Desta vez não é um texto de humor. Ampliamos a difusão do texto de opinião de David Marçal publicado no "Público" do passado sábado:Sabia que há cientistas que ganham 745 euros? Que não têm direito a subsídio de desemprego, férias, Natal ou alimentação? E que não são aumentados há seis anos? Está naturalmente curioso de saber em que país, mas estou certo de que já adivinhou.São os bolseiros de investigação científica, uma designação infeliz para os jovens (e menos jovens) investigadores, pois classifica-os pelo tipo de regime contratual com que exercem funções, secundarizando a natureza da actividade (investigação!). Faz tanto sentido como descrever um juiz como um "assalariado da justiça".Os bolseiros podem-se distinguir segundo o tipo de bolsa que têm. Os BIC (Bolsa de Investigação Científica) são licenciados e, independentemente da sua experiência ou competências, ganham 745 euros. Os BD (Bolsa de Doutoramento) têm em geral um excelente percurso académico e científico (não é fácil ganhar a bolsa!), são investigadores experientes e motivados, ganham 980 euros. O mesmo valor desde 2002, o que representa face à inflação acumulada uma perda de 18% do poder de compra.Pode-se argumentar que os bolseiros "estão em formação" e que "já é uma sorte estarem-lhes a pagar". Tratam-se de adultos (uma licenciatura não se acaba antes dos 22-23 anos) com contas para pagar e legítimo direito à emancipação (ou um cientista tem que viver em casa dos pais?). E quanto à formação, creio que qualquer bom profissional está sempre em formação. Todas as carreiras têm fases, e o doutoramento é uma fase da carreira de um cientista.Os bolseiros têm direito ao chamado Seguro Social Voluntário. Que é uma espécie de não sei o quê. Basicamente, a entidade que concede a bolsa paga contribuições para a segurança social, equivalentes ao salário mínimo. Este é o regime pelo qual estão abrangidas as pessoas que não têm rendimentos. Porque raio enfiaram os jovens investigadores aqui? Fazendo o Governo gala de integrar todas as classes profissionais no regime geral de segurança social, que coerência tem não incluir os bolseiros? Esta reivindicação tem sido sucessivamente negada pela tutela. Para que não haja dúvidas: os jovens investigadores querem ser integrados num regime de segurança social que outros grupos profissionais não querem porque acham que é mau!Penso que é necessário criar a percepção social deste problema e da necessidade de evolução. Começando pelos próprios investigadores e professores do quadro que trabalham com bolseiros. Que beneficiam do seu trabalho, com quem publicam artigos e escrevem patentes. Creio que seria de todo justo e adequado que os cientistas e investigadores estabelecidos tomassem publica e politicamente o partido dos jovens investigadores. A alternativa é continuar o choradinho da fuga de cérebros. Não há fuga de cérebros. Há expulsão de cérebros. Se não fazem falta, isso é outra história. Mas, sendo assim, digam.David Marçal
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Cientistas em saldos
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October 26 2008, 5:50pm | Comments »
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Cantemos
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Divulgamos a última crónica de José Luís Pio de Abreu no "Destak":A Islândia afundou-se na sua riqueza, os trezentos mil habitantes que viviam dos rendimentos têm de se dedicar de novo à pesca, conforme indicou o primeiro-ministro. O país modelo dos ultra-liberais Friedman e von Hayek recebe agora a esmolada ajuda do Fundo Monetário Internacional. E nós, portugueses, o que fazemos?A Lehman Brothers deu o sinal de que o dinheiro virtual já nada valia, permitindo entretanto que os seus altos gestores arrecadassem centenas de milhões em moeda. Os outros talvez sejam salvos pelos contribuintes norte-americanos porque George W. Bush se tornou generoso e intervencionista, mandando às urtigas as ideias liberais dos republicanos. E nós, portugueses, o que fazemos?Toda a Europa virou social-democrata, prontificando-se a nacionalizar bancos e indústrias estratégicas. Durão Barroso, Sarkozy, Merkel, Berlusconi, são agora os paladinos da economia de esquerda. E nós, portugueses, o que fazemos?Por todo o mundo, as bolsas descem teimosamente. Os predadores de empresas baratas andam por aí a salivar, mas ninguém sabe ao certo o que virá a seguir. E nós, portugueses, o que fazemos?– Nós, portugueses, cantamos o Magalhães.J. L. Pio Abreu
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October 26 2008, 5:44pm | Comments »
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Os astrólogos
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Este é um artigo fundamental do Rui Curado da Silva. Um excerto para vos obrigar a ir lá ler, ver e apreciar (tem, acoplado, um video gravado há um ano). “É arriscado fazer astrologia política. E foi esse o registo no qual Barreto e Pacheco Pereira se dirigiram ao país quando se pronunciaram sobre o futuro de uma forma categórica e arrogante (foi esse o tom). Rever esta entrevista 10 meses depois, rever aqueles semblantes austeros a pronunciar sentenças erradíssimas com uma precisão milimétrica sobre o ano de 2008 acompanhadas de risinhos e bocas marialvistas dos jornalistas, é um exercício que nos faz mergulhar no ridículo na sua forma mais pura” (Via Ideias soltas)
October 26 2008, 1:20pm | Comments »
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Sarah Palin e as moscas
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Richard Wolfe no Countdown sobre as palavras de Palin: «the most mindless, ignorant, uninformed comment that we have seen from Governor Palin so far and there's been a lot of competition for that prize.»No post «Sarah Palin: Ignorante e anti-ciência» dei conta da reacção de alguns membros da comunidade científica aos dislates de Sarah Palin sobre a investigação em moscas da fruta. Como seria expectável, a ignorância da governadora do Alasca não deixou muito contentes os cientistas que trabalham com estes insectos, em especial os que usam este modelo animal para investigar as causas génicas associadas a doenças como o autismo. Em particular, os autores do estudo da universidade da Carolina do Norte que referi reagiram com o comunicado «In defense of fruit flies and basic medical research»:Vice presidential candidate Sarah Palin made reference to fruit fly research in a broad statement about wasteful earmark funding that has “little or nothing to do with the public good.” She specifically mentioned work in Paris, France. (Just Google it.)MSNBC’s Keith Olbermann reported this, and mentioned, specifically, (Drosophila) fruit fly research at the University of North Carolina (”which is not in Paris,” Olbermann noted) that has led to advanced understanding in autism research. (We think you’ll be able to find this easily, too.)That work, led by neuroscientist Manzoor Bhat, Ph.D., and autism researcher and clinician Joseph Piven, M.D., director of UNC’s Neurodevelopmental Disorders Research Center.Their work was published in Neuron in September 2007.This morning (Sunday, Oct. 26, 2008) Dr. Bhat and Dr. Piven made these comments about the importance of fruit fly studies in the realm of autism research:
October 26 2008, 11:22am | Comments »
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Homenagem a George Walker Bush
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Ontem fomos ver W., a meiga biografia que Oliver Stone filmou do pior presidente eleito dos EUA e não eleito do Mundo, desde que me conheço, George Walker Bush. Foram 10, os presidentes americanos que presidiram à minha humilde vida, dos quais recordo muito bem 7: Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush (pai), Clinton e o idiota inimputável, George, que vai sair de cena pela direita muito baixa. O mundo devia ter mais cuidado com o processo de selecção dos seus presidentes. Um sistema que entrega poder ilimitado a um homem como George W. Bush é um sistema que está mesmo a pedi-las. A dias de ver eleito o 8º presidente mais influente do meu planeta, que vai ser Barack Obama, presto a minha homenagem particular a W. usando um dos melhores artifícios que Stone usa para subjectivar o filme (que recomendo):
(leitores de feed e newsletter, este link)
October 26 2008, 9:33am | Comments »
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Não podia acontecer na América
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Sinclair Lewis foi o primeiro escritor americano a ser galardoado com o Nobel da Literatura, «pela sua vigorosa e gráfica arte de descrição e pela sua habilidade para criar, com humor e genialidade, novos tipos de personagens».Lewis ficou conhecido pelos seus fantásticos trabalhos satíricos alguns deles distopias intemporais que paradoxalmente (ou não) continuam a ser excelentes caricaturas da América de hoje. Do seu universo ficcional destacam-se Main Street (1920), considerada uma das mais importantes obras de crítica social, Babbitt (1922) - uma sátira à cultura de «massas» -, Arrowsmith (1925), uma crítica da subordinação da ciência a desígnios imediatistas e materialistas ou Elmer Gantry (1927), uma excelente crítica do fanatismo religioso e da hipocrisia concomitante.Gosto especialmente do Babbit, que alguém descreveu de uma forma que considero extraordinariamente bem aplicada a todos os Babbits que ainda hoje vivem em transição cultural, não aceitando que o mundo que gostariam de impor aos outros está morto para sempre: «lost between two worlds, the one dead to him forever and the other powerless to be born». Aliás, acho espantoso como esta obra prima parece desde as primeiras linhas, que poderiam perfeitamente descrever a génese da bolha do subprime, ter sido escrita ontem:«His name was George F. Babbitt. He was 46 years old now, in April 1920, and he made nothing in particular, neither butter nor shoes nor poetry, but he was nimble in the calling of selling houses for more than people could afford to pay».O livro permite-nos ainda um vislumbre do anti-intelectualismo que seria aprofundado noutras obras, nomeadamente o anti-intelectualismo latente naqueles que acreditam, com toda a força da ignorância, que uma estadia numa universidade estadual os transformou em iluminados ecléticos e pensadores independentes quando na realidade apenas seguem acefalamente a «manada», por exemplo quando declaram convictamente ser necessário silenciar radicais, acabar com a imigração e «manter os negros nos seus lugares».Lewis explicita-nos este ponto noutro parágrafo que não perdeu a actualidade:«Just as he was an Elk, a Booster, and a member of the Chamber of Commerce, just as the priests of the Presbyterian Church determined his every religious belief and the Senators who controlled the Republican Party decided in Washington what he should think about disarmament, tariff, and Germany, so did the large national advertiser fix the surface of his life, fixed what he believed to be his individuality».Igualmente interessante é o breve período de rebelião em que Babbitt tentou fugir à insipidez da sua vida monótona e enfadonha. O livro foi escrito pouco depois do dealbar do projecto do novo liberalismo, que na altura não adquirira ainda a esquerdista conotoção actual, e é delicioso ler o que é quiçá o melhor exemplo da excelência acérbica e satírica do autor quando Lewis descreve como vários Babbitts se declaram liberais quasi como sinónimo de «modernos».O Babbitt de Sinclair Lewis foi fonte de inspiração para muitos, em particular para outro nome grande da literatura, Philip Roth. Roth, que escreveu versões actualizadas sortidas do Babbitt de Lewis - um personagem de Roth em «A marca humana», pergunta-se mesmo «Será que ninguém leu Babbitt?» - inspirou-se noutra obra mais tardia de Lewis, publicada em 1936, para o seu «The Plot Against America».Embora considerada uma obra menor de Lewis, It Can’t Happen Here (disponível no projecto Gutenberg), é talvez a obra mais interessante numa altura em que estamos a pouco mais de uma semana das eleições que escolherão o próximo presidente dos Estados Unidos.O It Can’t Happen Here descreve o que acontece numa América alternativa em que nas eleições de 1936 não é o democrata Franklin Delano Roosevelt que foi (re)eleito com todos os votos eleitorais excepto os do Maine e do Vermont que perdeu para Alfred M. Landon. Nesta distopia, que tem início exactamente no Vermont, são outros os candidatos: o demagogo e populista Berzelius "Buzz" Windrip e o senador republicano Walt Trowbridge (o mau da fita nesta história de Lewis é um democrata, ao contrário do que acontece quer em Roth quer no Iron Heel de Jack London).Escrito em apenas alguns meses, «Não podia acontecer na América» conta-nos a história focada no editor do jornal de uma pequena cidade do Vermont, Doremus Jessup, a voz do liberalismo - e da consciência - na sua área. Apoiado pelo clero católico mais retrógrado e orientado por um secretário maquiavélico, Buzz Windrip decide disputar com FDR a nomeação democrata. Windrip consegue a nomeação explorando o anti-intelectualismo da população e louvando a sapiência dos Babbits com a ajuda da Liga dos Homens Esquecidos (League of Forgotten Men) liderada pelo bispo Paul Peter Prang - inspirado literalmente no padre Charles E. Coughlin, o simpatizante de Hitler que fez da rádio um púlpito para os seus sermões anti-semitas e anti-comunistas ... e para ele, até Roosevelt era um malvado bolchevique.O senador democrata concorre com um programa indisfarçavelmente totalitário, racista e chauvinista que os homens de bom senso, como Jessup, acreditavam não ter hipóteses de enganar ninguém. No entanto, Buzz ganha a eleição facilmente e a América, a terra dos homens livres, transforma-se numa ditadura fascista no espaço de dias.Há três anos, por ocasião da reedição da obra de Lewis nos Estados Unidos, Joe Keohane escreveu uma coluna no Boston Globe que vale a pena ler na íntegra e de que o parágrafo, que transcrevo, não sei porquê me recordou o último livro de Primo Levi , «Os afogados e os sobreviventes»...«When Windrip is elected, all hell breaks loose. Dissent is crushed, the Bill of Rights is gutted, war is declared (on Mexico), and labor camps are established to help shore up Windrip's vaunted ''New Freedom,'' which is more like a freedom from freedom. All that's really left of the old America are the flags and patriotic ditties, which for many is more than enough.But to Lewis it's not entirely the fault of those who will gladly abide America's principles being gutted. The blame also falls on the ''it can't happen here'' crowd, those yet to realize that being American doesn't change your human nature; whatever it is that attracts people to tyranny is in Americans like it's in anyone else.»
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October 26 2008, 1:41am | Comments »
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Sarah Palin: Ignorante e anti-ciência
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/sarah-palin-ignorante-e-anti-cincia.html
A Drosophila melanogaster, a mosca do vinagre ou mosca da fruta cujo genoma foi completamente sequenciado no ano 2000, é o modelo biológico por excelência da análise genética e da hereditariedade, quer a nível do ensino quer da investigação de ponta. Este insecto é intensivamente estudado, até mesmo no espaço, há cerca de um século desde que Thomas Hunt Morgan, um dos nomes mais determinantes na genética, a notabilizou.Morgan, doutorado em biologia pela Universidade John Hopkins sob orientação de H. Newell Martin, aluno de Michael Foster e assistente de Thomas Henry Huxley, começou a trabalhar com a drosófila a partir de ca. 1910 e, para explicar determinadas características herdadas exclusivamente pelos machos, formulou a hipótese segundo a qual certos caracteres hereditários presentes no cromossoma X das fêmeas eram «limitados pelo sexo». Para descrever as unidades ou factores hereditários do cromossoma X, Morgan adoptou o termo gene, criado em 1909 pelo botânico dinamarquês Wilhelm Johannsen, e concluiu que os genes se distribuíam de forma linear nos cromossomas. Morgan foi distinguido em 1933 com o Nobel da Medicina pelo seu trabalho na DrosófilaDe 1928 até ao fim da vida, Thomas Morgan trabalhou no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) criando uma escola que marcou indelevelmente a genética, formando, entre outros, os Nobel George Wells Beadle, Edward B. Lewis e Hermann Joseph Muller. Em homenagem a Morgan, a Genetics Society of America condecora anualmente um dos seus membros com a medalha Thomas Hunt Morgan por contribuições significantes nesta área. Quiçá as palavras de outro prémio Nobel, Eric Richard Kandel, nos ajudem a perceber melhor o legado de Morgan (e indirectamente da drosófila):«Assim como as descobertas de Charles Darwin sobre a evolução de espécies animais definiram a biologia do século XIX como uma ciência descritiva, as descobertas de Morgan sobre os genes e a sua localização nos cromossomas ajudaram a transformar a biologia numa ciência experimental.»Tudo isto a propósito de um discurso de Sarah Palin que confirma tudo o que escrevi n'«O voto da Ciência». Palin, no seu primeiro discurso sobre as políticas que o ticket republicano pretenderia implementar se eleito (felizmente uma hipótese cada vez mais remota), explica que o dinheiro que se gasta em projectos ridículos poderia ser utilizado para coisas que realmente interessam, como seja o Individuals with Disabilities Education Act (IDEA), especialmente no que ao autismo diz respeito:«You’ve heard about some of these pet projects they really don’t make a whole lot of sense and sometimes these dollars go to projects that have little or nothing to do with the public good. Things like fruit fly research in Paris, France. I kid you not.»Ou seja, Palin considera que os projectos de investigação científica mais fundamental são projectos ridículos cujo financiamento merece ser cortado. A mesma investigação na Drosófila que a ignorante candidata desdenha como irrelevante que, reportando apenas à área sobre que demagogica e imbecilmente Palin discursou, no ano passado permitiu a cientistas da universidade da Carolina do Norte descobrir: [S]cientists at the University of North Carolina at Chapel Hill School of Medicine have shown that a protein called neurexin is required for..nerve cell connections to form and function correctly.The discovery, made in Drosophila fruit flies may lead to advances in understanding autism spectrum disorders, as recently, human neurexins have been identified as a genetic risk factor for autism.Como refere Ben Armbruster, o estudo da mosca do vinagres tem sido providencial em outras decobertas importantes sobre autismo para além de ter «revolucionado” o estudo de 'birth defects'».Acho que sobre a barbaridade ignorante debitada pela governadora do Alaska, PZ Myers mais uma vez resume bem o que penso:I am appalled.This idiot woman, this blind, shortsighted ignoramus, this pretentious clod, mocks basic research and the international research community. You damn well better believe that there is research going on in animal models — what does she expect, that scientists should mutagenize human mothers and chop up baby brains for this work? — and countries like France and Germany and England and Canada and China and India and others are all respected participants in these efforts.
October 25 2008, 4:40am | Comments »
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Economia do conhecimento
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No «O Voto da Ciência» afirmei que as tecnologias em energias renováveis serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a uns anos. O gráfico acima, que representa a evolução das estimativas das necessidades energéticas globais, explica esta afirmaçãos já abordada em Agosto no «Energias alternativas e aquecimento global». A necessidade de investimento na pesquisa de fontes energéticas alternativas é explicada também pelo facto de que, quaisquer que sejam os modelos de crescimento económico que se utilizem, é necessário para evitar recessões que a taxa de crescimento do progresso tecnológico, nomeadamente no sector energético, seja suficiente para contrabalançar os efeitos das restantes variáveis em equação. Assim, os países que mais investirem agora em investigação nesta área beneficiarão assim de uma vantagem estratégica no futuro próximo, facto a que os dirigentes europeus estão muito sensíveis.Vários anúncios da União Europeia na semana passada confirmam a aposta no desenvolvimento de uma economia do conhecimento. Um deles informa que a Comissão Europeia autorizou o financiamento de 67,6 milhões de euros, concedido no final de 2007 pela OSEO - a agência francesa de apoio à inovação -, para o programa Horizon Hydrogen Energy (H2E). O programa coordenado pelo grupo Air Liquide envolve cerca de 20 parceiros, que incluem grupos industriais, pequenas e médias empresas e laboratórios públicos franceses de investigação. O H2E representa um investimento de cerca de 200 milhões de euros em I&D num período de 7 anos na pesquisa de soluções energéticas ligadas ao hidrogénio - que inclui investigação em células de combustível de hidrogénio.Por outro lado, a Comissão Europeia, a indústria europeia e a comunidade europeia de cientistas, constituiram a parceria público-privada da Joint Technology Initiative (JTI). A JTI vai investir cerca de mil milhões de euros ao longo de seis anos na investigação em células de combustível e hidrogénio, bem como no desenvolvimento e demonstração desta tecnologia. A plataforma HFP tem como objectivo colocar a Europa na linha da frente das novas formas de energia e criar massa crítica relativamente a estas tecnologias antes de 2020, ano em que se prevê uma diminuição da capacidade de produção da indústria petrolífera.O Comissário Europeu da Ciência e Investigação, Janez Potocnik, afirmou que «ao investir nestes projectos científicos estamos a colocar o dedo na ferida, pois o desenvolvimento de novas tecnologias é crucial para alcançar os objectivos europeus no que concerne às alterações climáticas e aos desafios energéticos».A iniciativa foi formalizada numa assembleia geral em Bruxelas que decorreu entre 13 e 15 de Outubro e reuniu cerca de 600 Stakeholders da Fuel Cells and Hydrogen Joint Technology Initiative e durante a qual a a Alemanha, a Grã-Bretanha e a Dinamarca e apresentaram programas nacionais consistentes no que respeita a uma economia focada em energias que não as provenientes de combustíveis fósseis, em especial o hidrogénio. A Dinamarca foi mais longe e anunciou pretender em 2020 produzir toda a sua energia 2020 de forma renovável estando em curso o desenvolvimento de uma base industrial de suporte desde a produção de hidrogénio à fabricação de pilhas de combustível.Mas soube-se também que que o Banco Europeu de Investimentos anunciou a sua disponibilidade para financiar os projectos de infra-estrutura necessários à logística do hidrogénio, por exemplo, a rede comum de pipelines para distribuição de H2 que os países nórdicos pretendem construir.Foi criada igualmente uma plataforma comum que pretende congregar as regiões e municipalidades activas no desenvolvimento de tecnologias ligada ao hidrogénio – HyRaMP- European Regions and Municipalities on Hydrogen and Fuel Cells.Mas o interesse nesta forma de energia não se restringe à Europa: por exemplo, dentro de dias começarão a circular em S. Paulo autocarros movidos a hidrogénio no âmbito do projecto «Estratégia Energético Ambiental: Ônibus com Célula a Combustível a Hidrogênio».Em Portugal, o hidrogénio parece ter sido ignorado pelos nossos legisladores no quadro legal dos incentivos e benefícios fiscais das energias renováveis ao ponto de os veículos movidos a hidrogénio nem sequer beneficiarem da taxa reduzida aplicado aos que utlizam GPL ou gás natural muito menos das isenções em sede de IA de que gozam os veículos híbridos. No entanto, uma das descobertas que promete revolucionar esta área foi feita em Portugal, a gelatina iónica que permitará desenvolver dispositivos mais baratos e mais ecológicos.
October 24 2008, 3:09am | Comments »
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O CHUMBO DO BOM ALUNO
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Minha crónica no "Público" de hoje:Uma auto-avaliação é sempre uma avaliação incompleta pois um bom aluno só o é, de facto, se for examinado externamente e se, em comparação directa com os outros, não se sair mal da prova. Pois Portugal, tantas vezes chamado “bom aluno”, não se tem saído airosamente de algumas provas internacionais em que tem entrado.Dois relatórios internacionais sobre a desigualdade social recentemente publicados, um mais abrangente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e outro mais restrito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), não classificam bem as políticas sociais do nosso país ao longo dos últimos vinte anos. Ambos convergem em classificar Portugal no grupo de países onde as desigualdades entre ricos e pobres são maiores. O estudo da OIT (“Desigualdades de rendimentos na era da globalização financeira”) mostra que o fosso entre os mais ricos e os mais pobres tem vindo a aumentar sistematicamente ao longo dos últimos anos (que não tem necessariamente de ser assim é exemplificado pelo caso de Espanha, onde o fosso tem diminuído). Por outro lado, o estudo da OCDE (“Crescimento desigual?”) coloca-nos em terceiro lugar numa tabela de desigualdade social, apenas batidos pelo México e pela Turquia, e logo antes dos Estados Unidos, que são bem desiguais. Como se tal fosse pouco, o mesmo estudo faz-nos uma menção especial, ao afirmar que a média dos dez por cento mais pobres do Reino Unido ganha mais do que o português médio. Claro que os portugueses ricos ou da classe média alta que viajam a Londres já sabiam isso e os autóctones que vêem a “working class” inglesa vir de férias ao “Allgarve” também já sabiam isso, mas agora todos sabem.São más notícias não para este ou aquele governo em particular, mas para o conjunto dos governos, do PS ou do PSD, que se têm sucedido nas últimas duas décadas. É certo que eles propuseram ou mantiveram algumas políticas com preocupação social, como a do rendimento mínimo garantido, mas estas têm-se revelado claramente insuficientes para debelar um problema que parece ser estrutural. Mesmo com o rendimento mínimo, a pobreza parece estar garantida, parece um destino.À margem do relatório da OCDE, o Professor Anthony Atkinson, da Universidade de Oxford, comentou as respectivas conclusões, lembrando que estamos a viver uma crise mundial, uma crise que não é só em “Wall Street”, mas também em “all streets”:“A recessão – se se confirmar – não será uma boa notícia para todos os que estão nas margens da força laboral (...) Há uma mensagem política. Os orçamentos dos governos estão sob stress, mas os cidadãos estão à espera de que, se há fundos para salvar os bancos, então os governos podem subsidiar benefícios para o desemprego e para o emprego. Se os governos podem ser credores de último recurso, então gostaríamos de os ver como empregadores de último recurso. Falando claro, os governos têm de entrar em acção tal como Roosevelt fez na Grande Depressão”.Não há o risco de os liberais ou neo-liberais aparecerem a protestar porque eles andam desaparecidos em parte incerta... As medidas para os governos combaterem o desemprego terão de ser dirigidas principalmente aos mais novos, porque, segundo os ditos relatórios, são eles os mais ameaçados pela pobreza. Os pobres mais recentes não são os velhos mas as crianças e jovens. Em particular, a desqualificação dos nossos jovens – culpa em larga medida de um sistema educativo iníquo - é um problema que clama por solução urgente. Será que podemos fazer isso? Sim, podemos. “O destino não é uma questão de sorte – é uma questão de escolha. Não é algo para ser esperado - é algo para ser conseguido”. Quem o disse não foi Barack Obama, foi William Jenning Bryan, um candidato do Partido Democrata três vezes derrotado à presidência dos Estados Unidos no dealbar do século XX. Bryan opunha-se com energia ao darwinismo social, ao triunfo dos mais ricos à custa dos mais pobres, o que, do outro lado do Atlântico como aqui, continua a ser um imperativo moral.
October 24 2008, 2:22am | Comments »
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Empurrar o mundo
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/empurrar-o-mundo.html
Quais são as fronteiras entre o activismo e o trabalho académico? Eu, os meus companheiros de blog e muitas outras pessoas queremos empurrar o mundo numa dada direcção: mais ciência, mais conhecimento, melhor ensino, mais cultura. Em grande parte porque acreditamos no valor intrínseco destas coisas, mas também porque tendemos a crer que os piores disparates da humanidade resultam de obscurantismo, irracionalidade, prepotência, falta de conhecimentos sólidos.Mas é perigoso transformar o trabalho académico — que inclui, ou pode incluir, o trabalho de ensinar e divulgar a área da nossa especialidade — em activismo. Todo o activismo tende para a simplificação grosseira, a mentira e a prepotência: trata-se de empurrar o mundo numa dada direcção, procurando eliminar, ainda que não fisicamente, quem quer empurrar o mundo noutra direcção. Isto implica quase invariavelmente a traição do princípio fundamental que tem de orientar todo o trabalho académico de excelência: o amor pela verdade, rigor, precisão, atenção aos pormenores, abertura à crítica, consideração cuidadosa de ideias opostas. Tudo isto exige uma serenidade que não se adequa à luta política que é oportunista, suja, rápida, feita de golpes de bastidores e que conta com a imensa maioria que não pode realmente saber se estamos a dizer a mentira ou a verdade, porque ninguém pode ir estudar tudo e mais alguma coisa em profundidade para o saber. Isto levanta um problema simultaneamente epistemológico e político.Temos de confiar uns nos outros — confiamos quando nos dizem que realmente houve Segunda Guerra Mundial, que o mundo já existia antes de nascermos, que Neil Armstrong foi à Lua com Buzz Aldrin. Não há maneira de cada um de nós testar tudo. Para isto ser possível, contudo, o número de pessoas cognitivamente confiáveis tem de ser superior, muito superior, ao número de pessoas inconfiáveis. Tal e qual como na vida diária: se a generalidade das pessoas não fosse razoavelmente honesta, não seria possível pôr um polícia atrás de cada pessoa (e o que iríamos pôr atrás de cada polícia?). Se a generalidade dos académicos contaminar o seu trabalho ideologicamente, por querer empurrar o mundo numa dada direcção, ficamos todos sem poder confiar no que lemos, nas aulas a que assistimos, nos artigos que lemos. Formam-se então grupos académicos de pressão, e quem empurra o mundo para um lado faz as suas revistas académicas e funda o seu conjunto de pares, e quem empurra o mundo para o outro lado faz o mesmo.O que acontece depois? É um mundo académico hobbesiano e impossível. Não gostei do livro de combate do Dawkins sobre Deus porque é mero activismo ateu — não tem uma ponta de discussão séria — e a partir do momento em que ele entra no activismo ateu, perde a autoridade como biólogo. Eu agora já não sei se ele me diz realmente a verdade quando me diz seja o que for sobre biologia, ou se é como os criacionistas, que mentem o tempo todo para empurrar o mundo para onde eles querem. Fazer o que Dawkins fez pode ter sido o melhor que os criacionistas poderiam ter desejado. Repare-se que o ataque criacionista baseia-se precisamente na ideia de que os biólogos defendem apenas ideologicamente a teoria da evolução pela selecção natural, por ser uma aliada do ateísmo, sabendo que é falsa, mas ocultando isso das pessoas. Dawkins ajuda a tornar plausível esta ridícula teoria da conspiração.Nada fazer perante os ataques da direita religiosa à ciência e à racionalidade não é opção, e não é isso que estou a advogar. Mas cair na armadilha do activismo, como Dawkins, pode não ser desejável. Alternativa? Não tenho. Ser intelectualmente honesto, ensinar honestamente, escrever e publicar honestamente, defender a verdade e a tolerância, a racionalidade e democracia, não fingir que sabemos o que realmente não sabemos, poderá parecer insuficiente a quem se sente impaciente por empurrar o mundo numa dada direcção. A chatice é que eu não sei se esses empurrões realmente funcionam como se deseja, ou se pelo contrário atropelam aquilo mesmo que estávamos a querer salvar. O que será melhor? Uma multidão ignara e supersticiosa, ou uma multidão igualmente ignara e ateia? O problema, parece-me, é a multidão; a palavra de ordem que se grita é quase irrelevante. Como escreveu Orwell, “O inimigo é o espírito de gramofone, quer concordemos quer não com o disco que está a tocar nesse momento.”
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October 23 2008, 4:52pm | Comments »





