Continuação da entrevista a Paulo Rato, iniciada aqui. Fala-se, agora, da intenção manifestanda, há alguns meses, pela Antena 2 da Rádio de conquistar novos, variados e mais jovens públicos.P: Depois de tantos anos a fazer rádio, se deitar um olhar para o futuro pensa que o caminho é investir em programas que contribuam para a "educação dos públicos" mas que têm nichos de audiências ou é a subordinação aos "gostos" do público?R: A "educação dos públicos" dilui-se na quantidade de estações que atravancam as radiofrequências, a maioria sem sombra de intenção cultural ou "educativa" (ou, mesmo, seja do que for). O que passa por muitos microfones e leitores de CDs ou outros suportes de áudio é, não raras vezes, catastrófico. Mas são esses "conteúdos" que atingem (mortalmente?…) vastas audiências. É por isso que considero perigosa a ideia de "aligeirar", com mui deslizante ligeireza, a programação da Antena 2, no intuito de "conquistar novos públicos, sobretudo os jovens".Parecer-me-ia melhor que se aprofundasse e alargasse a programação, partilhando mais esclarecidamente, com a Antena 1 e a Antena 3, a abordagem dos diversos géneros musicais e temas culturais, de modo a que todas as antenas incluíssem "pequenas amostras" dos conteúdos das vizinhas, em quantidades variáveis em cada uma delas: não me chocaria nada que houvesse um pequeno programa semanal sobre a música pop de maior qualidade na Antena 2, porque ela existe e habita o mundo onde estamos e por ela passam e com ela convivem muitos dos jovens criadores culturais. Sabendo distinguir a cultura popular da de massas, não podemos ignorar esta última e o que nela se gera com qualidade. Pelo contrário, parece-me francamente demais uma hora diária de música étnica (era muito mais interessante um programa semanal de meia hora, que houve há uns anos, da autoria de um investigador dessa área, mais tarde professor universitário) e outra de jazz, género que escasseia na Antena 1 e não deve existir na Antena 3.A poesia caberia em todas estas antenas, e não tenho qualquer dúvida de que iria conquistando muitos "fãs". É claro que a Antena 2 terá sempre, neste campo, especiais deveres. Mas sei que, actualmente, o dinheiro escasseia, a rádio passou a ser o parente pobre da "R e T de P", enquanto há gastos que me parecem, em tempo de crise, francamente deslocados no serviço público, como os enviados especiais ao funeral do Michael Jackson ou à "recepção ao Cristiano Ronaldo" (mas, atenção, puritanos!, há que dosear as coisas, incluindo a publicidade, que também pode fazer parte do espectáculo, para alguns sectores da audiência — uma audiência que o serviço público deve procurar manter num patamar aceitável). E, entretanto a UE vigia, qual urubu, não vá o serviço público receber "favores" do Estado e estragar o negócio dos queridos operadores privados.P: Presumo que seja uma pessoa atenta ao ensino da poesia e da música que é facultado às nossas crianças e jovens. Qual a sua opinião a respeito?R: Creio que o ensino da música melhorou muito. Há muito mais escolas e professores, o nível pedagógico é bem mais elevado e temos hoje uma quantidade muito maior de intérpretes de grande qualidade, bem como de jovens compositores. Quanto ao ensino, em geral… não quero bater mais no ceguinho! Quanto ao ensino do Português, é público e notório que os programas têm decaído, os governantes (estes e os outros, não esqueçamos) aparentam ter desistido da educação, embora não queiram confessá-lo. E quanto aos "últimos desenvolvimentos", a Ministra podia ser um génio e os professores uns madraços, todos… Mas, quem é incapaz de descobrir que não é possível (nem útil) insistir em reformas contra a quase totalidade daqueles a quem se aplicam é, na minha modesta (e politicamente incorrectíssima) opinião, demasiado estúpido, mesmo para génio.Tudo junto, os resultados estão à vista e ao ouvido: poesia, para despertar a atenção da maioria dos jovens, terá de incluir muitos "palavrões".Espero que ninguém se ofenda. O que são os chamados "palavrões"? Termos de origem tão nobre e latina (ou grega, ou…) como os outros — em geral relacionados com matérias que as ideologias dominantes foram tornando escusas, pecaminosas, inefáveis! —, de que o povo, i. e., as classes baixas, a ralé, faz uso, à falta de outros, mais eruditos, mas igualmente — inefáveis... Pelo que (perdoe-se-me) a sua utilização não me choca absolutamente nada.A "palavra feia" poderia ser outra, se a sua etimologia fosse diversa. E, depois, os sons não têm culpa das maldades que lhes atribuem e que variam consoante as línguas: se tem algum amigo chamado Rui que tencione visitar a Rússia, recomende-lhe que escolha outro nome para se apresentar...; e há os termos que são perfeitinhos ou "obscenos", conforme o contexto, como o (le) baiser francês; e que malandrice tem, tomado palavra por palavra, o ternurento echar un polvito?Não consigo perturbar-me com estas coisas, como não me comovem outras normas de "etiqueta". Porque é que não posso rapar o prato da sopa? Porque é feio, dizia a minha avó... ora, ora: é mas é para mostrar que "não preciso" — se o menino quiser mais, a criada traz, diria a senhora dona...O que me incomoda é que a vulgarização do palavrão lhe retira as fortes conotações que adquiriu ao longo de tantos séculos de dura vida, tornando a sua utilização — ocasional mas oportuna — inócua, sem significado, incapaz de cumprir a sua função de transmitir uma honesta indignação, uma fúria, um susto, uma dor de martelada num dedo.Como saborear Em Creta, com o Minotauro, do Jorge de Sena, se perderem força expressões como: "(… e, como todos os heróis gregos, um filho da puta…)" ou "toda esta merda douta cagada há séculos pelos nossos escravos, …). Tenham dó! Senão lá se vai todo o encanto dos grandes poemas fesceninos…O que verdadeiramente me choca é que a frequência dessa linguagem "de carroceiro" (classe baixa, ralé!...) traduz uma tal pobreza de vocabulário que a comunicação praticamente deixa de existir. Palavras que eu conhecia quase desde a mais tenra infância são hoje completamente desconhecidas de tais falantes (?) e receio que, com o avanço de tantas e tão boas reformas pedagógicas, o nosso português caminhe para o "grunhês". De resto, com o precioso auxílio dos media (e não "mídia", como os sambistas adoptaram e os nossos especialistas anglocoiso ostentam, orgulhosamente incultos), onde a asneira, falada ou escrita, fervilha.Imagem: http://attambur.com/Imagens0/Banco36/violino1m.jpg
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"Poesia temperada com música" – 2
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poesia-temperada-com-musica-2.html
July 13 2009, 1:21pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Poesia temperada com música" - 1
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poesia-temperada-musica-1.html
Em 31 de Dezembro de 2008, deixei a nota no De Rerum Natura que o único programa de rádio dedicado inteiramente à poesia e à música se extinguia com o ano. Na altura, percebi que o Os Sons Férteis, assim se chamava esse programa, ia fazer falta. E faz.Ainda a propósito dele, falei com Paulo Rato que, despretensiosa e calmamente, deu voz a centenas de poetas e compositores durante quase quinze anos.Como a conversa se alongou, reparto-a por dois ou três posts, consoante a temática que abordámos.P: Como escolhia o Paulo a poesia que se dizia no seu programa e como é que a “temperava a com a música”? R: Comecei por escolher "temas", numa interpretação bastante lata, sendo os primeiros: a própria poesia, a música e as artes plásticas. Depois, passei a utilizar um critério de "referências": os quatro elementos, as estações e outros. A ideia era utilizar uma fórmula que orientasse a selecção, para evitar repetir demasiado os mesmos autores, o que inevitavelmente aconteceria sem essa orientação. Pensei, desde o início, em aproveitar as efemérides para aprofundar um pouco mais alguns autores.Após a aposentação, sabendo que não seria possível manter o programa por muito mais tempo, devido a disposições legais, empenhei-me em divulgar muitos poetas, sobretudo estrangeiros que, por falta de edições em português, seriam do conhecimento de um reduzido número de ouvintes interessados: foi essa razão de as efemérides passarem a ser quase uma constante.Parte da programação de Dezembro de 2008 pretendeu ser uma homenagem a poetas que, além da sua qualidade literária, são também meus amigos. Foi, naturalmente, a única ocasião em que este critério foi utilizado.Quanto à música, não pretendia que surgisse sistematicamente como simples "ilustração" do texto, embora algumas vezes isso acontecesse. Ocasionalmente, utilizei-a até como comentário irónico ou contraposição ao conteúdo do poema. Procurei partir da junção das duas componentes para chegar a um objecto diferente da sua soma, deixando aos ouvintes a possibilidade de fazerem as suas "leituras". Nunca tive nenhum critério imutável: como me contou o João Pereira Bastos, que era meu ouvinte assíduo ainda antes de ser Director da Antena 2, — "quando parecia que estavas muito "certinho", lá vinha uma maluqueira"...Em relação a poemas (sobretudo em línguas estrangeiras) aproveitados por compositores para canções ou outras obras, pareceu-me sempre interessante utilizar trechos dessas peças musicais, por conterem uma "interpretação musical" do poema, a que se somava, quase sempre, a possibilidade de ouvir, pelo menos, parte do texto na sua versão original.Também recorri a peças instrumentais inspiradas pelo poema ou pelo seu autor: foi o que aconteceu com não poucos programas com textos de Fernando Pessoa, que é referência de numerosas obras musicais de compositores das mais diversas partes do mundo.Usei, com alguma frequência, música popular e /ou étnica.Também utilizei, deliberadamente, música de menor qualidade ou em más interpretações, com intenções que, espero, não terão passado despercebidas à maioria dos ouvintes.Sem carácter obrigatório, procurei acompanhar os poemas com obras da mesma época, por se inserirem no mesmo movimento artístico. O que também justifica o recurso muito frequente à música contemporânea. Mas também usei obras contemporâneas com textos antigos e vice-versa. Quando dedicava uma semana inteira a um poeta cuja obra fora alvo da atenção de compositores de diferentes épocas, procurava abranger essas abordagens tão diversas.Tentei também divulgar a música, erudita ou genuinamente popular, dos países dos autores que escolhia: um dos casos mais inacreditáveis é o do Brasil, de que, em Portugal, praticamente só se conhece o Villa-Lobos.P: Além da poesia e da música que ficou em si, o que lhe ficou mais d’ Os Sons Férteis?R: O próprio programa me levou a alargar muito significativamente os meus conhecimentos musicais. Foi-me muitíssimo grato o retorno do programa: o apreço manifestado por pessoas que muito considero, intelectualmente e/ou pelas suas posições e intervenções cívicas; o apoio de muitos outros ouvintes e a atenção que prestavam ao programa, não raras vezes alertando para qualquer anomalia na sua emissão; os inúmeros pedidos de envio dos poemas, de identificação das edições de que constavam, ou dos trechos musicais e das gravações que os incluíam, o que me obrigou a muito trabalho "suplementar", mas gratificante — ainda que, por vezes, com meses de atraso, em particular quando dirigi os arquivos sonoros, creio que nunca deixei ninguém sem resposta.Também foi francamente enriquecedora a colaboração de vários colegas que passaram pelo programa, na leitura de poemas, e que se foram afastando, por razões profissionais ou de reforma, e a dedicação e virtuosidade da Eugénia Bettencourt, que me acompanhou até final — e não se trata aqui de uma lista de vénias cerimoniais, a que sou completamente avesso, mas de evocar uma efectiva partilha cultural e estética e uma edificação de afectos.Finalmente, o programa proporcionou-me o contacto, em absoluto não esperado, com muitos poetas, com quem estabeleci laços que vão de um cordial mútuo apreço a amizades fortes, o que constitui um património inapreciável e que me aquece o coração.P: Terminou a sua nota de despedida de Os Sons Férteis dizendo “A poesia, essa, continua". Na altura em que a ouvi surgiu-me a pergunta que agora lhe faço: é um desejo ou uma certeza, quando termina um dos poucos programas que lhes era dedicado?R: A poesia continua, sem cuidar dos desejos de cada um, ou da existência de programas de rádio ou televisão que lhe sejam dedicados. A sua divulgação é que pode ser descurada.Foi o que pretendi transmitir a quem me ouvisse: a poesia continua, com quem a cria, quem a lê, quem a desvenda a outros. E cada um pode recorrer àquilo que tem ao seu alcance, para não perder a poesia. Também desejo que a poesia volte às emissões da Antena 2.Sabemos que continua a haver quem goste de coisas de que não pode usufruir, por falta de meios ou de oportunidade. Raras serão as pessoas que podem adquirir todas as obras musicais que gostam de ouvir (ou gostariam, se as conhecessem). A rádio (o serviço público) tem o dever de lhes dar isso: o prazer de voltar a escutar o que conhecem, a informação e a experiência do que não conhecem. O mesmo se dirá em relação à poesia.É por isso que é tão importante a existência de um serviço público que possa proporcionar essa fruição a todos os amantes de coisas infelizmente excluídas pela cultura de massas e pouco atraentes para o negócio. Como são a música erudita ou a literatura.É por isso, também, que é tão importante ter em conta qual é, na realidade, o público que precisa do que uma programação lhe pode dar, e não apenas o "alvo" (target, em ignorantês), i. e., o público que se pretende atingir, de acordo com os ditames de uma das coisas mais imbecis que a "economia de mercado" criou — o marketing, em geral interpretado por umas criaturas embalsamadas em estado de virginal e convicta ignorância.Pode não parecer, mas há uma diferença de perspectiva… essencial.O desejo que tenho é de que o serviço público de rádio e televisão consiga vencer os seus inimigos jurados e a irresponsabilidade de quem os serve. Ainda muito recentemente, a UE excretou nova legislação, para apertar ainda mais o cerco ao serviço público, em geral, mas com consequências para o de rádio e televisão. Tudo em nome da sagrada "livre-concorrência", o bezerro de ouro dos dias de hoje, a que tudo se sacrifica — a democracia, a cultura, a liberdade (a sério).Outra coisa muito importante que me ficou foram os convites para dizer poesia em sessões públicas, de que devo destacar uma especial colaboração com a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e com a Livraria Círculo das Letras.Imagem: Bibliothèque de Vieira da Silva
July 11 2009, 6:41am | Comments »
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Poema X
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Outro poema de José Gomes Ferreira, escrito entre 1957-1958.(A carteira da escola, onde andei, estava cheia de cascas de amendoim.)Euquanto me ensinavama exactidão de desenhar a bilha verdepara a minha bocade-não-ter-sede...... no papel que via?Uma bilha tortaonde apodreciaa água para a outra boca,a secreta,de sede infinitano fundo da saliva.E foi assim que me fiz poeta.Com a exactidão inexacta.In Poeta Militante II, Morais Editores, 1983, página 34-35.
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July 1 2009, 5:44am | Comments »
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Poema IX
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Poema de José Gomes Ferreira, escrito entre 1957-1958.(O estrado, o quadro preto, o giz, o apagador, o ponteiro, o desejo de salta pela janela e voar)O senhor Professoraproveitou o ensejode não ser ainda cadáver completoe ergueu-se no estrado,estátua de si mesmoa desfazer-se em ossose pó de caveira no giz...Depois com o apagadorlimpou os números da ardósiacomo quem destrói o céu povoado- ponteiro da árvore em grito,raiva de lança.Menino José Ferreira, venha ao quadro.(Oh! o tédio da infância!)In. Poeta Militante II, Morais Editores, 1983, página 34.
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July 1 2009, 5:35am | Comments »
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NOVO LIVRO SOBRE RÓMULO
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Informação recebida do Instituto Superior da Maia (no desenho, caricatura de Rómulo de Carvalho):Vai realizar-se uma cerimónia de lançamento das Actas do Colóquio Internacional António Gedeão/ Rómulo de Carvalho, publicadas pelas Edições ISMAI.A apresentação da obra será feita pelo Doutor Frederico Gama Carvalho, filho de Rómulo de Carbalho, em sessão a realizar no Auditório Principal do ISMAI, no dia 25 de Junho, às 17h30.
June 24 2009, 10:33am | Comments »
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POEMA DA INTERROGAÇÃO
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Mensagem recebida de Domingos da Mota em que rectifica um post convidado que publicámos da autoria de Paulo Trincão (em comentário, o poeta declara-se evolucionista):Caros cientistas e filósofos, Uma vez que o vosso colaborador Paulo Trincão usou um poema meu sem a sua transcrição integral (falta-lhe o título “Poema da interrogação”, bem como a respectiva epígrafe), e dado que esse poema é atravessado por uma carga de ironia muito forte, creio que não será o melhor exemplo para, poeticamente, exemplificar a sua tese do criacionismo (se entendi bem o artigo), antes pelo contrário. Daí que deixei um comentário nesse artigo, e peço que o seu autor coloque o poema na íntegra, se mesmo assim o quiser manter, e já agora, explicite as referências, que são o meu blogue http://fogomaduro.blogspot.com/ Os melhores cumprimentos, Domingos da MotaPoema da interrogação«Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação.»GénesisDeus de tudo e do nada, se existes,uno e trino, suprema omnisciência,trabalhaste seis dias e resistesimpassível no céu, com paciência;se em vez da criação numa semanativesses operado um mês a eito,esculpisses o barro com mais ganae fizesses um mundo mais perfeito;(repara, por exemplo, vê o homemque se diz ser à tua semelhançae que mata e devasta e cria a fome,em nome do poder e da abastança);perdoa-me a pergunta impertinente:existes como O Ser, ou como ente?Domingos da Mota
June 22 2009, 1:59pm | Comments »
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Os lugares cativos
http://dererummundi.blogspot.com/2009/06/os-lugares-cativos.html
Informação recebida da Editora Minerva CoimbraO Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a editora Fluir Perene, a Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, convidam para o lançamento dos livros:OS LUGARES CATIVOS, Poesia de José Jorge LetriaFRAGMENTOS DE UM FASCÍNIO, de Teresa Carvalho e Carlos A. Martins de Jesus, reúne sete ensaios, alguns dos quais já publicados em revistas dispersas, que têm a poesia de José Jorge Letria como objecto comum de reflexão. São exercícios de entendimento literário que procuram dar conta do fascínio do poeta por luminosidade da Antiguidade Grega.Os livros serão apresentados por António Vilhena e Maria do Céu Fialho numa sessão dirigida por José Ribeiro Ferreira, na Livraria Minerva (Rua de Macau 52 - Bairro Norton de Matos, Coimbra), no dia 4 de Junho, às 18h30.
June 1 2009, 4:09am | Comments »
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A LUA ENTRE A CIÊNCIA E A LITERATURA
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/lua-entre-ciencia-e-literatura.html
Minha crónica na última "Gazeta de Física" (na imagem a primeira subida tripulada a bordo de um balão, protagonizada em 1783 por Pilâtre de Rozier e pelo Marquês de Deslambres):O que têm em comum Johannes Kepler e Edgar Allan Poe? Pois ambos são motivos de centenários neste ano de 2009: passam 400 anos da publicação da Astronomia Nova, o livro que contém as duas primeiras leis do astrónomo alemão, e passam 200 anos do nascimento do poeta e contista norte-americano. Mas os paralelos não se esgotam aí: Kepler foi o autor da primeira obra de ficção científica, Somnium (Sonho), publicado postumamente em 1634, na qual descreve uma viagem da Terra à Lua, ao passo que Poe retomou o mesmo tema no conto A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall, saído em 1835, que narra uma subida à Lua a bordo de um balão.Entre as duas efemérides, há precisamente 300 anos, situa-se uma outra: a da primeira ascensão em balão de ar quente, ainda que num protótipo não tripulado. A demonstração feita pelo padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão no paço de el-rei D. João V a 8 de Agosto de 1709 é um dos muito raros eventos em que o engenho luso aparece na história da tecnologia. Se Poe relata no século XIX uma arrojada subida em balão foi porque muitos aventureiros tinham antes efectuado demonstrações tripuladas. A primeira ascensão humana em balão, que se deve aos irmãos franceses Montgolfier, só foi efectuada 74 anos após o ensaio de Gusmão e há até quem especule sobre a possibilidade de ter havido transferência tecnológica através de Alexandre de Gusmão, irmão do inventor da Passarola, que andou por Paris. A bordo iam Pilâtre de Rosier, o professor de Física e Química que se haveria de tornar a primeira vítima mortal de um desastre aéreo quando anos depois tentava atravessar o canal da Mancha, e o Marquês de Deslambre.Também em Portugal se realizaram em finais do século XVIII e inícios do século XIX algumas admiráveis proezas de balonismo. O destemido balonista italiano Vincenzo Lunardi, que tinha sido o primeiro a subir aos céus na Inglaterra (levando a bordo um gato, um cão, uma pomba e uma garrafa de vinho!) fez uma exibição no Terreiro do Paço, em Lisboa, que levou o poeta Manuel Maria Bocage a escrever o Elogio poético à admirável intrepidez, com que em domingo 24 de Agosto de 1794 subiu o capitão Lunardi no balão aerostático. Bastam dois versos para se ver o estilo gradiloquente: Guardai da glória no imortal tesouro / O nome de Lunardi em letras de ouro. Lunardi, agradado pela cidade, acabou por se fixar em Lisboa e falecer aí.Em 1819 era a vez do professor de física belga (e lanternista mágico) Étienne-Gaspard Robertson e do seu filho Eugène efectuarem novos espectáculos de subida em balão em Lisboa, que incluiu o primeiro salto de pára-quedas feito em solo português. O pai já tinha realizado vários voos, um dos quais em Copenhaga que muito impressionou o então jovem físico Hans Christian Oersted a ponto de o levar a escrever poemas sobre o voo. Mas, desta vez, o poeta de serviço era um rival de Bocage, José Daniel Rodrigues da Costa, o Josino Leiriense da Arcádia Lusitana, que escreveu no mesmo ano do espectáculo O balão aos habitantes da Lua: uma epopeia portuguesa. Tenho em mãos uma reedição ilustrada, de apenas cem exemplares, datada de 2006 (do prelo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com introdução de Maria Luísa Malato Borralho; em 1978, já tinha saído nas Edições 70 uma edição com prefácio do poeta Alberto Pimenta). E leio uma engraçada sátira social, com a forma roubada a Os Lusíadas. O argumento é científico: Matemáticos pontos combinando,/ Tendo por base a grande Astronomia,/ Um Génio, que não tem nada de brando, / Projecta ir ver o Sol, fonte do dia: / Em pejado Balão vai farejando,/ Subindo mais e mais como devia;/ Divisa a Lua, mete-se por ela, / Pasma de imensas cousas que viu nela. Mas, partindo da ciência, a literatura voa livre. A Lua, nesta utopia portuguesa, está povoada pelos Lulanos, nome parecido com Lusitanos. Mas, como numa utopia à la More tudo deve ir ao contrário, eis que nessa Lua habitada, ao contrário de Portugal, a justiça funciona: Aqui não há ladrões! Se um aparece. / É logo e sem demora castigado; /Tenha empenhos ou não, ele padece,/ Sofrendo o que na Lei lhe é destinado.Há que fazer justiça a Bocage e a Rodrigues da Costa, por cruzarem a ciência, ou melhor, a tecnologia, com a arte. Se eles não têm a notoriedade de Kepler e de Poe deviam ter, pelo menos, uma maior notoriedade no vasto espaço de língua portuguesa.
May 16 2009, 6:04am | Comments »
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Poesia nos céus de Lisboa
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Eis os poemas que foram espalhados nos céus de Lisboa quando, em 1819, Robertson filho realizou o seu espectáculo de ascensão aeronáutica. A transcrição é da "Gazeta de Lisboa" (com os renovados agradecimentos a João Boaventura) e conservou-se a grafia original. O autor é anónimo.SonetoVendo que além das Nuvens me remonto,Talvez julgueis que busco o Paraizo.Não; na bella Ulysséa eu o devizo,Pois são quaes d’E’den seus jardins sem conto.Que Formosas Deidades deste pontoVejo soltando pudibundo rizo!Noto Illustres Varões, de grave sizo…Tudo me anima, subo aos ares pronto.Se, a estrada errando, não voltar ao Tejo,Não lamenteis, Senhores, minha sorte;Que ao Brazil no Balão meus voos rejo;E ante o Monarca Luso, e a Regia CorteExpondo o vosso amor, vosso desejo,Ao Novo Mundo causarei transporte.QuartetosNão imagineis, Senhores, Que eu, subindo aos soltos ares, Vá buscar regiões melhoresQue a de Lysia além dos mares Pois alli Elysio vejo,Mais não posso cubicar Só quero imminente ao TejoTão lindo quadro observar.Décimas1.ªParecia que vedaraPara sempre a NaturezaAo home’ a arriscada emprezaDe subir da Terra cara:Té que o talento deparaCom tão pasmosa invenção;Montgolfier forma hum Balão…Sujeita o Ar aos humanos…Ah ! que milhares de ArcanosOs tempos descobriráõ !2.ªQual Lunardi aos Lusos deoEspectaculo brilhanteSubindo aos ares ovante,Igual empenho é o meu.Não vou, não qual Prometheo,Ao So o raio roubar;Sómente quero observarEsta sublime atmosfera,Onde a influencia se geraDe hum Clima tão singular.Versos anacreônticosNas margens do NevaA’s nuvens subi;Mas quadro tão lindoComo este não vi.Voei do Danúbio Aos ares ousado;Mas lá não fiqueiComo hoje encantado. Por vezes do SenaM’ergui á atmosfera;Mas ah ! quanto o ClimaDe Lysia a supera !Do Tejo quem chegaO Clima a gozar,Melhor sobre a TerraNão póde encontrar.Adeus, Povo Illustre;A vós tornarei:Benigno os meus votosFieis acolhei.
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May 16 2009, 5:04am | Comments »
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COMO CAMÕES E PEREIRA DA SILVA ESCREVERAM PORTUGAL NAS ESTRELAS
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/como-camoes-e-pereira-da-silva.html
Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:Canto V, Estância 14 d'Os Lusíadas:Já descuberto tínhamos diante,Lá no novo Hemisperio, nova estrela,Não vista de outra gente, que, ignorante,Alguns tempos esteve incerta dela.Vimos a parte menos rutilanteE, por falta de estrelas, menos bela,Do Pólo fixo, onde inda não se sabeQue outra terra comece ou mar acabe.O poeta d'Os Lusíadas atribuiu aos portugueses a descoberta de uma nova constelação. Historiadores internacionais desmentiram. Mas Luciano Pereira da Silva, um estudioso de Camões, tratou de inscrever o nome dos portugueses nas estrelas. Será que demos novos céus ao mundo?É uma polémica de estrelas: além de novas terras, os portugueses terão também descoberto novos céus, mas o feito continua sem reunir consensos. Camões atribuiu a identificação da constelação Cruzeiro do Sul, que figura em bandeiras de países como o Brasil e a Austrália, aos marinheiros lusos, mas essa descoberta foi desmentida pelos historiadores. A 21 de Maio, os investigadores Carlota Simões e Luís Silva Pereira vão estar no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) para darem a conhecer a astronomia que está por detrás d'Os Lusíadas.A sessão "Novos Céus" é a segunda de um ciclo de três conferências sobre a Ciência que povoa a obra portuguesa mais famosa de todos os tempos, depois de uma primeira palestra dedicada às "Novas Terras" que Os Lusíadas puseram a descoberto e que perduram no imaginário português, determinando ainda hoje a forma como viajamos. O ciclo "Camões, o Céu e a Terra" é organizado pelo Museu da Ciência da UC em parceria com o Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos (CIEC). A entrada é gratuita."O mérito dos navegadores portugueses em relação a esta constelação foi posto em causa por Alexandre de Humboldt e pelos historiadores de Astronomia que o seguiram, ao afirmarem que a mais antiga referência ao Cruzeiro do Sul estaria numa carta de Andrea Corsali ao duque Julião de Medicis, a 6 de Janeiro de 1515", explica a matemática Carlota Simões.Mas será que foram os portugueses os primeiros a identificar a constelação que permitiu aos navegadores orientarem-se no hemisfério sul? "A investigação que Luciano Pereira da Silva desenvolveu em torno da estância 14 do Canto V é decerto o ponto alto da sua obra A Astronomia dos Lusíadas, contestando opiniões que dominavam já a literatura internacional e demonstrando que foram de facto os marinheiros portugueses quem descobriu quer a constelação quer o seu uso náutico", defende a também professora da Universidade de Coimbra.A tese de Luciano Pereira da Silva (1864 - 1926) foi publicada entre 1913 e 1915 na Revista da Universidade de Coimbra e está disponível na íntegra online. Neste trabalho, o matemático, que se notabilizou pelas obras sobre a história da navegação portuguesa, demonstra que "Camões tinha um conhecimento claro e seguro dos princípios da Astronomia, como ela se professava no seu tempo", directamente colhido na obra de outro dos portugueses mais notáveis de todos os tempos: o "Tratado da Sphera", de Pedro Nunes."Luís de Camões podia estar ao corrente das teorias de Copérnico, mas a concepção geocêntrica do universo servia-lhe maravilhosamente para cumprir, por um lado, com as exigências técnicas de um poema épico; e, por outro, como faz no canto X de Os Lusíadas, para formular poeticamente o destino radical do ser humano, uma filosofia do Amor e do Conhecimento, uma visão do destino de Portugal, uma concepção da História do mundo", refere, por outro lado, o investigador Luís Silva Pereira.Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa de Braga e especialista na obra camoniana, Luís da Silva Pereira tem-se destacado também como poeta e cronista. No âmbito da sua actividade literária foi já distinguido com os prémios Jornal de Notícias e Adolfo Simões Müller.Licenciada em Matemática Pura pela Universidade de Coimbra, Carlota Simões é doutorada pela Universidade de Twente (Países Baixos). É professora auxiliar no Departamento de Matemática da UC.Depois da sessão sobre os novos céus d'Os Lusíadas, o ciclo "Camões, o Céu e a Terra" prossegue a 24 de Junho às 16 horas com uma conferência dedicada às referências antropológicas da obra de Camões. Os convidados serão o conceituado antropólogo Luís Quintais, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, e o director do CIEC, José Carlos Seabra Pereira.
May 14 2009, 4:22am | Comments »





