Manuel Freire ficará sempre ligado a António Gedeão. Vai para meio século que a bela música de um (nos) tem dado a ouvir as belas palavras de outro. Mantendo-se as palavras do poeta, a música do trovador reinventa-se e surpreende. Talvez porque tais palavras apelam a múltiplas formas de as cantar.Em 1996, no Jornal de Letras (Educação, página 20) Manuel Freire explicava como tinha "tropeçado" nas palavras de um tal senhor de nome António Gedeão..."Um dia ao praticar um dos meus desportos favoiritos, a leitura, tropecei num livrode poesia de um senhor chamado António Gedeão. descobri depois que este senhor, por mistério jeckillydiano, era também o autor de um compêndio liceal, pelo que era suposto eu estudar (pouco)...Mas, mais do que tropeçar no livro, aconteceu-me esbarrar frontalmente com alguns conjuntos de palavras que lá vinham, choque esse acompanhado de comichão nos dedos, vibrações nas cordas vocais, tremores e palpitações (estes e estas internos).Abreviando; fui-me às palavras, roubei-as e, com elas, fiz cantigas.Depois houve discos, um programa de televisão muito importante chamado Zip-Zip e passaram trinta anos. Trinta anos durante os quais aquelas palavras e outras que o mesmo senhor escreveu foram correndo mundo, tocando ouvidos, aquecendo muitos corações, saindo de muitas bocas, entrendo até talvez em alguns cérebros!...Ao londo desses trinta anos, de terra em terra, fui companheiro de viagem dessas palavras, cantando-as, dizendo às pessoas que as havia escrito por mim e, até, imagine-se!, ganhado algum dinheiro com isso!...A essas palavras devo amigos e tantas outras coisas, que, por nunca as poder pagar e por prudência ou pudor de caloteiro, não referirei. A essas palavras e a quem as juntou, a quem lhe deu música que eu não inventei, mas só descobri.Num mundo cada vez mais feio, porco e mau, as pessoas especiais como António Gedeão são as que nos fazem acreditar que esse mundo pode ser, que o podemos fazer, que temos de o fazer, um pouco mais lindo, mais limpo, melhor. são os impresiíndíveis!O António Gedeão não merecia este texto; mas que fazer? Eu sou bom é com as palavras dele e estas são as minhas"m
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"Fui-me às palavras, roubei-as e, com elas, fiz cantigas"
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February 20 2011, 4:15am | Comments »
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Uma semana de Sophia
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Na semana que passou, no dia 23 de Janeiro, o programa Câmara Clara, da RTP 2, foi inteiramente dedicado a Sophia de Mello Breyner Andresen. A conversa que Paula Moura Pinheiro e Maria Andresen de Sousa Tavares, filha da peotisa, tiveram pode ser vista aqui. No dia 26, o espólio de Sophia chegou, por doação familiar, à Biblioteca Nacional de Portugal (aqui), onde se inaugurou uma extensa exposição biográfica (aqui)..Nos dias 27 e 28, a Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, dedicou-lhe um alargado congresso internacional, tendo sido, nesse contexto, apresentado o número 176 da revista Colóquio/Letras, quase todo sobre a sua vida e obra. Belíssimo!.Obrigada, muito obrigada, a todos aqueles que, pelo seu interesse e dedicação, trabalham para manter vivos os nossos poetas. E conseguem-no.
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January 31 2011, 3:11am | Comments »
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Uma Vida de Poeta
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Na sequência da cerimónia de doação do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen à Biblioteca Nacional de Portugal, será hoje inaugurada uma exposição sobre a vida e obra da poetisa. Paula Morão e Teresa Amado são as comissárias, que assim apresentaram o seu trabalho: "Tivemos o gosto de comissariar, a convite de Maria Sousa Tavares e da Biblioteca Nacional de Portugal, a exposição apresentada por ocasião da entrega do espólio de Sophia ao Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea. Seleccionámos as peças que a compõem, a partir de uma pré-selecção feita por Maria Sousa Tavares. Trata-se de manuscritos de correspondência entre Sophia e família ou amigos, de poesia e de prosa, em cadernos e em folhas soltas, onde há textos rescritos, versões acabadas e outras de trabalho em curso ou simplesmente começadas; há também impressos, vários dos quais com emendas autógrafas, e fotografias.Além destes documentos, indicativos da diversidade e da qualidade do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen, a exposição contém outros conjuntos de objectos que os complementam. Por um lado, primeiras edições e uma escolha de edições ilustradas. Por outro, peças de artistas plásticos e de fotógrafos oferecidas a Sophia pelos seus autores e que em muitos casos ilustraram edições de livros seus. E, finalmente, insígnias recebidas por Sophia em sinal do reconhecimento público que por diversas vezes lhe foi testemunhado e que fica a fazer parte da sua história.O princípio geral de ordenação das peças expostas e do catálogo que lhes corresponde é o da cronologia; mas este critério dominante não foi aplicado de maneira rígida, porque entendemos fazer associações sugeridas por considerações de outra ordem entre peças e documentos diversos: por exemplo, aproximámos versões de um mesmo texto escritas em diversos suportes e em momentos distantes entre si, ou estabelecemos nexos entre fotografias e escritos.Esta exposição, tal como o catálogo que agora se edita, pretenderam ser uma aproximação à vida e à obra de Sophia, construída a partir do seu espólio. Esperamos ter, de algum modo, atingido esse objectivo."
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January 26 2011, 4:13am | Comments »
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Obrigada
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Devemos declarar o dia de hoje, 26 de Janeiro de 2011, como um dia feliz. É um dia em que Portugal fica mais rico, e o mundo que ama a poesia também: o espólio literário de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi doado pela sua família à Biblioteca Nacional. A cerimómia oficial será mais logo, às quatro horas da tarde.Permanece, assim, seguro para o futuro este legado, haverá quem o ordene, o torne acessível a todos os que o quiser investigar, resultando daí o seu conhecimento mais alargado e mais profundo.Falando em nome próprio e no nome de De Rerum Natura, expresso agradecimento a todos os que tornaram possível esta partilha, em especial a Maria Andresen, filha de Sophia.
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January 26 2011, 3:42am | Comments »
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"Vou-lhes dizer..."
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Se o leitor alguma vez ouviu João Villaret dizer a Procissão, de António Lopes Ribeiro, não a conseguirá ouvir noutra voz, nem na sua própria voz... Ora, experimente...Tocam os sinos da torre da igreja,Há rosmaninho e alecrim pelo chão.Na nossa aldeia que Deus a proteja!Vai passando a procissão.Não consegue pois não?A voz de João Villaret a dizer(-nos) poesia, ritmada pelo piano do seu irmão, Carlos Villaret, está fixa na nossa memória e impõe-se-nos... É por isso que continua vivo, meio século depois da sua morte.Desfrute essa voz, essa música, essa poesia, aqui.
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January 21 2011, 3:48pm | Comments »
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O ESPAÇO E A ALMA
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Meu Prefácio ao livro de poesia “O Espaço e a Alma. Poemas escolhidos”, do cientista, especialista em biotecnologia, e professor da Universidade Católica do Porto F. Xavier Malcata, que acaba de sair na editora Corpos:O que é fazer poesia? E o que é fazer ciência? Em que divergem e convergem estas duas actividades humanas? Que se trata de duas actividades diferentes do ser humano será óbvio para toda a gente. Mas que possam ter algo de comum, embora menos evidente, é revelado pelo facto de haver poetas que se inspiram nos objectos e metodologias da ciência para escreverem os seus poemas, e pelo facto de haver cientistas que não desprezam a inspiração que lhes pode surgir de conteúdos e vias poéticas na prossecução dos seus trabalhos de pesquisa. E, ainda, pelo facto de haver pessoas que são simultaneamente poetas e cientistas, não encontrando contradição insanável na dupla actividade que professam.Eu conhecia – e admirava – o cientista F. Xavier Malcata, professor catedrático na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica no Porto, doutorado em Engenharia Química pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e autor de uma vasta e reconhecida obra de investigação. Mas já não conhecia – e só agora passei a admirar – o poeta com o mesmo nome, que, neste livro, logo na Parte I (estando a lógica da divisão em partes exposta pelo autor), sob a égide do título “Cantos de Emoção”, explicita em dois simples versos de um soneto o que é “fazer poesia”:“É fugir em transe, olhando sem ver –É escrever o Mundo em grito e ilusão!” Fica subentendido que fazer ciência será, parafraseando-o, “Fugir em transe, olhando a ver – / E escrever o Mundo com calma e razão!” Xavier Malcata não é o primeiro cientista que também faz poesia – lembro-me do norte-americano Roald Hoffmann (Prémio Nobel da Química de 1981); mas em Portugal, será um dos muito poucos que o fazem – lembro-me do físico Orfeu Bertolami.Sobre esta magna questão das relações entre poesia e ciência, sobre as dissemelhanças e semelhanças entre elas, já se pronunciaram numerosos poetas e cientistas, assim como outros tantos críticos de uma e de outra actividade. O poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) – que o autor refere no poema “Ínclito Porto”, na Parte III (“Ênfases de Ilusão”) – escreveu, no prefácio à “Morte de D. João” (Livraria Moré, 1874): “A poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton tanto pode ser explicada num livro de física, como cantada num livro de versos. O sábio analisa-a, demonstra-a, e o poeta, partindo dessa demonstração, tira dos factos todas as consequências morais, sociais e religiosas, traduzindo-as numa forma sentimental. A ciência, neste caso, dá o convencimento, a certeza; a poesia dá a emoção, o entusiasmo”.Se a poesia aparece aqui como uma linguagem que expressa o real, com um registo próprio – e, portanto, de certo modo como uma consequência da ciência –, ela pode, por outro lado, também ser vista como a origem da ciência. Antero de Quental (1842-1891), contemporâneo de Junqueiro na “Geração de 70”, escreveu, numa carta a um seu amigo: “O chão sobre que assenta a certeza de hoje formou-se pelos aluviões sucessivos da intuição antiga. O que é ciência foi já poesia: o sábio foi já cantor, o legislador poeta: e a evidência uma adivinhação, um admirável palpite, cujas profundas conclusões são ainda o espanto e porventura o desespero das mais rigorosas filosofias. E, se nadamos hoje em plena luz da razão, foi entretanto a poesia, foi essa doce mão que nos guiou por entre o pálido crepúsculo dos velhos sonhos. Velhos? Nós somos eternos.”Fernando Pessoa (1888-1935), além de, sob o nome de Álvaro de Campos, ter equiparado a Vénus de Milo ao binómio de Newton, escreveu sob o seu próprio nome, mas colocando as palavras na voz do poeta Johann Wolfgang von Goethe, no poema dramático “Primeiro Fausto”, os seguintes versos:“Do fundo da inconsciênciaDa alma sobriamente loucaTirei poesia e ciência,E não pouca”.Haveria mais. Mas devem chegar estes exemplos, que encontrei no interessante livrinho “Ciência e Poesia” (Portugália, 1955) do matemático António Lôbo Vilela para ilustrar as dissemelhanças e semelhanças entre fazer poesia e fazer ciência. Há uma certa cumplicidade, quando poesia e ciência se interpenetram – por vezes, não se sabe mesmo qual delas está primeiro e qual está depois. Estão, em muitas situações, as duas ao mesmo tempo. A própria associação da imaginação à poesia – que é feita (e bem), na linha aliás do que é vox populi, por Xavier Malcata –, não deve fazer olvidar que a imaginação é uma componente essencial do processo de descoberta científica. Como disse o físico Albert Einstein: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo.” Imaginação e razão não se podem dissociar facilmente; se é que podem, de todo.Para chegar a esta mesma conclusão bastará atentar em alguns dos poemas de Xavier Malcata, que partem de uma visão científica do mundo – decerto construída com a aliança da imaginação e da razão – para soltar a visão poética, isto é, deixar voar livremente a imaginação, a propósito de um evento, de um tempo ou de um espaço. Há outros poemas, onde a ciência está ou parece arredada e a poesia omnipresente, mas escolho alguns poemas onde a ciência e a poesia dividem fraternalmente o palco. Vejamos como o autor invoca a teoria da relatividade de Einstein no seu poema “Paradoxo de Natal” (da Parte III):“Tempo e até espaço, em singularidadeFundem-se – instantâneo e omnipresente são,Desafiando as leis sábias da realidadeNuma história longa de imaginação.Relatividade em campo, justificaComo um volumoso e risonho astronautaTodo o mundo corre, em diminuto instante.”A física moderna, desta vez a teoria quântica em vez da teoria da relatividade, reaparece noutros passos, como no poema “Sublime elementar” (da mesma Parte III):“Em filosófica, atroz dureza,Heisenberg não permite que, incólume,Fique então o núcleo: só na incertezaSe confia. E o aumento do volume –Bolhas são geradas tão breves,Revela o que é mais elementar:Tal energia, debaixo das neves,Fugidio elo vai acrescentar.”Num domínio mais próximo daquele em que exerce actividade o cientista Xavier Malcata, surgem umas notáveis ”Sextinas a um carbono quiral” (da Parte IV, “Gritos de Realismo”) – que nos fazem lembrar alguns dos poemas do escritor e professor Vitorino Nemésio (1901-1978), contidos no livro “Limite de Idade" (Estúdios Cor, 1972) que dedicou ao biólogo Aurélio Quintanilha):“Os electrões carregados –Fuindo num mar de incertezaE obrigatórios no acaso,Em orbitais bem casados(Híbridas são, de certeza)Dão ligações, mas a prazo.”Em “Arqueologia molecular” (da mesma Parte IV), o autor glosa a moderna e polémica questão dos organismos geneticamente modificados, associada de perto à investigação em biotecnologia que o cientista empreende no seu laboratório:“Criam-se tais regras sem ter fronteiras(Qual Craig Venter universal),Que na agroquímica – a que é industrial,Sem metabólicas, vis barreiras,O microcosmos se vai alterar.”Neste trecho, como aliás noutros, revela-se, sem qualquer dúvida, a dimensão humanista e ética do autor – uma dimensão que ajuda sobremaneira a fazer a ponte entre poesia e ciência.Falando de tecnologia, encontra-se neste livro referência às questões bastante actuais da produção e consumo de energia, nomeadamente ao aproveitamento da energia eólica, no poema “Eólo renascido” (Parte III):“Enchem a paisagem, cortam o horizonte –Como sentinelas de metal aladas,Como monstros em contínuo rodopio.Com seus triplos braços, erguem-se imponentes,Como se entre o céu e a terra fossem ponte.Como cavaleiro andante disfarçadas,Provocando D. Quixote em desafio –Torres actuais, máquinas tão descontentes.”Somos levados imediatamente, neste e em vários outros poemas, a estabelecer uma analogia – e também, necessariamente, um contraste – com a poesia de António Gedeão, o pseudónimo do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho (1906-1997), que, em “Impressão digital”, escreveu: “São moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes.”O autor também trata a questão das viagens espaciais, resultado tecnológico do conhecimento das leis de Newton – uma questão bem actual, agora que passam os 40 anos da primeira ida humana à Lua. Em “Balada de infinito” (Parte IV), lê-se:“Eis compasso de espera – fica em órbita;Cadeia a dois no módulo que parte,A equipa longe, no vácuo perdido,Desce, lenta, para a Tranquilidade.Saltitando tão esbelto (não gravita),O herói marca o chão como peça de arte.Satélite cinzento, em que o homem ávidoPula como gigante: é a Humanidade.”Associamos de novo Xavier Malcata a Gedeão, o autor de “Poema do homem novo”, saído um ano depois de Armstrong pisar o solo lunar: “Lá vai ele. / Lá vai o Homem Novo / Medindo e calculando cada passo, / Puxando pelo corpo como bloco emperrado.” A associação é particularmente evidente – decerto uma grande e justa homenagem do autor a Gedeão, pois, na poesia como na ciência, só se pode ver mais longe se se estiver “aos ombros de gigantes” –, na “Ameaça maior em redondilha menor”, que lembra a famosa “Lágrima de preta”. Escreve Xavier Malcata:“Encontrei uma gota,Que estava a escorrer:Transparente e fria,Prestes a morrer.Amostrei-a logo:Usei a pipeta,Olhei-a bem fundo –Vi a coisa tão preta.”Por outro lado, uma nítida diferença entre os dois poetas transparece se se cotejar, por exemplo, “Correrias de advento” (Parte II, “Suspiros de Bucolismo”), de Xavier Malcata, com “Dia de Natal”, de Gedeão – embora nos dois haja comunhão no tema, a crítica ao excessivo consumismo a que continuamos a assistir nos finais do ano. Outros, com mais sapiência e capacidade do que eu, poderão analisar os paralelismos e as obliquidades entre o consagrado autor de “Pedra Filosofal” e o presente autor, que decerto encontrou inspiração em quem tão bem soube urdir ciência e poesia.Um prefácio deve ser breve – como um acepipe que abre caminho para o saboroso prato principal, que é a obra propriamente dita. Assim, e uma vez que a última palavra será, como deve ser, a do poeta Xavier Malcata, dou (por ser incapaz de dizer melhor) a minha última palavra ao poeta Gedeão – que, no último poema, intitulado “Suspensão coloidal”, do seu livro “Máquina do Fogo” (Atlântida, 1961), tão bem resumiu a complexidade e a dificuldade das relações, decerto persistentes mas continuamente ambíguas, entre ciência e poesia:“Postulados e leis e lemas e teoremas,tudo o que afirma e fura e diz sim,teorias, doutrinas e sistemas,tudo se escapa ao autor dos meus poemas.A ele e a mim.”
January 21 2011, 1:30pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Ano Novo: Poesia
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Selecção de poesia em português sobre o imaginário que envolve o Ano Novo, e que amavelmente nos foi enviada por João Boaventura.De Luís Vaz de CamõesJamais haverá ano novo, se continuar a copiar os erros dos anos velhos.De Carlos Drummond de AndradeReceita de Ano Novo Para você ganhar belíssimo Ano Novocor do arco-íris, ou da cor da sua paz,Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido(mal vivido talvez ou sem sentido)para você ganhar um anonão apenas pintado de novo, remendado às carreiras,mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;novoaté no coração das coisas menos percebidas(a começar pelo seu interior)novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,mas com ele se come, se passeia,se ama, se compreende, se trabalha,você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,não precisa expedir nem receber mensagens(planta recebe mensagens?passa telegramas?)Não precisafazer lista de boas intençõespara arquivá-las na gaveta.Não precisa chorar arrependidopelas besteiras consumadasnem parvamente acreditarque por decreto de esperançaa partir de janeiro as coisas mudeme seja tudo claridade, recompensa,justiça entre os homens e as nações,liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,direitos respeitados, começandopelo direito augusto de viver.Para ganhar um Ano Novoque mereça este nome,você, meu caro, tem de merecê-lo,tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,mas tente, experimente, consciente.É dentro de você que o Ano Novocochila e espera desde sempre.De Miguel TorgaRecomeça…Se puderesSem angústiaE sem pressa.E os passos que deres,Nesse caminho duroDo futuroDá-os em liberdade.Enquanto não alcancesNão descanses.De nenhum fruto queiras só metade.E, nunca saciado,Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.Sempre a sonhar e vendoO logro da aventura.És homem, não te esqueças!Só é tua a loucuraOnde, com lucidez, te reconheças…De Fernando PessoaTudo o que já não éA dor que já não me dóiA antiga e errónea féO ontem que a dor deixouO que deixou alegriaSó porque foi, e voouE hoje é já outro dia.Também de Fernando PessoaHá um tempo em que é precisoabandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo,e esquecer os nossos caminhos,que nos levam sempre aos mesmos lugares.É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre,à margem de nós mesmos..Ainda de Fernando Pessoa.Ano NovoDe tudo, ficaram três coisas:A certeza de que estamos sempre começando...A certeza de que precisamos continuar...A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...Portanto devemos:Fazer da interrupção um caminho novo...Da queda um passo de dança...Do medo, uma escada...Do sonho, uma ponte...Da procura, um encontro...
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January 2 2011, 9:47am | Comments »
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POR ESTE ANOITECER…
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Poema de Jorge de Sena, enviado por Paulo Rato, que devia ter sido publicado no De Rerum Natura no dia 31 de Dezembro… Apesar do atraso, não poderíamos deixar de o partilhar com os leitores.POR ESTE ANOITECER…Por este anoitecer, o ano acaba.Cinzento e azul no céu por entre as árvores,acaba o calendário. Muitos crimes deleserão futuras efemérides nos outrosque, folha a folha, acabarão também.Como anoitece igual este ano às noitescom que, dia por dia, o ano foi passandogregorianamente. O mundo ocidental,cesáreo, atlântico, ex-mediterrânico,conta do Cristo. Mas os outros mundostambém contarão dele, quando este ocidentedeixar de fingir dele — os deuses morrem —para funções de calendário laico.O tempo passa, os calendários mudam,na vida e morte as horas se sepultam.E, no entanto, o tempo vai connosco;é desta terra só, e só por haver outrosque de outros astros são por haver estediverso tanto a cada movimento.Por este anoitecer, o ano acaba. Jorge de Sena
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January 1 2011, 5:00pm | Comments »
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Não procures sem creias: tudo é oculto
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NatalNasce um Deus. Outros morrem. A VerdadeNem veio, nem se foi: o Erro mudou.Temos agora uma outra Eternidade,E era sempre melhor o que passou..Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.Um novo deus é só uma palavra.Este poema de Fernando Pessoa foi escolhido por Eugénio de Andrade para constar na sua Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa. O poema inocentemente designado Natal que termina com as desarmantes palavras tantas vezes citadas: Não procures sem creias: tudo é oculto.
December 25 2010, 1:00pm | Comments »
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Ladainha dos Póstumos Natais
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Ladainha dos Póstumos Natais, poema de David Mourão-Ferreira recentemente escolhido pelo classicista e também poeta José Ribeiro Ferreira para integrar a antologia que organizou - Dois poetas e um Natal - e para a dizer, porque a poesia é (também) para ser dita.Há-de vir um Natal e será o primeiroem que se veja à mesa o meu lugar vazioHá-de vir um Natal e será o primeiroem que hão-de me lembrar de modo menos nítidoHá-de vir um Natal e será o primeiroem que só uma voz me evoque a sós consigoHá-de vir um Natal e será o primeiroem que não viva já ninguém meu conhecidoHá-de vir um Natal e será o primeiroem que nem vivo esteja um verso deste livroHá-de vir um Natal e será o primeiroem que terei de novo o Nada a sós comigoHá-de vir um Natal e será o primeiroem que nem o Natal terá qualquer sentidoHá-de vir um Natal e será o primeiroem que o Nada retome a cor do Infinito Cancioneiro de Natal in Obra Poética, 1996, páginas 244-245.
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December 22 2010, 4:00pm | Comments »





