Paula Rego, "a nossa pintora em Londres", recebeu na passada semana uma distinção académica importante: o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa. Disse nessa ocasião: «Tudo o que se faz é às escondidas, portanto pode-se fazer o que se quiser. Pode-se castigar quem não se gosta e quem se gosta. E depois inventa-se uma história para explicar tudo.»Na infância, sempre na infância, pode encontrar-se a formação da capacidade de Paula para inventar e reiventar histórias que "explicam tudo" o que existe no mundo real e noutros. Neste caso, a solidão ajudou a formar o pensamento e a dar jeito à mão que o exterioriza. Assim ela o conta frequentemente, e o dá a conhecer por escrito John McEwen, crítico de arte que há trinta anos se deixou envolver pela fantasia pictural que os quadros mágicos deixam perceber:"O quarto de dormir da Paula era no andar de cima, autêntico refúgio para uma filha única. Ao contrário da animação em casa dos avós, onde lhe era permitido estar na cozinha, e onde a avó ajudava a preparar as refeições, a vida com os pais seguia um ritual estrito. Levavam uma vida retirada, e não queriam que a Paula convivesse com os criados. Acrescentar que nessa época ainda não havia televisão. As crianças, muito mais do que hoje em dia, tinham que arranjar maneiras de se entreter. O grande recurso para a Paula eram os brinquedos, sobretudo um teatro espanhol que tinha pertencido ao pai; e os desenho. Acima de tudo - desenhar. Conta a mãe:Lá estava ela constantemente a fazer um som na sala - bum, bum, bum - sem parar. Era um sossego ouvir aquele som - porque enquanto ela entoava aquele bum, bum, eu sabia «Ah, a Paula está contente. Está a desenhar, está contente.» E, sabe, uma coisa, ela continua a fazer aquele barulho - bum, bum, bum, e continua a desenhar no chão - ainda hoje, depois de todos estes anos.A pintura é uma actividade solitária, e Paula achou sempre que o isolamento da sua infância foi uma bênção. «Aqueles anos de infância passados assim, sozinha num quarto foi o melhor treino que podia haver para uma artista».Mas a actividade criadora criadora não era a única coisa que a mantinha feliz agarrada ao quarto. «Foi no Estoril que eu primeiro tive consciência do mundo exterior, de uma realidade fora de casa - e isso aterrorizava-me ao máximo. Minha mãe diz que eu tinha medo das moscas, me eu tinha medo de tudo. Até as outras crianças me assustavam. Era horrível quando eu me encontrava lá fora. Um autêntico pavor». Felizmente que a praia não tinha o mesmo efeito. A praia era para ela um quarto de brinquedos ao ar livre.Não há dúvida que o talento artístico de Paula algo ficou a dever à mãe. É aliás através da mãe que ela é uma prima afastada de Vieira da Silva, mulher também, e a figura artística portuguesa mais célebre internacionalmente. Maria Rego, que hoje se recusa a levar a sério os seus esforços como pintora, chegou a frequentar, muito jovem, uma escola de arte em Lisboa, actividade considerada mais convencional no meio português do que em Inglaterra. maria continuou com a pitura a óleo durante largo tempo, já casada. Luzia, a velha criada, que se ocupava de Paula, ainda hoje tem um pequeno quadro de Maria, sensível e de hábil factura."Referência:McEwen, J. (1998, 2.ª edição). Paula Rego. Lisboa: Quetzal Editores (tradução de Alberto Lacerda), página 18.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"E depois inventa-se uma história para explicar tudo"
http://dererummundi.blogspot.com/2011/02/e-depois-inventa-se-uma-historia-para.html
February 20 2011, 6:45am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
«Isto tem muito númaro»
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/isto-tem-muito-numaro.html
Andava Júlio Pomar pelos vinte anos quando, um belo dia, para seu grande espanto, recebeu no seu ateliê - "um quarto alugado na Rua das Flores a que chamávamos pomposamente ateliê", diz o pintor - a visita de Almada Negreiros.Passando ao acaso, ou tendo ouvido falar da exposição que um grupo de alunos das Belas Artes ali apresentava, o já então conhecido por Mestre Almada, resolveu espreitar. Nessa esperitadela viu "uma pinturinha sobre cartão com uma cena de saltimbancos" da autoria de Pomar, que comprou, por cem merréis, "para ser exposto no Secretariado de Propaganda Nacional, em São Pedro de Alcântara".Nessas andanças o quadro perdeu-se (existe apenas o desenho preparatório), o que não foi muito importante; o elogio que ele permitiu é que foi importante. Conta-o Pomar da seguinte maneira:O que é que sentiu quando o Almada lhe comprou o quadro?Ah! Enfim, foi assim uma coisa.... Só o simpes facto de o Almada se ter abalado da Brasileira até ao nosso atelier era... Nunca esquecerei. A dado momento, perante um desenho meu, o Almada, com aquele seu sotaque lisboeta, diz: «Isto tem muito númaro». Conhecia que era a sua atracção pelos números, pelas relações geométricas, era o maior cumprimento que se podia receber. «Isto tem muito númaro». Claro que me babei... «Númaro».Grande Reportagem, Agosto de 2003, p. 59.Na figura: Quadro de Júlio Pomar intitulado O Almoço do Trolha. A inspiração neo-realista traduz a influência que Almada Negreiros teve na sua obra.Documentos consultados:Entrevista à revista Grande Reportagem de Agosto de 2003, realizada por Ana Sofia Fonseca.Entrevista ao semanário Expresso, realizada por Ana Soromenho.
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August 25 2010, 3:19pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"A poesia está na rua"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/poesia-esta-na-rua.html
Muitos são os artistas que ligaram seu nome ligado à data que hoje se comemora. Maria Helena Vieira da Silva e Sophia de Mello Breyner Andersen são dois desses nomes.Da primeira deixo a reprodução de um quadro - A poesia está na rua -, e da segunda um poema - Pranto pelo dia de hoje, publicado no Livro Sexto, datado de 1962.Nunca choraremos bastante quando vemosO gesto criador ser impedidoNunca choraremos bastante quando vemosQue quem ousa lutar é destruídoPor troças por insídias por venenosE por outras maneiras que sabemosTão sábias tão subtis e tão peritasQue nem podem sequer ser bem descritas
April 25 2009, 7:50am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Olhares
http://terrear.blogspot.com/2008/10/olhares.html
October 25 2008, 5:17pm | Comments »
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