A padronização curricular, os critérios de avaliação e a sua assumida contabilidade, os projectos educativos, consolidados como actividades de planificação, servem os propósitos de uma decisão mais do âmbito do conformismo que do questionamento, ao valorizar a dimensão técnica emdetrimento da reflexiva. Depreende-se que muitas das decisões que ocorrem em contexto escolar têm como suporte uma racionalidade que obedece à lógica do mercado, como corrobora Illich quando escreve que "o resultado do processo de produção curricular assemelha-se ao de um qualquer processo mercadológico moderno. É uma embalagem de significados planejados, um pacote de valores, um bem de consumo cuja ‘ propaganda dirigida’ faz com que se torne vendável a um número suficientemente grande de pessoas para justificar o custo de produção" (1976: 79).A racionalidade instrumental é a concretização da hegemonia da cultura dominante, pois o objectivo é educar para a adaptação e reprodução das estruturas sociais como garante do próprio sistema, fazendo do sujeito um mero espectador de tudo o que vai acontecendo em seu redor.Certo, é que a este modo de racionalidade, altamente formal, baseada na lógica de relações entre meios e fins, nem sempre produz os seus frutos.As consequências imprevistas, que resultaram da sua aplicação, levam-nos a concluir que nem sempre a solução formal que apresenta é capaz de tudo prever e regulamentar, denunciando o seu carácter falível.Texto integral
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Educando para a passividade
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November 14 2010, 3:50pm | Comments »
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Das Lógicas de Acção
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Se quiséssemos resumir as implicações que esta «desmontagem» comporta para a nossa visão da organização como objecto social, teríamos de falar da complexificação considerável da noção. Comparável ponto por ponto à que March (1988) diagnostica para a noção de decisão e de escolha, esta complexificação lê-se no triplo «défice» (a respeito das ilusões da teoria clássica) que a desconstrução operada nos capítulos precedentes põe em evidência no funcionamento das organizações.Antes de tudo um «défice» de racional idade: a racionalidade limitada própria de toda a acção humana infunde tudo, tanto os comportamentos humanos no dia-a-dia como os dispositivos materiais, as regras, os procedimentos e as estruturas que supostamente os canalizam, os «racionalizam», os regulam e os articulam para objectivos colectivos. Uns e outros sofrem do mesmo mal: uma vez que são o produto da acção humana, não podem ter pretensões a uma racionalidade superior aos comportamentos que os geraram. A sua racionalidade, portanto, é também irredutivelmente limitada, ou seja é o produto de uma mistura complexa de afectividade, de rotinas apreendidas e interiorizadas por socialização, de considerações morais e éticas, e de estratégias e cálculos instrumentais.Depois, um «défice» de interdependência. Este resulta por um lado da omnipresença de elos frágeis (loose-coupling) nas organizações: os elos que ligam os membros de uma organização não têm todos, longe disso, nem a mesma intensidade, nem a mesma frequência, nem, bem entendido, a mesma importância. Não há na matéria nenhuma homogeneidade nem fluidez, mas pelo contrário heterogeneidade e descontinuidade, leia-se ruptura. Nenhuma causalidade linear e homogénea liga os elementos de um campo, o que complica notoriamente a atribuição das causas aos efeitos e vice-versa. Tanto mais que, na sua tentativa de proteger ou aumentar a sua autonomia e a sua capacidade de acção, todos os participantes de uma organização procuram naturalmente limitar por todos os meios a sua dependência em relação aos outros, «desligando» tanto quanto possível a sua função ou a sua tarefa da dos outros.Finalmente, um «défice» de legitimidade que resulta da legitimidade e da validade limitadas de todos os objectivos e fins englobantes. Por um lado, as normas, valores e registos de justificação sobre os quais se apoiam esses objectivos e esses fins não bastam para estruturar completamente os comportamentos e as interacções dos participantes. Por outro lado, não podendo ter pretensões a um valor geral e universal, são sempre relativizados pelo desenvolvimento de interesses, de valores e de sistemas de justificação parciais e locais, ou abertamente «faccionais»: a integração normativa dos participantes é sempre limitada, mesmo nas condições do management «paternalista» tradicional ou do management «cultural» moderno. As organizações são montagens complexas de vários «mundos» e repousam em princípios de legitimidade que relevam de várias «cidades» (Boltanski e Thévenot, 1987, 1990; Thévenot, 1989). Nunca se está na presença de medidas/regras/estruturas que tiram a sua legitimidade unicamente de considerações técnicas: misturam-se sempre considerações de oportunidade «política», no sentido da gestão das relações de poder e de acomodamento dos compromissos necessários entre lógicas de acção e registos de justificação.Da ideia simples e concreta de uma organização como entidade unificada e coerente ao serviço passivo de uma racionalidade única, passa-se assim à noção simultaneamente muito mais complexa, abstracta e fluida, de construção de jogo, de laço contratual, ou mais simplesmente de arena ou de contexto de acção. Estes formam o quadro no interior do qual se desenvolvem, se entrechocam e se articulam umas nas outras múltiplas estratégias de comportamento ao serviço de uma multiplicidade de racionalidades e de interesses, senão sempre contraditórias, pelo menos divergentes ou, dito de maneira ainda mais neutra, não espontaneamente convergentes. A ordem local que prevalece, apesar de tudo, tal como as regras e os mecanismos de regulação, sobre os quais ela repousa, não são nem dados nem independentes desses processos de interacção e de negociação. São o seu produto e, como tais, são sempre contingentes e problemáticos.Vê-se, através desta complexificação, que uma organização, como objecto de estudo, perde pouco a pouco o que fazia a sua particularidade, e especialmente a sua simplicidade, a sua previsibilidade e a sua finalização. Afectado por todos estes «défices», o contexto de acção particular que ela constitui não se distingue já fundamentalmente de outros contextos ou espaços de acção aparentemente menos organizados e mais difusos, nos quais as interacções e negociações entre participantes são menos estruturadas e menos codificadas, pelo menos no plano formal.É pois a relativização da organização formalizada como objecto de estudo privilegiado que é a aposta real da complexificação da noção de organização, e a sua substituição pelo estudo da génese e da manutenção daquilo a que M. Crozier e eu próprio chamámos «sistemas de acção concretos» (Crozier e Friedberg, 1977). Por esta noção, designamos estruturas de acção colectiva pelas quais são «organizados» os espaços de acção, ou seja, são construídas e perpetuadas as ordens locais graças às quais os actores conseguem estabilizar, pelo menos provisoriamente, as suas negociações e as suas interacções estratégicas.O estudo desses «processos de organização» levanta duas questões fundamentais que eu gostaria de tratar nesta segunda parte. A primeira tem a ver com a génese da estruturação dos campos que eles produzem e perpetuam: ela remete para uma análise política da dinâmica endógena dos processos de interacção compreendidos como processos de negociação e de poder, ligando os actores interdependentes de um espaço de acção determinado. A segunda questão diz respeito à natureza desta estruturação ou daqueles mecanismos de regulação e de estabilização dos processos de negociação e de poder entre os actores respectivos. Leva a relativizar fundamentalmente o lugar e a importância da formalização nessa estruturação. Daí resulta que temos de pôr em questão a dicotomia tradicional entre, por um lado, organizações formais e, por outro, contextos de acção mais difusos e mais fluidos. A realidade não corresponde minimamente a esta dicotomia, mas mais a um continuum ou a uma gradação de que teremos de fixar as dimensões.Friedberg, Erhard (1995). O Poder e a Regra- Dinâmicas da acção organizada. Lisboa:Instituto Piaget
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October 12 2010, 3:56pm | Comments »
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Galinheiros, Produtividade e Racionalidade Económica
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" Era uma vez um granjeiro[1] que criava galinhas. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista. Estudou administração para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.Aplicado à criação de galinhas esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fossem iguais ou superiores a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de "mérito galináceo": as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.Acontece que conviviam, com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer deles havia botado. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias eles se quebravam e de dentro deles saíam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saia era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:Primeiro: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.Dois: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas."Rubem Alves[1] Rendeiro ou caseiro de uma herdade. (N. do E.)
June 24 2010, 5:45pm | Comments »
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Particularmente recomendado em vésperas de decisão popular
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QUE É O ILUMINISMO?(3 de Dezembro.1783)O iluminismo é a saída do homem da menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do iluminismo.A preguiça e a cobardia são causas por que os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e também por que a outros se torna tão fácil assumirem-se como seus tutores.É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide a dieta, então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a maioria dos homens considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que se lhe tornou / quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer uma tal tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional ou, antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado a este movimento livre. São pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e iniciar então um andamento seguro.(…) Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que liberdade; e claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Mas agora ouço gritar de todos os lados: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita!(…) Mas qual é a restrição que se opõe ao iluminismo? Qual a restrição que não o impede, mas antes o fomenta? Respondo: o uso público da nossa razão deve sempre ser livre e só ele pode levar a cabo a ilustração entre os homens; o uso privado da razão pode, porém, muitas vezes coarctar – se fortemente sem que, no entanto, se impeça por isso notavelmente o progresso da ilustração.Kant. A Paz Perpétua e Outros Opúsculos (Com o agradecimento a AS)
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September 24 2009, 3:12pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Da Racionalidade
http://terrear.blogspot.com/2009/07/da-racionalidade.html
A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado das idéias, e não a propriedade de um sistema de idéias. O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. E não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências.A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas as mentes dos cientistas e técnicos e deque são desprovidos os demais. Os sábios atomistas, racionais em sua área de competência e sob a coaçãodo laboratório, podem ser completamente irracionais em política ou na vida privada.Da mesma forma, a racionalidade não é uma qualidade da qual a civilização ocidental teria omonopólio. O ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que em qualquer sociedade, mesmo arcaica, há racionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo, ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais estão também presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso. Começamos a nos tornar verdadeiramente racionais quando reconhecemos a racionalização até em nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o mito de nossa razão todapoderosa e do progresso garantido.Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro um princípio de incerteza racional: a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. isso significa que a verdadeira racionalidade não é apenas teórica, apenas crítica, mas também autocrítica.MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo, SP: Cortez; Brasilía, DF:UNESCO, 2000
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July 12 2009, 3:15pm | Comments »
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