Há uma diferença colossal entre um debate de ideias e um combate político, e esta diferença nem sempre é adequadamente compreendida. Quando nos entregamos a um debate de ideias a nossa preocupação central é a verdade: queremos ajustar o que pensamos à realidade. Por isso, damos atenção aos argumentos, procuramos ser cuidadosos e rigorosos, e estamos prontos a mudar de ideias. Mas quando nos entregamos a um combate político, não queremos ajustar as nossas ideias à realidade, mas sim mudar a realidade de acordo com as nossas ideias: queremos empurrar o mundo numa certa direcção — queremos um mundo com mais isto ou mais aquilo, com mais pessoas a pensar uma coisa ou menos pessoas a pensar outra coisa.Infelizmente, o combate político disfarça-se muitas vezes de debate de ideias. E assim se prostitui um dos instrumentos fundamentais da descoberta das coisas, que é precisamente a troca de argumentos entre várias pessoas que partilham um forte interesse pela verdade. Quando o combate político se disfarça de debate de ideias, insulta-se as pessoas, não se faz um esforço para compreender o que estão a dizer, não se procura ser justo, imparcial e objectivo, usa-se todo o género de trapaças lógicas, trocadilhos e fantasias — pois o objectivo é apenas suprimir ideias de que não se gosta, e não pesar cuidadosamente os argumentos a favor e contra essas ideias.Esta situação é grave porque sem debates genuínos de ideias qualquer falsidade ou palermice fica ao nível de ideias e argumentos plausíveis, cuidadosamente argumentados e honestamente concebidos. A própria possibilidade da investigação científica ou filosófica, assim como a possibilidade de uma democracia saudável, é posta em causa. Não há maneira de organizar programas de investigação nem sociedades que resistam automaticamente à instrumentalização ideológica, política ou interesseira; sem a boa vontade dos participantes, não é pura e simplesmente possível conduzir uma discussão frutuosa sobre seja qual for o tema.Poder-se-á fazer alguma coisa de significativo quanto a isto? Não creio. À excepção de algumas pessoas, a generalidade dos seres humanos chegam a uma idade em que jamais irão mudar de ideias e tudo o que lhes resta agora é combater politicamente para empurrar o mundo numa direcção em vez de outra. Há até a ideia desafortunada de que combater ferozmente por convicções fortes é de aplaudir, ao passo que pesar cuidadosamente os argumentos a favor e contra essas convicções é visto como pura perda de tempo: os ociosos analisam interminavelmente ideias, os activos impõem-nas aos outros através do combate político e da opressão social e psicológica. As mentiras são tanto mais perigosas quanto mais misturadas estão com verdades, e este é um desses casos: sem dúvida que precisamos de agir e de tomar decisões práticas e políticas, e não podemos ficar sentados eternamente a discutir se realmente vem aí ou não um tsunami que vai arrasar a nossa cidade. Mas desta verdade não se segue que não possamos nem devamos precisamente sentar-nos para discutir cuidadosamente quando podemos claramente fazê-lo, nem se segue que não devamos discutir cuidadosamente quais serão os melhores cursos de acção. Segue-se apenas que por vezes a discussão tem de ser mais expedita, mas uma discussão expedita de ideias, se for genuína, ainda não é, e está muito longe de ser, um combate político.Apesar de nada de significativo podermos fazer quanto a isso talvez se possa melhorar as coisas ligeiramente, ensinando os alunos a discutir ideias, fazendo uma intervenção pública ponderada e reflectida para que o grande público tenha também por ostensão uma concepção da diferença entre um debate genuíno de ideias e um combate político. Infelizmente, isto não é fácil de fazer porque há a tendência para cair no extremo oposto: para se ser imparcial e “académico” ou “escolar”, as pessoas limitam-se a repetir ideias sem pensar nelas outra vez e sem saberem se realmente as aceitam genuinamente ou se apenas estão a dar voz a mais um formalismo escolar que nada tem a ver com coisa alguma. Precisamos de um meio-termo entre esta indiferença formalista que faz as pessoas repetir coisas sem pensar outra vez, nem compreender adequadamente, e o debate de ideias metamorfoseado em combate político. A grande ilusão é pensar que ou somos imparciais e objectivos — mas nesse caso só debitamos academices irrelevantes, ou, pior, resultados científicos que não podem ser postos em causa — ou nos entregamos pessoalmente e calorosamente a um debate de ideias — mas nesse caso não seremos imparciais nem objectivos, adoptando ao invés as conhecidas técnicas do sujo combate político. Este falso dilema é perigoso, mas não sei o que se poderá fazer de significativo para mostrar a sua falsidade.
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Debate e combate
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/debate-e-combate.html
- Tags:
- Política
September 24 2008, 10:16am | Comments »
