No final do texto Miss Atom, Carlos Fiolhais não deixa de mostrar alguma estranheza pelo facto de as festividades da Queima das Fitas de Coimbra terem incluído neste ano o concurso Miss Queima das Fitas. Essa estranheza assemelha-se à minha quando, há uns meses atrás, ao folhear o semanário As Beiras, vi a notícia dum concurso de miss que tinha acabado de se realizar numa escola secundária.Mais estranhei quando percebi que as professoras que me acompanhavam num café de final de tarde não estranhavam a notícia, porque, segundo me explicaram, tais concursos são já tradição, ou moda - qualquer coisa assim – e, nessa medida, toda a escola que se preze tem de ter o seu concurso de miss e… de mister.Qualquer escola? Mesmo as básicas? Sim, claro, mesmo as básicas.Apesar da confiança que tenho nessas professoras, incrédula, investiguei o caso: indaguei junto de outros professores e de alunos. Também pesquisei na internet… E, como não podia deixar de ser, confirmei o que havia lido no jornal e me haviam dito.Mais do que a ideia subjacente à “iniciativa”, que me parece claramente peregrina; mais do que a indiferença, ou conformismo dos professores com quem falei; mais do que o entusiasmo acrítico dos alunos, do tipo “porque não”; mais, até, do que a exposição em palco e em imagens, ao acesso de todos, de alunos acabados de sair do primeiro ciclo; o que me deixou verdadeiramente perplexa foi a associação feita entre alguns desses concursos e “preocupações de índole social”, que supostamente os desencadeiam. “São espectáculos solidários, ou seja, o bilhete de entrada será um bem alimentar (leite, açúcar, enlatado, entre outros) à escolha dos espectadores”, esclarece uma escola.“É a pós-modernidade”, como lembrava ontem um leitor do De Rerum Natura… Pois… é a pós-modernidade, onde tudo se mistura, onde tudo está certo, ou, pior, onde nada está certo nem errado, está apenas…Apesar do impacto deste tipo de ambiente intelectual na formação cognitiva, afectiva, relacional e moral das crianças e jovens ainda não estar completamente esclarecido, à partida, não se percebe como poderá contribuir para a estruturação da sua personalidade.Nessa medida, na sequência do texto que ontem aqui publiquei, e partindo do princípio (questionável, admito, à luz do pós-modernismo) que a escola é a instituição à qual se imputa a missão de ensinar aquilo que se afigura como fundamental para a manutenção dos padrões civilizacionais e para o desenvolvimento dos sujeitos, insisto na necessidade de, como sociedade, procurarmos responder à pergunta: O que é que a escola deve ensinar?Operacionalizando a pergunta, acrescento outras: Que objectivos concretos devem guiar a escola? Que actividades deve a escola promover? Quem deve tomar decisões no que respeita a assuntos escolares? Que lugar deve a escola ter na comunidade e que relações deve estabelecer com ela?A tentativa de "aproximação" – talvez seja mais apropriado usar o termo "fusão" – que a escola tem feito nos últimos anos à comunidade regional e local, acompanhada da intromissão desta na vida da escola, não tem tido apenas como consequência a substituição, nos manuais de Língua Portuguesa e de Português, de textos dos nossos melhores autores por textos que “naturalmente” interessam aos alunos por se confrontarem com eles na televisão, nem forçarem-se até à exaustão os problemas de Matemática para que eles encaixem no quotidiano dos alunos, nem, sequer, indicar-se no Currículo Nacional do Ensino Básico que, se deve trabalhar pedagogicamente a partir das experiências e vivências sociais, familiares e pessoais dos alunos… tem tido também como consequência o desnorte que podemos constatar em iniciativas como esta dos concursos a que acima aludi.As escolas admitem-nas, consentem-nas, apadrinham-nas, acolhem-nas, seja o que for… pois julgam estar a agir de acordo com as orientações curriculares (e não estarão?). Por seu lado, as comunidades apreciam, elogiam, louvam… as escolas que assim procedem, pois percebem, triunfantem, que elas se conformam, adaptam, adoptam as suas opções, características, gostos, modos de pensar e de agir…Por isso, a uma escola, junta-se outra e outra… nenhuma querendo correr o risco de ficar para trás nesta nobre tarefa de “ligação da escola à comunidade”… que se traduz, afinal, em deixar-se ir no seu rumo….Imagem retirada de: http://images.google.pt/imgres?imgurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/miss_mister_escola1.jpg&imgrefurl=http://www.esec-tabua.rcts.pt/alunos/assoc_estudantes.html&usg=__XEORnM-cuwbVCESRNIw3W-nBXjI=&h=1677&w=1204&sz=176&hl=pt-PT&start=3&um=1&tbnid=IS2FMeUpCU9JeM:&tbnh=150&tbnw=108&prev=/images?q=escola+concurso+miss+mister&hl=pt-PT&cr=countryPT&sa=G&um=1
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
É a pós-modernidade…
http://dererummundi.blogspot.com/2009/05/e-pos-modernidade.html
May 5 2009, 6:44am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Sei que onde estiverem o lembrarão
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/sei-que-onde-estiverem-o-lembrarao.html
Em Agosto do passado ano dei aqui a notícia do trabalho louvável de uma escola portuguesa – a Escola Rodrigues de Freitas, do Porto -, de uma professora - Alexandra Azevedo - e de um aluno – Afonso Reis Cabral - que se traduziu na participação no European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, promovido pelo Ministério da Educação da Grécia, o que lhes valeu um 8.º lugar nesta competição, entre quase 4000 candidatos.Passados alguns meses tive curiosidade de saber o que Alexandra e Afonso estão a fazer, neste momento.P: O que significou para vós o prémio que receberam no ano passado na Grécia?Alexandra: Será necessário começar por dizer que formada em Clássicas pela Faculdade de Letras de Coimbra, em 1992, só leccionei Grego no ano lectivo passado pela primeira vez. Sou das raras professoras que tem a sorte de ter tido sempre, ao longo destes anos, turmas de Latim, mas o Grego não tem cabido nos nossos curricula, onde os clássicos são sinónimo de passado… Assim, a possibilidade de leccionar grego foi, só por si, um prémio pessoal. Os alunos que tinha eram rapazes e raparigas muito interessados, com gosto pelo saber e adoraram a disciplina. A proposta do concurso pareceu-lhes ambiciosa e, por isso, apenas o Afonso se quis aventurar. Um ano de Grego é apenas um abrir portas aos autores, à cultura e a um pequeno nada de língua, mas foi muito motivador. O Afonso dedicou-se a estudar Arriano e Isócrates e conseguiu ser apurado. Fez um óptimo trabalho, claramente reconhecido pelo Ministério Grego. Foi, aliás, escolhido para falar na televisão grega. É um ser humano «grande» e que sabe abrir portas, pelo que tem os olhos postos no mundo que o rodeia. Julgo que se tenha identificado com os valores clássicos e penso que isso o marcará. A ele e aos colegas. O prémio…pois…um orgulho…! Uma compensação… com um misto de tristeza por não poder responder às solicitações que a Grécia me fazia. É muito difícil explicar na Europa - da qual neste campo estamos completamente isolados - que em Portugal não se estuda Grego, nem Latim, e que, por muito que eu queira ajudar, pouco consigo fazer… Mas sim, naquele dia, em Atenas senti-me emocionada ao recebermos as belíssimas medalhas. Foi um programa sensacional. Uma experiência inesquecível.Afonso: Para mim significou, antes do mais, que vale a pena o esforço, o trabalho e a ocupação de tempos livres para o estudo. Foram meses intensos, mas cheios de compensação pessoal. Depois, teve milhares de outros significados, tão importantes como o primeiro. Aprendi o quão carismática e dedicada pode uma Professora ser, apontando sempre o caminho. Aprendi que as línguas mortas estão afinal vivas. Aprendi que uma empreitada desta natureza nunca é um esforço singular, mas plural, já que passou pela Professora Alexandra e por mim, mas também pelos meus colegas, nas pequenas cedências e grandes simpatias de que deram mostra. Isto foi, essencialmente, o que significou o trabalho: poderia ter saído tudo gorado, nos resultados, que nunca seria um verdadeiro flop, por assim dizer. Este pensamento, enquanto não chegaram os resultados, foi reconfortante. Depois da semana grega, estando tudo terminado, o prémio ganhou novos significados. Mostrou-me que o tal esforço conjunto se pode traduzir numa semana divertidíssima e descontraída, dotada de um sol extraordinário, de praias semi-paradisíacas, de amizades cimentadas, etc. Significou também um sentido de comunhão europeia, que até à data nunca tinha experimentado, no sentido de que, apesar de sermos todos diferentes, estávamos ali pelos mesmos motivos e partilhávamos todos um pouco da mesma cultura. Isso foi muito reconfortante.P: O que fazem, neste momento, de extraordinário nas Clássicas e pelas Clássicas?Alexandra: De extraordinário? Nada. Portugal não permite. O que de extraordinário sinto que faço é ver em cada aula de Grego os 7 alunos que tenho este ano ouvirem com interesse e gosto os mitos, lerem as obras integrais em tradução… enfim, conhecerem. O que há de mais extraordinário para mim é confirmar que, ainda que o Ministério negue ano após ano, reforma após reforma, a importância dos clássicos, os alunos têm interesse e gosto. Mas não se ama o que não se conhece. O Amor nasce da convivência. É assim na vida. É assim também com a cultura.Como não há Latim no 12º ano, a escola deu-me a mim e ao meu colega e amigo Jorge Moranguinho a possibilidade de prepararmos os 4 melhores alunos que haviam tido a disciplina no 11º ano para concursos de Latim. Assim, num bloco semanal, traduzimos Ovídio e Horácio, com vista a estes dois concursos. Neste momento, o Jorge estava de partida para Sulmona para participarmos num concurso de tradução de Ovídio, que foi adiado por causa do terramoto, visto que Sulmona fica na província de Áquila. Em Maio, estarei eu com duas alunas em Venosa. É evidente que os quatro anos, seis, oito… que os outros alunos europeus têm de aprendizagem do latim não permite a Portugal ter expectativas, mas a experiência é fantástica e sentimos que estes alunos crescem intelectual e interiormente. Os clássicos são exemplos de virtudes humanas. De igual modo, concorremos novamente à Annual Competition of Greek language and Culture. Este ano era Xenofonte o autor proposto, a obra Memorabilia. Os alunos adoraram a fábula de Pródico, em que o herói Hércules conhece a Virtude e o Pecado, na forma de duas mulheres, tendo de escolher qual o caminho a seguir… Também o diálogo de Sócrates com o filho Lamprócles sobre a importância da mãe na vida de um ser e na sua educação, foi motivo de discussões acesas e muito importantes. Foi um mês e meio de trabalho intenso. Valeu a pena só por si. Veremos se temos sorte. Todos eles estão de parabéns pois trabalharam muito bem. Em Junho saem os resultados.Afonso: Não posso dizer que, agora, faça algo de extraordinário nas e pelas Clássicas. O extraordinário terá que ficar ao cuidado da minha Professora!... Re-estudo apenas Latim na Universidade Nova de Lisboa, onde estou a tirar o curso de Estudos Portugueses e Lusófonos.P: Que lugar têm as Clássicas nas vossas vidas?Alexandra: Adoro ensinar. Poderia fazê-lo em qualquer disciplina. Mas a verdade é que ensinar Latim e Grego me permite tentar que os alunos pensem melhor, ajam melhor, sejam melhores pessoas, com mais cultura geral. Sei que é isso que tem tornado a minha relação com eles diferente, ao longo destes anos. Não tenho ambições de formar classicistas, mas sim gerações mais cultas, que tenham vontade de mudar o rumo da educação no nosso país. E isso, em pequena escala, minúscula, ínfima, sei que tenho conseguido. Guardo no coração cada aluno que passou pelas minhas aulas de Latim, e agora nas de Grego. Unem-nos as leituras conjuntas que fazemos, as viagens que fizemos juntos. Sei que onde estiverem o lembrarão.Afonso: Como já disse, as Clássicas têm agora um lugar mais limitado na minha vida, sendo que não segui esse caminho directamente. No entanto, as Clássicas mantêm-se em linha paralela com o meu percurso académico. Estão sempre visíveis e servem de apoio aos meus estudos literários. A base que construí no Secundário tem-se revelado essencial em inúmeros aspectos, começando no domínio da língua e acabando no domínio da cultura. Sem elas, as Clássicas, o curso não me estaria a correr bem.P: Como vêem, neste momento, o futuro das Clássicas no nosso país?Alexandra: Sei que remo contra a maré. O Latim e o Grego não vendem em Portugal. Ninguém parece entendê-lo – ou poucos… É com espanto e um misto de vergonha que chego todos os anos a Itália e vejo centenas de jovens que estudam para Medicina, Engenharia ou Economia e que têm latim, grego; leram Homero, Virgílio, conhecem Horácio e o recitam… Que distância dos jovens portugueses! Os mesmos problemas sociais, as mesmas dificuldades económicas, as mesmas lutas contra novas dinâmicas tecnológicas, mas uma Escola que se quer Escola; que assume o seu papel e que não abdica dele. É com tristeza que vemos o fim dos cursos de literaturas no Secundário… que vemos o Ministério ignorar as tendências europeias, como se Portugal tivesse seres humanos diferentes… Em Itália ou na Grécia, sou sempre recebida de braços abertos pois acho que vêem em mim uma esperança… enganam-se, sinto que são os últimos combates… Mas, sim, continuarei, enquanto puder, a lutar contra a maré.Afonso: Posso apenas falar sobre o futuro das Clássicas no país no que diz respeito ao ensino secundário, já que é a experiência que eu tenho. Nesse campo, o futuro não é brilhante. O Ministério da Educação deambula entre o incompetente por negligência e o incompetente por agressão. Parece que não sabe nada, que não percebe nada, que não se interessa por nada: não soube sequer, por exemplo, dar a informação profissionalmente e sem falhas, que a Professora necessitava, de quantos alunos de Grego existiam à data em Portugal; nem sequer soube, o que me espanta, aproveitar os louros alheios. Ou seja, o trabalhinho estava todo feito: porque não aproveitá-lo? Isto pode parecer um pouco irónico, mas se tal tivesse acontecido demonstraria um mínimo de interesse, mesmo que por oportunismo. Imagine que só depois de muitas súplicas via e-mail conseguimos que prestassem atenção. Depois de todo o trabalho, esta foi uma demanda inglória e castradora: fazer com que o Ministério nos ouvisse! Quanto ao panorama geral, que é o mais importante, penso que deveria haver mais mobilidade e opção de escolha das disciplinas, porque me parece um convite à desistência só haver Grego no último ano (e como opção entre outras cadeiras, por exemplo, Psicologia) de um agrupamento já de si super especializado, o de Línguas e Literaturas. Uma maior mobilidade e alargamento de opções incentivaria os alunos a escolherem estas disciplinas. Claro que a desculpa de sempre é que não existe um número de alunos suficiente nestas áreas. Pois como pode haver, se nos atiram para um canto obscuro e de difícil acesso, visto erradamente por muitos como sem qualquer saída profissional? Gera-se então um ciclo vicioso difícil de quebrar. Não há apoio porque não há alunos, não há alunos porque não há apoio. Enfim, tudo isto tornou mais difícil a presença das Clássicas no Secundário. Conclusão: se a coisa continuar assim, pura e simplesmente não há futuro.
April 13 2009, 7:34am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Cursos de (De)Formação para Professores
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/cursos-de-deformacao-para-professores.html
Rui Baptista comenta a notícia "Esoterismo pode contar para a formação de professores", publicada este sábado pelo "Expresso", pela única via possível - a do riso: “A educação consiste em saber dar à criança a quantidade certa de amor” (Sigmund Freud)Sempre que uma pessoa se defronta com algo de impensável, é costume (do qual não sei a origem) dizer-se: “Desde que vi, no circo, um porco a andar de bicicleta já nada me espanta”. Mas será sempre assim? Dois factos levam-me a descrer.O primeiro, reporta-se a um artigo publicado há anos no "Público" (08/05/2005), da autoria de Nuno Pacheco, com um título que não deixa dúvidas sobre a paródia em que se transformou o ensino em Portugal: “Brincar às escolas”! O segundo, diz respeito a um artigo acabado de sair no “Expresso” (04/04/2009) da autoria de Joana Pereira Bastos intitulado “Esoterismo pode contar para a progressão na carreira”.A semelhança dos casos que geraram os artigos gemina-os no dislate – ambos se referem a acções imaginativas de formação de professores - embora seja diferente a progenitura: o primeiro foi organizado pela “Associação Sindical Pró-Ordem dos Professores” (baptismo ridículo, comparável ao de uma “Ordem dos Professores Pró-Associação Sindical”!) e o segundo pela Fundação Casa Índigo. Os dois tiveram a caução do Ministério da Educação (ME).Segundo Eça, “o riso é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se”. Bem a propósito, foi este o destino que uma notícia sobre uma acção de (de)formação de professores mereceu de Nuno Pacheco. Ou seja, num artigo jocoso, de ponta a ponta, que ora transcrevo em parte (transcrevi-o na totalidade no meu livro “O Leito de Procusta”, 2005, ps. 83, 84): “Lê-se e, por melhor boa vontade, não se acredita. Não há pasmo que consiga descrever a sensação de estar perante tamanho disparate. Ainda vamos descobrir que os males do ensino se devem aos cortinados das escolas, ao mau ‘design’ dos equipamentos ou ao perfume usado pelos professores. Talvez ajude um pouco de meditação transcendental, talvez exercícios tântricos, talvez ‘feng shui’…”Partamos, agora, ansiosos por novidades, para os objectivos da recente acção de (de)formação. São eles: “Aprendizagem de ‘técnicas pedagógicas para uma melhor integração das ‘crianças índigo, cristal, violeta, esmeralda, diamante ou douradas’, para além do conhecimento de ‘técnicas de regulação ou limpeza de energia’. Por mais incrível que pareça (lá vem, outra vez, o porco e a bicicleta!) , o ME, sempre atento a tudo destruir sem nada construir, acreditou este curso ministrado pela Fundação Casa Índigo, que é, segundo o “Expresso”, “uma instituição baseada na teoria de que a ‘aura’ da crianças tem diferentes cores, em função da sua energia e da ligação que mantém com o Universo”. Nestas acções de formação, que dão créditos para a progressão na carreira, ”os docentes podem aprender ‘técnicas pedagógicas’ (…). Além de poderem igualmente ficar a conhecer ‘técnicas de regulação ou limpeza de energia’”. Sobre os motivos da acreditação pelo ME deste tipo de acções poder-se-ão tirar, de entre outras, as seguintes ilacções:1.ª O ME sentindo-se incapaz de equacionar e resolver os problemas do ensino com medidas exotéricas enveredou pela via do esoterismo: as medidas agora são esotéricas.2. ª O ME, com essa atitude, corre o risco de se transformar numa espécie de altar ou talvez capela de uma seita que cultiva as ciências ocultas.3.ª O ME deve mandar encerrar, em respeito pela contenção das despesas públicas, todas as Faculdades de Psicologia e Ciências da Educação portuguesas por incapacidade de se tornarem parceiros científicos na investigação dos processos em melhorar o rendimento escolar sem ser pela via estatística.4.ª O ME deve criar um corpo de incendiários para queimarem em fogueira pública todos os lmanuais de Psicologia e Ciências da Educação por transmitirem conhecimentos que atrasam e obstaculizam um país de faz-de-conta, um país com elevados níveis de escolaridade, espelhados em sucesso escolar sem paralelo neste mundo.5.ª O ME pretende que todos os nacionais tenham escolaridade obrigatória de licenciado (antes de Bolonha) ou mestrado (depois de Bolonha), ainda que obtida à pala das miríficas “Novas Oportunidades” e “Provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”, em concorrência desleal para com as escolas do ensino básico e secundário, que correm o perigo de se tornarem desnecessárias por a idade de 23 anos (e por que não 21 ou 22?) para além de ser um posto ter passado a ser um atestado de sapiência.6.ª O ME providenciará a inscrição massiva dos novos diplomados, sem esperança no devir, nos Centros de Desemprego, com as cabeças cheias de nada e ocas de tudo, numa espécie da “Fundação Nacional de Alegria no Trabalho” (FNAT), do tempo da Outra Senhora, agora transformada em “Fundação Nacional de Tristeza no Descanso” (FNTD).Como promessa, qual réstia de sol no céu plúmbeo de asneiras de cabo de esquadra, com copianço no pensamento de Sigmund Freud em epígrafe, surge a intenção da responsável da Fundação Casa Índigo: “O curso serve basicamente para os professores entenderem a necessidade de amar as crianças”. Até parece uma boa intenção. Mas, a exemplo do inferno, de boas intenções não estará o ME cheio?Rui Baptista
- Tags:
- humor
- Sistema educativo
April 6 2009, 12:04pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“Transgredir as fronteiras”
http://dererummundi.blogspot.com/2009/04/transgredir-as-fronteiras.html
Sistemas de ensino como o nosso estão virados para a aquisição de competências (seja lá isso o que for…) apuradas no e para o quotidiano, a vida dos alunos, focadas no “saber-ser” e “saber-fazer”, como forma de preparação para a “vida activa”, para a prática, para a aplicação, para a integração social e profissional…Sistemas educativos como o nosso afastam dos curricula os conhecimentos que se suspeita não poderem ser “mobilizados”, de imediato, para a “resolução de problemas reais”, com o argumento de que os alunos, por não lhe verem qualquer serventia, se desmotivam …Sistemas educativos como o nosso proclamam que todos os conhecimentos são relativos e se equivalem: aqueles que consideramos eruditos e universais não passam de escolhas, mais ou menos aleatórias, de elites estabelecidas, que as transmitem aos seus descendentes com o intento de manterem o seu estatuto privilegiado. A estratégia igualitária só pode ser a reacção “crítica” e “emancipatória” que legitima a substituição desses conhecimentos por outros que emergem nos mais variados contextos culturais, étnicos... e que têm sentido nesses mesmos contextos.Assim sendo, sistemas educativos como o nosso põem em risco o saber que a civilização tem conseguido construir e que, afinal, lhe dá identidade. Praticamente todas disciplinas que constituem esse saber, sejam elas de carácter científico ou humanístico, se vêem ameaçadas de morte, restando-lhe lutar, em sentido contrário ao das orientações oficiais, pela sobrevivência dos seus fundamentos e essência, como forma de as fazer chegar ao futuro.De entre essas disciplinas, as Clássicas são talvez as que mais se têm ressentido. Nesta lógica que conforma a escolaridade, marcada pelo utilitarismo e “amnésia planificada”, como chama George Steiner, que temos vindo a deixar instalar, elas não “servem” rigorosamente para nada. Se não, vejamos: pertencem ao passado, estão, portanto afastadas dos interesses actuais da esmagadora maioria dos alunos e não se vê como os poderão ajudar a arranjarem um emprego que lhe garanta a “autonomia económica”.Interditar as Clássicas seria, no entanto, excessivo. (Ainda) há vozes capazes de se manifestarem, vozes que, apesar de tudo, causam algum embaraço. Assim, a solução encontrada é, como refere ironicamente Margarida Lopes Miranda, a atribuição de uma espécie de “reserva ecológica”, onde essas vozes se acomodem.Contudo, vejo os nossos classistas, parafraseando o físico-matemático Alan Sokal, “transgredirem as fronteiras” de tais reservas. Nas escolas e nas universidades vejo os professores continuarem a ensinar com entusiasmo os seus alunos; vejo investigadores de todas as idades a traduzirem textos de grandes autores, alguns deles originais, para a nossa língua, em edições académicas e de divulgação; vejo-os a criar colecções em papel e on-line, cuidando que a linguagem não seja uma barreira, mesmo entre os menos cultos; vejo-os a adaptarem peças de teatro de modo que as pessoas comuns as entendam e a representarem-nas por aí, por onde essas pessoas estão; vejo-os a estudarem aprofundadamente aspectos particulares da vida na Antiguidade, da maneira de pensar, sentir e agir de personagens que, distantes de nós no tempo, poderiam ser nós próprios; vejo-os a participarem em debates, tertúlias para darem a conhecer os seus autores e obras mais amadas…Apesar de todos ventos parecerem soprar a desfavor, vejo as clássicas a renascer.
April 5 2009, 12:24pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“Como houveram protestos"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/como-houveram-protestos.html
Hoje várias pessoas me perguntaram se tinha ouvido, na rádio, a crónica de Dona Rosete. Não a ouvi, mas a curiosidade levou-me a lê-a agora e não resisto partilhá-la directamente, “sem links”, com os nossos leitores (peço desculpa pela liberdade que tomei ao mudar o título). Obrigada Maria Rueff e equipa pelo bom humor."As pessoas, também, quando é para maçar, não deslargam um indivíduo. Estava o engenheiro Sócrates a pensar que mais nada lhe podia acontecer, e lá se puseram a implicar outra vez com o Governo, agora porque o Magalhães, o computador, dá erros de português. E eu pergunto: ó senhores, mas errar não é humano? Então se é humano, isso só prova como o Magalhães é um computador ultra-avançado! A sério – olhando para estes erros que agora foram divulgados, parece-me que o Magalhães está mesmo a um passinho de fazer coisas nunca vistas num computador como... escarrar no chão, por exemplo!“Erros, erros”... Ó senhores, não percebem que o facto do Magalhães falar mal é para o aproximar da petizada, que cada vez fala e escreve pior? Aquilo faz tudo parte de um plano. Se as coisas estivessem bem escritas, como é que a rapaziada percebia o que é que a maquineta queria? O Magalhães é o primeiro computador que fala a língua da juventude, estão a compreender? Por isso é que em vez de “jogaste”, tudo junto, ele diz “jogas”, tracinho, “te”. E em vez de “gostaste”, ele diz “gostas”, tracinho, “te”.Diz que o Magalhães diz lá, a certa altura, “neste processador, podes escrever a texto que quiseres”. Isto de falar de uma coisa masculina como se fosse feminina – “a texto” – é uma coisa que eu, até agora, só tinha ouvido na boca de uma pessoa: a mulher-a-dias ucraniana dos senhores do terceiro direito, lá do meu prédio. O que mostra como o Magalhães não só fala a língua da juventude, mas também a dos imigrantes que escolheram o nosso país como a terra das oportunidades. E é! Olha, uma coisa em que eles podem trabalhar agora cá, é a fazer correctores ortográficos para o Magalhães! Tenho a sensação que se abriu aí um nicho de emprego, com esta linguagem, vamos chamar-lhe, universal que o nosso Magalhães fala agora.O computador ainda diz, por exemplo, e a respeito ainda dos textos, que se o petiz que o estiver a usar, estiver a escrever um texto, pode “gravar-lo e continuar-lo mais tarde”. Eu acho que isto não é erro; isto soa-me é a português antigo. O que faz sentido – o computador tem o nome de um navegador dos Descobrimentos e fala como ele!O Ministério da Educação, perante tanto dedo espetado na direcção dele, lá emitiu um pedido de desculpas. Aliás, eu trouxe-o aqui, posso lê-lo. Diz assim: “Como houveram protestos, o Munistério pede desculpas ao pessoal a quem isto trusse sarilhos. Deve de ter sido munto prujudicial. Obrigadinhas.”Publicado em: http://tsf.sapo.pt/blogs/donarosete/archive/2009/03/12/erros-do-magalh-227-es.aspx
- Tags:
- Sistema educativo
- erros
March 12 2009, 2:26pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Desinstale-se…
http://dererummundi.blogspot.com/2009/03/desinstale-se.html
Na zona Centro do País (nas outras zonas deve ser igual) recebem os encarregados de educação em sua casa, através dos seus educandos, fotocópia duma mensagem da Direcção Regional de Educação dirigida ao Presidente do Conselho Executivo/Director(a) Pedagógico(a), que solicita a colaboração de várias pessoas - coordenador TIC, professores, pais... - na desinstalação "com a máxima urgência" do tal software com erros que veio com o "Magalhães". Estão ausentes expressões tão simples quantos estas: "pedimos desculpa", "por favor", "agradecemos"...Seguem-se 6 páginas de instruções e imagens – com a da mensagem são 7. Multiplique-se este número de páginas pelo número de professores e de alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico… São umas valentes resmas de papel!
- Tags:
- Sistema educativo
- erros
March 12 2009, 2:04pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
“Mas a lei muda-se de um dia para o outro...”
http://dererummundi.blogspot.com/2009/02/mas-lei-muda-se-de-um-dia-para-o-outro.html
Novo post de Rui Baptista sobre educação, desta vez sobre as responsabilidades pelo descalabro educativo:“A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais” (Aristóteles).Num comentário ao meu último post, assumindo a recusa em comungar do desalento do poeta do “Orpheu” – “Já nada me importo/ Até com o que amo ou creio amar./ Sou um navio que chegou a um porto/ E cujo movimento é ali estar” -, deixei a promessa de um novo texto sobre o sistema educativo. Aqui está.No uso da licença e da liberdade de quem “não pede favor senão justiça”(Padre António Vieira), chegou a hora de se exigirem contas aos responsáveis pelo estado caótico a que chegou a educação em Portugal e a que não é estranho o Estatuto da Carreira Docente promulgado por Roberto Carneiro em grande clima de pressão sindical. Esse estado caótico foi reconhecido por António Guterres no início do seu consulado como primeiro-ministro ao eleger a educação como a sua grande paixão: “De repente, perante a obstinação dos que teimam em não acreditar na realidade, o Portugal novo-rico tornou-se no Portugal novo-pobre. Pobre porque pobre na qualificação das pessoas. Aí estão a comprová-lo os números terríveis do Estudo Nacional de Literacia recentemente publicados”.Infelizmente essa paixão transformou-se no amor da símia que de tanto amar a sua cria a aperta de encontro ao peito até a asfixiar! Em finais de 98, a OCDE lançou um megainquérito em vários países sobre as competências dos alunos com 15 anos de idade no fim da escolaridade obrigatória. Mas Portugal não participou nesse inquérito! Era então secretária de Estado da Educação no governo de Guterres Ana Benavente. Foi essa governante que consentiu a promiscuidade docente de licenciados por universidades e por escolas superiores de educação no 2.º ciclo do ensino básico. Como alertei em tempo, existiam “quase 6000 professores formados pelas escolas superiores de educação a leccionarem no 2.º ciclo do ensino básico (numa altura em que se assiste a um decréscimo demográfico) não é número que se despreze por irrelevante” (Correio da Manhã, 17/07/96). E, segundo Valter Lemos, actual secretário de Estado da Educação, na altura docente da Escola Superior de Educação de Castelo Branco, os alunos licenciados por esta escola ascendiam na altura a 5810 (Público, 25/05/96). Mas quase não havia alunos a estudar para serem professores do 1º ciclo do ensino básico.Pouco depois, como escrevi também, Ana Benavente, em descarte de responsabilidades, “numa reunião do Conselho Nacional de Educação, ‘salientando a importância do 1.º ciclo do ensino básico’, em vez de procurar um tratamento de choque para uma grave maleita que se avizinha, satisfaz-se em receitar a mezinha do apelo a este Conselho para que organize um colóquio sobre este nível de ensino, dando, segundo as suas próprias palavras, ‘um contributo muito importante’ para a sua valorização na sociedade. A um doente com uma grave pneumonia será suficiente receitar-lhe uma simples aspirina?” (Público, 30/05/96).Os resultados da desastrosa medida de atribuir às escolas superiores de educação competência para licenciar professores do 2.º ciclo, descurando os bacharelatos para a docência do 1.º ciclo, não se fizeram esperar. Segundo um relatório das Caritas Europeia (referido no Jornal da SIC, 8/02/2001) “um em cada dois portugueses não percebe o que lê”. No dia seguinte, o jornal Público noticiava não menor escândalo: “Zero foi a pontuação obtida na realização de problemas matemáticos por 40% do 118 mil alunos, do 4.º e 6.º anos de escolaridade, que efectuaram provas de aferição, no ano lectivo de 2000/2001”.Entretanto, quando constava estar a ser preparada legislação que viria a permitir aos licenciados pelas escolas superiores de educação leccionarem o 3.º ciclo do ensino básico, foi a direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados recebida por Ana Benavente. Foi-lhe posta a questão. Fazendo jus à proverbial ambiguidade dos políticos, fechou-se em copas, mas sem deixar de mostrar um ar agastado. Chamando-lhe eu a atenção para o facto de a Lei de Bases do Sistema Educativo contemplar, apenas e tão-só, essa docência a docentes licenciados por universidades, ela, sem se dar por achada, “bamboleando três vezes a cabeça como quem prefacia uma revelação ponderosa” (Camilo Castelo Branco), retorquiu: “Mas a lei muda-se de um dia para o outro…” Um país que não preserva padrões de excelência, desrespeitando até direitos atribuídos às licenciaturas anteriores ao Processo de Bolonha e que sobrevaloriza as licenciaturas do ensino politécnico pondo-as ao serviço de poderosos lobbies de sindicatos que defendiam os professores com menor habilitação académica, sofre de maleita grave, necessitando de uma terapia urgente que não se compadece com paninhos quentes. E a educação, porque é um assunto demasiado sério para servir de experimentação de reformas sem nexo, necessita de um tratamento de choque a cargo de médicos competentes e não de simples curandeiros.
- Tags:
- Sistema educativo
February 25 2009, 3:27pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Avaliar a Educação - I
http://dererummundi.blogspot.com/2008/12/avaliar-educao-i.html
O ProblemaMaria Regina Rocha opina sobre a avaliação do desempenho dos professores de que se fala, que se tenta implementar, que se altera... e de como ela constitui, no presente, um sério problema do e no sistema educativo.Parece óbvio que está instalado o caos na Educação: a Ministra da Educação critica duramente e é duramente criticada, mantendo o discurso de que «não cede nos princípios do modelo de avaliação» desenhado no Decreto Regulamentar n.º 2/2008, como se recuar numa medida polémica atendendo ao que a esmagadora maioria dos profissionais da classe diz fosse um sinal de má governação (quando é precisamente sinal de que o governante tem em consideração o que o seu povo lhe diz, como deveria sempre acontecer) ou como se aquele decreto fosse a própria essência da avaliação e não apenas um conjunto de artigos que pode, naturalmente, ser substituído por outro (o normal nas leis é precisamente o serem substituídas por outras consideradas melhores, e os bons governantes são os que as vão melhorando, de modo a que, por elas, melhorem as condições de vida dos cidadãos); os sindicatos assinaram um memorando com o qual afinal não concordam plenamente e tardam em apresentar uma alternativa clara consensual; muitos professores não se sentem representados pelos sindicatos, tanto que criam movimentos independentes e lamentam que a tutela não os ouça, sentindo-se desconsiderados, insultados, desalentados; os alunos estão descontentes; os pais, apreensivos; os partidos políticos em oposição ao Governo tentam tirar dividendos da situação, uma situação da qual nenhum partido deveria tentar tirar dividendos, pois são todos co-responsáveis. Toda a gente fala e ninguém realmente se ouve nem se entende...Mas, afinal, o que é que está realmente em causa? Porque é que o Ministério da Educação tenta instalar a todo o custo este modelo de avaliação dos professores?Já todos sabemos porque é que os professores o contestam. Das diversas razões que invocam, salientam-se as seguintes: os professores não querem ser avaliados em função dos resultados dos seus alunos ou do abandono escolar destes, visto haver muitos factores que condicionam esse insucesso, nomeadamente os próprios alunos, com o seu interesse e trabalho; os professores titulares não querem ser avaliados pelos próprios colegas, essencialmente porque essa avaliação será sempre sentida como pouco credível, dadas as relações de convivência que se estabelecem entre profissionais que desempenham as mesmas funções durante anos na mesma escola e, também, porque muitos dos avaliadores têm habilitação inferior ou diferente da do avaliado, a mesma experiência e anos de serviço ou até menos; os professores não querem ser sujeitos a quotas de Excelente e de Muito Bom, pois o mérito absoluto de cada professor deveria ser considerado, independentemente de um número artificial criado pela tutela; os instrumentos de avaliação são diferentes de escola para escola, o que cria injustiças; o processo exige grande dispêndio de tempo de todos os intervenientes de uma classe já exausta por tantas tarefas que lhe são cometidas além das de ensinar.São objecções razoáveis: porque é que a tutela não as considera?A recusa em aceitar revogar o decreto da polémica faz com que se pense que o Ministério da Educação tem, com este modelo de avaliação do desempenho docente, três propósitos: (1) conseguir melhores resultados escolares, independentemente da qualidade das aprendizagens dos alunos; (2) avaliar os professores sem custos financeiros, pois os professores avaliadores continuam a leccionar o mesmo número de turmas, a ter todo o trabalho que tinham e ainda por cima o de avaliar os colegas (no período destinado à preparação de aulas e de materiais, elaboração e correcção de testes, reuniões de conselho de turma, de departamento e outras, etc., também fazem essa avaliação); (3) fazer sentir aos professores (e à opinião pública) que, se estes não progridem mais rapidamente na carreira, não é porque o Ministério da Educação não os queira remunerar melhor, mas porque não são professores muito bons (quando, afinal, define quotas para essas classificações), o que significa responsabilizar os professores pelos males da Educação, desresponsabilizando o próprio Ministério.Este último é um aspecto muito importante, quiçá o mais determinante na tentativa de manutenção do referido decreto: parece saltar à vista que o Ministério da Educação tenta denodadamente fazer aplicar este modelo de avaliação porque pretende gastar menos no pagamento de salários aos professores que progridam na carreira. Em vez de o admitir, apresenta um modelo de avaliação que retarda a progressão, e, estrategicamente, lança o labéu da falta de qualidade sobre os professores, como se estes fossem os responsáveis pela alegada falta de sucesso dos alunos, e isto porque não têm sido avaliados.Mas os professores têm, sim, sido avaliados: o modelo era outro; havia, no entanto, quem não progredisse e quem saísse da profissão na sequência da instauração de processos pela Inspecção-Geral de Educação. Eram poucos casos, dir-se-á, mas, naturalmente, teriam mesmo de ser poucos, pois, para se desempenhar a função de professor, existe logo no início da carreira um estágio (no qual há reprovações), e todo o trabalho do professor é, nas escolas, acompanhado pelos respectivos coordenadores e órgãos de gestão, sendo os professores obrigados a cumprir os programas emanados do ministério, a cumprir todas as directrizes não só do Conselho Pedagógico como dos restantes órgãos, a apresentar aos alunos e pais os critérios de avaliação, a justificar notas, a responder a recursos dos encarregados de educação, a frequentar acções de formação contínua, etc., e a fazer periodicamente um relatório crítico da sua actividade, analisado pelos órgãos de gestão da sua escola: trata-se de uma profissão exposta, existindo diversos mecanismos de regulação directa e indirecta.Assim, foi um atentado à verdade e a esta classe profissional o Ministério da Educação ter feito passar para a opinião pública a ideia de que os professores não têm sido avaliados, que têm, em geral, desempenhado mal as suas funções e que são responsáveis pelo insucesso dos alunos. O motivo final desta avaliação – pagar menos aos professores fazendo com que o seu percurso até chegar ao topo da carreira seja mais longo, de forma a despender menos dinheiro com salários – não justifica destruir-se a imagem de uma classe que a esmagadora maioria dos profissionais abraçou por vocação.E, chegados aqui, pergunto: é avaliando assim os professores que se altera qualitativamente a Educação e o Ensino em Portugal, como se sugere nos normativos deste modelo de avaliação? É por este meio que os nossos alunos vão passar a ter melhores resultados nos programas e estudos internacionais? É assim que os alunos terão conhecimentos mais profundos, serão mais capazes, adquirirão mais competências? É questionando publicamente um pilar da sociedade, os professores, que se ganhará a Educação em Portugal?A resposta é «Não!».É que fazer crer à opinião pública que os males do ensino residem na actuação dos professores e no facto de nunca terem sido avaliados segundo este modelo revela, no mínimo, ignorância, no máximo, má fé.E isto por dois motivos: os grandes factores que influenciam os resultados dos alunos (sensivelmente 60%) não são controláveis pela escola (essencialmente aspectos pessoais e sócio-económicos) e, dos restantes, ou seja, os factores inerentes ao sistema educativo, os professores não são responsáveis por aqueles que são determinantes, ou seja, os currículos, os programas e o tipo de formação pedagógica e didáctica que lhes é proporcionada: não esqueçamos que os professores cumprem os programas e directrizes da tutela e dos órgãos de gestão (escrupulosamente, senão têm de o justificar).Assim, com verdade e serenidade, não misturemos avaliação dos professores, progressão na carreira e política salarial do governo com o que está mal no Ensino em Portugal e como resolvê-lo.Maria Regina Rocha
December 2 2008, 3:15am | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
UMA ESCOLA QUE DÁ O EXEMPLO
http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/uma-escola-que-d-o-exemplo.html
A melhor escola pública portuguesa, a avaliar pelos "rankings" dos exames do secundário é a Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra. Pois esta escola, onde as reformas antecipadas de vários professores estão a causar graves problemas, decidiu, por unanimidade dos seus docentes, suspender o processo de avaliação. Se outras escolas seguissem o seu exemplo - e outras de Coimbra parece que o querem fazer - o imbróglio em que o Ministério meteu as escolas poderia terminar... De assinalar que, ao arrepio de falsas divisões que foram cultivadas, os pais confiam nos professores e estão com eles na decisão que tomaram. A Associação de Pais foi clara a este respeito: "Não queremos que esta escola perca a qualidade que tem".PS) Rosário Gama, a Presidente do Conselho Executivo da Escola, é militante do PS, tendo inclusivamente colaborado no último número, dedicado ao ensino, da "Ops!", revista de opinião socialista.
November 11 2008, 6:37pm | Comments »
-
João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
SAÍRAM COMO ENTRARAM
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/saram-como-entraram.html
Hoje, à saída do Ministério da Educação, Mário Nogueira, o dirigente sindical da Fenprof, reconheceu que não tinha conseguido o que queria ("saímos como entrámos"), mas repudiou a manifestação dos professores que está anunciada para o próximo dia 15 de Novembro ("a Fenprof demarca-se, totalmente, dessa manifestação").Há uma coisa que a Fenprof ainda não interiorizou: é que celebrou um acordo com o Ministério da Educação, que agora está evidentemente obrigada a cumprir. É por isso que saíram como entraram, não poderia ser doutra maneira. E é talvez por isso que muitos professores querem sair à rua no dia 15 de Novembro.Há que dizê-lo de um modo claro: O ónus da actual situação educativa tem de ser partilhado pela administração e pelos sindicatos. Por muitas críticas que os professores possam fazer à ministra - e podem, pois ela nunca os valorizou o suficiente - não é justo que ela receba mais críticas do que o dirigente sindical - que, cheio de ideias retrógradas, não conseguiu de todo valorizar os professores.
October 14 2008, 1:00pm | Comments »






