu ser menino,O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...A que distância!...(Nem o acho...)O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,Pondo grelado nas paredes...O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhaslágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,É terem morrido todos,É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,Por uma viagem metafísica e carnal,Com uma dualidade de eu para mim...Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...Pára, meu coração!Não penses! Deixa o pensar na cabeça!Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!Hoje já não faço anos.Duro.Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.Mais nada.Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...15/10/1929Fernando Pessoa
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July 17 2009, 3:01am | Comments »
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Ave
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"Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. A poesia é sempre o reverso das coisas. Não se trata de mentira. É que somos seres dilacerados. O corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está."Rubem Alves
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July 13 2009, 9:02am | Comments »
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Leve, breve, suave
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Daniel Faria. Música e palavras. Melhor: música e música (in)acabada. http://www.danielfaria.org/
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July 5 2009, 4:10pm | Comments »
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Sul
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IMIGRAÇÃOOs meus braços voam para o sulMuito lhes dói o cimo das montanhasDaniel Faria
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July 5 2009, 12:46pm | Comments »
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Sílabas Líquidas
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Leio, devagar, um presente. Poesia, de Daniel Faria, numa edição de Vera Vouga.Leio:EXPLICAÇÃO DA ESCUTANinguém me chamaEscuto o calcanhar do pássaroSobre a florE não respondoEXPLICAÇÃO DE RICARDO REISOs rios amo, lídia, lentosE largos sobre o solo.Que em um dia as crianças se banhando nelesSe enxugam ao sol e correm.E pela velocidade podemAos astros comparar-se.EXPLICAÇÃO DO SORRISOA mãe disse-lhe escreve-meDe lá de longe para onde vaisE ela disse não é longe casarE a mãe sorria cega de dorE parecia de deslumbramentoÚLTIMAS EXPLICAÇÕESExplicação do amor e do orvalhoUma fogueira no meio da noite cerradaPor um homem com os olhso rasos de águaÍTACAO que dóiÉ não poder apagar a tua ausênciae repetir dia após dia os mesmos gestosO que dóié o teu nome que ficou como mendigoDescoberto em cada esquina dos meus versosO que dóié tudo e mais aquilo que desteçoAo tecer para ti novos regressosDaniel Faria: Viveu 28 anos "a respirar um clarão" (1971 - 1999). "Morre jovem quem os deusem amam.
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July 4 2009, 3:24pm | Comments »
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Nuvem
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Socorre-me, devolve-me a levezaDa tão primeira nuvem que avistaresDaniel Faria, Poesia. Famalicão: Quasi, 2003
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July 4 2009, 3:17pm | Comments »
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OLHAR
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Não sejas como a névoa, nem quimera.Demora-te, demora-te assim:faz do olhartempo sem tempo, espaçolimpo - do deserto ou do mar.Eugénio de Andrade,in"O Outro Nome da Terra", pág.16, LimiarEncontrado aqui.
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June 25 2009, 4:09am | Comments »

