Ontem, a última lição dos alunos do curso SPAD do Porto. Com uma diversidade de métodos, suportes, interpelações, memórias. Seguida de um jantar na Praia da Luz. Belo sítio, belo nome. E belos, sobretudo, os momentos de evocação de um percurso de múltiplas aprendizagens. De gratificação pessoal e profissional. De saberes, de sabores. Relembrando, EPC:“Sabemos que, em latim, havia duas formas concorrentes: o sapere e o scrire. De scire veio toda a nossa ciência. Mas scire corresponde à ideia de um conhecimento que apreende o objecto na medida em que o separa, o recorta, o divide, em relação às restantes coisas. É um gesto de discernir ou de distinguir. O sapere aproxima-se das coisas a partir do que elas têm de único: o sabor, o gosto. Sucede que sapere se foi sobrepondo a scire e deu o saber de que hoje dispomos, mas um saber que recolheu as características mais puritanas da tradição científica: e fica um saber que não sabe a nada”.Mas aqui, neste curso -como aliás, no de Lisboa, o saber não perdeu o sapere. A festa final organizada pelos alunos foi a evidência disto mesmo. Por isso, feliz por ter sido implicado nesta comemoração de um final que será um início. Obrigado a todos e a todas.
-
João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
A Festa
http://terrear.blogspot.com/2009/11/festa.html
November 28 2009, 4:47pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Saberes, Sabores e o Défice de Mediação
http://terrear.blogspot.com/2009/05/saberes-sabores-e-o-defice-de-mediacao.html
(...)Notre École manque de médiations : les savoirs enseignés n’ont souventaucune saveur, pour reprendre le titre d’un beau livre récent de Jean-Pierre Astolfi(La saveur des savoirs, ESF, 2008) et les dispositifs proposés sont souvent absurdesou obsolètes : comment mobiliser des élèves sur le travail intellectuel dans desétablissements qui vivent au rythme des sonneries stridentes, d’emplois du tempsabsurdes, sous le signe de l’anonymat généralisé et de la déresponsabilisationpermanente ?La pédagogie est, justement, le travail sur les médiations : sur les oeuvres, lessavoirs et les institutions… tout ce qui permet de se mettre en jeu « à propos dequelque chose ». La pédagogie institue ce qui, à la fois, relie les êtres entre eux etleur permet de se distinguer.(...)Philippe Meirieu a propósito do filme "Entre les Murs" (que vale a pena ver e problematizar)Texto Completo
May 10 2009, 4:21pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
SAPIENTIA
http://terrear.blogspot.com/2009/04/sapientia.html
Há um verso de T. S. Eliot que, creio, se aplica à experiência de Barthes: “E o fim de todas as nossas explorações será chegar ao lugar de onde partimos e conhecê-lo então pela primeira vez”.Os caminhos da alma são circulares, voltam sempre ao princípio. Ao final de sua longa caminhada de vida inteira pelos caminhos da ciência, ele se descobre chegando ao lugar de onde partira: o lugar da criança. Sapientia é conhecer a vida pela boca. É assim que a criancinha conhece o mundo, misticamente, de olhos fechados, a boca sugando o seio da mãe. Seio: primeira e inesquecível metáfora para o mundo. O mundo tem de ser um objeto de deleite. “Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível ”. O sabor vive naquilo onde a visão morre: o contato. Os olhos são amantes apolíneos: sentem-se felizes em contemplar, de longe, o objeto amado. Mas a boca é dionisíaca: precisa comer o objeto amado…Barthes anuncia aos seus ouvintes perplexos que está abandonando os respeitáveis instrumentos da ciência. Deixou a sala de aula, lugar dos saberes. Está se transferindo para a cozinha, lugar dos sabores.Há textos que se parecem com uma lisa superfície de gelo sobre a qual o leitor desliza. O pensamento se move fácil: tudo lhe é conhecido com familiaridade. Mas, ao final desse exercício de patinação sobre o conhecido, o pensamento continua o mesmo. Quando as palavras deslizam suavemente como um patinador sobre o gelo, é certo que nada de novo irá surgir. Ao final tudo estará como sempre foi. Bem que Hegel advertiu que “o que é conhecido com familiaridade não é, de fato, conhecido, pela simples razão de ser familiar”. Barthes, mestre nas sutilezas da psicanálise, sabia que a verdade aparece no lapsus, quando o familiar é rachado, quando o pensamento tropeça. O francês tem uma palavra para sabedoria. É sagesse, palavra familiar, conhecida por todos. Barthes poderia tê-la usado. Não o fez. No lugar de sagesse usou sapientia, latim. Barthes usou o latim para provocar uma queda. Sagesse, sabedoria, todo mundo pensa saber o que é. Mas, na “encruzilhada da etimologia” ele encontra sapientia, que quer dizer conhecimento saboroso. Sapere, em latim, tem o duplo sentido de “saber” e “ter sabor”. Essa duplicidade de sentidos está preservada e esquecida no português. O Aurélio registra,para o verbo “saber”, ao lado do seu uso comum de “ter conhecimento”, o uso já fora de moda de “ter o sabor de”. Lembro-me do tempo em que se dizia: “Essa comida sabe bem”, isso é, “essa comida é saborosa”. A “encruzilhada da etimologia” nos remete para o lugar onde os saberes do “eu” e os saberes do “corpo” entram em conflito, colidem, chocam-se. O eu conhece com os olhos, vai vendo o mundo e dizendo o que sabe com idéias claras e distintas. O corpo, coisa viva, usa os olhos para ver os frutos à beira do caminho — ver para comer. Aí, quando come, lhe faltam palavras para comunicar os sabores dos frutos que come.Como dizer o gosto de um morango? A falta de clareza e distinção das palavras da sapientia não se deve a um defeito de comunicação que pode ser corrigido. Os sabores são, essencialmente, segredos, incomunicáveis. O objeto da sapientia está além das palavras. Um enunciado científico diz um saber. Tudo o que precisa ser sabido se encontra no dito. A linguagem científica, dos saberes, não contém segredos. Posso confiar nas palavras, ficar com o que elas dizem. Devo tomá-las ao pé da letra, literalmente. Elas são fidedignas. O eu é a casa onde moram as palavras que não têm segredos. É com estas palavras que o eu é feito. O corpo diz: “Isso é saboroso”. Ouço, entendo as palavras. Sei o que elas significam. A despeito disso, continuo “sem saber”, ou melhor, “sem sabor”. Nada sei sobre osabor do saboroso. Para o sabor não há palavras. “Isso é saboroso”: essa afirmação não diz o sabor. O sabor não mora nela. Ela é usada como um ponto de exclamação e, ao mesmo tempo, como um dedo que aponta. Ela enuncia uma experiência de prazer e diz onde ele se encontra. Aspalavras do saber, ao contrário, contém o seu objeto: o objeto do conhecimento é o seu enunciado. Na ciência os saberes se fazem com palavras: artigos em periódicos. Assim, nas escolas as “provas” se fazem com palavras. Os vestibulares, igualmente, são feitos com palavras.Passa quem sabe as palavras certas. Para os saberes, as palavras bastam. Escola não ensina sabor. Não há formas de “avaliar” o sabor. As palavras do sabor são bolsos vazios. Neles não háobjetos que possam ser ditos. O sabor sempre fala sobre algo que não se encontra nas palavras. Para se saber o sabor do saboroso é preciso ir além das palavras, ao lugar onde o prazer acontece. Por isso não se pode nunca tomar as palavras do corpo “literalmente”. Com as palavrasdo corpo há de se trabalhar sempre com aquilo a que Nietzsche deu o nome de “a arte da desconfiança”. Essas palavras-bolso, cujo sentido está sempre fora delas, são o que se chama metáfora. Vale aqui o que disse Wittgensteinsobre sua própria filosofia: andaime. Andaimes cercam a casa, mas não são a casa. Construída a casa, desmontam-se os andaimes. Atingido o sabor, desmontam-se as palavras. O sabor mora no silêncio. As funduras do corpo estão além das palavras. Moram no silêncio. Os sabores são inefáveis, o prazer é inefável, não pode serdito. “A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá”, disse Manoel de Barros.(...)Rubem AlvesLivro Sem Fim
April 25 2009, 4:57pm | Comments »
1

