O objectivo da administração burocrática e centralizada "não é a máxima adequação das decisões, mas uma adequação média ou o mínimo de desadequação" (Formosinho, 1999:15) e o instrumento indispensável à uniformidade (valor burocrático por excelência) é a pedagogia óptima, baseada, à boa maneira tayloriana, na crença de que há sempre the one best way para fazer as coisas, e consubstanciada no currículo centralizado e uniforme pronto-a-vestir de tamanho único (Formosinho, 1987 e 1992), que arrasta uma pedagogia uniforme - mesmos conteúdos, mesma extensão dos programas e limites estreitos para o ritmo de implementação, grelha horária semanal uniforme, cargas horárias determinadas por disciplina -, permitindo, em casos determinados, a substituição do tamanho único por tamanhos estandardizados para diferentes grupos sociais com a diferenciação das vias de ensino ou a elaboração de currículos alternativos ou simplesmente adaptações curriculares para alunos que fogem à "norma" escolar.Tomando como referência o currículo, João Formosinho exemplificava, em 1984, o centralismo do sistema educativo português:"A administração central decide não só que disciplinas vão ser leccionadas em cada ano e o tempo dedicado a cada uma, mas também como esse tempo vai ser usado - se em quatro aulas de uma hora ou em duas aulas de duas horas, por exemplo. A pedagogia proposta é, assim, uma pedagogia burocrática, pois elabora normas pedagógicas de aplicação universal e impessoal, como é característico das normas burocráticas. Parte-se do princípio que todas as crianças, independentemente dos seus interesses, necessidades e aptidões, experiência escolar e rendimento académico nas diversas disciplinas, terão de se sujeitar simultaneamente às mesmas disciplinas durante o mesmo período de tempo escolar. Se o aluno tiver grande rendimento a Matemática e pouco a Línguas nem, por isso, pode dedicar mais tempo lectivo a uma que a outra, pois a impessoalidade da norma pedagógica burocrática lho impede. A pedagogia burocrática é ainda burocrática num segundo sentido - na abstracção típica dos preceitos administrativos ela ignora também as capacidades, interesses e formação dos professores, as suas opções pedagógicas e as condições de trabalho na escola. Por exemplo, se o professor optar no ensino da História por um método de inquérito que privilegia a descoberta pessoal, ou por trabalho de projectos (em grupo ou pessoais) ou por aulas com jogos de simulação - tudo métodos activos no ensino da História - dificilmente o conseguirá fazer em aulas de uma hora, que abstracta e impessoalmente foram consideradas as de duração ideal!! (1999:13-14).Na verdade, num sistema centralizado, constitui uma das marcas distintivas da "cultura escolar" o princípio da uniformidade - das normas, dos espaços, dos tempos, dos alunos, dos professores, dos saberes e dos processos de inculcação - que João Barroso (1993:14) exemplifica com a evolução pedagógica do ensino primário público, onde a solução alternativa ao modo individual de ensino passou pela adopção do modo simultâneo (século XVIII) e do modo mútuo (século XIX), cujo processo de racionalização se adequa melhor à revolução industrial.A uniformidade é um conceito essencial a todo o centralismo, que não tolera que as escolas adoptem soluções diferentes para os mesmos problemas básicos. Na verdade, no conceito de uniformidade está implícita a crença de que há sempre a melhor maneira de fazer as coisas (Taylor, 1982), válida independentemente das pessoas, das condições locais e das circunstâncias. E, assim, surge igualmente uma pedagogia óptima que se concretiza num programa óptimo para todos os professores e alunos, uma duração de aula óptima, um tamanho de classe óptimo, uma estrutura da escola óptima, etc., cujas "bases científicas!! foram questionadas desde o início (Barroso, 2001 :76-77), já que a "boa pedagogia deve ter em conta quem a usa, para quem é dirigida e em que condições é usada. Essas bases científicas são substituídas num sistema centralizado pelos juízos de oportunidade dos burocratas centrais que procuram realizar a este nível o já citado princípio da mínima desadequação (Formosinho, 1999:16).Formosinho, João, Machado, Joaquim, Oliveira-Formosinho, Júlia (2010). Formação, Desempenho e Avaliação de Professores. Mangualde: Pedago
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
A "pedagogia óptima"
http://terrear.blogspot.com/2011/02/pedagogia-optima.html
February 2 2011, 1:53pm | Comments »
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João Marques passando os olhos por... terrear.blogspot.com
Os patos preferem a escola (ou a escola prefere os patos)
http://terrear.blogspot.com/2010/04/os-patos-preferem-escola-ou-escola.html
"O TEMPO em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio. Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, A TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam. Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições. O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo, a razão por que estava ali. Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de secções, reuniões de conselho executivo, etc… escolheram o seguinte currículo: Nadar, Correr, Voar, Galgar montes e Saltar obstáculos. Os primeiros alunos foram o Cisne, o Pato, o Coelho e o Gato. Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do mesmo. Faziam, assim jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:· O Cisne, nas aulas de correr, voar e galgar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e desgaste psicológico despendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era o máximo.· O Coelho, por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar se não tinha asas? Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galgava montes.· O Gato tinha problemas idênticos aos do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter êxito. Só que o professor dizia que não podia aceitar essa ideia louca porque não estava contemplado no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.· O Pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem mas muito pior do que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos. Não tinha reprovações a nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas o que o fazia sumamente brilhante nas pautas finais.Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos “atributos”, até fomentaram nele a esperança de um dia, poder vir a ser professor.Os restantes alunos estavam inconformados. Nada tinham contra o pato, gostavam dele, compreendiam o seu grau mínimo de suficiência a todas as disciplinas, mas, perguntavam-se: a espantosa capacidade do Coelho em saltar obstáculos, correr e galgar montes não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA? E o Gato? De nada lhe serviria correr e saltar melhor do que o Pato? E que utilidade teria, para o Cisne, nadar como nenhum outro? Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. A escola, pensavam eles, era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a pô-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de não servirem para nada?Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem no ano seguinte estariam exactamente na mesma situação. Os professores lamentaram muito. Havia um programa, superiormente estabelecido e a questão era só esta: ninguém tinha média igual à do Pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.Os outros alunos abandonaram a escola . Desde então por razões óbvias a escola atrai mais os patos e, na sociedade, são eles que dominam."in Noesis , nº20, Setembro de 1991Transcrição da revista de Manuela Silveira.(com o agradecimento a APS)No tempo em que os animais falavam. No tempo em que a escola, de um modo geral, continua refém dos seus mitos. E que tem de renascer, outra. Valorizando as inteligências e as capacidades de cada um.
April 25 2010, 12:33pm | Comments »
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