O assunto merece melhor e mais detalhado tratamento, porque é, no mínimo, complexo (palavra que detesto particularmente), porém, tendo em conta a falta de disponibilidade no momento, limito-me a deixá-lo anotado, apesar de, tencionar dar-lhe a atenção que penso que merece.Falo das Metas de Aprendizagem, uma das muitas medidas que o Ministério da Educação achou por bem tomar para promover o sucesso escolar e que se traduz, concretamente, como referiu o coordenador do projecto num “conjunto de referências de aprendizagem que definem o que cada aluno deve saber ao fim de cada ciclo e cada ano”.Depois de redigidas por especialistas, as referências respeitantes à Educação Pré-escolar e Ensino Básico foi disponibilizada uma versão provisória para discussão, mas em círculos restritos (Associações Profissionais e Sociedades Científicas), isto não obstante dizerem respeito a todos nós, sociedade.No sábado passado foi apresentada a sua versão definitiva que o leitor poderá consultar aqui, não sei se pouco ou muito diferente da versão provisória, uma vez que, apesar de a ter solicitado à entidade devida, ela não me foi disponibilizada.
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Versão pública das "Metas de "aprendizagem"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/versao-publica-das-metas-de.html
- Tags:
- Sistema educativo
October 3 2010, 11:57am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“Por ironia da estupidez”
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/por-ironia-da-estupidez.html
Agradecendo a Norberto Pires, ter-nos proporcionado o visionamento da entrevista a Frei Bento Ventura, sublinho transcrevendo as palavras que se aplicam à educação."[Há] uma tragédia a que vamos assistindo quase sem reacção (...) teria de se construir um projecto social diferente. Nós temos demasiado denunciadores e não temos anunciadores, e os anunciadores que temos mentem (...). O caminho tem de ser outro, de construção duma consciência social, duma consciência colectiva de co-responsabilidade social (...).[Neste] país de um nível cultural baixíssimo (...) temos agora esta espécie mentira colectiva das Novas Oportunidades, são novas oportunidades de quê? De coisa nenhuma.Vamos dar um canudo às pessoas mas não construir uma consciência cultural, não vamos construir uma consciência social, vamos continuar, e esta é outras das nossas desgraças nacionais, a viver para a cultura do penacho, das peneiras e dos títulos (…) e sabemos como, às vezes, os diplomas se conseguem e as confusões que estão por aí…Se o Bordalo Pinheiro fosse vivo, neste momento, a fotografia que ele faria do país seria barraca de um bairro de lata com um submarino estacionado à porta. Nós somos o país do pessoal das barracas com antena parabólica no tecto, temos um país a cair de podre, mas temos um submarino lindíssimo para as visitas verem, mas se calhar nem sequer temos fundo para o pôr a navegar …Este seria o momento, não de aparição de nenhum messias, mas de aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vai nu por muito engravatado que esteja, gritar que é tempo de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui. E estamos outra vez a sacudir a água do capote (...).O facilitismo começa desde o Jardim-de-infância. Nós estamos a assistir a uma débâcle nacional, estamos a montar uma escola, [onde] teoricamente e por ironia da estupidez, é possível entrar na universidade sem quase saber ler nem escrever.Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada (…). Estamos a formar ou a deformar as gerações que vão ser o futuro desta nossa terra, que estão a crescer sem bases, que estão a crescer sem valores, que estão a crescer dentro duma sociedade que está montada no ter ou não ter e que deixou, esqueceu, o ser pelo ser, e o ser pelo outro e o ser com o outro (...).Reparem no que está a acontecer (…) vamos pagar uma factura extremamente pesada, e muito brevemente: nós estamos a criar gerações de monstros, nós estamos a criar gerações de jovens sem memória, estamos a criar gerações de gente sem história. E quando a memória e a história não se encontram, temos os cataclismos sociais.As nossas crianças desde os três meses estão nos berçários, nos infantários, na escola porque têm que estar porque os pais precisam desesperadamente de ter dois ou três empregos para sobreviver (…) as nossas crianças não têm avós, não têm, sequer, pais (…).É esta estrutura, por dentro, que precisa de mudar, e é a patir da base, a partir da educação.Outra das facturas grandes que estamos a pagar (…) é a de um peneirismo nacional que entrou a seguir ao PREC e resolveu acabar com as Escolas Industriais e Comerciais (…). Não somos técnicos de coisa nenhuma. Veja um jovem que saia do liceu não sabe fazer rigorosamente nada. Temos a brincadeira dos Cursos Técnico Profissionais que são mais fachada do que outra coisa e temos uma população inteira de gente desqualificada. Nós somos os limpadores do mundo (…), continuamos a despejar os caixotes do lixo da Europa e da América do Norte. Não temos formação para mais (...). O destino é sermos comandados."
- Tags:
- Sistema educativo
- educação
October 3 2010, 10:15am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
É o momento de perguntar...
http://dererummundi.blogspot.com/2010/10/e-o-momento-de-perguntar.html
O que digo neste texto não vai além daquilo que Carlos Fiolhais disse em texto anterior, pois pretendo apenas e só fazer eco das suas palavras, sobretudo daquelas que dedicou à nossa educação.Quando já não havia possibilidade de esconder os danos na economia, os políticos reconhecerem o que alguns (apelidados de catastrofistas, pessimistas, derrotistas) vinham afirmando há anos: o caminho para o abismo.É o momento de perguntar, se demorará muito para que o mesmo aconteça na educação.Porque, não tenhamos ilusões: irá acontecer. Só falta saber-se o momento. A realidade impõe-se por si mesma. Não é possível continuar a esconder o estado desastroso do ensino e, correlativamente, da aprendizagem. Isto, digo eu!E digo-o porque, longe se ser um nível de escolaridade que se encontra num estado crítico, são todos os níveis que se apresentam num estado crítico: desde a educação de infância até ao ensino superior. Não podemos continuar, por muito mais tempo, a descurar esta evidência, a fazer de conta que não é assim. Porque, efectivamente, é assim!Haverá uma outra escola, um ou outro curso que (ainda) tenta resistir à panóplia de ameaças à sua qualidade (não, não falo da “qualidade” assente em critérios burocráticos, mas numa outra que se define pela aquisição de saber e de desenvolvimento cognitivo e axiológico), mas, continuando neste estranho processo de negação, também eles acabarão por desistir.Salvar-se-ão, no final, meia-dúzia de escolas (privadas) onde aqueles que nos levam à ruína económica e educativa põem os seus filhos e netos a salvo da turba ignorante com bilhete pré-comprado para universidades estrangeiras.Acrecento o seguinte: se foi relativamente fácil explicar aos portugueses o caos económico em que estamos, porque isso se materializa, muito concretamente, em dinheiro, como lhes poderemos explicar que a educação soft que receberam de pouco ou nada vale? Que os certificados que têm são um logro? Que o caminho da educação que trilhamos só nos pode conduzir à pior miséria que se pode imaginar: a ignorância?Na verdade, como um leitor do De Rerum Natura, referiu em comentário: há uma “impossibilidade lógica de explicar a mediocridade a um medíocre”. Teremos chegado a esse ponto ou ainda haverá esperança, caso tenhamos o discernimento de reconhecer agora, já, que é preciso mudar o rumo?
- Tags:
- Sistema educativo
October 2 2010, 11:51am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Por culpa de uma certa ortodoxia
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/para-isabel-alcada-as-regras-tem-sido.html
Num artigo do jornal Público, Bárbara Wong dá conta de que a Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) irá propor brevemente alterações à lei de acesso ao Ensino Superior.Virgílio Meira Soares, presidente desta comissão considera que, se os alunos têm um percurso diferente não podem ser tratados da mesma maneira”. “Temos que dar condições para que nenhum seja prejudicado, mas também que uns não prejudiquem os outros. Todos têm de ter igualdade de oportunidades”, defende (...). Ontem, a comissão chamou os representantes das universidades e politécnicos para decidir que mudanças propor ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.»Alterações que a Ministra da Educação não considera relevantes e que são frontalmente contestadas pelo presidente da Agência Nacional para a Qualificação:«“Não podemos permitir que as portas [do ensino superior] se voltem a fechar por culpa de uma certa ortodoxia”, apela Luís Capucha (...), responsável pelas Novas Oportunidades, criticando os “puristas” que querem o ensino superior só para alguns. “Se há coisa mais pura é o puro preconceito elitista, obsoleto e até ineficiente do que é o ensino superior”, acusa. Se o ensino superior se fechar aos alunos que vêm das Novas Oportunidades “voltaria a cheirar ao bafio do antigamente”, alerta.»
- Tags:
- Sistema educativo
September 29 2010, 3:22am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
"Mas contextualizando sempre"
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/mas-contextualizando-sempre.html
Soube-se ontem que o romance Ilusão ou o Que Quiserem de Luísa Costa Gomes recebeu o prémio Fernando Namora/Estoril Sol. O júri destacou, nesta obra, entre outros aspectos, o "ágil registo estilístico de constante ironia, quer pela análise penetrante de alguns comportamentos tipo da actual sociedade portuguesa, muito em especial no tocante a métodos pedagógicos aplicados nas escolas".Deste livro revelador desta professora que deixou o ensino, já tinha deixado notícia aqui e aqui), mas não posso deixar de aproveitar este feliz acontecimento para deixar mais uma passagem de uma ficção admiravelmente real (páginas 40-41)."Durante toda a semana a Teresesinha veio pouco a casa. Quando por fim lhe perguntei pelo trabalho, disse-me naquele tom didáctico dos momentos pré-colapso em princípio teríamos de nos mudar para mais perto da Jessica, porque era muito desgastante segui-la de tão longe sem uma base doméstica. Estava agora firmemente convencida de que para a Jessica ter sucesso era preciso que todo o contexto familiar fosse educado, porque a escola nada pode quando não há transmissão dos valores fundamentais do humanismo, nem sentido crítico na avaliação das mensagens dos média (...).O projecto de Teresesinha era elevar a família de Jessica em peso (mãe e cinco meios-irmãos, um de cada pai), à fruição estética e morfolinguística. Queria propor-lhe uma ida ao teatro e contava comigo para fornecer o espectáculo. «Educação pela Arte», disse ela, de forma significativa. «Mas nós nem sabemos ainda o que fazer a seguir», disse eu. Era incomensurável o que se jogava na primeira experiência cultural daqueles desfavorecidos. «Que fazer?», perguntou-me. «Vamos devagar» aconselhei. «Começas por uma ida ao cinema, vais com eles ver um filme menos javardo, depois discutem, fazem um passeio à Expo, visitam uma coisa de banda desenhada e vais subindo por aí acima, aumentando o grau de complexidade e...» «Mas contextualizando sempre», disse ela. «Sempre», disse eu e lá mais para o fim do ano escolar, quando os sentires bem motivados e com bom olho para os contextos, vais com eles a um Museu.». Ela ponderou a hipótese. «Se for entrada livre, ainda se pode pensar nisso.» E teorizou. «As pessoas sentem-se muito descontextualizadas. Vêem, mas não sabem o que estão a ver. Como não sabem, não gostam. E depois não querem ver mais.» «A resposta é a integração», rematei. Não queria parecer pouco entusiasmada. «Como é possível eles aprenderem o que quer que seja se deixarem as raízes para trás?» Não lhe quis dizer que em princípio todos nós deixamos as nossas raízes para trás. «É uma família muito desestruturada, muito carenciada, a de Jessica. Como é que ela pode aprender o que quer que seja se não está integrada numa cultura? É óbvio que tem de haver programas específicos para estas pessoas!» Matemática para Pobres, Geografia para Refugiados, Biologia para Minorias», disse eu."
- Tags:
- Livros
- Sistema educativo
- Ensino
September 29 2010, 2:34am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Sem ofensa...
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/sem-ofensa.html
A estas horas já os leitores saberão que um rapazinho que aparenta andar no 1.º Ciclo do Ensino Básico se apresenta no YouTube a imitar a Senhora Ministra de Educação quuando, na abertura do ano lectivo discursou ao país, usando para tanto uma mensagem vídeo publicada no sítio do Ministério da Educação.Li que a Senhora Ministra declarou não se ter sentido ofendida… Eu acrescentaria que, além disso, se devia sentir orgulhosa pelo facto de haver crianças que apreenderam a importância, tão firmada nos documentos curriculares, de serem criativas, inovadoras, de serem capazes de partir de situações reais, do quotidiano, autênticas, para desenvolverem competências pessoais e sociais.
- Tags:
- Sistema educativo
September 22 2010, 1:43pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Quando se fala em alunos pensa-se em crianças
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/quando-se-fala-em-alunos-pensa-se-em.html
Na sequência do post, Bom ano lectivo, por Isabel Alçada, da autoria de Norberto Pires, deixamos um extracto do comentário de António Guerreiro, publicado na revista Actual do Expresso de hoje, dia 18 de Setembro (página 39), à mensagem da Ministra de Educação:"A mensagem gravada que a ministra da Educação, no papel misto de mestra escola e de grande educadora, dirigiu esta semana às criancinhas (na verdade, alunos, pais e professores) mostra bem que a máquina educativa quando se fala em alunos pensa-se em crianças. Por conseguinte, tudo o que diz respeito à escola diz respeito à infância. Uma ministra que se dirige a toda a comunidade educativa será então maternal e próxima do infantil.De resto, esta ministra da Educação chegou ao lugar com uma vasta obra literária de sucesso que, do ponto de vista dos princípios pedagógicos fundamentais que lhes estão subjacentes, remete para o lugar feliz em que a infância romanesca se encontra com a educação romanceada, a lembrar-nos que sobre a escola não há apenas o discurso piedoso; há também o romance edificante."
- Tags:
- Sistema educativo
September 18 2010, 8:35am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Naturalmente extinguir-se-á...
http://dererummundi.blogspot.com/2010/09/naturalmente-extinguir-se.html
Há uns tempos encontrei uma pessoa adulta que me perguntou como poderia voltar à escola básica. A história era típica: no início do terceiro ciclo abandonou os estudos, mas, agora, com a vida encaminhada, muito legitimamente, queria recomeçá-los onde tinha ficado, ou um pouco antes, pois já havia esquecido muita coisa.Lembrei-me do ensino recorrente mas também me lembrei que há muito não ouvia falar dele. Ainda assim, referi-o. "Praticamente não existe", respondeu-me a pessoa, "na minha zona nenhuma escola abriu turmas". E as Novas Oportunidades?. "Foi o conselho que me deram mas, o que eu quero é aprender..." E, assim ficámos na conversa...Confirmo no jornal Público a concordância desta conversa com a realidade: o ensino recorrente não foi extinto por decreto, mas terrá um lugar cada vez mais reduzido até se extinguir. Nas palavras da Senhora Ministra da Educação:“O ensino recorrente é uma modalidade que tem vindo a desaparecer naturalmente porque já vem de longa data e não se articulava com a vida de uma pessoa que trabalha (...) as pessoas estão a ser aconselhadas - quando não é possível abrir uma turma porque não há alunos em número suficiente - a optarem por outras formas de realizar o ensino secundário.”Fica a pergunta no ar: quem não teve possibilidade de estudar e estiver mais interessado em aprender do que em obter um diploma, o que deverá fazer?
- Tags:
- Sistema educativo
September 7 2010, 12:09pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A MISTELA DO EDUQUÊS
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/mistela-do-eduques.html
Texto gentilmente enviado por Guilherme Valente ao De Rerum Natura, saído no semanário Expresso de hoje.«Os que negam a razão não podem ser conquistados por ela.» A. R. .1. Só há um grande problema em Portugal, todos os outros derivam dele, serão resolvidos por acréscimo: a educação. O nosso défice público maior. No entanto, a solução desse problema fundador foi deixada a um grupo de pessoas de duvidosa formação, chocante insensatez, gritante incapacidade de gestão, desígnio ideológico inconfessável. Durante mais de trinta anos. Sobrevivendo a todas as mudanças de governo. Com uma continuidade como nunca se verificou noutra área governativa. Sem terem sido eleitas. Sem o seu programa ter sido votado pelos Portugueses. Impedindo a construção da escola do conhecimento e da exigência, que redistribuiria a cultura e qualificaria os Portugueses, esse grupo dos «especialistas» controla todo o sistema educativo, das estruturas de poder do Ministério à formação de professores. Recrutaram em todos os partidos, colocaram fiéis ou têm instrumentos nas Presidências da República. Na expectativa de eleições, preparam já a troca de cadeiras nos lugares mais visíveis no Ministério da Educação. À espera do próximo convertido ou «idiota útil» mais provável para ministro. Ninguém pode ambicionar uma carreira na educação sem aceitar o seu jugo. Uma «União Nacional»..2. Confrontados com a tragédia dos resultados, que não os deixámos continuar a esconder, justificam o insucesso atribuindo-o a «cedências», «desvios» e «recuos» na realização do seu projecto. Devem ser assim interpretadas divergências recentes.E chegou a «justificação» mais sinistra: «Precisamos de mais tempo». Perante a sucessiva descida das notas de matemática, os responsáveis pelo Plano de Acção para a Matemática (os mesmos que causaram o descalabro) disseram… precisarem de mais anos (Expresso, 3/6/10, p. 18). Não chegaram trinta anos de experiência, um longo cortejo de vítimas? Pseudo-argumento, inverificável, fanático, que se conhece da História. No registo da política, como no da ciência, quando não se aceita a prova da realidade - neste caso o fracasso verificadíssimo da anti-escola imposta ao País - entra-se no reino das «ciências» ocultas. Também nesse sentido o eduquês é uma seita. Uma história conhecida ilustra a natureza irracional da falácia: Envenenado pela mistela do curandeiro, o doente acaba por ir ao médico. Levado o charlatão a tribunal, o que diz em sua defesa? «Se tivesse continuado a beber o meu remédio … acabaria por melhorar.» Até quando? Até morrer mesmo, pois não era remédio, mas veneno. .3. Estúpida relativamente à escola de que o País precisa, mas perfeita relativamente ao projecto de sociedade que querem impor, a instituição do fim das retenções, agora tão atalhoadamente defendida (Expresso, 31/7/2010 e entrevista ao telejornal da SIC), é, afinal, a dose letal da mistela que faltava. Percebe-se o seu efeito num país como Portugal. Solução final há muito desejada pela seita, que, finalmente, um ministro e um governo lhes oferecem.Só num ensino, útil e digno para todos, que seja exigente desde a primeira aula, e, assim, gerador da autoexigência de professores, alunos e pais, as retenções e o abandono seriam residuais. Uma escola em tudo o inverso da que temos. Mas mesmo nesse caso uma impossibilidade das retenções devia ser formalizada. .4. Do mesmo modo, a política dos grandes agrupamentos, vista como de poupança financeira, é, sobretudo, outra concretização do projecto ideológico imposto ao País: criam espaços anómicos, onde, sem regras, na dissolução do conhecimento que conta e dos valores que humanizam, na «libertação» dos ressentimentos, supostamente se diluiriam todas as diferenças, sociais, culturais, pessoais. Ao contrário, por exemplo, do que acontece na Finlândia, que tão mentirosamente referem. .5. A minoria que foge ou sobrevive não chegará para resistir à aniquilação geral da inteligência e da vontade que tem sido perpetrada, para resistir à magnitude do que foi, agora, alegremente, prometido. Guilherme Valente
August 21 2010, 5:48pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Centros escolares para o século XXI
http://dererummundi.blogspot.com/2010/08/centros-escolares-para-o-seculo-xxi.html
Quando em Setembro de 2007 publiquei, neste blogue, o texto Quem abre uma escola fecha uma prisão estava longe de imaginar que as nossas escolas continuariam a fechar às dezenas, às centenas: neste ano são 701 e, tanto quanto me é dado perceber, o número aumentará no próximo ou próximos anos.Só nestes dias tive conhecimento de que a reorganização da rede escolar a que temos assistido foi traçada há já cinco anos. Nessa altura, a discussão pública entre os diversos parceiros directamente implicados – ministério da educação, autarquias, encarregados de educação, professores e outros educadores, especialistas em ensino … – a ter sido feita, aconteceu em círculos restritos e dela pouco transpareceu, de modo que o país tem sido mais ou menos apanhado de surpresa.O momento é, diria, de apreensão: autarcas que não sabem como resolver a questão dos transportes, pais e mães que mostram receios de mandar os filhos muito pequenos para longe de casa, especialistas que advertem para os múltiplos problemas que as escolas grandes levantam…Atitude que contrata com o imperturbável entusiasmo da tutela. Nada de positivo a salientar no funcionamento das escolas que tínhamos – algumas das quais haviam sido qualificadas como excelentes –, tudo a elogiar nos novíssimos centros e grandes escolares, como se neles estive a salvação para a educação nacional.O discurso repetido até à exaustão assenta em dois argumentos.Um argumento, mais geral, é que esses centros estão mais de acordo com as exigências da aprendizagem do século XXI. É uma grande frase, reconheço, mas só faria que sentido se fossem explicadas clara e inquivocamente quais são, afinal, essas exigências.Outro argumento, que parece operacionalizar o anterior mas que, em rigor não o faz, é que tais centros garantem mais e melhores condições de sucesso aos alunos, uma vez que proporcionarão socialização, inclusão social e cidadania; alimentação; transporte; biblioteca escolar; salas de informática; espaços para o ensino do inglês e da música; condições para a prática desportiva.Ainda que cada um destes aspectos mereça ser analisado em pormenor, detenho-me no seu conjunto para faz notar que nele falta o que para alguns é essencial numa escola: que assegure, antes de mais, através da qualidade do ensino veiculada pelos seus professores, a aquisição de conhecimentos fundamentais, e que nessa aquisição, se pudessem estimular as capacidades cognitivas dos alunos.
August 20 2010, 4:11pm | Comments »



