Hoje dou a palavra a uma professora. A voz crítica. Que tem a ver com a intervenção da Parque Escolar nos territórios escolares. Com a rasura da memória. Com o betão. Matéria que merece uma larga revisitação, As escolas onde se aprende fazendo são excepcionais, mas existem. Uma delas é a antiga Escola E.B.2 de Canelas, agora integrada no Agrupamento de Escolas de Canelas. Entre as paredes da sala de aula, será igual às outras, mas todo o terreno circundante foi transformado num Arboreto, espaço vivo onde várias gerações de alunos deixaram a marca da sua mão e do seu empenho, ao plantarem e cuidarem das espécies aí existentes. Foi ali que desenvolveram a capacidade de atenção, treinando-se na descoberta das famílias de plantas pela observação das suas características, como o recorte das folhas, as semelhanças e as diferenças das suas flores e dos seus frutos; foi ali que aprenderam a cuidar de um ser vivo, na escolha da terra adequada para cada planta, nas regas que se não interrompem durante as férias; foi ali que lhes foi dada oportunidade de transformar o mundo, intervindo de forma útil no seu meio que, por sorte ou porque alguém pensou nisso, lhes é acessível segundo regras que eles próprios acabam por achar necessárias. Foram os alunos que deram os nomes aos 23 canteiros actuais: “gardim” (jardim do gás, junto às botijas de gás), “sol nascente” ( o primeiro a receber o sol), “montes” (já assim eram designadas aquelas encostas antes das árvores plantadas: Vamos aos montes?) e apenas um foi de escolha do professor para que aprendessem a palavra: “autóctones” - é o nome do canteiro cuja planta emblemática é a urze.Se não estivesse destinado que tudo será arrasado, em breve haveria pais a dizer aos seus filhos: “Esta árvore fui eu que a plantei, quando tinha a tua idade e andava nesta escola.”O início é de há cerca de 15 anos, a partir do Clube de Jardinagem, onde um professor de Música e os seus alunos partilhavam as mesmas perguntas, a mesma ignorância botânica, a mesma vontade de descoberta e também o mesmo querer fazer por suas mãos. A escola dispõe de amplo terreno, suficiente para que fossem aparecendo pequenos canteiros onde se punha o que cada um trazia.Não era a primeira vez que professores e alunos observadores se punham a construir o espaço da escola com iniciativas do interesse de todos. Por ali já havia o Museu do Granito, logo à direita da entrada principal da escola, com um muro em pasta e os diferentes tipos de calçada como era tradição fazer em Canelas. Não, não é obrigatório que as escolas sejam lugares anónimos, só administrativos, de regulação tão cruamente burocrática que a alma das pessoas se encolhe e não se deixa ver.Tudo poderia ter sido igual a tantas experiências fugazes do mesmo género, mas aqui não houve nada de fugaz. A adesão ao Clube de Jardinagem era tal, que foi necessário limitar as inscrições ou ir alternando as turmas. Esse interesse não esmoreceu ao longo dos anos. A comprová-lo o desabafo de uma mãe: “Ai, Professor, eu disse ao meu filho que se voltava a fazer uma coisa daquelas o tirava do Clube de Jardinagem. É que é do que ele mais gosta. Um tabefe, a cara depressa arrefece. Eles têm de sentir é no que gostam…”Há alunos que passavam para a Secundária e vinham de propósito para trabalhar no jardim. Unicamente pela ligação que se tinha construído e queriam prolongar por um pouco mais…O arboreto cresceu de tal modo que cada palmo de terra plantada tem uma história e são necessárias horas para conhecer tudo. Há a salvia de jardim, junto de três mahonias que logo no início da primavera exibem belas flores amarelas. Aquela althea, de flores brancas, veio de Estremoz, em troca de uma mahonia. Há muitos azevinhos. As folhas do alto quase não têm picos, “porque lá cima escasseiam os predadores…” Outro azevinho: este oferecido por um antigo aluno. Mas o azereiro – também há muitos no arboreto - é hoje mais raro do que o azevinho e parece não merecer a protecção às espécies em desaparecimento… É um Prunus lusitanica, tão português que os ingleses lhe chamam loureiro português. Diz o povo que o nome azereiro quer dizer que se reflecte no rio Zézere… Será? Quem quer aprender, acaba por coleccionar histórias. Este carvalho negral – o de folhas aveludadas - veio em bolota da Serra da Estrela. Germinou num vaso e foi para a terra dois anos depois. Mas também há carvalhos alvarinho, que são mais daqui. A folha do carvalho cerquinho faz lembrar a da faia… Depois, é--nos apresentado o zambuzeiro, ou oliveira brava, um bosque de Cotoneaster com as suas bagas vermelhas, as aveleiras – esta veio de um horto de uma empresa cimenteira em Penamacor. Temos plantas de vários pontos do país – as magnólias plantadas de estaca, o choupo branco com 6 anos e está enorme –deve ter encontrado água: plantar choupos numa escola é um disparate porque são tão ávidos de água que partem os canos para a chupar… -, um Quercus faginia que veio de Alenquer – não é nada uma árvore da nossa zona, o samouco, os marmeleiros de jardim…“É que dificilmente me falam de uma árvore que não haja aqui!”.No parque dos cactos a variedade é enorme. Está num talude de tal modo duro que as picaretas saltavam. Foram feitos socalcos com traves do caminho de ferro, serradas uma a uma por alunos de onze anos. O chão foi atapetado com seis toneladas de xisto, trazido de Valongo em várias expedições organizadas para o efeito.No vidoal, a árvore emblemática do clube com as suas pinhas: Carpinus betulus. As zelhas – Acer monspessulanum – que os franceses vêm cá buscar e depois chamam-lhe Acer de Montpellier.Um feto arbóreo da Tasmânia custou dez contos, dinheiro angariado pelos alunos. Ao longo dos anos, houve muitas iniciativas para comprar aquele arbusto, aquela árvore rara que não era fácil obter por doação. Ali está, por exemplo, um Bordo-do-Japão. Não é vulgar encontrar esta árvore num jardim. Até porque, agora tudo é igual por toda a parte, não é verdade? Onde se vê alguém valorizar o autóctone em vez do exótico? Era uma outra aprendizagem que aqui ía ficando na pele…Há alguns anos que ouço falar do arboreto da E.B. 2 de Canelas. A eminência da sua destruição levou-me a encontrar os meios para o visitar. A história deste espaço verde tem uma densidade e variedade de que poucas escolas se poderão orgulhar. Que projecto de arquitectura se levanta sem reconhecer o seu chão? Que Parque Escolar o aceita, o aprova ? Que sinal estamos a dar aos alunos que vêem a maneira como o que chega desrespeita, ignora o que levou anos a construir?Parece que houve iniciativas da Associação de Pais para a preservação do Arboreto. Quem tentou mexer-se foi imediatamente dissuadido: não há nada a fazer, as decisões estão tomadas, o processo está em marcha.Impossível não pensar no que numa reportagem sobre Portugal, dizia o jornalista suiço Yves Magat: “ Há um problema na vida política portuguesa e aponto-o com toda a amizade que tenho por este país : a impiedade. Em cada mudança, seja a nível macro ou a nível micro, a nova equipa que chega ao poder acha-se na obrigação de anular tudo o que foi feito pela anterior. Os efeitos são devastadores, evidentemente.”Anular tudo. Para estar sempre a começar do início, sem memória, sem transmissão. É isso que ensinamos na escola?Manuela Gama(profª do ensino secundário)
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Digam que estou a morrer …
http://terrear.blogspot.com/2011/02/digam-que-estou-morrer.html
February 17 2011, 5:21am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
A Expropriação das Escolas pela Parque Escolar
http://terrear.blogspot.com/2011/01/expropriacao-das-escolas-pela-parque.html
Vivemos tempos difíceis. Contraditórios e caóticos. Problemas densos: uns visíveis e outros ocultos. Um dos mais obscuros tem a ver com tudo o que se relaciona com a intervenção da Parque Escolar. Já aqui falamos do novo riquismo insuportável num país de tantas assimetrias. Destaque hoje para um fenómeno que tem merecido escassa atenção: a expropriação das escolas intervencionadas que ficam propriedade da Parque Escolar.Isto é: antes da intervenção da Parque Escolar todo o património das escolas era do Estado, isto é, público e gerido pelos órgãos de direcção e gestão das escolas que podiam fazer dele o uso educativo e social que entendessem. Com a intervenção da empresa, todo o património lhe passa a pertencer (terreno, património edificado, equipamentos...) e a ser dirigido e gerido directamente por ela. E o ME passa a pagar uma factura anual de aluguer de espaços e equipamentos e a suportar os custos muitos elevados de manutenção.Mais um processo de desinserção territorial, de privação da autonomia de uso, de centralização e de expropriação de bens públicos.
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January 17 2011, 3:01pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Um País do Outro Mundo!
http://terrear.blogspot.com/2010/12/um-pais-do-outro-mundo.html
Recebo hoje uma mensagem, da qual transcrevo breves sequências:(...) Da não existência de aquecimento nas Escolas, passamos a tê-las com sistemas sofisticadíssimos de climatização e renovação de ar (aquilo que os americanos fazem abrindo as janelas…) cujo consumo energético é insuportável para as parcas finanças públicas…· Da degradação dos edifícios das Escolas Secundárias (por absoluta falta de recursos – como eu me lembro…), passámos para a Parque Escolar, com projectos “do outro mundo”, atribuídos, sem concurso, a gabinetes de arquitectura de primeira linha, adjudicados a grandes empresas, uma vez mais sem concurso público, atingindo valores m2 indubitavelmente escandalosos…Deita-se ao lixo tudo que existia. Somos um País rico!"Quando a história da Parque Escolar for escrita, muita gente não acreditará! Não acreditará nos milhões de euros que se deitaram fora, não acreditará no novo riquismo insuportável, não acreditará nos custos de manutenção astronómicos, não acreditará no sistema de gestão hipercentralizado, não acreditará nas gritantes assimetrias e desigualdades, não acreditará na usurpação do valioso património do Estado por parte de uma empresa (ainda que para já pública), não acreditará nas rendas anuais que o Ministério da Educação está já a pagar ao novo senhorio, não acreditará...
December 28 2010, 5:09am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Share Pode a transferência das escolas secundárias abrir as portas da privatização do ensino secundário?
http://terrear.blogspot.com/2010/02/share-pode-transferencia-das-escolas.html
É esta a pergunta de um post do Ramiro Marques. Não sei se abre as portas. Mas já está a privatizar a gestão dos recursos, a limitar fortemente a autonomia das escolas.E parece facto que há uma transferência de propriedade das escolas (terrenos e edifícos) do Estado para a Parque Escolar. Sendo o patrão das escolas secundárias, a empresa passa a "mandar" na estrutura física e em todos os equipamentos. Simples consertos é a Parque que faz ou manda ou concessiona. Nem para mudar lâmpadas as escolas terão poder. As receitas próprias com a cedência de espaços, podem ir "ao ar". Para além de um atentado claro à autonomia da gestão, as escolas passam a ser um bem do mercado que a Parque gere. Falta avaliar todo o impacto que esta sibilina mudança vai operar.
February 16 2010, 5:37am | Comments »
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