No dia 10 de Junho próximo, a revista Forúm Estudante comemora, pela primeira vez, o Dia da História, o que se traduz num concurso nacional dirigido a alunos do 3.º Ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Essa iniciativa, que decorre durante todo o dia, terá por cenário o Castelo de S. Jorge, em Lisboa. Se o leitor estiver a par do modo como é (mal)tratada a História nos sistemas educativos ocidentais, não poderá deixar de pensar: excelente iniciativa e excelente sítio!O sítio é, na verdade, excelente, mas a inciativa... Explico o que justifica as minhas reticências, tomando a liberdade de sublinhar algumas expressões contestáveis:"Vem recriar a História de Portugal. Com a tua Escola, escolhe um facto da nossa História e através do teatro, da música, da dança ou da internet, vem apresentar a tua interpretação..."... "tem por objectivo proporcionar um aprofundamento do conhecimento da História de Portugal, de forma lúdico-pedagógica e em clima de festa."Considero que se trata de expressões que podem desencadear equívocos por parte dos alunos, o que se deveria pugnar por não acontecer. Explico: .Por um lado, é possível os alunos entenderem que, não obstante a sua condição de aprendizes, podem, com legitimidade, fazer, ter e apresentar publicamente "a sua interpretação" de factos históricos. Ora, a interpretação de factos históricos deve estar reservada aos especialistas que, em virtude de os terem estudo e de, por isso, os conhecerem a fundo, têm legitimidade para se pronunciarem interpretativamente acerca dos mesmos. Logo, quem dá os primeiros passos no conhecimento dos factos históricos deve, neste tipo de circunstância, representá-los; não recriá-los segundo a sua versão. Dar-lhes a entender o contrário é enganá-los ou enganarmo-nos..Por outro lado, o lúdico e o pedagógico têm um lugar distinto, ainda que fundamental, na vida dos jovens. O lúdico não é suportado, nem tem de ser, em conhecimento científico; o pedagógico não pode deixar de o ser..Neste passo, devemos perguntar quem apoia esta iniciativa? Quem a apoia é o Ministério da Educação através da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular; a Câmara Municipal de Lisboa através dos pelouro da Cultura e Turismo e da Educação e Juventude); do Castelo de S. Jorge; a Associação de Professores de História e o Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica Portuguesa. .A sociedade portuguesa, portanto!.Para mais informações sobre o assunto pode consultar o sítio da DGIDC.
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Vem recriar a tua interpretação de forma lúdico-pedagógica
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April 28 2010, 12:52pm | Comments »
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A opção negligente - 2
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Na sequência de texto anterior...O investimento material e humano tem aumentado nos sistemas educativos ocidentais: os edifícios escolares melhoraram, os equipamentos sofisticaram-se, a formação de professores generalizou-se, a investigação educacional proporciona dados sobre os mais diversos aspectos, a acção social está presente, novos especialistas surgiram…Porém inúmeros estudos que incidem nesses sistemas, realizados nas últimas décadas, denunciam problemas graves em muitos, no que respeita a aprendizagens académicas (conhecimentos e competências cognitivas) e a comportamentos dos alunos.Alguma coisa está, portanto, errada. Mas o quê?Vários teóricos que se têm reflectido sobre o assunto, afirmam que o erro está na renúncia de educar.Educar é um dever inalienável que as gerações mais velhas têm para com as mais novas, dado que as crianças e os jovens não se educam a si próprios, precisam de ser educadas.Parecendo uma verdade óbvia tem sido negligenciada pelos pais e família, por decisores de políticas de ensino, por directores de escola, professores, auxiliares de acção educativa, por outros elementos da sociedade.Referindo-se à realidade americana, Hannah Arendt, escrevia em 1957:"Deste modo, o que faz com que a crise da educação seja tão especialmente aguda entre nós é o temperamento político do país, o qual luta, por si próprio, por igualar ou apagar tanto quanto possível a diferença entre novos e velhos, entre dotados e não dotados, enfim, entre crianças e adultos, em particular, entre alunos e professores. É óbvio que este nivelamento só pode ser efectivamente alcançado à custa da autoridade do professor e em detrimento dos estudantes mais dotados. No entanto, é igualmente óbvio para quem alguma vez esteve em contacto com o sistema educativo americano que esta dificuldade, enraizada na atitude política do país, tem também grandes vantagens, não apenas do ponto de vista humano, mas no plano da educação. De qualquer forma, estes factores gerais não podem explicar a crise em que nos encontramos no presente nem as medidas que a precipitaram.Estas medidas catastróficas podem ser esquematicamente explicadas por intermédio de (...) ideias-base, porventura demasiado familiares. A primeira é a de que existe um mundo da criança e uma sociedade formada pelas crianças; que estas são seres autónomos e que, na medida do possível, se devem deixar governar a si próprias. O papel dos adultos deve então consistir em limitar-se a assistir a esse processo. É o grupo de crianças ele mesmo que detém a autoridade que vai permitir dizer a cada criança o que ela deve e não deve fazer. Entre outras consequências, isso cria uma situação na qual o adulto, não se encontra só desamparado face à criança tomada individualmente, como fica privado de todo o contacto com ela. Quanto muito pode dizer-lhe que faça o que lhe apetecer e, depois, impedir que aconteça o pior. As relações reais e normais entre crianças e adultos – relações que decorrem do facto de, no mundo, viverem em conjunto e simultaneamente pessoas de todas as idades – se encontram portanto hoje quebradas (...)Uma crise na educação suscitaria sempre graves problemas mesmo se não fosse, como no presente, o reflexo de uma crise muito mais geral e da instabilidade da sociedade moderna. E isto porque a educação é uma das actividades mais elementares e mais necessárias da sociedade humana a qual não permanece nunca tal como é mas antes se renova sem cessar pelo nascimento, pela chegada dos novos seres humanos. Acresce que, esses récem-chegados não atingiram a sua maturidade, estão ainda em devi. Assim, a criança, objecto da educação, apresenta-se ao educador sob um duplo aspecto: ela é nova num mundo que lhe é estranho, e ela está em devir. Ela é um novo ser humano e está a caminho de devir um ser humano. Este duplo aspecto não é evidente (...). A criança só é nova em relação a um mundo que já existia antes dela, que continuará depois da sua morte e no qual ele deve passar a sua vida (...)Que a educação moderna, na medida em que tenta esclarecer um mundo próprio das crianças, destrói as condições necessárias para o seu desenvolvimento e crescimento, é algo que parece óbvio. Porém, é de facto estranho que esse pernicioso procedimento possa ser o resultado da educação moderna, tanto mais que essa educação declarava ter por único objcetivo servir a criança (...) O século da criança, como lhe podemos chamar, pretendia emancipar a criança e libertá-la dos padrõesde vida retirados do mundo dos adultos. Como foi então possível que as mais elementares condições de vida, necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança, tivessem sido ignoradas ou, simplesmente, não tivessem sido reconhecidas como tal? Referência completa:Origional: Arendt, H (1957). The crisis in Education. Partisan Review, 25, 4.Tradução portuguesa: Arendt, H (1957). A crise na Educação. Entre o passado e o futuro: oito exercícios sobre o pesamento político. Lisboa: Relógio D´Água, 183-206.
March 23 2010, 6:32am | Comments »
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A EDUCAÇÃO SEGUNDO ANTÓNIO CÂMARA
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Destaco da entrevista dada por António Câmara, professor da Universidade Nova e CEO da YDreams à revista "Executive Digest" de Março de 2010:P- Em termos de educação, como é que vê e analisa este quase admirável mundo novo num país onde, paralelamente, ainda existe muita ardósia e giz?R- Não são mundos incompatíveis. Um dos grandes problemas de Portugal é que se esqueceu por completo a língua... Repare, uma das avaliações que fazemos internamente é saber qual é a diferença entre nós que estudámos em Portugal, e também lá fora, e os líderes mundiais nas diferentes áreas...A primeira vez que percebi e entendi a verdadeira diferença foi em 1998 quando fui viver para Boston para um bairro judeu e coloquei o meu filho mais velho numa escola pública mas dominantemente judia. A educação nesta escola era simplesmente fantástica e tinha três componentes completamente diferentes da educação em Portugal. A mais chocante delas, aquela que nos deixava a anos-luz, era o ensino da língua que era a um nível perfeitamente superior. Qualquer miúdo de 12 anos lia um livro por semana, aprendia 400 palavras novas por semana e escrevia um livro no final do ano.Aprendi a falar em público, aprendia a expor, aprendia a consultar livros numa biblioteca,m aprendia a criticar, aprendia todos os estilos de exposição... Nós nunca aprendemos isto em Portugal. O máximo que aprendemos foi a análise morfológica das frases, mas não jamais a fazer a transição entre as frases.Depois de perceber como é que funcionava o ensino da língua naquela escola, tive imensa curiosidade em conhecer o professor que, dois anos depois, estava em Harvard.P- Mas este tipo de educação não é comum mesmo nos Estados Unidos...R- Não, não é. Esta é a educação de uma elite específica que tem um poder nos Estados Unidos perfeitamente gigantesco, exactamente porque te, uma educação incomparavelmente superior. O domínio da língua consegue-se através da leitura e da escrita. É fundamental e o computador, seja ele qual for, vem no fim.Por isso, e para concluir, a elite portuguesa quando comparada com a elite mundial está a anos-luz e esbarra, logo à partida, no domínio da língua.A segunda componente tem a ver com a imaginação. Em Portugal ninguém percebe o que é a imaginação e a criatividade. Numa universidade, analisando as cadeiras que os estudantes têm, quantas é que apelam à imaginação? Talvez duas em 50! Ou seja, a maior parte das pessoas que cumpre as licenciaturas são, eventualmente, muito bois naquilo que os professores ensinam, são bons a resolver charadas... mas não há nada que estimule a criatividade, a imaginação.(...)P- E a terceira componente?R- É algo que verdadeiramente nunca pensei que acontecesse. Quando o meu filho estava nessa escola, comecei a perceber que ele tinha exercícios completamente diferentes. Durante um mês vinha com problemas desse género: "quantas lâmpadas existem no estado do Massachusetts?"; no dia seguinte, "diga quantas pessoas vão à praia da sua cidade"... Ou seja, comecei a perceber que estes exercícios estavam ligados ao "back of the envelope engineering", isto é , como é que lidamos com a incerteza, com aproximações, quando não temos os dados todos.É que este tipo de análise está sempre presente nas nossas vidas profissionais e pessoais e daí que seja tão importante ser estimulada desde cedo.(...)P- O problema da educação em Portugal é meramente político?R- Há várias coisas... Nos não damos liberdade às diferentes escolas para fazerem o que lhes apetece. está tudo centralizado numa avenida de Lisboa... Claro que é uma questão política. E de liberdade."
March 18 2010, 2:56am | Comments »
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ENTREVISTA NO NOTÍCIAS MAGAZINE
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Entrevista que dei a Catarina Pires para a rubrica "Todos os nomes" da revista "Notícias Magazine" e que foi publicada no número 929 de 14 de Março, que saiu ontem a acompanhar o "Diário de Notícias" e o "Jornal de Notícias":Todos os nomes - Carlos FiolhaisNão sabe em que caldeirão caiu em pequenino, mas deve ter caído em vários: o dos livros, o da curiosidade, o do bom humor, o do optimismo. Só assim se explica que este físico, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, nos faça perder as noções de tempo e espaço estabelecidas por Einstein, quando nos pomos à conversa com ele.P- É cientista, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, contador de histórias, um pouco historiador...R- Historiador e contador de histórias são coisas diferentes. Historiador não me importava de ser. Contador de histórias? Não invento histórias, quanto muito reconto algumas histórias que me contam.P- Reconta-as bem, daí chamar-lhe contador de histórias.R- Mas quem conta um conto acrescenta um ponto e eu tenho sempre esta mania de cientista de não acrescentar muitos pontos. Pelo contrário, um cientista, pela sua preocupação com o rigor, às vezes tem de tirar pontos à história.P- Mas fazendo tantas coisas ao mesmo tempo, em que caldeirão caiu quando era pequenino?R- Bem, agora é que me está a contar uma história... Tanto quanto me lembro não caí em nenhum. Os meus pais dizem-me que tive uma infância normal, nasci na Maternidade Alfredo da Costa, onde nasce toda a gente, uma verdadeira fábrica de portugueses, e onde não há caldeirões. A minha infância, foi passada em Lisboa, nos anos cinquenta e sessenta, com uma linda vista para o Tejo, talvez tenha sido esse o caldeirão... Aos sete anos mudei-me para Coimbra, que tem uma linda vista para o Mondego.P- É um optimista?R- Sou, militante. Há todas as razões para ser pessimista, logo sou optimista...P- Mas tem sido difícil manter o optimismo, não?R- Não é difícil. Quanto pior a situação, mais optimista penso que é necessário ser para se sobreviver, é quase uma decisão de vida. A verdade é que não vale de nada sermos pessimistas: se dizemos que algo vai correr mal, isso ajuda a que corra. De modo que tento contrariar o pessimismo instalado. Temos, em Portugal, uma visão muito escura das coisas e eu gosto de luz. Quando a situação está negra, há muitos sítios onde podemos lançar luz...P- Também é um crítico e isso é claro nas suas crónicas, reunidas em livros como Curiosidade Apaixonada e A Coisa Mais Preciosa que Temos.R- Ser crítico é uma maneira de ser optimista. A única forma de inventar um futuro melhor é dizer que não queremos que seja como no passado. Isso vem de outro caldeirão que frequentei, nos quatro anos que passei na Alemanha. A minha condição de estrangeirado levou-me a ter uma consciência bastante crítica em relação a certos aspectos do nosso país. Sei que se pode fazer melhor porque vi fazer melhor e porque fiz melhor noutro lado. Se noutros lados se faz, porque não se faz aqui? Sou crítico quando vejo razões de crítica. Há coisas que me indignam e nos deviam indignar a todos. Se expresso publicamente a minha crítica é para ver mais gente indignada ao meu lado.P- Um dos maiores alvos da sua crítica é o sistema de ensino português.R- Ah sim, é o meu alvo preferido.P- Porquê?R- Porque é de algum modo a mãe de todos os problemas. Temos uma formação que deixa muito a desejar e não nos prepara devidamente para a vida. E não tem de ser assim. A boa escola é algo que estamos a dever a nós mesmos. Se queremos futuro, temos que apostar na escola, que é a instituição que a humanidade inventou – e já foi há muitos anos – para nos garantir o futuro. Se não temos um futuro melhor é porque não o estamos a promover na escola.P- O que é que está mal? Está tudo mal?R- Não, temos bons professores, que fazem, a maioria deles, por cumprir a sua obrigação profissional num ambiente que não é nada fácil. Se me pergunta o que está mal, dou-lhe um exemplo: o Ministério da Educação é – vou usar uma palavra brutal para fazer jus à minha fama de crítico – um monstro. É um aparelho criado pelo Estado, que está por todo o lado em demasia, retirando liberdade aos bons professores. Há regulamentos para tudo e mais alguma coisa, os programas não são bons, os livros têm que se ater aos programas, os horários são o que se sabe, há disciplinas que não são disciplinas nenhumas. Enfim, não tenho dúvidas de que é possível fazer melhor e que isso passa por uma menor intervenção do Estado. Será precisa toda aquela burocracia? Será preciso aquela linguagem em que se exprime o monstro e que eu e outras pessoas designamos por «eduquês»? Não se pode falar claro? A actual ministra domina bem o português, é uma boa escritora, não poderá pôr aquele Ministério a falar claro?P- O que é que é preciso, então, para melhorar?R- É preciso que os professores tenham mais poder na escola. Nos últimos anos, assistimos a lutas entre o Ministério e os professores, em que os destroços da batalha são os alunos. O que a ministra está a fazer – e desejo-lhe sorte – é limpar o campo da batalha, o que demora algum tempo. O tempo que se perdeu e que se perde... Não tenho dúvidas de que a nossa escola pode melhorar e isso faz-se pelo exemplo, por procurar e premiar as melhores práticas, por recompensar mais do que punir. É preciso valorizar a criatividade. O que eu gostava de ver era uma escola mais aberta, fora do espartilho do governo. Neste momento, a escola está refém do Ministério da Educação.P- A máquina ministerial condiciona a criatividade de alunos e de professores?R- Condiciona a criatividade dos professores, que são a chave do sucesso da escola. Diminuir o papel dos professores foi o pior que se podia ter feito. Portanto, tudo o que possamos fazer para valorizar este papel, para lhes dar importância e autoridade, é útil. Há uma palavra que não se tem usado muito em Portugal e que se devia usar mais (o Ministério da Educação, então, foge dela como o diabo da cruz) que é ensinar. A escola é um sítio onde se ensina. Claro que também é um sítio onde se aprende, mas para aprender é preciso que se ensine. Quase tudo aquilo que sei foi porque alguém me ensinou. A partir de certa altura já fui capaz de aprender por mim próprio, mas devo muito à escola e aos meus professores. Porque é que os jovens de agora não hão-de poder dizer o mesmo? Estamos a desviar-nos do essencial e o essencial é preparar para a vida. Não estaremos a alienar os nossos jovens da capacidade de saber mais, de decidir, que não devia ser apenas de alguns, mas de todos?P- Esse sistema, tal como o descreveu, é a razão por que Portugal não tem sido um país de ciência?R- A nossa educação científica é uma área em que podemos progredir. A ciência devia estar presente mais cedo na escola, e não se trata tanto de falar de ciência, mas mais de ver como ela se faz. A ciência devia estar presente no jardim-escola e no ensino básico. A palavra ciência quase não aparece nos programas, aparece uma coisa chamada “estudo do meio”. O que é isso? Um cientista é um "estudioso do meio"? Percebo a ideia de que o meio não é só o meio material, é também o meio social. Muito bem, é evidente que vivemos num meio social, mas antes disso pisamos um planeta que nos puxa para baixo, respiramos ar, bebemos água, e é bom que no básico façamos experiências que nos permitam compreender o que é o planeta, o que é o ar, e o que é a água. A descoberta do mundo pela criança tem de começar por aí. A junta de freguesia e outras construções sociais, por muito importantes que sejam, vêm depois do ar e da água.P- Apesar de Portugal não ser um país de ciência, está a preparar uma história da ciência em Portugal. O que tem para contar?R- Nós ainda não temos suficiente ciência em Portugal porque não tivemos escola em quantidade e qualidade suficiente. Mas isto vem de trás, há um lastro. Portugal tem 800 anos de história e tem também 800 anos de dificuldades. Também a nossa ciência tem uma história de dificuldades que me interessa conhecer. Desde quando há cá ciência? Será que há cá ciência desde que há ciência no mundo? A ciência moderna começa com Galileu, comemoram-se agora os 400 anos da publicação de O Mensageiro das Estrelas, em que ele anuncia a descoberta dos primeiros satélites de Júpiter. Chamou-lhes estrelas de Medici, que era o nome do patrão (é sempre bom dar o nome do patrão!). Na época dos Descobrimentos, que foi um pouco antes, Portugal era um país rico, não só em bens materiais, como em bens imateriais, em conhecimento. A nossa história nesse período devia ser mais conhecida. Portugal foi então um entreposto de ciência. As descobertas marítimas só foram possíveis com a ajuda da ciência e da tecnologia.P- E depois o que aconteceu?R- Precisamente. Onde é que a nossa ciência, tendo esse começo tão auspicioso, se perdeu? Por que fomos outrora grandes e deixámos de o ser? É um tema que me interessa e que procurarei expor num livrinho que se intitula Breve História da Ciência em Portugal. Por incrível que pareça não há no nosso país nenhuma obra do género. Sobre a decadência, há aquela frase do poeta Carlos Queiroz: «Só fazemos bem Torres de Belém.» Fernando Pessoa também disse algo parecido: «Pertenço àquele género de portugueses que depois de a Índia descoberta ficaram sem trabalho». Somos, portanto, os desempregados dos Descobrimentos. A ciência de algum modo desapareceu quando regressámos da Índia. A nossa história nesta matéria, como noutras, está cheia de avanços e recuos. Por um lado, sempre tivemos pessoas com valor, por outro lado convivemos mal com o valor dessas pessoas. Hoje, penso que há razões para se ser optimista a respeito do futuro da ciência: um jovem cientista pode fazer ciência em Portugal como em qualquer outro sítio do mundo. Espero, por isso, que a história que se escreva daqui por muitos anos seja bem melhor. A história até agora tem alguns sucessos, mas ficámos a dever muito à ciência e é bom que paguemos essa dívida.P- A história é uma das suas paixões?R- De algum modo sim, cada vez mais, porque estou aqui na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que é uma arca de tesouros, um rico legado da história, um sítio onde se preserva a memória. Os livros, os documentos, estão à mão de semear e é uma tentação à qual não consigo resistir, a de ver originais com séculos de idade. Não o faço sem uma certa comoção. Por exemplo, falava dos Descobrimentos, temos aqui um dos livros de D. João de Castro e quando o abrimos é como se fizéssemos uma viagem no tempo. Esta universidade tem tesouros inigualáveis como este.P- Como foi passar do Centro de Física Computacional, onde trabalhava no maior computador português e com as mais modernas tecnologias, para uma biblioteca quinhentista?R- O novo e o velho não são incompatíveis. Aliás, as novas tecnologias estão a melhorar as bibliotecas. Tornando-as digitais, abre-as ao mundo, torna-as universalmente acessíveis. Esse tem sido o meu trabalho aqui: casar o novo com o velho. O novo aliás ajuda a preservar o velho: uma vez digitalizados, os documentos escusam de ser tão manipulados. Aqui na Universidade de Coimbra estamos a desenvolver o projecto de uma biblioteca digital e temos já cerca de cinco mil livros e documentos antigos nesse formato. Queremos que a universidade seja uma antena para o mundo.P- Este futuro dos livros e das bibliotecas numa plataforma digital pode levar a que as bibliotecas passem a ser uma espécie de museu, com o acesso aos seus conteúdos a ser feito de forma virtual?R- Esse movimento é imparável, os livros tendem a estar todos online, acessíveis por computador, por telemóvel, etc. A nossa biblioteca, por exemplo, fez um acordo com o Google, que põe os livros que aqui editámos à disposição de todos. Isso é bom, facilita a vida aos leitores. Mas questão que põe é muito interessante: será que as bibliotecas se vão transformar em museus? Bom, a palavra museu tem aqui uma carga pejorativa que não devia ter. Questiona-se também a continuidade do livro como objecto físico...P- Exacto.R- O objecto livro parece-me insubstituível. De facto, na biblioteca de Alexandria não havia livros, havia rolos. A Hipátia guardava rolos, mas a certa altura apareceram livros. Este formato tem séculos de provas dadas, é como a roda, ainda não se inventou nada melhor para a substituir. Estou convencido de que os livros são eternos, assim como as bibliotecas. Não sei muito sobre o futuro, mas sei que as bibliotecas vão lá estar. A Biblioteca Joanina, que tem quase 300 anos, possui uma inscrição latina sobre a porta que diz: “Esta é a coroa que orna a testa da cidade”. Vai continuar a ornar.P- Considera-se um guardião de livros?R- Sim, faço as vezes de Hipátia, apesar de ela ser bem mais bonita. Há um relógio de luxo cuja publicidade é qualquer coisa como «nunca é verdadeiramente nosso», no sentido em que o possuímos apenas durante o tempo para o transmitir às próximas gerações. Com os livros antigos acontece a mesma coisa. O meu papel aqui é insignificante à escala do tempo, mas acrescenta algo à minha biografia. Quando me perguntarem o que fiz pela minha cidade, pelo meu país, pela minha civilização, poderei dizer: «guardei livros, se os têm é porque os guardei». O amor aos livros é para mim um leitmotiv. Vivo bem rodeado por eles. Devo ter caído num caldeirão de livros quando era pequenino... John Ruskin, autor inglês do século XIX, dizia que quando queremos falar com alguém poderoso, esbarramos sempre com as maiores dificuldades, temos de esperar e por vezes fazemo-lo em vão. No entanto, os livros, escritos pelos maiores autores, pessoas mais importantes do que reis, estão nas bibliotecas, à nossa espera e é imediato sermos recebidos.P- Voltando à ciência, de onde na verdade nunca saímos, foi divertido escrever a Física Divertida e a Nova Física Divertida?R- Sim. A Física trata do conhecimento do Universo e conhecer é divertido. O que fiz foi, mostrar, contando histórias, como chegámos ao conhecimento do mundo físico. No liceu, tive uma certa reacção à ciência pelo facto de ela me aparecer já feita, pronta a servir, era só comer. Mas depois, através de leituras que fiz, descobri, com prazer, que a ciência era feita por homens e mulheres que tinham histórias, que eram filhos de alguém e tinham eles próprios filhos, e só não viam telenovelas porque na altura não existiam.P- Está a querer dizer que os cientistas são pessoas normais?R- [Ri] Só são extraordinárias no facto de acharem divertido saber mais. O prazer de saber foi a molas que me empurrou para a ciência. O que é isso do átomo, o que há no coração das coisas? E o que é o Universo, como foi o início, como será no fim? São perguntas que toda a gente pode fazer e às quais alguns procuram as respostas. É isso que fazem os cientistas, sendo sua obrigação transmitir as respostas A ciência consiste em acrescentar alguma coisa àquilo que já se sabe. Newton disse, numa imagem muito bonita, que se conseguiu ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes. Ou seja, sabemos hoje mais porque alguém antes de nós o soube e no-lo transmitiu. Essa grande aventura do conhecimento continua. E quem não se interessa por ela estão a perder uma importante parte da experiência que é estar no mundo.P- Aquela ideia de que os cientistas estão sempre à procura do erro para o corrigir é interessante. É isso que define um cientista?R- Sim, de certo modo. Não há muitas profissões em que uma pessoa ande à procura dos erros, seus ou de outros. Reconhecer que errou e emendar o erro é uma das marcas muito profundas da ciência. O pensamento crítico é inerente à ciência. Um cientista que comete um erro grave e não o reconhece deixa de ser cientista. Não há outra profissão em que o indivíduo que deliberadamente engane seja tão penalizado. Dizem-me por vezes e eu gosto de ouvir: «estás sempre a emendar, vê-se mesmo que és cientista». É sinal que tenho emenda...P- Em ciência, o crivo do certo e do errado é muito apertado?R- Alguém disse que é preciso ter a cabeça suficientemente aberta para entrarem coisas novas, mas não tão aberta que caiam os miolos. Há coisas que a dada altura parece absurdo deixar entrar, mas que os génios da Física deixaram entrar e hoje são ideias estabelecidas. O caso de Einstein, por exemplo: dizer que a matéria e a energia estão relacionadas, ou que o espaço e o tempo estão ligados entre si pode parecer absurdo, mas é verdade, tanto quanto sabemos. Já passaram mais de cem anos, e o que Einstein disse não foi desmentido por esse verdadeiro crivo que é a realidade. A Natureza é que diz o que está certo e o que está errado.P- Em ciência, a verdade é sempre temporária?R- Sim e não há mal nenhum nisso. A verdade descobre-se por aproximações sucessivas. Mas pode ser perigoso afirmar isso assim sem mais porque há coisas que não serão modificadas. Por exemplo, quando lhe digo que o seu corpo é feito de células ou que vivemos num planeta que é a terceira pedra do sistema solar, pode estar certa de que nenhum cientista demonstrará o contrário.P- Quem são os seus heróis?R- Einstein com certeza: é alguém que conseguiu chegar à realidade só com o pensamento, uma coisa mesmo espantosa. Como é que pôde imaginar o vasto mundo dentro do cérebro? Em actos que bem se podem dizer heróicos, concebeu modelos da realidade que a experiência veio confirmar. Entre nós, Rómulo de Carvalho foi alguém que me influenciou muito pelas leituras que fiz em jovem. Era o autor de livros – Ciência para Gente Nova – através dos quais percebíamos que a ciência era para nós. Escrevia de uma maneira tão clara que percebíamos tudo. Além disso, era polifacetado. Foi professor, historiador da ciência e da cultura, divulgador científico e poeta. Penso que tudo o que pudermos fazer em sua memória é pouco. Uma das coisas que fiz aqui em Coimbra foi o Centro de Ciência Viva Rómulo de Carvalho, um lugar moderno onde apetece estar para ler livros de ciência. Há livros de divulgação científica dele e de outros autores, livros para jovens e também para crianças. Sim, temos livros infantis de ciência na universidade, porque é de pequenino que se torce o destino.
March 15 2010, 4:48am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Um lugar impossível
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Tem sido notícia o suicídio de um aluno de doze anos e de um professor de cinquenta e um. É o tipo de notícia que esperaríamos que viesse de fora e não de dentro deste país, que temos por pacato.A razão apontada é a violência a que, tanto um como outro, estariam sujeitos nas suas escolas.Não posso, obviamente, afirmar que essa tenha sido razão determinante, mas também não ficarei admirada se se vier a concluir nesse sentido.Não ficar admirada significa que, desde há muito tempo, admitia que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de tragédias começassem a acontecer. Na verdade, estando frequentemente em contacto com escolas, não posso deixar de perceber os sinais evidentes do problema global, enorme, assustador que envolve toda a educação formal, desde o ensino básico até ao superior.Eu diria que o primeiro aspecto desse problema, que dita todos os outros, é de cariz filosófico, e tem a ver com os fins da educação, aqueles que uma sociedade elege como os melhores para preparar as nova gerações, e que se traduz numa pergunta tão simples como esta: para que vão as crianças e jovens à escola?Os discursos, sabe-se, dão respostas variáveis, mas, no seu conjunto, fazem passar a ideia de que as crianças e jovens vão à escola, não para adquirirem conhecimentos nem para desenvolverem a inteligência, mas para, autonomamente, aperfeiçoarem competências (que, a nova gíria pseudo-pedagógica, não esclarece nem o significado nem o sentido). E é para as competências sociais que se inclinam, com o argumento que isso lhes proporcionará a integração em contextos vários.Trata-se de um aspecto que não podemos desligar das contingências políticas e sociais, pois, é a primeira que o acolhe e legitima, e é a segunda que lhe dá força. Por exemplo, a pressão para se produzirem rapida e eficazmente diplomas-independentemente-do-valor-que-têm, não sendo aplaudida por todos, é tolerada por muitos.Deste aspecto não podemos excluir o pensamento epistemológico dominante, no qual todo e qualquer saber disciplinar e axiológico, se relativiza, se subjectiva e, portanto, se faz equivaler, não havendo outra possibilidade a não ser tomar cada sujeito como o referencial das e para as suas próprias aprendizagens, que se afirma terem de decorrer dos seus interesses e necessidades e de serem significativas, em função da sua individualidade.Este quadro traça as opções curriculares que se tomam ao nível do ministério e de cada escola: os conteúdos (que tendem a chamar-se temáticas) são aligeirados, tornados práticos, com ligação à realidade concreta dos alunos; os objectivos (que tendem a chamar-se competências) são vagos, circulares, devendo ser sempre negociados ao nível de turma, de escola, de comunidade; os métodos (que tendem a chamar-se experiências de aprendizagem) são os da resolução de problemas com recurso à pesquisa que permita a descoberta e a construção do conhecimento pelo próprio aprendiz; a avaliação que deverá ser holística, dará conta do evoluir do aluno, nunca assentado na testagem da memória.De tudo isto deriva o papel do aluno que se quer activo, pois trata-se de alguém emancipado, que sabe o que quer aprender e determinar os caminhos para o conseguir, chegando, nessa medida, a opções e opiniões que têm de ser respeitadas. Correlativamente, o papel do professor, é o de(mero) animador, acompanhante... e sempre com dinamismo, jovialidade e cara alegre...São estes os ingredientes (todos patentes em documentos que por aí circulam, sem grandes sobressaltos) que tornaram a escola num lugar impossível, tanto para alunos como para professores.
March 14 2010, 1:20pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A formação da linguagem artística e a filosofia
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Hoje, dia 10 de Março, às 16 horas, no Auditório 1 - Torre B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, José Gil, professor catedrático do Departamento de Filosofia desse Faculdade dará a sua última aula, intitulada Formação da Linguagem Artística e a Filosofia.Em entrevista, na rádio, ao princípio da manhã, disse que a docência lhe proporcionou múltiplas oportunidades de "pensar com...". São essas oportunidades, essência do ensino e da aprendizagem, que é preciso perguntar se estamos, de facto, a preservar. Sobre o assunto deixamos o extracto de um texto deste filósofo."Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer (...). Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina (...).Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensável. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da "sociedade do conhecimento". Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia — a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social (...).Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraordinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia alarga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design — atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania (...)."Sem a música, a vida seria um erro", escreveu Nietzsche. Extrapolando: "Sem a Filosofia, a vida seria um erro."O texto integral pode se lido aqui.
March 10 2010, 2:52am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
A EDUCAÇÃO NO PLANO INCLINADO
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Hoje, pelas 22 horas, na SIC Notícias, o programa "Plano Inclinado", moderado por Mário Crespo, aborda questões da educação, incluindo os casos de "bullying" em escolas portuguesas.
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March 6 2010, 5:19am | Comments »
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Três questões sobre a avaliação docente
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“Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos. / E para mais me espantar / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos” (Luís Vaz de Camões, 1542-1580).Segundo Ralph Emerson, “todo o homem que encontro é-me superior em alguma coisa, e nesse particular aprendo com ele”. Em concordância com este princípio, tenho escrito, várias vezes (tantas que lhes perdi a conta!) que os comentários feitos aos posts, com intenção construtiva, muito os valorizam.Tenho neste caso o comentário do anónimo (10 Fev.; 10:52) ao meu post, “Ainda a distinção entre o bom e o mau professor”(06/02/2010), em que levanta três questões importantes:1. "Como é que uma avaliação de professores pode ser bem feita? ; 2. Há algum bom exemplo? ; 3. Há conhecimento científico / académico produzido?"Na expressão popular, "cada macaco no seu galho”. Assim, estivesse eu capacitado para lhes dar as respostas que merecem sem correr o risco de ocupar um galho que não é o meu. Mas, apesar de tudo, não me sinto, de todo em todo, um intruso pela minha condição de docente durante várias décadas: tantas quantas o limite máximo de idade de reforma me permitiu.Por esse motivo, entendo que o estudo da complexa avaliação dos docentes deve pertencer a académicos (ou seja, a especialistas universitários das Ciências da Educação) e não a simples remendões de desconfiáveis interesses profissionais “visto estarmos num pais de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizarem sem atrito”, como escreveu João Lobo Antunes (“Um Modo de Ser”, Gradiva, 1996).Embora, com isso, não exclua o risco desse necessário e desejável estudo poder vir a conhecer o cesto dos papéis dos responsáveis políticos desde país, a exemplo do acontecido em França com Laurent Lafforg. Temo mesmo que os responsáveis pela tutela da Educação só desejem ouvir os pareceres que lhes sirvam os próprios desígnios pessoais e/ou institucionais. Ou seja, como simples exemplo, aqueles pareceres que possam continuar a defender que a formação para a docência do 2.º ciclo do básico continue a ser feita, simultaneamente, em faculdades e em escolas superiores de educação. Ou que até cheguem ao descaro de defender que estas são melhor do que aquelas, em defesa de capelinhas próprias, em imoral descrédito das instituições universitárias que formam professores e ao arrepio da crítica tecida por Lee Schulman, ex-presidente da American Educational Research Association, “ao reducionismo às técnicas pedagógicas na concepção da formação e da avaliação docente”.Como é do conhecimento público, na vigência da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, a questão da avaliação docente levou alguns sindicatos a dizer terem uma solução mirífica para a solução desta complexa e polémica questão. Se a tinham, guardaram-na a sete chaves nas gavetas dos respectivos gabinetes, quiçá, para não porem em questão (ou sequer beliscarem) o permissivo sistema de avaliação até então em uso e que nunca mereceu qualquer voz corporativa da sua parte a criticá-lo.Uma coisa, permito-me, desde já, adiantar. Essa avaliação não deve ser feita unicamente pelo avaliado ou pelas estruturas dirigentes da próprias escolas, em circuito fechado, sempre passível de obedecer a critérios de anos de convívio e amizade, de afinidade partidária, de simpatia clubística, etc., que, a exemplo dos antigos alquimistas, pretenda transformar em ouro metais pouco nobres.A terapia para a gangrena da actual avaliação, pelo risco da saúde ou da própria falência do sistema educativo oficial, exige a amputação das longas e extenuantes horas ocupadas pelos professores no preenchimento de complicadas fichas, programações sem conta, muitas vezes para inglês ver, e outras tantas funções burocráticas, não raramente, em detrimento da verdadeira missão de ensinar e da própria valorização pessoal dos docentes em leituras que lhes sejam de utilidade e não, a assistirem passivamente a acções de formação em matérias disciplinares que nada têm a ver com as matérias que leccionam.Por esse facto, defendo que essas acções sejam ministradas nas universidades para os licenciados pelas faculdades e nas escolas superiores de educação para os respectivos diplomados, ou em instituições científicas de reconhecido mérito, para garantir um complemento de actualização e valorização de conhecimentos anteriores sem transformar essas formações num negócio de terceiros que, muitas vezes, até correm o risco de fazer marcar passo (“fazer que anda mas não anda”, na típica expressão brasileira) ou mesmo confundir saberes anteriores. Hoje em dia, com o decréscimo da natalidade e o excesso de estabelecimentos de ensino superior oficiais que surgiram, sem rei nem roque, em todos os cantos do país, seria uma forma de evitar o possível encerramento daqueles com um longo e prestigiante serviço prestado à cultura e à ciência do país.A actual avaliação dos professores, uma espécie de remendos novos em pano velho da avaliação do tempo da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues (excessiva na burocracia e deficiente na exigência de um bom ensino ou, pelo menos, satisfatório) justifica excertos do livro de Arthur Schopenhauer, "Aforismos para a Sabedoria de Vida”, aqui reproduzidos:“O que em sociedade desagrada aos grandes espíritos é a igualdade de direitos e, portanto, de pretensões, em face da desigualdade de capacidades, de realizações (sociais) dos outros. A chamada boa sociedade admite méritos de todo o tipo, menos os intelectuais: estes chegam a ser contrabando. (…) Por outro lado, os méritos pessoais devem mendigar perdão ou ocultar-se, pois a superioridade intelectual, sem interferência nenhuma da vontade, fere pela sua mera existência. Eis por que a sociedade, chamada de boa, não tem só a desvantagem de pôr-nos em contacto com homens que não podemos louvar nem amar, mas também a de não permitir que sejamos nós mesmos, tal qual é conveniente à nossa natureza. Antes, obriga-nos, por conta do uníssono com os demais, a encolhermo-nos ou mesmo a desfigurarmo-nos. (…) Nessa sociedade, por conseguinte, temos de renunciar, com difícil auto-abnegação, a 3/4 de nós mesmos, a fim de nos parecermos com os demais. Em compensação, temos obviamente os outros, mas quanto mais uma pessoa possui valor próprio, tanto mais achará que o ganho não cobre a perda e que o negócio redunda em prejuízo. (…) Ajunte-se a isso o facto de que a sociedade, a fim de substituir a autêntica superioridade, isto é, a do espírito, que ela não suporta e que é também difícil de encontrar, adoptou sem mais nem menos uma superioridade falsa, convencional, baseada em normas arbitrárias, propagando-se pela tradição entre as classes elevadas e alterando-se como se alteram as palavras de ordem. É o chamado bom-tom, fashionableness.”Em conclusão, só através de uma melhoria efectiva do actual sistema de avaliação dos professores em que, não poucas vezes, se honra o demérito, se enaltece a ignorância e se protege o atrevimento, será possível e desejável capacitá-lo para distinguir o bom do mau professor, evitando, assim, aquilo que Pessoa, referindo-se à igualdade entre desiguais, teve como “a maior das injustiças e a pior das tiranias”.
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February 12 2010, 4:11am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Pode a Educação Especial deixar de ser especial?
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É comum supor-se que as pessoas da pedagogia (e das ciências da educação em geral) comunicam nessa “linguagem perigosa” a que o Professor Marçal Grilo chamou «eduquês» e que muito bem definiu como uma “trepadeira de palavras um pouco sem sentido”. É comum pensar-se também que, em termos epistemológicos, tais pessoas se acomodam na linha dura do pós-modernismo, sendo, nessa medida, avessas a qualquer raciocínio científico (o raciocínio que se baseia na lógica e nas evidências empíricas para se chegar à verdade objectiva), escudando-se numa estranha ideologia, onde se misturam opiniões mal urdidas do senso-comum, tendências políticas e reivindicações sociais.Entendo que este retrato está longe de abarcar a totalidade do real. E explico porquê: ainda que se aplique a algumas pessoas que trabalham e opinam na área da educação, não se aplica a outras que adoptam as regras de pensamento que a ciência tem por convenientes.Chega-me às mãos um livro de duas destas pessoas: uma portuguesa - João A. Lopes - e outra americana - James Kauffman -, onde o «politicamente correcto» e as «ideias correntes», só são contempladas para serem desmistificadas.De facto, neste livro, que tem por título Pode a Educação Especial deixar de ser especial? e está escrito de forma admiravelmente compreensível tanto a especialistas como ao grande público, além de tratarem científicamente e no quadro dos saberes actuais a questão, explicam os erros em que os sistemas de ensino têm incorrido ao adoptar para esta área educativa tão crítica um enquadramento pós-moderno, de teor marcadamente acientífico."Este livro tem como objectivo apresentar uma perspectiva da educação especial que, no entender dos seus autores, veicula a melhor evidência científica disponível relativamente aos assuntos que nele são abordados. É importante salientar este aspecto, porque (…) o denominado relativismo pós-moderno tem impregnado a educação especial com ideias e concepções que não só não têm em consideração a investigação desenvolvida nesta área, como a reduzem à condição de «opiniões entre opiniões». Neste contexto, aquilo que é característico da ciência (como por exemplo o valor da prova ou evidência) é frequentemente apresentado como inútil, quando não nefasto.Os movimentos científico não conhecem fronteiras e, por isso (…) é possível constatar que as questões fundamentais com que se debate a educação especial em Portugal e nos Estados Unidos são perfeitamente miméticas. Digamos que o sistema português constitui uma cópia tardia do sistema americano, não tendo infelizmente aprendido com os erros deste último (…)A educação especial é possivelmente um dos sectores em que é mais fácil vender ilusões, avançar com soluções milagrosas e invocar falsos sucessos (…).O ponto é que, na educação especial., estratégias sem suporte científico, como a inclusão de alunos deficientes em salas de aula regulares ou conceitos sem validadediagnóstica ou categorial como as denominadas «necessidades educativas especiais». são tomadas como verdades inequívocas ou dogmas, pelo que se dispensa qualquer investigação ou sequer discussão a seu respeito.Este livro pretende marcar uma posição de defesa dos métodos da ciência, na educação em geral e na educação especial em particular, discutindo o que tem que ser discutido e rejeitando liminarmente postulados de fé ou de autoridade. O conhecimento progride no contraditório e dá-se sempre mal com os absolutos. Seja em biologia ou em educação"."Este livro questiona frontalmente alguns conceitos e práticas apresentados como indiscutíveis nesta área, nomeadamente o inoperacional conceito de necessidades educativas especiais ou a denominada inclusão educativa, que em múltiplas situações nada mais significa que atirar alunos com deficiências para salas de aulas regulares, onde consabidamente não há condições para lhes fornecer apoio ou ensino.Kauffman, J. & Lopes, J. A. (2007). Pode a Educação Especial deixar de ser especial? Braga: Psiquilibrios.
December 26 2009, 12:54pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Nova reforma/reorganização do Ensino Básico - 1
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É quase certo que, num futuro muito próximo, o nosso Ensino Básico sofra mais uma reforma/reorganização curricular.Há excassos dias, o designado Conselho de Escolas avançou uma proposta e a própria Ministra da Educação pronunciou-se publicamente sobre o assunto no Seminário "O impacto das avaliações internacionais nos sistemas educativos", promovido pelo Conselho Nacional de EducaçãoA pergunta que devemos fazer é se faz sentido pensar numa reforma/reorganização curricular para os três primeiros ciclo de escolaridade, tendo em conta que a que está que vigor foi publicada há menos de uma década (2001), e que só em 2007 foi homologada a reformulação do programa de Matemática e em 2009 a de Português/Língua Portuguesa?Penso que sim, que tem sentido se tivermos em conta que o currículo vigente, não tem produzido resultados académicos comparáveis ao de outros países ocidentais. Pelo contrário, os estudos de avaliação internacional e alguns de avaliação nacional dignos de crédito dão-nos a perceber um cenário cada vez mais preocupante, aspecto de que o Ministério da Educação parece estar consciente.E isto apesar dos esforços empreendidos pela Tutela ao nível da formação contínua de professores nas áreas consideradas críticas (Matemática, Língua Portuguesa e Ciências Experimentais) e dos novos programas, ao nível do Plano da Matématica (que inclui diversas vertentes), ao nível da introdução das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Escolas, ao nível da implemantação de Áreas Curriculares não Disciplinares (como o Estudo Acompanhado que procura desenvolver competências de aprendizagem autónoma) e de Actividades de Enriquecimento Curricular (como as de Apoio ao Estudo, destinada à realização trabalhos de casa e de consolidação das aprendizagens com acompanhamento), etc.A questão que se põe é a seguinte: em que aspectos críticos se deve centrar essa reforma/reorganização.Do que li até ao momento os aspectos a alterar são os seguintes:- número de áreas curriculares para se conseguir uma maior articulação entre elas. Não percebi se essa alteração vai no sentido de introduzir novas áreas ou para reduzir as já existentes ou, ainda, para esbater fronteiras entre elas, como sugere o Conselho de Escolas;- número de horas lectivas. Não percebi se essa alteração vai no sentido de preencher mais o horário dos alunos ou de o reduzir; de estabalecer claramente tempos de trabalho e lúdicos, necessidade absoluta dado o conceito de "escola a tempo inteiro" que temos instalado;- nas competências básicas, que além de se centrarem na Leitura, Escrita, Matemática e Ciências, devem centrar-se também nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Não percebi se essa alteração (que não é inovadora, uma vez que consta na anterior reorganização curricular e no Plano Tecnológico para a educação da anterior legislatura) continua a secundarizar os conteúdos;- estabelecer metas de competências para cada ano de escolaridade. E não apenas competências (gerais e transversais) para o Ensino Básico, e competências específicas de final de ciclo para cada área curricular disciplinar, como se preconiza no presente currículo.
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December 19 2009, 4:53am | Comments »


