Hoje, logo de manhã, no forum da TSF dedicado à novela do orçamento e da crise política, o prof. João Duque abriu com a confissão da tirania do mercado. O mercado não confia, o mercado duvida, o mercado ameaça, o mercado não baixa os juros da dívida, o mercado, o mercado. E os cidadãos que foram gaguejando uma cassete estafada lá foram dizendo a mesma coisa. Que tínhamos de ficar bem vistos na fotografia, que e que.Sim. Não há dúvida que há uma real incompetência política (que não é de agora) na gestão das contas públicas e na condução das políticas de criação de riqueza nacional.Mas não podemos agir na lógica dos prisioneiros dos mercados, das agências de rating, do capitalismo selvático. Temos de ter outro destino. Porque este não serve àqueles que vivem do suor do seu rosto.
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Reféns do Mercado
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October 7 2010, 2:59pm | Comments »
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Bolseiros forçados a dar aulas de graça
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Em Abril dei aqui conta da intenção da Universidade de Lisboa aprovar um Regulamentos do Estatuto da Carreira Docente Universitária, que previa a atribuição de serviço docente aos bolseiros de investigação sem qualquer remuneração. A Universidade de Lisboa, face às objecções que foram levantadas durante a discussão pública do Regulamento e à intervenção pronta da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), acabou por reconsiderar e retirar essa imposição do regulamento. Mas a ideia fez escola. E a ABIC tem vindo a denunciar a intenção de várias universidades portugueses pretenderem usar os bolseiros de investigação para dar aulas sem qualquer remuneração adicional. Disso dá conta, por exemplo, este artigo do JN, de que transcrevo um excerto:Universidades usam bolseiros para dar aulas sem remuneração(...) Na opinião dos bolseiros, esta prática não só é prejudicial para os bolseiros, mas também para os professores, "na medida em que constitui uma ameaça à carreira e prejudica a qualidade do ensino", visto que os bolseiros "não são docentes experientes".A ABIC já pediu uma audiência ao presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), no sentido de haver uma chamada de atenção às universidades.A associação de bolseiros está consciente de que a FCT pouco mais poderá fazer além disso, devido à autonomia universitária, que permite às instituições de ensino superior aprovar esta medida nos seus regulamentos.A ABIC está também a contactar os sindicatos e já alertou os membros da Assembleia da República, acrescentou André Levy."A nossa oposição não é contra o uso de bolseiros para dar aulas, é contra o não serem remunerados, mostrando a fragilidade da sua condição, utilizando-os para tapar buracos", acrescentou (...)Texto completo aqui. A ABIC lançou um abaixo assinado público, conta esta situação.O grupo parlamentar do PCP (goste-se ou não, quem tem levantado a voz na Assembleia da República em favor dos bolseiros de investigação tem sido o PCP, o BE e mais timidamente o CDS-PP) formulou há dois dias uma pergunta ao governo sobre este assunto, de que transcrevo o essencial: (clique para ampliar)Eu já nem vou retomar a questão da fragilidade do vínculo do bolseiro e de como muito facilmente pode ser coagido a dar aulas contra a sua vontade sem que ganhe mais por isso ou que veja reduzidas as suas obrigações na investigação, pois nos tempos que correm estas ideias tem dificuldade em ganhar simpatias alheias. Mas faz sentido ter nas universidades portuguesas pessoas a dar aulas contra a sua vontade e que não são pagas por isso? Quando olhamos os rankinks internacionais de ensino superior a nossa situação já não é famosa. E isto não ajuda nada.
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October 7 2010, 6:18am | Comments »
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A diferença é abismal
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É assim que deve ser gasto o dinheiro que é de todos (público). Um senhor que é deputado em Portugal disse estas coisas: E ainda fez propostas destas. A diferença é abismal e explica bem muita coisa.:-(
October 7 2010, 3:23am | Comments »
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Portugal e os próximos 10 anos
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PORTUGAL e os próximos 10 anosSegundo dados do Eurostat (relativos a 2008) o PIB per capita (PIB PC) português é cerca de 72% do PIB PC médio europeu (EU 27, 100%). Há cerca de dez anos atrás era de cerca de 80% da média comunitária. Considerando as actuais taxas de crescimento, a projecção para 2028 mostra que o PIB PC português será 56% da média comunitária e Portugal será o último da tabela de todos os países europeus. Ou seja, seremos o pais mais pobre da comunidade, e continuaremos a divergir da média comunitária. Para convergir e atingir a média comunitária em 2028, Portugal teria de inverter a situação e crescer em média 3.86% ao ano, ou seja, passar de taxas de crescimento médias inferiores a 1% para taxas superiores a 3%. Como conseguir este objectivo?A única forma parece ser resolver de forma decisiva e sustentável as desvantagens que nos são apontadas, e que se relacionam com a atitude dos portugueses (qualidade da formação secundária e superior, qualidade da formação científica), capacidade empreendedora das empresas e instituições (investimento privado em I&D, patentes), flexibilidade do mercado de trabalho e das leis de trabalho, tamanho do mercado interno (o espaço lusófono tem de ser aproveitado), justiça, aspectos organizativos, e disponibilidade de recursos humanos avançados (baixa disponibilidade cientistas e engenheiros no mercado, o que é ainda agravado pela tendência crescente de saída dos melhores quadros para o estrangeiro – brain drain). O país tem de contar consigo próprio e fazer valer as suas capacidades. É necessário ser consequente e eficaz no esforço de transferência de saber e tecnologia das universidades e centros de I&D para a economia, avaliando os resultados tendo por base indicadores de performance: número de empresas criadas, taxa de sobrevivência, número de empregos qualificados criados, numero de patentes que deram origem a novas empresas e/ou novos produtos, entre outros. Os apoios terão de ser sempre proporcionais aos resultados.Mas é também necessário mudar o financiamento universitário, como o resultado de um novo contrato com a sociedade que veja reforçado o papel da universidade/politécnico no desenvolvimento económico e social do país. Uma parte desse financiamento deve estar directamente ligado à capacidade de transferir conhecimento e tecnologia para as empresas, criando mais-valias económicas e emprego qualificado, devendo o Estado colocar parte do seu esforço na redução de impostos às empresas que apostem em contratos de I&D em consórcio. Isto não significa uma redução do financiamento das universidades e centros de I&D, mas tão somente uma alteração na forma como são obtidos os orçamentos, incentivando assim uma relação mais eficaz com a sociedade e com economia. Uma relação que terá também efeitos muito significativos na criação de emprego qualificado e na incorporação de inovação e empreendedorismo na matriz das empresas.Devemos ser também consequentes no apoio à internacionalização, à diplomacia económica, ao reforço da imagem de Portugal como país produtor de tecnologia, mas também à criação de mecanismos de redução fiscal para empresas que apresentem taxas crescentes de exportação e uma estratégia de internacionalização com resultados práticos. O Estado só deve incentivar o investimento directo estrangeiro que tenha uma forte componente de inovação e transferência de tecnologia. Os incentivos devem ser reais, tendo por base preços de instalação, acompanhamento personalizado, ligação a centros de I&D, programas de incentivo ao estabelecimento de projectos de I&D com parceiros nacionais, etc. É nessa perspectiva que devem ser equacionados os clusters em áreas estratégicas, constituídos por empresas, centros de I&D e centros de saber, e financiamento dependente dos resultados práticos: produtos e actividade económica gerados pela criação do cluster. Finalmente, deve ser desenvolvido um plano consistente de ligação de Portugal a instituições europeias de reconhecido mérito na transferência de tecnologia e conhecimento para as empresas. Esse plano deve apoiar essas ligações, tendo por base os seguintes pressupostos:1. Os consórcios devem incluir instituições europeias e portuguesas, com modelo de gestão acordado com o Estado;2. Os planos devem incluir cooperação na formação avançada para empresas (cursos curtos, mestrados e doutoramentos), na transferência de tecnologia e saber, e no estabelecimento de projectos europeus totalmente financiados pelos programas quadro europeus;3. Os planos estabelecidos devem ser sustentados em 10 anos, isto é, o investimento do Estado nestes consórcios deve ser recuperado com projectos europeus, projectos em consórcio com empresas, prestação de serviços de formação e consultoria, proventos de cursos de mestrado e doutoramento realizados em consórcio entre as várias instituições, etc.A próxima década deve ser dedicada ao empreendedorismo. Deve ser criado um plano nacional que tenha como objectivo:1. Promover o empreendedorismo e risco na sociedade portuguesa, alertando para a necessidade de esforço individual e original para obter resultados;2. Promover quem empreendeu, realizou, teve sucesso, criou emprego e actividade económica. Deveria ser um objectivo nacional divulgar estas iniciativas;3. Promover a realização de pequenos cursos dedicados a escolas primárias, preparatórias e secundárias, onde fossem transmitidos conceitos elementares de economia, sobre a vida das empresas, de como funciona o nosso sistema económico, sobre emprego, sobre iniciativa e risco, como muitos passaram da ideia para o negócio, etc. Mensagens simples, mas que ajudam a criar o mindset empreendedor na população mais jovem;4. Apoiar os alunos com os melhores resultados em áreas consideradas estratégicas;5. Permitir que alunos do ensino secundário e do ensino superior participem activamente em equipas de I&D universitárias e resultantes de I&D em consórcio com empresas; 6. Premiar os empreendedores que se destacaram nas várias áreas de actividade, permitindo o respectivo reconhecimento público. Estes prémios deveriam ser nacionais e devidamente promovidos, estando, por exemplo, associados a uma data nacional relevante (25 de Abril, Dia de Portugal, etc.). Os países ou as regiões, antes de espaços geográficos, políticos ou económicos, são a sua população. São as pessoas que fazem a diferença. São elas que moldam decisivamente o futuro. Atrair e fixar pessoas tem de ser, por isso, o nosso primeiro objectivo. E devemos estar particularmente interessados naquelas pessoas que procuram oportunidades, que as sabem identificar e têm o arrojo para definir objectivos e persegui-los com determinação. Pessoas com atitude. São essas pessoas que fazem as coisas acontecer nas várias áreas de actividade humana. São essas as pessoas que quando falham não desistem. Quando falham começam de novo. Falham, mas aprendem, até terem sucesso, contaminando as outras.J. Norberto Pires(publicado na revista "As 500 Maiores Empresas da Região Centro" do Jornal "I" e do Diário AS BEIRAS)
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October 1 2010, 10:20am | Comments »
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Défice democrático e inimputabilidade política
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DEMOCRACIA, ELEIÇÕES E RESPONSABILIDADE POLÍTICA*José Antônio CheibubAdam PrzeworskiNosso objetivo é examinar a validade empírica de duas proposições: (1) que a democracia é um regime político que se distingue pela responsabilidade dos governantes perante os governadosI e (2) que é por meio de eleições que esta responsabilidade é garantida. Estas proposições são obviamente relacionadas: a primeira é conseqüência da segunda dada a definição de democracia como o regime no qual os governantes são selecionados mediante eleições. Em conseqüência, a estrutura do argumento que pretendemos examinar é a seguinte: (1) a democracia é um sistema que garante a responsabilidade política (hipótese empírica) porque (2) a democracia é um regime no qual os governantes são escolhidos por meio de eleições (definição) e (3) a responsabilidade política é garantida por meio de eleições (hipótese empírica). Se tudo isto parece excessivamente detalhista, aguarde um momento.Procederemos da seguinte forma: na primeira seção explicitaremos nossos critérios para classificar os regimes políticos, distinguindo diferentes tipos de democracias e ditaduras, e forneceremos algumas informações que situam a ocorrência destes regimes; na segunda seção analisaremos estatisticamente o impacto das condições econômicas sobre a sobrevivência dos governantes; na terceira seção estudaremos como os governantes são escolhidos em diferentes tipos de democracia e, na quarta seção, consideraremos o papel das eleições como mecanismo de produção de responsabilidade política. Uma conclusão breve, basicamente uma lista de dúvidas, fechará o texto.Texto Integral
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October 1 2010, 3:17am | Comments »
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FACILITISMO E ALDRABICE
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Minha crónica de hoje no "Público":Quem recentemente acertou na mouche ao falar sobre a crise financeira e económica que o país atravessa foi Ernâni Lopes, o ex-ministro das Finanças e Plano do Governo do Bloco Central, dirigido por Mário Soares, que em 1983 recebeu o FMI: «Não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice». Fê-lo pouco antes do anúncio pelo governo do PS dirigido por José Sócrates de medidas de aumento de impostos para todos e de redução de vencimentos dos trabalhadores da função pública. As palavras do ex-ministro não podiam ser mais certeiras. Com efeito, não foi há muito tempo que o IVA desceu e os salários subiram, por mera conveniência eleitoral, numa altura em que as crises nacional e internacional já eram mais do que visíveis (a primeira, para mal dos nossos pecados, mais antiga do que a segunda). O governo minoritário que resultou das eleições continuou teimosamente a negar a realidade. Foi facilitando o mais que pôde. E foi aldrabando até mais não poder. Por pressão externa e não por convicção interna, anunciou um PEC 1, depois um PEC 2 e agora um PEC 3, uma vez que a dívida continuava a aumentar. Num mundo em crise os outros bem podiam fazer de formiga, com a Grécia, a Irlanda e a Espanha a diminuírem os salários, que nós continuávamos a fazer de cigarra, como se o crédito fosse ilimitado. De facto, o mundo mudou. Mas o nosso Governo, contrariamente ao que se impunha, não mudou, e não fez a tempo o que era preciso fazer, que era estudar o défice e trabalhar para o diminuir. Agora, tarde e a más horas, parece ter acordado. E o Presidente do PS, António de Almeida Santos, que tinha sido colega de Ernâni Lopes no governo do Bloco Central (lembram-se de não se poder sair do país com mais de sete contos?), não encontrou melhor justificação para a mais recente ida do Governo aos bolsos dos contribuintes do que dizer que «o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre». Se o povo não sabia, ficou enfim a saber que tem de partilhar as crises do Governo...E o que diz ao PEC 3 o PSD, que tinha assinado o PEC 2 numa quase reedição do Bloco Central? O seu porta-voz António Nogueira Leite, de quem se fala para ministro das Finanças (fez o tirocínio como secretário de Estado das Finanças de Guterres), foi tudo menos coerente e credível. Embora defendendo os cortes nos salários, pediu com candura ao Governo para “reconsiderar o aumento do IVA, porque não é bom para as famílias". A diminuição dos rendimentos salariais é, para ele, boa para as famílias. Estas, encolhidas pelos apertos de cinto, continuarão decerto a sofrer as crises, mesmo que mude o governo que as sofre. E não têm grande esperança que o facilitismo e a aldrabice acabem se houver uma mudança governamental.Poderia ser de outro modo? Dificilmente poderia. Uma sociedade não pode ser melhor do que a escola que a molda. Facilitismo, o termo que tão bem se adequa à política em geral, é também o certo para designar a política escolar, também ela de Bloco Central. Mostra-o, por exemplo, o caso do aluno que entrou na Universidade, com 20 valores, pela porta do cavalo das Novas Oportunidades. E aldrabice é a palavra justa para descrever uma situação em que se passam diplomas a certificar sabedoria e competências a quem é manifestamente ignorante e incapaz. Uma aldrabice pegada, como cada vez é mais claro.Dei-me conta outro dia de que a palavra aldrabar, de origem árabe, não é conhecida no Brasil. Mas a prática é. Mário Pratas, o autor do dicionário de português europeu para brasileiros “Schifaizfavoire” (Editora Globo, 1993; o título deriva do modo como se chama entre nós um empregado de mesa), comenta: “Depois de morar algum tempo em Portugal você começa a entender de onde veio essa nossa mania de levar vantagem, de dar golpinhos, de enganar o próximo, de tirar proveito das situações. Está certo que os brasileiros aperfeiçoaram a aldrabice...”
September 30 2010, 10:30pm | Comments »
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Dos Ladrões
http://terrear.blogspot.com/2010/09/dos-ladroes.html
Não são só ladrões - diz o Santo - os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os pobres. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas (juízes) e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: "Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos." Ditosa Grécia que tinha tal pregador! Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província.[............]Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens valíssimas da servidão e espectáculos de extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à Fé que nos destes, porque só ela cativa o entendimento para que, à vista destas desigualdades, reconheçamos contudo vossa justiça e providência! Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem com os nossos? Não respiram o mesmo ar? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina tão triste, tão inimiga, tão cruel?P.e ANTÓNIO VIEIRA - SERMÃO DO BOM LADRÃO"-excerto(via Amélia Pais)
September 2 2010, 7:32am | Comments »
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Por uma república refundada
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/por-uma-republica-refundada.html
Segundo dados do Eurostat (relativos a 2008) o PIB per capita (PIB PC) português é cerca de 72% do PIB PC médio europeu (EU 27, 100%). Há cerca de dez anos atrás era de cerca de 80% da média comunitária. Considerando as actuais taxas de crescimento, a projecção para 2028 mostra que o PIB PC português será 56% da média comunitária e Portugal será o último da tabela de todos os países europeus. Ou seja, seremos o país mais pobre da comunidade, e continuaremos a divergir da média comunitária. Para convergir e atingir a média comunitária em 2028, Portugal teria de inverter a situação e crescer em média 3.86% ao ano, ou seja, passar de taxas de crescimento médias inferiores a 1% para taxas superiores a 3%. Como conseguir este objectivo? A única forma parece ser resolver de forma decisiva e sustentável as desvantagens que nos são apontadas, e que se relacionam com a atitude dos portugueses (qualidade da formação secundária e superior, qualidade da formação científica), capacidade empreendedora das empresas e instituições (investimento privado em R&D, patentes), flexibilidade do mercado de trabalho e das leis de trabalho, tamanho do mercado interno (o espaço lusófono tem de ser aproveitado), justiça, aspectos organizativos (serviços públicos, simplificação de procedimentos), e disponibilidade de recursos humanos avançados (baixa disponibilidade de cientistas e engenheiros no mercado, o que é ainda agravado pela tendência crescente de saída dos melhores quadros para o estrangeiro – brain drain). Apesar disto tudo, o país insiste em ser Lisboa e arredores. Concentra a sua capacidade de investimento na capital do país, com duplicação de infra-estruturas e meios, desmerecendo e desprezando o resto do país que empobrece gradualmente. O centro de Portugal tem um PIB per capita de 62% da UE, ou seja, inferior à média nacional. Aliás, só a região de Lisboa tem valores superiores à média europeia (104% da UE), apesar de estar gradualmente em queda.É necessário uma nova atitude. Firme. Em defesa dos interesses do país. Chamem-lhe o que quiserem: desafio, desobediência civil, ..., revolução. Não tenho medo das palavras. Não tenho medo de as pronunciar. Precisamos de refundar a nossa república, cumprir Portugal (como se prometeu na revolução de Abril), criando, de uma vez por todas, um país verdadeiramente democrático, equilibrado, solidário, exigente com a aplicação dos seus recursos, consciente dos problemas do mundo e da necessidade de definir uma estratégia nacional de desenvolvimento. Participada pelos cidadãos. Responsável.É muito claro que aqueles que elegemos para nos governarem só entendem estas palavras e atitudes fortes. É evidente que o sistema político que construímos desde a revolução de 25 de Abril de 1974 não funciona: os dados mostram que caminhamos para o abismo. É preciso que os cidadãos se apercebam disso. É necessário reformar, revolucionar de novo, desta vez bem. Colocar o foco no país de Norte a Sul, apostando decisivamente num desenvolvimento equilibrado que tire partido das potencialidades de todas as regiões. Esse princípio deveria estar na constituição da nova república. É preciso mudar, refundar a nossa república. Esta chegou ao fim, por maioria de razão.Uso, como se fossem minhas, as palavras de Francisco Sá Carneiro: "Cabe-nos cada vez mais dinamizar as pessoas para viverem a sua liberdade própria, para executarem o seu trabalho pessoal, para agirem concretamente na abolição das desigualdades. Para isso mais importante que a doutrinação, é levar as pessoas a pensarem, a criticarem, a discernirem"J. Norberto Pires(Editorial da revista "Robótica", Nº80, Agosto de 2010)
September 1 2010, 9:49am | Comments »
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Chumbar não ajuda em nada os alunos, Alçada dixit
http://dererummundi.blogspot.com/2010/07/chumbar-nao-ajuda-em-nada-os-alunos.html
A ministra Isabel Alçada quer ACABAR com os chumbos nas escolas. Não serve para ajudar os alunos, diz ela.Link: http://aeiou.expresso.pt/a-primeira-pagina-do-expresso=f596955Claro, é isso mesmo que se deve fazer. Não chumbar. Porque isso é uma chatice e estraga as férias. E já agora, porque não acabar com os exames, e as aulas (que são uma seca com o bom tempo que está), e a obrigatoriedade de fazer os trabalhos de casa, e qualquer tipo de trabalho ou obrigação que os alunos tenham. Não. Acabemos com isso tudo, porque em nada os ajuda.É claro que depois há a correlação com o mundo real. Mas talvez a ministra esteja a pensar colocar Portugal num mundo virtual 3D (estilo Second Life), onde não se chumbe, toda a gente tenha muito dinheiro, um desses empregos onde não se trabalha e não se é avaliado (só mesmo num mundo virtual), carreira, sucesso, montes de férias, bens materiais, etc., onde sejam "felizes". Porque no mundo real, aquele que a ministra Alçada não faz a mínima ideia como funciona, as pessoas chumbam, perdem concursos, são avaliadas diáriamente, têm de ser competitivas, têm de desenvolver capacidades e colocá-las à prova, passam por momentos difíceis (têm de passar por eles para se prepararem), têm de ser criativas, têm de ser empreendedoras, têm de aprender a ser persistentes, caiem e têm de aprender a levantar-se e prosseguir. No mundo real existem insucessos, o dinheiro é difícil de obter, é preciso trabalhar árduamente e as coisas são obtidas com esforço e dedicação. E ainda bem que existem insucessos, porque se aprende muito com isso. Aliás, aprendemos mais com o insucesso do que com o sucesso. Querer decretar o fim do insucesso, escondendo aos alunos que há tempo para tudo mas que é necessário trabalhar, ser responsável, gerir o tempo, ter objectivos e persegui-los, é verdadeiramente irresponsável e assustador.Isto é a materialização de "Uma Aventura no Governo de Portugal", por Isabel Alçada.:-(
July 31 2010, 3:38am | Comments »
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O FIM DA FIESTA
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Minha crónica no "Público" de hoje:A última corrida em Barcelona será neste ano ou no próximo. A partir de Janeiro de 2012, poderá haver sol, mas não haverá mais touros, não só na Monumental de Barcelona como em toda a região catalã, por decisão tomada pelo Parlamento da Catalunha na passada quarta-feira por 68 votos a favor, 55 contra e 9 abstenções. A votação ocorreu na sequência de uma petição dirigida ao Parlamento por 180 000 cidadãos e de um debate público, com posições muito marcadas dos dois lados. O resultado foi visto, politicamente, como uma vingança regional depois de o Tribunal Constitucional em Madrid, no início de Julho, não ter aceite alguns pontos do novo Estatuto da Catalunha. O fim das corridas seria, nessa perspectiva, um pronunciamento anti-espanhol.Eu, que não sou anti-espanhol, sinto-me nesta altura catalão. Sempre admirei Barcelona, em particular o seu ambiente cosmopolita e a sua vontade empreendedora. Estive na festa das ruas, há muitos anos, quando foi anunciada a vitória da candidatura barcelonense à organização dos Jogos Olímpicos. Depois, quando decorriam esse Jogos, estava a dar aulas nos Estados Unidos, e, para explicar aos alunos de onde é que eu era, ajudou dizer que a minha terra era perto de Barcelona, indicação que me pareceu encaixar bem no sentido vago de geografia europeia que tem um jovem estadounidense. Hoje, quando falo com colegas de Barcelona, fico sempre com a ideia que eles nos estão, ainda que subliminarmente, a propor uma aliança contra a Espanha representada por Madrid. De facto, a nossa independência ficou a dever-se precisamente à Catalunha, pois Madrid, perante duas revoltas quase simultâneas, decidiu enfrentar a que lhe parecia mais importante... Em 7 de Junho de 1640 irrompia na Catalunha uma revolta contra o centralismo do Conde-Duque de Olivares, o primeiro-ministro do rei Filipe IV (III de Portugal). O rei ordenou então ao Duque de Bragança que comparecesse em Madrid para ir com ele a Barcelona colaborar no movimento de repressão, mas o duque recusou-se a obedecer. O resto da história é conhecido: a Espanha ficou com a Catalunha, mas sem Portugal.Não tenho ilusões: este movimento catalão contra os touros é um movimento contra o centralismo madrileno. O touro é o símbolo de Espanha, em boa parte devido à marca de brandy de xerez que ergueu touros gigantes ao longo da paisagem espanhola. Pela parte que me toca declaro-me, porém, contra a “festa brava”, sem com isso me sentir inimigo de Madrid. Simplesmente acho que o espectáculo de touros é bárbaro. Revejo-me nos argumentos que Jorge Wagensberg, director do Museu de Ciência de Barcelona, e Jesús Mosterín, professor de Filosofia na Universidade de Barcelona, sustentaram no debate. Wagenberg apareceu no Parlamento de bandarilha na mão, como um físico que faz uma experiência, para mostrar que o touro sofre mesmo. E Mosterín foi ainda mais longe, ao comparar o castigo infligido aos touros com a remoção do clitóris em certas sociedades africanas: ao fim e ao cabo eram ambas práticas tradicionais.José Saramago, apesar de ser ribatejano, também não simpatizava muito com as corridas de touros, nisso contrastando com outro laureado Nobel, Ernest Hemingway, autor de Fiesta. Escreveu Saramago num dos seus Cadernos de Lanzarote: “O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer (...) Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte”.A sua mulher Pilar del Rio, a andaluza que agora quer ser portuguesa, retorquiu: “Tu não podes compreender”. E o escritor não se ficou: “Tens razão, não compreendo, não posso compreender”. Por uma vez estou de acordo com Saramago: eu também não compreendo.
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July 30 2010, 7:13pm | Comments »





