Artigo escrito em colaboração com António José Leonardo e Décio Ruivo Martins e parte de um trabalho maior sobre a história da telegrafia eléctrica em Portugal vista nas páginas de "O Instituto", jornal da Academia coimbrã (na foto os aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho):A telegrafia sem fios (TSF) interessou bastante os sócios do Instituto de Coimbra (IC), Academia ligada à Universidade de Coimbra, na viragem do século XIX para o XX. Os avanços efectuados na TSF, pelo sistema do italiano Gugliemo Marconi (1874-1937) mereceram particular atenção ao Professor Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), catedrático da Faculdade de Filosofia (a Faculdade de Ciências só surgiria com a República) e sócio do IC, que publicou em 1903 um artigo em várias partes intitulado Os fenómenos e as disposições experimentais de telegrafia sem fios. A actividade deste académico abrangeu as mais diversas áreas da ciência. Licenciou-se em Matemática em 1895 com uma dissertação sobre geóides, abordando no acto de conclusões magnas a equação de Laplace; a sua dissertação de licenciatura em Filosofia, dois anos depois, teve como tema os Índices cefálicos dos portugueses e, no acto de conclusões magnas, abordou os Raios X de Roentgen. Tendo-se doutorado pelas Faculdades de Filosofia e Matemática, concorreu no mesmo ano ao magistério superior com um trabalho sobre a Teoria da dissociação electrolítica. Em 1902, foi nomeado lente catedrático de Mineralogia e, no ano seguinte, assumiu a docência da cadeira de Química Orgânica até 1906, quando iniciou o ensino de Química Analítica, que manteve até à morte. Foi Director do Laboratório de Química em 1911, ano em que foi encarregue pela sua Faculdade efectuar uma viagem científica a várias escolas europeias.No seu artigo de 1903 em O Instituto Silva Basto descrevia sistemas de telegrafia por indução electromagnética. Referiu-se aí à inovação de Marconi para aumentar a distância de transmissão: a substituição das lâminas metálicas por um fio vertical, com a extremidade inferior ligada ao solo (antena). A capacidade de recepção do sinal estava intimamente dependente das características de uma peça chamada coesor de Branly, nomeadamente do seu tamanho, da pressão a que estava sujeita a limalha, dos metais usados, etc. Este foi sofrendo sucessivas alterações e aperfeiçoamentos, surgindo um tipo de coesores que não necessitavam de pancada para regressarem ao estado inicial, contando para isso com uma pequena gota de mercúrio que dilatava, quando electrizada pela radiação, e regressava ao tamanho inicial logo que a carga eléctrica se descarregasse por contacto nos eléctrodos.Um português esteve envolvido nesta tarefa, desenvolvendo uma melhoria do aparelho de Branly (do nome do físico francês Édouard Branly, 1844-1940), que patenteou em 30 de Junho de 1900. Tratou-se do Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959), que ficaria conhecido pela primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922, com Sacadura Cabral. Este militar e sócio do IC sempre foi um apaixonado pela ciência, tendo sido incluído por Sousa Viterbo na sua lista de inventores portugueses publicada n’ O Instituto em 1902. Contudo, Gago Coutinho não obteve prioridade na sua invenção. Uma notícia do Diário de Notícias de 19 de Março de 1902 descrevia um novo aparelho, exposto nas páginas da Nature, em que Branly substituía a limalha do seu dispositivo original por contactos de agulhas de aço, cujos vestígios invisíveis de oxidação são suficientes para impedirem a passagem de corrente eléctrica, o que se assemelhava muito ao rádio-condutor de Gago Coutinho, constituído por uma agulha de cozer e um alfinete de ouro e também muito sensível às ondulações eléctricas. Outros detectores foram sendo desenvolvidos, mas a invenção da válvula viria a traduzir-se no maior avanço tecnológico da TSF nas primeiras décadas do século XX.Embora os avanços da TSF tenham aumentado muito o seu alcance (nem os obstáculos e elevações do terreno, nem as condições meteorológicas afectavam a propagação das ondas transmissoras), este ainda tinha vozes críticas que referiam os problemas da sintonização entre emissor e receptor. Alguns detractores do sistema de Marconi geraram, no final do século XIX, o boato de que este seria capaz de, com os seus emissores, detonar paióis de navios. Um outro professor de Coimbra, Vellado Pereira da Fonseca (1873-1903), esclareceu na sua tese de 1897, na qual abordou várias questões da TSF, que esta situação só seria possível se um ressoador, afinado com o excitador, fizesse parte do material embarcado.Silva Basto concluía o seu artigo revelando os últimos resultados e objectivos da TSF. Referiu-se os recentes sucessos de Marconi, nomeadamente a generalização das transmissões transatlânticas entre a estação de Poldhu na Irlanda, e o cabo bretão da Nova Escócia na América, depois do primeiro ensaio realizado em 1901, e a recepção de despachos por Marconi na sua viagem no navio Carlos Alberto, em Agosto de 1902, a que não pôde responder em face do pequeno alcance do emissor instalado no barco. Descreveu também um problema ainda sem solução, que era o aparente efeito prejudicial da luz diurna na transmissão, que era mais eficiente durante a noite. Foi preciso esperar vinte anos para desvendar o mistério: não era a luz do dia a afectar as transmissões, mas sim a reflexão das ondas curtas na ionosfera.Silva Basto não era um grande adepto da TSF, não a vendo como uma ameaça à telegrafia com fios, embora reconhecendo o seu valor nas circunstâncias em que a última não era aplicável, nomeadamente à comunicação entre dois navios e entre um navio e a costa. Seriam preciso esperar alguns anos para o uso desta tecnologia no salvamento de vidas no mar, como aconteceu no naufrágio do Titanic na noite de 14 de Abril de 1912.Em Portugal, as primeiras experiências de TSF foram realizadas em Março de 1901, decretando o governo, em 23 de Maio desse ano, o monopólio do estado dos sistemas classificados como telegrafia hertziana, telegrafia etérea ou semelhante. A primeira estação portuguesa de radiotelegrafia iniciou o serviço a 16 de Fevereiro de 1910 no Arsenal da Marinha. A utilização dos aparelhos de Marconi justificou a primeira visita feita pelo físico e empresário italiano ao nosso país, a 22 de Maio de 1912, que coincidiu com a assinatura de um contrato entre o governo português e a sua empresa para instalar postos radiotelegráficos em Portugal e Cabo Verde, e para realizar uma conferência na Sociedade de Geografia. Foi recebido pelo então presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, Bernardino Machado (1851-1944), um professor também ligado ao IC, do qual foi presidente entre 1896 e 1908, e mais tarde Presidente da República. Marconi, Prémio Nobel da Física de 1909, haveria de regressar a Portugal mais duas vezes, em 1920 e em 1929.
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A TSF E O INSTITUTO DE COIMBRA
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October 30 2008, 6:38pm | Comments »
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Mac Hitchcock
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Genialidade tipo ovo de Colombo.
Pilhado (com um Mac) daqui.
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October 30 2008, 3:42am | Comments »
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Mapa interactivo: jornais americanos maioritariamente com Obama
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Este é um excelente exemplo de como um simples mashup, ou mistura, de dados dispersos, compilados e apresentados em cima de um mapa, dá uma dimensão de compreensão instantânea a um assunto complexo. O mapa interactivo abaixo foi produzido pela 10.000 Words — uma publicação em formato blog da autoria de Mark S. Luckie, um jornalista de imprensa que descobriu que o seu hóbi, o multimedia, e a sua paixão pelo jornalismo podiam ser combinados com grande efeito. Mark coleccionou os anúncios de apoio feitos pelos jornais americanos a um dos candidatos à presidência dos Estados Unidos da América e em seguida colou-os em cima de um mapa da Google, usando as ferramentas acessíveis a qualquer pessoa sem aptidões informáticas especiais. A distribuição geográfica colada num mapa permite ver a “big picture” num só olhar. Acresce a informação instantânea fornecida pela cor — é só olhar para o mapa para perceber que Obama tem muito mais apoio na Imprensa que McCain. E o complemento, para quem o desejar: clicar em cima de cada “alfinete” dá acesso imediato ao nome do jornal, com um link para o editorial onde foi assumido o apoio ao candidato. Um exemplo de bom jornalismo online e um espectáculo.
Clique na imagem para aceder ao mapa Paulo Querido, jornalista
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October 28 2008, 3:00am | Comments »
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É o lucro, estúpido
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O problema das majors discográficas com a Internet foi sempre e só um: o lucro. Ao longo destes últimos 10 anos toda e qualquer menção à “pirataria” e aos “downloads” “ilegais” explorou a arte dos músicos e a sua reputação — com a agravante de neste caso não lhes pagar merchandising ou direitos de utilização da imagem, que é o que estavam a fazer invocando-os. A verdade é esta: há cada vez mais música no ar e cada vez mais músicos têm audiências cada vez maiores. A única coisa que encolhe é o lucro das majors. Elas e a sua gestão são o problema. Foram sempre. Na Internet está a solução. Esteve sempre. À medida que se vai sabendo o que a indústria discográfica teve o cuidado de omitir na sua propaganda, vai ficando claro um dos retratos dessa mistificação do século XX: os direitos de “autor”.
October 27 2008, 8:41am | Comments »
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Cantemos
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Divulgamos a última crónica de José Luís Pio de Abreu no "Destak":A Islândia afundou-se na sua riqueza, os trezentos mil habitantes que viviam dos rendimentos têm de se dedicar de novo à pesca, conforme indicou o primeiro-ministro. O país modelo dos ultra-liberais Friedman e von Hayek recebe agora a esmolada ajuda do Fundo Monetário Internacional. E nós, portugueses, o que fazemos?A Lehman Brothers deu o sinal de que o dinheiro virtual já nada valia, permitindo entretanto que os seus altos gestores arrecadassem centenas de milhões em moeda. Os outros talvez sejam salvos pelos contribuintes norte-americanos porque George W. Bush se tornou generoso e intervencionista, mandando às urtigas as ideias liberais dos republicanos. E nós, portugueses, o que fazemos?Toda a Europa virou social-democrata, prontificando-se a nacionalizar bancos e indústrias estratégicas. Durão Barroso, Sarkozy, Merkel, Berlusconi, são agora os paladinos da economia de esquerda. E nós, portugueses, o que fazemos?Por todo o mundo, as bolsas descem teimosamente. Os predadores de empresas baratas andam por aí a salivar, mas ninguém sabe ao certo o que virá a seguir. E nós, portugueses, o que fazemos?– Nós, portugueses, cantamos o Magalhães.J. L. Pio Abreu
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October 26 2008, 5:44pm | Comments »
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Banda desenhada faça você mesmo
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Os webservices que nos ajudam a produzir peças de diferentes artes, mesmo que nada saibamos do ofício, são dos mais curiosos que a web proporciona. O que encontrei recentemente permite a qualquer pessoa produzir as suas próprias tiras de banda desenhada, com um aspecto óptimo. Bastaram-me 15 minutos em MakeBeliefsComix para produzir a tira que aqui apresento, com dois personagens em 3 quadros. O site disponibiliza 15 personagens, a maioria dos quais com quatro expressões diferentes, escolha entre 2, 3 ou 4 quadros, 5 fundos e diversos balões de fala e pensamento. Ninguém me confundirá com um profissional de banda desenhada, mas que é mais uma maneira diferente de contar as minhas histórias, lá isso é. “Adeus, mundo… Olá, mundo!” por pTd
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October 26 2008, 10:12am | Comments »
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New Business Models for News Summit, em directo no Certamente
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Em directo de Nova Iorque, eis a New Business Models for News Summit. A transmissão está a ser feita de forma distribuída por diversos pontos, entre os quais Certamente!. É também seguida e comentada em directo via Twitter.
Se os jornais, rádios e televisões de Portugal não põem os olhos nisto (na conferência tanto quanto na inovadora forma de a distribuir mundialmente a custos baixíssimos), põem os olhos onde? (Convém, já agora, ler o que pensa Dave Winner da conferência. Uma dúvida da qual eu também partilho. Duvido que esta conferência sirva para os editores e responsáveis verem a luz. Continuam a fazer perguntas na direcção errada. Mas louve-se o esforço de Jeff Jarvis…)
October 23 2008, 8:12am | Comments »
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A polémica sobre computadores nas escolas
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Novo post de Rui Baptista (no vídeo um dos "sketch" dos Gato Fedorento sobre o computador "Magalhães", que, ao que consta, também irá para escolas da Venezuela e do Brasil):A polémica sobre o “Magalhães” está longe de ter chegado ao fim. Todos os dias são publicados estudos sobre a utilização dos computadores na escola. No meu último post, “Magalhães e Obesidade”, debrucei-me, apenas, sobre o uso desta tecnologia em crianças do 1.º ciclo do ensino básico (antiga instrução primária), tendo apresentado estudos nacionais e estrangeiros que suportam os seus malefícios no desencadear e agravamento da obesidade.Embora este post dissesse apenas respeito ao assunto do respectivo título, num dos comentários foi levantado o seguinte ponto: “Estou a perder dotes de ortografia com os correctores automáticos (…)”. Pelo seu interesse, mereceu-me a seguinte resposta: ”Falemos, então, do corrector de texto. Numa perspectiva hedonística de ensino tem vantagem evidente sobre os maçadores ditados do meu tempo de escola primária. Mas como é hábito dizer-se, o que arde cura. Fazendo a transferência para a aprendizagem quando ela é feita com esforço perdura; o que se aprende facilmente entra por um ouvido e sai por outro”.Neste mesmo blogue já perspectivei outras questões, de natureza cognitiva, num post intitulado “A entrega de portáteis na escola”. Nessa altura, não se tratava da “oferta” de “Magalhães” a alunos 1.º ciclo do ensino básico, mas de computadores mais sofisticados a estudantes do ensino secundário a preço de saldo e com idêntica pompa e circunstância da presença do “staff” governamental. Sobre o perigo do uso dos computadores, escrevi o seguinte: “Pesquisar na Net pode ser uma arma de dois gumes: pode pesquisar-se o que se deve e o que não se deve, pondo nas mãos dos jovens essa triagem e essa responsabilidade num período da vida escolar deveras perigoso porque marca a transição de um ensino básico permissivo para um ensino secundário que se tem sabido manter firme no seu exigente papel de antecâmara do ensino superior”.Segundo uma notícia da Agência Lusa, de 17 de Outubro deste ano, foi divulgado um estudo que envolveu mais de 500 crianças e encarregados de educação de escolas da Grande Lisboa, apresentado na “II Conferência Anual da Entidade Reguladora Para a Comunicação Social”, decorrida em Lisboa. Segundo ele: “11,1% dos jovens inquiridos confessaram que usam a Internet para visitar sites pornográficos”. Entretanto, também aí é acrescentado que “84,1% dos pais acredita que os filhos o fazem para procurar informação”...Os resultados deste estudo são reforçados por um outro, revelado em Setembro deste ano, e intitulado “Projecto Kids Online”, que informa que “Portugal, é a par da Polónia, o único em 21 países europeus onde os pais portugueses menos conhecem o que os seus filhos fazem on-line”.Mas há mais. Assim, recordo o que escrevi sobre a entrega de portáteis na escola: “As horas que deviam ser dedicadas ao estudo correm o risco de se transformarem em ‘conversas da treta, com os colegas”. Confirma-nos agora o último estudo: “Na utilização da Internet, as crianças respondem que o fazem para conversar ou descarregar música (…)”.Penso que ambos, o estudo da Grande Lisboa e o do “Projecto Kids Online”, podem servir de tira-teimas à acalorada polémica sobre computadores no ensino. E julgo que a procissão ainda vai no adro da igreja...
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October 21 2008, 3:58pm | Comments »
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ARTE ISLÂMICA
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/arte-islmica.html
Clicar aqui para descobrir a arte islâmica, onde a ciência por vezes também aparece (na foto padrões geométricos em pano árabe dos séculos XIV-XV, do Victoria and Albert Museum de Londres). A organização deste museu virtual é dos "Museus sem Fronteira", que procuram em colaborações internacionais fazer museus temáticos. A seguir aos árabes será a vez do barroco...
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October 20 2008, 12:59pm | Comments »
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21th Century Learning Matters?
http://dererummundi.blogspot.com/2008/10/21th-century-learning-matters.html
Novo post convidado de Norberto Pires, director da revista "Robótica". Este texto será o editorial do número de Novembro da revista e agradecemos ao autor colocá-lo à disposição dos nossos leitores (as referências [1], [2] e [5] são os vídeos intercalados no texto):Este mundo focado no curto prazo e numa ideia muito particular de sucesso e felicidade tem coisas perversas. A aversão pela reflexão, pela ponderação, pelo raciocínio estratégico baseado em objectivos de longo prazo tem, como não podia deixar de ser, consequências muito complicadas. As pessoas só se apercebem disso quando acontece um desastre e afinal se conclui que a auto-regulação não funciona e que é necessária uma regulação responsável (ou seja, com regras claras), que permita um desenvolvimento sustentado (verdadeiro suporte da liberdade e da democracia): passo-a-passo, sem cortar etapas, só passando para o degrau seguinte quando o anterior está sólido. O curto prazo não permite isso, porque são necessários resultados imediatos, é preciso vender ilusões e mostrar números. Para descobrir, anos depois, que afinal era tudo muito frágil ao observar horrorizados como tudo se desmorona com uma simples brisa.Agora existe a aprendizagem do século XXI [1], invariavelmente reduzida a tecnologia (e portanto incapaz de se adaptar à mudança da nossa forma de viver [5]), (com "slogan" e tudo: “21th Century Learning Matters”), que diz, sem nenhum problema, de consciência ou outro, que a aprendizagem baseada nos três R (Reading, wRiting and aRithmetic), que colocava o foco inicial no domínio dessas competências (que não são skills, segundo esses educadores do novo milénio: isso das skills é mais high-tech, mais 21th century) está ultrapassada (destinava-se a um mundo repetitivo, onde as pessoas não tinham ambições, acomodavam-se, etc., a boring world), com argumentos high-tech e cheios de palavras bonitas e imagens muito atractivas como: skills, Internet, global, community, designing, creating new products, information, data analysis, aggregation, problem solving, information synthesis, in 2007 we produced more words than in the entire human history…, tudo com muitos blip-blip, data-flows e jobs of the future that we are unable to imagine yet, bem misturado e apresentado. :-(Claro que depois os alunos avançam e não são capazes de uma conta simples sem o auxílio de uma máquina de calcular, pensam que tudo é possível pois não conhecem as regras básicas do cálculo e da aritmética, não sabem ler (muito menos interpretar um texto), não sabem escrever uma simples frase sem vários erros de ortografia e, mais importante do que isso, sem uma sequência lógica (é preciso ler e reler várias vezes o mesmo texto, e recorrer a muita imaginação, para perceber o que eles querem dizer). Alunos cada vez mais excluídos, sem o saberem, neste mundo global onde o foco está cada vez mais no conhecimento.Existem razões para isso tudo [2], como existem nos EUA de onde andamos a importar estas "revoluções tecnológicas" (que, invariavelmente, apontam para a importação de tecnologia e software dos nossos amigos, partners, como se diz no mundo do 21th century learning matters, que nos "ajudam" nestas “revoluções”).Depois irão verificar, daqui a alguns anos, que a aprendizagem se faz por etapas, passo-a-passo, consolidando conhecimentos, com o tempo que as coisas normalmente levam, utilizando as ferramentas de forma responsável e gradual (ou seja, na justa medida em que são úteis ao processo de aprendizagem e ao incentivo que podem constituir), porque o objectivo é de longo prazo e não se (deve) mistura(r) com "marketing" e ruído mediático.Vejam, por exemplo, o que os nossos líderes, nacionais e internacionais, diziam há poucos meses do actual sistema financeiro e do mercado. Como falavam da regulação. Ouvi um deles, há uns meses numa conferência, grande "economista dos comentários online", dizer que havia um “excesso de regulação, que isso impedia o dinamismo das empresas porque tinham de explicar tudo à CMVM, mesmo a mais pequena decisão. E isso retira agilidade às empresas…”. Ouvi-o há dias de novo, sem o mínimo de vergonha mas com a mesma arrogância, a dizer exactamente o contrário, que “isto (a crise financeira) demonstrou que os mecanismos de regulação não funcionaram e eram demasiado incipientes”. Senti um arrepio. Imaginei os nossos "líderes" a dizerem-nos, dentro de anos, que infelizmente o caminho seguido foi um erro (mais uma experiência falhada) e que afinal saber a tabuada, saber ler, gostar de ler (o que se incentiva, colocando o foco na reflexão), utilizar métodos tradicionais de aprender aritmética, aprender e experimentar conceitos elementares de ciência e tecnologia, aprender música, incentivar o gosto por várias manifestações de arte, o gosto pela pesquisa e pelo pensamento original e criativo, incentivar o empreendedorismo e o risco, etc., é fundamental para as gerações do século XXI, é fundamental para aquilo que elas vão fazer, na sua vida do dia-a-dia. No fundo é isso que temos de lhes mostrar, para que não se sintam perdidos e encarem o futuro com optimismo e confiança.Alguns pensam que isto se faz com tecnologia. Alguns pensam que isto se faz só com tecnologia. Alguns pensam que a tecnologia tem alguma coisa a ver com isto [5]. Irão concluir que estão enganados. Só que no processo várias gerações sofrerão as consequências. Se calhar a geração dos nossos filhos (o que nos deixa um particular aperto no coração), mas de certeza as do nosso futuro próximo...Nota final: Ah! Os defensores do “21th Century Learning Matters” fazem inquéritos, e concluem coisas extraordinárias. Vejam só o inquérito de 2008 [3, 4]. Onde se podem ler coisas destas:"What's more, there seems to be a disconnect between what students want from their own education and what the adults in charge think is best.According to the survey, students' frustration with school filters and firewalls has grown since 2003, with 45 percent of middle and high school students now saying that these tools designed to protect them inhibit their learning. And 40 percent of students in grades six through 12 cite their teacher as an obstacle to their use of technology in school.As one high school student in a recent focus group told Project Tomorrow, his vision for the ultimate school is one where the teachers and the principal actively seek and regularly include the ideas of students in discussions and planning for all aspects of education -- not just technology."This is our future, after all," said the student. "Our ideas should count, too."Estão a ouvir os Pink-Floyd?“We don’t need no education.We don’t need no thought control.No dark sarcasm in the classroom.TEACHERS!! Leave them kids ALONE.”Eu adicionaria uma versão “21th Century Learning Matters" de "Another Brick in the Wall”:“We don’t need no education.We don’t need no FIREWALLS and RULES.Kids need to play GLOBALLY with other kids.TEACHERS!! This world is JUST a computer game!”Dá que pensar, não é?J. Norberto Pires Links na Web:[1] 21th Century Learning Matters: aqui[2] Math Education: The Inconvenient Truth: aqui[3] Students Want More Use of Gaming Technology in Schools: aqui[4] Project Tomorrow: National Speak Up Survey: aqui[5] A Vision of Students Today: aqui
October 19 2008, 5:20pm | Comments »






