O nosso leitor João Boaventura, em comentário a um texto do De Rerum Natura convida os leitores a lerem o poema crítico da vida académica de Coimbra intitulado O Reino da Estupidez, atribuído ao médico Francisco de Melo Franco, editado pela primeira vez em 1819, em Paris.A sua publicação aparece anunciada no Suplemento n.º 13 de 6 de Março de 1822, do Diário do Governo, com esta simples indicação: "poema, nova edição, em 12.º br., 200 réis".Lê-se, com um prólogo, a partir da pág. 138 o seguinte...
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Voltando à estupidez...
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October 9 2009, 3:57pm | Comments »
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Da Racionalidade
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A verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que lhe resiste. Opera o ir e vir incessante entre a instância lógica e a instância empírica; é o fruto do debate argumentado das idéias, e não a propriedade de um sistema de idéias. O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. E não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências.A racionalidade não é uma qualidade da qual são dotadas as mentes dos cientistas e técnicos e deque são desprovidos os demais. Os sábios atomistas, racionais em sua área de competência e sob a coaçãodo laboratório, podem ser completamente irracionais em política ou na vida privada.Da mesma forma, a racionalidade não é uma qualidade da qual a civilização ocidental teria omonopólio. O ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer cultura sob a medida do seu desempenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que em qualquer sociedade, mesmo arcaica, há racionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas, dos animais, do solo, ao mesmo tempo em que há mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais estão também presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso. Começamos a nos tornar verdadeiramente racionais quando reconhecemos a racionalização até em nossa racionalidade e reconhecemos os próprios mitos, entre os quais o mito de nossa razão todapoderosa e do progresso garantido.Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro um princípio de incerteza racional: a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. isso significa que a verdadeira racionalidade não é apenas teórica, apenas crítica, mas também autocrítica.MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo, SP: Cortez; Brasilía, DF:UNESCO, 2000
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July 12 2009, 3:15pm | Comments »
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Objectividade: invenção de professores
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«Estamos no final da era da razão […]. Um novo período de explicação mágica do mundo está a nascer, uma explicação baseada mais na vontade do que no conhecimento. Não há verdade, nem no sentido moral nem científico […]. A ciência é um fenómeno social e, como tal, é delimitada pelos benefícios e malefícios que possa causar. Com o slogan de ciência objectiva, o professorado apenas se queria libertar da indispensável supervisão do estado. Aquilo que se chama crise da ciência não é mais do que esses senhores estarem a começar a ver por si mesmos o caminho errado a que foram conduzidos pela sua objectividade e pela sua autonomia». Estas palavras, de tom apelativamente pós-moderno, são de Adolfo Hitler e quem no-las recorda é Gerald Holton, no livro A cultura científica e os seus inimigos, publicado entre nós pela Gradiva em 1998. Holton enquandra-as do seguinte modo(página 46): “Num estudo clássico, Alan Beyerchen identificou (…) pilares fundamentais da ciência ariana. Encontramos aí temas que nos lembram desconfortavelmente aqueles que se encontram de novo na moda. Uma parte da ideologia associada à ciência ariana era claro, a de que a ciência é, como agora dizem, basicamente uma construção social, de modo que a herança racial do observador «afecta directamente a perspectiva do seu trabalho». Cientistas de raças indesejáveis, portanto não serviam; de preferência, deviam ser ouvidos apenas aqueles que estivessem em harmonia com as massas, o Volk. Mais ainda, esta visão völkisch encorajou o uso de não especialistas, ideologicamente seleccionados, como participantes em apreciações de assuntos técnicos (…). O carácter internacional dos mecanismos de consenso utilizados para chegar a acordo em questões científicas era também detestável para os ideólogos nazis. O materialismo mecanicista (…) devia ser banido da ciência e a física teria de ser reinterpretada como dizendo respeito ao espírito, e não à matéria. «Os aderentes à física ariana baniram assim da ciência a objectividade e o internacionalismo. […] A objectividade em ciência era meramente um slogan inventado por professores para proteger os seus interesses» Em boa hora, nas comemorações do 65.º aniversário do desembarque das forças aliadas na Normandia, Barack Obama pediu que as lições desse desembarque não sejam esquecidas. E afirmou: "num momento de perigo máximo e no meio das circunstâncias mais terríveis, homens que se achavam normais descobriram que poderiam fazer o extraordinário". Se se pensar bem, o extraordinário que esses homens, quase todos jovens, fizeram foi enfrentar a morte para salvar a Razão. Devemos-lhe isso e a obrigação de a manter, o que talvez seja a maior das lições que podemos retirar do Dia D.
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June 6 2009, 3:41pm | Comments »
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Reintroduzir o emocional
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«É a razão que faz o homem,mas é a emoção que o conduz.»ROUSSEAUMotivar é antes de tudo comover e transmitir uma emoção. Na «escala de Richter» da motivação, a emoção desempenha um papel chave e constitui um elemento essencial para preservar a dinâmica motivacional. Etimologicamente, os termos de motivação e de emoção[1] estão intimamente ligados, contudo a associação destas duas noções é ainda uma «terra incognita».Reintroduzir o parâmetro afectivo no seio das organizações constitui hoje um verdadeiro desafio. Se o emocional é omnipresente, a invocação da dimensão afectiva continua muitas vezes assunto tabu. O racionalismo envolvente oculta o papel e o lugar das emoções, esquecendo que não há empenhamento nem verdadeira decisão sem impacto emocional.[1] Do latim «movere»: mover-se e comover-se (N. da E. Original)Fonte: Xavier Montserrat, obra citada
May 21 2009, 1:57pm | Comments »
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A MATANÇA DOS PORCOS
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Minha crónica no "Público" de hoje:A matança do porco é, em muitas aldeias portuguesas, uma festa popular. Realiza-se tradicionalmente nos meses mais frios do ano (“No dia de Santo André, pega o porco pelo pé”) uma vez que nessa época a conservação das vitualhas é mais fácil. E quase tudo se aproveita, seja para a salgadeira seja para o fumeiro. Pode o porco estar associado ao sujo (entre nós ainda há quem diga “com licença” quando profere a palavra “porco”), que ele não deixa, seja em costeleta ou em farinheira, de ser uma iguaria muito apreciada.No entanto, essa festa de tão grande tradição em terras cristãs é simplesmente inimaginável em Israel e nos países árabes, que nisso não se distinguem. A origem da interdição da carne suína parece residir no terceiro livro da Bíblia, o Levítico, supostamente escrito por Mosés: “Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não remói, vos será imundo.” Passagens semelhantes encontram-se no Alcorão, sendo obedecida de modo tão estrito que, em países islâmicos, como o Irão ou o Qatar, o comércio de carne de porco é severamente restringido.Com a recente erupção da gripe A H1N1, que começou impropriamente por ser designada por gripe suína, o consumo da carne de porco tem diminuído consideravelmente nos países onde era comum. Trata-se de um comportamento irracional pois, tal como a Organização Mundial de Saúde e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação têm esclarecido, a ingestão de carne de porco devidamente cozinhada não acarreta quaisquer perigos para a saúde humana (os eventuais vírus são destruídos a temperaturas superiores a 70 graus Celsius). As mesmas organizações internacionais não se esquecem de acrescentar que comer carne de animais doentes ou de animais encontrados mortos é um risco para a saúde. Mas esta medida de elementar precaução é válida obviamente para qualquer tipo de carne e não apenas para o porco e para todas as ocasiões e não apenas a de uma epidemia de gripe.No Egipto, porém, o consumo de carne de porco corre o risco de diminuir para zero, não por escolha das populações, que são maioritariamente árabes, mas por determinação do governo. Este mandou há dias exterminar a totalidade dos porcos do país, em número estimado de cerca de 350 000. Que haja comportamentos irracionais dos indivíduos é um facto conhecido e ao qual já nos habituámos, mas que a irracionalidade ganhe foros de decisão governamental e cause prejuízos graves é algo a que não nos podemos habituar. No Egipto não há até agora um único caso de infecção pela nova gripe. A decretada matança dos porcos parece ser mais um acto de discriminação sócio-religiosa contra a minoria dos cristãos coptas, os descendentes dos egípcios do tempo dos faraós, que perfazem dez por cento da população. Como os coptas, além de comerem com frequência carne de porco, são os proprietários das explorações porcinas, a medida pode visar, em última análise, a sua aniquilação económica, somando-se como “solução final” a toda uma série de perseguições iníquas de que têm sido vítimas. No passado fim de semana os agentes do Ministério da Saúde que tentaram iniciar a grande matança foram recebidos à pedrada nos subúrbios pobres do Cairo, tendo os confrontos degenerado em batalhas campais com a polícia. A guerra terá sido exacerbada pela afirmação inaudita do Ministro da Saúde de que não haveria lugar a indemnizações, pois a carne poderia ser consumida pelos próprios... Brigitte Bardot já escreveu ao presidente Mubarak a interceder pelos animais e seria bom que não estivesse sozinha: não se trata só de defender os porcos, mas também e principalmente de defender os humanos.Ocasiões como a actual de eminência de uma pandemia são propícias ao espalhamento, para além do vírus, que já de si é perigoso, do medo irracional do vírus, que lhe amplia o perigo. O medo pode gerar monstros, pode acordar os monstros que, em nós, estão adormecidos. E é bom, por isso, que o nosso Ministério da Saúde tenha aqui conseguido conter o medo.
May 7 2009, 6:45pm | Comments »
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