O escritor Pedro Rosa Mendes, cujo livro sobre Timor "Peregrinação de Enmanuel Jhesus" (D. Quixote) acaba de sair, deu uma entrevista ao "Semanário Económico", publicada em 22 de Maio último, do qual destaco o seguinte extracto:P- A dificuldade de se libertar dessa condição de oprimido é onde reside a grande dificuldade de Timor crescer como país?R- Acho que conheço relativamente bem as paragens do nosso ex-império e Timor é o espelho mais límpido e mais doloroso para ler Portugal.P- Porquê?R- Qual foi a persistência maior da nossa ditadura? A ignorância. Essa foi a parte da ditadura que não acabou em 25 de Abril de 74. Quem pensa o ciclo longo de Portugal, quem quiser ler Portugal não através da legislatura, ou do tempo actual, ou da conjuntura exconómica, ou das alianças de bloco central, etc., quem quiser ver mais longo constata que o maior problema e a coisa mais insidiosa da ditadura salazarista não era a PIDE, não foi o Tarrafal. Foi o facto de termos vivido tanto tempo debaixo de de uma ditadura de ignorância que se perpetua.O grande problema de Timor não foi a opressão política, não foi a perda demográfica. Em termos colectivos morreram mais de 200 mil timorenses. A maior persistência disso é, por um lado, a do trauma, que é muito operativo nas relações sociais, nas relações pessoais, na relação de trabalho. Há ali feridas que têm de ser saradas, mas por outro lado a construção e a viabilidade do novo estado esbarra com o peso do atraso, o peso da ignorância.P- O que se pode fazer?R- Educação, educação, educação. O que se passa em Timor é que colectivamente há uma sociedade sem capacidade de auto-crítica."
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O PESO DA IGNORÂNCIA
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May 26 2010, 8:05pm | Comments »
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As infra-estruturas básicas existem. Tirem partido delas.
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A minha coluna Passeio Publico, Jornal de Notícias, 19 de Maio de 2010.Acredito firmemente que é nas cidades que deve ser colocado o foco do desenvolvimento no século XXI. É nas cidades que podemos reforçar as nossas vantagens competitivas como país, isto é, é no seu desenvolvimento equilibrado e sustentável que pode ser encontrado o reforço da nossa economia. E o problema não é essencialmente de infra-estruturas, ou seja, de obras e de betão, mas especialmente de conteúdo e actividade.Nas cidades, assim como no país, faltam objectivos estratégicos. É isso que tem permitido o desenvolvimento desequilibrado do país, concentrando a cada vez menor riqueza gerada nos locais com maior poder político, e reduzindo enormemente a nossa capacidade competitiva.É urgente inverter esta marcha. As cidades têm de produzir, criar riqueza, reforçar as suas capacidades humanas e empreendedoras para que possam desenvolver dinâmicas geradoras de actividade e valor.O objectivo de uma cidade não é só ter qualidade de vida (como parece ser o lema da grande maioria dos autarcas, que medem a sua acção pela quantidade de obra que realizam), atraindo o consumo, mas justamente usar a qualidade de vida que for capaz de desenvolver como vantagem competitiva para a geração de riqueza que é a sua verdadeira razão de existir.Consequentemente, os objectivos das cidades devem ser essencialmente os do dinamismo e da criatividade (cultural e económica), tendo os aspectos da qualidade e segurança como condições básicas para os atingir.Este deveria ser o nosso objectivo a médio e longo prazo. Reforçar o papel das cidades, incentivando o funcionamento em rede que evitasse multiplicação de meios e infra-estruturas incentivando a sua partilha e racionalização, fomentando a diferenciação potenciadora de sinergias e reforço de competências, dinamizando o desenvolvimento equilibrado do país como forma de tirar partido das nossas potencialidades como nação.Um plano bem montado teria ainda a capacidade de mobilizar as pessoas, pois elas sabiam com clareza que os seus esforços locais eram bem entendidos, cabiam num plano nacional de desenvolvimento e tinham um contributo visível no sucesso do seu país. E todos sabemos quão importante é a motivação das pessoas, a sua mobilização, para enfrentar dificuldades e realizar politicas de desenvolvimento a médio e longo prazo. E seria muito mais claro e racional decidir como e onde investir.Uma nova estrada, uma nova ponte, uma nova infra-estrutura de transporte rápido, uma infra-estrutura científica ou cultural, etc., seria sempre encarada numa perspectiva nacional e justificada tendo por base o objectivo estratégico de desenvolver essa rede nacional de motores de desenvolvimento que são as cidades. E a cada investimento teria de estar sempre associada uma estratégia de dinamização que permitisse a todos perceber para que serve, como vai ser rentabilizado e como se insere no todo nacional.Portugal tem as infra-estruturas básicas de que precisa. As próximas, aquelas que forem consideradas necessárias, têm de ser justificadas com base num plano de desenvolvimento nacional equilibrado que seja reconhecido pelos cidadãos nacionais como aquilo que querem para o seu país.
May 22 2010, 2:59am | Comments »
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Protesto fotográfico dos bolseiros de investigação científica III
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Mais protestos dos bolseiros pela melhoria do Estatuto do Bolseiro e integração no regime geral de Segurança Social.Protesto fotográfico dos bolseiros de investigação científica IIProtesto fotográfico dos bolseiros de investigação científica IProtesto no IPATIMUP - Maio 2010IPATIMUP - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular, Universidade do PortoProtesto no Centro de Oceanografia, Lisboa - Maio 2010Centro de Oceanografia, Faculdade de CiênciasUniversidade de LisboaProtesto de bolseiros em Aveiro - 21 Maio 2010Universidade de AveiroProtesto no DOP/IMAR, Horta, Açores - 21 Maio 2010DOP - Departamento de Oceanografia e PescasCentro do IMAR - Instituto do MarUniversidade dos AçoresMais sobre o protesto fotográfico dos bolseiros aqui.
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May 21 2010, 4:19pm | Comments »
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A sangria
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Com a devida vénia publicamos, como de outras vezes, a crónica do médico José Luís Pio de Abreu que saiu no "Destak" de hoje:Antes do século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias.E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.No século XVIII, as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas.Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.J.L. Pio Abreu
May 21 2010, 3:03pm | Comments »
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Protesto fotográfico dos bolseiros de investigação científica II
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Bolseiros continuam a fazer protestos nos seus locais de trabalho, pela melhoria do Estatuto do Bolseiro:Protesto em Coimbra - 18 Maio 2010 (140 bolseiros)Universidade de CoimbraProtesto no IHMT - 18 Maio 2010 (27 bolseiros)IHMT - UNL - Instituto de Higiene e Medicina TropicalUniversidade Nova de LisboaProtesto no IPIMAR (CRIP Centro) - 17 Maio 2010 (37 bolseiros)IPIMAR - INRB - Instituto de Investigação das Pescas e do Mar
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May 19 2010, 4:26am | Comments »
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Portugal feito num oito
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Texto de João Boavida antes publicado no diário As Beiras.Certos estudos prevêem que dentro de alguns anos oitenta por cento da população portuguesa esteja concentrada nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. É fácil que tal venha a acontecer, embora difícil seja imaginar o País nestas condições. Alguém é capaz sem um aperto no coração? É portanto vital definir estratégias de desenvolvimento que ataquem esta atrofia galopante de Portugal à custa de acumulação caótica nestas duas cidades. Com a desordem social, económica e urbanística que já se sabe.Face a certas políticas, temos a sensação de que a ideia é dividir o país em dois, Norte e Sul; ou antes, Lisboa e Porto e suas áreas envolventes. Mas um país assim não é Portugal de risco ao meio, como alguns dizem, mas o País feito num oito. Um corpo estrangulado pela cintura, enquanto o tronco e pernas morrem com tanta gordura acumulada. De trombose em cima e de elefantíase em baixo, talvez. Uma estratégia política e económica do Centro de Portugal é, pois, indispensável. É um imperativo nacional. A aposta política, até agora, parece ter sido criar por aqui rivalidades sem base e incentivá-las com medidas políticas avulsas, mas cirúrgicas. Para reinar, mesmo que à custa de uma pulverização mortífera.Compete-nos a nós fazer pela vida, claro. Começando por ter ideias inteligentes. É preciso perceber que o único caminho possível é criar aqui uma estratégia de unidade que dê a todo o Centro do País peso político, valor económico, massa crítica, capacidade produtora e exportadora, isto é, força para atrair capitais, cérebros, ideias, projectos e turistas. Unir estrategicamente tudo o que seja possível, criar dinâmicas de criação, produção, venda, aproveitando e multiplicando possibilidades. Estamos a falar de coisas concretas. Todos conhecemos aqui empresas com grande concentração de competências específicas e de elevado nível tecnológico, cultural e criativo. Doutras, que existem, nem sabemos. Temos aqui um cluster da saúde extraordinário; como não haverá igual na Europa. Não deve isto gerar estratégias políticas para uma economia em rede, valor acrescentado e dinâmicas de produção e exportação? Temos condições turísticas, pela variedade e por alguns pólos de grande qualidade. Isto não obriga a uma visão unitária de investimento, qualificação, promoção e exploração?Alguém de cima precisa de orientar e dar força política, e não de tirar. É urgente submeter a mediocridade dominante e a táctica do golpe e da rasteira à inteligência de uma concepção global que multiplique em vez de diminuir e enfraquecer. O poder central tem de fazer este trabalho, em vez de andar a jogar à cabra-cega como um garoto entre garotos. Mas o Centro tem também de fazer a sua parte. Muitos dos nossos políticos têm de crescer.
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May 17 2010, 3:45pm | Comments »
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Protesto fotografico dos bolseiros de investigação científica
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Por ocasião do debate na Assembleia da República de três propostas de Lei (CDS-PP, BE e PCP) de alteração do Estatuto do Bolseiro de Investigação Científica, os bolseiros fazem protestos nos seus locais de trabalho. Em causa está - entre outras coisas - a integração dos bolseiros no regime geral de Segurança Social, a que actualmente não têm direito.35 Bolseiros presentes.Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - IUL (Lisboa, 10 de Maio 2010)11 Bolseiros presentes.Instituto Superior Técnico - UTL (Lisboa, 3 de Maio 2010)Protesto no IMM - Maio 2010 (48 bolseiros)IMM - Instituto de Medicina MolecularFaculdade de Medicina - Universidade de LisboaBolseiros do ISPA - Maio 2010ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada - LisboaBolseiros do IGC - Maio 2010IGC - Instituto Gulbenkian de Ciências - Oeiras148 Bolseiros presentes.Laboratório Associado de Oeiras: ITQB - IBET - IGC (Oeiras, 7 Maio 2010)ITQB - Instituto de Tecnologia Química e Biológica - Universidade Nova de LisboaIBET - Instituto de Biologia Experimental e TecnológicaIGC - Instituto Gulbenkian de Ciências41 Bolseiros presentes.CIBIO, (Porto, 3 Maio 2010).
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May 17 2010, 4:30am | Comments »
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Ah Ah! Obras!
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Texto recebido, em comentário, do nosso leitor João Boaventura.Da última entrevista de Saldanha Sanches ao Diário Económico, de 14 do corrente, sobre corrupção:D.E. - Quando diz que existe essa corrupção baseia-se em quê?S.S. - Falo com as pessoas. Mas uma coisa é saber que há corrupção, outra coisa é provar que há corrupção. A prova é muito difícil, basta olhar para o Código de Processo Penal. Por exemplo, se eu levar umas escutas, se for disfarçado com óculos escuros e um bigode e dizer ao fiscal eu quero fazer uma casa em local x; depois o fiscal diz que não pode e eu tiro o dinheiro do bolso e ele aceita o dinheiro e eu gravo isso tudo: não é prova. Como é que eu provo? Imagine: você está a fazer obras e o fiscal diz: "Ah Ah! Obras!, Muito bem. Ou me dá x ou isto é tudo embargado"; e você grava essa conversa com o fiscal: não serve de prova. Vai denunciar o fiscal, arranja um rico sarilho, acaba arguida do Ministério Público. Experimente! Eles não podem provar em relação ao fiscal da obra e põe-na a si como arguida.
May 16 2010, 11:51am | Comments »
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O débil coração de Portugal
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Texto de João Boavida antes publicado no diário As Beiras, que, curiosamente, incide no mesmo assunto que um outro dispinibilizado no De Rerum Natura.Almeida Henriques, o presidente cessante da Conselho Empresarial do Centro (CEC) lamentava há dias, que na importantíssima questão dos vinhos se tivesse perdido a oportunidade de criar uma só região no Centro de Portugal. Posteriormente, falou dos que preferem mandar no seu quintal, mesmo que pouco ou nada produza, a integrarem-se numa unidade de grande potencial produtivo. A imagem adapta-se bem a muitos dos nossos políticos - locais e nacionais: não passam de agricultores à antiga querendo parecer políticos à moderna. Morrem à míngua, mas naquilo que é seu.Os vinhos Dão, Bairrada, Beira Interior, Barosa-Távora, Lafões, cada um por si, pouco são, mas enquanto vinhos do Centro de Portugal poderiam ombrear com a região demarcada do Douro, apesar do nome e da extensão, e com o Alentejo que é, hoje, para o lisboeta, o supra-sumo. Poderiam competir, a nível nacional, mas, sobretudo, criar real força exportadora para potenciar muito mais. Isto, é claro, exige dimensão, qualidade, imagem, marca e promoção; condições que, em separado, nenhum tem, mas que, em conjunto, talvez possam ter.Repetiu-se o erro da Região de Turismo do Centro: cada um acocorado em cima do seu penedo, querendo ser melhor que o vizinho, e a chamar pelos turistas com jogos de fumo, à moda dos apaches. Apesar do que disse Bernardo Trindade, secretário de Estado do Turismo, ao diário As Beiras, o erro venceu. Em pose de Estado, com bandeiras e tudo, veio falar de uma série de melhorias, progressos e outras boas ideias e intenções. Mas se, como se diz, queremos, no Centro, um turismo a ombrear com o Algarve e Lisboa, assim não conseguiremos. Em termos de estratégia cometeu-se um erro enorme para as potencialidades turísticas do Centro de Portugal.Uma região de Turismo com a Serra de Estrela, Fátima e Coimbra fora do conjunto, por diferentes razões e sem estratégia global, é um fiasco político completo. E uma inevitável pulverização de meios. O poder central não foi capaz de evitar o erro dos que querem um penedo para si a todo o custo, e tomou decisões políticas disparatadas e ofensivas que provocaram a ”fuga” de Coimbra e da Figueira da Foz. Entretanto, o Centro de Portugal fica mais fraco, para grandeza do Norte que, descendo, sonha chegar ao Mondego. E para alegria do Sul que deseja subir até ao Mondego. É uma barbaridade histórica e cultural, uma fragilização para todos, mas talvez seja o desejo do Poder Central. E nós vamos ajudando.João Boavida
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May 12 2010, 10:01am | Comments »
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Boa e má demagogia?
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Nas sociedades modernas, considera-se que os partidos políticos são essenciais à democracia e, na prática, aceita-se que sejam os dirigentes partidários a decidir e não o povo, cuja vontade é ponderada apenas em determinados momentos (como as campanhas eleitorais ou manifestações de rua mais visíveis).Na Atenas clássica, a situação era consideravelmente diversa. Estava-se perante uma democracia directa e plebiscitária, cujo órgão principal — a Assembleia do povo ou dêmos— reunia todos os cidadãos, num agrupamento de massas de natureza heterogénea. O dêmos, além de possuir a elegibilidade para ocupar os cargos e a prerrogativa de escolher os magistrados, tinha o direito de decidir soberanamente em todos os domínios e de, constituído em tribunal, julgar toda e qualquer causa (pública ou privada), por mais importante que fosse. Daí que o dirigente político de Atenas vivesse em constante tensão e precisasse de convencer a pólis, em cada reunião dos órgãos soberanos, da superioridade da sua política e de que as medidas por ele propostas eram as que melhor serviam os interesses da cidade. Enfim, precisava de ser, por excelência, um demagogo — no sentido neutro da palavra enquanto ‘condutor do povo’ e não com a carga negativa que começara a adquirir logo no último quartel do século V a.C. (precisamente a seguir à morte do grande estadista Péricles) e que ainda hoje acompanha o termo.Os demagogos — na acepção original — tendem a exercer um papel tanto mais significativo quanto maior for o peso atribuído à intervenção efectiva dos cidadãos nos destinos da sociedade e nas decisões do Estado. Não surpreende, por isso, que na democracia ateniense os demagogos constituíssem elementos estruturantes do próprio sistema e do seu correcto funcionamento. Neste sentido genérico, a designação pode inclusive ser aplicada a todos os líderes políticos de Atenas, sem olhar à classe ou pontos de vista, embora esteja sobretudo conotada com os líderes da facção popular e mais progressista, se bem que, em termos de proveniência social, esses mesmos chefes acabassem por ser tradicionalmente recrutados entre as famílias aristocráticas.Ora foi precisamente em relação ao estrato social de origem dos demagogos que se terá verificado uma considerável evolução após a morte de Péricles (em 429 a.C.). Então e pela primeira vez, o povo escolheu um chefe que não vinha da classe aristocrática — Cléon. A estas personalidades emergentes, que, provindo embora de meios não nobres, atingem o primeiro plano político, os autores antigos e os adversários políticos, de modo geral os aristocratas ou os círculos aristocráticos partidários da oligarquia, passam a chamar demagogos, mas agora em tom depreciativo. E será precisamente sob a acção desses homens e por pressão nociva da Guerra do Peloponeso que Atenas caminhará para um radicalismo cada vez mais violento e intolerante, o qual acabará por ditar o fim da hegemonia política, económica e militar que havia marcado a cidade durante o governo de Péricles. Será errado sustentar que a demagogia, na acepção mais pejorativa, representou o fim do sistema democrático, pois este continuou a existir durante cerca de mais um século, cedendo apenas à política imperialista de Filipe e Alexandre da Macedónia. Mas é também inegável que a acção desses mesmos demagogos abriu caminho a golpes oligárquicos e tirânicos, que lançaram Atenas na senda inelutável da decadência política.A encerrar esta nota, valerá a pena recordar a forma como o autor da Constituição dos Atenienses, tratado aristotélico composto na segunda metade do séc. IV a.C. (mas não necessariamente por Aristóteles), regista as marcas dessa evolução política (28.1-3):“Ora enquanto Péricles esteve à frente do dêmos, a situação política manteve-se num cenário favorável; após a sua morte, porém, ficou bastante pior. De facto e pela primeira vez, o dêmos escolheu para seu chefe alguém que não gozava de boa reputação entre as classes superiores, quando, até então, estas haviam estado sempre à frente da vontade popular.Assim acontecera, de facto, desde o início: Sólon havia sido o primeiro chefe do povo, Pisístrato o segundo — e ambos pertenciam ao grupo dos aristocratas e dos notáveis; com o derrube da tirania, foi a vez de Clístenes, da família dos Alcmeónidas, que não teve adversário à altura, depois do exílio de Iságoras e seus apoiantes. Em seguida, Xantipo foi o dirigente do dêmos e Milcíades o chefe dos aristocratas; depois vieram Temístocles e Aristides; a seguir a estes, Efialtes esteve à frente do dêmos e Címon, filho de Milcíades, chefiou a classe dos ricos; finalmente, coube a Péricles a liderança sobre o dêmos e a Tucídides, parente de Címon, a da outra facção. Com a morte de Péricles, o guia dos notáveis foi Nícias, que havia de perecer na Sicília, e coube a Cléon, filho de Cleéneto, a direcção do dêmos. Ao que parece, foi este, com as suas impulsividades, quem mais corrompeu o dêmos: foi o primeiro a gritar na tribuna, a usar termos insultuosos e a discursar com a roupa cingida, enquanto os outros se exprimiam com decoro.”Delfim Leão
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May 10 2010, 6:37am | Comments »







