O leitor João Viegas pergunta, em comentário, se no extracto que seleccionei da recente entrevista a David Justino, a propósito da publicação do seu livro Difícil é educá-los, não terei omitido referências feitas pelo ex-Ministro da Educação (1) ao que está bem na educação e (2) ao que pode ser aperfeiçoado nesta área.Considerando que se trata de uma entrevista muito completa de alguém que conhece o cenário educativo do ponto de vista da investigação e da política, voltei ao texto, fazendo, agora, uma análise do seu conteúdo em função dos dois aspectos enunciados pelo nosso leitor.O que está bem na educaçãoDavid Justino destaca, em vários pontos o...... PROGRESSO NA VERTENTE DA QUANTIDADE: há sem dúvida "mais pessoas com acesso à educação e simultaneamente com grau de sucesso”, existe "mais escolarização, mais escolas e mais professores".O que pode ser aperfeiçoado na educaçãoNeste aspecto, David Justino alarga muito mais as suas considerações, destacando diversas ideias, que organizei em seis alíneas.1) O DEBATE SOBRE A EDUCAÇÃO DEVE SER MUDADO, dado que:- SE CENTRA EM QUESTÕES ACESSÓRIAS e eventualmente relevantes a curto prazo, deixando à margem questões essenciais a médio e longo prazo;- REPRODUZ IDEIAS ANTIGAS, sendo que algumas delas se reduzem a estereótipos;- ACONTECE MUITO NA LÓGICA DA INSATISFAÇÃO, dificultando a apreciação serena de novas propostas.2) A LÓGICA DESSE DEBATE TAMBÉM DEVE SER ALTERADA, pois a “lógica do confronto" obscurece a "lógica da reflexão conjunta e construtiva". Na verdade, "a educação é uma espécie de constante campo de batalha onde as opiniões não fundamentadas se sobrepõem à investigação e à análise concreta". 3) ESSE DEBATE DEVE CENTRAR-SE NO TIPO DE EDUCAÇÃO que “capacite e prepare as novas gerações para os problemas do futuro”, problemas que a sociedade levanta em termos tecnológicos e culturais. É preciso, nomeadamente discutir como se deve educá-las para a sociedade do conhecimento, para saberem pensar e reflectir a partir de conhecimentos acumulados, que não é uma biblioteca fechada. Isto é tanto mais verdade se pensarmos que “vivemos numa ilusão tecnológica. O computador é como um livro. Mas o computador só dá respostas se eu fizer as perguntas adequadas”.4) NESSE DEBATE NÃO SE PODE ESQUECER A EQUIDADE, QUE NÃO ESTÁ ASSEGURADA. Efectivamente, “os critérios tradicionais de selecção foram substituídos por outros, menos visíveis… os resultados demonstram que o sistema de ensino é muito selectivo e fica aquém do desejável, que é alcançar a escolaridade obrigatória de 12 anos”. Urge desenvolver um sério esforço neste domínio, pois “o melhor antídoto para as desigualdades e a pobreza é haver mais e melhor educação”.5) NESSE DEBATE É PRECISO DAR ATENÇÃO À QUALIDADE, pois, progredimos em termos de quantidade, mas esse progresso não foi tão rápido quanto seria de desejar. Por outro lado, "a quantidade de educação não acompanhou a qualidade daquilo que é ensinado".6) NESSE DEBATE É PRECISO SER-SE REALISTA, dado que, "os estudos internacionais revelaram que Portugal se mantém numa posição modesta. Nomeadamente nos testes internacionais feitos pela OCDE permanecemos teimosamente na retaguarda”. “Há países no mundo que já ultrapassámos no que diz respeito à adaptação, à rapidez de mudança, mas em relação a outros ainda estamos muito atrás”.A terminar,destaco a ideia de que O SISTEMA EDUCATIVO TEM DE RECUPERAR, mas aqui “não há milagres”. "O trabalho tem de ser feito com tempo e persistência”.
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O que pode ser aperfeiçoado na educação
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December 22 2010, 12:33pm | Comments »
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Difícil é educá-los
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Parafraseando o título dum livro de entrevistas - Dífícil é sentá-los - a Marçal Grilo, ex-Ministro da Educação, David Justino também o ex-Ministro da Educação (2002-2004), publicou recentemente um livro intitulado Difícil é educá-los, que se apresenta como o 5.º volume da Colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos.Num jornal de distribuição gratuita - Ensino Magazine - do presente mês de Dezembro, apresenta-se uma longa entrevista de Nuno Dias da Silva com o título Não há visão de futuro para a educação em Portugal. Reproduzo algumas passagens dessa entrevista que considero particularmente interessantes pelo facto de traduzirem o pensamente de alguém que teve responsabilidades na pasta da Educação."E.M: Depois de citar textos de Oliveira Martins sobre o «estado da Educação», publicados em 1988, diz que temos problemas com um séculoD.J: Exitem duas perspectivas: ou os problemas têm um século ou aforma como eles são encarados é que tem um século. Ou seja, o discurso sobre educação tende a reproduzir estereótipos e alguns deles têm mais de cem anos. Quando citei Oliveira Martins era para chamar a atenção que o discurso utilizado no David Justino XIX, em alguns aspectos, não mudou nada. Insiste-se muito no registo da insatisfação, mas as críticas não são necessariamente fundamentadas. Hoje toda a gente discute educação como quem discute futebol. Na verdade, não discutem, porque falam sem saber. As pessoas não estudam, não analisam e reproduzem o que lêem nos jornais e ouvem na televisão. Seria preciso debater sobre dados concretos e o meu ensaio é um contributo pedagógico para isso, procurando transmitir que certos problemas só se resolvem num contexto mais alargado, distanciado da agitação do dia-a-dia.E.M: O mediatismo em torno do sector tem prejudicado a resolução dos problemas mais prementes?D.J.: A educação está há demasiado tempo no topo da actualidade. Desde meados da década de 90 que a educação é uma espécie de constante campo de batalha. Vivemos numa sociedade de «achistas», em que as pessoas preferem achar a pensar e que reflecte o nível de escolarização que existe em Portugal. Não existem hábitos de reflexão e análise sobre os problemas, preferindo-se enveredar pela lógica do confronto. O problema é que andamos há 15 anos a porfiar sobre temas que em nada resolvem os problemas da educação. A opinião pública entretém-se a chafurdar naquilo que é acessório, ao sabor das notícias dos jornais, e dos casos da professora que tirou o tememóvel à aluna, do bullying, etc. Muitas das pessoas que hoje falam mal da novas gerações porventura já se esqueceram do que é que eram.E.M: Está a referir-se ao termo «geração rasca»?D.J.: Esse é um termo injusto, datado de meados da década de 90, porque nessa altura a maior parte das pessoas era menos escolarizada do que é hoje. Como é que uma geração, como muitos analfabetos, tem a ousadia de criticar uma geração bem mais informação e com uma nova perspectiva? Insurjo-me muito contra essa frase feita de «que no meu tempo é que era»... Quando eu era aluno, a maior parte da população era analfabeta. As pessoas esquecem-se disso...E.M: A lógica instalada do «diz-se que diz-se» mina a coesão social?D.J.: O país precisa de assumir colectivamente um atitude construtiva e o ponto de partida é definir claramente o que é que sabemos. O problema é que as pessoas não sabem o que é que querem da educação. Mesmo os que têm responsabilidades políticas estão de tal forma enredadas na teia mediática que se esquecem de resolver os problemas de médio e longo prazo, limitando-se a apagar os «fogos» que vão aparecendo todos os dias. Muitas políticas são introduzidas a reboque das manchetes dos jornais.E.M: Onde fica a visão de futuro com esta exclusiva gestão do dia-a-dia?D.J.: Não existe. Devíamos estar preocupados com o tipo de educação que vai ter uma criança que entra agora no jardim de infância nos próximos 15 ou 20 anos. Alguém fala disso? Este país consome-se no curto prazo, e a educação não foge a essa vertingem e não conseguiremos progredir sem uma visão de longo prazo."
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December 21 2010, 5:55pm | Comments »
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"O meu atraso pedagógico"
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Uma entrada de Contra Corrente 3, de Vergílio Ferreira, datada de 13 de Fevereiro de 1981, a páginas 47 e 48:"Ontem, na rádio (...) alguém falava de pedagogia moderna. Conheço a música suficientemente: trabalhos de grupo, iniciativa do aluno, aligeiramento da pressão do mestre segundo o atávico e mau costume de «impor» e de «ditar», desopressão da memória, essa faculdade reaccionária, descomplexificação das criancinhas com a permissão compreensiva dos seus caprichos selvagens, etc. Claro que a criatura que preopinou na rádio nao foi isso que disse. Mas foi. O trabalho e a disciplina são os alvos privilegiados para se arriar e ser progressivo. E das três fundamentais faculdades humanas - a inteligência, a sensibilidade e a memória - é nesta que se aplica a maior coça purgativa. Daí que a História tenha sido praticamente eliminada do ensino, seja qual for a forma que ela tenha de historiar: história sociopolítica, história da língua, da literatura. Hoje o aluno ignora praticamente quem é que lhe fabricou o seu modo de ser, quem cavou para ele semear, como é que se travou a sua eventualidade portuguesa. Do mesmo modo, ignora prazoavelmente quem é que o ensinou a sentir, quem é que lhe arranjou a língua que tem, ou seja o seu modo de entender o mundo, ou seja o seu mundo. Não senhor. Olhar para trás, não. «Para trás mija a burra», e ele não pertence à espécie. Ele está virado para a frente, com o progresso entremeado em todas as articulações. Que raio lhe interessa saber quem era D. Afonso Henriques, que se calhar nem era do Benfica? que diabo pode interessar-lhe o Álvares Pereira, que nem sequer foi talvez à TV? Ser pela História é ser pela reacção, que quer dizer «acção para trás». Além de que obriga a «decorar». Ora meter nos cornos nem que seja a tabuada - que violência fascista. Obrigar à disciplina, que violência pidesca. Uma criança nasceu, como é sabido desde os hotentotes, para a livre expressão da sua terna selvajaria. Uma criança nasceu para inocentemente partir os móveis, borrar as paredes, fazer o seu chichi nos vasos, quebrar a louça por enternecedor passatempo e sobretudo para não ser submetida à grilheta do estudo.Tenho as minhas discussões com despachados pedagogos, advogados desse sistema. Aqui há uns dois anos, por exemplo, com a professora primária da Rita. A miúda estava já na segunda classe mas ignora ainda praticamente o feito do a. Timidamente fui adiantando à professora que seria talvez conveniente informar a criança como era isso do a e coisas assim. Ela sorriu piedosamente para o meu atraso pedagógico e explicava-me com paciência que a livre formação de uma criança, que a sua descomplexificação, que. Eu ouvia e ia aprendendo. Em todo o caso, insitia eu, talvez que, enfim, ensiná-las a juntar duas letras, ir começando a dar-lhe notícias de que as palavras se podiam escrever e ler e... Ela desistiu de dialogar, porque a sua piedada já não chegava para tanto.Nas férias desse ano, a senhora professora pediu-nos emprestada a casa de campo para se isntalar cá uns dias com o seu rancho escolar. Dissemos que sim, pois. E cá estiveram todas muito contentes. Uma das criancinhas, na sua livre expressão, tentou com uma podoa derrubar-me um inofensivo pinheiro. Outro subtariu-me uma máquina de um comboiozinho eléctrico. Outra destrui-me um ninho que havia ao pé do alprendre. Mas libertaram-se da ameaça de complexos e recalcamentos e eu fiquei contente. E em face disso, etmpo depois a senhora professora escreveu-me a agradecer. Era um bilhete ilustrado muito bonito e começava assim: «Não poço agradecer-lhe devidamente...». Sim, sim poço com c cedilhado. Mas sejamos compreensivos: se as crianças têm o direito à descompressão, a senhora professora também temEste texto do professor-escritor-filósofo é retomado e discutido por Maria Almira Soares nas págins 132-133 dum livro publicado em 2010, que acabei de descobrir e a que voltarei. Tem por título Vergílio Ferreira: O Excesso da Arte num Professor por Defeito e foi Prémio literário Vergílio Ferreira deste ano.
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December 13 2010, 4:21pm | Comments »
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Excessivo contentamento
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Excessivo contentamento. Esta é a qualificação que me ocorre ao ouvir os discursos do senhor Primeiro Ministro e da senhora Ministra da Educação sobre os resultados obtidos pelos nossos alunos no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes, 2009.Esta afirmação não assenta em qualquer suspeita sobre a qualidade do Programa nem a falhas graves na sua aplicação em Portugal.Na verdade, trata-se dum Programa de monitorização da aprendizagem, que os sistemas educativos promovem, assente em pressupostos consistentes, que orientam a sua operacionalização e concretização. Tal enquadramento norteia o trabalho de recolha de dados, que é apoiado e supervisionado por peritos internacionais. Também o tratamento e apresentação desses dados, bem como as conclusões e sugestões deles decorrentes têm sido feitas com grande rigor e pertinência.Podemos (e devemos) questionar os pressupostos que guiam o Programa, o qual apesar de independente não deixa de partilhar a filosofia da organização que o promove (OCDE), mas dentro dessa filosofia denota coerência e transparência.Assim, a afirmação que acima fiz decorre do facto de serem muitos os alunos não abrangidos pelo Programa que levantam problemas sérios em termos de aprendizagem e serem também muitos os alunos abrangidos que se situarem abaixo da média global obtida. Um nível satisfatório de literacia na Leitura, na Matemática e nas Ciências generalizado é, portanto, um objectivo ainda distante, o que nos deve deixar bastante apreensivos.Por outro lado, na melhoria dos resultados, não podemos desprezar o papel do treino no modelo de exames que o Pisa apresenta, assente essencialmente em problemas. Os exames nacionais têm seguido esse modelo, o mesmo acontecendo, progressivamente, com escolas e professores. Trata-se dum aspecto que emerge nos processo de avaliação e que pode iludir em parte os resultados.Por outro lado, ainda, a evolução apurada no nosso sistema educativo não nos deve fazer esquecer as inúmeras dificuldades com que a educação escolar se confronta, desde a formação de professores, até ao ensino-aprendizagem em sala de aula e avaliação, passando pelas orientações curriculares e programáticas, pela avaliação do desempenho docente, pela produção e uso dos manuais escolares... Dificuldades que muitos (bons) professores, encararam e procuram superar, mas, deve sublinhar-se, com grande esforço, indo além do horário, sem compensações.Faltou, pois, reserva nos comentários políticos aos resultados do Pisa, bem como a referência mais enfática ao trabalho docente, que entendo superar em eficácia as medidas da tutela na melhoria de resultados que felizmente conseguimos.
December 12 2010, 4:50pm | Comments »
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Dados que mais se destacam no Pisa 2009
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Amavelmente, o leitor João Boaventura enviou-nos o power-point que serviu de suporte à apresentação dos dados relativos ao desempenho dos alunos portugueses que mais se destacam no Programm of International Student Assessment (2009).Tal apresentação aconteceu no passado dia 7, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e foi realizada por Carlos Pinto Ferreira, nosso represente no Programa.
December 12 2010, 4:28pm | Comments »
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Melhoramos no Pisa
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A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) desenvolveu, em finais do século XX, um programa de monitorização da qualidade dos sistemas educativos, centrado nos produtos das aprendizagens (conhecimentos e competências) em Língua, Matemática e Ciências. É Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) destinado a sujeitos de 15 anos que, em princípio, se encontram no final do Ensino Básico.Já se realizaram quatro passagens: em 2000, em 2003, em 2006 e em 2009. Nas três primeiras, os alunos portugueses mantiveram-se afastados da média geral, sendo que esse afastamento se acentuava a cada passagem.Assim, muitos esperavam, portanto, o pior nesta quarta passagem. Mas, não: no Relatório Global, acabado de divulgar em Paris, a média obtida pelos nossos alunos aproxima-se pela primeira vez da tão almejada média geral dos 65 países envolvidos, encontrando-se a par dos Estados Unidos, França, Alemanha, Irlanda, Suécia, Dinamarca, Reino Unido, Hungria...A este propósito é de registar o comentário da senhora Ministra da Educação. Destacando o "esforço consistente e competente" dos directores para conseguirem escolas "eficazes" atribuiu, em primeiro lugar, os resultados ao trabalho dos professores e à sua qualidade, investimento e empenho".Depois de uma leitura atenta desse Relatório, daremos conta no De Rerum Natura dos aspectos mais relevantes que nele constam.
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December 7 2010, 3:46am | Comments »
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Vai pensar um bocadinho
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Durante a semana que passou, um professor de educação pré-escolar – é conscientemente que uso a designação professor – mandou-me o texto A minha professora é brava, da autoria de João Miguel Tavares, publicado no Correio da Manhã, de 31 de Outubro, que, ao que percebi, teve grande divulgação em blogues e conversas.Confesso que, quando o li, não me sugeriu grande reflexão. A outra face na moeda, pensei… Agora a delinear-se o movimento da “palmadinha nas costas” para a “palmada no rabo”, como antes se delineou o movimento da “palmada no rabo” para a “palmadinha nas costas” (expressões do texto)…Por regra (admito, pois, excepções) ambos os movimentos me parecem fazer pouco sentido, sobretudo quando conduzem a extremos e por aí se fica… Na verdade, e centrando-me no plano académico, se o século XX, o designado século da criança, foi da (re)descoberta da infância, o que transposto para a escola se traduziu na crença de que ela, tal como as flores, desabrocha naturalmente (daí a designação de Jardim de Infância), de que os seus “interesses e necessidades” devem ditar tudo o que deve aprender, de que qualquer chamada de atenção perturba o seu desenvolvimento normal, o século XXI começa a dar sinais preocupantes do oposto, com retorno a perspectivas educativas acentuada e ininterruptamente austeras, que apelam a uma resistência física e psicológica notável, desde os níveis mais precoces de escolaridade, que se revela insuportável para muitas.Sim, as crianças precisam de, como a imagem que acompanha o texto faz notar, aprender a organizar o seu trabalho, o sentido e a experimentação do esforço, da disciplina e do silêncio, e, sim, isso tem de lhes ser ensinado. Mas esse ensino pode ser feito, de modo eficaz, por um professor ou uma professora desfardada, com uma expressão menos cerrada do que aquela que se vê na dita imagem, a qual, devo dizer, entendi como um elogio incondicional, ainda que veiculado de modo mais ou menos subliminar, a essas tais pedagogias austeras.Não liguei, como disse, muito ao assunto, até ao momento em que o professor a que aludi me interpelou sobre o texto, dando-me duas dicas muitíssimo preocupantes: A primeira é que, soube ele, vários professores colaram o artigo na porta da sua sala… parecendo, assim, que, na impossibilidade de usarem as suas próprias palavras para afirmar a fundamental importância da acção educativa que exercem para os valores acima expostos, recorrem às palavras de um articulista com coragem suficiente para contrariar o “clima de escola” em que (muitos) vivem.E que clima de escola é esse? Não, não é o que o articulista conclui e que assim formula: “quando perguntam aos pais o que eles mais desejam para a escola dos seus filhos, a resposta costuma ser esta: regras claras e maior exigência. Os professores bravos fazem muita falta.”O que este professor me disse é que pôr um menino ou uma menina de castigo, está fora de questão, porque a palavra “castigo” não pode se proferida em qualquer circunstância. Quando muito pode pedir-se ao menino ou à menina, que se porta notoriamente mal para "ir pensar no que fez", durante um bocadinho num outro contexto que não o do grupo de meninos…Mas, ultimamente, quando isto acontece, é certo que o menino ou a menina em causa dirá ao pai e/ou à mãe, que no dia seguinte estará na escola a apresentar queixa junto do director que chamará o professor à atenção…Devo dizer, como preocupação, que toda esta conversa foi muito em surdina, porque este professor não tem o emprego seguro e precisa dele para sobreviver.
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December 2 2010, 6:18am | Comments »
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Uma nota
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Nota ao texto de Maria José Prata, recentemente publicado no De Rerum Natura.Enquanto uns países, percebendo que certos princípios educativos, apesar de atractivos, conduzem necessária e rapidamente à deterioração das aprendizagens fundamentais; outros países, não obstante todas as evidências no mesmo sentido, insistem nesses princípios.Enquanto uns países reconsideram as suas políticas e medidas educativas, filtrando aquelas que a história e a investigação em pedagogia indicam como seguras na aquisição de conhecimento e no desenvolvimento da cognição; outros países insistem em políticas e medidas educativas que se desviam desse propósito.Vejo Portugal cada vez mais alicerçado neste segundo grupo.A questão que ponho, e que vejo (ainda) muita gente pôr, é a seguinte: se alguma mudança o futuro próximo trouxesse quanto ao rumo da educação, chegaria a tempo de inverter a situação a que chegámos?
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November 1 2010, 6:14pm | Comments »
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O ensino do latim nos liceus alemães
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Sabendo que o ensino das Clássicas é residual no Ensino Básico e Secundário no nosso país, não se vislumbrando tendência de mudança, e sabendo também que outros países que reduziram esta vertente de ensino estão a mudar a sua política, tendo tido oportunidade, perguntei a Maria José Prata, professora na Alemanha, como é encarada esta vertente educativa no sistema de ensino que, por dever de ofício, bem conhece. A sua resposta, que o De Rerum Natura muito agradece, é a que se segue: A longa tradição do ensino do latim como disciplina liceal obrigatória, outrora condição de acesso aos estudos universitários na Alemanha, foi quebrada no século XX. Principalmente após a década de 60, e em consequência de reformas dos currículos escolares, o latim tornou-se uma disciplina facultativa tendo sido preterida por muitos alunos a favor de outra língua moderna para além do inglês.A estas reformas institucionais, desenvolvidas a partir de novas teorias sobre o ensino, juntaram-se outros factores que contribuiram para a desvalorização cultural do latim. Entre eles, a tendência de canalizar todos os recursos da instrução escolar no delineamento atempado de percursos que encarreirassem crianças e adolescentes de preferência para estudos que facultassem saídas profissionais prometedoras de sucesso económico e reconhecimento social. Embora alguns desses estudos se situassem na área das humanidades, o latim era (e é) condição de acesso apenas uma minoria de cursos universitários. Na verdade, aprender latim implicava per se grande dispêndio de tempo sem que lhe fosse reconhecido grande utilidade, pois que a sua aplicabilidade profissional parecia restringir-se aos domínios cultural e académico.A vivência escolar da geração anterior desempenhou também um papel fundamental no referido processo desvalorativo. Entediada por uma didáctica que havia reduzido a aprendizagem do latim ao memorizar da gramática e à tradução de feitos guerreiros, esta geração não podia aconselhar os seus filhos a estudar uma língua, cujos esforços de aprendizagem ela própria não saberia justificar, tanto mais quanto, para a maioria, o seu conhecimento se tinha revelado predominantemente supérfluo na vida pós-escola.Nos finais do século passado e na primeira década deste, assistiu-se a uma revalorização do latim, tendo o número de alunos nos liceus alemães aumentado em 30% relativamente aos anos anteriores. Hoje em dia, o latim, disciplina curricular obrigatória apenas nos poucos liceus de perfil humanista existentes na Alemanha, posiciona-se (consoante os estados federais) em 2.º e em 3.º lugar na lista das línguas aprendidas do 5.º ao 10.º anos. Que motivos levaram a esta mudança?O renascimento do latim emergiu da reflexão que se tem feito sobre as causas do generalizado baixo nível de literacia entre os estudantes do ensino médio e superior, a que soma, acrescente o insucesso escolar condicionado por graves lacunas no domínio do alemão, impedimento decisivo no acesso à universidade. Este insucesso (era e) é notório no caso de alunos com herança familiar migratória e/ou pertencentes a estratos populacionais com uma assumida atitude de distanciamento e mesmo de recusa da instrução e da formação escolares.É num ambiente de desencanto sobre a qualidade e a eficácia de algumas premissas do sistema educativo alemão que se iniciou em 1997 um projecto inovador no ensino de línguas estrangeiras. Este modelo prescreve desde o 5.º ano liceal a aprendizagem de duas línguas estrangeiras, latim e inglês, ambas com a mesma carga horária semanal, que é elevada A necessidade de se dominar a língua inglesa é indiscutível. Mas pode dizer-se o mesmo em relação ao latim?O projecto baseou-se em diversas observações. É conhecido que na fase inicial de aprendizagem do inglês, muitos alunos atingem uma relativa desenvoltura na comunicação oral sem dominar substancialmente as estruturas gramaticais da língua. Este sucesso, rápido e relativamente fácil, instila em muitos jovens a dúvida sobre o sentido e a pertinência de se aprender gramática também no âmbito da sua língua materna.Ora, este suposto anacronismo de sólidos conhecimentos gramaticais (opinião partilhada por muitos alunos e não só) combinada com a alastrante perda de hábitos de leitura (e de interpretação) não pode deixar de ter consequências: estudantes universitários, de diferentes áreas do saber, dificilmente compreendem textos complexos e abstractos, também em alemão.Outra observação de peso foi a geral e defeituosa produção escrita e o uso descuidado da língua alemã que muitos estudantes apresentam.O latim é uma língua exigente. Para se compreender um texto latino é necessário explorar, decompor e analisar as suas frases, mas também é preciso saber sintetizar as ideias condutoras do todo para não perder o sentido geral; entender um texto em latim exige o treino e a interiorização de métodos de leitura analítica, contextualizada e assistida por um firme domínio da gramática. A procura, paciente e criativa, do exacto vocábulo alemão, que traduza tão fidedignamente quanto possível a palavra latina, habitua os alunos a consultar dicionários e a reflectir sobre a polissemia das palavras, o que contribui para a expansão do seu vocabulário materno activo com conhecimentos de raiz.Nas tarefas de ler atentamente, aplicar métodos de abordagem sistemática e lógica para compreender e interpretar textos, formular a tradução, numa escrita gramaticalmente correcta, precisa e sucinta na língua materna, residem grande parte do mérito da aprendizagem do latim. Ou seja, o treino consequente de saberes práticos e teóricos, cuja compreensão do seu sentido e interiorização permitem a sua posterior transferência para áreas de estudo multidisciplinares.Estes argumentos têm justificado a introdução do latim a partir do 5.º ano liceal na Alemanha. Mas justificarão eles a procura do ensino do latim por alunos e encarregados de educação? E justificarão a não aprendizagem de uma outra língua da comunidade europeia, o francês, por exemplo?Parece que muitos (pais e alunos, professores e responsáveis pelo ensino) entendem o latim como uma disciplina que alicerça um consistente fundo (gramatical e) cultural com que a formação e a instrução liceais alemãs devem/deveriam apetrechar os seus alunos. Alunos que, ao qualificarem-se para o estudo universitário, serão os futuros guardiães do património (linguístico e) cultural e os potenciais investigadores que asseguram e desenvolvem a riqueza e a diversidade cultural, tecnológica e científica da Alemanha e da Europa.Maria José Prata
October 30 2010, 3:37pm | Comments »
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Executam-se trabalhos - Novas Oportunidades
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/executam-se-trabalhos-novas.html
Por diversas vezes tem-se aqui, no De Rerum Natura, falado na fraude nos trabalhos académicos, com destaque para o ensino superior, que é onde o assunto parece causar mais estranheza. Mas, onde ela está, neste momento, mais presente é, ao que me é dado perceber, nas Iniciativa Novas Oportunidades, havendo quem, assumindo a mais elevada responsabilidades na Agência Nacional para a Qualificação, a justifique!Assim sendo, a conotação negativa que poderia ter esse "pagar-a-alguém-para-fazer-um-trabalho-que-dá-acesso-a-um-diploma", atenua-se, dilui-se, desaparece. E a prática torna-se corrente, normal...Uma prova foi-nos enviada, em comentário, pelo nosso leitor João Boaventura, a quem agradecemos.Trata-se dum anúncio na Internet que mais claro não poderia ser.Executam-se trabalhos - Novas OportunidadesLocalização: Porto, PortugalData de publicação: Outubro 6Professores com experiência de 2 anos na área, executam trabalhos para alunos das novas oportunidades.Se não tiver tempo de concluir o seu trabalho, nós fazemos por si.Para mais informações contacte.................. Não se omite nem nome nem número de telefone, nem endereço electrónico. De "cara destapada", portanto...
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October 26 2010, 2:30am | Comments »


