Sistemas de ensino como o nosso estão virados para a aquisição de competências (seja lá isso o que for…) apuradas no e para o quotidiano, a vida dos alunos, focadas no “saber-ser” e “saber-fazer”, como forma de preparação para a “vida activa”, para a prática, para a aplicação, para a integração social e profissional…Sistemas educativos como o nosso afastam dos curricula os conhecimentos que se suspeita não poderem ser “mobilizados”, de imediato, para a “resolução de problemas reais”, com o argumento de que os alunos, por não lhe verem qualquer serventia, se desmotivam …Sistemas educativos como o nosso proclamam que todos os conhecimentos são relativos e se equivalem: aqueles que consideramos eruditos e universais não passam de escolhas, mais ou menos aleatórias, de elites estabelecidas, que as transmitem aos seus descendentes com o intento de manterem o seu estatuto privilegiado. A estratégia igualitária só pode ser a reacção “crítica” e “emancipatória” que legitima a substituição desses conhecimentos por outros que emergem nos mais variados contextos culturais, étnicos... e que têm sentido nesses mesmos contextos.Assim sendo, sistemas educativos como o nosso põem em risco o saber que a civilização tem conseguido construir e que, afinal, lhe dá identidade. Praticamente todas disciplinas que constituem esse saber, sejam elas de carácter científico ou humanístico, se vêem ameaçadas de morte, restando-lhe lutar, em sentido contrário ao das orientações oficiais, pela sobrevivência dos seus fundamentos e essência, como forma de as fazer chegar ao futuro.De entre essas disciplinas, as Clássicas são talvez as que mais se têm ressentido. Nesta lógica que conforma a escolaridade, marcada pelo utilitarismo e “amnésia planificada”, como chama George Steiner, que temos vindo a deixar instalar, elas não “servem” rigorosamente para nada. Se não, vejamos: pertencem ao passado, estão, portanto afastadas dos interesses actuais da esmagadora maioria dos alunos e não se vê como os poderão ajudar a arranjarem um emprego que lhe garanta a “autonomia económica”.Interditar as Clássicas seria, no entanto, excessivo. (Ainda) há vozes capazes de se manifestarem, vozes que, apesar de tudo, causam algum embaraço. Assim, a solução encontrada é, como refere ironicamente Margarida Lopes Miranda, a atribuição de uma espécie de “reserva ecológica”, onde essas vozes se acomodem.Contudo, vejo os nossos classistas, parafraseando o físico-matemático Alan Sokal, “transgredirem as fronteiras” de tais reservas. Nas escolas e nas universidades vejo os professores continuarem a ensinar com entusiasmo os seus alunos; vejo investigadores de todas as idades a traduzirem textos de grandes autores, alguns deles originais, para a nossa língua, em edições académicas e de divulgação; vejo-os a criar colecções em papel e on-line, cuidando que a linguagem não seja uma barreira, mesmo entre os menos cultos; vejo-os a adaptarem peças de teatro de modo que as pessoas comuns as entendam e a representarem-nas por aí, por onde essas pessoas estão; vejo-os a estudarem aprofundadamente aspectos particulares da vida na Antiguidade, da maneira de pensar, sentir e agir de personagens que, distantes de nós no tempo, poderiam ser nós próprios; vejo-os a participarem em debates, tertúlias para darem a conhecer os seus autores e obras mais amadas…Apesar de todos ventos parecerem soprar a desfavor, vejo as clássicas a renascer.
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“Transgredir as fronteiras”
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April 5 2009, 12:24pm | Comments »
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“Como houveram protestos"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/como-houveram-protestos.html
Hoje várias pessoas me perguntaram se tinha ouvido, na rádio, a crónica de Dona Rosete. Não a ouvi, mas a curiosidade levou-me a lê-a agora e não resisto partilhá-la directamente, “sem links”, com os nossos leitores (peço desculpa pela liberdade que tomei ao mudar o título). Obrigada Maria Rueff e equipa pelo bom humor."As pessoas, também, quando é para maçar, não deslargam um indivíduo. Estava o engenheiro Sócrates a pensar que mais nada lhe podia acontecer, e lá se puseram a implicar outra vez com o Governo, agora porque o Magalhães, o computador, dá erros de português. E eu pergunto: ó senhores, mas errar não é humano? Então se é humano, isso só prova como o Magalhães é um computador ultra-avançado! A sério – olhando para estes erros que agora foram divulgados, parece-me que o Magalhães está mesmo a um passinho de fazer coisas nunca vistas num computador como... escarrar no chão, por exemplo!“Erros, erros”... Ó senhores, não percebem que o facto do Magalhães falar mal é para o aproximar da petizada, que cada vez fala e escreve pior? Aquilo faz tudo parte de um plano. Se as coisas estivessem bem escritas, como é que a rapaziada percebia o que é que a maquineta queria? O Magalhães é o primeiro computador que fala a língua da juventude, estão a compreender? Por isso é que em vez de “jogaste”, tudo junto, ele diz “jogas”, tracinho, “te”. E em vez de “gostaste”, ele diz “gostas”, tracinho, “te”.Diz que o Magalhães diz lá, a certa altura, “neste processador, podes escrever a texto que quiseres”. Isto de falar de uma coisa masculina como se fosse feminina – “a texto” – é uma coisa que eu, até agora, só tinha ouvido na boca de uma pessoa: a mulher-a-dias ucraniana dos senhores do terceiro direito, lá do meu prédio. O que mostra como o Magalhães não só fala a língua da juventude, mas também a dos imigrantes que escolheram o nosso país como a terra das oportunidades. E é! Olha, uma coisa em que eles podem trabalhar agora cá, é a fazer correctores ortográficos para o Magalhães! Tenho a sensação que se abriu aí um nicho de emprego, com esta linguagem, vamos chamar-lhe, universal que o nosso Magalhães fala agora.O computador ainda diz, por exemplo, e a respeito ainda dos textos, que se o petiz que o estiver a usar, estiver a escrever um texto, pode “gravar-lo e continuar-lo mais tarde”. Eu acho que isto não é erro; isto soa-me é a português antigo. O que faz sentido – o computador tem o nome de um navegador dos Descobrimentos e fala como ele!O Ministério da Educação, perante tanto dedo espetado na direcção dele, lá emitiu um pedido de desculpas. Aliás, eu trouxe-o aqui, posso lê-lo. Diz assim: “Como houveram protestos, o Munistério pede desculpas ao pessoal a quem isto trusse sarilhos. Deve de ter sido munto prujudicial. Obrigadinhas.”Publicado em: http://tsf.sapo.pt/blogs/donarosete/archive/2009/03/12/erros-do-magalh-227-es.aspx
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March 12 2009, 2:26pm | Comments »
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Desinstale-se…
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Na zona Centro do País (nas outras zonas deve ser igual) recebem os encarregados de educação em sua casa, através dos seus educandos, fotocópia duma mensagem da Direcção Regional de Educação dirigida ao Presidente do Conselho Executivo/Director(a) Pedagógico(a), que solicita a colaboração de várias pessoas - coordenador TIC, professores, pais... - na desinstalação "com a máxima urgência" do tal software com erros que veio com o "Magalhães". Estão ausentes expressões tão simples quantos estas: "pedimos desculpa", "por favor", "agradecemos"...Seguem-se 6 páginas de instruções e imagens – com a da mensagem são 7. Multiplique-se este número de páginas pelo número de professores e de alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico… São umas valentes resmas de papel!
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March 12 2009, 2:04pm | Comments »
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“Mas a lei muda-se de um dia para o outro...”
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Novo post de Rui Baptista sobre educação, desta vez sobre as responsabilidades pelo descalabro educativo:“A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais” (Aristóteles).Num comentário ao meu último post, assumindo a recusa em comungar do desalento do poeta do “Orpheu” – “Já nada me importo/ Até com o que amo ou creio amar./ Sou um navio que chegou a um porto/ E cujo movimento é ali estar” -, deixei a promessa de um novo texto sobre o sistema educativo. Aqui está.No uso da licença e da liberdade de quem “não pede favor senão justiça”(Padre António Vieira), chegou a hora de se exigirem contas aos responsáveis pelo estado caótico a que chegou a educação em Portugal e a que não é estranho o Estatuto da Carreira Docente promulgado por Roberto Carneiro em grande clima de pressão sindical. Esse estado caótico foi reconhecido por António Guterres no início do seu consulado como primeiro-ministro ao eleger a educação como a sua grande paixão: “De repente, perante a obstinação dos que teimam em não acreditar na realidade, o Portugal novo-rico tornou-se no Portugal novo-pobre. Pobre porque pobre na qualificação das pessoas. Aí estão a comprová-lo os números terríveis do Estudo Nacional de Literacia recentemente publicados”.Infelizmente essa paixão transformou-se no amor da símia que de tanto amar a sua cria a aperta de encontro ao peito até a asfixiar! Em finais de 98, a OCDE lançou um megainquérito em vários países sobre as competências dos alunos com 15 anos de idade no fim da escolaridade obrigatória. Mas Portugal não participou nesse inquérito! Era então secretária de Estado da Educação no governo de Guterres Ana Benavente. Foi essa governante que consentiu a promiscuidade docente de licenciados por universidades e por escolas superiores de educação no 2.º ciclo do ensino básico. Como alertei em tempo, existiam “quase 6000 professores formados pelas escolas superiores de educação a leccionarem no 2.º ciclo do ensino básico (numa altura em que se assiste a um decréscimo demográfico) não é número que se despreze por irrelevante” (Correio da Manhã, 17/07/96). E, segundo Valter Lemos, actual secretário de Estado da Educação, na altura docente da Escola Superior de Educação de Castelo Branco, os alunos licenciados por esta escola ascendiam na altura a 5810 (Público, 25/05/96). Mas quase não havia alunos a estudar para serem professores do 1º ciclo do ensino básico.Pouco depois, como escrevi também, Ana Benavente, em descarte de responsabilidades, “numa reunião do Conselho Nacional de Educação, ‘salientando a importância do 1.º ciclo do ensino básico’, em vez de procurar um tratamento de choque para uma grave maleita que se avizinha, satisfaz-se em receitar a mezinha do apelo a este Conselho para que organize um colóquio sobre este nível de ensino, dando, segundo as suas próprias palavras, ‘um contributo muito importante’ para a sua valorização na sociedade. A um doente com uma grave pneumonia será suficiente receitar-lhe uma simples aspirina?” (Público, 30/05/96).Os resultados da desastrosa medida de atribuir às escolas superiores de educação competência para licenciar professores do 2.º ciclo, descurando os bacharelatos para a docência do 1.º ciclo, não se fizeram esperar. Segundo um relatório das Caritas Europeia (referido no Jornal da SIC, 8/02/2001) “um em cada dois portugueses não percebe o que lê”. No dia seguinte, o jornal Público noticiava não menor escândalo: “Zero foi a pontuação obtida na realização de problemas matemáticos por 40% do 118 mil alunos, do 4.º e 6.º anos de escolaridade, que efectuaram provas de aferição, no ano lectivo de 2000/2001”.Entretanto, quando constava estar a ser preparada legislação que viria a permitir aos licenciados pelas escolas superiores de educação leccionarem o 3.º ciclo do ensino básico, foi a direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados recebida por Ana Benavente. Foi-lhe posta a questão. Fazendo jus à proverbial ambiguidade dos políticos, fechou-se em copas, mas sem deixar de mostrar um ar agastado. Chamando-lhe eu a atenção para o facto de a Lei de Bases do Sistema Educativo contemplar, apenas e tão-só, essa docência a docentes licenciados por universidades, ela, sem se dar por achada, “bamboleando três vezes a cabeça como quem prefacia uma revelação ponderosa” (Camilo Castelo Branco), retorquiu: “Mas a lei muda-se de um dia para o outro…” Um país que não preserva padrões de excelência, desrespeitando até direitos atribuídos às licenciaturas anteriores ao Processo de Bolonha e que sobrevaloriza as licenciaturas do ensino politécnico pondo-as ao serviço de poderosos lobbies de sindicatos que defendiam os professores com menor habilitação académica, sofre de maleita grave, necessitando de uma terapia urgente que não se compadece com paninhos quentes. E a educação, porque é um assunto demasiado sério para servir de experimentação de reformas sem nexo, necessita de um tratamento de choque a cargo de médicos competentes e não de simples curandeiros.
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February 25 2009, 3:27pm | Comments »
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Avaliar a Educação - I
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O ProblemaMaria Regina Rocha opina sobre a avaliação do desempenho dos professores de que se fala, que se tenta implementar, que se altera... e de como ela constitui, no presente, um sério problema do e no sistema educativo.Parece óbvio que está instalado o caos na Educação: a Ministra da Educação critica duramente e é duramente criticada, mantendo o discurso de que «não cede nos princípios do modelo de avaliação» desenhado no Decreto Regulamentar n.º 2/2008, como se recuar numa medida polémica atendendo ao que a esmagadora maioria dos profissionais da classe diz fosse um sinal de má governação (quando é precisamente sinal de que o governante tem em consideração o que o seu povo lhe diz, como deveria sempre acontecer) ou como se aquele decreto fosse a própria essência da avaliação e não apenas um conjunto de artigos que pode, naturalmente, ser substituído por outro (o normal nas leis é precisamente o serem substituídas por outras consideradas melhores, e os bons governantes são os que as vão melhorando, de modo a que, por elas, melhorem as condições de vida dos cidadãos); os sindicatos assinaram um memorando com o qual afinal não concordam plenamente e tardam em apresentar uma alternativa clara consensual; muitos professores não se sentem representados pelos sindicatos, tanto que criam movimentos independentes e lamentam que a tutela não os ouça, sentindo-se desconsiderados, insultados, desalentados; os alunos estão descontentes; os pais, apreensivos; os partidos políticos em oposição ao Governo tentam tirar dividendos da situação, uma situação da qual nenhum partido deveria tentar tirar dividendos, pois são todos co-responsáveis. Toda a gente fala e ninguém realmente se ouve nem se entende...Mas, afinal, o que é que está realmente em causa? Porque é que o Ministério da Educação tenta instalar a todo o custo este modelo de avaliação dos professores?Já todos sabemos porque é que os professores o contestam. Das diversas razões que invocam, salientam-se as seguintes: os professores não querem ser avaliados em função dos resultados dos seus alunos ou do abandono escolar destes, visto haver muitos factores que condicionam esse insucesso, nomeadamente os próprios alunos, com o seu interesse e trabalho; os professores titulares não querem ser avaliados pelos próprios colegas, essencialmente porque essa avaliação será sempre sentida como pouco credível, dadas as relações de convivência que se estabelecem entre profissionais que desempenham as mesmas funções durante anos na mesma escola e, também, porque muitos dos avaliadores têm habilitação inferior ou diferente da do avaliado, a mesma experiência e anos de serviço ou até menos; os professores não querem ser sujeitos a quotas de Excelente e de Muito Bom, pois o mérito absoluto de cada professor deveria ser considerado, independentemente de um número artificial criado pela tutela; os instrumentos de avaliação são diferentes de escola para escola, o que cria injustiças; o processo exige grande dispêndio de tempo de todos os intervenientes de uma classe já exausta por tantas tarefas que lhe são cometidas além das de ensinar.São objecções razoáveis: porque é que a tutela não as considera?A recusa em aceitar revogar o decreto da polémica faz com que se pense que o Ministério da Educação tem, com este modelo de avaliação do desempenho docente, três propósitos: (1) conseguir melhores resultados escolares, independentemente da qualidade das aprendizagens dos alunos; (2) avaliar os professores sem custos financeiros, pois os professores avaliadores continuam a leccionar o mesmo número de turmas, a ter todo o trabalho que tinham e ainda por cima o de avaliar os colegas (no período destinado à preparação de aulas e de materiais, elaboração e correcção de testes, reuniões de conselho de turma, de departamento e outras, etc., também fazem essa avaliação); (3) fazer sentir aos professores (e à opinião pública) que, se estes não progridem mais rapidamente na carreira, não é porque o Ministério da Educação não os queira remunerar melhor, mas porque não são professores muito bons (quando, afinal, define quotas para essas classificações), o que significa responsabilizar os professores pelos males da Educação, desresponsabilizando o próprio Ministério.Este último é um aspecto muito importante, quiçá o mais determinante na tentativa de manutenção do referido decreto: parece saltar à vista que o Ministério da Educação tenta denodadamente fazer aplicar este modelo de avaliação porque pretende gastar menos no pagamento de salários aos professores que progridam na carreira. Em vez de o admitir, apresenta um modelo de avaliação que retarda a progressão, e, estrategicamente, lança o labéu da falta de qualidade sobre os professores, como se estes fossem os responsáveis pela alegada falta de sucesso dos alunos, e isto porque não têm sido avaliados.Mas os professores têm, sim, sido avaliados: o modelo era outro; havia, no entanto, quem não progredisse e quem saísse da profissão na sequência da instauração de processos pela Inspecção-Geral de Educação. Eram poucos casos, dir-se-á, mas, naturalmente, teriam mesmo de ser poucos, pois, para se desempenhar a função de professor, existe logo no início da carreira um estágio (no qual há reprovações), e todo o trabalho do professor é, nas escolas, acompanhado pelos respectivos coordenadores e órgãos de gestão, sendo os professores obrigados a cumprir os programas emanados do ministério, a cumprir todas as directrizes não só do Conselho Pedagógico como dos restantes órgãos, a apresentar aos alunos e pais os critérios de avaliação, a justificar notas, a responder a recursos dos encarregados de educação, a frequentar acções de formação contínua, etc., e a fazer periodicamente um relatório crítico da sua actividade, analisado pelos órgãos de gestão da sua escola: trata-se de uma profissão exposta, existindo diversos mecanismos de regulação directa e indirecta.Assim, foi um atentado à verdade e a esta classe profissional o Ministério da Educação ter feito passar para a opinião pública a ideia de que os professores não têm sido avaliados, que têm, em geral, desempenhado mal as suas funções e que são responsáveis pelo insucesso dos alunos. O motivo final desta avaliação – pagar menos aos professores fazendo com que o seu percurso até chegar ao topo da carreira seja mais longo, de forma a despender menos dinheiro com salários – não justifica destruir-se a imagem de uma classe que a esmagadora maioria dos profissionais abraçou por vocação.E, chegados aqui, pergunto: é avaliando assim os professores que se altera qualitativamente a Educação e o Ensino em Portugal, como se sugere nos normativos deste modelo de avaliação? É por este meio que os nossos alunos vão passar a ter melhores resultados nos programas e estudos internacionais? É assim que os alunos terão conhecimentos mais profundos, serão mais capazes, adquirirão mais competências? É questionando publicamente um pilar da sociedade, os professores, que se ganhará a Educação em Portugal?A resposta é «Não!».É que fazer crer à opinião pública que os males do ensino residem na actuação dos professores e no facto de nunca terem sido avaliados segundo este modelo revela, no mínimo, ignorância, no máximo, má fé.E isto por dois motivos: os grandes factores que influenciam os resultados dos alunos (sensivelmente 60%) não são controláveis pela escola (essencialmente aspectos pessoais e sócio-económicos) e, dos restantes, ou seja, os factores inerentes ao sistema educativo, os professores não são responsáveis por aqueles que são determinantes, ou seja, os currículos, os programas e o tipo de formação pedagógica e didáctica que lhes é proporcionada: não esqueçamos que os professores cumprem os programas e directrizes da tutela e dos órgãos de gestão (escrupulosamente, senão têm de o justificar).Assim, com verdade e serenidade, não misturemos avaliação dos professores, progressão na carreira e política salarial do governo com o que está mal no Ensino em Portugal e como resolvê-lo.Maria Regina Rocha
December 2 2008, 3:15am | Comments »
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UMA ESCOLA QUE DÁ O EXEMPLO
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A melhor escola pública portuguesa, a avaliar pelos "rankings" dos exames do secundário é a Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra. Pois esta escola, onde as reformas antecipadas de vários professores estão a causar graves problemas, decidiu, por unanimidade dos seus docentes, suspender o processo de avaliação. Se outras escolas seguissem o seu exemplo - e outras de Coimbra parece que o querem fazer - o imbróglio em que o Ministério meteu as escolas poderia terminar... De assinalar que, ao arrepio de falsas divisões que foram cultivadas, os pais confiam nos professores e estão com eles na decisão que tomaram. A Associação de Pais foi clara a este respeito: "Não queremos que esta escola perca a qualidade que tem".PS) Rosário Gama, a Presidente do Conselho Executivo da Escola, é militante do PS, tendo inclusivamente colaborado no último número, dedicado ao ensino, da "Ops!", revista de opinião socialista.
November 11 2008, 6:37pm | Comments »
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SAÍRAM COMO ENTRARAM
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/saram-como-entraram.html
Hoje, à saída do Ministério da Educação, Mário Nogueira, o dirigente sindical da Fenprof, reconheceu que não tinha conseguido o que queria ("saímos como entrámos"), mas repudiou a manifestação dos professores que está anunciada para o próximo dia 15 de Novembro ("a Fenprof demarca-se, totalmente, dessa manifestação").Há uma coisa que a Fenprof ainda não interiorizou: é que celebrou um acordo com o Ministério da Educação, que agora está evidentemente obrigada a cumprir. É por isso que saíram como entraram, não poderia ser doutra maneira. E é talvez por isso que muitos professores querem sair à rua no dia 15 de Novembro.Há que dizê-lo de um modo claro: O ónus da actual situação educativa tem de ser partilhado pela administração e pelos sindicatos. Por muitas críticas que os professores possam fazer à ministra - e podem, pois ela nunca os valorizou o suficiente - não é justo que ela receba mais críticas do que o dirigente sindical - que, cheio de ideias retrógradas, não conseguiu de todo valorizar os professores.
October 14 2008, 1:00pm | Comments »
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O ENSINO "PRONTO A VESTIR"
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Post convidado da professora Maria do Carmo Vieira, de quem já aqui publicámos um extracto da entrevista que deu à revista "Notícias" do "Diário de Notícias" e do "Jornal de Notícias":Contagiados pela febre de catalogar e incapazes de pensar pela sua própria cabeça, têm-me descrito, uns, como «lamentavelmente fascista», outros, como «sonsa comunista», outros ainda, como estando «a soldo do PSD para destruir o governo socialista», e há também quem me descreva como «agitadora catastrofista», ignorando, sobretudo, estes últimos, que são eles próprios os agitadores ao pretender limitar a liberdade de pensamento e de expressão, que em boa-hora o 25 de Abril nos trouxe. Esquecem ainda que «as ideias têm asas e ninguém as pode impedir de voar», recuperando as palavras do realizador egípcio, recentemente falecido, Youssef Chahine, no seu inesquecível filme «O Destino».Por conhecimento de causa, continuarei a afirmar que o nivelamento por baixo, que oficialmente se instituiu no ensino (lembremo-nos das palavras recentes do Dr. Jorge Pedreira a propósito do ensino em Portugal ser demasiado exigente), faz com que os alunos deixem de acreditar nas suas próprias capacidades, perdendo a vontade e a perseverança, que acompanham habitualmente o desenvolvimento de todo o estudo. É uma forma deselegante, no mínimo, mas também muito elitista, de dizer antecipadamente aos alunos, sobretudo aos da Escola Pública, que são uns incapazes. Com perversa doçura, qual droga que vai corroendo, entrega-se como oferta aos alunos «o êxito a que têm direito» (palavras do coordenador do GAVE) que assim se viciam na crença de que tudo se consegue sem trabalho. E, no entanto, inteligentemente reflectiu Albert Einstein: O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.Inebriados pelo facilitismo e estimulados pelo passa palavra de «em pouco tempo faz-se...» (e completamos a frase, o 2º ou 3º ciclos e o secundário) correm também muitos daqueles que, por motivos vários, interromperam, ou tiveram de interromper, os seus estudos, a inscrever-se nos cursos das novas oportunidades, não compreendendo, muitos, ou sequer admitindo, que os objectivos delineados assentam não na preocupação de formar, mas de atingir metas estatísticas.É por ter conhecimento de como se processa este ensino «pronto a vestir», desenhado na base de um suposto «quadro de competências», que põe de lado a noção de programa, transformando-o em pózinhos de saber disto e daquilo (as tais aprendizagens ou saberes ) e que rejeita o diploma, agora tornado certificado («validação das aprendizagens»), de coisa nenhuma, que desejo transcrever as directivas comunitárias, as quais calarão quem tem vindo a insultar e a desmentir os que criticamente têm escrito sobre o assunto, nomeadamente o professor Rui Baptista. Com efeito, cedeu-me uma colega do 1º ciclo textos vários, que colegas franceses, por sua vez, lhe enviaram, os quais demonstram que tudo é orquestrado do exterior, de forma a formatar na obediência e na ausência de espírito crítico. Lendo-os, compreendemos o manifesto desprezo pelas disciplinas de Humanidades, o aligeiramento da matéria científica, o facto de a Escola servir quase exclusivamente para responder ao mercado de trabalho, o porquê da conhecida e divulgadíssima expressão «aprender a aprender», a defesa exaustiva da autonomia das escolas, ou ainda o espírito que rege a avaliação de desempenho dos professores, centrado nos bons resultados com os seus alunos, mediante o cumprimento acrítico das ordens impostas, num convite descarado à desresponsabilização do acto de ensinar. Mas debrucemo-nos, então, sobre os cursos ditos de «novas oportunidades», cuja planificação se inscreve no «Programa de trabalho, educação e formação para 2010», ditado pela Comissão Europeia, e que preconiza que «Os Estados membros devem acelerar o ritmo das reformas do seu sistema de educação e de formação (...)», e daí o célebre «Debate Nacional sobre Educação», cujas áreas temáticas se definiram tendo em conta essas mesmas reformas. Em lugar, por exemplo, de programas, privilegiam-se agora «oito competências-chave» que assegurarão a «Educação e a formação ao longo da vida». Eis as suas designações: Comunicação em língua materna; Comunicação em língua estrangeira; Cultura matemática e competências de base em ciências e tecnologia; Cultura numérica; Aprender a aprender; Competências interpessoais, interculturais e Competências sociais e cívicas; Espírito empresarial; Expressão cultural.De um folheto de uma Escola de Lisboa, divulgando o trabalho de um «Centro de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC)» (ou seja, o lugar ao qual se devem dirigir os candidatos às «novas oportunidades»), transcrevo, não só o texto «Objectivos: «O sistema RVCC é uma oferta do Ministério da Educação que lhe dá a possibilidade de reconhecer, validar e certificar os conhecimentos e as competências resultantes da experiência que adquiriu ao longo da vida», mas também a «Validação»: «Realiza-se perante um júri que valida as competências demonstradas por si, no decorrer do processo de Reconhecimento, de acordo com o Referencial de Competências-Chave. Decalcadas das competências-chave, anteriormente enumeradas, surgem as matérias dos referidos cursos das novas oportunidades: «Linguagem e Comunicação; Matemática para a Vida, Tecnologias de Informação e Comunicação e Cidadania e Empregabilidade».Não virão agora certamente desmentir a existência de um sistema perverso, cozinhado pela Comissão Europeia, que finge formar e educar, num manifesto desrespeito pelo papel da Escola e do professor, pela dignidade dos alunos, seja qual for a sua idade, e do próprio Saber. Cumprem-se ordens. Uma atitude que exige a abdicação de pensar e a anulação da nossa própria consciência e que tem servido de justificação ao longo da História para as maiores aberrações.Por acaso já leram «Desobediência Civil» do escritor Henri Thoreau?Maria do Carmo Vieira
October 13 2008, 7:15am | Comments »
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Dez perguntas sobre a Ordem dos Professores
http://dererummundi.blogspot.com/2008/09/dez-perguntas-sobre-ordem-dos.html
Rui Baptista volta ao tema da Ordem dos Professores: “À força de duvidar, chega-se a conhecer a verdade” (Descartes)Em longos anos que só uma forte crença suporta, tenho-me batido pela criação de uma Ordem dos Professores. Com essa intenção, afadiguei-me em longas consultas de textos para desmontar argumentos, a contrario, mas sem suporte consistente, como sejam, por exemplo, não exercer o docente uma profissão liberal, mesmo que stricto sensu, e terem todas as ordens anteriores a 25 de Abril a sua génese bastarda em filiação do Estado Novo, sofrendo, com isso, do pecado original de associação corporativa com a exclusão intencional dos sindicatos nacionais, também eles, porém, integrados na política do Estado Corporativo, através do decreto-lei 23050 de 1933.Fica-me a esperança que as respostas às dez perguntas que aqui deixo possam ajudar a colmatar omissões da minha argumentação ou mesmo a melhorar alguns dos seus pontos fracos. As perguntas são:1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?2. Porque será que os psicólogos lutaram anos a fio pela sua Ordem e se regozijam hoje por a terem finalmente conseguido ?3. Porque será que a Fenprof, o sindicato com maior representatividade em número de associados, se inquieta tanto só de ouvir falar na criação da Ordem dos Professores?4. Porque será que o partido com a responsabilidade da maioria absoluta parlamentar não deu provimento, na Assembleia da República, a uma petição, apresentada em 2 de Dezembro de 2005, para a criação da Ordem dos Professores, subscrita por 7857 docentes?5. Terá sido por a Ordem dos Engenheiros não ter permitido a inscrição de licenciados pela Universidade Independente que a recente legislação regulamentadora de novas ordens profissionais retirou a essas associações a validação dos respectivos cursos de acesso?6. Porque será que outras profissões, de idêntica projecção e responsabilidade sociais, se subordinam a um código deontológico específico que lhes impõe direitos e lhes exige deveres, responsabilizando os seus membros por uma prestação de serviços qualificados à comunidade, e os professores não?7. Não serão merecedores de igual tratamento os usufrutuários de um sistema de ensino consignado como um direito constitucional?8. Será que os professores se resignam ao papel de escravos ao serviço dos mandarins da Avenida 5 de Outubro?9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?10. Finalmente, considerando um silêncio que, infelizmente, parece não prenunciar a máxima de quem cala consente, qual é a posição dos Ministérios da Educação e da Ciência e Ensino Superior sobre a criação da Ordem dos Professores?Porque, a exemplo de André Gide, “acredito naqueles que procuram a verdade”, são estas umas tantas perguntas (outras haverá, certamente) à procura de boas respostas, isentas tanto quanto possível de parti pris. A classe docente possui uma maturidade que não deve continuar a ser, como escreveu Fernando Pessoa, um "arrabalde de si própria"!
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September 24 2008, 8:21pm | Comments »





