Final de crónica de Rubem Alves:(...)O menino abandonado não me abandonou. Entrou dentro de mim e mora comigo. Me faz sofrer. Me dá ternura. Sempre que vejo uma criança abandonada eu sofro. Quereria poder protegê-la, cuidar dela. Eu me enterneço porque a criança abandonada que mora em mim está sofrendo. Afinal, todos somos crianças abandonadas. Nos momentos de solidão noturna, de insônia, tomamos consciência de que estamos destinados ao abandono, àquele tempo quando será inútil chamar "meu pai" ou "minha mãe".Os negros norte americanos conheciam esse sentimento. E com ele compuseram um spiritual em ritmo de canção de ninar que diz assim : "Sometimes I feel like a motherless child, sometimes I feel like a motherless child, a long way from home, a long way from home..." - "Por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe, por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe, longe, muito longe de casa..." É assim que me sinto, às vezes. Tenho, então, vontade de chorar...
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No plaino abandonado, que a morna brisa aquece
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June 1 2009, 4:17pm | Comments »
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Mas o Melhor do Mundo São as Crianças
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LIBERDADEAi que prazernão cumprir um dever.Ter um livro para lere não o fazer!Ler é maçada,estudar é nada.O sol doira sem literatura.O rio corre bem ou mal,sem edição original.E a brisa, essa, de tão naturalmente matinalcomo tem tempo, não tem pressa...Livros são papéis pintados com tinta.Estudar é uma coisa em que está indistintaA distinção entre nada e coisa nenhuma.Quanto melhor é quando há bruma.Esperar por D. Sebastião,Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças...Mas o melhor do mundo são as crianças,Flores, música, o luar, e o sol que pecaSó quando, em vez de criar, seca.E mais do que istoÉ Jesus Cristo,Que não sabia nada de finanças,Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa
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June 1 2009, 8:07am | Comments »
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No sorriso louco das mães
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Bom dia, Bom Domingo, com Herberto Helder.No sorriso louco das mães batem as levesgotas de chuva. Nas amadascaras loucas batem e batemos dedos amarelos das candeias.Que balouçam. Que são puras.Gotas e candeias puras. E as mãesaproximam-se soprando os dedos frios.Seu corpo move-sepelo meio dos ossos filiais, pelos tendõese orgãos mergulhados,e as calmas mães intrínsecas sentam-senas cabeças filiais.Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,vendo tudo,e queimando as imagens, alimentando as imagens,enquanto o amor é cada vez mais forte.E bate-lhes nas caras, o amor leve.O amor feroz.E as mães são cada vez mais belas.Pensam os filhos que elas levitam.Flores violentas batem nas suas pálpebras.Elas respiram ao alto e em baixo.São silenciosas.E a sua cara está no meio das gotas particularesda chuva,em volta das candeias. No contínuoescorrer dos filhos.As mães são as mais altas coisasque os filhos criam, porque se colocamna combustão dos filhos. Porqueos filhos são como invasores dentes-de-leãono terreno das mães.E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,e atiram-se, através deles, como jactospara fora da terra.E os filhos mergulham em escafandros no interiorde muitas águas,e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãose na agudez de toda a sua vida.E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,e através dele a mãe mexe aqui e ali,nas chávenas e nos garfos.E através da mãe o filho pensaque nenhuma morte é possível e as águasestão ligadas entre sipor meio da mão dele que toca a cara loucada mãe que toca a mão pressentida do filho.E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,e ser possível tudo ser reencontradopor dentro do amor.(via Amélia Pais)
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May 17 2009, 5:32am | Comments »
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Uma pequenina luz
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Revisitada, ontem. E dedicada às 50 pessoas presentes que me ajudaram a ser quem sou. E a todas as que não puderam estar.
May 16 2009, 11:38am | Comments »
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Vida
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Bebido o luar, ébrios de horizontes, Julgamos que viver era abraçar O rumor dos pinhais, o azul dos montes E todos os jardins verdes do mar. Mas solitários somos e passamos, Não são nossos os frutos nem as flores,O céu e o mar apagam-se exteriores E tornam-se os fantasmas que sonhamos. Por que jardins que nós não colheremos, Límpidos nas auroras a nascer, Por que o céu e o mar se não seremos Nunca os deuses capazes de os viver. Sophia de Mello Andresen (como o agradecimento a IA)
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April 30 2009, 4:07pm | Comments »
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Pedagogia
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Brinca enquanto souberes!Tudo o que é bom e beloSe desaprende...A vida compra e vendeA perdição,Alheado e feliz,Brinca no mundo da imaginação,Que nenhum outro mundo contradiz!Brinca instintivamenteComo um bicho!Fura os olhos do tempo,E à volta do seu pasmo alvarDe cabra-cega tonta,A saltar e a correr,DesafrontaO adulto que hás-de ser!Miguel TorgaProvavelmente, estou a repetir-me. Mas alguém mo ofereceu hoje. E achei por bem aqui inscrevê-lo. Em louvor da pedagogia da imaginação e da desaprendizagem.
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April 27 2009, 5:22pm | Comments »
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25 A
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Esta é a madrugada que eu esperava0 dia inicial inteiro e limpoOnde emergimos da noite e do silêncioE livres habitamos a substância do tempo . [Sophia Mello Breyner Andresen](via Amélia Pais)
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April 25 2009, 5:07am | Comments »
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Ícaro
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Jacob Peter Gowy, A Queda de ÍcaroO sol dos Sonhos derreteu-lhe as asas.E caiu lá do céu onde voavaAo rés-do-chão da vida.A um mar sem ondas onde navegavaA paz rasteira nunca desmentida...Mas ainda doridaNo seio sedativo da planura,A alma já lhe pede impenitente,A graça urgenteDe uma nova aventura.Miguel Torga, Diário, XII(citado hoje, por Roberto Carneiro, no Seminário da Primavera das Escolas Católicas - Parcerias para o Des Envolvimento)
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April 24 2009, 3:24am | Comments »
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Cet Amour
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Cet amourSi violentSi fragileSi tendreSi désespéréCet amourBeau comme le jourEt mauvais comme le tempsQuand le temps est mauvaisCet amour si vraiCet amour si beauSi heureuxSi joyeuxEt si dérisoireTremblant de peur comme un enfant dans le noirEt si sûr de luiComme un homme tranquille au milieu de la nuitCet amour qui faisait peur aux autresQui les faisait parlerQui les faisait blémirCet amour guettéParce que nous le guettionsTraqué blessé piétiné achevé nié oubliéParce que nous l'avons traqué blessé piétiné achevé nié oubliéCet amour tout entierSi vivant encoreEt tout ensoleilléC'est le tienC'est le mienCelui qui a étéCette chose toujours nouvellesEt qui n'a pas changéAussi vraie qu'une planteAussi tremblante qu'un oiseauAussi chaude aussi vivante que l'étéNous pouvons tous les deuxAller et revenirNous pouvons oublierEt puis nous rendormirNous réveiller souffrir vieillirNous endormir encoreRêver à la mortNous éveiller sourire et rireEt rajeunirNotre amour reste làTêtu comme une bourriqueVivant comme le désirCruel comme la mémoireBête comme les regretsTendre comme le souvenirFroid comme le marbreBeau comme le jourFragile comme un enfantIl nous regarde en souriantEt il nous parle sans rien direEt moi j'écoute en tremblantEt je crieJe crie pour toiJe crie pour moiJe te suppliePour toi pour moi et pour tous ceux qui s'aimentEt qui se sont aimésOui je lui criePour toi pour moi et pour tous les autresQue je ne connais pasReste làLà où tu esLà où tu étais autrefoisReste làNe bouge pasNe t'en va pasNous qui sommes aimésNous t'avons oubliéToi ne nous oublie pasNous n'avions que toi sur la terreNe nous laisse pas devenir froidsBeaucoup plus loin toujoursEt n'importe oùDonne-nous signe de vieBeaucoup plus tard au coin d'un boisDans la forêt de la mémoireSurgis soudainTends-nous la mainEt sauve-nous.Jacques Prévert (Porque hoje faz anos que se nos foi, 1900-1977)Esse amortão violentotão frágiltão ternotão desesperadoesse amorbelo como o diae mau como o tempoquando está mau tempoesse amor tão verdadeiroesse amor tão belotão feliztão alegree tão derisóriotremendo de frio como uma criançano escuroe tão seguro de sicomo um homem tranquilono meio da noiteesse amor que amedrontava os outrosque os fazia falarque os fazia empalideceresse amor vigiadoporque nós o vigiávamosperseguido ferido pisado acabado negado esquecidoporque nós o perseguimos ferimos pisámos acabámos negámos esquecemosesse amor inteirinhotão vivo aindae cheio de solé o teué o meuessa coisa sempre novae que não mudoutão verdadeira como uma plantatão frágil como um passarinhotão quente tão viva como o verãopodemos ambosir e voltarpodemos esquecere depois voltar a adormeceracordar sofrer envelhecervoltar a adormecer de novopensar na mortedespertar sorrir e rire rejuvenescero nosso amor permaneceteimoso como um jumentovivo como o desejocruel como a memóriaestúpido como os remorsosterno como a lembrançafrio como o mármorebelo como o diafrágil como uma criançaolha-nos sorrindofala-nos sem nada dizere eu escuto tremendoe gritogrito por tigrito por mimsuplico-tepor ti e por mim e por quantos se amame se amaramsim grito-lhepor ti e por mim e por todos os outrosque eu não conheçofica aíaí onde estásaí onde estavas dantesfica aínão te mexasnão te vásnós que somos amadosesquecemos-tetu não nos esqueçassó te tínhamos a ti na terranão nos deixes tornarmo-nos friossempre muito mais longee não importa ondedá - nos um sinal de vidamuito mais tarde num recanto de um bosque na floresta da memóriasurge de repenteestende-nos a mãoe salva-nosJacques Prévert (tentativa de tradução de Amélia Pais) - diria excelente tradução. Obviamente enviado por AP
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April 11 2009, 6:29am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
OS AMIGOS
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Os amigos ameiDespido de ternuraFadigada;Uns iam, outros vinhamA nenhum perguntavaPorque partia,Porque ficava;Era pouco o que tinha,Pouco o que dava,Mas também só queriaPartilharA sede da alegria –Por mais amarga.Eugénio de Andrade1923 - 2005
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April 10 2009, 2:27am | Comments »

