Uma pequena crónica, vinda de Tormes (e pedindo desculpa pela desformatação da tabela - que vou tentar corrigir): Era Tormes e estava de ananases…mesmo à sombra da latada das centenárias videiras verticais, abrigados da torreira do sol escaldante pelas vetustas paredes graníticas do velho casarão, Jacinto, Zé Fernandes, José Maria e outros vencidos da vida, não escapavam ao efeito da canícula de Julho, e a paisagem que se estendia languidamente do terraço do casarão até ao Douro obrigatória e intermitentemente era refrescada por uns tragos do verde de produção doméstica, néctar da quinta de Tormes já por diversas vezes premiado em concursos internacionais, e muito elogiado por famosos enólogos.Com efeito, após aquele capão dourado em forno de lenha com o tal arroz de favas, preparado pela tia Vicência e servido pela criada de rijos e volumosos seios, acompanhado do verde tinto vazado do alto da bojuda infusa, só mesmo uma amena cavaqueira naquele magnifico cenário duriense os manteria mal acordados, impedindo-os de cair no sono vadio da sesta…Jacinto, que ainda mantinha alguns hábitos que adquirira no 202, dificilmente se separava do seu portátil e respectiva internet de banda larga, de repente e como que a espantar a sonolência que sorrateiramente se ia apoderando do grupo, fala uns decibéis mais altos:-Lá vêm estes tipos rosnar novamente contra os professores, e mais uma vez a envenenar a opinião pública, afirmando que os professores portugueses no topo de carreira são os mais bem pagos da Europa, tendo em conta o rendimento per capita. Isto, dito desta forma, é pura manipulação!Efectivamente, este governo especializou-se em denegrir a função pública em geral e os professores em particular, tentando virar a população contra estes profissionais, qual bode expiatório de todos os males do país, nomeadamente do famigerado défice orçamental. E mais uma vez os cães de fila vieram a terreiro dar a boa nova: num estudo sobre Educação na Europa patrocinado pela Comissão Europeia e publicado no dia 16 de Julho, e que contem mais de uma centena de indicadores, os nossos ilustres jornalistas só conseguiram decifrar um único indicador: os chorudos ordenados dos professores lusitanos!Ora, sendo eu professor há 27 anos e estando no topo da carreira, não me lamentando do ordenado auferido, também tenho perfeita consciência de que 3000€ ilíquidos mensais não são propriamente uma fortuna, e por isso decidi averiguar melhor a questão. Como não consegui aceder ao dito estudo, recorri à OCDE, instituição idónea e bastante credível, acima de quaisquer suspeitas e a salvo de influências comunistas, socialistas, sindicalistas, e de outras forças malignas…Dessa consulta pelo sítio da OCDE, recolhi os seguintes dados inseridos na tabela seguinte:(1) Salário inicio car.(2) Salário 15 anos serviço(3) Salário topo carreira(4) Rend. per capita,USD, ppc(3)/(4)Portugal20 07232 86651 55221 8002,36Espanha37 95744 14653 78230 7001,75Grécia26 26232 03038 52529 0001,33Itália26 08432 78140 93429 8001,37França26 04534 09549 15532 7001,50Bélgica35 96051 79962 21435 0001,78Holanda34 01762 07368 44638 7001,77Alemanha45 19355 40457 89033 7001,72Áustria28 18640 40459 95837 7001,59Finlândia30 96242 44053 86735 3001,53Suécia28 36934 08638 76036 6001,06Suiça54 04270 34682 95439 9002,08Japão26 25649 09764 49933 5001,93Coreia30 40552 54384 13924 8003,39OCDE (média)31 11043 36052 36932 3001,62Salários em início de carreira, ao fim de 15 anos de serviço e no topo/fim de carreira, valores para o ano de 2006, medidos em USD, ppc e (paridade de poder de compra) Rendimento per capita para o ano de 2007, também em USD, ppcComo podemos observar, de facto Portugal é o país europeu com o rácio salário fim carreira / rendimento per capita mais elevado. Por isso não fazemos o discurso dos coitadinhos, tenham dó de nós. Mas é igualmente verdade que somos de longe o país com menor salário em início de carreira, com cerca de dois terços da média da OCDE; a progressão na carreira é lenta, pois ao fim de 15 anos continuamos com um dos mais baixos salários, representando apenas 75,8% da média da OCDE; e só em fins de carreira temos um salário que está praticamente dentro da média dos países daquela organização. E já agora, aqui vai uma “la palissada”: um rácio é um simples quociente; e se ele é elevado, das duas, três: o numerador é alto; o denominador é baixo; os dois simultaneamente. Ora, parece-nos evidente que o rendimento per capita português é que está bastante abaixo da média da OCDE, representando apenas 67,5% desta, enquanto que o salário em fim de carreira é praticamente igual, até ligeiramente abaixo, 98,5% da média da OCDE. Talvez se tivéssemos elites empresariais e governantes que estimulassem mais a produtividade do trabalho e a justiça na repartição do rendimento nacional, o rendimento per capita subisse mais um pouco e assim os professores portugueses deixavam de ser os privilegiados que são!Já batiam as seis badaladas do sino da torre do relógio, e com as águas do Douro a ficarem revoltas a adivinhar a borrasca que se adivinhava, José Maria rematou a conversa que já ia longa e chegou a gerar acesa polémica: - Enquanto Portugal tiver como ministros vultos de cultura e ética como o Conde Alípio Abranhos, o Conselheiro Acácio, o Eusebiozinho ou o Dâmaso Salcede, jamais chegará a bom porto…talvez a explicação se encontre no menino do lapedo!E agora está na hora de comermos uma canja do capão servido pela moça da blusa diáfana de rijos e abundantes seios…J Augusto Rodrigues
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Era Tormes e estava de ananases…
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July 21 2009, 1:41pm | Comments »
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