- Como é sabido, em 2001 o Ensino Básico Português sofreu uma reorganização curricular.2. A lógica dessa reorganização, à semelhança doutras realizadas noutros países, assenta, não em conteúdos, mas em competências.3. A noção de “competência”, constante no Currículo Nacional do Ensino Básico vigente, tem levantado, entre os professores, inúmeros problemas de entendimento, de operacionalização e de utilização.4. Não, não são (todos) os professores que entendem mal. A noção é que, tal como se apresenta, é equívoca. Isto é reconhecido, preto-no-branco, pelos principais mentores do Movimento de Reorganização Curricular por Competências (posteriormente, noutro texto, poderei apresentar algumas das suas explicações).5. Face às muitas dúvidas levantadas pelos professores desde 2001 até ao presente, a tutela e os especialistas que advogam a noção tem divulgado inúmeros documentos que a abordam. Também se têm publicado muitos artigos em revistas de educação, bem como vários livros técnicos e de divulgação.6. Uma das muitas dúvidas dos professores é a seguinte: qual o lugar dos conteúdos num ensino organizado por competências?7. Têm os professores razões para expressarem tal dúvida, pois uma das “mensagens” (entre o explicito e o subliminar) que passa quando se aborda a noção de “competência” é que os conteúdos serão chamados para se adquirirem competências, essas sim o cerne do ensino.8. Que outra conclusão se pode tirar das seguintes frases retiradas do documento curricular acima referido: a competência “integra conhecimentos, capacidades, atitudes, estratégias…” e “a aquisição progressiva de conhecimentos é relevante se for integrada num conjunto mais amplo de aprendizagens e enquadrada por uma perspectiva que coloca no primeiro plano o desenvolvimento de capacidades de pensamento e de atitudes favoráveis à aprendizagem”?9. Ainda assim, nesse documento, depois de apresentadas as competências gerais (que são dez) e a sua operacionalização transversal (que soma quarenta e seis), são apresentadas as áreas disciplinares com as respectivas competências (cujo número varia).Mas, muito importante, reconhece-se a existência de áreas disciplinares, sinal, digo eu, de que há conhecimentos que podem e devem ser tratados com os alunos.10. Ora, foi noticiado recentemente que o Conselho de Escolas, orgão consultivo do Ministério da Educação, além de se preparar para apresentar proximamente uma proposta para nova revisão curricular do Ensino Básico (outra!), ela assentará em competências estabelecidas pela União Europeia.11. Li que o presidente, Álvaro Almeida dos Santos, sublinhou a necessidade de formarem áreas de competências, áreas curriculares com disciplinas ou conjuntos de disciplinas: "Se temos uma competência histórico-geográfica para desenvolver com os alunos, não precisamos de ter uma disciplina de História e outra de Geografia. Poderão juntar-se", exemplificou.12. Apesar do exemplo não entendi bem, melhor não entendi a ligeireza com que se descartam disciplinas fundamentais, como História e Geografia, ao mesmo tempo que se introduzem estranhas temáticas como "empreendedorismo".13. E muito menos entendi o que se segue: “O importante é que a nível do Ensino Básico se consigam desenvolver as oito competências-chave (...): comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, competência a Matemática e competências básicas em Ciências e Tecnologia, competência em Tecnologia Digital, Aprender a Aprender (ter competências para aprender sempre), competências sociais e cívicas, espírito de iniciativa e empreendedorismo, consciencialização da identidade cultural e a sua expressão.Esperemos para ver o que se segue, mas o que se segue será nesta linha, pois está estabelecido na União Europeia que assim seja.Notas:Para escrever este texto consultei um artigo do jornal Público, que se pode encontrar aqui.No De Rerum Natura escrevi dois textos sobre a questão das competências: aqui e aqui.
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Oito competências-chave
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/oito-competencias-chave.html
December 9 2009, 2:04pm | Comments »
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Professores? Mas o que é isso?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/professores-mas-o-que-e-isso.html
Do outro lado do Atlântico, chega à caixa de correio do De Rerum Natura a brincadeira que, a seguir, se reproduz. O ano é 2.209 D.C. - ou seja, daqui a duzentos anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:“Vovô, por que o mundo está acabando?”. A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:“Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.“Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?”O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.”.“Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?”“Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.”“E como foi que eles desapareceram, vovô?”“Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer: «estou pagando e você tem que me ensinar, ou «para quê estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você», ou ainda «meu pai me dá mais de mesada do que você ganha.» Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo gerenciar a relação com o aluno. Os professores eram vítimas da violência física, verbal e moral que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas bem sucedidas eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas... Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando os milicos colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos subversivos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de educação libertadora que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior «os milicos» ou os tais dos «subversivos».“Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?" “Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais..."
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December 7 2009, 11:23am | Comments »
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Cagnotte e lugares para o futebol
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/cagnotte-e-lugares-para-o-futebol.html
As crianças e os jovens devem estar na escola? Com certeza. Mas, valerá tudo para os ter lá, para ter lá apenas o seu corpo?Em França está a ser "experimentada" uma medida para aumentar a assiduidade, que tem entre os defensores convictos, reitores, o Alto Comissário para as Solidariedades Activas, o ministro da educação.... Essa medida, noticiada na TSF, é a seguinte:"E se a turma do seu filho ganhasse um jackpot, digamos 10.000 euros ao fim do ano como prémio pela assiduidade à escola, aplaudiria?Pense duas vezes... A experiência - cagnotte, como lhe chamam os jornais franceses, enquanto a experiência vai alastrando (...) - começou ontem em três escolas profissionais (...). Cagnotte (...) é do jargão do jogo a dinheiro. O conceito é simples: se toda a escola for assídua a escola põe no bolo, no monte, 2.000 euros. A coisa pode chegar ao jackpot de 10.000 euros no fim do ano se todos atinarem (...).Os sindicatos dos professores pediram já a retirada desta medida, considerando que a assiduidade é o primeiro dever do aluno. Uma federação de estudantes liceais contesta a medida que define como inútil estúpida e perigosa, e propõe a redução do número de alunos por turma, por exemplo (...).A experiência está lancada, pode alastrar metade das escolas profissonais da região de Paris.A polémica enche os jornais franceses, que vão dando notícia entretanto de outros truques de escolas, porventura pressionadas pela exigência de estatísticas favoráveis. O liceu de Marselha, por exemplo, já começou a oferecer lugares para o futebol (...) para os alunos mais assíduos."Pode o leitor ouvir a notícia integra aqui e valerá a pena ouvi-la, pois nela se avançam outras medida aparentemente mais construtivas.
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December 7 2009, 2:55am | Comments »
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Os gastos (inúteis) na educação
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Convidado a comentar o recente estudo sobre o nível de literacia na leitura dos portugueses, do qual acabámos de dar conta no De Reum Natura, João Salgueiro referiu que o problema não se resolve com um investimento maior em Educação.Afirmou este economista: "Se há indicador em que não estamos mal é no volume de recursos que dedicamos à Educação e temos dos piores resultados no desempenho" A causa "está no funcionamento do sistema de Educação e no sistema económico".A mesma opinião foi formulada, há uns anos, por um outro economista, Paulo Trigo Pereira, em entrevista ao jornal Público: "Opta-se, por aumentar a despesa pública em educação. Só que isso pode não resolver nada. Aliás, o que vemos é que Portugal gasta mais na educação por aluno do que grande parte dos países europeus (...) o acréscimo de despesa não está a ser orientado para aquilo em que é mais eficaz do ponto de vista do sucesso educativo. Com o problema de finanças públicas que temos, é fundamental gastar melhor. Mas para isso é preciso conhecer a realidade, ter dados, analisá-los, ter metas quantificadas e ver se foram cumpridas ou não."
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December 6 2009, 2:30pm | Comments »
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Um "mundo às avessas"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/um-mundo-as-avessas.html
"O que se passa hoje no ensino é um reflexo daquilo que nós vivemos também na sociedade. E o que se passa no ensino é exemplo do absurdo e do mundo às avessas.Esta expressão do mundo às avessas é uma expressão clássica de Gil Vicente e de Luís de Camões. E porque é que eu digo que vivemos num mundo às avessas? É porque, no fundo, o professor não tem de reflectir sobre aquilo que é o seu ensino e as suas responsabilidades do acto de ensinar, mas está, neste momento transformado num servidor do estado, tem que obedecer, tem que cumprir, tem de aceitar aspectos extremamente imbecilizantes que aparecem nos programas quer do básico quer do secundário e que testemunham (…) uma grande ignorância (…) uma falta de amor pela língua portuguesa, pela cultura portuguesa, pelo património que herdámos.E todas estas alterações são feitas com palavras que se envolvem numa capa protectora, que é o progresso e a democracia. Com elas tentam fechar todas as pessoas que querem fazer alguma crítica porque aqui estamos a ir contra o progresso e a democracia. E sabemos antecipadamente que qualquer critica que façamos não vai ter qualquer resultado."Estas palavras são da Professora Maria do Carmo Vieira Plano, que Mário Crespo, Henrique Medina Carreira e Nuno Crato convidaram para uma conversa sobre a Educação em Portugal no programa de televisão Plano inclinado, que pode ser visto na íntegra aqui.
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December 6 2009, 2:02pm | Comments »
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O nosso nível de literacia
http://dererummundi.blogspot.com/2009/12/o-nosso-nivel-de-literacia.html
A pedido dos coordenadores do Plano Nacional de Leitura foi recentemente realizado um estudo cujo objectivo era caracterizar o nível de literacia na leitura dos portugueses.Como se saberá, este tipo de literacia envolve competência para ler fluentemente e compreender o que se lê, de modo a dar resposta a problemas concretos.Tal estudo, realizado pela Data Angel e coordenado por Scott Murray, foi apresentado no passado dia 3 de Dezembro na Fundação Calouste Gulbenkian, confirmando os dados a que chegou outros apurados em estudos anteriores: são graves as deficiências nas competências de literacia da nossa população.Em concerto, e de modo muito sumário, este estudo evidenciou que em cada cinco sujeitos apenas um possui um nível médio de literacia. O que é o nível mais baixo do conjunto de países investigados.Uma notícia mais completa, da autoria de Isabel Teixeira da Mota, pode ler-se aqui.
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December 6 2009, 6:37am | Comments »
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O FUTURO DA EDUCAÇÃO NUMA EDUCAÇÃO SEM FUTURO
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“Isto de todos serem iguais é uma trafulhice” (Medina Carreira, Revista “Expresso”, 24/10/2009)Prezado Dr. João Viegas:A minha gratidão pelo seu comentário que muito me sensibilizou por, na sua qualidade de advogado, como escreveu, “fazer da polémica profissão”, dedicando a benevolência da sua atenção a um simples amador (aquele que ama) de uma arte com tradição na vida cultural portuguesa. Não o reconhecer seria uma falsa modéstia que, não poucas vezes, serve para esconder o sentimento da vaidade.Desde sempre me habituei a ver nos profissionais das chamadas Letras e do Direito cultores de um Português exemplar. Seria, todavia, cometer injustiça se não acrescentasse a este rol os profissionais da Medicina que, ao longo dos tempos, deram às Belas-Letras um contributo muito valioso como, v.g., Júlio Diniz, Fernando Namora, Miguel Torga e António Lobo Antunes. Razão assistiu ao professor catedrático de Medicina Abel Salazar quando escreveu (cito de memória) que “um médico que só sabe de Medicina nem isso sabe”. E ele fê-lo com a autoridade de uma personagem multifacetada no âmbito da Cultura. Anos atrás, preocupado com a forma como alguns dos meus alunos universitários redigiam e interpretavam textos, dei conta das minhas angústias a um professor de Direito, que me disse passar-se o mesmo com uns tantos dos seus alunos. Embora este exemplo me desse uma certa consolação, muito me entristeceu por ser uma prova (mais uma!) do estado lastimoso como chegam aos claustros universitários os alunos, depois de um percurso académico de 12 anos, tantos são os que vão do início 1.º ciclo do ensino básico ao final do secundário; e isto para já não falar daqueles que viriam a chegar à Universidade, poucos anos depois, através das “Novas Oportunidades” (que eu, em tempos, baptizei de novos oportunismos) e do “Exame de Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 anos”. Desta inominável forma, o simples Bilhete de Identidade passou a sobrepor-se a toda e qualquer forma de avaliação de competências a que o extinto “Exame Ad Hoc” dava uma certa garantia de o autodidactismo dos respectivos candidatos não ser uma forma de ignorância por conta própria.Um certo pudor, mas a que a verdade se sobrepõe, poder-me-ia levar a não referenciar o plano inclinado, num declive quase a pique, sobre uma determinada formação de professores, em que a excepção para mais não serve do que para justificar a regra. Apenas um exemplo. Antes do chamado “Processo de Bolonha”, para a docência da disciplina de Matemática - e todos nós temos consciência do estado lastimoso a que chegou a sua (des)aprendizagem - do 2.º ciclo do ensino básico, tanto era exigida uma licenciatura universitária como uma licenciatura das escolas superiores de educação. Acrescia que a licenciatura universitária habilitava, tão-só e exclusivamente, para o ensino da Matemática, enquanto a licenciatura politécnica das escolas superiores de educação dava acesso, em simultâneo, ao ensino da Matemática e das Ciências da Natureza.Mas esta aberração (para utilizar um eufemismo de escândalo) não se fica por aqui. Em simples demonstração, um aluno saído das escolas superiores de educação (cujo ingresso foi feito com classificação mais baixa, a frequência com menos anos de estudo e o diploma de saída com classificação mais alta) com 13 valores quando em concurso, para a docência do 2.º ciclo do ensino básico, com um licenciado em Matemática com um simples valor a menos (12 valores), passava-lhe à frente. É natural a interrogação: mas como foi isto possível? Isto foi possível por um sindicalismo docente que, ao serviço dos interesses dos seus dirigentes e da sua clientela, fez com que o Ministério da Educação andasse a reboque de reivindicações laborais que arrastaram atrás de si uma série de medidas que conduziram ao actual “statu quo”, que nos deixa muito mal vistos no “Programme for International Studend Assessment"(PISA)”, lançado em 1997, para comparar, a nível internacional, os resultados dos diversos sistemas educativos medindo o desempenho de jovens com a idade de 15 anos na literacia em leitura, Matemática e Ciências.Durante alguns anos do tempo em que Ana Benavente foi secretária de Estado da Educação, Portugal não participou no PISA, em coerência com a pedagogia então reinante, denunciada num notável livro de Nuno Crato em que não avaliar em exames nacionais, quanto mais em provas internacionais, era a senha de um ensino de sucesso manipulado com estatísticas que, segundo Medina Carreira, “fazem do Estado um mentiroso compulsivo”. A prova da miséria do ensino da Matemática, por exemplo, está bem expressa nos resultados do ano de 2006, em que Portugal ficou em 25.º lugar entre os 29 países concorrentes.Foi aventado no seu comentário “a vantagem de uma lei ibérica que obrigasse os cidadãos a lerem o Dom Quixote pelo menos uma vez todos os cinco anos”. Embora eu gostasse de não se tratar de uma utopia a afundar-se em areias movediças do pântano do nosso sistema escolar, no qual os programas de Literatura Portuguesa, em nome de um país que vivia agarrado ao ecrã televisivo para ver o “Big-Brother”, passaram a integrar textos a ele alusivos.Vieira, Eça, Camilo, Ramalho, Torga, qual quê! E mesmo quando estes autores, porventura, eram dados houve quem o fizesse através de sinopses de poucas páginas das suas obras, deixando essa exigente tarefa para filmes de êxito de bilheteira, como o “Crime do Padre Amaro”, em que uma simples imagem desnuda de Soraia Chaves passou a valer mais do que as numerosa páginas literárias de uma atormentada Amélia, figura central de um drama passional.Já vai longo este lençol de desgraças de um país que mereceu o desalento pessoano: “Não tenho culpa de ter nascido em Portugal, e exijo um país que me mereça”. Jovens portugueses há que, a exemplo, não têm culpa de terem nascido em Portugal e, por isso mesmo, devem exigir um sistema educativo que mereça os melhores cérebros saídos das universidades que se vêem, muitas vezes, na necessidade de sair das fronteiras nacionais, onde o mérito tem sido substituído pelas cunhas para os melhores empregos. Quanto eu prezaria terminar com uma mensagem de esperança, mas isso seria trair a minha própria consciência. Os órgãos tutelares da Educação que o façam. Ou melhor, que o continuem a fazer, sem rebuço, em prejuízo de um país na cauda da economia europeia, em parte, por culpa de um ensino que, nem sequer, ensina a fazer as simples contas da antiga 4.ª classe da escola primária!
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November 17 2009, 3:10pm | Comments »
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O esforço e a dedicação valem sempre a pena
http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/o-esforco-e-dedicacao-valem-sempre-pena.html
Ana Almeida, a aluna de que se fala no texto Estamos completamente isolados concedeu uma entrevista ao De Rerum Natura. Trata-se, como o leitor poderá perceber, de um depoimento que traz luz, esperança ao nosso panorama de ensino.P: Começo pela pergunta que fiz ao seu colega Afonso, que antes de si, no ano passado, participou no European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, tendo ambos sido premiados: O que significou para a Ana a paticipação neste concurso?R: Mais do que enriquecimento académico e cultural, a participação no concurso trouxe-me um profundo enriquecimento pessoal. Na verdade, desde a intensa preparação do exame nas aulas – com a ajuda dos meus colegas e, especialmente, da incansável minha professora, sem a qual nada disto teria sido possível e a quem estou eternamente grata – até à viagem à Grécia, aprendi muito, vivi muito, senti muito. Foi, no fundo, a prova de que o esforço e a dedicação valem sempre a pena. Especialmente quando se trata de algo que para nós tem significado.Os textos estudados – duas partes dos Memorabilia, de Xenofonte – foram um incentivo maior.Em primeiro lugar, pelo desafio que representavam a nível linguístico, tendo em conta que exigiam um conhecimento superior àquele que nós possuíamos. Sim, foi necessário estudar bastante, investir muito tempo, dar voltas e voltas a pequenos fragmentos de frase, às vezes com uma palavra só… Porém, no fim, quando conseguia decifrar o que estava à minha frente, o sentimento de missão cumprida, o tomar de consciência de que, afinal, era capaz, posso mesmo dizer, o orgulho que sentia em mim própria, compensava todo o suor gasto. Além disso, não posso deixar passar em branco o próprio conteúdo dos textos. Baseados nos valores e princípios da educação na sociedade grega, tiveram, claramente, um teor educativo também, que eu apreendi e que é sempre importante na construção pessoal.Por fim, a viagem à Grécia foi a «cereja em cima do bolo». Foi o reconhecimento e a recompensa objectiva de todo o esforço e empenho dos quais eu já me sentia, no entanto, recompensada. A partilha de experiências com as pessoas que lá conheci, essa é indescritível. Na verdade, significou que não estava sozinha, que não pertencia a um mundo aparte, mas sim a um mundo onde as Clássicas são reconhecidas e valorizadas. Esse sim, foi dos melhores prémios que eu, enquanto pessoa e estudante, pude ter.P: Que lugar têm as Clássicas na sua vida?R: As Clássicas foram uma das descobertas mais importantes que fiz até hoje. Não foram apenas as minhas disciplinas preferidas, foram, acima de tudo, uma aprendizagem fundamental na minha formação como aluna e pessoa. Actualmente, com muita pena minha, não as tenho tão presentes na minha vida pois encontro-me na faculdade, num curso onde não as estudo. Contudo, nunca são esquecidas. Tanto o grego como o latim, transmitiram-me conhecimentos que podem ser aplicáveis todos os dias – a nível de linguagem, de cultura e de valores; porque, mais do que regras gramaticais e traduções, trata-se do estudo de uma sociedade na qual assenta a nossa e cujos hábitos, organização social, crenças e princípios – todos eles intemporais - são a base que hoje nos sustem. As Clássicas têm uma beleza intrínseca que apenas pode ser reconhecida quando são estudadas e quem as estuda por gosto, sente essa mesma beleza e jamais a esquece. É por isso que, de uma forma ou de outra, sei que me acompanharão sempre ao longo do meu percurso.
November 6 2009, 2:39am | Comments »
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“Quer isto dizer que não há diferenças?"
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/quer-isto-dizer-que-nao-ha-diferencas.html
“… soluções que poderiam realmente mudar o desolador sistema educativo que temos, os dois grandes partidos nada dizem, fogem dos riscos como da pólvora.”António Barreto, 2005.Mais fundamentada do que a minha opinião acerca daquilo que entendo ser um acordo tácito entre a sociedade e os partidos políticos no que respeita às opções e funcionamento do sistema de ensino, é a de António Barreto.Em 13 de Fevereiro de 2005, saia no jornal Público um artigo deste sociólogo, fruto duma acutilante análise comparativa que fez das intenções governativas para a educação constantes nos programas eleitorais dos diversos partidos.Enquadra deste modo o assunto:“É impossível saber quantos eleitores terão lido um programa eleitoral por inteiro. Não creio que tenham sido mil. Muito menos quantos os tenham lido todos ou em grande parte, a fim de comparar. Umas dezenas, talvez. Esses livrinhos, cujo volume oscila entre 130 e 185 páginas de escrita compacta, têm tiragens de poucos milhares de exemplares, talvez apenas umas largas centenas. Áridos, os textos servem mais para garantir que existe um programa do que para comprometer. Neles se promete tudo e nada e o seu contrário, mundos e fundos, a felicidade e a fortuna. Nunca, que se saiba, um partido fez as contas e verificou, no fim da sua elaboração, quanto custaria fazer "aquilo". Nem sabem onde ir buscar os meios financeiros, materiais, técnicos e humanos para dar conta do recado. De qualquer maneira, não é isso que interessa. O partido que ganhar as eleições faz depois um programa de governo assaz diferente do eleitoral: com realismo, baixará os decibéis das suas disparatadas proclamações. Quando chegar a vez do orçamento de Estado, então sim, o partido do governo descerá sobre terra. Todos conhecemos o resto da história.”No que respeita, em concreto, aos programas para a educação, que “constituem desenvolvido capítulo desta literatura”, encontrou as seguintes semelhanças:“Tudo somado (educação, desporto escolar, ciência, acção social, juventude e cultura), variam entre 25 e 45 páginas. Todos estão preocupados, garantem que a educação é essencial e prioritária e prometem obras mirabolantes. Deixo de lado o mau português, a linguagem de pedra e o tom redentor. Têm de comum e sem excepção os grandes objectivos: combater o insucesso e o abandono, formar a juventude, aumentar a população do secundário e do superior, aumentar o número de professores, expandir a rede escolar, aumentar as bolsas e os subsídios, desenvolver a formação profissional, multiplicar os laboratórios dedicados à ciência, investir nas novas tecnologias, alargar o pré-escolar, apoiar os deficientes, integrar os imigrados, retomar a educação e a alfabetização de adultos, abrir as escolas e as universidades à noite, estabelecer a escolaridade obrigatória de 12 anos, manter todos os jovens até aos dezoito anos na escola, prestar atenção ao português e à matemática, introduzir o inglês no primeiro ou no terceiro do básico, aumentar a carga horária dos alunos, aperfeiçoar o sistema de colocação de professores e estabilizar o corpo docente das escolas. Para a totalidade destes objectivos, não dizem quanto custa, quanto tempo demora, com que metas, com quem nem como (…).”Mas, pergunta, o investigador: “Quer isto dizer que não há diferenças? Que são todos iguais?”. E, responde:“Não. Essa foi, devo confessar, a minha surpresa. Explícita ou disfarçadamente, os partidos mostram as suas convicções políticas, ideológicas e doutrinárias. Esta é a melhor parte dos programas. Ao menos, aí, estão a falar a sério. Os programas dos três pequenos são os mais conseguidos, isto é, mais claramente comprometidos com um modelo e uma filosofia política. O do Bloco de Esquerda é caro, radical, subversivo, com pulsão totalitária, uniformizador, politicamente correcto, virtuoso, moderno, fracturante e multicultural. O do PCP é caro, nacionalista, burocrático, de inspiração soviética, obsoleto, conservador, demagógico, unificado e dirigista. Ambos pretendem descaradamente liquidar os sectores privados, prometendo ao mesmo tempo doze a catorze anos de escolaridade universal e gratuita, além de todo o ensino superior igualmente gratuito. O do CDS é caro, reaccionário, vago, repressivo, socialmente desigual e de prioridade absoluta ao sector privado. Promete que a intervenção pública deva ser apenas subsidiária e confia sobretudo no aumento das cargas horárias, na certeza de que deve haver exames nacionais quatro vezes em doze anos, além de provas nacionais de aferição todos os anos.”Mas, é no passo que se segue que nos devemos deter se queremos compreender o estado da nossa educação:“Os programas dos dois grandes são menos interessantes, mas merecem mais atenção. São mais parecidos. Mais próximos do que existe actualmente, isto é, mais imobilistas e menos propensos a correr riscos de ruptura. Mais caros, muito mais caros ainda. Mais confusos na doutrina, dado que querem tudo e não parecem capazes de escolher. Finalmente, é de um destes que sairá o futuro governo e respectivo ministro (…).O PSD quer fazer coexistir o público e o privado, com preferência para o privado, sem atentar contra o público. O PS quer fazer coexistir o privado e o público, com preferência para o público, sem atentar contra o privado. Ambos desejam mais participação das autarquias, dos interesses e das famílias na gestão das escolas, sem no entanto prever as respectivas responsabilidades. Mas enquanto o PS se deixa encantar pela desastrada "gestão democrática" actual, no que se junta ao PCP e ao Bloco, já o PSD abre as portas aos gestores profissionais para as escolas, sem, todavia, dizer como e quando o fará. Quanto à colocação de professores, surpresa das surpresas, o PS declara-se disponível a fazer experiências de descentralização. No que toca ao recrutamento de professores, nenhum dos dois retira as devidas lições das crises recentes e não abdicam da colocação feita nacionalmente. O PSD pretende manter alguma diferença entre universidades e politécnicos, deixando que uma espécie de colaboração avance e, a prazo, destrua as diferenças; mas o PS é mais desastrado e defende a aproximação entre umas e outros (…). O PSD é vago no governo das universidades, mas diz procurar novas vias de gestão e responsabilidade. Pelo seu lado, o PS defende, no essencial, o actual sistema dito de gestão democrática, com órgãos eleitos, participação intensa de estudantes e demagogia a jorros. Onde o do PSD é vago e equívoco, o do PS é oportunista e tenta agradar a toda a gente: professores, pais, alunos, autarquias, interesses económicos, sector privado e sector público.”Nesta última frase sintetiza António Barreto o nosso drama: dispensarmos a razão quando tomamos decisões para a educação, menosprezarmos a investigação científica sobre a aprendizagem e o ensino (ou só usarmos a que serve os nossos propósitos), relativizarmos as reflexões filosóficas credíveis acerca do sentido do educar. Isto tudo em favor de vacuidades e, sobretudo, do contento imediato.
July 19 2009, 9:26am | Comments »
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João Marques passando os olhos por... dererummundi.blogspot.com
Poderia o nosso Ministério da Educação ser diferente?
http://dererummundi.blogspot.com/2009/07/poderia-o-nosso-ministerio-da-educacao.html
Uma leitora do De Rerum Natura deixou um comentário crítico a um texto que antes publiquei, onde questionava algo da política do Ministério da Educação. Subentendido nas suas palavras estava a ideia de que eu, tal como muitas outras pessoas, rejeito qualquer responsabilidade no (mau) estado da educação, imputando-o directa e linearmente aos decisores políticos.Tentarei esclarecer, neste texto, que essa está longe de ser de ser a minha posição. O que penso do assunto é muito mais preocupante.Caso eu considerasse que os males da educação decorrem desta ou daquela equipa governamental, teria a esperança de que, quando ela fosse substituída, algo mudaria, eventualmente para melhor.Porém, ao fazer um balanço dos tempos mais recentes, percebo que, com oscilações menores, as medidas da tutela e as práticas que delas decorrem, não obstante o ar de inovação e o aparato com que são apresentadas, têm mantido uma constância perturbadora naquilo que é essencial: a aprendizagem dos alunosE porque é que, apesar das divergências, que os partidos mais à esquerda e mais à direita tendem a dizer ou a fazer o mesmo?Porque, entendo eu, eles sabem que o que dizem e fazem é o que, como sociedade, de facto, pensamos e queremos.Que partido teria coragem de defender que o ensino, mais do que respeitar os interesses e necessidades dos alunos ao ponto de os tomar como metas educativas, deve modificá-los no sentido daquilo que é tomado por educação desejável; que a aprendizagem direccionada (só) para o quotidiano social, cultural, étnico dos alunos, descuidando as suas potencialidades cognitivas, empobrece-os intelectualmente; que a aprendizagem cooperativa, de projecto, de pesquisa não pode nem deve substituir o ensino estruturado; que não há garantias que as tecnologias da informação e da comunicação constituam uma grande ou pequena revolução pedagógica; que, por princípio, os encarregados de educação e pais não se devem pronunciar em matéria de ensino formal, pois este constitui uma actividade técnica que só os professores dominam com a competência de especialistas; que as actividades lúdicas e as actividades formais devem estar devidamente separadas e sequenciadas no espaço e tempo escolares; que a noção de escola inclusiva levanta as maiores dúvidas, em termos de desenvolvimento daqueles que mais dificuldades têm; que as crianças e jovens não devem, em circunstância alguma, avaliar os professores; que a escola a tempo inteiro acarreta problemas dos quais ainda mal conhecemos os contornos, que as câmaras de vigilância nos recreios, em substituição de pessoas, não educam; que o conhecimento tem valor e que a escola não o deve dispensar, aligeirar em nome seja do que for; que todos os sujeitos têm direito a uma educação elitista, mesmo aqueles que seguem vias profissionalizantes; etc, etc, etc.Trata-se, sabe-se lá porquê, de ideias impopulares, de crenças que se desviam perigosamente do politicamente correcto, esse modo de pensar que caracteriza o momento que atravessamos e que é um momento “soft”, “relativista”, da opinião fácil, da mobilização em função de conveniências próprias, um momento onde ideal se toma por real, o desejado por possível.Do que afirmei até aqui se deduz que considero sermos todos responsáveis por esse estado em que percebemos que a educação se encontra e que nos faz interrogar a capacidade de educarmos as novas gerações. Percepção que se agudiza sobretudo em períodos de avaliação internacional e nacional, que nos faz escrever abundantemente em jornais e blogues e falar em programas de televisão e rádio, na certeza de que, em breve, tudo volta a ser como era.Quando digo que todos somos responsáveis penso, aleatoriamente, em encarregados de educação e pais, professores, autarcas, formadores de professores, “cientistas da educação” (sim, também me incluo), protectores de menores, programadores do ensino, directores de escolas, pessoas com interesses económicos… e, claro, os políticos…Nesta amálgama social faço, porém, uma diferença entre aqueles que supõem que estão a pensar e a agir para o bem, e aqueles (será que os há?) a quem convém manter, sem dar a perceber, um amável nível de ignorância.Mais grave é perceber que o que acima referi não se restringe às nossas fronteiras. Se lermos autores que deitam um olhar atento para as políticas de ensino dos seus países - espanhola, inglesa, francesa, alemã… - encontramos o mesmo cenário… que D. Schwanitz sintetizou em meia dúzia de palavras bastantes azedas: “em poucas áreas se mente tanto como na política educacional e escolar”. E mente-se porque, definitivamente, ninguém quer saber a verdade.Livro referido: Schwanitz, D. (2004). Cultura: Tudo o que é preciso saber. Lisboa: Dom Quixote, páginas 25-30.
July 18 2009, 11:09am | Comments »



