Passam hoje quarenta anos sobre a morte de Manuel Bandeira (1886-1968), o poeta natural de Recife, que dizia ter nascido para a vida em Petrópolis.Mas foi em Recife, ainda muito criança, que ele descobriu a poesia: "na companhia paterna ia-me eu embebendo dessa ideia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas".Ouvi o seu Vou-me embora pra Pasárgada, dito pelo próprio, logo de manhã, na rádio, na Antena 2. Aqui o recordo também, por escrito, precedido da nota biográfica dessa mítica Pasárgada, da lavra do poeta e que encontrei num precioso livro que me foi emprestado, que se intitula: Manuel Bandeira: Poesia completa e prosa.Biografia de Pasárgada"Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subconsciente este grito de evasão: «Vou-me embora pra Pasárgada!» Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em «Vou-me embora pra Pasárgada», elas não passam de acidentes. Não construí o poema; ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizando as reminiscências da infância – as histórias que Rosa, a minha amaseca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta, etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as actividades que a doença me impedia: «E como eu farei ginástica… tomarei banhos de mar!» A esse aspecto Pasárgada é «toda a vida que podia ter sido e que não foi»”.Vou-me embora pra PasárgadaVou-me embora pra PasárgadaLá sou amigo do reiLá tenho a mulher que eu queroNa cama que escolhereiVou-me embora pra PasárgadaVou-me embora pra PasárgadaAqui eu não sou felizLá a existência é uma aventuraDe tal modo inconseqüenteQue Joana a Louca de EspanhaRainha e falsa dementeVem a ser contraparenteDa nora que nunca tiveE como farei ginásticaAndarei de bicicletaMontarei em burro braboSubirei no pau de seboTomarei banhos de mar!E quando estiver cansadoDeito na beira do rioMando chamar a mãe-d'águaPra me contar as históriasQue no tempo de eu meninoRosa vinha me contarVou-me embora pra PasárgadaEm Pasárgada tem tudoÉ outra civilizaçãoTem um processo seguroDe impedir a concepçãoTem telefone automáticoTem alcalóide à vontadeTem prostitutas bonitasPara a gente namorarE quando eu estiver mais tristeMas triste de não ter jeitoQuando de noite me derVontade de me matar- Lá sou amigo do rei -Terei a mulher que eu queroNa cama que escolhereiVou-me embora pra Pasárgada.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Vou-me embora pra Pasárgada
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October 13 2008, 4:08am | Comments »
